domingo, 15 de julho de 2012

"Icaraí", crônica de Ricardo Augusto dos Anjos




Canto do rio de Icaraí, Niterói, RJ. 



Icaraí (1961) 


Fui ontem à praia. Parei na calçada, olhando a mim mesmo, eufórico, entre Wanda, Marly, Eduardo, Ludmila e outros. O sol dourava corpos e colocava em cada coisa a cor adequada. Lentamente, a paisagem ia se formando bem perto do mar, nem verde, nem azul. Dava maior atenção a Wanda, a quem amava e ainda hoje guardo na memória, um tanto triste e amargo.
Da praia até a rua onde Wanda morava, em tempos de verão, o caminho era claro e perfumado pela brisa leve que soprava do mar, carregada de iodo. Isso me alegrava e a ela também. Nossos sentimentos pareciam explodir e as palavras trocadas sonoras e irisadas de amor, de paixão. O diálogo sempre terno conduzia-nos a uma atmosfera de sonhos e impossibilidades. Grande a nossa atração – corpos banhados de sal recente, na livre comunhão com o mar.
“Ricardo, procurei por todos os meios compreender-me primeiro, para fazer uma revelação menos chocante, a fim de evitar prantos. Chorei muito ontem, ao ver o voo lindo das gaivotas sobre omar. Você estava com toda a razão acerca daquele sinal geométrico que você desenhou na areia e que eu apaguei logo com minhas mãos nervosas. Ludmila sabe de nossas angústias. Mais das minhas, talvez. De mim, posso dizer que sou triste-alegre ou alegre-tristonha. Uma boba que sou, é a verdade. Uma coisa: meus olhos nunca mentiram a você. Sei que você exigiu definição. Daí aquele despedir rápido, com muito medo do amor que surgia forte, prenúncio de algo que suspeitava estranho e que em absoluto não merecíamos. Agora, sinto o entardecerde tudo, inclusive de nós. Dormi profundamente e despertei num mundo diferente; sem mar, sem você. Escrevo, porque há séculos você espera uma satisfação de minha parte, tenho certeza. Confesso que escrevo com medo do malque possa causar. Aproveito o momento, pois acho-me lúcida. Lúcida, mas com medo. As crianças estão impossíveis, aguardando o pai. O apartamento é razoável e você nunca deverá me visitar. Um abraço e tchau.  Wanda – PS.: Disse estar lúcida. Puro engano. Meus olhos secaram, Ricardo, mas estão à espreita da primavera”.
Corri ao encontro de mim e bati nos ombros dele. Levava-lhe acarta. Pareceu não me notar.  “Sou eu, sou eu!” – disse-lhe repetidas vezes.
Olhares me consumiam na manhã tropical e surpreendi-me traindo amim mesmo, ao outro que era eu. Wanda percebeu e ficou confusa, a ponto dese denunciar totalmente. Ela adivinhava, naquela hora, todo o futuro e reconhecera o papel que eu trazia, já meio amassado, numa das  mãos. Num gesto silencioso apontou-me Ludmila, que sorriu, cumprimentando-me. “A verdade, amigo, só muito depois”.
Não pude evitar o que estaria por vir. Ele insistia e era feliz. Olhei-os: no mar, deitados na balsa colorida, flutuantes e descontraídos, Wanda e o outro que era eu respiravam fundo, fixando o céu. Lembrei, então, das margens floridas de um caminho que idealizei para nós dois. Mas a realidade sempre me deu socos na boca do estômago. Aliás, o mal-estar era o mesmo que.
Ludmila já revelou o mistério. Nesse momento, regressei a mim na calçada da praia e notei os gritos trágicos que as gaivotas emitem antes do mergulho solitário.





Divulgação Cultural
(Clique na imagem para ampliar)

                                                       

4 comentários:

  1. Emmanuel de Macedo Soares15 de julho de 2012 14:44

    Tenho de agradecer duas vezes a esse blog. Primeiro pelo texto do Ricardo, velho companheiro de muitas batalhas, a quem sugiro que escreva alguma coisa sobre os 50 anos da Editora Engra, um grito de idealismo de um bando de jovens, quando a década que tirou o mundo do velho eixo mal começava a nascer. Segundo por me informar que houve eleição para a diretoria da Academia Fluminense de Letras, da qual sou membro há exatos 37 anos. Não fui comunicado da eleição, que deve ter sido concorridíssima, mas parabenizo o presidente e vice presidente eleitos, cujas consagradas obras literárias aí estão para encantar e embevecer o mundo inteiro.

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  2. Não é ele que é neto do Augusto dos Anjos, o "poeta do carbono e do amoníaco"?!
    Ele escreve melhor que o ancestral!

    Abraços!
    Sônia Lobo

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  3. Que maravilha ler meu querido amigo Ricardo dos Anjos!
    Um abraço . E que frio aí, não? rs
    Belvedere

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  4. Muito bom rever Ricardo. Bons tempos aqueles do Lig. Niterói mudou muito. Pra pior!
    Jorge Luiz- LUCA

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