sexta-feira, 4 de maio de 2012

"Ah, Baudelaire...", conto de Carlos Rosa Moreira



Quem seriam os atuais "atores" da literatura fluminense?
Esta pergunta tem por resposta uma série de nomes que, entre os nativos das terras do estado do Rio de Janeiro e os nela radicados, compõem um caldo literário com o tempero bem ao nosso gosto.
As postagens que se seguirão nesta semana, a contar de hoje, vêm esboçar (ou ainda, ilustrar) as respostas à referida questão. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.



   The big nudes II, (foto de Helmut Newton), Modelo: Kylie Bax


Ah, Baudelaire...                                      
           
                                                                                                                       Carlos Rosa Moreira


“Il faut être toujours ivre, de vin, de poésie ou de vertu... à votre guise”

É isso que você diz há gerações, meu caro; sim, você diz, com o verbo assim mesmo, no presente. E diz mais: diz que mais embriagadora é a poesia, a única capaz de levar o homem ao delírio.
Ah, Baudelaire... Se você conhecesse os olhos de Carmem Lúcia... São poesia pura! São capazes de arrebatar o sujeito virtuoso e enlevá-lo e levá-lo ao mais psicodélico e prazeroso dos delírios, mais do que o melhor vinho pode provocar. Os olhos de Carmem Lúcia... Eles têm uma coisa por trás que atiça a gente. É como se dissessem: ─ Se vier tem, mas é difícil chegar, meu chapa! 
E dizem isso sem agressividade, docemente. São olhos poderosos e doces, isso é que são. Ainda por cima, ocultam uma fragilidadezinha, uma luz que parece pedir proteção. Ah, Baudelaire... Dá uma vontade de pegar!
Acho que já não são muitas as Carmens Lúcia. Estavam em moda nos anos 50 e 60, mas depois se extinguiram. Acredito que todas as Carmens Lúcia têm mais de 40 anos. Essa, a dos olhos, tem quarenta e pouquinhos. Mas que exuberância... Está no auge! Se botar photoshop estraga, tiraria toda a expressão, tudo o que aprendeu em sua vida de mulher, o que a faz mais bonita. Naquelas bem traçadas e quase imperceptíveis linhas desenhadas pelo tempo, veem-se as dores, os prazeres, as tristezas e as alegrias, todas as vibrações que perpassaram sua alma feminina e construíram uma beleza personalíssima.
 Mas não é qualquer um, meu amigo, que vê e sente a poesia. É preciso ser generoso, ter a alma livre e o coração aberto, é preciso ser um pouco poeta. A poesia da qual você fala, esse láudano que pega a gente e conduz ao êxtase, essa poesia que está nas coisas e é poesia sem poema, não é para todos. Só uns felizardos a reconhecem. Meus olhos vertem lágrimas, meu caro Charles, quando percebo a poesia. E a percebo tanto! Mesmo os insensíveis percebem a poesia, embora não saibam disso. E quando sabem não consideram sua própria sensibilidade, repudiam-na.
A poesia está em tantos lugares, coisas, situações... Na chegada de cada estação do ano, numa pintura, num drible com a bola, no sopro carinhoso do vento sobre o mar, nas curvas aéreas e cimentadas do Niemeyer, em algo encantador que nos faz parar a correria em pleno centro da cidade só para contemplar, e sonhar. Existe tanta coisa, não Baudelaire? Você, então, sabe tudo! Só não sabe dos olhos de Carmem Lúcia... E eles virariam sua cabeça e o deixariam bobo e arrebatado como o sujeito cheio de vinho e virtude. Hoje eu desejei viajar delirante nos olhos de Carmem Lúcia. Mas ela teve de ir embora. Então procurei um boteco e tentei me embriagar, mas não deu, eu já estava embriagado. Foi a poesia...






14 comentários:

  1. Gilson Rangel Rolim5 de maio de 2012 10:01

    Roberto.

    Belo e expressivo esse texto do Carlos do Carlos Rosa, Parabéns.

    Abç. Gilson

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  2. A crônica é boa, parabéns ao seu autor. A foto da reportagem é que eu achei indecente.

    Gertude Bezerra de Albuquerque

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    1. Prezada Sra Gertude,

      Respeito seu pudor. Vale, entretanto, aquele adágio latino: “Artem non odit nisi ignarus”.

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  3. O tal Carlos Rosa é um mestre.

    Como escreve bem! Quanta sutileza!

    Parabéns.

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  4. Carlos Rosa e excelente! Curto demais seus textos. Obrigada.
    Bjs
    Belvedere

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  5. Gostei. Tudo muito refinado. Bonito o Carlos Rosa.

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  6. Dalma Nascimento5 de maio de 2012 13:11

    Roberto, ótimo ter reproduzido a excelente página de Carlos Rosa Moreira. Conhecia-a do livro A montanha, o mar, a cidade. Seduziu-me, sobretudo, esta," Ah, Baudelaire!". Um relato rápido, peculiar à efemeridade da crônica, mas literariamente aí "eternizado" pelo afeto, pela psicologia das ruas (bem baudelairiana) e pela exaltação à poesia, que, igual ao vinho, " il faut être toujours ivre". Baudelaire é um dos meus autores amados. Acabava de sugerir à Belvedere o romance Os últimos dias de Charles Baudelaire, do filósofo Bernard-Henri Lévy.

    E, para completar minha embriaguez naquele universo, seu Blog, divulgador da cultura, traz o texto, poético e citadino, de Carlos Rosa com " fios invisíveis" , mas pulsantes do mestre francês, e os olhos de Carmem Lúcia, tão brasileiros, a imantarem o imaginário do leitor.

    Cumprimentos, sempre, a você e ao Carlos Rosa.

    Dalma

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  7. Roberto,
    Maravilhosa postagem!
    Voltarei, pois é necessário ler e reler,
    é MUITO!!!
    "Mesmo os insensíveis percebem a poesia, embora não saibam disso. E quando sabem não consideram sua própria sensibilidade, repudiam-na."
    Aplausos ao autor!
    Parabéns, Roberto, voltarei, não há como ser diferente.
    Abraços,
    Eliana Crivellari

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  8. Parabéns, Carlos. Excelente trabalho, prosa poética da melhor qualidade. Parabéns outra vez.
    Sandro

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  9. Estimado Carlos Rosa,
    Belo texto! Poético e envolvente feito os olhos de Carmem Lúcia. Parabéns!
    Abç.
    Wanderlino

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  10. Para Carlos Rosa eu só posso enviar, após ler sua crônica, palavras de grande germinal tormento, pois, como sabemos, vibrar poeticamente nos caminhos de Baudelaire é deparar-se ora com os olhos de Carmem,o própio canto etmológico a fustigá-lo,ora com uma beira de saia negra, meio levantada e meio abaixada, da bela Passante, a desfilar no Paris inigualável. Paris pleno de memória poética. Parabéns, Carlos!
    Delia Cambeiro

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  11. Branca Eloysa Pedreira Ferreira6 de maio de 2012 14:06

    Carlos Rosa, você é um romântico incurável. Lindo o texto.Se de alguma coisa nosso mundo carece é de uma boa dose de romantismo. Imagino a alegria das Carmens Lúcias. Um mérito do que se lê é despertar a vontade de

    ler mais. Agarrei-me a Baudelaire, livro que guardo com carinho, dedicado por nosso-tão nosso- Pimentel.

    Parabéns. Bjo. Branca Eloysa

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    1. Branca, concordo com você. Carlos é romântico e é tão bom que ainda existam cavalheiros assim. O texto dele é doce e suave, muito bom.
      Branca, aproveito para convidá-la a nova visita no Clube de Leitura Icaraí. Gostei muito de vc, pode perguntar a Gracinda que comentei com ela, venha enriquecer nossos debates.

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  12. José Pais de Moura11 de maio de 2012 09:46

    Se eu conhecesse os lindos olhos de Carmem Lúcia, talvez, fosse mais poeta e teria inda mais astúcia, porém, tal o amigo Carlos, olhava perplexo, extasiado e não mais os meus versos pintavam a exuberante natureza,nem as cimentadas curvas do Niemeyer. O seguia com leveza e lá, no boteco onde entrou, ficaria igualmente embriagado!
    José Pais de Moura

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