domingo, 4 de agosto de 2013

"Martinhazinha", conto de Agenor Filho



A literatura remonta à vida ou seria o seu inverso? Apenas nesta dimensão ambígua de literatura e vivência, de arte da palavra e de existência, uma palavra poderia ser simultaneamente duplo diminutivo e expressão superlativa de afeto.
Um bom início de semana com a prosa de Agenor Filho.




Martinhazinha
 
 

Agenor Rodrigues Filho

Assim, Rodrigo referia-se à amiga de sua namorada. A Martinhazinha dos sonhos do Rodrigo era uma moreninha recém-casada, muito bonita e alegre, mas também muito geniosa. Um dia, umas colegas observaram que ela babava pelo Rodrigo e disseram que isto era muito feio em relação ao namorado de uma amiga e muito mais feio para uma mulher casada. Ela excomungou e amaldiçoou todas as colegas que falaram no assunto e o atrito repercutiu longe. A namorada de Rodrigo, sem apresentar justificativa maior, terminou o namoro e rompeu a amizade com Martinha. Nina, a namorada de Rodrigo, disse que não era só ela quem babava por ele, Rodrigo também babava por ela.

            Rodrigo, enquanto não soube por que Nina rompera com ele, andava triste e pensando que ela estava gostando de outro. Quando lhe contaram a encrenca toda, ficou feliz, o seu verdadeiro amor era a Martinha. Agora teria de convencê-la a deixar o marido para viver com ele. Isto parecia muito fácil e muito bom.

            Quando estava preparando o discurso para convencer Martinha a deixar o marido, ele viu um rapaz cantando a sua querida e ela estava gostando do que ouvia, de repente ela viu que o Rodrigo assistia a tudo, então, gritou ao galanteador:

 – Quando foi, seu canalha, que eu lhe dei confiança para vir com essa conversa. Vai cantar a sua mãe e suas irmãs que dão para qualquer um, não pense que sou igual a elas. Rodrigo ficou assustado com o que viu e pensou: Essa mulher é muito direita. Ainda bem que vi isso a tempo. 

            Parou com o seu jogo de sedução sobre a Martinha e reatou o namoro com a ex-namorada, o que deixou sua querida mais furiosa do que no dia que ela recebeu a cantada ou quando as colegas perceberam que ela babava pelo Rodrigo. Ele namorou, noivou e casou com Nina sob o ciúme desesperado da Martinha, que teve que conter o seu temperamento explosivo e sofrer em silêncio.

            Rodrigo bacharelou-se em Direito, tornando-se um advogado bem-conceituado e com uma bela clientela, além de constituir uma família maravilhosa. Passados uns 30 anos, o Jofre, irmão da Martinha, procurou-o e disse que ela ficara viúva, estava muito desanimada da vida e tinha uma ação na justiça, coisa de um bom valor, que o advogado abandonara e o processo fora arquivado, e ela não queria mais cuidar disto. Ele disse ao Rodrigo que, se ele quisesse patrocinar essa causa, ela se animaria. Rodrigo perguntou por que ele achava que ela se animaria com o seu patrocínio. Jofre disse que tinha certeza de que, entre eles, nunca tinha havido nada de concreto, mas que rolara um grande carinho. E pediu que ele os recebesse em sua casa, porque ela estava deprimida e, quanto mais curto fosse o deslocamento, seria mais fácil para ela, além do que ela também gostaria de ver a Nina, que fora uma grande amizade da vida dela.

            Rodrigo concordou, mas participou a Nina que receberia o casal de irmãos em casa. Nina perguntou o porquê  ele não os recebe no escritório. Ele disse que, raramente, a Martinha saia de casa e nessa saída gostaria de cuidar do processo e vê-la porque ainda lhe tinha grande amizade. Nina gostou de saber disto e aceitou, com carinho, receber a amiga e ex-rival. Rodrigo e Nina esperaram o casal no portão, Martinha, antes do carro parar, já estava abrindo a porta e, colocando o pé no chão, desceu e, após uma breve corridinha, partiu de braços abertos na direção de Rodrigo, momentaneamente, ignorando a presença de Nina. Apesar das rugas no rosto e dos cabelos brancos, o sorriso era o mesmo. Após abraçar, longa e apertadamente, o Rodrigo, fez o mesmo com Nina. 

            Entraram e sentaram. Nina à esquerda de Rodrigo, Jofre à direita e Martinha iria sentar-se à direita do irmão. Ela protestou dizendo que quem ia sentar-se ao lado de Rodrigo era ela e fez o irmão levantar-se e sentar-se um pouco mais distante. A partir daí, só se falou do processo. Martinha apresentou alguns documentos e, quando Rodrigo se levantou para consultar o computador, Nina sentou-se no lugar dele, que, ao retornar, viu que sua cadeira estava ocupada, então, sentou-se na que estava disponível, ficando Nina entre Rodrigo e Martinha. Rodrigo podia fazer a procuração e o contrato na hora, mas preferiu levar, em breve, os documentos na casa dela.

            Quando ele foi à casa da Martinha, ela o recebeu com muita alegria, mostrou a casa toda, tomaram café e depois ela o convidou para conversar sentados no banco do jardim. Ele quis falar dos documentos que ela teria que assinar, Martinha disse que ainda não era hora. Pediu a procuração, fez um canudo e usou-o com que fosse um monóculo e disse que, por meio dele, via o passado e que, no momento, via uma jovem e honesta senhora sendo cortejada por jovem charmoso. Perguntou ao Rodrigo se precisava dizer quem era o cara, mas ele respondeu que era absolutamente dispensável e acrescentou que achava que ali estava começando um grande caso de amor. Ela comentou que era apenas um belo ritual de sedução e que, em hipótese alguma, iria além daquilo. Rodrigo disse que quando se começa ninguém sabe onde vai acabar.

            Martinha confessou que era uma mulher fiel nos atos, mas em pensamento, muitas vezes, transgrediu a lei da fidelidade. Rodrigo comentou que, nesse tipo de transgressão, o pecado e o prazer eram menores. Martinha lembrou que Rodrigo a cortejava e ela gostava, perguntou por que parara. Ele comentou que vira a bronca que ela dera em uma pessoa que a cantou. Ela esclareceu que o cara era um grosseiro que ela nunca vira e que usara termos vulgares e oferecera dinheiro.

Quando um homem tenta conquistar uma mulher, fazendo o jogo da sedução, mesmo que não aceite, ela fica lisonjeada. Você me olhava com tanto carinho que me agradava.  Meu marido sempre foi um homem muito bom, por quem eu tinha um grande carinho, mas eu não o amava. – Você sabe a quem eu amava? 

            Rodrigo passou a filosofar: 

– Querida... a partir do nosso caso, eu pensei muito no amor. Quem criou o amor foi Deus e, como não poderia deixar de ser, criou também o livre arbítrio. Temos liberdade para decidir nossas vidas, seguir o caminho que quisermos, mas não temos o poder de decidir a quem mar e quando deixar de amar a pessoa que não merece nosso amor. Você casou com um homem que lhe inspirou carinho, depois de casada apareceu um homem que lhe inspirou amor. Considerando que Deus não nos deu o livre arbítrio para amar, você não acha que seria perdoável você deixar seu marido para viver com um homem que lhe inspirou amor?

– Não, mil vezes não. O carinho que eu tinha por ele me impediu que isso acontecesse, esse carinho foi dado por Deus. Eu acho que milhões de mulheres passaram por essa tentação, milhões a venceu e milhões sucumbiram. Eu, com a graça de Deus, venci.

– Sim, hoje, o homem que lhe inspirou tanto carinho já não existe mais, existe o homem que lhe inspirou tanto amor e que está aqui na sua frente. Vamos começar nossa vida a partir de hoje.

– Não, você é casado e tem sua mulher. Eu sou viúva, mas não tenho mais energia para começar uma vida conjugal, estou velha e doente. Você é da minha idade, mas tem saúde e vigor.

            Abraçaram-se e despediram-se.

Um mês depois, Jofre encontrou-se com Rodrigo e disse como foi bom para a irmã eles terem se encontrado, ela está mais alegre e bem-disposta.

            Rodrigo, atuando como advogado, conseguiu ganhar na Justiça em favor da Martinha. Com esse recurso ela pôde realizar o sonho de sua vida: comprar o jazigo perpétuo e fazer o translado dos restos do marido, com espaço para ela no futuro.
 
 
 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

"Transgressão e adaptação" , novo livro do sociólogo Daniel Rodrigues Aurélio


Versão adaptada, atualizada e rebatizada de minha monografia de graduação em Sociologia e Política, defendida na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) em dezembro de 2005, Transgressão e adaptação: discurso de cidadania e literatura infantojuvenil na Abertura Política (Editora Ixtlan, 2013, 96 p., R$ 16,00) analisa a consolidação do mercado editorial no segmento infantojuvenil entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980, com ênfase na produção de autores como Ziraldo, Ana Maria Machado, Pedro Bandeira, Ruth Rocha, entre outros. O livro analisa como o caráter transgressor e desafiador de seus escritos transformou-se em uma literatura, por assim dizer, canônica, ao ser adotada por escolas públicas e privadas, adaptando-se às demandas do mercado até se tornar uma espécie de campo, no sentido proposto por Pierre Bourdieu.
O foco da pesquisa está também no discurso de cidadania produzido por esses autores (cidadania política, democracia, respeito às diferenças, valorização da experiência jovem) em contraste com a prática real na vida cotidiana e política do país. Para tanto, foram mobilizadas as ideias de teóricos como TH Marshall, Roland Barthes, Antonio Candido, Mikhail Bakhtin, Hannah Arendt e Bourdieu, além de especialistas em literatura infantil e juvenil brasileira, casos de Regina Zilberman e Marisa Lajolo.
O livro é, portanto, indicado para estudiosos dos temas cidadania, literatura e abertura política e também para educadores que pretendam utilizar de forma crítica a literatura paradidática em sala de aula. Transgressão e adaptação é vendido com exclusividade no site Livraria Ixtlan. Compre aqui.

Confira aqui o contexto original dessa postagem no blog do autor do livro.
 
 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

"Pseudonímica e comunicação indireta na obra de Kierkegaard", por R. S. Kahlmeyer-Mertens (Conferência por ocasião do bicentenário de Kierkegaard).





“Que é um poeta? Um ser humano infeliz que encerra em seu coração profundos tormentos, porém seus lábios são formados de tal modo que quando os suspiros e os gritos fluem por sobre eles, ressoam como uma linda música. Com ele acontece o que ocorria aos infelizes que eram torturados demoradamente, com fogo lento, no boi de Falaris, e cujos gritos não podiam alcançar os ouvidos do tirano para não assustá-lo; a este os gritos soavam como uma doce música. E os homens se reúnem em multidão ao redor do poeta e lhe dizem: Vamos, canta de novo, quer dizer, tomara que novos sofrimentos martirizem tua alma, e Oxalá teus lábios continuem sempre formados como até agora; pois o grito apenas nos assustaria, mas a música, esta sim é deliciosa. E os críticos se chegam e falam: Assim está correto, é assim que deve ser, de acordo com as regras da Estética. Ora, dá para compreender, um crítico de arte é exatamente igual a um poeta, só que não tem os tormentos no coração e nenhuma música nos lábios. Olha, por isso eu prefiro ser um pastor de porcos na Amagerbro e ser compreendido por eles do que ser poeta e ser incompreendido pelos homens”. (KIERKEGAARD, S. A. Diapsalmata. In: Either/Or. Princeton: Princeton University Press,1953, p. 15)
 

Venha conhecer um pouco mais da vida e obra do multifacético Søren Kierkegaard:
 
 
 
 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Chamada para o Programa "De lá pra cá": Os 120 anos de nascimento de um dos mais importantes nomes do Modernismo Brasileiro

 

Neste De lá pra cá, Ancelmo Gois e Vera Barroso destacam a vida e a obra de Jorge de Lima, um dos nomes mais importantes do Modernismo Brasileiro. E para lembrar o poeta, romancista, pintor, tradutor, professor, médico e político recebem o professor e acadêmico Marco Lucchesi e o professor, ensaísta e crítico literário Ivan Cavalcanti Proença.
O programa vai contar que Jorge de Lima começou a se tornar conhecido a partir da década de 1930, depois de entrar em contato com a literatura de escritores como Graciliano Ramos, Rachel de Queirós, José Lins do Rego e Jorge Amado. Uma característica marcante dessa fase do Modernismo foi o regionalismo, que se destacou por denunciar e propor soluções para os problemas sociais do país. E no plano estético, por aprimorar as técnicas de linguagem herdadas da semana de 1922.

Passada essa fase, Jorge de Lima converteu-se ao catolicismo e fez uma poesia mística, cheia de questionamentos existenciais e metafísicos. A obra mais importante de Jorge de Lima chama-se "Invenção de Orfeu", um longo poema, de difícil compreensão, em que ele misturou versos de clássicos da literatura universal para compor uma epopeia brasileira.

Ao longo de quase 40 anos de atividade literária, Jorge de Lima escreveu 16 livros: 12 de poesia e quatro de ficção. Não gostava de ser chamado de artista plástico. Dizia que era um pintor autodidata, que fôra influenciado por mestres renomados das vanguardas europeias. Jorge de Lima, vida e obra, neste De lá pra cá.

terça-feira, 19 de março de 2013

Renato Augusto está de volta em nova obra




Confira a matéria em seu sítio original:
 

Roberto Santos

Sensível, autor escreve para corações doces

“Quanto tempo perdido/ sem perceber que o sol/ desmaia pétalas de imaginação”. (pág. 37)
...haja, ainda, partículas de sol. Renato Augusto Farias de Carvalho. Nitpress Editora. 176 páginas. R$ 35.
A antiquíssima voz de Diógenes — em Na Vida de Alexandre, de Plutarco — exclamou: “Sai um pouco de entre mim e o sol”. Exatamente o que faz Renato Augusto neste seu novo livro, a vocalizar: “Não fora a força da poesia/ e a coragem do poeta,/ o que seria desse sol de rebeldia?”. Ou, ainda, com flama solar: “Comprei lupa nova,/ água fresca de colônia/ e um pouco de sol/ à mesa de cabeceira”.
Em mistura de ficção e realidade, o autor repete a velha tradição dos românticos ingleses e alemães — a união da poesia e da prosa. Aparentemente separadas no livro, com 83 poemas (em “tons de claridade”, ou como “luares”) e 26 “quase crônicas”. Mas, como indica Sonia Peçanha, no “Prefácio”, “Renato é hábil alquimista da palavra”, razão por que se impõe o registro de Roberto Kahlmeyer-Mertens, na “Orelha”: “Como soa uma tal lira? Para saber, basta abrir o presente livro (seria pouco chama-lo só de livro) e entregar-se à prosa e à poesia de Renato Augusto Farias de Carvalho”.
Em iluminada linguagem, aqui e ali, haja ainda partículas de sol, que, até diminuídas, tocam o livro de Renato: “O passarinho cochilava ternuras/ enquanto o sol amortecido/ pressentia luares”. E que adiante prossegue: “O ofício do poema/ é esquecer as rimas/ em busca desse arco-íris de luz, / possível regaço de juntarmos as mãos.” Mais além, em três versos, homenagem consciente a uma poetisa e preito inconsciente ao poeta Angelo Longo: “Olho o barranco/ e repito Adélia Prado: “ / “o campo santo é estrelado de cruzes”.
A volta à meninice do poeta: “Sou filho do Amazonas livre”; “Minha cidade não tinha trem/ Tinha cais”(Manaus). São muitas as viagens ensolaradas de Renato pelo mundo, repletas de lembranças de ambientes e pessoas, principalmente em suas “Quase crônicas” (uma delas de obrigatória leitura: “Férias”). E “Josias” é exemplo de uma triste realidade em nosso país.
Também há o retrato falado de uma Clarice, empregada e integrante da família, que é pura poesia, repleta de saudade.

O FLUMINENSE