sábado, 28 de julho de 2012

"Villa Pereira Carneiro": Recanto adorável de Niterói em livro definitivo




Capa de Villa Pereira Carneiro (Nitpress, 2008)


Os animais da floresta se reuniram para escolher sua rainha. Na disputa, a cevada porca reclamou a coroa: “ – Eu chego a dez filhos!”. A ardilosa raposa, coçando sua calva, calculava quase cem crias nas últimas primaveras. Foi quando chegou a leoa dizendo ser ela a rainha. Autoritária, a cadela (acudida pela toupeira e pelo veado) contestou questionando quantos filhotes ela teria. A leoa respondeu imediatamente: “ – Um, mas é um leão.”
(ESOPO, Fábulas)


Existem livros que por sua especificidade acabam demorando a ser reparados num cenário de ideias, entretanto, uma vez descobertos e lidos, essas obras passam a receber a merecida atenção pelo valor de sua contribuição. É o caso de Villa Pereira Carneiro, de Roberto Affonso Pimentel. Editado pela Nitpress em 2008, o livro oferece consideráveis subsídios para a elaboração da história deste bairro de Niterói e, em boa medida, elementos que contribuiriam para a própria escrita da história do Município.
Objetivando a narrativa da história da vila operária criada pelo Conde Pereira Carneiro, o livro tem o tom predominantemente técnico-historiográfico, mas não ficam de fora (como o próprio autor adverte em seu prefácio) os elementos da memória afetiva. Apreciando sua forma e conteúdo, constatamos a existência de um livro inteiro, pois nele nada falta ou é interrompido repentinamente. De início, temos uma coletânea sistemática de artigos que seu autor chamou de “Textos e reportagens”, ali vemos notícias sobre aquela vila operária, sobre o Conde que a administrava e sobre as Condessas (que foram, em diferentes épocas, suas esposas); após, temos substanciais capítulos de desenvolvimento, são eles: “Anatomia da Villa”, “Casas”, “Diversão”, “Termos, costumes, simpatias e curiosidades”, “Comércio e serviços”...
Entre os itens de desenvolvimento do livro, o capítulo denominado “Moradores” merece, aqui, uma especial ressalva. Trata-se da mais completa relação de documentos sobre a alocação dos daquela vila. Casa a casa, Roberto A. Pimentel identifica moradores, destaca o trabalhador de seus familiares e documenta fielmente datas, taxas de aluguel vigentes na época e os laços de parentesco criado entre os da vizinhança. Este elenco cobre criteriosamente os anos de 1920-1955. A acuidade da pesquisa pode ser identificada como saldo competente de um levantamento documental em que, além de fotos (rigorosamente identificadas com legendas explicativas) e mapas (também imagens feitas por satélites), o pesquisador apresenta em fac-símile diversos documentos obtidos na pesquisa empírica, junto a antigos moradores. Fora esses, o livro ainda possui uma vasta coleção de anexos, são eles: escrituras, registros dos primeiros nascimentos (1921), relação de remembramentos e proprietários etc. Estes, entre outros, seriam certamente úteis aos que, como Roberto A. Pimentel, entendem como séria a tarefa de escrever a história daquele lugar.
Por tudo que se disse acima, afirmamos que o autor de Villa Pereira Carneiro é sério, escrupuloso quanto as suas fontes, isso o destaca de outros cujo pertencimento a uma deficiente “escola de modéstia” faz com que a pretensão, arrogância e ego insuflado só não sejam maiores do que sua estupidez. Em verdade, a referida Obra faz com que muitos dos pretensos historiadores de Niterói sejam levados ao pelourinho por sua obtusidade córnea e má fé cínica.
Ao leitor que estranhar estes meus comentários, advirto que eles só são feitos para distanciar o presente trabalho daqueles poucos mais horríveis espécimes produzidos pela hedionda raça dos pseudo-historiadores de Niterói: pesquisadores de fim de semana, historiólogos de arribação, cujos livros têm tanto conteúdo quanto os folhetins da literatura de cordel e cujo estilo – manda a verdade confessar – não ofusca a glória de nenhum dos historiadores que ocupam a superfície da terra, contando mesmo os medíocres, os maus e os péssimos. Estes, ainda, para legitimar sua ciência deficiente, posam em foto no verso de seus livros com figuras laureadas para ver se tomam de empréstimo alguma celebridade. Para semelhantes lorpas e suas respectivas obras não haveria outra qualificação possível senão a de infelice. Estas personagens, autores das mais terríveis páginas que se pode dardejar contra a reputação da historiografia fluminense (digo, ainda, brasileira), ainda têm a tendência a se agregar em sociedades (ou deveria dizer “maltas”); estas, por sua vez, tão estróinas, que, se cobertas, virariam circo; se cercadas, pareceriam hospício.
Roberto Pimentel reforça a seleta casta de historiadores fluminenses integrada por autoridades como Carlos Wers, Clélio Erthal, Cesar Ornellas, Emmanuel Macedo Soares, Francisco Tomasco de Albuquerque, Ismênia Martins, José Inaldo Alonso e Thalita de Oliveira Casadei nos fazendo acreditar no que resta da saúde intelectual da micro-história nas terras do Rio de Janeiro.
Diante de livro em apreço – por enquanto o primeiro e o único de seu autor – minha palavra aos “prolíficos estoriadores” (sic) não pode ser outra senão aquele verso de Leconte de Lisle: “Lâche, que ne fais-tu comme a fait ce lion?”[1]  Enfim: livro de Roberto Pimentel é um leão!






[1] “Frouxo, por que não fazes como este leão?”.






18 comentários:

  1. Nasci na Vila e de lá tenho as minhas mais belas lembranças. Um dia pretendo reunir as crônicas de família com fatos passados no aprazível local. O livro em questão é excelente. Pesquisa, responsabilidade e determinação. Parabéns por essa rica postagem.
    Hoje mesmo irei ao "Arraiá dos Bruno", lá na Vila, é claro!
    Um abração
    Belvedere

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  2. Roberto, essa chegou dar medo.
    Tinha um livrinho para publicar, mas vou guardar para outra ocasião.
    Quero morrer seu amigo.

    Abraços
    Rocco

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  3. É, Kahlmeyer... Desta vez você se superou!
    Nem o Schopenhauer em seu "A arte de insultar" conseguiria fazer melhor.

    Isso deve doer, não é mesmo?

    Abraço,
    Lucio Dantas

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  4. Alanir Jorge de Sousa28 de julho de 2012 17:59

    Hehheheheh Muito bom, Kahlmeyer!

    abraços,
    Alanir

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  5. Bom dia, prezado Roberto Kahlmeyer.

    Novamente agradeço por seus e-mail's informativos.

    Mensagem literária.

    "Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça.
    No sucesso, verificamos a quantidade e na desgraça a qualidade."
    (Confúcio).

    Um final de semana cheio de alegrias.

    Atenciosamente,
    Alberto Slomp.

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  6. Lucia Lopes Pereira29 de julho de 2012 07:39

    Prezado Roberto,

    O texto é bem escrito. Embora a crítica seja pesada aos demais historiadores. Numa coisa entendo que você tem razão, em Niterói, todo autor que sabe narrar uma história já se acha historiador. Sabemos que a coisa não é bem assim. É preciso que haja um movimento de qualificação desta gente e um pouco mais de senso crítico da parte de quem publica coisas. Como nem todo mundo tem bom senso, este espírito de regulação acaba se formando pela heterocrítica. Esta, entretanto, não precisava ser tão severa. A severidade amedronta em vez de orientar.

    Abraços,
    Lucia Lopes Pereira

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    1. Rosane Márcia Freeland29 de julho de 2012 08:43

      Não elogiarei a forma marcial com que o Kahlmeyer fez suas críticas, mas reconhecerei que existe nelas alguma razão. Da maneira com que está, fica parecendo que temos historiadores espalhados pela cidade à granel!
      Pergunto quantos destes têm graduação, mestrado e, principalmente, doutorado em história. Quantos destes têm as leituras mínimas para ser considerados historiadores!
      Sou formada em história pela UFF fui aluna do Ciro Flamarion e nem assim me arvoro historiadora!
      Às vezes é preciso desafetar as pessoas trazendo-as das nuvens ao solo. "Egotrip" já há demais por aí!

      Abraços da
      Rosane

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  7. Jorge Pacheco Menezes29 de julho de 2012 09:46

    Kahlmeyer, amigo!

    Não se atira em fantasmas com tão poderosos canhões!

    Um abraço do velho amigo, amigo velho.

    Jorge Pacheco Menezes

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  8. Eis que é nascido um novo Agrippino Grieco!

    Tremei Niterói!

    Rsrsrsrrsrsrs...

    Simone

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  9. Conheço o livro resenhado e ele, de fato, é muito bem escrito. Trata-se de um título necessário à biblioteca dos interessados em história de Niterói!
    Parabéns pela escolha, parabéns ao Roberto Pimentel.

    Alberto

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  10. Pra falar a verdade, nunca tinha ouvido falar nesse bairro de Niterói. Um livro assim, que se preocupe em mostrar áreas menos conhecidas da cidade (pelo menos para mim!) é de importância máxima para a compreensão da totalidade do município onde vivemos.
    O detalhamento da singularidade de relatos e documentos contidos na obra é essencial para a compreensão da multiplicidade das formas de vida que um povo, no qual eu estou inserido, pode ter. Por isso, pelo anúncio que temos aqui, percebo que este é um trabalho para marcar uma página na história da cidade.
    Este livro, pela carga de conteúdo, revela a seriedade e o afinco necessários para uma obra de valor histórico. Não por ser um trabalho científico nem pela quantidade de suas informações, mas pela percepção da honestidade com que foi posto suor para se fazer essa obra que, de certo, não foi feita do dia para a noite.
    Acredito terem sido estes os motivos das críticas feitas acima contra alguns que se dizem historiadores, pelo simples fato de narrarem histórias, quando, se assim fosse, encaixariam-se nessa classificação Galvão Bueno e Casagrande, narradores de jogos de futebol.
    Prezando o trabalho refletido e a acuidade da pesquisa, não acredito que tenha sido algo demais a crítica feita.
    Eduardo Kisse

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    1. Brilhante análise, Eduardo. Parabéns.
      Belvedere

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  11. Roberto Kahlmeyer,
    Sinto-me honrado por sua leitura aos textos da Villa e seus comentários elogiosos aos seis anos de pesquisas, além dos anos de vida no bairro em que nasci. Foram muitos os envolvidos nas entrevistas, todos anônimos construtores de cada retalho daquelas histórias. Alguns confessos em deixar verter uma lágrima de felicidade e saudade. Outros, já falecidos, não puderam contemplar o final da obra, mas estou certo que acolheram meu carinho e a lágrima que por eles chorei. Pelo que depreendi de seu texto, acrescido de tantos comentários de seus amigos, devo esclarecer que nunca tive a pretensão de ser historiador ou escritor, mas apenas um homem coerente, repleto de amor pelo lugar em que nasceu. Busquei ouvir as histórias simplórias que os outros me contaram, para mim de uma representatividade muito forte. Isto me marcou muito, além da felicidade de transpor para o papel tanto emoção. Aos que não me conhecem, imagino a totalidade dos seus leitores, sou um velho moço, aposentado, professor de Educação Física, técnico de voleibol, morador em Icaraí e nada mais do que isto. E aproveito para informá-lo a respeito do próximo livro, História do Voleibol no Brasil (Nitpress, 2 vol., 1.100 pág.). Trata-se de obra adjetivada como enciclopédica, memorialista e de referência. Além disso, peço sua paciência e a de seus amigos para uma visita a procrie.com.br/

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  12. Sua obra é marcante, Roberto! Obrigada. Nasci na Vila e tenho laços ali até hj.
    Um abraço
    Belvedere Bruno

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  13. Roberto Kahlmeyer,
    Perdôe-me retornar ao seu convívio e de tantos dos seus admiradores, só para informar que saiu do prelo a "História do Voleibol no Brasil" vista da minha praia, contendo 1.047 paginas em 2 volumes. Infelizmente, perto de 80 páginas sobre o voleibol em Niterói foram sacrificadas nessa primeira edição por coerência cronológica, evitando-se idas e vindas. Mas não faltará oportunidade para editá-la mais adiante, pois se trata da época de 1944-1968. Gostaria de oferecer um exemplar à sua crítica antes mesmo de seu lançamento oficial, bastando para tal informar-me o local de entrega. Com admiração,
    Roberto Pimentel.

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  14. Meu nobre,
    onde poderia ter um exemplar do livro Villa Pereira Carneiro ?
    Sou do Rio.

    Abs

    Jadyr

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