Beatriz Escorcio Chacon, autora de Mesa Posta (Cromos, 1991)
A poesia é comunhão, e toda
comunhão depende da companhia do outro com quem se comunga (não é à toa que companhia viria do latim com + panem, significando “dividir o pão
com alguém”). Assim, toda poesia tem algo ceia e libação; é por isso que muitos
poetas abrem a casa, põem a mesa e dão banquete. Entretanto, para quem gosta da
poesia íntima e espontânea (daquela poesia que, como bossa nova, se canta em
voz baixinha), o recato da cozinha é melhor do que o esplendor e etiqueta das
salas. É na cozinha que o verso fica a frigir enquanto se corta tempero, que a palavra
ganha sentido ao cheiro do simpático refogado, e que o poeta se faz duplamente
sacerdote como a cozinheira do filme A
Festa de Babette. Assim é a poesia de Beatriz Chacon, com ela, a mesa é
posta, e lugar de poeta – felizmente
– é na cozinha.
Mesa posta
Venha minha vó
o nosso ensopado traz
o aipim feitinho agora
tudo o que se plantou
não esqueça a travessa
a fumaça e a
terrina pintada em flor
chegue com seu avental
engomado em laçarote
cadê você? com o cuidado
do branco pano bordado
– Domingo! –
entre rendas
pontos de cruz
(p.37)
Poema na cozinha
Para Carlos Drummond de Andrade
Refogo meu triste arroz
Pressa cebola e cansaço
E o coração afogado
Tanta fila cidade e batente
Um dia todo não cabe
No ônibus nove nove nove lotado
E a notícia aqui dentro gravada
– o poeta se foi assim apressado.
Vou correndo sem querer olhar
Não me desculpo
Um corpo quieto em close na tevê
(o poeta ali sem escrever nada)
E boba chorei com o José
E com toda dona de casa
(mãos flores mais um close/flores Dolores)
Poeta nem combina com aquela máquina.
(p.149)
Prato feito
Poesia nas mãos
quiabo no fogo
carente o almoço
há gosto em se dar
a palavra metade
o grude imitando a carne
sentir meio insosso
e a língua se prova
de angústia de arroz
meio quilo que falta
e o verso na folha
de dor ensopada
sabor pela boca
coração na barriga
prendendo um marido:
prato feito servido
eis a fatia do dia!
e a requentada poesia.
(p.19)
A canção como uma flor
Ângelo Longo

Beatriz Escorcio Chacon iguala-se
a outras importantes vozes de nossa poética, concebendo uma dicção universal e
transformadora, plena de uma linguagem de humanidade e paz, coro de ungir
canções em catálogo de profecias. Beatriz liga-se, religa-se cristicamente ao
gorjeio de outros pássaros, na tessitura de novas madrugadas. Mesa Posta não é banquete de iguarias
vulgares.
Mesa Posta, desta notável e grande poeta Beatriz Escorcio Chacon, é
a presença maior de uma artista autêntica, produzindo poemas de absoluta
transparência estética e de extraordinária transcendência lírica. É livro de
estreia, não definitivo, mas definidor: há uma estranha voz nas vozes
multiformes deste livro encantador. Ela identifica o labirinto, refaz o enigma
e acorda itinerários na pauta de sons interrompidos.
Elegendo a praça pública para púlpito de uma mensagem
de poesia, Beatriz Escorcio Chacon leva seu ofício a anfiteatros de múltiplas
paisagens e auditórios de variadíssimos quilates: o importante – em poesia,
tudo é importante – é conduzir a canção como uma flor na correnteza, sem
distinguir a distância da foz ou da agonia das margens.
Beatriz Chacon, mulher maravilhosa, poeta e intérprete das melhores. Costumo dizer que Beá é minha musa! Quem não fica em estado de graça assistindo suas interpretações? Céus!!!!!!!!!!
ResponderExcluirAve Beá!
Beijos
Belvedere
Não entendo o silêncio que anda rolando aqui no blog.Estranho. Roberto trabalha, divulga, e o que vejo é os comentáriios cada vez menores. Que ele não se sinta desestimulado, pois muitos sabem olhar esse trabalho da forma que ele merece. Que vc nunca desista, Roberto!
ExcluirAbraços
Maravilha de postagem. Tudo bonito e gostoso, tudo de bom gosto. A poesia de Beatriz Chacon é bela, nuançada, imagética. Você colocou essas imagens do sensacional "Il pranzo de Babette", ou festa, como queiram. E ainda há a foto da Beatriz, lindamente "soixante" ou "soixante-dix".
ResponderExcluirParabéns, Roberto, seus alunos devem estar dizendo: iraaaaaaaado, prooof.
Abração.
Carlos Rosa.
Beatriz,
ResponderExcluirFaltava você, nossa Adélia Prado, no Literatura & Vivência. Agora, a mesa está posta. Nesta tarde fria e cinzenta, seus versos me alimentaram. Grato, amiga.
Grande abraço,
Wanderlino
Beatriz Chacon traduz, na sua poética,a fragilidade maravilhosa da alma e do pensamento feminino.
ResponderExcluirAdemais, como diria Mário de Sá Carneiro " é uma sucessão de Beleza...seu olhar coleia em frenesis
de mágicas " . A simplicidade de Beatriz Chacon permite o mais puro enlevo no seu sacerdócio de
poeta. Beatriz se permite parir a ingênua e comprometida palavra que, aliás, só os poetas em
mutações contínuas podem sorver em taças absolutamente cristalinas e transparentes aos olhos e
aos corações. A mesa de Beatriz é um simbolismo tênue, uma porcelana convidando aqueles que
saberiam participar... Àlias, nem todos. Beatriz não se mostra a toda hora: não é preciso Beatriz
é criação, patrimônio, um encanto desmedido, um astral que fala de um fardo e o transforma em
relíquia, como maças que transmitem desejo e perfume. Muito obrigado Roberto, por colocar no
video essa amostra de fertilidade e rara expressão da poesia contenporânea. Eu aprendo beleza
nos riscados de Beatriz Chacon. Um abraço Renato
PREZADO AMIGO,
ResponderExcluirÉ SEMPRE GOSTOSO RECEBER TEXTOS DE QUALIDADE COMO ESSE POR VCENVIADO. É BOM LEMBRAR QUE A BEATRIZ CHACOM É UM DAS MAIS INSPIRADAS POETA QUECONHEÇO.
OBRIGADO, VALEU A IDÉIA
JOSÉ DE SOUZA
Boa tarde, caro Roberto Kahlmeyer.
ResponderExcluirLiteratura poética com inteligência...
"Amor, prestígio... Tudo é efêmero. Só há uma coisa eterna.
É a inteligência! Amor, beleza, fortuna, nada resiste à força
da inteligência."
(Joracy Camargo).
Saudações poéticas,
Alberto Slomp.
Para amar beatriz tem que ler Hino ao Crítico de Maiakóvski. "Escritores, há muitos. Juntem um milhar./ E ergamos em Nice um asilo para os críticos/
ResponderExcluirVocês pensam que é mole viver a enxaguar/A nossa roupa branca nos artigos?
Beatriz é hors concours.
Branca
Roberto, que beleza de postagem, cheia de bom gosto e gosto bom. A poesia da Beatriz é imagética, nuançada, com gli ingredienti que fazem a gente descobrir perfume na curva. Recordar esse filme, que delícia... E a foto, linda, a poetisa tão "soixante" ou "soixante-dix", um pouco à la Schnneider, mas bem mais bonita. Parabéns, meu amigo, um aluno teu diria: iraaaaado prooof!
ResponderExcluirCarlos Rosa Moreira
Olá professor Roberto...poemas saborosos ao paladar da alma. Um abraço. Mauro Nunes
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