terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"Da fragilidade de um projeto amoroso", por Branca Eloysa


Sim, Sartre já sinalizara a precariedade da existência humana... Atualmente, falam os pós-modernos  da fluidez dos mundos, dos amores líquidos, das vidas em risco... Seriam estas as novas formas de descrever o que os gregos sempre subministraram como o caráter “agônico” de nossas existências? Ainda dependeríamos dos helenos ou bastaria ir até Chico Buarque para intuir o que é este “agon”: “No peito a saudade cativa/ faz força pro tempo parar/mas eis que chega a roda viva/e carrega a saudade prá lá ...”

Quem for de coragem está convidado a experimentar essas disposições - com radicalidade - na prosa dorida de Branca Eloysa:






Da fragilidade de um projeto amoroso

Para Isa, In memoriam (Anita Heloisa Pedreira Ferreira Mantuano, 1953-2001).



                                                                                                                                    Branca Eloysa

Contam as lendas que em Belém nasceu o menino,
Eu conto que em Belém Maria deu à luz um menino. E como qualquer Maria, sentiu medo e dor, chorou, gritou, se confundiu, amou e desatinou. Pois de Marias nasceram Calígulas e Tibérios. Herodes e Pilatos. Cristos e Césares. Pedros e Paulos. E os Judas, coitados. E o guerreiro de farda dourada e o guerrilheiro de roupas esfarrapadas. E de Marias nasceram os Hitlers e os Lumumbas. E os Ches e os Pinochets. Os valentes e os covardes. Os torturados e os torturadores. Os santos e os demônios. Os gênios e os imbecis. Os sábios e os tolos. Os marginais e os domesticados. E os poetas, ah, os poetas...
E das Marias nasceram outras Marias. Benditos e malditos frutos dos nossos ventres. Ave, Marias.
E de repente, às vésperas do séc. XXI, as Marias começaram a gerar mais e mais, em procriação desenfreada. Uns diplomados, engravatados, adestrados. Outros descabelados, drogados, desesperados. Uns obscenamente superalimentados; outros pálidos vultos esfomeados. Uns que compunham canções, amavam as flores, os rios, os mares, as estrelas e as montanhas. E se amavam entre si. Outros que fabricavam canhões, hiroshimas e napalms. E mísseis, apontados para os próprios corações. E nem sabiam o quanto se odiavam.
E as Marias pariam. Em quartos luxuosos, refrigerados e floridos. No asfalto. Nos morros, nas caatingas, nos alagados. Cientificamente – provetas! – assépticas. Primitivamente – de cócoras – no esterco. Pariam. E umas diziam pela boca do consumo: “Este é o meu filho, muito prendado, cheio de doutorados!”. E outras pela boca do músico-poeta Chico Buarque: “Olhaí, olha o meu guri, olhaí, ele disse que chegava lá!...” Olhos secos, fixos na foto do filho assassinado, primeira página de um jornal qualquer.
E a fartura e a miséria – cara a cara – nos afligia. Éramos Marias.
Aí enlouquecemos. E saímos pelas ruas e praças – de maio, junho ou dezembro, pouco importa – e gritamos, e choramos, e imploramos, dizendo: “Basta!”
Surdos, cada qual com suas verdades, os homens continuavam a manipular suas maquinarias. Técnicos e tecnocratas.
E um dia, em universos longínquos, sábios extraterrenos registraram o desaparecimento de uma pequenina esfera azul, num sistema planetário X. Explodira contra todos os cálculos e possibilidades e deixara ecoando no espaço infinito um som estranho e pungente. Talvez o derradeiro gemido – vencido – das Marias, lamentando o terrível fracasso de seus projetos de vida e amor.
Há quem garanta que uma, só uma, escapou. Partiu para outra galáxia e recomeçou. Amou, procriou, acreditou, Ainda.
Isa, onde está você?

(ELOYSA, Branca. Extrato. In: Rua Ana Barbosa 45, Meyer. Niterói; Cosmos, 1990 )
 
 
 
 
 
Divulgação Cultural
(Clique na imagem para ampliar)


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13 comentários:

  1. Wanderlino Teixeira Leite Netto24 de janeiro de 2012 22:57

    Branca,Belo texto. Esculpido em ferro e pedra, ainda assim deixa escapar ternura. Parabéns!Grande abraço,
    Wanderlino

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  2. Roberto, na postagem anterior o comentário feito por Affonso Romano de Sant'Anna é verdadeiro ou é um fake?

    Seu Blog está bem frequentado, heim!?

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  3. Carlos Rosa Moreira25 de janeiro de 2012 00:02

    Essa é a Branca. Branca Eloysa... lindo nome de uma linda mulher. Nome de escritora e poeta. Nome de heroina medieval. E heroina a Branca é. E é pedreira também, no sangue e nesse texto cheio de beleza, extraído daquela beleza que é "Rua Ana Barbosa, 45". Parabéns, Branca, que coisa bonita você escreveu.
    Carlos Rosa Moreira.

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  4. Emmanuel de Macedo Soares25 de janeiro de 2012 00:20

    Que coisa boa ouvir Branca Eloysa. Humana como uma Teresa de Calcutá sem ranços seráficos. Guerreira como uma Joana d'Arc sem fogueira, com direito a estátua de ouro. Ferro e pedra uma pinóia. Branca é sensibilidade, só sensibilidade. E precisava mais?

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  5. Luiz Augusto Erthal25 de janeiro de 2012 09:24

    Quero lhe parabenizar pelo sucesso de seu blog, que se afirma como referência para o nosso meio literário. A propósito: estou preparando uma grande ofensiva da Nitpress na blogesfera. Identifiquei e cataloguei cerca de 400 blogs literários brasileiros, alguns deles importantes; muitos iniciativas de jovens leitores que precisamos conquistar. Estou alinhavando uma proposta de parceria para lhes oferecer e gostaria de contar com você como um dos principais parceiros dessa iniciativa, cujos detalhes depois conversaremos melhor.

    Luiz Augusto Erthal (Publisher)

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  6. Este Blog é, de longe, o melhor espaço literário que conheço na internet.

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  7. Gilson Rangel Rolim25 de janeiro de 2012 10:07

    Roberto.
    Inicialmente, uma informação: já estou podendo acessar seu blog sem qualquer problema.
    Quanto ao texto de Branca Eloysa, é realmente muito bom, muito bem elaborado, carregado de sentimento..
    Abç. Gilson

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  8. Marcelly Vespasiano25 de janeiro de 2012 10:13

    ♫ ♪ ♫ "Roda mundo, roda-gigante, roda moínho, roda pião..." ♪ ♫ Tudin de bão!

    Branca Eloysa eh 10!

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  9. Kahlmeyer, é esplêndida a carreira que você vem fazendo em Niterói!

    Parabéns,
    Mauro Maia

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  10. Parabéns Mestre Roberto!
    Por se lembrar da nossa querida Branca Eloysa, uma das mais dignas representantes da cultura de nossa terra, extraordinária mulher, a qual bem demonstra através de sua poética como também, por sua militância na defesa dos Direitos Humanos.
    No movimento “Tortura Nunca Mais”, ela enfrentou a ditadura militar, no resgate do corpo de seu cunhado Aluízio Palhano, barbaramente assassinado nas dependências do DOI-CODI da Rua Tutóia, em S. Paulo na madrugada de 21 de maio de 1971.
    Aluízio Palhano nasceu em S. Paulo e ainda jovem mudou-se para Niterói, onde concluiu o curso secundário no Colégio Plínio Leite. Formou-se advogado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense. Por duas vezes foi presidente do Sindicato dos Bancários.
    Aluízio Palhano era funcionário do Banco do Brasil, onde trabalhou até ser cassado pelo AI-1 em 1964.
    http://www.youtube.com/watch?v=7qkT0d6fCL4

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  11. O que é grande nasce grande! O Blog sempre foi legal, desde que foi criado!
    Parabéns aos articulistas do Literatura-Vivência!

    Mauro Ramos

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  12. Branca Eloysa Pedreira Ferreira27 de janeiro de 2012 15:02

    Roberto, gostei demais da publicação de texto meu no seu blog. Surprendi-me ao me pegar
    comovida como se o tivesse escrito hoje. Qualquer adjetivação seria pobre para o que senti.
    Talvez gratidão seja a palavra que mais se aproxime, pois li não sei onde que gratidão é a
    memória do coração. Um grande abraço.
    Branca Eloysa

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  13. Que bom ler a doce Branca...
    Bjs
    Belvedere

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