quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Comunhão... Carlos Rosa Moreira

Nessa quinta-feira, dia 06/10 - após a quarta, dia 05/10 - que o Literatura-Vivência seja todo comunhão, nas palavras de Carlos Rosa Moreira e na canção de Beth Rowley:

Ilha de Boa Viagem na lente de Rick Ipanema


Comunhão

                                                                                                                             Carlos Rosa Moreira

Mergulhei nas minhas velhas águas, cristalinas como soem ser as águas no inverno. Ultrapassei as pedras expostas pela maré baixa e dei as primeiras braçadas quando meus pés já não tocavam o fundo.
Refazia parte de um percurso que foi o meu exercício favorito durante a juventude. Nadava de Icaraí a Flechas, corria toda a praia, mergulhava nas Velhas e nadava até a Ilha da Boa Viagem; corria de novo e circundava a ilha nadando, escalando e caminhando. Depois fazia tudo igual na volta.
Saí nadando ao lado do “Torreão” e fui até as “Duas Irmãs”, dali escalei e subi ao fortim, depois peguei a velha trilha que circunda a Boa Viagem. Minha intenção era continuar o exercício, dar mais umas braçadas e correr na praia, mas aí ouvi uns gorjeios e parei no meio da mata. Era uma cambaxirra. Fazia tempo que não ouvia uma cambaxirra. Ou, talvez, fizesse tempo que eu não percebia que já não ouvia cambaxirras. Abaixei-me e fiquei quietinho, buscando o pequenino no meio das galhadas. Cambaxirras são mais fáceis de ouvir do que de ver, mas vi o bichinho saltitar por entre os ramos de uma aroeira: saltita e gorjeia, gorjeia e saltita.
Estava eu a ver e ouvir cambaxirra, quando o tempo mudou. O céu cinzento já ameaçava, aí o vento rondou e deu uma varrida no mar. Caíram os primeiros pingos, grossos e espaçados, como se fossem os batedores do imenso exército que avançava. E a chuvada veio. Toró que lavou o sal do meu corpo e retirou da mata a poeira urbana. Quando cessou, deixou as folhas com um verde brilhante e o ar todo perfumado com aquele cheiro bom de terra.
De cócoras deixei-me ficar no meio da trilha da Boa Viagem. Depois da chuva e da ventania restou uma brisa suave vinda do sul. Eu estava cercado pelo perfume da terra e da mata e pelo aroma de oceano que a brisa trazia. Um sabiá-laranjeira pousou num galho acima da minha cabeça, cantou como se fosse o último dia de sua vida e depois embarafustou-se por entre as ramas da aroeira onde ainda gorjeava a cambaxirra. Atobás pairavam bem alto, um bem-te-vi clamava da terra, e eu respirei fundo aquele ar à minha volta. Bem quieto, não queria que a natureza soubesse de mim. Pode-se ver e ouvir muita coisa quando se está integrado à natureza. Certa vez, numa ilha deserta, vi um papagaio. Talvez seja uma visão banal, mas papagaios em ilhas me encantam desde que li a “Ilha do Tesouro”. Nunca vi macaco em ilha, mas já vi cabras, cujos avós foram abandonados por algum navio num passado distante. E, naquele momento, bem ao meu lado, junto à trilha, eu via uma pitangueira. Sofrida, raquítica, batida incessantemente pelos ventos marinhos, mas, pitangueira. Remanescente dos tempos em que por aqui reinavam tupinambás e maracajás. Um pouco mais à frente, eu sabia, havia a ingazeira. Muitas vezes provei a polpa adocicada dos seus frutos. Não sei se isso é emoção que se apresente, mas toda vez que encontro um pé de fruta selvagem fico fascinado. E aquelas são nossas frutas, frutas da nossa terra que também fascinaram o peró e o mair que vieram de longe para brigar por essas praias.
Estava eu naquele êxtase, vendo belezas e ouvindo melodias, percebendo sabores e sentindo perfumes. Então foi chegando uma tranquilidade e fui tomado por uma grande vontade de ficar ali. E pensei que talvez não fosse mau morrer assim, espojado sobre a terra. Morrer como um bicho qualquer que se vai deste mundo porque tem de ir, tendo a companhia de uma bromélia, os olhares coloridos das orquídeas, acalentado pelos trinados dos pássaros e envolto pela brisa do mar. Só deitar e morrer, deixar o corpo na terra para rebrotar e, algum dia, de algum modo, ser de novo coisa viva. Talvez uma árvore que ofereça um perfume selvagem ou um singelo fruto sápido. Um modesto vegetal que, se não tiver nada a oferecer, cubra o caminho com a simplicidade de uma sombra fresca em meio ao silêncio da mata. Esse silêncio sussurrado das plantas que às vezes embala estranhos sonhos.




Divulgação Cultural
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16 comentários:

  1. Gostei muito. Mas fica difícil saber o que é mais elegante: a prosa do Carlos ou a música da Beth.

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  2. Tudo muito sofisticado!

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  3. Gilson Rangel Rolim6 de outubro de 2011 09:37

    Roberto,
    meus parabéns ao Carlos por expressar com tanta sensibilidade essa comunhão com a Natureza.
    Abç. Gilson.

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  4. Muito boa a crônica do Carlos Rosa Moreira. O astral ainda fica melhor se lida ao som da música do vídeo. Experimente!

    Parabéns pelo blog que, por essas e outras, tem excelente nível!

    Helena Caronte

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  5. Cristiane Fagundes6 de outubro de 2011 10:00

    Quantas belas inconseqüências pensamos após uma postagem como essa. A quantos riscos válidos tendemos a nos lançar depois da descrição marinha de Carlos Rosa... Carlos, sua crônica é vento maral e porto seguro!

    Kahlmeyer, é um privilégio estar por perto. Escolhi lançar raízes metafísicas profundas junto ao Literatura-Vivência. É digno... É digno.

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  6. Roberto, como você tem sido generoso conosco!

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  7. Roberto Kahlmeyer: 39 anos de idade 390 de literatura!

    O blog hoje está uma festa! Cumprimentos ao Carlos Rosa, nosso sucessor de Rubem Braga!

    Rocco

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  8. Carlos Rosa é tão bom nas prosas que não encontro uma palavra diferente para defini-lo. Posso apenas dizer que amo tuas letras?
    Belvedere

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  9. Wanderlino Teixeira Leite Netto6 de outubro de 2011 18:12

    Roberto,
    A crônica de Carlos Rosa, que eu já havia lido antes mesmo de publicada, tem a singeleza do sabiá que canta toda manhã no quintal da casa de minha mãe, pelas bandas de Quatis. Sempre que estou por lá, a acarinhá-la e a ouvi-lo, enterneço-me. O mesmo se dá quando releio “Comunhão”, o texto do Carlos.

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  10. Carlos,

    A crônica é tão singela quanto refinada. Tão sinestésica quanto sensual.

    Parabéns pelo dom da palavra que tem.

    Sonia

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  11. Algo mais este texto do Carlos Rosa!

    Vejam só isso:

    "Esse silêncio sussurrado das plantas que às vezes embala estranhos sonhos."

    Isto é VALOR, Carlos Rosa!

    Roberto, não ponha mais vídeos como este nas postagens. Hoje me descobri cardíaca!

    Bjs
    Marthinha

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  12. Kahlmeyer,

    Essa postagem me levou longe, que vc nem imagina!...

    Com o conto do Carlos eu estive me banhando na salmoura e cheguei a sentir o cheiro da brisa marinha. Fica difícil competir com este homem de sortilégios...

    Embora ache que o vídeo não tenha tanto a ver com o texto (entendo que nem sempre devem combinar) embarquei nessa sua viagem afetiva. Que clima é aquele!

    Depois das notícias fúnebres da semana passada, você sai do luto "inspiradinho".

    Tem minha admiração,cumprimente o Carlos por mim.

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  13. Literatura-Vivência é minha fuga, minha drogadicção... universo paralelo...

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  14. Renato Augusto Farias de Carvalho6 de outubro de 2011 23:11

    Olá Roberto - Suas escolhas literárias veem sendo acolhidas como muito prazer e calor pelo seus leitores. Eu me incluo. Também já conhecia a crônica do Carlos, agora publicada: ele tem uma sensibilidade ( seu " eu " poético ) que premia, com palavras, as mais simples, singelas e ternas criaturas da natureza. É uma paixão, de fato ! mas, para externá-la, é preciso, sem dúvida, a força do talento. As crônicas do Carlos reúnem isso tudo. Meu abraço de confraternização para ambos
    Renato.

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  15. Roberto

    Continuo acompanhando o seu Blog com a maior atenção e sinceros aplausos. Cada vez mais, você amplia veredas nos sertões das várias linguagens. Faz mesmo a philia dialógica entre as Artes.

    Dalma.

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  16. É um prazer que se renova ler o Carlos Rosa. Parabéns pelo nível das postagens! Não é qualquer blog que tem um cronista como este contribuindo.

    Sônia

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