domingo, 22 de maio de 2011

Dalcídio Jurandir segundo José Cândido de Carvalho, literaturas singelas e telúricas

Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.


                                 (José Cândido de Carvalho na caricatura de Appe) 


Dalcídio Jurandir: Um homem do país das águas


José Cândido de Carvalho
É uma das criaturas mais simples deste país de gente importante. E também um de seus maiores escritores. Antigamente, de pés descalços e braços nus, corria pelas campinas de Marajó atrás das borboletas azuis que não eram de Casimiro de Abreu. Hoje, de borzeguins e paletó-saco, percorre a rua do Catete e anexos atrás da vida. É Dalcídio Jurandir. Um romancista tão grande como sua ilha.

A lua e a chuva

Veio do país das águas, de uma terra que Deus, em fim de obra, deixou sem retoques. Por isso Marajó ficou assim grandona, capaz de engolir vários países. Braba, tosca, mal saída da forma de Deus. Inchada! Não pensem que as noites de Marajó são como as outras noites. Que esperança! Quando a lua vem a furo é maior que a roda de um carro de boi! Quando chove nos campos da cachoeira é como se o Dilúvio voltasse! É a aurora do mundo à disposição de todos nós. De graça.

 

Sem pressa e sem atropelos


Não é fácil falar com Dalcídio Jurandir do Grão Pará. É um Jurandir arredio, bicho de concha, que aparece nas casas de livros na boquinha da noite. Olha um volume, olha outro, dá dois dedos de prosa ao famoso mercador Carlos Ribeiro, da Livraria São José, para desaparecer como veio. Suavemente, sem fazer barulho, que o lema desse mestre de modéstia é o mesmo de Valdemar Cavalcanti. Isto é, entrar na fila, não atrapalhar os outros. E assim tem vivido Dalcídio Jurandir. Sem atropelar ninguém.


A importância de usar pasta

Enfim, estou de Dalcídio Jurandir em pauta. Vou caminhando com simplicidade pela Rua São José. Cachos de cigarras desfolham dos pés de pau. À tarde começa a encerrar o expediente. Senhores apressados, tinindo em seus colarinhos, passam empurrando avassaladoras pastas. Dalcídio sorri para informar que sempre teve grande grande respeito pelos portadores de pastas. Principalmente pastas negras. No mínimo são diretores-gerais ou banqueiros em trânsito para os dez por cento ao mês. No mínimo!

Farinha-d’água dos seus beijus


Conversa vai e conversa vem. Pergunto pela sua bem trabalhada e lavrada existência de escritor. E Dalcídio:

− Mal ou bem, venho mergulhado nesse barro há mais de trinta anos, seu doutor. Todo o meu romance, distribuído em vários volumes, é feito, na maior parte, da gente mais comum, tão ninguém, que é a minha criatura de Marajó, Ilhas e Baixo Amazonas. Um bom intelectual de cátedra alta diria: são as minhas essências, as minhas virtualidades. Eu digo tão simplesmente: é a farinha d’água de meus beijus. A esse pessoal miúdo que tento representar em meus romances costumo chamar de aristocracia de pé no chão. Modéstia à parte, se me coube um pouco do dom de escrever, se não fiquei por lá, pescador, barqueiro, vendedor de açaí, o pequeno dom eu recebo como um privilégio, uma responsabilidade assumida, para servir aos meus irmãos de igapó e barranco. Entre aquela gente sem nada, uma vocação literária é coisa que não se bota fora. A eles tenho de dar conta do encargo, bem ou mal, mas com obstinação e verdade. O leitor que acaso folheie um dos meus romances pode logo achar o estilo capenga, a técnica mal arranjada, a fantasia curta, mas tenha um pouco de paciência, preste atenção e escute um soluço, um canto, um gesto daquelas criaturas que procuro interpretar com os pobres recursos de que disponho.

E, a propósito, lembra Dalcídio Jurandir de seu velho tio de Cachoeiras, barbeiro e cozinheiro, uma espécie de Brillat-Savarin de comarca, gênio de um prato só: o picado fradesco. E Dalcídio: − Não tenho no romance as malhas da perícia que tem meu tio na cozinha. Mas vou fazendo, a meu modo, o meu picado fradesco...

Para no meio da rua, diz que está falando demais, que a tarde despenca muito bonita para a gente tratar de coisas de letras redondas. E volta ao Jurandir bicho de concha. Quase sem fala. De corda quebrada.
(...)”

(CARVALHO, José Cândido. Ninguém mata o arco-íris – 35 retratos em 3x4. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1972. p. 55-58.)

(Dalcídio Jurandir em caricatura assinada por Appe)


Esta postagem é dedicada, In Memoriam, a José Roberto Freire Pereira, articulista literário e curador da obra de seu pai, o modernista Dalcídio Jurandir. José Roberto lutava pelo resgate da obra do pai e escolheu Niterói para desenvolver seu trabalho.

José Roberto Freire Pereira
1941-2011


Conheça mais da Obra de Dalcídio Jurandir
e do trabalho de José Roberto Freire Pereira em:




Conheça mais da obra de José Cândido de Carvalho em:











8 comentários:

  1. Amigos queridos, aproveito a mensagem do Kahlmeyer para informar que Edições Galo Branco editou, em sua Coleção Ensaios, volume 4, de Olinda Batista Assmar, DALCÍDIO JURANDIR, UM OLHAR SOBRE A AMAZÔNIA.
    uma fonte segura, um trabalho louvável, com prefácio de Pedro Lyra e introdução de René Welleck e Warren Austin.
    1 beijo, Márcia

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  2. Pô, o Dalcídio não era fluminense! Era Amazonense!

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  3. Laurinha Galvão23 de maio de 2011 12:13

    Caro Kahlmeyer,
    Sempre ouvia falar muito em vc. Mas nunca tive oportunidade de conhecer alguma coisa de seus trabalho com as letras (conheço seus artigos filosóficos). Fiquei muito comovida em vr vc retomar o Dalcídio (como já fez com o grupo do Café Paris e com Luiz Antônio Pimentel). Que ro muito te conhecer pessoalmente. Como fazer?

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  4. Uai, não conhecia ele. Estou lendo o Dom do Crime, do lucchesi . Preciso voltar a escrever. Tô seca de letras.
    Bjssssssssssssssss
    Belvedere

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  5. Que bonita e delicada essa
    descrição de Dalcídio...

    Tenório

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  6. Carlos Rosa Moreira30 de maio de 2011 05:51

    Roberto,
    Parabéns pelo seu trabalho: esclarecedor, competente, útil e elegante. Bonito o trabalho sobre Dalcídio Jurandir e sobre o nosso amigo José Roberto, incansável divulgador do trabalho do pai e companheiro sempre presente em nossas atividades culturais. É muito bom receber o seu blog.
    Um forte abraço. Carlos Rosa.

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  7. Gunter Karl Pressler2 de junho de 2011 12:19

    Sempre há surpresas! Dalcídio, de repente, aparece, surge para ficar... Ele nasceu na Ilha de Marajó (então, é marajoara), no Estado do Pará (então, é paraense), no Norte (então, é nortista), no Brasil (então, é brasileiro), vivia 38 anos no Rio de Janeiro (então, é carioca), escritor, jornalista e poeta (então, é cosmopolita; o poeta não tem pátria... a terra, o planeta e o cosmo chama-se poesia) e ele era comunista, socialista, defendeu o Internacionalismo (então, é homem)... neste sentido boas leituras!

    Gunter Karl Pressler

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  8. Caro Gunter Karl Pressler

    Para mim, além de tudo isso, foi um inestimável achado literário.
    Admiro muito seu trabalho com a obra do Dalcídio Jurandir.
    É uma alegria saber que vc frequenta o Literatura-Vivência.

    Cordiais saudações
    Roberto Kahlmeyer-Mertens

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