terça-feira, 15 de maio de 2012

"Academia Niteroiense, 70 anos. Será?" artigo exclusivo de Emmanuel de Macedo Soares


Feliz é a instituição que tem a força de gerar comunidade em torno de si (Schiller chega a atestar que esta é a maior prova de viço que um empreendimento poderia dar).
No texto de hoje, o jornalista e historiador Emmanuel Macedo Soares provoca a comunidade da Academia Niteroiense de Letras com um dado histórico: enquanto todos se mobilizam para comemorar, no ano de 2013, os 70 anos de existência institucional da ANL, Emmanuel argumenta que a Academia já passou dessa idade faz tempo.
Tal provocação nos faz lembrar a afirmativa do jornalista e escritor Alan Riding segundo a qual: “A história é explosiva”.
Sim, uma "pró-vocação", um chamado às falas, afinal, qual seria o melhor modo de celebrar uma instituição de cultura e pensamento senão pensando-a? Consideremos aberta a temporada de debates:





Academia Niteroiense, 70 anos. Será?





Emmanuel de Macedo Soares


Li em algum lugar que a Academia Niteroiense de Letras já começou a estocar foguetes para comemorar seus 70 anos em 11 de junho de 2013. Coisa que nunca entendi, e até hoje não houve quem me explicasse, é esse empenho da Academia em enganar sua idade, quando é fato sabido e comprovado que ela foi fundada em 1931 e instalada a 28 de maio desse ano na Faculdade de Direito, com toda pompa e circunstância.
Dizem que essa fundação não valeu, porque a Academia nunca funcionou. Mas funcionou, sim. Elegeu 25 acadêmicos e o interventor federal Ari Parreiras até prestigiou a posse solene da primeira diretoria efetiva, em 22 de dezembro de 1931, com Raul de Oliveira Rodrigues confirmado na presidência. Dos fundadores de 1931, muitos voltaram para a refundação de 1943. Mas pelo menos dois tiveram cassada a láurea acadêmica: Edésio Barbosa da Silva e Honório Peçanha.
Cassados duas vezes, aliás, porque ambos viviam e gozavam de excelente saúde em 1973, quando a Academia ressurgiu de novo das cinzas. A exclusão de Honório até se pode explicar, o que não significa entender: era considerado comunista e a 2ª Academia nasceu do ventre da ditadura do Estado Novo, quando os comunistas não gozavam de nenhum prestígio, muito pelo contrário. Foi novamente cassado pela 3ª Academia de 1973, e pelo mesmíssimo motivo, estávamos entrando nos tristes Anos de Chumbo de outra triste ditadura. Mas o doutor Edésio! O que fez este pacífico homem, mergulhado em suas pesquisas da história de Porciúncula para merecer a cassação? Bom... voltando às datas. A Academia de 1931 adormeceu logo no ano seguinte, é verdade. Mas a de 1943 também adormeceu, desde 1955, quando o bom e insubstituível Horácio Pacheco transferiu a presidência a monsenhor Uchoa. Com alguma benevolência consideremos como atividade o fato de ter assinado em 1959 o manifesto de lançamento do Movimento Cultural Fluminense, bela ideia de dois Pimentéis: o Paulo César, que já se foi, e o Luís Antônio, que para o bem do povo e felicidade geral da nação continua entre nós.
Depois disso, a Academia só dá sinais de vida em agosto de 1973, quando passa de fato a existir, depois da desastrada reforma que fez dela uma espécie de Academia Nítero-Cantagalense de Letras. Digo isso porque entre outras ilustres sumidades injetou como patronos os cantagalenses Silva Santos, José Carlos Rodrigues, Euclides da Cunha (vá lá), que nunca ouviram falar em praça Araribóia. E até Américo de Castro, que nasceu em Cantagalo mas foi trocar a primeira fralda na Espanha, enquanto niteroienses como Felisberto de Carvalho ou Adelino Magalhães ficaram no maruí do esquecimento. Pecadilho menor, que não vem ao caso. O que realmente incomoda é essa discrepância de datas de fundação, que um dia há de ser corrigida.
Que as belas e vaidosas mulheres enganem a idade, é até charmoso. Mas não se admite que uma sociedade dita cultural vire as costas com tanta sem-cerimônia para a história. No caso, sua própria história.



Divulgação cultural
(Clique na imagem para ampliar)

18 comentários:

  1. Embora só diga respeito a Niterói, o texto do Emanuel é elegante.

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  2. Roberto,
    Não há dúvidas de que, em 1931, foi fundada uma Academia Niteroiense de Letras, que acabou não vingando. Ao referir-se a ela, o próprio Emmanuel de Macedo Soares afirmou que seus fundadores "não pretendiam senão formar um grêmio modesto, despojado, drummondianamente municipal. E se dispersaram, à medida que se foram formando, casando, assumindo funções e responsabilidades públicas, abrindo caminho nas carreiras cujo pico alcançariam dentro em breve". Tais palavras de Emmanuel constam do livro "Dança das Cadeiras - história da Academia Niteroiense de Letras", de minha autoria. Em 11 de junho de 1943, criou-se uma outra Academia Niteroiense de Letras. Ainda em "Dança das Cadeiras", estão registradas as seguintes palavras de Emmanuel: "Começou-se uma outra coisa, ligada à de 1931 tão-somente pela denominação". A Academia Niteroiense de Letras enfocada em meu livro é a de 1943, que "hibernou" entre setembro de 1957 e outubro de 1972 (no livro há um capítulo específico sobre esse hiato)para ressurgir no mês seguinte por conta do empenho de Guaracy de Albuquerque Souto Mayor, um dos fundadores da instituição. É esta Academia,fundada em 1943, ligada à de 1931 apenas pela denominação (palavras do próprio Emmanuel de Macedo Soares) que, ano que vem, completará 70 anos.
    Sem pretender partir para polêmicas, pronuncio-me apenas a título de esclarecimento.
    Grande abraço,
    Wanderlino

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  3. Emmanuel de Macedo Soares16 de maio de 2012 02:12

    Não me lembro de ter escrito nenhum capítulo para o livro referido pelo Wanderlino, mas lembro que, ao mencionar a fundação de uma "outra coisa" em 1943, ironizei o fato de alguns dos rapazes de 1931 terem se tornado figurões da política, terem formado um grupo protegido pelo bafejo oficial e terem aberto as portas da tal "outra coisa" para os não fluminenses, impossibilitados de entrar na academia do Lacerda Nogueira. E que essa "outra coisa" se ligou à de 1931 tão somente pela denominação é uma afirmativa que se reportava à visão deles, obviamente, e não à minha. É o vício das citações fragmentárias, que não recomendam autor algum. Ora, se a denominação era a mesma, se os acadêmicos eram os mesmos (ressalvadas as exclusões de Honório e Edésio), como não considerar que a Academia era também a mesma? Pra mim, valem, no caso, duas afirmativas que o Wanderlino faz em seu livro. Literalmente: 1)"Emmanuel defende a existência de uma Academia Niteroiense de Letras em 1931..." 2)"Registradas as duas versões, optei, neste trabalho, por considerar a Academia Niteroiense de Letras fundada no dia 11 de junho de 1943". E qual seria a primeira versão? A primeira versão, com que o autor abre seu livro, era a do desembargador Guaraci Souto Maior, sem valor algum, porque, ou de propósito, ou sem querer, confundiu a Academia Niteroiense de 1931 com a Academia de Letras do Brasil, de dez anos antes. E aqui me fico, porque, no fundo, o defunto não vale boa cera.

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  4. Parabenizo o Mestre Emmanuel de Macedo Soares, uma rara e irônica figura, sempre atento e capaz de contribuir com sabedoria, no resgate da história, trazendo à luz fatos que somente os autênticos revelam, ao contrário de certas figuras, cujo único mérito, são as medalhas adquiridas e exibidas nos atos solenes.

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  5. Vicente de Percia16 de maio de 2012 08:48

    A história é importante,não deve ser mudada,tão pouco fazer surgir uma nova bíblia. As informações devem ser verídicas,garimpadas envolta em uma ciência especulativa séria.Certo que os patronos devam ser Niteroiense e a prata da casa que deve brilhar.Nasci em Niterói, estudei no Liceu Nilo Peçanha, fiz letras e Direito,no mesmo tempo, na UFF. Pouco ouvia falar da acadêmia. Conheci a Acadêmia através da minha professora de literatura portuguesa,na UFF, Albertina Fortuna que me incentivava a ler Eça de Queiros e adaptar algo do autor para o Teatro da UFF, saído da Faculdade de Letras, o qual fui um dos mentores e trouxe o diretor Rubem Rocha Filho para dar o ponta-pé inicial,com sucesso, frutificando em outras montagens. Oxalá a Acadêmia cresça com programações atuantes, tenho amigos lá. Não faltam frutos da terra embasados para um novo cativar. Mãos a obra.

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  6. Achei bacana a iniciativa de repensar a pauta da história da ANL.
    Parabéns aos acadêmicos!

    Att
    Nara Lobo

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  7. Roberto,
    Ainda a título de esclarecimento:
    a) na ata de fundação da Academia Niteroiense de Letras de 1943, que completará 70 anos em 2013, consta o seguinte: "[...] A seguir o Sr. Presidente, depois de ouvir os presentes e colher as indicações, proclamou os nomes dos senhores (*) como membros fundadores e perpétuos... [...]
    (*) para não me alongar muito, deixei de mencionar a relação nominal dos fundadores.
    Pelo acima transcrito, fica claro que, em 11 de junho de 1943, houve, de fato, a fundação de uma outra Academia Niteroiense de Letras, ligada à de 1931 apenas pelo fato de que vários dos que participaram daquela, então já extinta, assinaram a ata de fundação da Academia de 1943;
    b)quanto à declaração de Emmanuel: "Não me lembro de ter escrito nenhum capítulo para o livro referido pelo Wanderlino", isto é verdade. Todo o livro foi escrito por mim. O que consta como afirmariva dele pautou-se em informações que ele gentilmente me forneceu à época em que eu elaborava o livro. Foram enviadas a mim por escrito, entre outros subsídios, em correspondência por ele assinada, até hoje sob minha guarda.
    Cordialmente,
    Wanderlino

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  8. Herótodo Francis16 de maio de 2012 14:04

    Eu quero agora é ver os historiadores de araque da ANL dizer alguma coisa. Hhahahahha.

    Ass: Herótodo Francis
    (Terceiro suplente do segundo vice-secretário interino no Instituto Histórico e Geográfico de Varre-Sai)

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    1. Malandro! Este é poderoso! rsrsrsrsrsr

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    2. Pois é, amigo. Um pouquinho menos de qualificação e ele conseguiria ser presidente do IHGN.

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    3. Eu gostei da piada com o intelectual de Varre Sai! Rsrsrsr

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  9. Emmanuel de Macedo Soares16 de maio de 2012 14:58

    Beleza. Fica assim provado que o livro do Wanderlino foi escrito por ele mesmo. Parabéns. Mas não fica provado que a Academia de 1931 estivesse extinta em 1943, até porque os fundadores foram os mesmos, com as honrosas exceções de Edésio Barbosa e Honório Peçanha, com seus narizes delicados demais para tolerar os odores do Estado Novo. Matematicamente a coisa fica mais fácil de entender. De 1931 a 1943, quando o Wanderlino declarou extinta a primeira academia, correm 12 anos. De 1943 a 1955, quando a segunda deu seus últimos suspiros, são outros 12 anos. Mas de 1955 a 1973, quando renasceu esta de agora, vão-se 18 anos. Então, das duas, uma: ou existe uma terceira academia, fundada em 1973, ou esta continua sendo a sucessora da primeira, fundada em 1931. É múltipla escolha. Quem tiver saudade da ditadura do Estado Novo, comemora a de 1943. Quem tiver saudade da ditadura do Médici, festeja a de 1973. Eu, de minha parte, só tenho saudade mesmo é do uisquinho de primeira qualidade que rolava por lá no tempo do Horácio. Agora, é água em copo de plástico, e olhe lá...

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  10. Gosto da postura elegante do Wanderlino ao responder as questões neste blog.

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  11. Não resta dúvida de que é um debate interessante, certamente circunscrito no campo da história das instituições.
    Deve ser, mesmo, explorado por aqueles que pertencem a tal academia.

    Arno Guinle

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  12. Prezado Roberto,
    Encerro aqui minha participação nesta edição do blog. Não me agradam farpas e ironias. Ano que vem, a Academia Niteroiense de Letras, fundada em 11 de junho de 1943, deverá comemorar 70 anos. É isso.
    Grande abraço,
    Wanderlino

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  13. Emmanuel de Macedo Soares16 de maio de 2012 23:22

    Maravilha! Magister Dixet, como nos tempos, tão saudosos para tantos, do Tribunal do Santo Ofício. Seu mestre falou, tá falado. Eu de cá me calo, porque apesar desse frio danado que tá fazendo, não tenho a menor vontade de ser assado em nenhuma fogueira da Inquisição. Vamos todos ao regabofe dos 80, 70 ou 40 anos da Academia, antes que inventem uma outra data comemorativa. E rezemos para que seja boca livre, a fim de não azedar a sobremesa.

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  14. Provocação inútil. Há controvérsias quanto à data de formação da Academia e se estabeleceu uma data de aniversário baseada em dados facilmente aceitáveis. Há conhecimento histórico sobre o fato e a controvérsia das datas faz parte da história da Academia Niteroiense. Tudo certo, esclarecido, Wanderlino mostra, de forma equilibrada e clara o motivo da data escolhida para festejar os 70 anos. Todos têm razão. Qualquer data que escolhessem podia ser sujeita a críticas e ser motivo de discordância. O que todos devem saber, é que a existência e manutenção da ANL se devem ao esforço de uns poucos abnegados (Wanderlino, especialmente); mas a parlapatice por ter diploma de "imortal" na parede é sempre proporcional às críticas ácidas e inúteis de gente que nada faz. Criticar é mole.

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  15. Gilson Rangel Rolim20 de maio de 2012 10:10

    Refiro-me, agora, à data de fundação de nossa Academia Niteroiense de Letras. Fico com os registros feitos no livro “Dança das cadeiras”, de Wanderlino Teixeira Leite, que, aliás, com muita elegância e firmeza respondeu ao questionamento do historiador. No livro mencionado, são transcritas palavras de Guaracy de Albuquerque Souto Mayor, das quais cito: “A verdade, já agora inconcussa, é que o grupo a que temos nos referido teria sido como que o precursor da nossa academia, não a própria Academia.” O grupo mencionado por Souto Mayor é o de 1931, que esboçou a ANL.

    Abraço, Gilson

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