segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

“Coisas do amor”, crônica fluminense de Agenor Filho




Cidade de Bom Jardim nos idos de 1950,
foto da capa de A casa dos avós (Biblioteca 24x7, 2008), de Agenor Filho.


Coisas do amor



Fim das férias de Rodrigo na roça, no dia de embarcar para o Rio de Janeiro, foi para a casa da sua tia Lenira, em Bom Jardim. A empregada da casa, Sônia, que tinha muitas amizades, anunciou ao Rodrigo que uma amiga dela viria visitá-la e ela queria apresentá-la. Lenira, que já sabia quem era a moça que viria à sua casa era a Anunciação, antecipou que se tratava de uma pessoa maravilhosa. Ele sentiu o coração bater mais rápido e as pontas dos dedos geladas. Quando ela chegou, procurou por Sônia, que a conduziu para a sala onde estava Rodrigo, fez as apresentações, participou inicialmente da conversa e, em seguida, pediu licença para retirar-se e os dois ficaram as sós.
Anunciação comentou que ele deveria gostar muito do sítio, pois não tinha tido tempo de vir passear na cidade. Rodrigo disse que morava há dez anos no Rio e que ainda não se adaptara aos centros urbanos e, para ele, o Rio de Janeiro e Bom Jardim eram a mesma coisa. Ela achou a comparação exagerada.
Continuando, ele comentou que passeou pela região rural, visitando os sítios de amigos e parentes e que o último passeio fora a cavalo na Serra do Arrasto, onde pegou um temporal violento com chuvas e ventos fortes, além de raios que assustaram os cavalos.
Até aquele momento, cada um estava sentado em uma poltrona, com um sofá entre eles. Rodrigo sentiu atração de ficar perto dela, então, levantou-se da poltrona, sentou-se no sofá, indicou com a mão o local em que ela deveria sentar-se, bem junto a ele. Aceitando o convite, levantou-se sorrindo e ele contemplou os seus lindos olhos azuis, que, naquele momento, pareciam ainda mais azuis e mais lindos, sentou-se ao seu lado. A vontade de ambos é que aquele momento se eternizasse. A seguir, a tia entrou na sala, serviu um cafezinho e avisou que poderiam deixar as xícaras na bandeja que, mais tarde, ela viria buscá-las. Isto significava que ela não voltaria a interromper.
Retornaram à conversa sem assunto, o silêncio e a aproximação terna excluíam as palavras. Tempos depois a tia voltou à sala dizendo que não queria interromper nada, mas tinha que lembrar que estava chegando à hora do trem. Ela era maravilhosa, mas as palavras dela quebraram o encanto. Ora, que lembrança dolorosa exclamou! Mas a tia informou que, para que eles tivessem mais tempo de conversar, ela arrumara a mala. Anunciação disse que já ia se retirar, ele a acompanhou até o portão, ficou contemplando-a até dobrar a esquina e disse para si mesmo que, se não bastassem tantas qualidades, ainda tinha a elegância no andar.
Enfim, pegou sua mala e caminhou para a estação. Quando passava em frente à Casa Erthal, um senhor chamou-o pelo nome do pai, abordando-o e desculpando-se por chamá-lo por aquele nome, pois não sabia o nome dele. Ele disse que acertara, pois era xará do pai. O senhor apresentou-se como Gilberto, gerente da Casa Erthal. Falou sobre a amizade dele com seu pai, inclusive relembrando as lutas políticas do passado, e perguntou qual era a filiação política atual do velho companheiro. O jovem informou que o pai era da UDN e Gilberto ficou feliz em saber que ele e o amigo ainda eram correligionários.
Quando Anunciação estava passando do outro lado da rua, Gilberto disse que aquela moça era filha dele, o novo amigo disse que a conhecera há pouco na casa da tia Lenira, só não disse que o cupido o flechara. Gilberto disse que ele nomeara a filha sua secretária e ela se nomeara chefe dele, a seguir ela veio ao encontro deles e lembrou que era hora dele retornar para o trabalho e o trem estava para chegar. Ambos dirigiram-se à moça, Rodrigo para despedir-se e Gilberto para acompanhá-la.
Rodrigo sentiu muita vontade de beijá-la nas faces, mas naquela época, em uma cidade do interior, se um rapaz publicamente beijasse as faces de uma moça, a família dela o obrigaria a casar-se imediatamente. Sob a contemplação do pai, se despediram com um aperto de mão e um abraço distante. Ele, fazendo força para esconder sua tristeza, disse que queria que nesse dia não tivesse trem, mas o pai comentou que isto não aconteceria, pois o trem já estava em Cordeiro. Rodrigo pensou: o homem não o deixou sonhar nem por um momento. E parecia que seu Gilberto estava começando a entender alguma coisa.
Rodrigo, sentado no banco da estação, sonhava com a possibilidade de não haver trem naquele dia e o seu atraso aumentava sua leve esperança de não ir embora. A seguir, o sino da estação badalou, anunciando que o trem estava próximo. Ele sentiu uma fisgada no coração e, antes que se refizesse, a máquina surgiu veloz e apitando na curva. Ele sentiu um frio na barriga e o trem foi chegando ruidosamente. Ele pegou sua bagagem e embarcou, e o sino foi outra vez badalado para anunciar, desta vez, que o trem partiria. A seguir, ouviu-se o trilar de um apito, era o chefe ordenando que maquinista partisse, ele respondeu com um apito breve e começou a botar a composição em movimento, tão suavemente que quase não se percebia que estava andando. Depois, ele seguia lentamente pelas ruas da cidade, batendo sino e apitando com freqüência. O repicar do sino e o apitar da máquina eram bonitos e tristes. Rodrigo, sentado junto à janela, gostava de ver a máquina quando entrava nas curvas O trem custou muito a subir a Serra de Conselheiro Paulino, os passageiros estavam ansiosos para que ele chegasse a Nova Friburgo a tempo de engatar no trem rápido e seguir. Se não chegasse, teria que esperar quatro horas até aparecer outra locomotiva e não chegou.
Rodrigo, entediado e já morrendo de saudades, não sabia o que fazer para passar aquele tempo, que parecia uma eternidade. A seguir, ouviu o som de um acordeom que tocava La Cumparsita. Sentou-se ao lado do músico e ficou curtindo sua saudade e tédio. Acabada a música, ele deu uma gorjeta e pediu bis, e foi dando gorjeta e pedindo bis, até que o músico sugeriu outros tangos. Ele aceitou e ouviu tantas músicas que lhe pareceu que o tempo passou rápido. O sino da estação badalou avisando o passageiro que o trem iria sair, o apito do chefe trilou ordenando ao maquinista que partisse, ele partiu lentamente e foi pelas ruas de Nova Friburgo badalando o sino e constantemente dando apitos breves. Quando o trem chegou ao Rio de Janeiro, já eram dez horas da noite.
No dia seguinte, teria que voltar ao trabalho. Ele já foi para o serviço contando os dias para terminar o ano e voltar a sua cidade, rever o seu amor e refazer um namoro que nem chegou a começar. Mas Sônia, que viera para casa de sua mãe para ajudá-la, estava sempre atenta aos suspiros do Rodrigo, cada vez que ele suspirava, ela dizia que era pela Anunciação. Sônia tinha bem-guardado o retrato dela, de vez em quando ela o mostrava, mas não o deixava botar a mão nele. Só podia ver de longe. Chegou a ocasião de Rodrigo servir o Exército e aquele ano foi atípico para a vida militar. Houve muitas crises e as Forças Armadas entravam constantemente em prontidão rigorosa e o período do serviço militar acabou se alongando além de um ano, sufocando o período de férias. O pessoal para ser liberado do Exército tinha que aguardar que os soldados recrutas ficassem prontos para o combate. Quando isto aconteceu, eles foram liberados e tiveram que se apresentar, imediatamente, às empresas em que trabalhavam e a viagem tão esperada não aconteceu. No ano seguinte, ele viajou para a sua cidade, mas Anunciação já era noiva. Ele não a viu. No outro ano, quando ele foi, ela já tinha casado.
Só voltaram a encontrarem-se 50 anos depois. Ele foi assistir à missa de aniversário de 90 anos da mãe da Anunciação, que, nessa ocasião, ele já sabia que ela era sua mãe de leite. Quando a família numerosa estava na porta da igreja, esperando o momento de entrar, Anunciação veio ao seu encontro para cumprimentá-lo. Ele disse: Veja o que o destino fez conosco. Ela perguntou se ele era feliz, ele respondeu que sim. Ela concluiu que, se ambos somos felizes, o destino não fez nada contra nós, porque ele nada pode, é Deus quem pode tudo.




7 comentários:

  1. Bonito ver o município de Bom Jardim representado na prosa fluminense de Agenor Filho.

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  2. Roberto,
    entre no site do PEN Clube do Brasil e veja os vencedores do Prêmio Literário Nacional do PEN Clube do Brasil, 2011 e, mais especialmente, quem leva o troféu na categoria ENSAIO. Acho que você vai gostar!
    Um abraço carinhoso,
    Luzia de Maria

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  3. Muito lindo, e triste ao mesmo tempo. Espero que eles tenham recuperado o tempo perdido.
    Mas eu só encontrei o verdadeiro amor da minha vida após os 50 anos.....

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  4. Fernando Antonio Nunes dos Santos20 de dezembro de 2011 20:33

    Cortesia antigas cortes: lugares usados por filósofos, artistas, literatos, médicos, todos os profissionais e pessoas distintas que tomavam as decisões de um estado ou reino
    Hoje a cortesia parece sinônimo de falsidade e falta de autenticidade
    A cortesia é uma forma de generosidade e de amor
    Maneira humilde e agradável de aplicar o nosso primeiro princípio
    Toda a palavra e ação devem estar envoltas em nossa capacidade de amar.

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  5. Olá Roberto,

    fiquei muito honrado de ler o meu texto em seu blog,obrigado.
    O texto publicado é do tempo que eu escrevia memórias, de tanto enfeitar as memórias quando eu vi já estava criando plenamente.
    Apesar de você ser muito ocupado, estou enviando para você dois textos da nova fase e gostaria muito de ter a sua opinião.

    Abraços do Agenor

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  6. Maria Gicelma Mertens20 de dezembro de 2011 20:36

    Que bom ver o Agenorzinho publicado! Agenor tem visto nosso primo Adelque Figueira lá nas boas terras de Bom Jardim?

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  7. Gostei muito. Parabéns pelo seu treabalho. ESpero que seja reconhecido como merece.
    Belvedere

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