terça-feira, 2 de agosto de 2011

O espírito de Sherazade em Muna Omran.


Desde a década de 1980 o Oriente Médio parece se insinuar buscando impor-se política e culturalmente. É a partir dessa década que vemos intensificadas as notícias dos extremismos islâmicos e do acirramento dos conflitos ideológico-religiosos, mas, a bem da verdade, é preciso dizer que, foi a partir desse mesmo decênio, que o Ocidente tornou a voltar seus olhos para o Oriente. Após a provocação de Salman Rushdie (é preciso pensar, até que ponto, não teria sido uma saudável provocação) tivemos a redescoberta de autores como Omar Khayaām, Saadi e Rumi. O cinema islâmico – sobretudo o iraniano – passou a ser Cult e mesmo a literatura e as produções televisivas mais populares passaram a se ocupar das temáticas orientais. Parece que entre os 1990 e os 2000, passamos a ter mais atenção para o incontestavelmente rico legado do mundo árabe; passamos a recordar (o que fora esquecido já no final da Idade Média) que o homem civilizado não é exclusivamente ocidental ou, neste caso, unidimensional, como bem denunciava Marcuse.
Na atualidade, inspirado no Alcorão, o mundo islâmico, convulso, mobiliza-se para depor tiranias que, por décadas, só fizeram promover o ódio e a intolerância no seio daquele admirável povo e cultura. Uma época como essa depende de uma canção que, como diz Drummond: “Faça acordar os homens e adormecer as crianças”. Eis aqui a contribuição de Muna Omran, para tal:





A História que Sherazade não contou

Muna Omran

I

Nasci no ano da Renúncia
Minha primeira biblioteca vinha de dois mundos


Diferentes
E falava!

Uma era pernambucana
A outra do Oriente

Minha babá pernanbucana
Não era a Irene de outro pernanbucano
Mas era gorda
Boa
E sempre de bom humor...
Maria contava histórias:
Saci Pererê,
Bicho-Papão,
Mula-sem-cabeça


Minha mãe contava
as histórias de Sherazade e
de seu vizir,
Aladim,
Ali Babá...

De repente, Sherazade atirava o pau no gato com o Saci Pererê

Ouvindo minha biblioteca gorda e boa,
Levava-a participar da biblioteca de uma língua diferente.
Imaginava a bela Iara sair dos mares
Invadir o deserto do Saara
Montada sobre a corcova de um camelo
E entrar na biblioteca mágica


Encontrando-se com príncipes loiros,


Eu envolvida por tantas histórias
De repente fugia da Cuca;
Sultana do meu mundo,


corria pela Floresta da Tijuca,


brincava com Sherazade com uma cauda de peixe
Via Curupira passar enquanto conversava com os gênios de Aladim



II

Já maior,
Entrava na biblioteca de meu pai
Muitos livros
Muitas capas diferentes
Ele me mostrava a enciclopédia
Que trazia
Avicena,
Ibn Khaldun,
Averróis


depois... Cabral,
D.Pedro I,
Machado


As primeiras letras


foram da direita
para a esquerda,
envolvia-me por completo com Aladim
antes de ler Lobato
Fairuz
Lobato,
Omar Khayan,
Andersen e seus contos,
Gibran
Sherazade, novamente
Minha babá Maria, meiga, doce,
                                         geléia de goiaba,
                                                           pão com manteiga,
                                                                                      quindim,
                                                                                                  cajuzinho
Cuidado! O Curupira tudo levou.


III

Já leitora,
Tinha minha biblioteca
Menina-moça, leitora
Livros
quarto lilás,
noites do oriente,
livros escritos,
inscritos no mundo que começava entrar.
Hexágonos formavam-se em minha mente,
Inúmeros livros,
Inúmeras histórias,
Inúmeras as palavras.


Com meu príncipe, montada sobre um cavalo branco,
corríamos pelo deserto do Saara
Seu rosto coberto,
sua mão forte erguia uma espada matando todos os monstros encontrados


Biblioteca mais divina que a de Borges
Consigo decifrar todas as letras.
Frases paralisadas,
Frases dessacralizadas.

Lobato com Narizinho fugiram com todo o sítio.
                             Babá Maria fechou seu livro.


Cadê o Saci? O Bicho-Papão comeu?
O Negrinho do Pastoreiro sumiu,
O Caipora morreu.
Cadê Aladim?
Ali Babá roubou?
Andersen invade meu mundo

 
IV

Colégio, adolescência...
a diferente chega.
O mundo desaba.
Exótica,
            Esquisita,
                         maneiras diferentes.
                                                      Um Patinho Feio?
Mas...
conhece o Saci !?
Fala uma língua estranha,
mas já brincou com a Cuca,
- a Cuca não te pegou?
Olhares,
             risos nervosos,
debochados
A professora, a estranha, como é dura!
Mamãe fechou a história de Princesa e
a ervilha.
Cadê a candura da tia Nastácia?
Cadê o Rouxinol?
Para onde fugiu Pinóquio?
E a Carruagem de Cinderela?


O Coelho gargalha de sua toca.
Não há espelhos.
Há inquisidores.
Queimam-se livros.
Papai desaparece.
Ninguém soube, ninguém viu, ninguém ouviu.
Breu!

 
VII

“Liberdade ainda que tardia”
Ouço Gonzaga, Cláudio clamarem dos calabouços
“Criança não veras país nenhum como este”
Bilac grita de seu livro.
“Que país é esse?”
Affonso pergunta
Verdades ou Mentiras?
Finjo a dor dos poetas
Sempre?


Salvo um livro do fogo,
transfigurado,
sem beleza,
cansado,
saturado,
estirado,
silenciado.
Papai retornou?


VIII

Descubro Drummond,
tenho apenas duas mãos e todo o sentimento do mundo.
Mundo mundo vasto mundo, meu coração não consegue ser mais vasto
Meu mundo existe na margens das folhas




IX


Novos livros
Conheço
As métricas, as rimas, os ritmos
Descubro a biblioteca da poesia.
Silenciosa,
Avassaladora,
predadora,
pensadora,
libertadora
meu rosto se mistura às letras
meu verso expõe meu reverso
Fragmento?
Letras espalhadas
Pelo meu corpo
Palavras
Com
Significados
Significantes
Hipérboles e antíteses
Povoam minha biblioteca.



X


O livro sobre o sultão e seu cavalo branco.
Já li esta história?
Palavras poéticas, corpos escritos,
inscritos,
circunscritos.


XI


Novo livro,
Novo corpo,
Outro ritmo,
Hipérboles,
Metonímias.
Lord Byron,
Álvares de Azevedo,
William Blake,
Victor Hugo,
Emily Brontë…

Um livro sopra do canto da biblioteca.
Dele salta um
Sultão, vassalo e suserano
Dócil, indócil
Corpo definido
Rosto, cadê você?
Tato,
Olfato,
Paladar,
Invisível seu rosto...
Não o vejo
Só as letras o conhecem.


XII


Contemplo a biblioteca da juventude.
O corpo em forma poética
Em linguagem trocada
Palavras tocadas
Letras trocadas
Fonemas dobrados
Na formação do texto
Dos versos
Dos pensamentos
Trancados no diário.
Corpo : exposto no sonho.
Corpo :abrindo-se em desejo.
Um hexágono montado.
Não há peregrinos em minha biblioteca.
Só eu contemplo e a toco.




XIII

O livro do sultão me chama,
novamente.
Meu sultão toma forma,
matéria concreta,
signo perfeito,
rouba-me a vida
Não é sonho.
Viajo pelo seu corpo
E nele descubro o meu corpo
Entrego-me ao seu desejo
Toco seu rosto


Sou uma mulher abraçada ao seu livro-amante.


XIV

Tantos livros,
Tantos poemas,
Tantas histórias.
Sou poeta?
Não sei.
Pego o lápis,
Um poema nasce
Curiosa, olho o labirinto de palavras que se forma diante de mim
Um organismo gráfico se forma
Move-se
E finalmente (re)clama.
Aprendi a lição.
Posso contar histórias?
Posso entrar na Biblioteca?
Um poema não é impossível de não fazer.
Encho a página,
Esqueço a margem,
As palavras em forma e figura,
Nelas e em mim navego
Vejo-as nitidamente,
vejo-me através de um vidro embaçado.
Penso na vida e só vejo abismos.
Um livro vaga pela rua
E vê a condução dos loucos e poetas.
No centro o poeta-louco.
Circunscreve seu mundo
Olho.
Tremo.
Sou poeta?
Louca?
Papéis perdidos,
Recortados,
Papéis cotidianos
Poesia perdida nas gavetas
Reescrevo-me e (re)vejo o mundo mutilado
O texto perdido, tecido.
A palavra à espera de ser capturada
Para encher a página
Desenham-se as primeiras letras
Palavras perdidas

Detidas
Retidas
Afetivas

Enfrentam o branco do papel
Os loucos se afastam
Os poetas traçam os primeiros pontos
Intrínsecos
Cercados de sonho
A poesia aflora na pele como um fruto
Finca-se na memória,
Deflora o tempo
Tão doce, frui no corpo do poeta e na mente dos loucos.



XV

Sou mulher
Abro minha biblioteca
Contemplo-a como minha vida.
Vivo em sociedade, sempre.
Tenho bom senso, nem sempre
Converso amavelmente com as pessoas,
Incluindo as chatas
Rio da piada sem graça.
O Patinho Feio continua com bons modos, eu acho!
Os conflitos
Aladim ou Narizinho?
Este lado vive na sombra
Quer tudo
Conhece as coisas a fundo
Conhece-me de sobra
Eu o desconheço
Viro a página,
Não quero ler meu rosto triste
Fujo deste lado,
Desorganizo sua linguagem
Ele me persegue
Por que a biblioteca não me liberta?
Recolho-me em palavras,
sou texto
Encerro-me e tento vencer o inevitável
Busco a vida,
Triste, canina, felina, dura.
Afago as palavras
Tentando preencher o vazio inscrito.


Vencida ou vencedora?





Qasida selvagem (1)


Qasida Mutwahisha (1970) poema de Nizar Kabani (1923-1998)
em livre tradução de Muna Omran


Ama-me
com toda a fúria dos bárbaros
com todo o calor do deserto
com a fúria da tempestade
não pense como os demais seres civilizados
a civilização perdeu seus instintos
ama-me como um terremoto
como a surpresa da morte inesperada
deixa meus seios arderem em brasa
ataca-me como uma loba faminta e perigosa.


(...)


Não entre!
sua voz cerrou meu caminho
suas palavras trancaram meus passos
você estava sem seus amigos
sua mentira foi denunciada pela voz feminina que chamava a você
foi ela quem me substituiu?
‘Pare!’
esta ordem até agora envenena meu coração
enquanto isso, o vento soprava e trazia com ele a humilhação imposta pela sua voz
não se desculpe, mar em tormenta.


(1) As qasīdas são poemas com uma única rima até o final. Com uma “extensão variável de 20 a 80 versos e, quanto aos temas, priorizou o politematismo, entendido como a combinação de duas seções no poema: uma primeira voltada aos temas do amor, da sensualidade, do vinho e da viagem do poeta até os domínios do seu elogiado.”  (SLEIMAN, Michel. 2007, p. 15 . A arte do Zajal – Estudo da Poética árabe)




Muna Omran mora no Rio de Janeiro. Doutora em literatura comparada pela Univeridade Estadual de Campinas - UNICAMP, com a tese: Vozes Silenciadas – Uma leitura da obra de Salman Rushdie. A tese discute a construção narrativa dos romances Os filhos da meia noite, Os versos satânicos e O último suspiro do mouro, tomando por base as propostas teóricas da literatura contemporânea e sua articulação com os Estudos Culturais. Esses romances rejeitam a hegemonia das forças totalizadoras do pensamento institucionalizado que violam a individualidade humana e das minorias que seguem caminhos contra o conformismo.
Mestra pela Universidade Federal Fluminense em Literatura Brasileira com a dissertação Melancolia nas Letras-Utopia e Melancolia no Marco Zero de Oswald de Andrade. A dissertação tem como objetivo analisar possíveis interferências do discurso político de esquerda nos dois volumes que compõem a obra Marco Zero – A revolução melancólica e Chão –, de Oswald de Andrade, considerando que a construção dos dois volumes aconteceu nas décadas de 30/40, quando o autor ainda estava filiado no PCB. Destaca-se a presença dessas interferências ora na voz do narrador, ora na de alguns personagens que se comportam como porta-vozes das propostas políticas do momento. Assim, detectamos quais são estas vozes e como elas se manifestam na estrutura do romance.
Atualmente, integra o grupos de pesquisa leitura, fruição e ensino, na Universidade Federal Fluminense - UFF e temáticas narrativas e representações árabes, africanas, asiáticas e sul-americanas de comunidades diaspóricas, na Universidade de São Paulo – USP.






14 comentários:

  1. Caro Roberto Kahlmeyer,

    Seu blog é respeitável.

    Lothar de Assis

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  2. No início, acheio o poema de Muna Omran pueril (só no início!). Depois, o texto vai num crescente, crescendo, crescendo em intensidade e drama! Daí aparece a mulher, depois ainda o singular. Omran se doa de uma maneira irrestrita aqui. Difícil ver uma entrega como essa! Só mesmo na poesia essas coisas acontecem. Ao final do poema, entendi que a puerilidade do começo era contrução da menina Muna que só se faz mulher durante o poema.... Poesia da boa!

    Eloá

    PS: Roberto, me liga!

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  3. Ah... As mulheres do blog de Roberto Kahlmeyer... todas especiais (tanto nas postagens quanto nos comentários). Morram de inveja as que ainda não apareceram aqui. rsrsrs

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  4. Uma postagem exótica!
    Carolina

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  5. Carlos Rosa Moreira3 de agosto de 2011 10:19

    Que bom gosto, Roberto. Que coisa bonita. Nós, brasileiros, precisamos nos esquivar das propagandas certeiras e demonizantes e descobrir outras vertentes de um mesmo mundo. Esse mundo oriental, fascinante, das artes persa e árabe. A poesia diferente e linda que atravessa os séculos.
    Um forte abraço.
    Carlos Rosa.

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  6. aê,

    este meu professor é f*da!

    muito irada a poesia da muna

    ela tem telefone? heheheh

    Abel

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  7. هنوز کاست اش را دارم - این آهنگ مونس من بود توی سالهایی که پشت گزینش دانشگاه بودم وهمزمان منتظر خبریاز داداش های بزرگم زمان موشک باران و آخرین سال جنگ/ خیام و شجریان و دکلمه شاملو همه اشان را دوست دارم/ احساس میکردم اونا اینو برای من خوندند / اما روز های خیلی تلخی را بیادم میاورد
    یک دوست خیلی عزیزی توی فیس بوک شیرش کرد منو برد اون دور دور ها
    مطمئنم صدای اون هم به گرمی صداهای توی این آهنگ هست
    هر کجا هست خدایا به سلامت دارش

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  8. Literatura-Vivência garante a livre expressão de comentários dos frequentadores do Blog, mas não necessariamente endossa as opiniões aqui veiculadas, sendo elas de inteira responsabilidade de seus propositores

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  9. Gostaria de cumprimentar o articulista deste blog pelo seu bom gosto e alto nível de suas matérias. Sigo sempre blogs de literatura luso-brasileira e o seu foge por completo às receitas.
    Moro em Portugal e tenho prazer em saber que a lingua portuguesa vem sendo muito bem tratada nas banda de além mar.

    Lelio Morujão, ao seu serviço.

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  10. Literatura-Vivência (na pessoa de seu administrador Roberto Saraiva Kahlmeyer-Mertens) registra aqui um agradecimento cordial aos frequentadores portugueses do Blog, que têm sido presença constante a cada nova postagem.

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  11. Estimado Kahlmeyer-Mertens,

    fico grato pela consideração aos irmãos portugueses.
    Seu sítio literário é, realmente, muito inteligente ou, como ainda se diz por aqui, bestial!

    Gostava de mandar um texto de contribuição. Como fazer?

    Nuno Lessa

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  12. Roberto,
    Gostei dos textos da Muna.
    A poesia árabe expressa outro modo de sentir, não é?

    Posta algo mais do Trakl.
    Martha - UCAM

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  13. Roberto, seu menino bandido!
    Que espetáculo de site!
    Acompanho sempre e sempre o vejo em um invejável crescente!
    Parabéns!

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  14. Margareth Neves Desmarais10 de agosto de 2011 08:45

    Roberto Tenho acompanhado o seu blog frequentemente, o que me faz conhecer pessoas muito interessantes. Pessoas inteligentes, de longe e de perto, cultas, sem noção, engraçadas, enfim, pessoas que compõem o povo brasileiro, totalmente eclético. Talvez isso nos torne tão fascinantes!! Gostei muito da sua postagem sobre as poesias do Kabanni traduzidas por Muna Omran, em especial a última, que destaca a voracidade velada da mulher árabe, o furor incandescente de sua alma que contradiz a submissão imposta... poucos homens entenderiam ou captariam essa verdade! Não escrevi nada, mas acho importante dizer que o seu blog tem valorizado figuras e fatos significativos, como neste caso, a cultura oriental! Continue!!

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