segunda-feira, 25 de julho de 2011

Liane Arêas, o mundo e o universo poético de Bernardino da Costa Lopes



Até a presente data, talvez a última e mais substancial notícia que tínhamos sobre a vida e obra do poeta fluminense B. Lopes (1859-1916) teria sido dada por José Guilherme Merquior quando, em seu De Anchieta a Euclides (1979), o autor dedica quase sete páginas ao dito Poeta Fidalgo. No entanto, o B. Lopes ali apresentado está longe de retratar autor de Rio Bonito em seu espectro e magnitude. Para Merquior, como ele mesmo afirma em outro lugar (Formalismo e tradição moderna, 1974), B. Lopes ainda seria um autor pequeno burguês, “em contraste com muitos românticos egressos da nobreza ou da alta burguesia rural ou citadina” (p.44).
O leitor brasileiro ficaria, assim, obrigado a se contentar com essas migalhas informativas (quase um jejum) se desejasse conhecer a biobibliografia de B. Lopes em um estudo crítico. Apenas no ano passado, foi publicado, integrando a Coleção Introdução aos Clássicos Fluminenses, o título B. Lopes – O poeta fidalgo (Nitpress, 2010), saneando esta carência. A quem devemos cumprimentar por essa bela coisa? Seu nome é Liane Arêas, trata-se de uma orgulhosa integrante do Cenáculo Fluminense de História e Letras e que, com o referido trabalho, não só debuta com seu primeiro livro quanto se mostra – incontestavelmente – uma competente e hábil pesquisadora literária. Dizemos isso, pois, a obra, por sua amplitude e consistência, nos permite entrever quanta disciplina, empenho e critério foram a ela dispensados.
Trata-se de um trabalho que, transcendendo aos vagos padrões qualitativos do meio acadêmico-literário, satisfaz aos rigores exigidos nos meios universitários, o que faz de Liane Arêas um notório saber quando o assunto é a poesia “belopeana”.
Contando com um ensaio introdutório que situa B. Lopes em seu contexto de época e em seu métier literário, Liane Arêas permite que conheçamos traços da personalidade do autor, de seu estilo e motivações poéticas. O reencontro com B. Lopes fica garantido quando a autora fala da formação do poeta e de sua aderência à intelectualidade da época; das raízes e origens daquela obra poética; da trajetória e dos inúmeros êxitos que o poeta acumulou e, por fim, do declínio e morte do poeta. Neste trajeto, é preciso ressaltar a coerência, a coesão e a atenção com que poesias de diferentes fases são analisadas, interpretadas e decifradas com um método muito parecido com o da crítica literária Bella Josef.
Atenção especial merece a segunda parte do livro. Trata-se de uma seleção bastante completa dos poemas de B. Lopes. Na verdade, tal seleção é tão completa e tão fidedignamente estabelecida (atendendo, inclusive, à requisitos filológicos) que, diante da escassez de novas edições das obras do poeta rio-bonitense, o livro, aqui em apreço, bem constitui fonte de acesso às poesias do autor. Um pouco do poeta no livro? Registremos aqui a beleza constante à página 131, retirada da obra Helenos (1901):

 
PARAÍSO PERDIDO

Outro, não eu, que desespero, ao cabo
De, em pedrarias de arte e versos de ouro,
Ter dissipado todo o meu tesouro,
Como os florins e as jóias de um nababo;

Outro, não eu, que para o chão desabo
Esquecendo-te as culpas e o desdouro,
E a teus pés de marfim, como o rei mouro
Em torrentes de lágrimas acabo;

Outro conspurca-te a beleza augusta,
Cujo anseio de posse ainda me custa
Como um verme faminto andar de rastros.

E mais deploro este meu sonho falso
Ao recordar que andei no teu encalço
Pelo caminho rútilo dos astros!”

Fraseologista exímio (como foi seu amigo Cruz e Sousa), o parnasiano B. Lopes, a meio caminho do simbolismo, revela aqui um talento que não pode ficar nas brumas. Daí, após estas palavras, é preciso fazer coro com editor Luiz Augusto Erthal quando, no prefácio ao livro enfocado, assevera: “Tamanha riqueza literária, tal história de vida, a magia daquela boemia efervescente e produtiva, na companhia de figuras notáveis de literatos como Machado de Assis e outros, que gravitavam entre a Confeitaria Colombo, os jornais, as livrarias e os cafés no final do século XIX, não são para serem esquecidas” (p.6).
Sim! Se depender do livro Liane Arêas o mundo e o universo poético de B. Lopes não será esquecido.

 
                                                                                      Liane Arêas em foto de Will Martins

Liane de Souza Arêas, natural do Rio de Janeiro. Professora, alfabetizadora, pedagoga, poetisa, escritora e fotógrafa expositora da Sociedade Fluminense de Fotografia. Cursos de extensão curricular: Literatura, Língua e Cultura Espanhola na Universidade de Salamanca/Espanha, Orientação Educacional na Empresa-RH e Psico-pedagogia na Empresa pela UFRJ, Filosofia da Educação Infantil/Pedagogo Lauro de Oliveira Lima, dentre outros cursos de alfabetização infantil no Colégio Brasil e na UPE-União dos Professores Estaduais e, para adultos, no antigo Mobral.  Manteve durante quatro anos o Curso Pré-escolar e Alfabetização Nosso Cantinho, onde preparava os alunos para o ingresso no Instituto Abel, São Vicente de Paulo, Centrinho... lecionou aula particular de Espanhol.  Integra as Diretorias do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Associação Niteroiense de Escritores, do Elos Clube de Niterói e do Centro da Comunidade Luso-Brasileira do Estado do Rio de Janeiro. É do Grupo Mônaco de Cultura/Livraria Ideal, do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói, da Associação dos Diplomados da Academia Brasileira de Letras, da Academia Guanabarina de Letras, do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro, da Sociedade de Cultura Latina do Rio de Janeiro e da Academia de Letras Rio Cidade-Maravilhosa...  Participa de antologias, revistas e periódicos em Niterói, no Rio de Janeiro e em outros estados. Possui vários Certificados: Jurada e Presidente de Júri em Concursos de Poesia, fotografia, e artes plásticas. Diplomas de Honra ao Mérito e Troféus, dentre estes:  Prêmio Niterói Cultura da ANE-Assoc. Niteroiense de Escritores; Troféu e Diploma 1º lugar Concurso Ensaio Literário/Aspectos Formadores da Cultura Brasileira/Academia Carioca de Letras/2001; Menção Honrosa XIX Salão de Arte Fotográfica AABB Niterói;  Ao Mérito Cultural Elos Clube e Comunidade Luso-Brasileira; UBT-Niterói/ XXXV Jogos Florais/ Escultura de Bronze;  X Prêmio de Poesia da ANE/Medalha de Bronze Florbela Espanca Edição Especial... Recebeu Moção Honrosa da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (Vereador José Carlos de Carvalho), da Câmara Municipal de Niterói (Vice-Presidente Dr. Fernando Nery de Sá) e da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (Vereadora Teresa Bergher).


20 comentários:

  1. Ana Paula Meganha25 de julho de 2011 14:37

    Rico, Roberto! Rico!

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  2. Caro Professor,
    a cada dia que passa você está mais erudito e escrevendo melhor...
    Gostei do post da Liane Areas!
    Parabéns aos dois!

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  3. Adorei ver Liane. O livro eu tenho aqui. Parabéns a ambos.
    Belvedere

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  4. O Historiador da Literatura25 de julho de 2011 15:31

    Para afirmar que Merquior é a notícia mais substancial sobre B. Lopes, certamente o autor do Blog não conhece as obras de Andrade Muricy e Melo Nóbrega. É preciso ter mais prudência em afirmar coisas deste gênero!

    Ass:
    O Historiador da Literatura

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  5. Resposta ao “Historiador da Literatura”:

    Conheço os livros de Andrade Muricy e de Mello Nóbrega (a propósito, o Mello é com dois “l”). Acontece que o “B. Lopes”, de Muricy, contido na Coleção Nossos Clássicos é de 1962; “Evocação de B. Lopes”, de Nóbrega, é de 1959 (sic!). Daí, como consta no início da postagem, tratei Merquior como o autor que traz a “(...) a última e mais substancial notícia” (...), o que não significa que seja a única tampouco apenas a mais substancial. Faltou, então, atenção de sua parte na hora de ler a postagem. Além desses títulos, ainda existem outros que certamente o colega conhece, trata-se de: Renato de Lacerda, com seu “B. Lopes, poeta singular” (1949) e Ângelo Longo, como o livro “B. Lopes, 71 anos de ausência” (1987). Este último, embora mais recente, não possui o mesmo estofo que o texto de Merquior, daí o livro do acadêmico da ABL ser referenciado aqui como o que traz algumas das notícias mais substancias e recentes sobre B. Lopes.

    Caro colega “Historiador da Literatura”, o Blog Literatura-Vivência terá sempre prazer em receber interlocutores dispostos ao diálogo franco. Sugiro, entretanto, uma boa lida no livro de Liane Arêas antes da próxima interação social.

    Obrigado por sua postagem,
    Roberto Kahlmeyer-Mertens

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  6. rsrsrsrsr,

    meu prof. responde na bochecha!
    eita home estressado!

    Piá

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  7. Já havia lido o trabalho de Liane - sério, denso, com linguagem clara, acessível, gostoso de ler.Parabéns para ela! Lena

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  8. Caro Roberto Kahlmeyer,

    Não sei se você sabe, mas seu blog já virou uma referência no que se trata da cultura de Niterói.
    Todos aqui na Universidade Estácio de Sá comentamos suas postagens e cobertura sempre atenta e inteligente!

    Andei vendo as postagens mais antigas: Geir, Placer, Fernando Pessoa, José C. de Carvalho...
    Essa moça, Liane Areas, deve estar nas alturas de felicidade em constar neste espaço!
    Quem não estaria, né?!

    Muito prazer,
    Marcia Bueno

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  9. Aderaldo Figueiredo25 de julho de 2011 18:41

    Como Bella Josef!!!
    Essa tal Liane deve ser boa mesmo, hein!
    Abraços
    Aderaldo

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  10. Renato Augusto Farias de Carvalho25 de julho de 2011 22:02

    Caro Roberto, posso afirmar a seriedade do trabalho de Liane Arêas. Sua dedicação a tudo que escreve é o resultado de uma vocação e de seu crescimento literário. Há uma afinidade de Liane com a produção poética daquele fluminense de Rio Bonito. Liane Arêas não desperdíça suas construções criativas: ela quase sofre em busca de um trato formalmente correto, limpo e sincero.Estou muito feliz com os comentários de hoje, ademais devo à Liane - ao seu entusiasmo - minha entrada no Cenáculo Fluminense de História e Letras, onde tenho como patrono o poeta jovem Junqueira Freire. Um cumprimento cordialíssimo aos dois e uma homenagem à memória do poeta em causa: B.Lopes -Renato Augusto Farias de Carvalho

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  11. Emmanuel de Macedo Soares25 de julho de 2011 22:02

    Ela incluiu o soneto "Cheirosa criatura"? Se não incluiu, me deixem com o Renato de Lacerda e o discurso do Olavo Bastos, que tá de bom tamanho.

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  12. Caro Roberto,

    Só tem elite frequentando e comentando seu Blog.
    Vou deixar um comentário aqui só para posar ao lado dessas feras!

    Abraços,
    Mauro

    Prof. Você dará alguma matéria de filosofia este semestre na UCAM?

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  13. Carlos Jose Rosa Moreira26 de julho de 2011 20:28

    Surpresa boa ver a Liane aí no blog. Merecido. Seu trabalho sobre B.Lopes é correto e claro, livro que deve estar presente nas bibliotecas. E a foto está ótima!
    Um grande abraço.
    Carlos Rosa.

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  14. Gostei do site, que é de muita qualidade. O trabalho da Liane Arêas é bem interessante, meus parabéns a ambos.

    Tatiana Carneiro dos Reis

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  15. Me encantou muito como Liane resgatou a vida e obra de Bernardino Lopes, um poeta que, não fosse por ela, teria continuado na obscuridade.Em uma época em que os negros eram escravos, Lopes sobresaiu-se como um dos poetas mais brilhantes . Agradeço a Liane ter nos mostrado esse homem.

    Richard Romero

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  16. Maria Clara Francisco3 de agosto de 2011 11:34

    É com um prazer imenso que encontro aqui a minha grande amiga Liane. Com ela tomei conhecimento da obra de Bernardino Lopes. Foi para mim muito gratificante, como o é sempre que me faz chegar seus escritos, claros, agradáveis, criativos, sensiveis. Parabéns amiga Liane! Parabéns ao autor deste agradável blog, que já está entre os meus favoritos. Muito gostoso de ler.
    Se me permitem, um abraço a ambos desde Portugal
    Maria Clara Francisco

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  17. Estou chegando agora aqui em Niterói, e pretendo conhecer a obra deste magnifico escritor. Irei adquiri obras dele o mais rápido possível. Conheçi a Liane no Cenáculo, e de perto percebi, que é uma grande pessoa, grande intelectual das letras. Talentosa. Abraços do ALBERTO ARAÚJO

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  18. Adorei o seu livro! Você nos trouxe à memória a lembrança de B. Lopes e apresentou-o como ‘o poeta fidalgo’ para aqueles que não o conheciam.

    A generosidade com a qual você o representa lembra-nos demais o estilo de Fernando W. da Cunha, em “A Teoria e o Seres”, o qual faz ressurgirem generosamente os grandes autores do passado.

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  19. Fico deveras (bem) impressionado e com desejo de conhecer melhor a Liane Arêas, cujo percurso pessoal e literário me inspira a prosseguir para a frente e para o alto. Gostaria de conhecer a sua poesia!
    Abraço.
    Jacinto Marques - Universidade do Minho - Estudos Portugueses e Lusófonos.

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  20. O livro de Liane Arêas é cuidadoso, palavras de poeta falando de poeta. Descortina a vida e obra de Bernardino Lopes com delicadeza. Revela pérolas de sua poesia e vivencia. Um marco neste tipo de pesquisa que não só demonstrou técnica como fez um mergulho carinhoso na vida do poeta com uma empatia de poeta.
    Papa goiaba da gema desconhecia o poeta. Vivendo fora do Estado do Rio há alguns anos me alertei de sua riqueza. Vou querer mais Liane, amiga de muitas décadas. Desconhecia a extensão de seu talento. Mas intuia uma fina percepção de sua pessoa.
    Henrique Boechat, médico psiquiatra e homeopata - Que comete alguns textos poéticos.

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