quarta-feira, 18 de maio de 2011

Sávio Soares de Sousa: minha indicação ao “Prêmio Intelectual do Ano” em 2011


Poeta, crítico literário e jornalista, foi professor de Latim e noções de Direito Usual na incipiente Universidade Federal Fluminense (UFF). Nascido em Niterói/RJ, em 1924, desde o início da década de 1950 colabora em suplementos literários, como Letras fluminenses, O Gládio e Prosa & verso, de O Fluminense. Atuante na vida cultural fluminense, é fundador de diversos grêmios e grupos literários, como Grêmio Literário Humberto de Campos (1944), Clube de Poesia de Niterói (1956), Grupo dos Amigos do Livro (1957); Associação Niteroiense de Cultura Latino-Americana (1964) e Grupo de Letras Fluminenses (1954). Participa de diversas instituições, entre elas, com destaque, as academias Fluminense e Niteroiense de Letras. Em 1965, manteve um programa radiofônico sobre poesia, intitulado Suave é a noite, na Rádio Sociedade de Nova Friburgo. Atualmente é um dos principais colunistas da Revista Bali - Boletim da Academia de Letras de Itaocara, dirigida por Kleber Leite.



Extrato de entrevista de Sávio Soares de Sousa, concedida a Roberto Kahlmeyer-Mertens


Sua formação em nível superior é no campo do Direito?

Sim, bacharelei-me em Direito por causa de meu pai. Eu sonhava com a carreira diplomática e com o magistério universitário. Estava na dúvida, e meu pai me falou: “ – Seria mais interessante que você fizesse Direito, pois eu já tenho os livros, a experiência, o escritório e a clientela”. Cursei a Faculdade de Direito, mas não tinha muito tempo para o estudo, porque, sendo de família pobre, era empregado bancário, com um horário absorvente, das 8 da manhã às 6 da tarde, e, assim, não fui o bom estudante que poderia ter sido. Com o diploma na mão, pensei comigo: “ – E agora: o que fazer com este canudo?” Advoguei por algum tempo, mas não me sentia com grande vocação para os debates forenses. Um dia, surgiu a oportunidade de tentar um concurso para o ingresso na Magistratura. Na data das inscrições, alguém, certamente um enviado de Belzebu, me falou assim: “ – Rapaz, você vai fazer papel de palhaço. Desde há muitas décadas, só passa nesses concursos quem seja apadrinhado. É um jogo com cartas marcadas. Só entra quem for filho de desembargador, ou de político, gente poderosa. Você é filho ou parente de desembargador? Seu pai não é um advogado influente e você não terá chance alguma. Não perca o seu tempo!” Ouvi o conselho, desisti da inscrição, rasguei a papelada... Joguei fora uma boa oportunidade. Verifiquei, depois, que entre os aprovados e nomeados figuravam muitos candidatos que não gozavam de nenhuma proteção ou favoritismo. Eu poderia ter sido um deles, imagino, porque, para suprir as deficiências do curso universitário, havia consumido noites e noites estudando Direito através da jurisprudência contida nos quatrocentos volumes da Revista dos Tribunais, adquiridos com esse objetivo.
Quem sabe não seria hoje um desembargador aposentado, na melhor das hipóteses? Alguns meses depois, abriram-se as inscrições para o concurso de ingresso no Ministério Público Estadual. Preparei a documentação necessária e no dia das inscrições me aparece, novamente, um desses emissários dos infernos, com a mesma cantilena. Não lhe dei ouvidos. Inscrevi-me, fiz o concurso e obtive ótima classificação. Fui nomeado Promotor de Justiça, exerci a função nas comarcas do interior por dez anos, e, finalmente, promovido por merecimento ao cargo de Procurador de Justiça, permaneci, durante vinte anos, no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, junto às Câmaras Criminais, emitindo pareceres, inclusive, em casos criminais de grande repercussão. Nesse cargo me aposentei aos sessenta e nove anos de idade, em 1991.

E a passagem para a literatura, como foi?

Também aí se fez sentir a influência de Doutor Osvaldo Soares de Sousa, meu pai, que era inteligente e culto, e amava a literatura, sabe? Ele exerceu a advocacia pela necessidade de sustentar uma família numerosa – quinze filhos, além de agregados. Sua biblioteca ocupava um cômodo inteiro de nossa casa modesta, e era rica de volumes valiosos. E assim é que ele nos reunia, aos filhos maiores, na sala de visitas, à noite, e lia para nós, com um entusiasmo que nos empolgava, poemas de Gonçalves Dias, Castro Alves, Olavo Bilac e os poetas de sua preferência. Nunca publicou livros, embora também fosse poeta e autor de numerosos sonetos, divulgados pelos jornais e revistas do seu tempo de moço.

A influência paterna é, então, determinante em sua história com a literatura?

Sem dúvida!

Mas há, também, os movimentos literários como a roda do Calçadão da Cultura, em cuja gênese o senhor se encontra.

É verdade. Tomei parte em alguns movimentos literários e grupos dedicados à expansão da cultura, sobretudo à democratização da cultura. Sempre fui avesso a círculos fechados, a panelinhas de elogio mútuo, focos, muitas vezes, da exclusão de autênticos valores. No caso do Calçadão da Cultura, as coisas aconteceram meio na base do improviso, compreende? Fui, durante muitos anos, o orador oficial do Grupo de Amigos do Livro, por opção do livreiro Silvestre Mônaco, a quem me prendiam fortes laços de amizade.

Mas como surge esse movimento literário? Imagino que movimentos como esses círculos devam surgir como coisa inesperada, espontânea? Ou teria havido um projeto, com diretrizes, estatutos?

Esses movimentos, em regra geral, brotam de um pequeno grupo, que idealiza certo tipo de organização, com objetivos definidos, e depois crescem, com a adesão de novos elementos, atraídos pela novidade ou pela oportunidade de revelar seus talentos. Aí, sim, há estatutos, manifestos, debates preliminares. Mas, como já lhe disse, no Calçadão da Cultura, nada se fez de caso pensado, não houve premeditação. Isoladamente, éramos todos frequentadores da Livraria Ideal, na época em que a livraria era só uma portinha, na Rua da Praia. Um dia, o Silvestre Mônaco, pai do Carlos, e primeiro proprietário, juntamente com o sócio Emílio Petraglia, resolveu ampliar as dependências da loja. Terminada a obra, ele nos convidou, a mim, ao Carlos Couto, ao Luís Antônio Pimentel e ao Roberto Silveira, para organizarmos a comemoração do acontecimento. Como contribuição pessoal, adquiri um livro de presença, para o registro do comparecimento de fregueses e para a lavratura das atas de reunião, quando houvesse, e o ofereci, no dia da festa, ao Silvestre. Em meio à festa, o advogado Manoel Martins sugeriu que se aproveitasse a oportunidade para lançar a pedra fundamental de um grupo permanente de leitores ligados à Livraria Ideal. Foi lavrada uma ata e assim surgiu, em termos positivos, o Grupo dos Amigos do Livro. Todos os presentes assinaram a ata e o livro de presença é, hoje, um documento histórico. A minha escolha para orador do Grupo foi, apenas, uma consequência da oferta do livro de presenças (risos).
Era uma turma boa: Roberto Silveira, Afonso Celso Nogueira Monteiro, Gomes Filho, Aurélio Zaluar, Marly Medalha, Milton Nunes Loureiro, De Azevedo Rolim, Luiz Magalhães, Sylvio Lago, Raul Stein de Almeida, Dayl e Lyad de Almeida, Arino Peres, e muitos outros... O Grupo passou a se reunir regularmente, e o Geir trouxe muita gente do Rio de Janeiro para nos visitar, como o crítico Agripino Grieco.

Muitos podem ter sido os acontecimentos dignos de serem narrados. O senhor lembra de alguns?

A história do grupo é bem divertida e variada... Existem muitas estorinhas... assim, de cabeça, poderia lembrar algumas (...)

(Esta entrevista estará publicada na íntegra no livro: Conversações com intelectuais fluminenses, a ser publicado até julho de 2011)

Confira, também,  a entrevista de Sávio Soares de Sousa concedida à escritora Belvedere Bruno no site Recanto das Letras:http://www.recantodasletras.com.br/entrevistas/2105336




 Rapsódia para sanfona: o si maior de Sávio Soares de Sousa 
Roberto S. Kahlmeyer-Mertens





Rapsódia é um tipo de composição musical de estrutura indefinida, reunindo vários temas de inspiração popular. Durante a Idade Média, rapsodos corriam as cidades cantando versos embalados por música. Com o passar do tempo, a música e suas letras em quadras ganharam acento erudito, a ponto de, hoje, conhecermos mais as obras célebres como a Rapsódias Húngaras de Liszt e a Rhapsody in Blue de Gershwin do que aquela forma original.
O livro Rapsódia para sanfona encaixa-se duplamente nessa descrição. Conjunto de muitos versos, reúne o popular e o erudito; as poesias de teor público e as maximamente autorais. A “rapsódia” de Sávio Soares de Sousa é uma seleta de trovas, gênero também secular e que o autor domina muito bem.
A obra obedece a uma interessante intuição, pretende retomar a forma erudita da trova e reconduzi-la a suas origens populares. Ora, se conhecíamos a tentativa de Fernando Pessoa em fazer isso (e seu êxito parcial), conheçamos o resultado feliz do livro aqui apreciado. As trovas de Sávio seguem a forma clássica: quatro versos metrificados, rimando o primeiro com o terceiro e o segundo verso com o quarto (que geralmente concentra o efeito estético do poema, em seu desfecho inesperado ou espirituoso).
Não falta espírito em Rapsódia para sanfona! O autor maneja a palavra de modo a brincar com provérbios, flertar com a literatura culta e a revisitar muitas das formas do simbólico. Constata-se isso quando – remetendo-se ao conceito de inconsciente freudiano – diz o poeta (p.14):

“Forças ocultas sabotam
a consciência do cristão:
- anjos rezando no sótão,
- diabinhos no porão.”

Repleta de graça, esta é trova em sua fórmula precisa. Mas destaquemos a deliciosa ambigüidade que o “porão” traz no referido contexto. Outra amostra é vista nestes versos (p.23):

“Atirei um limão triste
no rumo do teu olhar:
ingrato amor, não me viste,
nem me ouviste suspirar...”

Com carga dramática, o significado aqui está entremeado no gesto do amante ao jogar o limão. Esse, popularmente, traduz uma insinuação de amor, emprestando rara sutileza a esta e outras trovas que variam sobre o mesmo tema.
Se for certo que a poesia é inteligência e carisma, Rapsódia para sanfona é um livro que estaria pronto para convencer até o mais cético dos leitores quanto a essa premissa. A mesma impressão se confirma na edição do livro, que traz na capa uma das últimas ilustrações que o desenhista Miguel Coelho produziu, e a assinatura da Traço & Foto, editora que há bastante tempo publica nomes e títulos escolhidos a dedo.







Roberto S. Kahlmeyer-Mertens

13 comentários:

  1. Sergio Renato Bacellar20 de maio de 2011 15:20

    Parabéns pela indicação Roberto, faço votos que logre êxito e
    acrescente à sua carreira mais esta coroação!
    Forte abraço!
    Espero estar na entrega da
    Premiação!
    Att.

    ResponderExcluir
  2. Gilson Rangel Rolim20 de maio de 2011 15:21

    Roberto.
    Parabéns pela entrevista com o Sávio, figura ímpar na literatura fluminense, intelectual de primeira e, sobretudo, sem máscara; é o que é. Pelo que pude perceber na chamada, V. o está indicando para intelctual do ano; certamente será dos melhores até hoje escolhidos.
    Abç. Gilson

    ResponderExcluir
  3. Ele já deveria ter esse título, não acha???????????
    Belvedere

    ResponderExcluir
  4. Carlos Rosa Moreira20 de maio de 2011 15:22

    Roberto,
    Mais uma vez quero felicitá-lo pelo excelente trabalho que apresenta e nos presenteia. Bom gosto, conhecimento, profundidade são algumas das várias qualidades do seu blog.
    O nome de Sávio Soares de Souza é perfeito para o título de intelectual do ano. Pensei mesmo que já havia recebido o galardão. E Sávio é intelectual ímpar, com sua simplicidade, modéstia e vasto conhecimento, uma pessoa admirável. Mas acredito que para o futuro, o título de intelectual do ano precisará sair de um reduto: por justiça e por credibilidade. Existem pessoas em Niterói que fazem belíssimos trabalhos, mas não fazem parte de grupos. Profissionais que trabalham sozinhos, quase não aparecem, mas seus trabalhos atingem níveis de altíssima importância. Como exemplo dou a bibliotecária Maria José, que organizou o Centro de Memória Fluminense, preservando com esmero e técnica apurada a História deste estado, um trabalho realmente maiúsculo. Coloco também o trabalho de formiguinha do professor Emílio Eigenheer, salvando do lixo material riquissimo, todo ele canalizado para o Centro de Memória. Emílio treinou uma equipe de lixeiros em S.Francisco para coletarem coisas de aparência importante, o retorno tem sido ótimo, a História do Est. do Rio agradece.
    Esses são dois exemplos que fazem justa companhia ao querido Sávio. Esses três merecem, de verdade, uma medalha.
    Um grande abraço. Carlos.

    ResponderExcluir
  5. Marquinhos Godói20 de maio de 2011 15:25

    Poh!
    E depois de uma postagem dessa: "São Piazzolla!!!"
    Roberto, com sanfona ou sem, vc eh o cara!

    ResponderExcluir
  6. Renato Augusto F.Carvalho20 de maio de 2011 15:54

    CARO Roberto, já faz algum tempo que o nome de Sávio Soares de Souza merece receber a homenagem . Mais que intelectual do ano, o companheiro Sávio é INTELECTUAL DE SEMPRE ; um dos valores que mais admiro nesse fluminense é a sua paixão sincera pelas letras , objeto de uma maravilhosa módestia. Só os grandes talentos sabem ser assim. Eu e toda a " Torcida Arariboia " estão de parabéns. Vamos aplaudir de pé o acerto da escolha deste 2011. Abração do Renato Augusto.

    ResponderExcluir
  7. Grande Carlos Rosa! Disse exatamente o que sinto.
    Nossa cultura ainda tem ares de província. Poderia ser mais abrangente, valorizar talentos que não transitam nos círculos sempre divulgados pela mídia. Na verdade a impressão que temos é que existe apenas um grupo de cultura na cidade. E os demais? A cidade é riquíssima em talentos e é preciso que todos os meios de comunicação cedam espaço a eles.
    Um abração
    Belvedere

    ResponderExcluir
  8. ROBERTO,
    AINDA BEM QUE ESTA DÍVIDA COM O SÁVIO ESTARÁ, CERTAMENTE, SALDADA!
    HÁ MUITO ELE É CREDOR DA INTELECTUALIDADE FLUMINENSE... FALTA DE APLAUSOS NÃO LHE CABE!
    PARABENS PELA SUA INDICAÇÃO E A ELE POR ANTECIPAÇÃO.
    KLEBER LEITE

    ResponderExcluir
  9. Gilson Rangel Rolim27 de julho de 2011 13:31

    Prezado Roberto.
    Li na coluna de meu xará, em O Globo/Niterói, que o intelectual do ano será Waldenir de Bragança; é merecedor.
    Lamento que o nome do Sávio, tão bem sugerido por você, tenha sido descartado.
    Abraço,
    Gilson

    ResponderExcluir
  10. Waldenir de Bragança Intelectual do ano! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK... Agora conta aquela do papagaio!
    Falta de vergonha!

    ResponderExcluir
  11. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  12. O comentário anônimo relativo ao “Prêmio Intelectual do Ano 2011” foi suprimido por conter palavreado de baixo calão a respeito do contemplado deste ano. Literatura-Vivência é um veículo que conserva o espírito democrático e, obedecendo ao imperativo do respeito mútuo, não publica comentários com conteúdo ofensivo.

    ResponderExcluir
  13. Boa noite.
    Meu nome é César, e acabo de comprar um livro em um sebo, que era do Sávio Soares de Sousa. Moro em São Paulo, e gostaria de saber se vc sabe como posso entrar em contato com ele.
    Meu e-mail é cesarbarreira@hotmail.com
    Obrigado.

    Um abraço (e parabéns)

    ResponderExcluir