quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

"A morte de um leão", poema de Leconte de Lisle



Leão morto (Löwendenkmal), monumento em Luzern - Suíça
(Clique sobre a imagem para ampliá-la)
                                                                                                                 
            

                                                                                                                                 Leconte de Lisle

La mort d’um Lion


Étant un vieux chasseur altéré de grand air,
Et de sang noir des boeufs, Il avait l’habitude
De contempler de haut les plaines et la mer,
Et de rugir em paix, libre em as solitude.

Aussi, comme um damné que rode dans l’enfer,
Poour l’inepte plaisir de cette multitude
Il avait et venait dans sa cage de fer,
Heurtant les deux cloisons, avec sa tête rude.

L’horrible sort, enfin, ne devant plus changer,
Il cessa brusquement de boire et de manger:
Et la mort emporta son âme vagabonde.

Õ coeur toujours en proie à la rébellion ,
Qui tournes, haletant, dans la cage du monde,
Lâche, que ne fais-tu comme a fait ce lion?


A morte dum leão


Ávido do ar livre era um velho caçador
Ao sangue negro dos bois habituara-se
E do alto as planícies e o mar a contemplar.

No inferno vagando como um réprobo,
Desta multidão pro prazer estéril
Na janela de ferro andando pra lá e prá cá,
A rude cabeça contra dois tabiques batendo.

O infausto destino, por fim, agora consumado:
De beber e comer bruscamente cessou,
E a alma vagabunda a morte levou-lhe.

Oh, coração, pela revolta sempre atormentado,
O qual, arquejante, pra janela do mundo regressas,
Covarde, por que não ages como o fez este leão?








Divulgação Cultural
Clique na imagem para ampliar)



4 comentários:

  1. Marco Antônio Casagrande8 de fevereiro de 2012 10:53

    Bonito... toda vida

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  2. Bela postagem. A poesia de Leconte de Lisle e esse maravilhoso filme (e não esqueceu a Eva Green!). Parabéns, Roberto, tudo muito bom e bonito. Um abraço.
    Carlos Rosa Moreira.

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  3. Pois sim, veja só como tradução é uma coisa complicada.
    A versão para o português perdeu toda a graça da língua francesa, a métrica ficou comprometida, as rimas se perderam e o caráter de soneto caducou.

    Ainda assim, salve Leconte de Lisle!

    Vanelois

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    Respostas
    1. Cunha e Silva Filho5 de setembro de 2012 09:02

      Venelois Martin:

      Fico surpreso com a sua "crítica à minha tradução do soneto de Leconte
      de Lisle. Primeiro, porque o que você afirma haver da beleza da língua
      francesa no original é algo que, para mim , muito subjetivo.
      Se a língua francesa tem graça, tenho o direito igualmente de afirmar
      que o poema em português tem , repito, para meus ouvido de brasileiro ,
      a "graça” da língua portuguesa. Não é preciso que haja a mesma "graça"
      numa língua e na outra. Pura subjetividade carente de argumentação.
      Quanto a não me preocupar com a metrificação rigorosa do original,
      assim como com a rima, isso não é, a meu ver, vital ao pensamento
      sintetizando as ideias do soneto. Há compensações inúmeras à
      disposição do tradutor, e isso eu faço com responsabilidade no ato digno
      de verter para o meu idioma, respeitando a índole da minha língua, a
      sua sonoridade, a harmonia interna que só os ouvidos tortos não sabem
      perceber nem têm a sensibilidade para tanto. Ademais, não são só a rima
      e a métrica que propiciam ao tradutor a realizar uma boa tradução. O
      Modernismo de 45 já mostrou isso há muito tempo.
      Quanto a desqualificar o gênero do soneto, a prática me mostra que
      bons poetas brasileiros e estrangeiros modernos ainda utilizam este
      poema de forma fixa. Lembro-lhe que o soneto não "caducou, nem perdeu
      sua força nas mãos de um grande poeta, seja de que nacionalidade for.
      A métrica e a rima não são os únicos elementos que fazem a perfeição do
      soneto.O torneio que dou na tradução bem pode compensar a ausência
      desses dois elementos rítmicos e sonoros. Não vejo a beleza do soneto
      apenas por este prisma. A beleza está na sua comunicação, no arranjo
      sintático adequado ao vernáculo, que não pode se escravizar ao original.
      A força do soneto traduzido está na sua verdade semântica e frasal,
      sempre obedecendo a uma correspondência interna que o tradutor vai
      descobrindo no ato da transposição.
      Finalmente, recordo-lhe que tenho pela língua francesa, levado pelas
      mãos de meu pai que, por sinal, me lecionou francês na adolescência,
      o mesmo carinho que dedico ao vernáculo e faço minhas traduções por
      amor à cultura e à seriedade imprimidos ao que realizo no campo da
      literatura sem fronteiras.
      Repito-lhe que se a sua sensibilidade é embotada e não tem ouvidos
      musicais em língua portuguesa, isso não é culpa minha, como não é culpa
      sua não ter educação pelo que diz e, ao dizer, o diz mal.

      Cunha e Silva Filho

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