segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O que foi feito da Sala Luís Antônio Pimentel?...



Fachada da Biblioteca Pública de Niterói - BPN

No último dia 18 de setembro, recebi esta mensagem do jornalista, historiador e acadêmico Emmanuel de Macedo Soares:

 
“Caro Roberto,

Escrevi esse desabafo pensando no teu blog, que é hoje, sem favor, o melhor microfone de todos nós que nos metemos nesse inglório e doloroso fazer cultural.
Meu objetivo não é a crítica (pura ou impura) a quem quer que seja, embora o gesto idiota da Secretaria Estadual de Cultura  o mereça, mas sim despertar as manifestações deste teu público atento e participativo num desagravo coletivo ao nosso tão querido e tão indispensável Pimentel.
Deixo a teu critério, é claro, aproveitar ou não o escrito.

Grande abraço

Emmanuel”


O texto que se seguia à mensagem versava sobre um tema que todos comentam timidamente desde que a biblioteca estadual foi reinaugurada, mas que ninguém se encorajou a falar abertamente. Trata-se da retirada, depois da reforma, da placa que registrava a existência da Sala Luís Antônio Pimentel, naquele prédio (assunto que bem poderia ser estendido ao nome da Biblioteca que passou a não mais chamar Biblioteca Estadual Geraldo Montedoneo Bezerra de Menezes) para chamar Biblioteca Pública de Niterói – BPN.
Entendendo que a questão levantada pelo texto é isenta de qualquer interesse político menor, que não fustiga qualquer figura individualmente, e que demonstra o legítimo anseio por entender o motivo da retirada do nome de Luís Antônio Pimentel (personalidade que traduz longo e importante capítulo da cultura niteroiense) é que o texto é publicado em Literatura-Vivência.
É preciso lembrar que, em nosso meio, o termo intelectual, não raro, é utilizado em sentido lato (intelectual seria um indivíduo que atraiu para si a reputação de bom leitor, de indivíduo cuja inteligência se destaca da maioria, alguém com alguma cultura literária acumulada após ter vivido muitos anos de idade e até – pasmem – alguém que possui muitos livros...). Deste modo, na mesma proporção que preciosista e ingênua, ela é também equívoca e errônea, justamente por desconsiderar uma característica sem a qual o intelectual jamais poderia ser assim conhecido. Que característica seria essa? Resposta: a intervenção pública em favor da sociedade que este – mesmo sem mandato – representa (um intelectual sem intervenção pública se resumiria a ser um professor, um literato, um erudito, um orador de ocasião ou um medalhão na sociedade).
Literatura-Vivência, enquanto fórum de debates democráticos, entende ter obrigação política solidária junto aos membros da comunidade letrada; reserva-se, portanto a atitude racional, autônoma e crítica, além da intervenção pública toda vez que isso for necessário. Apenas assim pode pretender-se um espaço intelectual (stricto sensu).
Por sua vez, sem pretender ser a fala da sociedade, a intervenção de Emmanuel Macedo Soares não apenas buscar a compreensão das motivações do fato, quanto pró-voca (sic) a discussão, junto à comunidade letrada de Niterói, sobre este episódio de interesse coletivo.
O “desabafo” de Emmanuel Macedo Soares, na íntegra, é o que temos a seguir:



O que foi feito da Sala Luís Antônio Pimentel?...




Soube, por um amigo, que a Secretaria Estadual de Cultura retirou de uma das salas da Biblioteca Estadual o nome do nosso emblemático Luís Antônio Pimentel, sob a alegação de que a lei proibe homenagens a pessoas vivas.
Os governos em nosso país, como todos sabemos, são muito rigorosos no cumprimento das leis. A lei proíbe o cidadão de roubar e matar, e como o governo é um cumpridor intransigente da lei, vivemos nesse paraíso em que não há ladrões nem assassinos. Os poucos que aparecem são rigorosamente punidos com séculos de prisão.
Os nossos hospitais funcionam magnificamente, porque o governo cumpre religiosamente a constituição e as leis que garantem ao cidadão o direito à saúde. As escolas, nem se fala. Oferecem um ensino de altíssima qualidade, porque assim manda a lei e o governo é um fiel cumpridor das leis.
Mas vamos e venhamos. Eu cansei de cruzar na Avenida Amaral Peixoto com o comandante Amaral Peixoto, a caminho do PSD, que ali tinha sede. Vi o embaixador Paschoal Carlos Magno inaugurar no campo de São Bento o Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, aos beijos e abraços com um rapaz muito distinto que na falta de emprego melhor nomearam prefeito de Niterói. Não faz muito tempo, também vi o juiz Alédio Vieira Braga assistir a inauguração do Forum Trabalhista que leva seu nome em Niterói. No Rio de Janeiro há um autódromo com o nome de Nelson Piquet, que pelo menos até este momento em que escrevo ainda está vivo.
Por sobre isso, é infinita a quantidade de plaquinhas com que governadores, secretários, diretores e subdiretores disso e daquilo tentam imortalizar seus nomes toda vez que inauguram alguma obra pública, sem dar as mínimas para as leis. É bem capaz de até haver alguma na nova Biblioteca Estadual de Niterói.
Aliás, também o nome de Matoso Maia foi retirado da sala que apadrinhava, talvez porque a secretaria não saiba quem foi Matoso, ou ignore que ele já morreu.
Há exatos 50 anos eu conheço e convivo com o Luís Antônio Pimentel, e sei que ele está pouco se lixando para o gesto grosseiro da secretaria dita de Cultura. Sua imortalidade não depende nem precisa de plaquinhas. Não foi conquistada pelo fato de ser filho ou neto ou sobrinho de nenhum político, mas pelas obras que escreveu, pelas aulas que ministrou formando tantos jovens, e sobretudo pela irretocável conduta como ser humano, que felizmente ainda hoje serve de exemplo a todos nós.






25 comentários:

  1. Prezados leitores,
    Devido a uma participação num congresso de filosofia fora do país, estarei afastado das atividades de mediador do Blog até o fim da semana. Deste modo, alguns dos comentários poderão ficar temporariamente sem ser publicados, por dependerem de mim para serem efetivados. Espero que, com isso, vocês não deixem de comentar a atual postagem.
    Obrigado por interagirem com o Literatura-Vivência.

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  2. Como é bom ver a inteligência aflorar nessas terras de Arariboia!
    Senti falta da sala Pimentel lá na Biblioteca Pública de Niterói, mas nem passou pela cabeça perguntar nada.
    Aos intelectuais isso aparece como problema, eles nos mostram o que é digno de preocupação! São mesmo "antenas do povo", como diz o poeta.

    O texto do Emmanuel o que tem de contestatório tem também de poético (é uma crônica, se não repararam)!

    Por que este Bragança, em vez do outro, não ganhou o prêmio intelectual do ano?

    Sônia

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  3. Branca Eloysa Pedreira Ferreira20 de setembro de 2011 10:16

    Bom dia, Roberto!
    Acordei com seu blog sobre os dois amigos cuja amizade tenho a honra de compartilhar. O afeto que os liga é daqueles que, segundo Drummond, ultrapassam barreiras.
    E, você, tão novo, mostra uma sensibilidade apurada, que o ser humano comum está longe de ter.
    É chegada a hora de despertar no ambiente cultural de Niterói a busca da justiça e das injustiças que se cometem, apoiadas na ignorância e no poder.

    Um grande abraço.

    Branca Eloysa

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  4. Quer saber: achei uma grande covardia este ataque à Biblioteca Pública de Niterói – BPN. Ele fere o trabalho SÉRIO de profissionais vários, entre eles o da Diretora da Biblioteca Glória Blauth.
    A sala LUIZ ANTONIO PIMENTEL era coisa de antes da reforma, e a reforma foi boa de modo a não termos o que reclamar.
    É preciso pensar adiante e não ficar vivendo do passado.
    Um blog como esse precisa ter a responsabilidade de não atacar pessoas que fazem um bom trabalho pela cultura de Niterói.

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  5. Roberto,

    O blog tá melhor que o Letras Fluminenses!

    Graça

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  6. Qual é a verdade sobre o episódio da retirada do nome do Pimentel, um ícone na cultura da cidade? As explicações não convencem. Que tal um movimento efetivo a favor do retorno? Se bem que PImentel já atingiu um patamar que o isenta da vaidade que contamina a tantos.
    Gostei do que escreveu, Emmanuel. Tem meu respeito.
    Elaine Viegas

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  7. Resposta ao comentário anônimo: A postagem composta pelo texto de Emmanuel Bragança de Macedo Soares (com comentários introdutórios de minha autoria) não ataca a Biblioteca Pública de Niterói. A matéria intervém pública e criticamente problematizando um ato da Secretaria Estadual de Cultura, que a comunidade entende ilegítimo por desconsiderar a vontade coletiva de homenagear um “decano” da cultura de Niterói (às vésperas deste completar seu centenário de nascimento, vivo e atuante). É preciso dizer que, em momento algum, qualquer referência à pessoa da bibliotecária Glória Blauth foi feita e – já que o nome da Diretora da BPN veio à baila – aproveitamos para registrar o profundo respeito ao diligente trabalho que ela vem fazendo à frente daquela Biblioteca. Entendemos que sua objeção toma a crítica com conotação ética voltada a pessoas que estariam envolvidas no episódio. É claro que o texto possui uma dimensão ético-política, mas evitamos que privatizações de pessoas e instituições públicas transformem nosso posicionamento político-cultural em uma mera avaliação de virtude e vícios de indivíduos direta ou indiretamente ligados às instâncias estatais. Não cabe aqui cogitar se a retirada do nome da sala Luís Antônio Pimentel é produto do desvio moral de um dirigente ou de um burocrata qualquer (o que não deixaria de incorrer na falácia do narcisismo político), mas de considerar a atitude que uma instituição pública tomou contra a Sociedade a qual ela serve. Covardia, neste caso (antes mesmo apresentar argumento tão contundente por trás da máscara do anonimato) seria conservar-se em silêncio, num retraimento permissivo, diante de uma lógica e políticas culturais que, no afã de implementar o que entende por moderno e padronizado, julga poder volatizar o legado dos que trabalharam por décadas fornecendo referências que balizam a identidade de nossa cultura e comunidade. Não negaríamos que a reforma da BPN foi ótima e muito louvável (como foi dito no comentário anônimo), mas, como na música que, não por acaso, encerra a presente postagem: “Se muito vale o já feito, mais vale o que virá” até porque (novamente citando a música) “o que foi feito é preciso conhecer para melhor prosseguir”. Esfumaçar a Sala Luís Antônio Pimentel significa andar na contramão desse ensinamento que, sem dificuldade, conseguiria embasamento em sábios como Hegel e Marx. Um povo que se acovarda diante atitudes arbitrárias como a que tratamos neste “post” em breve estará se perguntando (como uma vez mais diz a música): “O que foi feito, amigo, de tudo que a gente sonhou...”

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  8. Marcelly Vespasiano20 de setembro de 2011 13:28

    Como diria Odair José: ♪♫♪ "Ele bateu forte, bateu sim!..." ♪♫ Aiii como eu toh bandida! Celly

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  9. Emmanuel de Macedo Soares20 de setembro de 2011 14:57

    Quer saber? Covarde é quem não assina o que escreve. Se dependesse de mim, todo anônimo devia ser condenado a ler pelo menos um livro por ano.

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  10. Emmanuel, de preferência ler Guimarães Rosa, Brecht, por aí......
    Abraços
    Edna

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  11. Ricardo Augusto dos Anjos23 de setembro de 2011 10:52

    Assino embaixo. Transforme-se em panfleto e distribua-se à farta. Na veia, Emmanuel!

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  12. Retornando às atividades de mediação, passo a postar os comentários que aguardavam por moderação.

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  13. Roberto,

    Já estou em negociação com a Sec. de Cultura do Rio.
    Obrigada pela preocupação.
    Um abraço,

    Graça Porto

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  14. Kahlmeyer e Emmanuel:

    É isso mesmo!
    A atitude desqualifica o Luís Antônio Pimentel.

    Vergonha!

    Salve Pimentel sempre!

    Simone

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  15. Pois é,

    Tiram o nome da Sala Luís Antônio Pimentel, e da própria Biblioteca que se chamava Geraldo B. de Menezes(dois homens de cultura), e dão o nome do espaço da Imprensa Oficial do ESTADO o nome daquela vedete Leila Diniz...

    Quem sabe se o pimentel fosse vedete, né!?...

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  16. Adoramos a repaginação da Biblioteca, mas tira o nome da sala eh esculaxo!

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  17. Alcirema Perlingeiro24 de setembro de 2011 08:20

    Dá e toma, morde e assopra, encaminha e descaminha... para onde vai a política cultural de nosso estado!

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  18. Pimentel tinha era que dar nome a Biblioteca,e não ter seu noma apagado dela. Trata-se de um testemunho vivo da história da cidade. Isso tem de ser valorizado. Bola fora SEC!

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  19. Onde estão os "Intelectuais do Ano" que não se pronunciam numa hora dessas? Cambada de arroz de festa! Fanfarronice!

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  20. Sim, era a hora de fazer por merecer o título!

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  21. Wanderlino Teixeira Leite Netto24 de setembro de 2011 08:31

    Caro Roberto,

    A palestra do Cesar Ornellas na ANL foi um sucesso. Parabenizo-o pela indicação. O mesmo brilho desejo para você na Lituânia. Abç. Wanderlino

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  22. Cada vez que leio o Emmanuel gosto mais da prosa dele.
    Cáustico e franco! Itens em falta nos meios culturais (em Niterói, Por exemplo).

    É por essas e outras que o Blog do Kalhmeyer tem NÍVEL!

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  23. Kahlmeyer, gostei da intervenção!
    Você é mais articulista que mediador. Trata-se de uma fala lúcida!

    Yedda Marins

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  24. Kahlmeyer,

    A opção da música não poderia ser melhor. Um dos pontos altos de seu blog são os vídeos. Sempre cotextualizando!

    Você não tem assistido as aulas do pós-doutorado?

    Bjs
    Priscilla

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  25. A presente postagem de “Literatura-Vivência” recebeu atenção de todos que reconhecem o valor e prestígio do escritor Luís Antônio Pimentel. Diversos veículos ajudaram a divulgar o episódio da retirada do nome de Luís Antônio Pimentel da Biblioteca pública. Até mesmo jornais impressos noticiaram o episódio denunciado por Emmanuel de Macedo Soares em nossa postagem. No “Jornal DIZ” desta semana, a coluna de Edgard Fonseca veiculou matéria que une esforços na reversão do registrado quadro crítico. O texto em seguida é reprodução integral do artigo de Edgard Fonseca, a quem – de antemão – agradecemos o apoio da divulgação do caso:


    “APAGANDO HOMENAGENS

    Faço minhas as palavras de protesto do meu amigo Emmanuel de Macedo Soares que ao saber da retirada da placa que continha o nome de nosso querido escritor e poeta Luís Antônio Pimentel numa sala da ‘Nova Biblioteca de Niterói’, (sob alegação de que a lei não permite homenagens a pessoas vivas), reagiu numa carta onde ele faz comparações e analogias muito pertinentes. Não se pode homenagear alguém que nos legou um bem literário, exemplo de caráter e continua, graças a Deus, bem vivo, nos seus quase cem anos. A lei não permite! Este mesmo rigor devia ser aplicado aos ladrões da coisa pública, a eficiência das escolas e hospitais, a garantia da nossa segurança e por aí vamos nós...
    Emmanuel cita, sem nada, a recente inauguração de um “Fórum Trabalhista” que leva o nome do Alédio Vieira Braga, que está bem vivo, assim como o autódromo Nelson Piquet, que o homenageado, como se sabe bem está bem vivo e saudável. De resto, retiraram a placa do Matoso Maia, certamente por desconhecimento, acreditando-se que continua vivo. Este, somente na memória (e de poucos informados), pois já se foi e poderia desfrutar da homenagem pelo ‘benefício da morte’.
    Que pena... Está tudo fora do lugar...
    Quem quiser ler a integra da carta de Emmanuel Macedo Soares pode acessar: http://literaturavivencia.blogspot.com/2011/09/o-que-foi-feito-da-sala-luis-antonio.html, escrita para Roberto Kahlmeyer-Mertens”.

    (FONSECA, Edgard. Apagando homenagens. In: “Jornal DIZ”. Niterói: Jornal/Semanal. Ano. 02 – N. 44, segunda quinzena de setembro de 2011. p.6).

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