sábado, 28 de maio de 2011

“Exploremos o petróleo, já basta de exploração" : a literatura engajada de Luís Antônio Pimentel

Com a recente descoberta das reservas petrolíferas do pré-sal em nossa costa, os olhos de todas as empresas multinacionais exploradoras de petróleo estão voltados para o Brasil. Tal fato faz com que nos preocupemos com a boa utilização desta fonte de energia responsável, em muito, pelo crescimento econômico de nosso país.
A preocupação com esta fonte de riqueza – entretanto – não é recente. Muito pelo contrário, data da década de 1940 quando uma série de conferências sobre que destinação dar ao petróleo brasileiro deflagrou um movimento contrário a abertura do mercado petrolífero ao capital estrangeiro e em favor do monopólio estatal. “O Petróleo é nosso” surgiu, assim, como um dos movimentos de opinião pública mais vigorosos da história política brasileira, tornando-se conhecido de todos os brasileiros. O movimento que envolvia algumas das melhores cabeças pensantes do país (Monteiro Lobato, Apparício Torelli, Juarez Távora, Fernando Lobo Carneiro...) também contou com o apoio do poeta e jornalista fluminense Luís Antônio Pimentel.
O que vemos nesta postagem é o texto que Pimentel escreveu unindo forças ao projeto do Estatuto do Petróleo, cuja ideia fora lançada em 21 de abril de 1948. Nesta balada, escrita em 1948, Pimentel defende que, se for para entregar as reservas petrolíferas ao capital estrangeiro, é melhor que se o mantenha no chão. Tese que não é de todo improcedente mesmo nos dias atuais.

Temos aqui o texto integral de Balada do Petróleo, estabelecido com notas dos nomes e fatos datados (explicações estas fornecidas sob consulta ao próprio Luís Antônio Pimentel e a Manoel Casimiro Lopes - Manekolopp,  outro veterano na luta em defesa do petróleo brasileiro). Além do texto anotado, há também o vídeo no qual Pimentel recita a Balada do petróleo (gravação feita por iniciativa de Paulo Roberto Cecchetti).

(Luís Antônio Pimentel na caricatura de Ildo Nascimento)
                                                                                                                                   http://www.ildonascimento.com/



Balada do Petróleo

Luís Antônio Pimentel

Consumam nossas divisas,
comprem passas sem caroço
pentes-finos de ariano
pra cabelo de mulatos,
laranjas da Califórnia,
sal fino bretão, em vidro,
palitos de Portugal,
comprem figos, “petit-pois”,
comprem feijoada em lata,
cabides de massa plástica,
pra pendurar nossa tanga;
gastem ouro em profusão.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Acelerem Areal, (1)
marquem passo em Macabu,(2)
para que ter luz elétrica
onde existe lampião?
Entreguem de uma só vez
a nossa indústria de vidro
e a de motor de avião.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Generais Horta Barbosa,
José Pessoa e Estillac,(3)
generais Pedro de Pinho
e Cordeiro de Farias
militares patriotas,
mostrem às Forças Armadas
que defendem a nação
que o nosso fim será triste
caso haja indecisão.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Meus companheiros do povo,
soldados e marinheiros,
senhores de anel no dedo
e homens de pé no chão,
vão ouvir Mattos Pimenta,
Rafael, Osório Borba,(4)
Fernando Lobo Carneiro (5)
ou o Carnaúba e o Barão.(6)
Vão ouvir os jornalistas
que não traem a profissão,
e escrevam pelas paredes
a piche, tinta ou carvão:
“exploremos o petróleo,
já basta de exploração!”.
Não entreguem o petróleo
deixem-no ficar no chão!
Emprestem dinheiro à Light
pra desservir a nação,
façam senador Filinto (7)
da Rua da Relação,(8)
e convidem o Plinoca (9)
pra deitar falação,
peçam logo ao Chico Campos (10)
nova constituição,
entreguem rotas aéreas,
bases e navegação.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Companheiro revoltado,
em sinal de desacato,
reze uma prece a Lobato,(11)
passe a mão no violão
e faça um samba sentido;
como o laurindo da FEB (12)
cante cheio de emoção:
“façam guerra se quiserem,
que eu seguirei no escalão”.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Mandem cunhar moedas de ouro,
liquidem nosso alumínio
quando ainda em embrião,
rompam com os Soviets
e, aproveitem, chamem Pina (13)
para tomar um pifão;
contestem que Salazar
é Franco em segunda mão.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Paguem aos moços da SAB,(14)
com o dinheiro do povo,
pra fomentar confusão,
fechem sedes de partidos,
cassem todos os mandatos
(de Barreto Pinto, não!).(15)
Cometam desatinos,
a hora é a da reação,
torpedeiem Ademar, (16)
façam mesmo intervenção.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Façamos com o petróleo
o que foi feito com o carvão.
Cerremos todos fileira
pra que não o entreguem, não,
pois a Pátria Brasileira,
ante a atitude estrangeira,
quer seu petróleo em seu chão!

(PIMENTEL, Luís Antônio. Balada do Petróleo.
In: Jornal de Debates. Dir. Mattos Pimenta. 20/11/1948. p.5)


Notas:


1. Usina hidrelétrica do rio Piabinha, no Município de Areal – RJ
2. Usina hidrelétrica do rio Macabu, no Município de Macaé – RJ, Pimentel critica, em 1948, a morosidade das obras iniciadas em 1931.
3. Pimentel convoca militares nacionalistas ligados ao Clube Militar de onde nasceu o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo, entidade civil que defendia o monopólio estatal do petróleo. A saber: General Júlio Caetano Horta Barbosa, Marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, General Estilac Leal e Osvaldo Cordeiro de Farias.
4. O poeta nomeia jornalista da época engajados com a campanha do petróleo, entre eles Mattos Pimenta, editor do Jornal de Debates e Osório Borba (cujo epíteto era “o homem que cuspia marimbondos” dado a sua virulência contra o governo Dutra, que pretendia abrir a exploração do petróleo ao capital estrangeiro).
5. Fernando Lobo Carneiro era engenheiro de cálculo da Escola de Engenharia e um dos defensores do petróleo brasileiro.
6. Deputados que defendiam a campanha “O petróleo é nosso” (um dos movimentos de opinião pública mais vigorosos da história política brasileira). O segundo é Apparício Torelli, mais conhecido como “Barão” de Itararé.
7. Filinto Müller, chefe da polícia política de Getúlio Vargas. Por sua truculência, Filinto Müller ostenta o título de “Patrono dos torturadores brasileiros”.
8. Rua na qual ficava situada o presídio destinado aos presos políticos no período do Estado Novo.
9. Apelido irônico dado a Plínio Salgado, líder do Movimento Integralista Brasileiro. Conta-se que este político, embora não possuísse dotes de oratória (como voz e presença física), era afeito a fazer falas públicas longas e geralmente enfadonhas.
10. Francisco Luís da Silva Campos redator da Constituição Federal de 1937 (Conhecida como “Polaca”) que em muito serviu aos interesses do governo de Getúlio Vargas.
11. O pedido de prece se justifica pois, após sua morte em 4 de julho de 1948 (meses antes da publicação desta balada), Lobato se torna uma espécie de “santo padroeiro” do movimento em defesa do petróleo).
12. Em depoimento oral, o próprio poeta Luís Antônio Pimentel noticia que a referência a “Laurindo da FEB” tanto se refere ao personagem fictício da música “Cabo Laurindo”, quanto da música “Laurindo” ambas de sucesso entre os anos de 1946-48 (leia as letras e ouça os dois sambas nos respectivos links desta nota).
13. Pina (cujo nome completo não conseguimos averiguar) foi um político brasileiro alcoólatra que, sob efeito do álcool, fez uma série de considerações depreciativas ao modelo soviético, episódio que teve repercussão internacional.
14. Deputado Federal Eduardo Barreto Pinto, cassado 1946 por ter se deixado fotografar pela revista O Cruzeiro trajando a parte de cima do fraque e cuecas (confira a referida foto no link).
15. SAB – Sociedade de Amigos do Brasil. Na época instituição ligada ao movimento integralista.
16. Ademar Pereira de Barros, político paulista de grande influência entre as décadas de 1930-1960. Ex-governador de São Paulo.



Balada do Petróleo
na voz de Luís Antônio Pimentel
(março de 2011)





quarta-feira, 25 de maio de 2011

Sandro Rebel: poeta anticonvencional e valor campista na cunhagem/resgate da identidade fluminense.

Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.


Subsídios para a história de um Calçadão, por Sandro Pereira Rebel



Na Livraria Ideal,
em clima sempre de festa,
e de maneira informal,
o saber se manifesta.
Lá é sede da cultura,
pois é no seu Calçadão
que a arte e a literatura
têm força e dimensão.
De expressão, tem muita gente,
muito talento de escol,
que lá, aquele ambiente,
refulge que nem o sol.
Mas refulge, na verdade,
e difunde erudição,
com a maior simplicidade,
sem qualquer afetação.


(...)

E é por essa mesma trilha
que se guia o Pimentel,
pois com todos compartilha
seus saberes, a granel.


(...)

Quem ainda da poesia
faz do seu manejo um dom
que cultiva com maestria,
é a Beatriz Chacon.
E no que diz com escritora,
a todos sensibiliza
a riqueza criadora
que tem Branca Eloysa.
(...)


Assim como lá fulgura,
de pena e palavra fácil,
a admirável figura
do ilustre Doutor Horácio.

Lutterbach é outro vulto
que, por muito respeitado
como inteligente e culto,
há de aqui ser exaltado.
Mas, não posso me olvidar
de, entre tantos luminares,
mencionar e ressaltar
o ilustrado Hugo Tavares.
E, com um jeito de menino,
no calçadão também luz
o poeta Wanderlino,
com a sua Lena Jesus

(...)

Outra presença bem cara,
afável como um deleite,
provém da bela Itaocara:
a do Doutor Kleber Leite.
Entre, assim, pessoas tantas
que lá estão pra se aplaudir
há o Chaudon, o Lívio Dantas
e os Sousas: Sávio e Gercy.

(...)

Tem mais gente que vai lá,
mesmo sem muita freqüência,
como o Lyad, do haicai,
poeta de excelência.
Loretti, grande orador,
e o Nery, vereador.

(...)


E tem o Waldir Carvalho,
que, da história até o romance,
sabe dar ao seu trabalho
mais um atraente alcance.



(...)


é mais outro que enriquece
as divertidas manhãs
que a Livraria Oferece.
E pra que a gente italiana
com a brasileira se irmane,
mais o Calçadão se ufana
de ter lá o Júlio Vanni.

(...)

Tem a Maria, cantora,
com seu par, o Francisconi,
tem Neide, a declamadora,
e a edil Maria Ivone.
Tem o Oswaldo, jornalista,
tem o Cecchetti, do “Cais”,
Leda Jorge, musicista,
Heitor Cruz e Armando Vaz.

(...)

Carlinhos, o livreiro,
na cidade é o Principal
é o mais firme timoneiro
da agitação cultural.

 

(...)

No Calçadão, mais saudade,
uma outra, enorme, ficou,
das sementes da amizade
que o Sérgio Cid plantou.
À guisa de pós-escrito,
antes, pois, de terminar,
faço questão de contrito,
um apelo aqui deixar.
É que, face a tanta gente
que freqüenta o Calçadão,
com certeza, inconsciente,
cometi muita omissão.

E deixei de registrar
a presença de pessoas
que aqui deveriam estar,
recebendo também loas.
 Que saibam me perdoar,
todas essas que esqueci:
este o apelo que, ao findar,
quero a elas dirigir.
Pois, até sendo diversos,
seus nomes hei de lembrar,
quando um dia estes meus versos
resolver continuar.
 


(REBEL, Sandro Pereira. Subsídios para a história de um Calçadão.
Niterói: Muiraquitã, 1996.)








domingo, 22 de maio de 2011

Dalcídio Jurandir segundo José Cândido de Carvalho, literaturas singelas e telúricas

Quem são os “atores” da Renascença Fluminense? As postagens anteriores suscitaram perguntar como essa. Essas desejam saber se teríamos talentos que pudessem encabeçar a proposta de um renascimento da cultura literária fluminense (e, se caso houvesse, quem seriam essas figuras). As postagens que se seguirão a esta vêm responder a essas indagações. Apresentaremos alguns dos escritores que compõem o significativo cenário da literatura fluminense (sejam eles vivos-atuantes ou pertencentes a um passado ainda muito vigente). Consideremos homenageados os nomes aqui contemplados; estejamos, pois, preparados para o que é reconhecido como o melhor e o mais louvável na literatura feita no Rio de Janeiro.


                                 (José Cândido de Carvalho na caricatura de Appe) 


Dalcídio Jurandir: Um homem do país das águas


José Cândido de Carvalho
É uma das criaturas mais simples deste país de gente importante. E também um de seus maiores escritores. Antigamente, de pés descalços e braços nus, corria pelas campinas de Marajó atrás das borboletas azuis que não eram de Casimiro de Abreu. Hoje, de borzeguins e paletó-saco, percorre a rua do Catete e anexos atrás da vida. É Dalcídio Jurandir. Um romancista tão grande como sua ilha.

A lua e a chuva

Veio do país das águas, de uma terra que Deus, em fim de obra, deixou sem retoques. Por isso Marajó ficou assim grandona, capaz de engolir vários países. Braba, tosca, mal saída da forma de Deus. Inchada! Não pensem que as noites de Marajó são como as outras noites. Que esperança! Quando a lua vem a furo é maior que a roda de um carro de boi! Quando chove nos campos da cachoeira é como se o Dilúvio voltasse! É a aurora do mundo à disposição de todos nós. De graça.

 

Sem pressa e sem atropelos


Não é fácil falar com Dalcídio Jurandir do Grão Pará. É um Jurandir arredio, bicho de concha, que aparece nas casas de livros na boquinha da noite. Olha um volume, olha outro, dá dois dedos de prosa ao famoso mercador Carlos Ribeiro, da Livraria São José, para desaparecer como veio. Suavemente, sem fazer barulho, que o lema desse mestre de modéstia é o mesmo de Valdemar Cavalcanti. Isto é, entrar na fila, não atrapalhar os outros. E assim tem vivido Dalcídio Jurandir. Sem atropelar ninguém.


A importância de usar pasta

Enfim, estou de Dalcídio Jurandir em pauta. Vou caminhando com simplicidade pela Rua São José. Cachos de cigarras desfolham dos pés de pau. À tarde começa a encerrar o expediente. Senhores apressados, tinindo em seus colarinhos, passam empurrando avassaladoras pastas. Dalcídio sorri para informar que sempre teve grande grande respeito pelos portadores de pastas. Principalmente pastas negras. No mínimo são diretores-gerais ou banqueiros em trânsito para os dez por cento ao mês. No mínimo!

Farinha-d’água dos seus beijus


Conversa vai e conversa vem. Pergunto pela sua bem trabalhada e lavrada existência de escritor. E Dalcídio:

− Mal ou bem, venho mergulhado nesse barro há mais de trinta anos, seu doutor. Todo o meu romance, distribuído em vários volumes, é feito, na maior parte, da gente mais comum, tão ninguém, que é a minha criatura de Marajó, Ilhas e Baixo Amazonas. Um bom intelectual de cátedra alta diria: são as minhas essências, as minhas virtualidades. Eu digo tão simplesmente: é a farinha d’água de meus beijus. A esse pessoal miúdo que tento representar em meus romances costumo chamar de aristocracia de pé no chão. Modéstia à parte, se me coube um pouco do dom de escrever, se não fiquei por lá, pescador, barqueiro, vendedor de açaí, o pequeno dom eu recebo como um privilégio, uma responsabilidade assumida, para servir aos meus irmãos de igapó e barranco. Entre aquela gente sem nada, uma vocação literária é coisa que não se bota fora. A eles tenho de dar conta do encargo, bem ou mal, mas com obstinação e verdade. O leitor que acaso folheie um dos meus romances pode logo achar o estilo capenga, a técnica mal arranjada, a fantasia curta, mas tenha um pouco de paciência, preste atenção e escute um soluço, um canto, um gesto daquelas criaturas que procuro interpretar com os pobres recursos de que disponho.

E, a propósito, lembra Dalcídio Jurandir de seu velho tio de Cachoeiras, barbeiro e cozinheiro, uma espécie de Brillat-Savarin de comarca, gênio de um prato só: o picado fradesco. E Dalcídio: − Não tenho no romance as malhas da perícia que tem meu tio na cozinha. Mas vou fazendo, a meu modo, o meu picado fradesco...

Para no meio da rua, diz que está falando demais, que a tarde despenca muito bonita para a gente tratar de coisas de letras redondas. E volta ao Jurandir bicho de concha. Quase sem fala. De corda quebrada.
(...)”

(CARVALHO, José Cândido. Ninguém mata o arco-íris – 35 retratos em 3x4. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1972. p. 55-58.)

(Dalcídio Jurandir em caricatura assinada por Appe)


Esta postagem é dedicada, In Memoriam, a José Roberto Freire Pereira, articulista literário e curador da obra de seu pai, o modernista Dalcídio Jurandir. José Roberto lutava pelo resgate da obra do pai e escolheu Niterói para desenvolver seu trabalho.

José Roberto Freire Pereira
1941-2011


Conheça mais da Obra de Dalcídio Jurandir
e do trabalho de José Roberto Freire Pereira em:




Conheça mais da obra de José Cândido de Carvalho em:











sábado, 21 de maio de 2011

Cobertura fotográfica da posse de Marco A. Lucchesi na ABL

Nesta noite de sexta-feira, dia 20 de maio de 2010, empossou-se na cadeira número 15, da Academia Brasileira de Letras o escritor carioca Marco Américo Lucchesi. A cerimônia solene contou com um grande e seleto público. Esta postagem, mais figurativa que narrada, retrata esta noite memorável.

Marco Americo Lucchesi profere seu discurso de posse.


              O Novel-acadêmico assume a cadeira 15,
                       patronímica de Gonçalves Dias.


                     Marco Lucchesi recebe o espadim
               das mãos do acadêmico Eduardo Portella.


               Lucchesi ao lado de Cleonice Berardinelli,
                            Arnaldo Niskier e Lêdo Ivo.


 O imortal Marco Lucchesi ladeado pelos amigos
 Roberto Kahlmeyer-Mertens e Carlos S. Mônaco

                    

         Um colóquio entre Pedrosa, Portinari e Luiz Erthal.



Roberto Kahlmeyer-Mertens acompanha a acadêmica Cleonice Berardinelli.

Marco Lucchesi, Julio Vanni e Márcia Pessanha.

          O editor Luiz Erthal, o livreiro Carlos Mônaco e
                    a professora Marcia Pessanha (UFF)
              conversam sobre literatura com o acadêmico
                                  Murilo Melo Filho.



      As tertúlias literárias deram o tom do congraçamento: 
                      o professor Kahlmeyer-Mertens
                      com o imortal Murilo Melo Filho.



O professor emérito João Luiz Duboc Pinaud
com o livreiro Carlos S. Mônaco

Os professores Dr. Roberto Kahlmeyer-Mertens
e Dra. Marcia Pessanha
na posse do acadêmico Marco Lucchesi 


Marcia Pessanha e Júlio Vanni
(Presidentes da Academia Niteroiense de Letras e do Cenáculo Fluminense de História e Letras, respectivamente)
na posse do acadêmico Marco Lucchesi


        Carlos Mônaco e o casal Sérgio e Beatriz Chacon


     (Da direita para a esquerda) Roberto Kahlmeyer-Mertens
               e seu editor Luiz Augusto Erthal (Nitpress)


Matéria de O Fluminense sobre a posse de Marco Lucchesi na ABL em 28 de maio de 2011:









quarta-feira, 18 de maio de 2011

Sávio Soares de Sousa: minha indicação ao “Prêmio Intelectual do Ano” em 2011


Poeta, crítico literário e jornalista, foi professor de Latim e noções de Direito Usual na incipiente Universidade Federal Fluminense (UFF). Nascido em Niterói/RJ, em 1924, desde o início da década de 1950 colabora em suplementos literários, como Letras fluminenses, O Gládio e Prosa & verso, de O Fluminense. Atuante na vida cultural fluminense, é fundador de diversos grêmios e grupos literários, como Grêmio Literário Humberto de Campos (1944), Clube de Poesia de Niterói (1956), Grupo dos Amigos do Livro (1957); Associação Niteroiense de Cultura Latino-Americana (1964) e Grupo de Letras Fluminenses (1954). Participa de diversas instituições, entre elas, com destaque, as academias Fluminense e Niteroiense de Letras. Em 1965, manteve um programa radiofônico sobre poesia, intitulado Suave é a noite, na Rádio Sociedade de Nova Friburgo. Atualmente é um dos principais colunistas da Revista Bali - Boletim da Academia de Letras de Itaocara, dirigida por Kleber Leite.



Extrato de entrevista de Sávio Soares de Sousa, concedida a Roberto Kahlmeyer-Mertens


Sua formação em nível superior é no campo do Direito?

Sim, bacharelei-me em Direito por causa de meu pai. Eu sonhava com a carreira diplomática e com o magistério universitário. Estava na dúvida, e meu pai me falou: “ – Seria mais interessante que você fizesse Direito, pois eu já tenho os livros, a experiência, o escritório e a clientela”. Cursei a Faculdade de Direito, mas não tinha muito tempo para o estudo, porque, sendo de família pobre, era empregado bancário, com um horário absorvente, das 8 da manhã às 6 da tarde, e, assim, não fui o bom estudante que poderia ter sido. Com o diploma na mão, pensei comigo: “ – E agora: o que fazer com este canudo?” Advoguei por algum tempo, mas não me sentia com grande vocação para os debates forenses. Um dia, surgiu a oportunidade de tentar um concurso para o ingresso na Magistratura. Na data das inscrições, alguém, certamente um enviado de Belzebu, me falou assim: “ – Rapaz, você vai fazer papel de palhaço. Desde há muitas décadas, só passa nesses concursos quem seja apadrinhado. É um jogo com cartas marcadas. Só entra quem for filho de desembargador, ou de político, gente poderosa. Você é filho ou parente de desembargador? Seu pai não é um advogado influente e você não terá chance alguma. Não perca o seu tempo!” Ouvi o conselho, desisti da inscrição, rasguei a papelada... Joguei fora uma boa oportunidade. Verifiquei, depois, que entre os aprovados e nomeados figuravam muitos candidatos que não gozavam de nenhuma proteção ou favoritismo. Eu poderia ter sido um deles, imagino, porque, para suprir as deficiências do curso universitário, havia consumido noites e noites estudando Direito através da jurisprudência contida nos quatrocentos volumes da Revista dos Tribunais, adquiridos com esse objetivo.
Quem sabe não seria hoje um desembargador aposentado, na melhor das hipóteses? Alguns meses depois, abriram-se as inscrições para o concurso de ingresso no Ministério Público Estadual. Preparei a documentação necessária e no dia das inscrições me aparece, novamente, um desses emissários dos infernos, com a mesma cantilena. Não lhe dei ouvidos. Inscrevi-me, fiz o concurso e obtive ótima classificação. Fui nomeado Promotor de Justiça, exerci a função nas comarcas do interior por dez anos, e, finalmente, promovido por merecimento ao cargo de Procurador de Justiça, permaneci, durante vinte anos, no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, junto às Câmaras Criminais, emitindo pareceres, inclusive, em casos criminais de grande repercussão. Nesse cargo me aposentei aos sessenta e nove anos de idade, em 1991.

E a passagem para a literatura, como foi?

Também aí se fez sentir a influência de Doutor Osvaldo Soares de Sousa, meu pai, que era inteligente e culto, e amava a literatura, sabe? Ele exerceu a advocacia pela necessidade de sustentar uma família numerosa – quinze filhos, além de agregados. Sua biblioteca ocupava um cômodo inteiro de nossa casa modesta, e era rica de volumes valiosos. E assim é que ele nos reunia, aos filhos maiores, na sala de visitas, à noite, e lia para nós, com um entusiasmo que nos empolgava, poemas de Gonçalves Dias, Castro Alves, Olavo Bilac e os poetas de sua preferência. Nunca publicou livros, embora também fosse poeta e autor de numerosos sonetos, divulgados pelos jornais e revistas do seu tempo de moço.

A influência paterna é, então, determinante em sua história com a literatura?

Sem dúvida!

Mas há, também, os movimentos literários como a roda do Calçadão da Cultura, em cuja gênese o senhor se encontra.

É verdade. Tomei parte em alguns movimentos literários e grupos dedicados à expansão da cultura, sobretudo à democratização da cultura. Sempre fui avesso a círculos fechados, a panelinhas de elogio mútuo, focos, muitas vezes, da exclusão de autênticos valores. No caso do Calçadão da Cultura, as coisas aconteceram meio na base do improviso, compreende? Fui, durante muitos anos, o orador oficial do Grupo de Amigos do Livro, por opção do livreiro Silvestre Mônaco, a quem me prendiam fortes laços de amizade.

Mas como surge esse movimento literário? Imagino que movimentos como esses círculos devam surgir como coisa inesperada, espontânea? Ou teria havido um projeto, com diretrizes, estatutos?

Esses movimentos, em regra geral, brotam de um pequeno grupo, que idealiza certo tipo de organização, com objetivos definidos, e depois crescem, com a adesão de novos elementos, atraídos pela novidade ou pela oportunidade de revelar seus talentos. Aí, sim, há estatutos, manifestos, debates preliminares. Mas, como já lhe disse, no Calçadão da Cultura, nada se fez de caso pensado, não houve premeditação. Isoladamente, éramos todos frequentadores da Livraria Ideal, na época em que a livraria era só uma portinha, na Rua da Praia. Um dia, o Silvestre Mônaco, pai do Carlos, e primeiro proprietário, juntamente com o sócio Emílio Petraglia, resolveu ampliar as dependências da loja. Terminada a obra, ele nos convidou, a mim, ao Carlos Couto, ao Luís Antônio Pimentel e ao Roberto Silveira, para organizarmos a comemoração do acontecimento. Como contribuição pessoal, adquiri um livro de presença, para o registro do comparecimento de fregueses e para a lavratura das atas de reunião, quando houvesse, e o ofereci, no dia da festa, ao Silvestre. Em meio à festa, o advogado Manoel Martins sugeriu que se aproveitasse a oportunidade para lançar a pedra fundamental de um grupo permanente de leitores ligados à Livraria Ideal. Foi lavrada uma ata e assim surgiu, em termos positivos, o Grupo dos Amigos do Livro. Todos os presentes assinaram a ata e o livro de presença é, hoje, um documento histórico. A minha escolha para orador do Grupo foi, apenas, uma consequência da oferta do livro de presenças (risos).
Era uma turma boa: Roberto Silveira, Afonso Celso Nogueira Monteiro, Gomes Filho, Aurélio Zaluar, Marly Medalha, Milton Nunes Loureiro, De Azevedo Rolim, Luiz Magalhães, Sylvio Lago, Raul Stein de Almeida, Dayl e Lyad de Almeida, Arino Peres, e muitos outros... O Grupo passou a se reunir regularmente, e o Geir trouxe muita gente do Rio de Janeiro para nos visitar, como o crítico Agripino Grieco.

Muitos podem ter sido os acontecimentos dignos de serem narrados. O senhor lembra de alguns?

A história do grupo é bem divertida e variada... Existem muitas estorinhas... assim, de cabeça, poderia lembrar algumas (...)

(Esta entrevista estará publicada na íntegra no livro: Conversações com intelectuais fluminenses, a ser publicado até julho de 2011)

Confira, também,  a entrevista de Sávio Soares de Sousa concedida à escritora Belvedere Bruno no site Recanto das Letras:http://www.recantodasletras.com.br/entrevistas/2105336




 Rapsódia para sanfona: o si maior de Sávio Soares de Sousa 
Roberto S. Kahlmeyer-Mertens





Rapsódia é um tipo de composição musical de estrutura indefinida, reunindo vários temas de inspiração popular. Durante a Idade Média, rapsodos corriam as cidades cantando versos embalados por música. Com o passar do tempo, a música e suas letras em quadras ganharam acento erudito, a ponto de, hoje, conhecermos mais as obras célebres como a Rapsódias Húngaras de Liszt e a Rhapsody in Blue de Gershwin do que aquela forma original.
O livro Rapsódia para sanfona encaixa-se duplamente nessa descrição. Conjunto de muitos versos, reúne o popular e o erudito; as poesias de teor público e as maximamente autorais. A “rapsódia” de Sávio Soares de Sousa é uma seleta de trovas, gênero também secular e que o autor domina muito bem.
A obra obedece a uma interessante intuição, pretende retomar a forma erudita da trova e reconduzi-la a suas origens populares. Ora, se conhecíamos a tentativa de Fernando Pessoa em fazer isso (e seu êxito parcial), conheçamos o resultado feliz do livro aqui apreciado. As trovas de Sávio seguem a forma clássica: quatro versos metrificados, rimando o primeiro com o terceiro e o segundo verso com o quarto (que geralmente concentra o efeito estético do poema, em seu desfecho inesperado ou espirituoso).
Não falta espírito em Rapsódia para sanfona! O autor maneja a palavra de modo a brincar com provérbios, flertar com a literatura culta e a revisitar muitas das formas do simbólico. Constata-se isso quando – remetendo-se ao conceito de inconsciente freudiano – diz o poeta (p.14):

“Forças ocultas sabotam
a consciência do cristão:
- anjos rezando no sótão,
- diabinhos no porão.”

Repleta de graça, esta é trova em sua fórmula precisa. Mas destaquemos a deliciosa ambigüidade que o “porão” traz no referido contexto. Outra amostra é vista nestes versos (p.23):

“Atirei um limão triste
no rumo do teu olhar:
ingrato amor, não me viste,
nem me ouviste suspirar...”

Com carga dramática, o significado aqui está entremeado no gesto do amante ao jogar o limão. Esse, popularmente, traduz uma insinuação de amor, emprestando rara sutileza a esta e outras trovas que variam sobre o mesmo tema.
Se for certo que a poesia é inteligência e carisma, Rapsódia para sanfona é um livro que estaria pronto para convencer até o mais cético dos leitores quanto a essa premissa. A mesma impressão se confirma na edição do livro, que traz na capa uma das últimas ilustrações que o desenhista Miguel Coelho produziu, e a assinatura da Traço & Foto, editora que há bastante tempo publica nomes e títulos escolhidos a dedo.







Roberto S. Kahlmeyer-Mertens