sábado, 4 de agosto de 2012

Inauguração do novo ateliê de Israel Pedrosa: Premiére a "Dez aulas magistrais"


“Aulas ministradas à humanidade, através da vida e da obra de alguns dos pintores que trouxeram contribuições originais à abrangência da pintura, de Leonardo da Vinci a Jackson Pollock”.


Pormenor do quadro "Jardim das Delícias" de Bosch.

É com a citação acima que  o artista plástico brasileiro Israel Pedrosa descreve – em uma entrevista ainda inédita (*) – a intuição primeira de seu mais novo livro Dez aulas magistrais, livro do pintor que vem sendo escrito e reescrito (submetido a um altíssimo grau de exigência de seu autor) desde 1980. Naquela década, tomado por um entusiasmo que o fazia trabalhar até dez horas por dia, Pedrosa criou reuniões periódicas nas quais capítulos de sua Magnun Opus eram apresentados aos amigos mais diletos, gente das artes e das letras. No trecho abaixo, o autor/pintor descreve aqueles balões de ensaio:

“Somente um grupo de amigos mais próximos ligados de alguma maneira ao meu trabalho tinha acesso ao meu ateliê. Periodicamente nos reuníamos para a leitura dos textos elaborados. A leitura era feita pela professora e escritora Luzia de Maria, cujo talento para isso é notável. Essas reuniões eram feitas pela manhã e após a leitura e comentários sobre os textos, almoçávamos, almoços que, em longos colóquios, às vezes se estendiam até às quatro horas da tarde. Os mais assíduos frequentadores dessas reuniões eram: o astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão; Meli, viúva do escritor José Cândido de Carvalho; Maria e João Candido Portinari (respectivamente: viúva e filho de Portinari); meus filhos Ulianov, Jamile; Marco Lucchesi; Luzia de Maria e Faraday, Kátia de Marco, Kátia Bretas, Dora Sodré e Maria José Latini de Carvalho, Maria Líbia e Orestes, José Maria e Anita Santoro, e o Alaôr Eduardo Scisínio”.(**)

No mesmo espírito dos encontros iniciais, no dia de hoje, Niterói reviveu aqueles dias de phília dialógica em torno da cultura e da intelectualidade. Na referida data, o Pintor – junto a um pequeno e seletíssimo grupo de convidados – não apenas apresentou publicamente o resultado das obras de ampliação de seu ateliê, quanto brindou a todos que estavam presentes com a leitura do capítulo de seu Dez aulas magistrais dedicado ao mestre Hieronymus Bosch. Quem esteve presente na ocasião, ainda teve oportunidade de contemplar algumas réplicas de quadros do renascentista pintadas pelo próprio Pedrosa (saldos do esforço do autor/pintor por descobrir e recriar os processos e técnicas criativas utilizados por Bosch).

O registro deste dia, que já prenuncia o êxito de Dez aulas magistrais (a ser publicado em 2013), é o que se tem na presente postagem de Literatura-Vivência.


(*) PEDROSA, Israel. Entrevista concedida a Roberto S. Kahlmeyer-Mertens. In: Conversações com intelectuais fluminenses. (Org) R. S. Kahlmeyer-Mertens. Niterói: Nitpress; EdUFF.

(**) Idem.



Placa em bronze na porta de entrada do ateliê de Israel Pedrosa, com escritura de Marco Lucchesi.
Quando indagado por mim: " - Então, é aqui que tudo acontece?" a resposta jocosa de Pedrosa foi: " - Quase tudo!"


Os primeiros convidados chegam para conferir o novo espaço do ateliê de Israel Pedrosa.
Na foto, além do pintor (canto direito) se pode divisar o literato Edir Meirelles e Raquel Cecchin Meirelles (de costas).


Também o filólogo Maximiano de Carvalho e Silva foi convidado a conhecer o novo atelier do Pintor. Neste sábado, Maximiano (em conversa com o ex-presidente da União Brasileira dos Escritores - UBE-RJ) relembrou os encontros literários no apartamento do bibliófilo Plínio Doyle (Sabadoyles).


O anfitrião Israel Pedrosa faz as honras da casa e explica o propósito da reunião, antes de passar a palavra para Luzia de Maria, leitora do texto de Dez aulas magistrais.


Maximiano, Pedrosa e Luzia


Luzia de Maria, ao centro, inicia a leitura do capítulo sobre Hieronymus Bosch em Dez aulas Magistrais.


O quadro "O viajante" (também conheciso como: "O filho pródigo") foi uma das telas de Bosch reproduzidas por Israel Pedrosa.


Após a leitura do texto de Pedrosa, o poeta Affonso Romano de Sant'Anna teceu considerações sobre o bom uso do conceito de carnavalização e do recursos feitos pelo autor às ideias de Mikhail Bakhtin.
Em meio aos presentes na foto: Marina Colasanti (sentada), Cícero Mauro Fialho (ex-reitor da UFF), Affonso (ao centro), os escritores Wanderlino Teixeira Leite Netto e Lena Jesus Ponte e Maximiano de Carvalho e Silva.

Israel Pedrosa retoma a palavra desejando que nos divirtamos naquela manhã de artes e letras.



Retrato da dispersão após a leitura e comentários sobre o texto de Pedrosa.
(no sentido horário, se identificam: a escritora Marina Colasanti; ao fundo, Israel Pedrosa, João Cândido Portinari e Affonso R. Sant'Anna; Carlos Monaco, Edir Meirelles, Raquel C. Meirelles, Maximiano de Carvalho e Silva (ao centro) e Cícero Fialho (de costas em primeiro plano).


Apreciando as réplicas de Bosch: Israel Pedrosa, Affonso R. Sant'Anna e João Cândido Portinari.


O poeta Affonso Romano de Sant'Anna ao lado do pintor Israel Pedrosa


Affonso Romano de Sant'Anna, Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e Israel Pedrosa


Retrato do carinho mútuo entre Israel Pedrosa e João Cândido Portinari


O Prof. Faraday com Luzia de Maria e Marina Colasanti


Réplica em tamanho original do quadro "A nau dos insensatos" de Bosch, feita por Israel Pedrosa




O casal de escritores, Lena Jesus Ponte e Wanderlino Teixeira Leite Netto


João Cândido Portinari, Israel Pedrosa, Affonso Romano de Sant'Anna e Maximiano de Carvalho e Silva (na pauta da conversa, Machado de Assis).


Kahlmeyer-Mertens, Affonso Romano e Max (ainda Machado)


Kahlmeyer-Mertens (canto esquerdo) com Israel Pedrosa e Affonso Romano de Sant'Anna


Max e ARS...


Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant'Anna e Maximiano de Carvalho e Silva
  

Luzia da Maria, Lena Jesus Ponte e Wanderlino Teixeira Leite Netto: Escritores de Niterói


 Israel Pedrosa autografa a segunda edição de Da cor à cor inexistente para Francisco Caruso, ao fundo se vê a escritora Marina Colasanti com Luzia de Maria


Kahlmeyer, Portinari e Prof. Max





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Divulgação Cultural
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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Projeto "Livros que marcaram Niterói" ("Niterói e a fotografia (1858 – 1958)", Org. de Pedro Vasquez)



Convicto do brocardo lobatiano segundo o qual “um país se faz com homens e livros”, tentei elencar, de memória, aqueles títulos que eu acreditava representar bem a cultura literária de Niterói. Consultando várias pessoas ligadas ao meio acadêmico de minha cidade, foi curioso o fato de minha lista coincidir com os títulos apontados por aqueles conhecedores de livros. Diante desta coincidência (ou deveria dizer “feliz serendipidade”), animei-me, sem maiores pretensões, a apresentar quinzenalmente alguns dos livros que teriam, de algum modo, marcado a cena literária niteroiense. Livros que trouxeram contribuições substanciais em alguma área, inovações, resgates, celebrações de datas festivas da cidade e que, até, ficaram conhecidos pelas polêmicas que causaram. Em todos esses casos, o valor literário ou histórico foi o que deu o critério para essas escolhas que – longe de serem completas – serão singelos afagos na cultura de nossa cidade.

Em cada quinzena, o leitor de Literatura-Vivência poderá conhecer, no Projeto “Livros que marcaram Niterói”, um pouco mais das nossas letras.

Capa de Niterói e a Fotografia


Em seu Cartas a um Jovem poeta, Rainer Maria Rilke recomenda que, num livro de poesias, devemos saltar prefácios, introduções e outros aparatos críticos de modo a ir diretamente aos poemas. Diante do livro enfocado hoje – obra preciosa organizada por Pedro Vasquez – sinto-me tentado a seguir o conselho de Rilke: pular as notas e ir direto à bela poesia contida em cada uma de suas fotos. Entretanto, Niterói e a fotografia (1858 – 1958) além de um livro de arte é um livro de história e se faz necessária a notícia sobre sua confecção,[1] enquanto esclarecimento histórico.


* 

Niterói e a fotografia (1858 – 1958) foi lançado em 1994 por iniciativa de Dora Silveira, então responsável pela Niterói Livros. Sua organização, a cargo de Pedro Karp Vasquez foi difícil, em virtude da falta de recursos, de tal forma que começou na primeira administração de Jorge Roberto Silveira, mas só saiu na de João Sampaio.
Faziam parte do projeto original dois outros autores: Almiro Baraúna e Décio Brian, com imagens que cobriam o naufrágio do Camboinhas (que deu nome àquela porção de praia, antes pertencente à praia de Itaipu); mostravam a colina que existia na área onde hoje se ergue a Igreja Santuário das Almas; em como a estação das barcas inteiramente destruída pelo fogo. Editorialmente foi uma pena, mas o trabalho não foi inteiramente perdido, já que essas fotografias (adquiridas para o livro) foram incorporadas ao acervo da Fundação de Arte de Niterói, estando, portanto, à disposição dos pesquisadores da história da cidade.
Esse livro nunca poderá ser reeditado, muito embora já se tenha pensado nisto, tendo em vista o fato de que a edição foi esgotada em apenas seis meses: saiu no final de junho e acabou no Natal, basicamente pelo fato de ser o único livro de fotografia sobre o passado de Niterói amplamente ilustrado. [Não podemos esquecer o do próprio Jorge Roberto Silveira, melhor e mais bonito, mas que é de pintura e, portanto, não tem aquele charme passadista da fotografia em que você pode ter a surpresa -- como ocorreu -- de reconhecer seu austero vovô soltando a franga num bloco de travestis].
Niterói e a fotografia (1858 – 1958) é do tempo do fotolito e foi impresso em uma única passagem em máquina, não tendo a qualidade técnica exigida hoje (quase vinte anos depois) para os livros de fotografia histórica, que são quase todos impressos em quatro cores ou, no mínimo, em bicromia.
Seria necessário reproduzir ou escanear todas as imagens, o que encareceria demasiadamente o custo da obra, enquadrando-a na categoria de "livro de arte", à qual não pertencia. Era uma simples crônica visual de Niterói e vendeu bem porque tinha preço acessível.
Com o passar do tempo surgiram diversas outras fotografias importantes que não eram conhecidas no início da década de 1990, quando efetuei a pesquisa. Assim, seria necessário corrigir os erros, esclarecer as imprecisões e, sobretudo, acrescentar os novos dados coligidos, bem como as imagens que emergiram no entrementes, de uma forma tal que o livro (mantendo o mesmo período de 1858 a 1958) teria que no mínimo dobrar de tamanho. Em resumo: não seria o mesmo.
Dois colecionadores que cederam graciosamente imagens de suas respectivas coleções faleceram: Gilberto Ferrez e Dr. Pedroso. No primeiro caso seria fácil ter acesso às imagens (pagando caro pelo que antes foi cedido gratuitamente), pois sua coleção foi incorporada ao acervo do Instituto Moreira Salles.


[1] Texto estabelecido sobre as notas do organizador Pedro Vasquez, a quem registramos um agradecimento cordial por ter cedido gentilmente o material para esta postagem.


                      George Leuzinger ¾ São Domingos, c. 1865. Coleção Gilberto Ferrez [hoje integrada ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles].
Suíço radicado no Rio de Janeiro Leuzinger foi o primeiro a expor vistas do Brasil na Exposição Universal de Paris de 1867 (juntamente com Albert Frisch ¾ com fotografias do Amazonas ¾ também representado pela Casa Leuzinger). Leuzinger mostrou justamente um conjunto de vistas das cidades do Rio de Janeiro e Niterói, do qual, possivelmente, fazem parte as duas vistas de sua autoria aqui reproduzidas.


Marc Ferrez ¾ Jurujuba com o Pão de Açúcar ao fundo, c. 1890. Coleção Gilberto Ferrez [hoje integrada ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles]. Uma das mais belas e misteriosas imagens produzidas no Brasil oitocentista, essa vista ilustrou a capa do mais completo livro consagrado à sua obra: O Brasil de Marc Ferrez, obra coletiva organizada por Sérgio Burgi e editada pelo IMS.


Marc Ferrez ¾ Jurujuba, vendo-se ao fundo o Pão de Açúcar, a Pedra da Gávea e o Corcovado, c. 1890. Coleção Gilberto Ferrez [hoje integrada ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles].
Carioca, Marc Ferrez era filho de um dos integrantes da Missão Artística Francesa (o escultor Zéphirin Ferrez). Foi o único a ser agraciado com o título de Photographo da Casa Imperial e a se preocupar em afirmar sua condição de paisagista numa época em que a fotografia profissional era dominada pelo retrato.


Juan Gutierrez ¾ Interior do Forte do Gragoatá durante a Revolta da Armada, vendo-se, à esquerda, o slogan “Viva a República” pintado no muro, c. 1894. Coleção Museu Histórico Nacional.
Apesar de ter nascido Vila Real da Praia Grande, Niterói se alinhou com os republicanos durante a Revolta da Aramada, resistindo bravamente ao cerco dos insurretos e, por isso, merecendo o título de “Cidade Invicta”.


Florindo Siqueira ¾ Teatro de Santo Antônio na rua de São João, c. 1875. Coleção Emmanuel de Macedo Soares.
Segundo nosso amigo Emmanuel, detentor das únicas três fotografias conhecidas de Siqueira (duas das quais ele gentilmente me autorizou a reproduzir), esse teatro permaneceu em funcionamento entre 1874 e 1881.


Conde de Agrolongo  Jardim Pinto Lima (popularmente conhecido como Jardim São João), c. 1895. Coleção Roberto Pedroso [dispersada após sua morte]. Agrolongo era dono da fábrica de Fumos Veado e suas imagens estereoscópicas eram oferecidas de brinde aos consumidores dos seus produtos, no primeiro amplo esforço de difusão de imagens fotográficas e de incentivo ao colecionismo das mesmas no Brasil.


Autor desconhecido ¾ Procissão em louvor a Nossa Senhora Auxiliadora na rua de Santa Rosa (no ponto em que depois seria erguida a Basílica), 1900. Acervo Colégio Salesiano.


Autor desconhecido - Alunos do Colégio salesiano no embarcadouro da Cantareira em São Domingos (no ponto em que se situa hoje o Colégio Maria Thereza), c. 1900. Acervo Colégio Salesiano. Essa inocente imagem adquire uma conotação sinistra quando evocamos o terrível acidente que vitimou dezenas de alunos do Salesiano na volta de uma viagem semelhante de barca ao Rio.


Autor Desconhecido - Jogos atléticos no Rio Cricket, 1908. Acervo Mônaco da Fundação de Arte de Niterói. Vale lembrar que o Rio Cricket foi um dos principais difusores no Brasil de um esporte vindo da Inglaterra, o football. Mais um importante pioneirismo de Niterói, similar ao da pintura de paisagem pelo Grupo Grimm. Movimentos que influenciaram o país inteiro, porém poucos se dão conta disto.


Autor Desconhecido - Pescaria na praia da Boa Viagem, 1908.
Acervo Mônaco da Fundação de Arte de Niterói.


Augusto Malta - Palacete de Dom João VI em São Domingos, c. 1904. Coleção Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.
Ao que se sabe essa é a única fotografia conhecida do palacete (demolido em 1905). Eu a localizei entre as imagens (ainda não catalogadas à época) que pertenciam ao acervo pessoal do fotógrafo depois que ele se aposentou e mudou para Niterói (onde morava no Ingá). Esse conjunto foi adquirido pelo governador do então Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, em 1965, com a finalidade expressa de constituir o núcleo inicial do acervo iconográfico do Museu da Imagem e do Som. Criado nesse mesmo ano, foi o primeiro do gênero no Brasil.


Augusto Malta - estação hidroviária de passageiros na praça Araribóia, c. 1918. Coleção Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Similar àquela ainda existente do outro lado da baía, essa estação foi destruída em 1959 naquela que ficou conhecida como a “Revolta da Cantareira” (ou “Revolta das Barcas”).


Manuel Fonseca - Trampolim da praia de Icaraí, 1941. Coleção da Fundação de Arte de Niterói.
Símbolo da cidade durante muitos anos, foi explodido (por razões de segurança dos banhistas) em 1964.


Manuel Fonseca ¾ Bloco de travestis em Icaraí, Carnaval de 1944.
Coleção da Fundação de Arte de Niterói.


Manuel Fonseca - Bloco “Inocentes Canibais” diante do busto de Araribóia, na praça Araribóia, Carnaval de 1956.
Coleção da Fundação de Arte de Niterói.


George Leuzinger ¾ Pedra da Itapuca, c. 1865. Coleção Gilberto Ferrez [hoje integrada ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles]. No século XIX a Itapuca gozava de maior prestígio que o Pão de Açúcar, a ponto de o barão do Rio Branco ¾ cujo centenário de morte ora se comemora, e que tanto tempo viveu longe do Brasil ¾ ilustrou seu ex-libris com ela, acrescentando o seguinte dístico latino: Ubique patrie memor. Durante muitos anos eu mesmo não entendia o “sucesso” da Itapuca, somente há pouco descobri que foi possivelmente o naturalista Louis Agassiz (que aqui esteve em 1865) o grande responsável pelo seu prestígio, ao considerá-la um exemplo remanescente dos “drifts continentais” da Era Glacial.


Victor Frond ¾ Ilha dos Ratos [atual ilha Fiscal], com as colinas de Niterói ao fundo, 1858. Coleção Biblioteca Nacional. Essa litografia reproduz a primeira imagem fotográfica em que figura (ainda que no segundo plano) a cidade de Niterói. Integra o livro Brasil Pitoresco, com texto de Charles Ribeyrolles, fotografado, produzido e editado por iniciativa de Frond em 1861. É interessante lembrar que Ribeyrolles continua entre nós [no Cemitério do Maruí], com um epitáfio especialmente composto por seu [e de Frond] amigo Victor Hugo. Por outro lado, o texto de Ribeyrolles foi vertido [mal, porque rápido e em grupo] para o português entre outros por um jovem que viria a fazer história: Machado de Assis.


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terça-feira, 31 de julho de 2012

Por que você faz cinema (literatura)? Um dó-de-peito de Joaquim Pedro de Andrade




Em 1987 o cineasta Joaquim Pedro de Andrade (talvez o diretor brasileiro  mais próximo da literatura) foi indagado pelo jornal francês Libération sobre porque fazia cinema. A resposta dada àquele veículo de comunicação vale não apenas para o cinema quanto para as artes em geral (e a literatura, inclusive). Na postagem de hoje, Joaquim Pedro de Andrade:


Dina Sfat e Grande Othelo em cena de Macunaíma (1969), adaptação cinamatográfica de JPA



Por que você faz cinema?




Para chatear os imbecis
Para não ser aplaudido depois de sequências dó-de-peito
Para viver à beira do abismo
Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público
Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem
Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo
Porque, de outro jeito, a vida não vale a pena
Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito
Porque vi Simão no Deserto
Para insultar os arrogantes e poderosos, quando ficam como cachorros dentro d’água no escuro do cinema
Para ser lesado em meus direitos autorais.

(ANDRADE, Joaquim Pedro. In: Pourquoi filmez-vous? Paris: Libération,1987)




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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Beatriz Chacon, Babette e a bossa na “cozinha” poética



Beatriz Escorcio Chacon, autora de Mesa Posta (Cromos, 1991)


A poesia é comunhão, e toda comunhão depende da companhia do outro com quem se comunga (não é à toa que companhia viria do latim com + panem, significando “dividir o pão com alguém”). Assim, toda poesia tem algo ceia e libação; é por isso que muitos poetas abrem a casa, põem a mesa e dão banquete. Entretanto, para quem gosta da poesia íntima e espontânea (daquela poesia que, como bossa nova, se canta em voz baixinha), o recato da cozinha é melhor do que o esplendor e etiqueta das salas. É na cozinha que o verso fica a frigir enquanto se corta tempero, que a palavra ganha sentido ao cheiro do simpático refogado, e que o poeta se faz duplamente sacerdote como a cozinheira do filme A Festa de Babette. Assim é a poesia de Beatriz Chacon, com ela, a mesa é posta, e lugar de poeta – felizmente – é na cozinha.



Mesa posta

Venha minha vó
o nosso ensopado traz
o aipim feitinho agora
tudo o que se plantou
não esqueça a travessa
a fumaça e a
terrina pintada em flor

chegue com seu avental
engomado em laçarote
cadê você? com o cuidado
do branco pano bordado
– Domingo! –
entre rendas
pontos de cruz
                      (p.37)




Poema na cozinha


                           Para Carlos Drummond de Andrade

Refogo meu triste arroz
Pressa cebola e cansaço
E o coração afogado
Tanta fila cidade e batente
Um dia todo não cabe
No ônibus nove nove nove lotado
E a notícia aqui dentro gravada
– o poeta se foi assim apressado.

Vou correndo sem querer olhar
Não me desculpo
Um corpo quieto em close na tevê
(o poeta ali sem escrever nada)
E boba chorei com o José
E com toda dona de casa
(mãos flores mais um close/flores Dolores)
Poeta nem combina com aquela máquina.
                                                    (p.149)









Prato feito

Poesia nas mãos
quiabo no fogo
carente o almoço 

há gosto em se dar
a palavra metade
o grude imitando a carne

sentir meio insosso
e a língua se prova
de angústia de arroz 

meio quilo que falta
e o verso na folha
de dor ensopada

sabor pela boca
coração na barriga
prendendo um marido:

prato feito servido
eis a fatia do dia!
e a requentada poesia.
                          (p.19)







A canção como uma flor 

Ângelo Longo 

Este livro – Mesa Posta é sugestão de ágape de primitivos cristãos em comunhão fraterna – sinaliza um artífice e aponta um talento: Beatriz Escorcio Chacon em suas páginas magistrais utiliza pincéis de aleluias e hosanas e trabalha cores de coisas simples para realizar uma tarefa de rara competência poética, na revelação misteriosa de denúncias de querer e denúncias de desamor. Tudo em Mesa Posta é biblicamente consagrado: desde a santificação de cantos irmãos a estrofes críticas de apostolados infiéis.
Beatriz Escorcio Chacon iguala-se a outras importantes vozes de nossa poética, concebendo uma dicção universal e transformadora, plena de uma linguagem de humanidade e paz, coro de ungir canções em catálogo de profecias. Beatriz liga-se, religa-se cristicamente ao gorjeio de outros pássaros, na tessitura de novas madrugadas. Mesa Posta não é banquete de iguarias vulgares.
Mesa Posta, desta notável e grande poeta Beatriz Escorcio Chacon, é a presença maior de uma artista autêntica, produzindo poemas de absoluta transparência estética e de extraordinária transcendência lírica. É livro de estreia, não definitivo, mas definidor: há uma estranha voz nas vozes multiformes deste livro encantador. Ela identifica o labirinto, refaz o enigma e acorda itinerários na pauta de sons interrompidos.
Elegendo a praça pública para púlpito de uma mensagem de poesia, Beatriz Escorcio Chacon leva seu ofício a anfiteatros de múltiplas paisagens e auditórios de variadíssimos quilates: o importante – em poesia, tudo é importante – é conduzir a canção como uma flor na correnteza, sem distinguir a distância da foz ou da agonia das margens.



sábado, 28 de julho de 2012

"Villa Pereira Carneiro": Recanto adorável de Niterói em livro definitivo




Capa de Villa Pereira Carneiro (Nitpress, 2008)


Os animais da floresta se reuniram para escolher sua rainha. Na disputa, a cevada porca reclamou a coroa: “ – Eu chego a dez filhos!”. A ardilosa raposa, coçando sua calva, calculava quase cem crias nas últimas primaveras. Foi quando chegou a leoa dizendo ser ela a rainha. Autoritária, a cadela (acudida pela toupeira e pelo veado) contestou questionando quantos filhotes ela teria. A leoa respondeu imediatamente: “ – Um, mas é um leão.”
(ESOPO, Fábulas)


Existem livros que por sua especificidade acabam demorando a ser reparados num cenário de ideias, entretanto, uma vez descobertos e lidos, essas obras passam a receber a merecida atenção pelo valor de sua contribuição. É o caso de Villa Pereira Carneiro, de Roberto Affonso Pimentel. Editado pela Nitpress em 2008, o livro oferece consideráveis subsídios para a elaboração da história deste bairro de Niterói e, em boa medida, elementos que contribuiriam para a própria escrita da história do Município.
Objetivando a narrativa da história da vila operária criada pelo Conde Pereira Carneiro, o livro tem o tom predominantemente técnico-historiográfico, mas não ficam de fora (como o próprio autor adverte em seu prefácio) os elementos da memória afetiva. Apreciando sua forma e conteúdo, constatamos a existência de um livro inteiro, pois nele nada falta ou é interrompido repentinamente. De início, temos uma coletânea sistemática de artigos que seu autor chamou de “Textos e reportagens”, ali vemos notícias sobre aquela vila operária, sobre o Conde que a administrava e sobre as Condessas (que foram, em diferentes épocas, suas esposas); após, temos substanciais capítulos de desenvolvimento, são eles: “Anatomia da Villa”, “Casas”, “Diversão”, “Termos, costumes, simpatias e curiosidades”, “Comércio e serviços”...
Entre os itens de desenvolvimento do livro, o capítulo denominado “Moradores” merece, aqui, uma especial ressalva. Trata-se da mais completa relação de documentos sobre a alocação dos daquela vila. Casa a casa, Roberto A. Pimentel identifica moradores, destaca o trabalhador de seus familiares e documenta fielmente datas, taxas de aluguel vigentes na época e os laços de parentesco criado entre os da vizinhança. Este elenco cobre criteriosamente os anos de 1920-1955. A acuidade da pesquisa pode ser identificada como saldo competente de um levantamento documental em que, além de fotos (rigorosamente identificadas com legendas explicativas) e mapas (também imagens feitas por satélites), o pesquisador apresenta em fac-símile diversos documentos obtidos na pesquisa empírica, junto a antigos moradores. Fora esses, o livro ainda possui uma vasta coleção de anexos, são eles: escrituras, registros dos primeiros nascimentos (1921), relação de remembramentos e proprietários etc. Estes, entre outros, seriam certamente úteis aos que, como Roberto A. Pimentel, entendem como séria a tarefa de escrever a história daquele lugar.
Por tudo que se disse acima, afirmamos que o autor de Villa Pereira Carneiro é sério, escrupuloso quanto as suas fontes, isso o destaca de outros cujo pertencimento a uma deficiente “escola de modéstia” faz com que a pretensão, arrogância e ego insuflado só não sejam maiores do que sua estupidez. Em verdade, a referida Obra faz com que muitos dos pretensos historiadores de Niterói sejam levados ao pelourinho por sua obtusidade córnea e má fé cínica.
Ao leitor que estranhar estes meus comentários, advirto que eles só são feitos para distanciar o presente trabalho daqueles poucos mais horríveis espécimes produzidos pela hedionda raça dos pseudo-historiadores de Niterói: pesquisadores de fim de semana, historiólogos de arribação, cujos livros têm tanto conteúdo quanto os folhetins da literatura de cordel e cujo estilo – manda a verdade confessar – não ofusca a glória de nenhum dos historiadores que ocupam a superfície da terra, contando mesmo os medíocres, os maus e os péssimos. Estes, ainda, para legitimar sua ciência deficiente, posam em foto no verso de seus livros com figuras laureadas para ver se tomam de empréstimo alguma celebridade. Para semelhantes lorpas e suas respectivas obras não haveria outra qualificação possível senão a de infelice. Estas personagens, autores das mais terríveis páginas que se pode dardejar contra a reputação da historiografia fluminense (digo, ainda, brasileira), ainda têm a tendência a se agregar em sociedades (ou deveria dizer “maltas”); estas, por sua vez, tão estróinas, que, se cobertas, virariam circo; se cercadas, pareceriam hospício.
Roberto Pimentel reforça a seleta casta de historiadores fluminenses integrada por autoridades como Carlos Wers, Clélio Erthal, Cesar Ornellas, Emmanuel Macedo Soares, Francisco Tomasco de Albuquerque, Ismênia Martins, José Inaldo Alonso e Thalita de Oliveira Casadei nos fazendo acreditar no que resta da saúde intelectual da micro-história nas terras do Rio de Janeiro.
Diante de livro em apreço – por enquanto o primeiro e o único de seu autor – minha palavra aos “prolíficos estoriadores” (sic) não pode ser outra senão aquele verso de Leconte de Lisle: “Lâche, que ne fais-tu comme a fait ce lion?”[1]  Enfim: livro de Roberto Pimentel é um leão!






[1] “Frouxo, por que não fazes como este leão?”.