terça-feira, 31 de julho de 2012

Por que você faz cinema (literatura)? Um dó-de-peito de Joaquim Pedro de Andrade




Em 1987 o cineasta Joaquim Pedro de Andrade (talvez o diretor brasileiro  mais próximo da literatura) foi indagado pelo jornal francês Libération sobre porque fazia cinema. A resposta dada àquele veículo de comunicação vale não apenas para o cinema quanto para as artes em geral (e a literatura, inclusive). Na postagem de hoje, Joaquim Pedro de Andrade:


Dina Sfat e Grande Othelo em cena de Macunaíma (1969), adaptação cinamatográfica de JPA



Por que você faz cinema?




Para chatear os imbecis
Para não ser aplaudido depois de sequências dó-de-peito
Para viver à beira do abismo
Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público
Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem
Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo
Porque, de outro jeito, a vida não vale a pena
Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito
Porque vi Simão no Deserto
Para insultar os arrogantes e poderosos, quando ficam como cachorros dentro d’água no escuro do cinema
Para ser lesado em meus direitos autorais.

(ANDRADE, Joaquim Pedro. In: Pourquoi filmez-vous? Paris: Libération,1987)




Divulgação Cultural
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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Beatriz Chacon, Babette e a bossa na “cozinha” poética



Beatriz Escorcio Chacon, autora de Mesa Posta (Cromos, 1991)


A poesia é comunhão, e toda comunhão depende da companhia do outro com quem se comunga (não é à toa que companhia viria do latim com + panem, significando “dividir o pão com alguém”). Assim, toda poesia tem algo ceia e libação; é por isso que muitos poetas abrem a casa, põem a mesa e dão banquete. Entretanto, para quem gosta da poesia íntima e espontânea (daquela poesia que, como bossa nova, se canta em voz baixinha), o recato da cozinha é melhor do que o esplendor e etiqueta das salas. É na cozinha que o verso fica a frigir enquanto se corta tempero, que a palavra ganha sentido ao cheiro do simpático refogado, e que o poeta se faz duplamente sacerdote como a cozinheira do filme A Festa de Babette. Assim é a poesia de Beatriz Chacon, com ela, a mesa é posta, e lugar de poeta – felizmente – é na cozinha.



Mesa posta

Venha minha vó
o nosso ensopado traz
o aipim feitinho agora
tudo o que se plantou
não esqueça a travessa
a fumaça e a
terrina pintada em flor

chegue com seu avental
engomado em laçarote
cadê você? com o cuidado
do branco pano bordado
– Domingo! –
entre rendas
pontos de cruz
                      (p.37)




Poema na cozinha


                           Para Carlos Drummond de Andrade

Refogo meu triste arroz
Pressa cebola e cansaço
E o coração afogado
Tanta fila cidade e batente
Um dia todo não cabe
No ônibus nove nove nove lotado
E a notícia aqui dentro gravada
– o poeta se foi assim apressado.

Vou correndo sem querer olhar
Não me desculpo
Um corpo quieto em close na tevê
(o poeta ali sem escrever nada)
E boba chorei com o José
E com toda dona de casa
(mãos flores mais um close/flores Dolores)
Poeta nem combina com aquela máquina.
                                                    (p.149)









Prato feito

Poesia nas mãos
quiabo no fogo
carente o almoço 

há gosto em se dar
a palavra metade
o grude imitando a carne

sentir meio insosso
e a língua se prova
de angústia de arroz 

meio quilo que falta
e o verso na folha
de dor ensopada

sabor pela boca
coração na barriga
prendendo um marido:

prato feito servido
eis a fatia do dia!
e a requentada poesia.
                          (p.19)







A canção como uma flor 

Ângelo Longo 

Este livro – Mesa Posta é sugestão de ágape de primitivos cristãos em comunhão fraterna – sinaliza um artífice e aponta um talento: Beatriz Escorcio Chacon em suas páginas magistrais utiliza pincéis de aleluias e hosanas e trabalha cores de coisas simples para realizar uma tarefa de rara competência poética, na revelação misteriosa de denúncias de querer e denúncias de desamor. Tudo em Mesa Posta é biblicamente consagrado: desde a santificação de cantos irmãos a estrofes críticas de apostolados infiéis.
Beatriz Escorcio Chacon iguala-se a outras importantes vozes de nossa poética, concebendo uma dicção universal e transformadora, plena de uma linguagem de humanidade e paz, coro de ungir canções em catálogo de profecias. Beatriz liga-se, religa-se cristicamente ao gorjeio de outros pássaros, na tessitura de novas madrugadas. Mesa Posta não é banquete de iguarias vulgares.
Mesa Posta, desta notável e grande poeta Beatriz Escorcio Chacon, é a presença maior de uma artista autêntica, produzindo poemas de absoluta transparência estética e de extraordinária transcendência lírica. É livro de estreia, não definitivo, mas definidor: há uma estranha voz nas vozes multiformes deste livro encantador. Ela identifica o labirinto, refaz o enigma e acorda itinerários na pauta de sons interrompidos.
Elegendo a praça pública para púlpito de uma mensagem de poesia, Beatriz Escorcio Chacon leva seu ofício a anfiteatros de múltiplas paisagens e auditórios de variadíssimos quilates: o importante – em poesia, tudo é importante – é conduzir a canção como uma flor na correnteza, sem distinguir a distância da foz ou da agonia das margens.



sábado, 28 de julho de 2012

"Villa Pereira Carneiro": Recanto adorável de Niterói em livro definitivo




Capa de Villa Pereira Carneiro (Nitpress, 2008)


Os animais da floresta se reuniram para escolher sua rainha. Na disputa, a cevada porca reclamou a coroa: “ – Eu chego a dez filhos!”. A ardilosa raposa, coçando sua calva, calculava quase cem crias nas últimas primaveras. Foi quando chegou a leoa dizendo ser ela a rainha. Autoritária, a cadela (acudida pela toupeira e pelo veado) contestou questionando quantos filhotes ela teria. A leoa respondeu imediatamente: “ – Um, mas é um leão.”
(ESOPO, Fábulas)


Existem livros que por sua especificidade acabam demorando a ser reparados num cenário de ideias, entretanto, uma vez descobertos e lidos, essas obras passam a receber a merecida atenção pelo valor de sua contribuição. É o caso de Villa Pereira Carneiro, de Roberto Affonso Pimentel. Editado pela Nitpress em 2008, o livro oferece consideráveis subsídios para a elaboração da história deste bairro de Niterói e, em boa medida, elementos que contribuiriam para a própria escrita da história do Município.
Objetivando a narrativa da história da vila operária criada pelo Conde Pereira Carneiro, o livro tem o tom predominantemente técnico-historiográfico, mas não ficam de fora (como o próprio autor adverte em seu prefácio) os elementos da memória afetiva. Apreciando sua forma e conteúdo, constatamos a existência de um livro inteiro, pois nele nada falta ou é interrompido repentinamente. De início, temos uma coletânea sistemática de artigos que seu autor chamou de “Textos e reportagens”, ali vemos notícias sobre aquela vila operária, sobre o Conde que a administrava e sobre as Condessas (que foram, em diferentes épocas, suas esposas); após, temos substanciais capítulos de desenvolvimento, são eles: “Anatomia da Villa”, “Casas”, “Diversão”, “Termos, costumes, simpatias e curiosidades”, “Comércio e serviços”...
Entre os itens de desenvolvimento do livro, o capítulo denominado “Moradores” merece, aqui, uma especial ressalva. Trata-se da mais completa relação de documentos sobre a alocação dos daquela vila. Casa a casa, Roberto A. Pimentel identifica moradores, destaca o trabalhador de seus familiares e documenta fielmente datas, taxas de aluguel vigentes na época e os laços de parentesco criado entre os da vizinhança. Este elenco cobre criteriosamente os anos de 1920-1955. A acuidade da pesquisa pode ser identificada como saldo competente de um levantamento documental em que, além de fotos (rigorosamente identificadas com legendas explicativas) e mapas (também imagens feitas por satélites), o pesquisador apresenta em fac-símile diversos documentos obtidos na pesquisa empírica, junto a antigos moradores. Fora esses, o livro ainda possui uma vasta coleção de anexos, são eles: escrituras, registros dos primeiros nascimentos (1921), relação de remembramentos e proprietários etc. Estes, entre outros, seriam certamente úteis aos que, como Roberto A. Pimentel, entendem como séria a tarefa de escrever a história daquele lugar.
Por tudo que se disse acima, afirmamos que o autor de Villa Pereira Carneiro é sério, escrupuloso quanto as suas fontes, isso o destaca de outros cujo pertencimento a uma deficiente “escola de modéstia” faz com que a pretensão, arrogância e ego insuflado só não sejam maiores do que sua estupidez. Em verdade, a referida Obra faz com que muitos dos pretensos historiadores de Niterói sejam levados ao pelourinho por sua obtusidade córnea e má fé cínica.
Ao leitor que estranhar estes meus comentários, advirto que eles só são feitos para distanciar o presente trabalho daqueles poucos mais horríveis espécimes produzidos pela hedionda raça dos pseudo-historiadores de Niterói: pesquisadores de fim de semana, historiólogos de arribação, cujos livros têm tanto conteúdo quanto os folhetins da literatura de cordel e cujo estilo – manda a verdade confessar – não ofusca a glória de nenhum dos historiadores que ocupam a superfície da terra, contando mesmo os medíocres, os maus e os péssimos. Estes, ainda, para legitimar sua ciência deficiente, posam em foto no verso de seus livros com figuras laureadas para ver se tomam de empréstimo alguma celebridade. Para semelhantes lorpas e suas respectivas obras não haveria outra qualificação possível senão a de infelice. Estas personagens, autores das mais terríveis páginas que se pode dardejar contra a reputação da historiografia fluminense (digo, ainda, brasileira), ainda têm a tendência a se agregar em sociedades (ou deveria dizer “maltas”); estas, por sua vez, tão estróinas, que, se cobertas, virariam circo; se cercadas, pareceriam hospício.
Roberto Pimentel reforça a seleta casta de historiadores fluminenses integrada por autoridades como Carlos Wers, Clélio Erthal, Cesar Ornellas, Emmanuel Macedo Soares, Francisco Tomasco de Albuquerque, Ismênia Martins, José Inaldo Alonso e Thalita de Oliveira Casadei nos fazendo acreditar no que resta da saúde intelectual da micro-história nas terras do Rio de Janeiro.
Diante de livro em apreço – por enquanto o primeiro e o único de seu autor – minha palavra aos “prolíficos estoriadores” (sic) não pode ser outra senão aquele verso de Leconte de Lisle: “Lâche, que ne fais-tu comme a fait ce lion?”[1]  Enfim: livro de Roberto Pimentel é um leão!






[1] “Frouxo, por que não fazes como este leão?”.






sexta-feira, 27 de julho de 2012

Projeto "Livros que marcaram Niterói" ("37 poetas fluminenses", Org. de Lyad de Almeida)



Convicto do brocardo lobatiano segundo o qual “um país se faz com homens e livros”, tentei elencar, de memória, aqueles títulos que eu acreditava representar bem a cultura literária de Niterói. Consultando várias pessoas ligadas ao meio acadêmico de minha cidade, foi curioso o fato de minha lista coincidir com os títulos apontados por aqueles conhecedores de livros. Diante desta coincidência (ou deveria dizer “feliz serendipidade”), animei-me, sem maiores pretensões, a apresentar quinzenalmente alguns dos livros que teriam, de algum modo, marcado a cena literária niteroiense. Livros que trouxeram contribuições substanciais em alguma área, inovações, resgates, celebrações de datas festivas da cidade e que, até, ficaram conhecidos pelas polêmicas que causaram. Em todos esses casos, o valor literário ou histórico foi o que deu o critério para essas escolhas que – longe de serem completas – serão singelos afagos na cultura de nossa cidade.
Em cada quinzena, o leitor de Literatura-Vivência poderá conhecer, no Projeto “Livros que marcaram Niterói”, um pouco mais das nossas letras.


Capa de 37 poetas fluminenses, em tamanho original. 


Imaginem uma coletânea de poesia com participação de nomes da literatura fluminense como: Alaôr Eduardo Scisínio, Brasil dos Reis, Celso Furtado de Mendonça, Emmanuel de Bragança Macedo Soares, Gomes Filho, Jacy Pacheco, João Oliveira Rodrigues, Leir Moraes, Lyad de Almeida, Manita, Neusa Peçanha, Raul de Oliveira Rodrigues, Silvio Lago, Vilmar Lassance entre outros. Pois é, este livro existe, e já faz parte de um importante capítulo da história da literatura de Niterói. Trata-se de 37 poetas fluminenses.
Lançado em 1963, o livro destacou-se por pintar um painel heterogêneo em perfil e desigual no quesito qualidade. Este pecado, banal em muitas reuniões feitas em cooperação entre autores, teria até passado despercebido não fosse o tom messiânico, provocativo e, talvez, demagógico do prefácio assinado por Lyad de Almeida, seu organizador, texto este que despertou a celeuma contra os poetas contidos na edição. A partir daí, o que temos é o encarniçado embate dos que, na época, representavam parcela significativa dos “players” da cena jornalístico-literária em Niterói.
Embora Wanderlino Teixeira Leite Netto não goste de gastar cera com estes episódios (“defuntos” mais que chorados) é em seu Passeio das letras na taba de Arariboia que se encontra o registro mais completo da escaramuça que envolveu os nomes de Geir Campos, Luís Antônio Pimentel, Iderval Garcia, Vera de Vives, Décio Mafra, Ricardo Augusto dos Anjos, Sávio Soares de Sousa e Dagobé de Oliveira Júnior (este último, pseudônimo usado por vários críticos destinado a desferir os ataques mais cáusticos).
Depois destes comentários, e já que enveredamos por esta linha de exposição (bem distante do fumo dos canhões e do solo outrora incandescido pelas minas terrestres), apresentaremos um panorama geral do livro, de sua recepção crítica e, finalmente, de alguns dos textos contidos em 37 poetas fluminenses. Isso, contudo, não nos faz nutrir a pretensão reproduzir na íntegra o festival de acusações, réplicas e tréplicas que ficou conhecido como “pendenga literária”. 

* 

O livro com 37 publicados é uma brochura de 234 páginas e a quantidade de textos de cada integrante variava bastante (há poetas com apenas um texto e outros com seis). Supervisionado por Jacy Pacheco e Luís Antônio Pimentel, o livro foi custeado por seus autores e, embora tenha recebido o selo editorial Letras Fluminenses, este não passava de uma “marca fantasia” em referência ao jornal literário de Luís Magalhães[1] que circulava pela cidade. Impresso nas oficinas da Gráfica Falcão, sua tiragem (efetuada entre os dias 6-13 de junho de 1963) foi de dois mil exemplares. O livro possuiu quatro lançamentos: o primeiro em 14 de junho de 1963, no Clube Central de Niterói; o segundo na cidade de Rio Bonito (por iniciativa de Leir Moraes); o terceiro na Livraria Ideal, em Niterói, no dia 7 de julho e, por fim, em Teresópolis, no saguão do Hotel Várzea Palace 

* 

A declaração de intenções do livro já é dada em seu prefácio, quando Lyad de Almeida, assim, dispara:

“Não uma antologia. A tanto não nos propusemos. Simples coleção de trabalhos de poetas nascidos ou radicados na Velha Província. Sem uma escolha rigorosa de valores, com o intuito mais de congregar do que de selecionar, eis o presente livro. (...) De fora os que não tiveram ouvidos de ouvir e olhos de ver, ou os que se julgam inferiores de mais para se ombrearem, ou por demais superiores para se misturarem. De fora os homens-concha, os Narcisos embevecidos na própria contemplação. A presente colação tem a marca da humildade”.[2] 

Na mesma semana do primeiro lançamento, no jornal Última Hora, o poeta Geir Campos partiu para o ataque, no artigo: “Uma antologia engraçada”.[3]

“O leitor perguntará: por que 37? E eu direi, a bem da verdade, que a princípio eram 38, tendo sobrado (não me perguntem o motivo) um deles, apesar de já haver pago a sua contribuição. (...) Engraçado! Os poetas vivem reclamando contra o materialismo do mundo moderno, em detrimento da Poesia e da Arte... Mas, na hora de fazerem um livro só deles, recorrem justamente ao mais prosaico e materialista dos critérios?”

 Em resposta a Geir, Luís Antônio Pimentel, no mesmo jornal, contrataca mostrando sua surpreendente face belicosa:

“(...) Como percebemos que o nosso companheiro parece não estar bem certo do sentido da palavra ‘engraçada’ nos dias de hoje, em que se pese a falta de ética, daremos alguns exemplos sobre fatos que lhe dizem respeito: (...).”

E Pimentel desfia uma relação de episódios envolvendo o posicionamento político de Geir Campos como, por exemplo, ser declaradamente marxista e apoiar a candidatura de Tenório Cavalcante, ter ligações ideologicamente contraditórias com o Governo da situação...

Ao fim, diz Pimentel: 

“Como vê o nosso caro poeta Geir Campos, longe de querer ofendê-lo, há uma infinidade de coisas mais engraçadas que uma antologia despretensiosa, provinciana, feita na base da vaquinha, como todos sabem, sem diminuir ou exaltar ninguém”. 

Em tréplica, Geir ironizou: 

“Se razão tinha o poeta alemão Rilke [4] ao afirmar que “não há trezentos poetas”, vê-se que o resto do mundo fica com 263 vagas ao todo, pois só nessa coletânea o estado do Rio apresenta 37 candidatos ao Parnaso.”

Entre os dias 16 de junho e 3 de julho, Iderval Garcia, Carlos Ruas e Vera de Vives foram às páginas de O Fluminense para creditar apoio à Antologia.
Desde aí, o clima fez-se ameno até a data em que Ricardo Augusto dos Anjos publicou naquele mesmo jornal, em 19 de abril de 1964, “Os prefácios do Almeida”, artigo que novamente enxameou as partes envolvidas, ao dizer que: 

“O Lyad de Almeida é interessantíssimo em seus prefácios. Prima pela coerência e honestidade (o sentido da palavra varia muito) (...) No prefácio de 37 poetas fluminenses (...) o Almeida começa dizendo que o livro não é antologia, mas é coleção de trabalhos sem escolha rigorosa. Logo deduz-se que o critério adotado não é lá muito honesto para com os apreciadores de poesia, que por sinal formam público reduzido.” 

Alaôr Eduardo Scisínio responde a Ricardo A. dos Anjos, em 12 de maio de 1964, no mesmo tom em seu artigo provocativo: “Precisa-se de críticos literários”. A réplica de Ricardo a Alaôr, em O Fluminense, tardou dezenove dias, e a epígrafe de Millôr Fernandes que antecede o artigo já dava ideia do jorro de ácido naquelas páginas: 

“Quando um técnico vai tratar com imbecis deve levar um imbecil como técnico.” 

A querela durou até 4 de outubro de 1964 (quase dois anos após o lançamento do livro!), quando Marcos Almir Madeira escreveu um artigo contemporizador em O Fluminense, intitulado: “Em nome da época e sob as bênçãos do Papa”. Ali o acadêmico da ABL dizia: 

“Estalou em Niterói uma divergência elegante. Toda intelectual. Trinta e sete poetas fluminenses saíram do livro e vieram para o jornal com uma decisão de resposta, ou desafio, aos confrades que haviam ido à imprensa desdenhar ou maldizer as suas letras – sua poesia. (...) O ‘duelo’ insuflou no ânimo dos espectadores a reabertura daquele expediente optativo, resumido na indagação polêmico-romântica: passadismo ou modernismo.”

Ora, quem quiser entrar no mérito da questão sobre se a pendenga dos 37 poetas fluminenses consiste na dualidade passadismo-modernismo, eis aí uma oportunidade para o debate. Por nossa vez, nos limitaremos a indicar que os trinta e sete poetas fluminenses (e seus adversários) não apenas saíram do livro para o jornal, mas entraram para a história da literatura fluminense pela iniciativa válida de publicar sua poesia e de disparar o debate crítico sobre o lugar e os critérios da literatura, especificamente, da ars poetica. Qualquer outra avaliação ficaria a cargo do leitor deste blog ao ler algumas das peças contidas no livro, como se tem adiante:


Que dizes?

Só tu sabes como sou realmente...
Os outros dizem que sou fria,
indiferente...
E, no entanto, quem diria?
Quando em teus braços,
todo meu ser se transfigura
e aquela criatura,
que todos supõem serena,
tão distante,
se transtorna num instante,
qual brisa fresca e amena
se transformasse, de repente,
em vento impetuoso e ardente... 

Que me julguem fria e sem ardor...
Só me importa o que achas, meu Amor...
                          Maria Auxiliadora Sodré Gama.


Ofensa 

Quando alguém te ofende, segue magoado,
mas não responda, nunca, ao ofensor.
Quem se aproxima do antro do pecado
pode ser, muito cedo, um pecador. 

Cumpre tua missão: forte, calado.
Por princípio o perdão. Todo pendor
pelo desprezo a quem carga o fado
de ser mau, sem sentir a alheia dor.

Caminha. Fita o Céu. De cada lado
vês a floresta? O bálsamo da flor
leva doçura ao ar. Leva o recado

de Deus ao homem bom, por seu amor:
- Seja sempre o silêncio sublimado
a arma de um coração superior.
                           Eduardo de Carvalho



[1] A quem, aliás, o livro é dedicado em epígrafe.
[2] ALMEIDA, Lyad. Prefácio. In: 37 poetas fluminenses. (Org. Lyad de Almeida). Niterói: Letras Fluminenses, 1963. p.5.
[3] A partir daqui, todas as citações se encontram em: NETTO, Wanderlino T. L. Passeio das letras na taba de Arariboia – A literatura em Niterói no século XX. Niterói: Niterói Livros, 2003. p. 103-129.
[4] Em tempo, uma observação do Blog Literatura-Vivência: Rainer Maria Rilke, embora escrevesse em língua alemã, era tcheco de nascimento.





Divulgação Cultural
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quinta-feira, 26 de julho de 2012

"Balalaica", poesia de Maiakóvski, em tradução de Augusto de Campos


No passado -  todos sabemos -  os gregos diziam poesia ao som da lira. Não seria de admirar que uma poesia russa fosse acompanhada por uma balalaica...
E o que dizer das aliterações de Maiakóvski? Dizer apenas que é boa poesia seria o suficiente?!




Balalaica


Balalaica
[como um balido abala
a balada do baile
de gala]
[com um balido abala]
abala [com balido]
[a gala do baile]
louca a bala
laica
(tradução de Augusto de Campos)
Balalaica

Balalaica
[budto laiem oborvala
scrípki bala
laica]
[s laiem oborvala]
oborvala [s laiem]
[láiki bala]
láicu bala
laica
(Maiakóvski, 1913)









terça-feira, 17 de julho de 2012

Convite para o relançamento de "Presença da Cultura Fluminense", na primeira feira de livros da ANEL




Capa da segunda edição de Presença da Cultura Fluminense, de Horácio Pacheco.


No próximo dia 21, durante as comemorações de aniversário de 95 anos da Academia Fluminense de Letras, será relançado o livro “Presença da Cultura Fluminense”. O livro registra uma palestra de Horácio Pacheco (que foi Presidente da Academia Niteroiense de Letras por décadas e membro de outras instituições como a Academia Fluminense de Letras e do Instituto Histórico Geográfico de Niterói). Tal palestra, feita às vésperas da fusão do estado da Guanabara com o antigo estado do Rio de Janeiro, externa os anseios de mestre Horácio diante da nova situação cultural que seria criada naquela ocasião. Trata-se de um livro histórico, portanto!
A nova edição organizada por R. S. Kahlmeyer-Mertens (membro da AFL que também assina o prefácio desta segunda colação), conta, ainda, com o prefácio da primeira, de autoria de Lyad de Almeida e com um texto de apresentação/justificativa da edição, assinado por Luiz Augusto Erthal (Publisher da Nitpress, por onde o livro será editado). 
Esta nova edição denota o esforço de novas e antigas gerações por retomar o melhor da literatura fluminense e, por meio desta, a identidade cultural do estado do RJ.



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segunda-feira, 16 de julho de 2012

"Decálogo da Velhice", por Wanderlino Teixeira Leite Netto






Decálogo da Velhice



1) No aconchego do útero, a Velhice começa a tecer sua teia.
2) Descartada a sedução dos eufemismos, Velhice é Velhice mesmo e como tal deve ser vivenciada.
3) A Velhice suaviza-se pela aceitação do inexorável e pelo desejo de agir na construção do ainda possível.

4) Qualquer pessoa tem o direito de assumir a Velhice e de expor, sem constrangimentos, as marcas do tempo.

5) Idade avançada, por si só, não impõe respeito. Os canalhas também envelhecem.

6) Ao velho são permitidas, anualmente, meia dúzia de ranhetices e igual quantidade de impertinências, pelas quais será perdoado sem necessidade de penitências.

7) São prerrogativas do portador de Velhice pijama de flanela e meias de lã para esquentar o corpo e afeto de netos para aquecer a alma.

8) A quem envelheceu é facultado cozinhar o presente em fogo brando e o futuro em banho-maria.

9) O sonho não é privativo do jovem. Também ao velho reserva-se o privilégio de adubar quimeras.

10) Envelhecer com dignidade é caminhar serenamente em direção ao crepúsculo.




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