segunda-feira, 9 de julho de 2012

Curso "Vida e obra de Machado de Assis", ministrado por Maximiano de Carvalho e Silva




Curso de atualização
Promovido pela Sociedade Sousa da Silveira
Centro de Cultura Humanística e de Crítica Textual

Machado de Assis, em caricatura de Baptistão

INTRODUÇÃO AO ESTUDO
DA VIDA E OBRA DE MACHADO DE ASSIS
E À LEITURA DO ROMANCE DOM CASMURRO
(Setembro - outubro de 2012)
Curso organizado e ministrado pelo Prof. Dr. Maximiano de Carvalho e Silva, Professor Emérito da Universidade Federal Fluminense, aposentado no serviço público como Titular de Filologia / Crítica Textual da Universidade Federal Fluminense.  Diretor Executivo do curso: Prof. Dr. Roberto Kahlmeyer-Mertens.
Cinco palestras, uma por quinzena, com a duração de três horas cada uma delas, no horário das 15 às 18 horas, aos sábados.
Dias previstos: 1.o,15 e 29 de setembro; 6 e 20 de outubro.
Local: Rua Osvaldo Cruz, em Icaraí, Niterói, no apartamento-escritório do palestrante.
Número limitado de inscrições (20 no máximo).
Cada palestra será dividida em duas partes, com um intervalo de 20 minutos: a) exposição do tema; b) preparação para a leitura do romance.
Inscrições abertas a partir do dia 20 de julho.  Taxa de inscrição obrigatória: R$ 30,00 (trinta reais).  Para outras informações, utilize os emails maximiano@infolink.com.br e kahlmeyermertens@gmail.com .
Pagamento de apostilas para acompanhar as palestras apenas para os que desejarem recebê-las, com a devida antecedência.

Temas a serem expostos e debatidos:
1 – Vida e obra de Machado de Assis:
1.1 - O contexto histórico-cultural da sua época.
1.2 - Os seus principais dados biográficos.
1.3 – Machado de Assis e a literatura brasileira.
1.4 – Fontes para o estudo da vida e obra do escritor.
2 – Introdução à leitura do romance Dom Casmurro:
2.1 – Etapas da elaboração de uma edição crítica.
2.2 – A preparação da edição crítica de Dom Casmurro.
2.3 – Fortuna crítica do romance e as leituras para ele propostas.
2.4 – Estudo especial de traços da língua e estilo e do vocabulário machadiano em Dom Casmurro.




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domingo, 8 de julho de 2012

Os intelectuais não se entendem





No passado e no presente a história literária brasileira está mergulhada em intrigas, invejas, ressentimentos, vias de fato, injustiças, indiferenças e, em nível mais elevado de debate, em polêmicas. A começar das incompreensões no próprio seio dos movimentos literários ou periodizações, as dissensões se instalam com grupos novos defendendo suas propostas ou manifestos de independência no que respeita ao estilos ou estilos anteriores, o que, de alguma maneira, explica ou justifica a dinâmica interna e específica do fazer literário. Não deixa de ser um jogo ancestral entre a velha e a nova geração num período histórico considerado.
Quem chega, deseja a desestabilização do estilo anterior, como se o novo fosse sempre “superior” ou “melhor” do que o antigo. Nada mais longe da verdade. O caráter de dinamismo da escrita literária fala mais alto do que as relatividades das vanguardas. O que convém ter em mira é o sentido de modificações que instrumentalizadas pelas realidades sociais e culturais diferentes acompanhando o ritmo da História, sem vezos de alcances de perfeição e formas ideais.
Portugal e o Brasil são dois países em que a polêmica alcançou, mais naquele do que neste, considerável fortuna crítica. Em Portugal, cujas primeiras notícias datam da época dos trovadores e jograis, serve de ponto alto a polêmica conhecida como “Questão Coimbrã”, embate ácido entre o Romantismo e o Realismo, dividindo, no plano intelectual, figuras consagradas da velha geração liderada por Antônio Feliciano de Castilho(1800-1875) apoiado pelo destemido e mordacíssimo romancista Camilo Castelo Branco (1825-1890). Do outro oposto, representando as novas idéias os escritores Antero de Quental (1842-1891) e Teófilo Braga (1843-1924) procurando desqualificar o Romantismo chamado “decadente,” encarnado na produção ficcional de Camilo Castelo Branco.
No Brasil, segundo Naief Sáfadi, a polêmica não é tema tão freqüente assim, podendo-se asseverar que um dos seus capítulos mais conhecidos é aquele alusivo ao poema “A Confederação dos Tamoios” (1857), de Gonçalves de Magalhães (1811-1882) polêmica que resultou na publicação de oito cartas de José de Alencar reunidas em Cartas sobre a Confederação dos Tamoios (1860) escritas sob o pseudônimo de “Ig.” Nelas Alencar assinala como defeito na elaboração daquele poema a ausência de vigor poético e, além disso, refere à precariedade de sua maneira de conceber a figura do índio, segundo ele, artificialmente composto. Ora, o próprio Alencar foi também, por sua vez, vítima de crítica semelhante, que lhe apontavam idealizações exageradas na caracterização física e psicológica do indígena brasileiro. Em defesa de Magalhães, saíram Araújo Porto Alegre (1806-1879) e o imperador D. Pedro II (1825-1891). Defendendo Alencar esteve Pinheiro Guimarães (1832-1877)
Outras polêmicas, na década de 1880, poder-se-iam mencionar aqui. As de Carlos de Laet (1847-1927) com os portugueses Camilo Castelo Branco e Castilho e outra com Valentim Magalhães(1859-1903) sobre uma questão até sem muita relevância, a de saber (!) quem seria o melhor poeta brasileiro Gonçalves Dias (1823-1864), Castro Alves (1847-1871) ou Luís Delfino (1834-1910).
Ainda naquela mesma década, houve uma destacada polêmica entre Júlio Ribeiro (1845-1890), romancista, gramático e filólogo, famoso por sua verve cáustica em assuntos de política (Cartas sertanejas, 1885) e o Pe. Sena Freitas, a propósito do romance naturalista, A carne, zombeteiramente chamado “A carniça” pelo crítico Agripino Grieco ( 1888-1973).
Algumas outras polêmicas se tornaram suficientemente divulgadas: a de Tobias Barreto (1839-1889), em 1883, com os padres maranhenses Joaquim Albuquerque (1867-1934) e Casemiro da Cunha, sobre questões de clericalismo no meio cultural brasileiro. As polêmicas de Sílvio Romero (1851-1914) com Teófilo Braga, com José Veríssimo (1857-1916) e com o gramático Laudelino Freire (1873-1937)
Famosa ficou também a polêmica de Rui Barbosa (1849-1923) que manteve com o seu ex-professor Ernesto Carneiro Ribeiro() versando sobre a redação do Código Civil Brasileiro (1903). Em resposta às críticas de Carneiro Ribeiro, Rui escreveu a célebre Réplica à defesa da redação do Código Civil Brasileiro, 1904) que lhe valeu, da parte do opositor, uma Tréplica.
Anos depois, outras polêmicas surgiram, como aquela travada entre Cassiano Ricardo (1895-191974) e Fernando de Magalhães tendo por eixo da discussão Cecília Meireles (1901-1964) e a Academia Brasileira de Letras. Osório Borba e Menotti del Picchia (1892-1988) polemizaram sobre o tema da crítica literária brasileira, Osório desanca o regionalismo e o caráter personalista daquela crítica.
Não podemos esquecer entre outras, as polêmicas entre o Pe.. Leonel Franca (1893-1948) e José Oiticica(1882-1957). Em outra ocasião, Oiticica, que era anarquista e gramático, terçou armas com o linguista e filólogo Sílvio Elias (1913-1998).
Finalmente, para não alongar o objetivo deste artigo, que não é o de desenvolver em profundidade o tema da polêmica literária no país, lembraria a polêmica acérrima entre dois críticos de grande valor, mas de diferente tendência teórica e visão cultural : Álvaro Lins (1912-1970) e Afrânio Coutinho(1911-2000). A raiz da polêmica situa-se a partir da publicação da obra de Coutinho, A filosofa de Machado de Assis (1940). A natureza dessa polêmica tem fundamentação argumentativa nos campos da estilística e da visão crítica de autores que influenciaram a ficção machadiana. A meu ver, a diatribe, até extrapolando para o plano pessoal, foi, primeiro, provocada por um ensaio de Lins sobre aquela obra de Coutinho. A reação de Coutinho foi imediata e duríssima.
Todos esses comentários me vieram à baila após recentes leituras de duas crônicas de Ferreira Gullar publicadas na sua coluna do Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, nas quais menciona o nome de Augusto de Campos a respeito de uma afirmação deste sobre o que pensava do escritor e poeta modernista Oswald de Andrade (1890-1954). O fato se resume no seguinte: num encontro de Gullar com Augusto de Campos, no Rio de Janeiro, em 1955, na Spaghettilândia, na Cinelândia, Centro do Rio. Gullar relatou numa das crônicas acima referidas que Augusto chamara Oswald de Andrade de “irresponsável.”, julgamento que Gullar imediatamente rechaçara.
Augusto de Campos, em artigo recente publicado naquele mesmo jornal, desmentiu o que Gullar escrevera a respeito do encontro, afirmando que não houve tal encontro, mas não negou que chamara Oswald de Andrade de “irresponsável”.
Pelo que conheço de Gullar, o que a questão levanta é não só evidência de vaidade da parte que pretende ter sido quem julgou com acerto – o que não foi o caso de Augusto de Campos - e de forma antecipadora um escritor de inegável qualidade como Oswald. Ao contrário, fora Gullar quem acertara em cheio no julgamento justo e antecipado sobre a poesia de Oswald de Andrade.
Quanto a saber se Augusto de Campos, numa releitura mais cuidadosa da obra de Oswald, conseguiu que o autor de Serafim Ponte Grande (1933) fosse reconhecido como figura de relevo na poesia brasileira, isso torna as justificativas de Gullar bastante louváveis.
Agora, ao trazer à discussão a questão do encontro e da opinião negativa de Augusto para um deslocamento de assunto relacionado à dúvida sobre o valor e importância de poemas de Gullar, a história se complica e, então, não há como não tomar o partido de um poeta de alta expressão como Ferreira Gullar. Daí para diante, de um lado e de outro, os entrerveros só a custo conseguem se manter em bases educadas, uma vez que a verrina da polêmica já se instalou nos campos intelectual e pessoal, o que, no último caso, empobrece qualquer polêmica em alto nível conduzida. É uma pena que assim hajam chegado a tais divergências.

NOTAS:

1.SÁFADI, Naief. Verbete sobre “Polêmica” na literatura brasileira. In: Dicionário de literatura (direção de Jaccinto do Prado Coelho). 3 ed., 2º vol. L/S. Porto: Figueirinha, p. 838-839. Ver também o verbete “Polêmica” na literatura portuguesa. PRADO COELHO, Jacinto do. Idem, ibidem, p. 837-838.
2. Nomes de escritores cuja indicação de data de nascimento e morte não aparecem neste artigo serão incluídos posteriormente no corpo do texto logo que devidamente localizados. A ressalva vale também para os nomes de obras e datas de publicação




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sábado, 7 de julho de 2012

Poemas malditos de Álvares de Azevedo: "Cuidado, leitor, ao voltar esta página!"


Em visita ao eminente filólogo Maximiano de Carvalho e Silva, tive a feliz surpresa de saber que ele é frequentador assíduo do Literatura-Vivência. Disse-me meu ilustre anfitrião que acompanha o Blog, louva a iniciativa de projetarmos aqui novos talentos das letras, de resgatar os antigos, e recomendou: “ – É preciso resgatar também os mais antigos.”
Nossa conversa, desde aí, foi um elenco de nomes que precisam ser retomados: Teixeira e Sousa, Luiz Leitão, B. Lopes, Cruz e Sousa, José Lins do Rego, Lima Barreto, Ribeiro Couto e Fagundes Varela foram apenas alguns deles. Na data de hoje, atendendo à prescrição de mestre Maximiano, o lembrado é o poeta romântico Álvares de Azevedo.
Cuidado leitor, ao voltar esta página...






Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Barataria de D. Quixote, onde Sancho é rei, e vivem Panúrgio, sir John Falstaff, Bardolph, Fígaro e o Sganarello de D. João Tenório I — a pátria dos sonhos de Cervantes e Shakespeare.
Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.
A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.
Demais, perdoem-me os poetas do tempo, isto aqui é um tema, senão mais novo, menos esgotado que o sentimentalismo tão fashionable desde Werther e René
Por um espírito de contradição, quando os homens se vêem inundados de páginas amorosas, preferem Um conto de Boccaccio, uma caricatura de Rabelais, uma cena de Falstaff no Henrique IV de Shakespeare, um provérbio fantástico daquele polisson, Alfred de Musset, a todas as ternuras elegíacas dessa poesia de arremedo que anda na moda, e reduz as mordas de oiro sem liga dos grandes poetas ao troco de cobre, divisível até ao extremo, dos liliputianos poetastros.
Antes da Quaresma há o Carnaval.
Há uma crise nos séculos como nos homens. é quando a poesia cegou deslumbrada de fitar-se no misticismo, e caiu do céu sentindo exaustas as suas asas de oiro.
O poeta acorda na terra. Demais, o poeta é homem. Homo sum, como dizia o célebre Romano. Vê, ouve, sente e, o que é mais, sonha de noite as belas visões palpáveis de acordado Tem nervos, tem fibra e tem artérias—isto é, antes e depois de ser um ente idealista, é um ente que tem corpo. E, digam o que quiserem, sem esses elementos, que sou o primeiro a reconhecer muito prosaicos, não há poesia.
O que acontece? Na exaustão causada pelo sentimentalismo, a alma ainda trêmula e ressoante da febre do sangue, a alma que ama e canta porque sua vida f' amor e canto, o que pode senão fazer o poema dos amores da vida real? Poema talvez novo, mas que encerra em si muita verdade e muita natureza, e que sem ser obsceno pode ser erótico sem ser monótono. Digam e creiam o que quiserem. Todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos.
O poema então começa pelos últimos crepúsculos do misticismo, brilhando sobre a vida como a tarde sobre a terra. A poesia puríssima banha com seu reflexo ideal beleza sensível e nua.
Depois a doença da vida, que não dá ao mundo objetivo cores tão azuladas como o nome britânico de blue devils, descarna e injeta de fel cada vez mais o coração. Nos mesmos lábios onde suspirava a monodia amorosa, vem a sátira que morde.
É assim. Depois dos poemas éticos, Homero escreveu o poema irônico. Goethe depois de Werther criou o Faust. Depois de Parisina e o Giaour de Byron vem o Cain e Don Juan—Don Juan que começa como Cain pelo amor, e acaba como ele pela descrença venenosa e sarcástica.
Agora basta.
Ficarás tão adiantado agora, meu leitor, como se não lesses essas páginas, destinadas a não ser lidas. Deus me perdoe! assim é tudo! até os prefácios!
Um cadáver de poeeta
Levem ao túmulo aquele que parece um cadáver! Tu não pesaste sobre a ferra: a terra te seja leve!
L. Uhland


I

De tanta inspiração e tanta vida
Que os nervos convulsivos inflamava
E ardia sem conforto.. .
O que resta? uma sombra esvaecida,
Um triste que sem mãe agonizava . .
Resta um poeta morto!
Morrer! e resvalar na sepultura.
Frias na fronte as ilusões—no peito
Quebrado o coração!
Nem saudades levar da vida impura
Onde arquejou de fome . . sem um leito!
Em treva e solidão!
Tu foste como o sol; tu parecias
Ter na aurora da vida a eternidade
Na larga fronte escrita. . .
Porém não voltarás como surgias!
Apagou-se teu sol da mocidade
Numa treva maldita!
Tua estrela mentiu. E do fadário
De tua vida a página primeira
Na tumba se rasgou...
Pobre gênio de Deus, nem um sudário!
Nem túmulo nem cruz! como a caveira
Que um lobo devorou!. . .


II

Morreu um trovador—morreu de fome.
Acharam-no deitado no caminho:
Tão doce era o semblante! Sobre os lábios
Flutuava-lhe um riso esperançoso.
E o morto parecia adormecido.
Ninguém ao peito recostou-lhe a fronte
Nas horas da agonia! Nem um beijo
Em boca de mulher! nem mão amiga
Fechou ao trovador os tristes olhos!
Ninguém chorou por ele... No seu peito
Não havia colar nem bolsa d'oiro;
Tinha até seu punhal um férreo punho...
Pobretão! não valia a sepultura!
Todos o viam e passavam todos.
Contudo era bem morto desde a aurora.
Ninguém lançou-lhe junto ao corpo imóvel
Um ceitil para a cova!. . nem sudário!
O mundo tem razão, sisudo pensa,
E a turba tem um cérebro sublime!
De que vale um poeta—um pobre louco
Que leva os dias a sonhar—insano
Amante de utopias e virtudes
E, num tempo sem Deus, ainda crente?
A poesia é de cerco uma loucura,
Sêneca o disse, um homem de renome.
É um defeito no cérebro.. Que doudos!
É um grande favor, é muita esmola
Dizer-lhes bravo! à inspiração divina,
E, quando tremem de miséria e fome,
Dar-lhes um leito no hospital dos loucos...
Quando é gelada a fronte sonhadora,
Por que há de o vivo que despreza rimas
Cansar os braços arrastando um morto,
Ou pagar os salários do coveiro?
A bolsa esvazia por um misérrimo
Quando a emprega melhor em lodo e vício!
E que venham aí falar-me em Tasso!
Culpar Afonso d'Este—um soberano!—
Por que não lhe dar a mão da irmã fidalga!
Um poeta é um poeta—apenas isso:
Procure para amar as poetisas!
Se na Franca a princesa Margarida,
De Francisco Primeiro irmã formosa,
Ao poeta Alain Chartier adormecido
Deu nos lábios um beijo, é que esta moça,
Apesar de princesa, era uma douda,
E a prova é que também rondós fazia.
Se Riccio o trovador obteve amores
—Novela até bastante duvidosa—
Dessa Maria Stuart formosíssima,
É que ela—sabe-o Deus!—fez tanta asneira,
Que não admira que um poeta amasse!
Por isso adoro o libertino Horácio.
Namorou algum dia uma parenta
Do patrono Mecenas? Parasita,
Só pedia dinheiro—no triclínio
Bebia vinho bom—e não vivia
Fazendo versos às irmãs de Augusto.
E quem era Camões? Por ter perdido
Um olho na batalha e ser valente,
As esmolas valeu. Mas quanto ao resto,
Por fazer umas trovas de vadio,
Deveriam lhe dar, além de glória
—E essa deram-lhe à farta—algum bispado,
Alguma dessas gordas sinecuras
Que se davam a idiotas fidalguias?
Deixem-se de visões, queimem-se os versos.
O mundo não avança por cantigas.
Creiam do poviléu os trovadores
Que um poeta não val meia princesa.
Um poema contudo, bem escrito,
Bem limado e bem cheio de tetéias,
Nas horas do café lido fumando,
Ou no campo, na sombra do arvoredo,
Quando se quer dormir e não há sono,
Tem o mesmo valor que a dormideira.
Mas não passe dali do vate a mente.
Tudo o mais são orgulhos, são loucuras!
Faublas tem mais leitores do que Homero. . .
Um poeta no mundo tem apenas
O valor de um canário de gaiola. . .
É prazer de um momento, é mero luxo.
Contente-se em traçar nas folhas brancas
De um Álbum da moda umas quadrinhas.
Nem faça apelações para o futuro.
O homem é sempre o homem. Tem juízo:
Desde que o mundo é mundo assim cogita.
Nem há negá-lo—não há doce lira
Nem sangue de poeta ou alma virgem
Que valha o talismã que no oiro vibra!
Nem músicas nem santas harmonias
Igualam o condão, esse eletrismo,
A ardente vibração do som metálico...
Meu Deus! e assim fizeste a criatura?
Amassaste no lodo o peito humano?
Ó poetas, silencio! é este o homem?
A feitura de Deus a imagem dele!
O rei da criação!. . .
Que verme infame!
Não Deus, porém Satã no peito vácuo
Uma corda prendeu-te—o egoísmo!
Oh! miséria, meu Deus! e que miséria!


III

Passou El-Rei ali com seus fidalgos.
Iam a degolar uns insolentes
Que ousaram murmurar da infâmia régia,
Das nódoas de uma vida libertina!
Iam em grande gala. O Rei cismava
Na glória de espetar no pelourinho
A cabeça de um pobre degolado.
Era um rei bon-vivant, e rei devoto;
E, como Luís XI, ao lado tinha
O bobo, o capelão e seu carrasco.
O cavalo do Rei, sentindo o morto,
—Trêmulo de terror parou nitrindo.
Deu d'esporas leviano o cavaleiro
E disse ao capelão:
"E não enterram
Esse homem que apodrece, e no caminho
Assusta-me o corcel?"
Depois voltou-se
E disse ao camarista de semana:
"Conheces o defunto? Era inda moço.
Faria certamente um bom soldado.
A figura é esbelta! Forte pena!
Podia bem servir para um lacaio."
Descoberto, o faceiro fidalgote
Responde-lhe fazendo a cortesia:
"Pelas tripas do Papa! eu não me engano,
Leve-me Satanás se este defunto
Ontem não era o trovador Tancredo!"
"Tancredo"! murmurou erguendo os óculos
Um anfíbio, um barbaças truanesco.
Alma de Tribouler, que além de bobo
Era o vate da corte—bem nutrido,
Farto de sangue, mas de veia pobre,
Caídos beiços, volumoso abdômen,
Grisalha cabeleira esparramada,
Tremendo narigão, mas testa curta;
Em suma um glosador de sobremesas.
"Tancredo!—repetiu imaginando—
Um asno! só cantava para o povo!
Uma língua de fel, um insolente!
Orgulho desmedido.. . e quanto aos versos
Morava como um sapo n'água doce. . .
Não sabia fazer um trocadilho. . ."
O rei passou—com ele a companhia.
Só ficou ressupino e macilento
Da estrada em meio o trovador defunto.


IV

Ia caindo o sol. Bem reclinado
No vagaroso coche madornando,
Depois de bem jantar fazendo a sesta,
Roncava um nédio, um barrigudo frade:
Bochechas e nariz, em cima uns óculos,
Vermelho solidéu... enfim um bispo,
E um bispo, senhor Deus! da idade média,
Em que os bispos—como hoje e mais ainda—
Sob o peso da cruz bem rubicundos,
Dormindo bem, e a regalar bebendo,
Sabiam engordar na sinecura;
Papudos santarrões, depois
Missa Lançando ao povo a bênção—por dinheiro!
O cocheiro ia bêbado por certo;
Os cavalos tocou p'lo bom caminho
Mesmo em cima das pernas do cadáver.
Refugou a parelha, mas o sota
—Que ao sol da glória episcopal enchia
De orgulho e de insolência o couro inerte,
Cuspindo o poviléu, como um fidalgo—
Que em falta de miolo tinha vinho
Na cabeça devassa, deu de esporas:
Como passara sobre a vil carniça
Reléu de corvos negros—foi por cima. . .
Mas desgraça! maldito aquele morto!
Desgraça!... não porque pisasse o coche
Aqueles magros ossos, mas a roda
Na humana resistência deu estalo. . .
E acorda o fradalhão...
"O que se sucede?
—Pergunta bocejando: É algum bêbado?
Em que bicho pisaram?"
"Senhor bispo"
Diz o servo da Igreja, o bom cocheiro
Ao vigário de Cristo, ao santo Apóstolo
Isto é—dessa fidalga raça nova
Que não anda de pé como S. Pedro,
Nem estafa os corcéis de S. Francisco:
"Perdoe Vossa Excelência Eminentíssima;
É um pobre diabo de poeta,
Um homem sem miolo e sem barriga
Que lembrou-se de vir morrer na estrada!"
"Abrenúncio! —rouqueja o Santo Bispo—
Leve o Diabo essa tribo de boêmios!
Não há tanto lugar onde se morra?
Maldita gente! inda persegue os Santos
Depois que o Diabo a leva!. . ."
E foi caminho.
Leve-te Deus! Apóstolo da crença,
Da esperança e da santa caridade!
Tu, sim, és religioso e nos altares
Vem cada sacristão, e cada monge
Agitar a teus pés o seu turíbulo!
E o sangue do Senhor no cálix d'oiro
Da turba na oração te banha os lábios
Leve-te Deus, Apóstolo da crença!
Sem padres como tu que fora o mundo?
É por ti que o altar apóia o trono!
E teu olhar que fertiliza os vales
Fecunda a vinha santa do Messias!
Leve-te Deus ou leve-te o Demônio!


V

Caiu a noite, do azulado manto,
Como gotas de orvalho, sacudindo
Estrelas cintilantes.—Veio a lua
Banhando de tristeza o céu noturno:
Derrama aos corações melancolia,
Derrama no ar cheiroso molemente
Cerúlea chama, dia incerto e pálido
Que ao lado da floresta ajunta as sombras
E lança pelas águas da campina
Alvacentos clarões que as flores bebem.
A galope, de volta do noivado,
Passa o Conde Solfier, e a noiva Elfrida.
Seguem fidalgos que o sarau reclama.
Elfrida
—Não vês, Solfier, ali da estrada em meio
Um defunto estendido?—
Solfier
—Ó minha Elfrida,
Voltemos desse lado: outro caminho
Se dirige ao castelo. É mau agouro
Por um morto passar em noites destas.
Mas Elfrida aproxima o seu cavalo.
Elfrida
—Tancredo vede! é o trovador Tancredo!
Coitado! assim morrer! um pobre moço!
Sem mãe e sem irmã! E não o enterram?
Neste mundo não teve um só amigo?—
"Ninguém, senhora—respondeu da sombra
Uma dorida voz—Eu vim, há pouco,
Ao saber que do povo no abandono
Jazia como um cão. Eu vim, e eu mesmo
Cavei junto do lago a cova impura."
Elfrida
—Tendes um coração. Tomai, mancebo,
Tomai essa pulseira Em oiro e jóias
Tem bastante p'ra erguer-lhe um monumento,
E para longas missas lhe dizerem
Pelo repouso d'alma...
O moço riu-se.
O desconhecido
—Obrigado. Guardai as vossas jóias.
Tancredo o trovador morreu de fome;
Passaram-lhe no corpo frio e morto,
Salpicaram de lodo a face dele,
Talvez cuspissem nesta fronte santa
Cheia outrora de eternas fantasias,
De idéias a valer um mundo inteiro!...
Por que lançar esmolas ao cadáver?
Leva-as, fidalga—tuas jóias belas!
O orgulho do plebeu as vê sorrindo.
Missas... bem sabe Deus se neste mundo
Gemeu alma tão pura como a dele!
Foi um anjo, e murchou-se como as flores,
Morreu sorrindo como as virgens morrem!
Alma doce que os homens enjeitaram,
Lírio que profanou a turba imunda,
Oh! não te mancharei nem a lembrança
Com o óbolo dos ricos! Pobre corpo,
És o templo deserto, onde habitava
O Deus que em ti sofreu por um momento!
Dorme, pobre Tancredo! eu tenho braços:
Na cova negra dormirás tranqüilo. . .
Tu repousas ao menos!. . . —
No entanto sofreando a custo a raiva,
Mordendo os lábios de soberba e fúria,
Solfier da bainha arranca a espada,
Avança ao moço e brada-lhe:
"Insolente!
Cala-te, doudo! Cala-te, mendigo!
Não vês quem te falou? Curva o joelho,
Tira o gorro, vilão!"
O desconhecido
—Tu vês: não tremo.
Tu não vales o vento que salpica
Tua fronte de pó. Porque és fidalgo,
Não sabes que um punhal vale uma espada
Dentro do coração?—
Mas logo Elfrida:
"Acalma-te, Solfier! O triste moço
Desespera, blasfema e não me insulta.
Perdoa-me também, mancebo triste;
Não pensei ofender tamanho orgulho.
Tua mágoa respeito. Só te imploro
Que sobre a fronte ao trovador desfolhes
Essas flores, as flores do noivado
De uma triste mulher . . E quanto às jóias,
Lança-as no lago. . .Mas quem és? teu nome?"
O desconhecido
—Quem sou? um doudo, uma alma de insensato,
Que Deus maldisse e que Satã devora;
Um corpo moribundo em que se nutre
Uma centelha de pungente fogo,
Um raio divinal que dói e mata,
Que doira as nuvens e amortalha a terra!. .
Uma alma como o pó em que se pisa;
Um bastardo de Deus, um vagabundo
A que o gênio gravou na fronte—anátema!
Desses que a turba com o dedo aponta. . .
Mas não; não hei de sê-lo! eu juro n'alma,
Pela caveira, pelas negras cinzas
De minha mãe o juro... agora há pouco
Junto de um morto reneguei do gênio,
Quebrei a lira à pedra de um sepulcro. . .
Eu era um trovador, sou um mendigo .
Ergueu do chão a dádiva d'Elfrida;
Roçou as flores aos trementes lábios;
Beijou-as. Sobre o peito de Tancredo
Pousou-as lentamente...
—Em nome dele,
Agradeço estas flores do teu seio,
Anjo que sobre um túmulo desfolhas
Tuas últimas flores de donzela!—
Depois vibrou na lira estranhas mágoas,
Carpiu à longa noite escuras nênias,
Cantou: banhou de lágrimas o morto.
De repente parou—vibrou a lira
Co'as mãos iradas, trêmulas... e as cordas
Uma per uma rebentou cantando...
Tinha fogo no crânio, e sufocava.
Passou a fria mão nas fontes úmidas,
Abriu a medo os lábios convulsivos,
Sorriu de desespero—e sempre rindo
Quebrou as jóias as lançou no abismo.


VI

No outro dia, na borda do caminho
Deitado ao pé de um fosso aberto apenas,
Viu-se um mancebo loiro que morria. . .
Semblante feminil, e formas débeis,
Mas nos palores da espaçosa fronte
Uma sombria dor cavara sulcos.
Corria sobre os lábios alvacentos
Uma leve umidez, um ló d'escuma,
E seus dentes a raiva constringira...
Tinha os punhos cerrados. . . Sobre o peito
Acharam letras de uma língua estranha. . .
E um vidro sem licor. . . fora veneno!. . .
Ninguém o conheceu; mas conta o povo
Que, ao lançá-lo no túmulo, o coveiro
Quis roubar-lhe o gibão—despiu o moço. . .
E viu. . . talvez é falso. . . níveos seios. . .
Um corpo de mulher de formas puras. . .
Na tumba dormem os mistérios de ambos;
Da morte o negro véu não há erguê-lo!
Romance obscuro de paixões ignotas
Poema d'esperança e desventura,
Quando a aurora mais bela os encantava,
Talvez rompeu-se no sepulcro deles!
Não pode o bardo revelar segredos
Que levaram ao céu as ternas sombras;
Desfolha apenas nessas frontes puras
Da extrema inspiração as flores murchas. . .





domingo, 1 de julho de 2012

"– Mas a trova não seria a poesia menor?..." Lançamento do novo livro de Sandro Rebel


“ – Mas a trova não seria a poesia menor?...” me pergunta Sandro Pereira Rebel, com uma expressão de lástima no rosto. Conhecendo, entretanto, o humor irônico deste trovador, há que se identificar, no fundo de seus olhos azuis, o quanto Rebel se ri intimamente deste preconceito descabido e grosseiro. Afinal, sabe nosso poeta campista que muitos dos grandes escreveram suas trovas: Pessoa, Bandeira, Drummond (até o parnasiano Bilac!); sabe, ainda, Rebel, o quanto é bonito o movimento trovadoresco por este Brasil afora; o quanto é edificante e congregador é o trabalho da União Brasileira dos Trovadores – UBT (em suas diversas seções regionais) e, por fim, sabe o poeta do farol que alguns nomes de gênio e técnica fazem nas muitas “estradas” trovadorescas de nossa literatura. Para citar alguns nomes (e só alguns, pois não seria possível elencar a todos): Arlindo Tadeu Hagen, Edmar Japiassú Maia, Elisabeth Souza Cruz, Izo Goldman, João Freire Filho, Madalena Ferreira, Maria da Conceição Pires de Melo (Manita), Maria Nascimento Silva, Rodolfo Abud, Sávio Soares de Sousa e Sérgio Bernardo (alguns falecidos, outros muito vivos e atuantes, mas todos faróis).

Apresentamos na postagem de hoje, o livro que Sandro Pereira Rebel (nome que eu acrescentaria no rol supra) lançará no próximo dia 5 de julho. Com Os dez andamentos da trova, o poeta não apenas credita em favor desse gênero poético, quanto prova a quem quiser que a trova só é pequena em formato e na metrificação, esbanjando em qualidade literária, elegância estética e estilo.


Capa de Os dez andamentos da trova (Nitpress, 2012)

Os dez andamentos da trova é décimo primeiro livro de Sandro Rebel (o primeiro exclusivamente de trovas), contendo mais de 300 poesias. As trovas estão distribuídas em dez blocos temáticos: saudade, amor, tempo, felicidade, natureza etc. O livro é dedicado, in memoriam, ao trovador Milton Nunes Loureiro e tem prefácio de Antônio Soares.
Sandro Pereira Rebel já obteve mais de uma centena de premiações em concursos organizados, sobretudo, pela UBT, em dezenas de cidades de numerosos estados do país, como Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Niterói, Friburgo, Campos dos Goytacazes, Belo Horizonte, Maringá, Porto Alegre etc.



Prévia com algumas trovas do livro:


Se a felicidade é um mito,
ter o mito é minha meta,
pois nem ir ao infinito
é difícil para o poeta.

*

 Faz o cenário mais lindo,
para ilustrar paz e amor,
uma criança sorrindo,
tendo nas mãos uma flor.

* 

Pequenina no formato,
mas imensa no que cria,
a trova é como um retrato
três por quatro da poesia.





Divulgação Cultural
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