“Ser anfitrião das belas letras.”
Com esta legenda, o presente Blog pretende abrir espaço para os talentos da literatura (com ênfase na fluminense). Tal sítio é reservado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias. Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária é o nosso papel.
Curso organizado e ministrado pelo Prof. Dr. Maximiano de Carvalho e Silva,
Professor Emérito da Universidade Federal Fluminense, aposentado no serviço
público como Titular de Filologia / Crítica Textual da Universidade Federal
Fluminense.Diretor Executivo do curso:
Prof. Dr. Roberto Kahlmeyer-Mertens.
Cinco palestras, uma por quinzena, com a duração de
três horas cada uma delas, no horário das 15 às 18 horas, aos sábados.
Dias previstos: 1.o,15 e 29 de
setembro; 6 e 20 de outubro.
Local: Rua Osvaldo Cruz, em Icaraí,
Niterói, no apartamento-escritório do palestrante.
Número limitado de inscrições (20 no máximo).
Cada palestra será dividida em duas partes, com
um intervalo de 20 minutos: a) exposição do tema; b) preparação para a leitura
do romance.
No passado e no presente a história literária
brasileira está mergulhada em intrigas, invejas, ressentimentos, vias de fato,
injustiças, indiferenças e, em nível mais elevado de debate, em polêmicas. A
começar das incompreensões no próprio seio dos movimentos literários ou
periodizações, as dissensões se instalam com grupos novos defendendo suas
propostas ou manifestos de independência no que respeita ao estilos ou estilos
anteriores, o que, de alguma maneira, explica ou justifica a dinâmica interna e
específica do fazer literário. Não deixa de ser um jogo ancestral entre a velha
e a nova geração num período histórico considerado. Quem chega, deseja a
desestabilização do estilo anterior, como se o novo fosse sempre “superior” ou
“melhor” do que o antigo. Nada mais longe da verdade. O caráter de dinamismo da
escrita literária fala mais alto do que as relatividades das vanguardas. O que
convém ter em mira é o sentido de modificações que instrumentalizadas pelas
realidades sociais e culturais diferentes acompanhando o ritmo da História, sem
vezos de alcances de perfeição e formas ideais. Portugal e o Brasil são dois
países em que a polêmica alcançou, mais naquele do que neste, considerável
fortuna crítica. Em Portugal, cujas primeiras notícias datam da época dos
trovadores e jograis, serve de ponto alto a polêmica conhecida como “Questão
Coimbrã”, embate ácido entre o Romantismo e o Realismo, dividindo, no plano
intelectual, figuras consagradas da velha geração liderada por Antônio Feliciano
de Castilho(1800-1875) apoiado pelo destemido e mordacíssimo romancista Camilo
Castelo Branco (1825-1890). Do outro oposto, representando as novas idéias os
escritores Antero de Quental (1842-1891) e Teófilo Braga (1843-1924) procurando
desqualificar o Romantismo chamado “decadente,” encarnado na produção ficcional
de Camilo Castelo Branco. No Brasil, segundo Naief Sáfadi, a polêmica não é
tema tão freqüente assim, podendo-se asseverar que um dos seus capítulos mais
conhecidos é aquele alusivo ao poema “A Confederação dos Tamoios” (1857), de
Gonçalves de Magalhães (1811-1882) polêmica que resultou na publicação de oito
cartas de José de Alencar reunidas em Cartas sobre a Confederação dos Tamoios
(1860) escritas sob o pseudônimo de “Ig.” Nelas Alencar assinala como defeito na
elaboração daquele poema a ausência de vigor poético e, além disso, refere à
precariedade de sua maneira de conceber a figura do índio, segundo ele,
artificialmente composto. Ora, o próprio Alencar foi também, por sua vez, vítima
de crítica semelhante, que lhe apontavam idealizações exageradas na
caracterização física e psicológica do indígena brasileiro. Em defesa de
Magalhães, saíram Araújo Porto Alegre (1806-1879) e o imperador D. Pedro II
(1825-1891). Defendendo Alencar esteve Pinheiro Guimarães (1832-1877) Outras
polêmicas, na década de 1880, poder-se-iam mencionar aqui. As de Carlos de Laet
(1847-1927) com os portugueses Camilo Castelo Branco e Castilho e outra com
Valentim Magalhães(1859-1903) sobre uma questão até sem muita relevância, a de
saber (!) quem seria o melhor poeta brasileiro Gonçalves Dias (1823-1864),
Castro Alves (1847-1871) ou Luís Delfino (1834-1910). Ainda naquela mesma
década, houve uma destacada polêmica entre Júlio Ribeiro (1845-1890),
romancista, gramático e filólogo, famoso por sua verve cáustica em assuntos de
política (Cartas sertanejas, 1885) e o Pe. Sena Freitas, a propósito do romance
naturalista, A carne, zombeteiramente chamado “A carniça” pelo crítico Agripino
Grieco ( 1888-1973). Algumas outras polêmicas se tornaram suficientemente
divulgadas: a de Tobias Barreto (1839-1889), em 1883, com os padres maranhenses
Joaquim Albuquerque (1867-1934) e Casemiro da Cunha, sobre questões de
clericalismo no meio cultural brasileiro. As polêmicas de Sílvio Romero
(1851-1914) com Teófilo Braga, com José Veríssimo (1857-1916) e com o gramático
Laudelino Freire (1873-1937) Famosa ficou também a polêmica de Rui Barbosa
(1849-1923) que manteve com o seu ex-professor Ernesto Carneiro Ribeiro()
versando sobre a redação do Código Civil Brasileiro (1903). Em resposta às
críticas de Carneiro Ribeiro, Rui escreveu a célebre Réplica à defesa da redação
do Código Civil Brasileiro, 1904) que lhe valeu, da parte do opositor, uma
Tréplica. Anos depois, outras polêmicas surgiram, como aquela travada entre
Cassiano Ricardo (1895-191974) e Fernando de Magalhães tendo por eixo da
discussão Cecília Meireles (1901-1964) e a Academia Brasileira de Letras. Osório
Borba e Menotti del Picchia (1892-1988) polemizaram sobre o tema da crítica
literária brasileira, Osório desanca o regionalismo e o caráter personalista
daquela crítica. Não podemos esquecer entre outras, as polêmicas entre o
Pe.. Leonel Franca (1893-1948) e José Oiticica(1882-1957). Em outra ocasião,
Oiticica, que era anarquista e gramático, terçou armas com o linguista e
filólogo Sílvio Elias (1913-1998). Finalmente, para não alongar o objetivo
deste artigo, que não é o de desenvolver em profundidade o tema da polêmica
literária no país, lembraria a polêmica acérrima entre dois críticos de grande
valor, mas de diferente tendência teórica e visão cultural : Álvaro Lins
(1912-1970) e Afrânio Coutinho(1911-2000). A raiz da polêmica situa-se a partir
da publicação da obra de Coutinho, A filosofa de Machado de Assis (1940). A
natureza dessa polêmica tem fundamentação argumentativa nos campos da
estilística e da visão crítica de autores que influenciaram a ficção machadiana.
A meu ver, a diatribe, até extrapolando para o plano pessoal, foi, primeiro,
provocada por um ensaio de Lins sobre aquela obra de Coutinho. A reação de
Coutinho foi imediata e duríssima. Todos esses comentários me vieram à baila
após recentes leituras de duas crônicas de Ferreira Gullar publicadas na sua
coluna do Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, nas quais menciona o nome de
Augusto de Campos a respeito de uma afirmação deste sobre o que pensava do
escritor e poeta modernista Oswald de Andrade (1890-1954). O fato se resume no
seguinte: num encontro de Gullar com Augusto de Campos, no Rio de Janeiro, em
1955, na Spaghettilândia, na Cinelândia, Centro do Rio. Gullar relatou numa das
crônicas acima referidas que Augusto chamara Oswald de Andrade de
“irresponsável.”, julgamento que Gullar imediatamente rechaçara. Augusto de
Campos, em artigo recente publicado naquele mesmo jornal, desmentiu o que Gullar
escrevera a respeito do encontro, afirmando que não houve tal encontro, mas não
negou que chamara Oswald de Andrade de “irresponsável”. Pelo que conheço de
Gullar, o que a questão levanta é não só evidência de vaidade da parte que
pretende ter sido quem julgou com acerto – o que não foi o caso de Augusto de
Campos - e de forma antecipadora um escritor de inegável qualidade como Oswald.
Ao contrário, fora Gullar quem acertara em cheio no julgamento justo e
antecipado sobre a poesia de Oswald de Andrade. Quanto a saber se Augusto de
Campos, numa releitura mais cuidadosa da obra de Oswald, conseguiu que o autor
de Serafim Ponte Grande (1933) fosse reconhecido como figura de relevo na poesia
brasileira, isso torna as justificativas de Gullar bastante louváveis.
Agora, ao trazer à discussão a questão do encontro e da opinião negativa de
Augusto para um deslocamento de assunto relacionado à dúvida sobre o valor e
importância de poemas de Gullar, a história se complica e, então, não há como
não tomar o partido de um poeta de alta expressão como Ferreira Gullar. Daí para
diante, de um lado e de outro, os entrerveros só a custo conseguem se manter em
bases educadas, uma vez que a verrina da polêmica já se instalou nos campos
intelectual e pessoal, o que, no último caso, empobrece qualquer polêmica em
alto nível conduzida. É uma pena que assim hajam chegado a tais divergências.
NOTAS:
1.SÁFADI, Naief. Verbete sobre “Polêmica” na literatura
brasileira. In: Dicionário de literatura (direção de Jaccinto do Prado Coelho).
3 ed., 2º vol. L/S. Porto: Figueirinha, p. 838-839. Ver também o verbete
“Polêmica” na literatura portuguesa. PRADO COELHO, Jacinto do. Idem, ibidem, p.
837-838.
2. Nomes de escritores cuja indicação de data de nascimento e morte
não aparecem neste artigo serão incluídos posteriormente no corpo do texto logo
que devidamente localizados. A ressalva vale também para os nomes de obras e
datas de publicação
Em visita ao eminente filólogo
Maximiano de Carvalho e Silva, tive a feliz surpresa de saber que ele é frequentador
assíduo do Literatura-Vivência. Disse-me
meu ilustre anfitrião que acompanha o Blog, louva a iniciativa de projetarmos
aqui novos talentos das letras, de resgatar os antigos, e recomendou: “ – É preciso resgatar também os mais
antigos.” Nossa conversa, desde aí, foi um elenco de nomes que precisam ser
retomados: Teixeira e Sousa, Luiz Leitão, B. Lopes, Cruz e Sousa, José Lins do Rego, Lima Barreto,
Ribeiro Couto e Fagundes Varela foram apenas alguns deles. Na data de hoje,
atendendo à prescrição de mestre Maximiano, o lembrado é o poeta romântico Álvares
de Azevedo.
Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Barataria de D. Quixote, onde Sancho é rei, e vivem Panúrgio, sir John Falstaff, Bardolph, Fígaro e o Sganarello de D. João Tenório I — a pátria dos sonhos de Cervantes e Shakespeare.
Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.
A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.
Demais, perdoem-me os poetas do tempo, isto aqui é um tema, senão mais novo, menos esgotado que o sentimentalismo tão fashionable desde Werther e René
Por um espírito de contradição, quando os homens se vêem inundados de páginas amorosas, preferem Um conto de Boccaccio, uma caricatura de Rabelais, uma cena de Falstaff no Henrique IV de Shakespeare, um provérbio fantástico daquele polisson, Alfred de Musset, a todas as ternuras elegíacas dessa poesia de arremedo que anda na moda, e reduz as mordas de oiro sem liga dos grandes poetas ao troco de cobre, divisível até ao extremo, dos liliputianos poetastros.
Antes da Quaresma há o Carnaval.
Há uma crise nos séculos como nos homens. é quando a poesia cegou deslumbrada de fitar-se no misticismo, e caiu do céu sentindo exaustas as suas asas de oiro.
O poeta acorda na terra. Demais, o poeta é homem. Homo sum, como dizia o célebre Romano. Vê, ouve, sente e, o que é mais, sonha de noite as belas visões palpáveis de acordado Tem nervos, tem fibra e tem artérias—isto é, antes e depois de ser um ente idealista, é um ente que tem corpo. E, digam o que quiserem, sem esses elementos, que sou o primeiro a reconhecer muito prosaicos, não há poesia.
O que acontece? Na exaustão causada pelo sentimentalismo, a alma ainda trêmula e ressoante da febre do sangue, a alma que ama e canta porque sua vida f' amor e canto, o que pode senão fazer o poema dos amores da vida real? Poema talvez novo, mas que encerra em si muita verdade e muita natureza, e que sem ser obsceno pode ser erótico sem ser monótono. Digam e creiam o que quiserem. Todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos.
O poema então começa pelos últimos crepúsculos do misticismo, brilhando sobre a vida como a tarde sobre a terra. A poesia puríssima banha com seu reflexo ideal beleza sensível e nua.
Depois a doença da vida, que não dá ao mundo objetivo cores tão azuladas como o nome britânico de blue devils, descarna e injeta de fel cada vez mais o coração. Nos mesmos lábios onde suspirava a monodia amorosa, vem a sátira que morde.
É assim. Depois dos poemas éticos, Homero escreveu o poema irônico. Goethe depois de Werther criou o Faust. Depois de Parisina e o Giaour de Byron vem o Cain e Don Juan—Don Juan que começa como Cain pelo amor, e acaba como ele pela descrença venenosa e sarcástica.
Agora basta.
Ficarás tão adiantado agora, meu leitor, como se não lesses essas páginas, destinadas a não ser lidas. Deus me perdoe! assim é tudo! até os prefácios!
Um cadáver de poeeta
Levem ao túmulo aquele que parece um cadáver! Tu não pesaste sobre a ferra: a terra te seja leve!
“ – Mas a trova não seria a
poesia menor?...” me pergunta
Sandro Pereira Rebel, com uma expressão de lástima no rosto. Conhecendo,
entretanto, o humor irônico deste trovador, há que se identificar, no fundo de
seus olhos azuis, o quanto Rebel se ri intimamente deste preconceito descabido
e grosseiro. Afinal, sabe nosso poeta campista que muitos dos grandes
escreveram suas trovas: Pessoa, Bandeira, Drummond (até o parnasiano Bilac!);
sabe, ainda, Rebel, o quanto é bonito o movimento trovadoresco por este Brasil
afora; o quanto é edificante e congregador é o trabalho da União Brasileira dos Trovadores – UBT (em suas diversas seções
regionais) e, por fim, sabe o poeta do farol que alguns nomes de gênio e
técnica fazem nas muitas “estradas” trovadorescas de nossa literatura. Para
citar alguns nomes (e só alguns, pois não seria possível elencar a todos):
Arlindo Tadeu Hagen, Edmar Japiassú Maia, Elisabeth Souza Cruz, Izo Goldman,
João Freire Filho, Madalena Ferreira, Maria da Conceição Pires de Melo
(Manita), Maria Nascimento Silva, Rodolfo Abud, Sávio
Soares de Sousa e Sérgio Bernardo (alguns falecidos, outros muito vivos e
atuantes, mas todos faróis).
Apresentamos na postagem de hoje, o livro que Sandro Pereira Rebel (nome
que eu acrescentaria no rol supra) lançará no próximo dia 5 de julho. Com Os dez andamentos da trova, o poeta não
apenas credita em favor desse gênero poético, quanto prova a quem quiser que a
trova só é pequena em formato e na metrificação, esbanjando em qualidade literária,
elegância estética e estilo.
Capa de Os dez andamentos da trova (Nitpress, 2012)
Os dez andamentos da trova
é décimo primeiro livro de Sandro Rebel (o primeiro
exclusivamente de trovas), contendo mais de 300 poesias. As trovas estão
distribuídas em dez blocos temáticos: saudade, amor, tempo, felicidade,
natureza etc. O livro é dedicado, in
memoriam, ao trovador Milton Nunes Loureiro e tem prefácio de Antônio
Soares.
Sandro Pereira Rebel já obteve
mais de uma centena de premiações em concursos organizados, sobretudo, pela
UBT, em dezenas de cidades de numerosos estados do país, como Rio de Janeiro,
São Paulo, Santos, Niterói, Friburgo, Campos dos Goytacazes, Belo Horizonte,
Maringá, Porto Alegre etc.