sábado, 7 de julho de 2012

Poemas malditos de Álvares de Azevedo: "Cuidado, leitor, ao voltar esta página!"


Em visita ao eminente filólogo Maximiano de Carvalho e Silva, tive a feliz surpresa de saber que ele é frequentador assíduo do Literatura-Vivência. Disse-me meu ilustre anfitrião que acompanha o Blog, louva a iniciativa de projetarmos aqui novos talentos das letras, de resgatar os antigos, e recomendou: “ – É preciso resgatar também os mais antigos.”
Nossa conversa, desde aí, foi um elenco de nomes que precisam ser retomados: Teixeira e Sousa, Luiz Leitão, B. Lopes, Cruz e Sousa, José Lins do Rego, Lima Barreto, Ribeiro Couto e Fagundes Varela foram apenas alguns deles. Na data de hoje, atendendo à prescrição de mestre Maximiano, o lembrado é o poeta romântico Álvares de Azevedo.
Cuidado leitor, ao voltar esta página...






Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Barataria de D. Quixote, onde Sancho é rei, e vivem Panúrgio, sir John Falstaff, Bardolph, Fígaro e o Sganarello de D. João Tenório I — a pátria dos sonhos de Cervantes e Shakespeare.
Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.
A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.
Demais, perdoem-me os poetas do tempo, isto aqui é um tema, senão mais novo, menos esgotado que o sentimentalismo tão fashionable desde Werther e René
Por um espírito de contradição, quando os homens se vêem inundados de páginas amorosas, preferem Um conto de Boccaccio, uma caricatura de Rabelais, uma cena de Falstaff no Henrique IV de Shakespeare, um provérbio fantástico daquele polisson, Alfred de Musset, a todas as ternuras elegíacas dessa poesia de arremedo que anda na moda, e reduz as mordas de oiro sem liga dos grandes poetas ao troco de cobre, divisível até ao extremo, dos liliputianos poetastros.
Antes da Quaresma há o Carnaval.
Há uma crise nos séculos como nos homens. é quando a poesia cegou deslumbrada de fitar-se no misticismo, e caiu do céu sentindo exaustas as suas asas de oiro.
O poeta acorda na terra. Demais, o poeta é homem. Homo sum, como dizia o célebre Romano. Vê, ouve, sente e, o que é mais, sonha de noite as belas visões palpáveis de acordado Tem nervos, tem fibra e tem artérias—isto é, antes e depois de ser um ente idealista, é um ente que tem corpo. E, digam o que quiserem, sem esses elementos, que sou o primeiro a reconhecer muito prosaicos, não há poesia.
O que acontece? Na exaustão causada pelo sentimentalismo, a alma ainda trêmula e ressoante da febre do sangue, a alma que ama e canta porque sua vida f' amor e canto, o que pode senão fazer o poema dos amores da vida real? Poema talvez novo, mas que encerra em si muita verdade e muita natureza, e que sem ser obsceno pode ser erótico sem ser monótono. Digam e creiam o que quiserem. Todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos.
O poema então começa pelos últimos crepúsculos do misticismo, brilhando sobre a vida como a tarde sobre a terra. A poesia puríssima banha com seu reflexo ideal beleza sensível e nua.
Depois a doença da vida, que não dá ao mundo objetivo cores tão azuladas como o nome britânico de blue devils, descarna e injeta de fel cada vez mais o coração. Nos mesmos lábios onde suspirava a monodia amorosa, vem a sátira que morde.
É assim. Depois dos poemas éticos, Homero escreveu o poema irônico. Goethe depois de Werther criou o Faust. Depois de Parisina e o Giaour de Byron vem o Cain e Don Juan—Don Juan que começa como Cain pelo amor, e acaba como ele pela descrença venenosa e sarcástica.
Agora basta.
Ficarás tão adiantado agora, meu leitor, como se não lesses essas páginas, destinadas a não ser lidas. Deus me perdoe! assim é tudo! até os prefácios!
Um cadáver de poeeta
Levem ao túmulo aquele que parece um cadáver! Tu não pesaste sobre a ferra: a terra te seja leve!
L. Uhland


I

De tanta inspiração e tanta vida
Que os nervos convulsivos inflamava
E ardia sem conforto.. .
O que resta? uma sombra esvaecida,
Um triste que sem mãe agonizava . .
Resta um poeta morto!
Morrer! e resvalar na sepultura.
Frias na fronte as ilusões—no peito
Quebrado o coração!
Nem saudades levar da vida impura
Onde arquejou de fome . . sem um leito!
Em treva e solidão!
Tu foste como o sol; tu parecias
Ter na aurora da vida a eternidade
Na larga fronte escrita. . .
Porém não voltarás como surgias!
Apagou-se teu sol da mocidade
Numa treva maldita!
Tua estrela mentiu. E do fadário
De tua vida a página primeira
Na tumba se rasgou...
Pobre gênio de Deus, nem um sudário!
Nem túmulo nem cruz! como a caveira
Que um lobo devorou!. . .


II

Morreu um trovador—morreu de fome.
Acharam-no deitado no caminho:
Tão doce era o semblante! Sobre os lábios
Flutuava-lhe um riso esperançoso.
E o morto parecia adormecido.
Ninguém ao peito recostou-lhe a fronte
Nas horas da agonia! Nem um beijo
Em boca de mulher! nem mão amiga
Fechou ao trovador os tristes olhos!
Ninguém chorou por ele... No seu peito
Não havia colar nem bolsa d'oiro;
Tinha até seu punhal um férreo punho...
Pobretão! não valia a sepultura!
Todos o viam e passavam todos.
Contudo era bem morto desde a aurora.
Ninguém lançou-lhe junto ao corpo imóvel
Um ceitil para a cova!. . nem sudário!
O mundo tem razão, sisudo pensa,
E a turba tem um cérebro sublime!
De que vale um poeta—um pobre louco
Que leva os dias a sonhar—insano
Amante de utopias e virtudes
E, num tempo sem Deus, ainda crente?
A poesia é de cerco uma loucura,
Sêneca o disse, um homem de renome.
É um defeito no cérebro.. Que doudos!
É um grande favor, é muita esmola
Dizer-lhes bravo! à inspiração divina,
E, quando tremem de miséria e fome,
Dar-lhes um leito no hospital dos loucos...
Quando é gelada a fronte sonhadora,
Por que há de o vivo que despreza rimas
Cansar os braços arrastando um morto,
Ou pagar os salários do coveiro?
A bolsa esvazia por um misérrimo
Quando a emprega melhor em lodo e vício!
E que venham aí falar-me em Tasso!
Culpar Afonso d'Este—um soberano!—
Por que não lhe dar a mão da irmã fidalga!
Um poeta é um poeta—apenas isso:
Procure para amar as poetisas!
Se na Franca a princesa Margarida,
De Francisco Primeiro irmã formosa,
Ao poeta Alain Chartier adormecido
Deu nos lábios um beijo, é que esta moça,
Apesar de princesa, era uma douda,
E a prova é que também rondós fazia.
Se Riccio o trovador obteve amores
—Novela até bastante duvidosa—
Dessa Maria Stuart formosíssima,
É que ela—sabe-o Deus!—fez tanta asneira,
Que não admira que um poeta amasse!
Por isso adoro o libertino Horácio.
Namorou algum dia uma parenta
Do patrono Mecenas? Parasita,
Só pedia dinheiro—no triclínio
Bebia vinho bom—e não vivia
Fazendo versos às irmãs de Augusto.
E quem era Camões? Por ter perdido
Um olho na batalha e ser valente,
As esmolas valeu. Mas quanto ao resto,
Por fazer umas trovas de vadio,
Deveriam lhe dar, além de glória
—E essa deram-lhe à farta—algum bispado,
Alguma dessas gordas sinecuras
Que se davam a idiotas fidalguias?
Deixem-se de visões, queimem-se os versos.
O mundo não avança por cantigas.
Creiam do poviléu os trovadores
Que um poeta não val meia princesa.
Um poema contudo, bem escrito,
Bem limado e bem cheio de tetéias,
Nas horas do café lido fumando,
Ou no campo, na sombra do arvoredo,
Quando se quer dormir e não há sono,
Tem o mesmo valor que a dormideira.
Mas não passe dali do vate a mente.
Tudo o mais são orgulhos, são loucuras!
Faublas tem mais leitores do que Homero. . .
Um poeta no mundo tem apenas
O valor de um canário de gaiola. . .
É prazer de um momento, é mero luxo.
Contente-se em traçar nas folhas brancas
De um Álbum da moda umas quadrinhas.
Nem faça apelações para o futuro.
O homem é sempre o homem. Tem juízo:
Desde que o mundo é mundo assim cogita.
Nem há negá-lo—não há doce lira
Nem sangue de poeta ou alma virgem
Que valha o talismã que no oiro vibra!
Nem músicas nem santas harmonias
Igualam o condão, esse eletrismo,
A ardente vibração do som metálico...
Meu Deus! e assim fizeste a criatura?
Amassaste no lodo o peito humano?
Ó poetas, silencio! é este o homem?
A feitura de Deus a imagem dele!
O rei da criação!. . .
Que verme infame!
Não Deus, porém Satã no peito vácuo
Uma corda prendeu-te—o egoísmo!
Oh! miséria, meu Deus! e que miséria!


III

Passou El-Rei ali com seus fidalgos.
Iam a degolar uns insolentes
Que ousaram murmurar da infâmia régia,
Das nódoas de uma vida libertina!
Iam em grande gala. O Rei cismava
Na glória de espetar no pelourinho
A cabeça de um pobre degolado.
Era um rei bon-vivant, e rei devoto;
E, como Luís XI, ao lado tinha
O bobo, o capelão e seu carrasco.
O cavalo do Rei, sentindo o morto,
—Trêmulo de terror parou nitrindo.
Deu d'esporas leviano o cavaleiro
E disse ao capelão:
"E não enterram
Esse homem que apodrece, e no caminho
Assusta-me o corcel?"
Depois voltou-se
E disse ao camarista de semana:
"Conheces o defunto? Era inda moço.
Faria certamente um bom soldado.
A figura é esbelta! Forte pena!
Podia bem servir para um lacaio."
Descoberto, o faceiro fidalgote
Responde-lhe fazendo a cortesia:
"Pelas tripas do Papa! eu não me engano,
Leve-me Satanás se este defunto
Ontem não era o trovador Tancredo!"
"Tancredo"! murmurou erguendo os óculos
Um anfíbio, um barbaças truanesco.
Alma de Tribouler, que além de bobo
Era o vate da corte—bem nutrido,
Farto de sangue, mas de veia pobre,
Caídos beiços, volumoso abdômen,
Grisalha cabeleira esparramada,
Tremendo narigão, mas testa curta;
Em suma um glosador de sobremesas.
"Tancredo!—repetiu imaginando—
Um asno! só cantava para o povo!
Uma língua de fel, um insolente!
Orgulho desmedido.. . e quanto aos versos
Morava como um sapo n'água doce. . .
Não sabia fazer um trocadilho. . ."
O rei passou—com ele a companhia.
Só ficou ressupino e macilento
Da estrada em meio o trovador defunto.


IV

Ia caindo o sol. Bem reclinado
No vagaroso coche madornando,
Depois de bem jantar fazendo a sesta,
Roncava um nédio, um barrigudo frade:
Bochechas e nariz, em cima uns óculos,
Vermelho solidéu... enfim um bispo,
E um bispo, senhor Deus! da idade média,
Em que os bispos—como hoje e mais ainda—
Sob o peso da cruz bem rubicundos,
Dormindo bem, e a regalar bebendo,
Sabiam engordar na sinecura;
Papudos santarrões, depois
Missa Lançando ao povo a bênção—por dinheiro!
O cocheiro ia bêbado por certo;
Os cavalos tocou p'lo bom caminho
Mesmo em cima das pernas do cadáver.
Refugou a parelha, mas o sota
—Que ao sol da glória episcopal enchia
De orgulho e de insolência o couro inerte,
Cuspindo o poviléu, como um fidalgo—
Que em falta de miolo tinha vinho
Na cabeça devassa, deu de esporas:
Como passara sobre a vil carniça
Reléu de corvos negros—foi por cima. . .
Mas desgraça! maldito aquele morto!
Desgraça!... não porque pisasse o coche
Aqueles magros ossos, mas a roda
Na humana resistência deu estalo. . .
E acorda o fradalhão...
"O que se sucede?
—Pergunta bocejando: É algum bêbado?
Em que bicho pisaram?"
"Senhor bispo"
Diz o servo da Igreja, o bom cocheiro
Ao vigário de Cristo, ao santo Apóstolo
Isto é—dessa fidalga raça nova
Que não anda de pé como S. Pedro,
Nem estafa os corcéis de S. Francisco:
"Perdoe Vossa Excelência Eminentíssima;
É um pobre diabo de poeta,
Um homem sem miolo e sem barriga
Que lembrou-se de vir morrer na estrada!"
"Abrenúncio! —rouqueja o Santo Bispo—
Leve o Diabo essa tribo de boêmios!
Não há tanto lugar onde se morra?
Maldita gente! inda persegue os Santos
Depois que o Diabo a leva!. . ."
E foi caminho.
Leve-te Deus! Apóstolo da crença,
Da esperança e da santa caridade!
Tu, sim, és religioso e nos altares
Vem cada sacristão, e cada monge
Agitar a teus pés o seu turíbulo!
E o sangue do Senhor no cálix d'oiro
Da turba na oração te banha os lábios
Leve-te Deus, Apóstolo da crença!
Sem padres como tu que fora o mundo?
É por ti que o altar apóia o trono!
E teu olhar que fertiliza os vales
Fecunda a vinha santa do Messias!
Leve-te Deus ou leve-te o Demônio!


V

Caiu a noite, do azulado manto,
Como gotas de orvalho, sacudindo
Estrelas cintilantes.—Veio a lua
Banhando de tristeza o céu noturno:
Derrama aos corações melancolia,
Derrama no ar cheiroso molemente
Cerúlea chama, dia incerto e pálido
Que ao lado da floresta ajunta as sombras
E lança pelas águas da campina
Alvacentos clarões que as flores bebem.
A galope, de volta do noivado,
Passa o Conde Solfier, e a noiva Elfrida.
Seguem fidalgos que o sarau reclama.
Elfrida
—Não vês, Solfier, ali da estrada em meio
Um defunto estendido?—
Solfier
—Ó minha Elfrida,
Voltemos desse lado: outro caminho
Se dirige ao castelo. É mau agouro
Por um morto passar em noites destas.
Mas Elfrida aproxima o seu cavalo.
Elfrida
—Tancredo vede! é o trovador Tancredo!
Coitado! assim morrer! um pobre moço!
Sem mãe e sem irmã! E não o enterram?
Neste mundo não teve um só amigo?—
"Ninguém, senhora—respondeu da sombra
Uma dorida voz—Eu vim, há pouco,
Ao saber que do povo no abandono
Jazia como um cão. Eu vim, e eu mesmo
Cavei junto do lago a cova impura."
Elfrida
—Tendes um coração. Tomai, mancebo,
Tomai essa pulseira Em oiro e jóias
Tem bastante p'ra erguer-lhe um monumento,
E para longas missas lhe dizerem
Pelo repouso d'alma...
O moço riu-se.
O desconhecido
—Obrigado. Guardai as vossas jóias.
Tancredo o trovador morreu de fome;
Passaram-lhe no corpo frio e morto,
Salpicaram de lodo a face dele,
Talvez cuspissem nesta fronte santa
Cheia outrora de eternas fantasias,
De idéias a valer um mundo inteiro!...
Por que lançar esmolas ao cadáver?
Leva-as, fidalga—tuas jóias belas!
O orgulho do plebeu as vê sorrindo.
Missas... bem sabe Deus se neste mundo
Gemeu alma tão pura como a dele!
Foi um anjo, e murchou-se como as flores,
Morreu sorrindo como as virgens morrem!
Alma doce que os homens enjeitaram,
Lírio que profanou a turba imunda,
Oh! não te mancharei nem a lembrança
Com o óbolo dos ricos! Pobre corpo,
És o templo deserto, onde habitava
O Deus que em ti sofreu por um momento!
Dorme, pobre Tancredo! eu tenho braços:
Na cova negra dormirás tranqüilo. . .
Tu repousas ao menos!. . . —
No entanto sofreando a custo a raiva,
Mordendo os lábios de soberba e fúria,
Solfier da bainha arranca a espada,
Avança ao moço e brada-lhe:
"Insolente!
Cala-te, doudo! Cala-te, mendigo!
Não vês quem te falou? Curva o joelho,
Tira o gorro, vilão!"
O desconhecido
—Tu vês: não tremo.
Tu não vales o vento que salpica
Tua fronte de pó. Porque és fidalgo,
Não sabes que um punhal vale uma espada
Dentro do coração?—
Mas logo Elfrida:
"Acalma-te, Solfier! O triste moço
Desespera, blasfema e não me insulta.
Perdoa-me também, mancebo triste;
Não pensei ofender tamanho orgulho.
Tua mágoa respeito. Só te imploro
Que sobre a fronte ao trovador desfolhes
Essas flores, as flores do noivado
De uma triste mulher . . E quanto às jóias,
Lança-as no lago. . .Mas quem és? teu nome?"
O desconhecido
—Quem sou? um doudo, uma alma de insensato,
Que Deus maldisse e que Satã devora;
Um corpo moribundo em que se nutre
Uma centelha de pungente fogo,
Um raio divinal que dói e mata,
Que doira as nuvens e amortalha a terra!. .
Uma alma como o pó em que se pisa;
Um bastardo de Deus, um vagabundo
A que o gênio gravou na fronte—anátema!
Desses que a turba com o dedo aponta. . .
Mas não; não hei de sê-lo! eu juro n'alma,
Pela caveira, pelas negras cinzas
De minha mãe o juro... agora há pouco
Junto de um morto reneguei do gênio,
Quebrei a lira à pedra de um sepulcro. . .
Eu era um trovador, sou um mendigo .
Ergueu do chão a dádiva d'Elfrida;
Roçou as flores aos trementes lábios;
Beijou-as. Sobre o peito de Tancredo
Pousou-as lentamente...
—Em nome dele,
Agradeço estas flores do teu seio,
Anjo que sobre um túmulo desfolhas
Tuas últimas flores de donzela!—
Depois vibrou na lira estranhas mágoas,
Carpiu à longa noite escuras nênias,
Cantou: banhou de lágrimas o morto.
De repente parou—vibrou a lira
Co'as mãos iradas, trêmulas... e as cordas
Uma per uma rebentou cantando...
Tinha fogo no crânio, e sufocava.
Passou a fria mão nas fontes úmidas,
Abriu a medo os lábios convulsivos,
Sorriu de desespero—e sempre rindo
Quebrou as jóias as lançou no abismo.


VI

No outro dia, na borda do caminho
Deitado ao pé de um fosso aberto apenas,
Viu-se um mancebo loiro que morria. . .
Semblante feminil, e formas débeis,
Mas nos palores da espaçosa fronte
Uma sombria dor cavara sulcos.
Corria sobre os lábios alvacentos
Uma leve umidez, um ló d'escuma,
E seus dentes a raiva constringira...
Tinha os punhos cerrados. . . Sobre o peito
Acharam letras de uma língua estranha. . .
E um vidro sem licor. . . fora veneno!. . .
Ninguém o conheceu; mas conta o povo
Que, ao lançá-lo no túmulo, o coveiro
Quis roubar-lhe o gibão—despiu o moço. . .
E viu. . . talvez é falso. . . níveos seios. . .
Um corpo de mulher de formas puras. . .
Na tumba dormem os mistérios de ambos;
Da morte o negro véu não há erguê-lo!
Romance obscuro de paixões ignotas
Poema d'esperança e desventura,
Quando a aurora mais bela os encantava,
Talvez rompeu-se no sepulcro deles!
Não pode o bardo revelar segredos
Que levaram ao céu as ternas sombras;
Desfolha apenas nessas frontes puras
Da extrema inspiração as flores murchas. . .





domingo, 1 de julho de 2012

"– Mas a trova não seria a poesia menor?..." Lançamento do novo livro de Sandro Rebel


“ – Mas a trova não seria a poesia menor?...” me pergunta Sandro Pereira Rebel, com uma expressão de lástima no rosto. Conhecendo, entretanto, o humor irônico deste trovador, há que se identificar, no fundo de seus olhos azuis, o quanto Rebel se ri intimamente deste preconceito descabido e grosseiro. Afinal, sabe nosso poeta campista que muitos dos grandes escreveram suas trovas: Pessoa, Bandeira, Drummond (até o parnasiano Bilac!); sabe, ainda, Rebel, o quanto é bonito o movimento trovadoresco por este Brasil afora; o quanto é edificante e congregador é o trabalho da União Brasileira dos Trovadores – UBT (em suas diversas seções regionais) e, por fim, sabe o poeta do farol que alguns nomes de gênio e técnica fazem nas muitas “estradas” trovadorescas de nossa literatura. Para citar alguns nomes (e só alguns, pois não seria possível elencar a todos): Arlindo Tadeu Hagen, Edmar Japiassú Maia, Elisabeth Souza Cruz, Izo Goldman, João Freire Filho, Madalena Ferreira, Maria da Conceição Pires de Melo (Manita), Maria Nascimento Silva, Rodolfo Abud, Sávio Soares de Sousa e Sérgio Bernardo (alguns falecidos, outros muito vivos e atuantes, mas todos faróis).

Apresentamos na postagem de hoje, o livro que Sandro Pereira Rebel (nome que eu acrescentaria no rol supra) lançará no próximo dia 5 de julho. Com Os dez andamentos da trova, o poeta não apenas credita em favor desse gênero poético, quanto prova a quem quiser que a trova só é pequena em formato e na metrificação, esbanjando em qualidade literária, elegância estética e estilo.


Capa de Os dez andamentos da trova (Nitpress, 2012)

Os dez andamentos da trova é décimo primeiro livro de Sandro Rebel (o primeiro exclusivamente de trovas), contendo mais de 300 poesias. As trovas estão distribuídas em dez blocos temáticos: saudade, amor, tempo, felicidade, natureza etc. O livro é dedicado, in memoriam, ao trovador Milton Nunes Loureiro e tem prefácio de Antônio Soares.
Sandro Pereira Rebel já obteve mais de uma centena de premiações em concursos organizados, sobretudo, pela UBT, em dezenas de cidades de numerosos estados do país, como Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Niterói, Friburgo, Campos dos Goytacazes, Belo Horizonte, Maringá, Porto Alegre etc.



Prévia com algumas trovas do livro:


Se a felicidade é um mito,
ter o mito é minha meta,
pois nem ir ao infinito
é difícil para o poeta.

*

 Faz o cenário mais lindo,
para ilustrar paz e amor,
uma criança sorrindo,
tendo nas mãos uma flor.

* 

Pequenina no formato,
mas imensa no que cria,
a trova é como um retrato
três por quatro da poesia.





Divulgação Cultural
(Clique na imagem para ampliar)
     

sábado, 30 de junho de 2012

O que você achou do "III◦ Salão de Leitura de Niterói"?



Terminado neste sábado o evento literário que ocupou o Teatro Popular de Niterói, e que trouxe em sua programação grandes nomes das letras e da música brasileira, só se ouve uma pergunta: “O que você achou do III◦ Salão de Leitura de Niterói?”
A postagem de hoje é aberta ao registro de comentários, elogios, sugestões, críticas, agradecimentos, trocas de impressões etc.

Adicionalmente, oferecemos alguns registros da participação da Academia Niteroiense de Letras no evento.


Vista geral do Teatro Popular de Niterói, no Caminho Niemeyer

Teatro Popular de Niterói palco do "III Salão de leitura de Niterói"

"Bookgate"


Os acadêmicos Wanderlino Teixeira Leite Netto e Luiz Antonio Barros
no stand da Academia Niteroiense de Letras (no melhor estilo "men at work").


Detalhes da decoração do stand da ANL 

idem

"Nosso pequeno castelo"

Acadêmicos Carlos Rosa Moreira e Franci M. Darigo

Wanderlino T. L. Netto, Heraldo Sousa (do Instituto Histórico Geográfico de Bom Jardim - IHGBJ) e Roberto Kahlmeyer-Mertens

Os acadêmicos da ANL Bruno Pessanha e Wanderlino Netto com Heraldo Sousa do IHGBJ

Vista geral do Salão

Luiz Antonio Barros, Gracinda Rosa da Costa e Renato A. Farias de Carvalho, acadêmicos da ANL

Renato Augusto, Gracinda Rosa e Kahlmeyer-Mertens

Nova visão do III Salão de Leitura de Niterói

Externa do Teatro Popular de Niterói

A vista da Baía de Guanabara na manhã de sábado dia 30/06/2012
(céu de brigadeiro!)

Vista da audiência

Graça Porto (da organização do III Salão de Leitura de Niterói), Luís Antônio Pimentel, Glória Blauth (Diretora da Biblioteca Pública de Niterói - BPN)

O Editor da Nitpress Luiz Augusto Erthal com o poeta e acadêmico Sandro Pereira Rebel

Erthal, Neide Barros, Kahlmeyer e Rebel

Mesa redonda na programação da Nitpress: "O legado da cultura fluminense".Da esquerda para a direita: Márcia Pessanha (Presidente da ANL), Waldenir de Bragança (Presidente da AFL), Luis Erthal (Nitpress), e os acadêmicos Luiz Antonio Barros e Roberto Kahlmeyer-Mertens. Kahlmeyer falou da reediçao de "Presença da cultura fluminense", de Horácio Pacheco.

Luiz Antonio Barros fala do seu livro "Viagem literária através do Estado do Rio de Janeiro"

Vista parcial da audiência

Programação da Academia Niteroiense de Letras, palestra de R. S. Kahlmeyer-Mertens: “A existenciologia como a fundamentação para uma estética holística, segundo A. Barcellos Sobral

idem

Interação da plateia após a conferência de Kahlmeyer

Vista da audiência

Roberto Kahlmeyer com a educadora Stella Kisse

Os professores Roberto Kahlmeyer-Mertens e Robert Preis (UFF)

Kahlmeyer e Preis no stand da ANL

Descontração diante do stand da ANL:
Em primeiro plano o casal Liane e Will Martins, ao fundo se identifica Antônio Soares (ASO) e Edel Costa

Acadêmicos da ANL e amigos: Robert Preis, Will Martins, Liane Arêas, Luiz Antonio Barros, Antônio Soares, Edel Costa, Gilson Rolim, Neide Barros Rego 

Roberto Kahlmeyer, Robert Preis, Liane Arêas, Luiz Antonio Barros, Aso, Edel, Gilson Rolim e Neide B. Rego, diante do stand da ANL

Vista do pórtico do Salão à noite (Foto de Alberto Araújo)





quarta-feira, 27 de junho de 2012

Projeto "Livros que marcaram Niterói" ("Contemplação da unidade", de A. Barcellos Sobral)

 
 
 
Convicto do brocardo lobatiano segundo o qual “um país se faz com homens e livros”, tentei elencar, de memória, aqueles títulos que eu acreditava representar bem a cultura literária de Niterói. Consultando várias pessoas ligadas ao meio acadêmico de minha cidade, foi curioso o fato de minha lista coincidir com os títulos apontados por aqueles conhecedores de livros. Diante desta coincidência (ou deveria dizer “feliz serendipidade”), animei-me, sem maiores pretensões, a apresentar quinzenalmente alguns dos livros que teriam, de algum modo, marcado a cena literária niteroiense. Livros que trouxeram contribuições substanciais em alguma área, inovações, resgates, celebrações de datas festivas da cidade e que, até, ficaram conhecidos pelas polêmicas que causaram. Em todos esses casos, o valor literário ou histórico foi o que deu o critério para essas escolhas que – longe de serem completas – serão singelos afagos na cultura de nossa cidade.
Com esta postagem, o leitor de Literatura-Vivência poderá conhecer, no Projeto “Livros que marcaram Niterói”, um pouco mais das nossas letras.
Contemplação da unidade, de A. Barcellos Sobral 


Capa da primeira edição de Contemplação da Unidade (Heresis, 1997)

No ano de 1997 apareceu Contemplação da unidade – Tentativa de uma holística da existência, de A. Barcellos Sobral (editora Heresis). Na época, seu autor já era conhecido como poeta, teórico da literatura e esteta.
Nascido em 1919, no município de Campos dos Goytacazes/RJ, A. Barcellos Sobral era estatístico de formação e desde muito cedo se dedicou à poesia. Publicou Poema –1° Caderno, em 1955, época na qual esteve atrelado ao Clube de Poesia de Campos. Entre os trabalhos que compõem sua obra poética – programada para cinco respeitáveis tomos – estão também: No alto como as estrelas (1986) e o primoroso Misael: crônicas de uma paternidade (1996).


Autógrafo de A. Barcellos Sobral na primeira edição de Contemplação da unidade.

Tendo colaborado com o jornal Letras Fluminenses durante a década de 1980, o autor viu-se na necessidade de propor categorias estéticas que viriam contribuir para aquilo que chamou de “poesia integral”. Contemplação da unidade pontifica, então, como um arrojado ensaio de estética no qual o autor conjuga esta ideia à luz da filosofia, e das físicas clássica e quântica, tangendo indiretamente a termodinâmica do físico alemão Max Planck e a transdiciplinaridade (holística) do franco-brasileiro Pierre Weil. A obra – com sua síntese entre a palavra e a holística; a poesia e a ciência – reafirmou a reputação do poeta e pensador desvelando, adicionalmente, sua habilidade de ensaísta.
Aplicado ao exercício do ver, cujo olhar não se cansa de afiar seu gume, o esforço dispensado por A. Barcellos Sobral nos lembra o de um Aristóteles, aplicado à tarefa de qualificar e sistematizar espécimes em seu bestialógico e de cartografar céus e mundos. A lucidez desse homem traduz-se nos esquemas dos fatos estéticos em geral, matéria de sua “metafísica do belo”.
Na obra em apreço, essa manobra é antecedida pelo levantamento filosófico da ordem dos seres, esboçando o que o autor nomeou “existenciologia” (estudo da existência dos entes). Essa seria pré-requisito para uma teoria estética inovadora e que fugiria a muitos dos esquemas da razão judicativa propostos por Kant, no que concerne ao conceito de beleza. Tomando o belo como o “esplendor da ordem” universal, o autor parte da sinergia de todos os fenômenos estéticos; recorre à terceira lei da termodinâmica, como base das suas idéias; propõe uma revisão da classificação tradicional dos gêneros lírico, épico e dramático, associando o lírico ao belo na porção ideal de sinergia, numa escala crescente de intensidade responsável por fenômenos estéticos como o dramático e o épico. Agenciando esses elementos, nosso autor sopesa o belo pela quantidade de energia que nele estaria contida. Pode, assim, afirmar que apenas no gênero lírico teríamos uma quantidade ideal de energia, ao passo que em manifestações dramáticas e épicas da poesia, por exemplo, teríamos a energia em doses exacerbadas.
Essa intuição original é fundamentada no estudo abrangente desses fatos estéticos. O trabalho de A. Barcellos Sobral consegue dar, na mesma proporção, aprofundamento e extensão ao estudo. O texto, escrito de maneira simplificada não dispensa, contudo, o grau de especificidade técnica que seu autor cunhou, incluindo aparato terminológico próprio.
Mais que um livro de estética, trata-se de um ensaio original redigido inteiramente em Niterói e cuja intensidade nos evoca a estudá-lo, não apenas lê-lo diletantemente. Nessas reflexões de estética (e mesmo na existenciologia que a precede) há o diálogo com Max Planc, Wolfgang Kaiser e Pierre Weil, mas estes são apenas pontos de partida às intuições intelectuais próprias de nosso autor. Percebe-se em Contemplação da unidade que apenas as ideias figuram em seu corpo, não teve vez a erudição; assim, as referências e citações deram espaço um pensamento original decorrente daquelas temáticas essenciais. Quanto a isso, bem disse Antônio Carlos Villaça no primeiro aparato crítico do livro (prefácio): “Não conheço ninguém mais profundo, mais abissal e mais exigente do que nosso Barcellos Sobral. Ele é um bicho da seda. Tira tudo de si mesmo. Não tira nada dos outros”.


Capa da primeira edição de Contemplação da unidade (Nitpress, 2009)

No ano de 2009, no topo de seus lúcidos 90 anos de idade, A. Barcellos Sobral editou pela Nitpress uma segunda colação (revisada e ampliada) do livro, trazendo aprimoramentos significativos se a compararmos com a edição princeps. Atento a novas nuanças de sua investigação, acresceu quatro novos quadros de estética no corpo do tratado. A chancela de excelência sempre notória no trabalho do autor uma vez mais pôde ser conferida pelos interessados nos estudos de filosofia, arte e literatura. Naquela data, por ter acompanhado de perto o processo de revisão e assinando o segundo aparato crítico da obra (pósfácio), tive a oportunidade de proferir as seguintes palavras de reconhecimento: “Eis o trabalho da vida de um homem, um livro que nos ensina que a contemplação não é apenas exploração ou crítica, mas um amor sem paixão, capaz de perceber as coisas simples, serenamente. Ensaio de contribuição inegável aos fundamentos filosóficos da estética, a obra de nosso pensador é chancelada pela dedicação incondicional, sendo, essa nova edição – no ano que seu autor celebra seus noventa anos de idade – brinde à comunidade acadêmica e aos interessados nos estudos de filosofia, arte e literatura”.
A autenticidade do projeto de A. Barcellos Sobral, hoje, mais do que nunca, necessita de herdeiros disponíveis a aprender a sua visada abrangente, criadora e rigorosa, de gente que esteja disposta a estudar e contemplar a Unidade.


CONVITE:
III◦ Salão da Leitura de Niterói


SALA NOEL ROSA
 14h – “A existenciologia como a fundamentação para uma estética holística, segundo A. Barcellos Sobral” - Roberto Kahlmeyer-Mertens - Academia Niteroiense de Letras

(Público Adulto)



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segunda-feira, 25 de junho de 2012

O "gracias a la vida" de Aécio Alves da Costa


Quem seriam os atuais "atores" da literatura fluminense?
Esta pergunta tem por resposta uma série de nomes que, entre os nativos das terras do estado do Rio de Janeiro e os nela radicados, compõem um caldo literário com o tempero bem ao nosso gosto.
Apresentamos hoje um dos escritores que compõe o significativo cenário da literatura fluminense.


Fotoshop de Erik Johansson


“Caminante no hay camino, [en la vida] camino se hace al andar”. No verso de Antonio Machado uma bela verdade. Outras tantas podem ser encontradas na poesia que vem de Nova Friburgo - RJ. Trata-se do “gracias a la vida!” do poeta Aécio Alves da Costa, presidente da Academia Friburguense de Letras.



Vida


                                                                                                                         Aécio Alves da Costa

Vida que te quero viver.
Quando subia as montanhas no Vale Nevado dos Alpes chilenos
Me dei conta de nosso tamanho diante do universo
Onde pude refletir de modo solitário
Sentindo-me como um ponto minúsculo
Naquele vale imenso, lindo e aterrador.
De onde vi o voo de um condor.

Os seres humanos são criaturas tão pequenas
Tão menores que o universo
Tão insignificantes diante de sua imensidão
Que não devemos nos preocupar tanto com as coisas menos importantes.

Aproveitar a cada momento da vida…
Ampliar a visão do mundo, dar asas à imaginação
Sonhar, viver a vida
Suportar nossas fraquezas
Não nos preocuparmos tanto com as coisas que nos aborrecem.

Aproveitar a vida oferecendo amor, espargindo alegrias
Sorrir e fazer alguém sorrir a cada dia
Escolher ser feliz a cada dia
Reverenciar o nascimento de um ser
Dando-lhe a garantia do bem viver
Entre os homens e sob o olhar do Criador.
Aproveitar o Sol, que aquece a alma e dá vigor ao corpo.

Contemplar o brilho da lua e
Mergulhar na escuridão da noite
Encontrar sempre o lado positivo de tudo que nos rodeia
E ele aparecerá. É só procurar… concordar
E mesmo que tudo pareça tão grande, tudo é tão pequeno.
Viver intensamente a cada momento,
Viver sem medo de ser feliz
Viver como se o amanhã não existisse
Ou seja, viver a VIDA de hoje e agora!





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