Café pingado, foto de Alex Silva
Daquele
memorável colóquio entre Otto Lara Resende e Nelson Rodrigues surgiu, do
primeiro, uma constatação: “O homem sofre porque morre!”; do segundo, uma contestação: “Não, Otto, o homem
sofre porque vive”. O sofrer ao qual Nelson alude é afeto típico da vida, o
mesmo que o poeta transforma em versos quando a vida lhe dói (e ela lhe dói...).
O ardor a pelar-lhe a alma, a palavra presa em lábios
retesados, o travo amargoso na boca: o drama da existência num café pingado. É
assim o novo livro de Wanderlino Teixeira Leite Netto, bem diferente de suas
demais obras.
Se
em Retrato sem moldura (1999) e Beijo de língua (2007) encontrávamos uma alegria tépida (quase aquela fominha
eufórica antes do desjejum), em Café pingado (2012) vemos o poeta entregue à contemplação do vórtice
de sua xícara. Fazer poesia assim, não é catar na superfície a nata das
palavras, pois é da intimidade do ânimo que vêm os versos deste novo e
inusitado WTLN. Ali, todos os poemas soam de profundis, é o que se adjudica em “Desconstrução”:
Não são meros desvãos,
mas um enorme vazio.
A causa não foi um sismo.
Entre os dois há um abismo
cavado em solo macio
com as conchas das próprias mãos.
Nesta
poesia, entretanto, mais do que sentimentos pungentes, ferve a certeza de que
estamos diante de algo grande, algo que deixa a anos luz a poesia menor que nos
azia. Este “algo poético” é promovido pelo mesmo fôlego dos grandes poetas (nada
de formas, técnicas ou astúcias, mas o esprit).
Tal
avaliação não é exagerada, afinal, o leitor notará que poesias como
“Indagações” e “Sequelas” foram coadas no mesmo filtro que Manoel Bandeira
passou o seu “Rondó do Capitão”, rogando: “tirai este peso de meu coração...”
Mesmo pedindo para ter o peso da existência aplacado, tanto Bandeira quanto
Wanderlino sabem que não tem “colher”, não se adoçam em demasia, não se baldeiam,
tampouco se requentam as dores da vida, com estas, há que ser ter paciência,
deixá-las chegar (sem assoprar) à temperatura da boca e sorvê-las aos golinhos.
Sim! Nossos poetas sabem que – em se tratando de sua arte – as dores da vida
são tão mais bonitas quanto mais doridas soam.
É
um belo livro, este que Wanderlino Teixeira Leite Netto lançará amanhã:
.jpg)














