“Ser anfitrião das belas letras.”
Com esta legenda, o presente Blog pretende abrir espaço para os talentos da literatura (com ênfase na fluminense). Tal sítio é reservado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias. Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária é o nosso papel.
Conversa sobre o III Salão de Leitura de Niterói a acontecer em breve,
a programação promete (ao centro o livreiro Carlos Mônaco, o anfitrião).
Os primeiros convidados chegam: Carlos Mônaco,
Luís Antônio Pimentel (no alto de seus 100 anos de idade)
e o poeta Wanderley Francisconi Mendes.
A acadêmica Eneida Fortuna de Barros e o marido, representando a
Academia Fluminense de Letras - AFL.
Visão panorâmica do Calçadão na primeira manhã.
Geraldo Caldas, Luiz Calheiros e Wanderley Francisconi; ao fundo, Bruno Pessanha.
(foto: Alberto Araújo)
O livreiro Carlos Mônaco dinamizando o evento.
Os livros lançados no Giro Cultural:
Discursos e alocuções acadêmicas e Lua madura.
Inaldo Alonso e Kahlmeyer-Mertens a velha e a nova guarda da cultura niteroiense.
Inaldo Alonso autografando o exemplar de Almir de Oliveira;
Kahlmeyer-Mertens autografando o livro para Alberto Araújo.
Kahlmeyer-Mertens recebe o afago da poetisa Lena Jesus Ponte
Roberto Kahlmeyer-Mertens cumprimenta Denize Cruz,
escritora de Niterói que retorna ao Calçadão da Cultura depois de dez anos de ausência.
Inaldo em Conversa com Vera Werneck e, em segundo plano,
Kahlmeyer com Maria Helena Latini e Denize Cruz.
Na foto também aparecem Bruno Pessanha e Luís A. Pimentel (ambos de chapéu).
Kahlmeyer-Mertens com as poetisas Maria Helena Latini e Denize Cruz
Roberto Kahlmeyer-Mertens com Vera Werneck
Vista geral do Calçadão da Cultura
Kahlmeyer-Mertens em conversa com escritor Sérgio Caldieri,
Wanderlino Teixeira Leite Netto aguarda Inaldo Alonso terminar seu autógrafo.
Na foto, também se identifica (no canto) Eneida Fortuna.
O historiador e poeta José Inaldo Alonso com a neta Maria Vitória,
e Kahlmeyer-Mertens em ato de autógrafo.
Alonso e Kahlmeyer autografando volumes para Wanderley Francisconi
Maria Helena Latini, Sérgio Caldieri e Dalma Nascimento
(foto: Alberto Araújo)
Wanderlino Teixeira Leite Netto, a Prof.a Dalma Nascimento e Sérgio Caldieri;
Prof. Luiz Antonio Barros (de costas).
Neide Barros Rego, Geral do Caldas e Luiz Calheiros
Foto posada com parte do grupo que esteve presente no Giro Cultural
(Kahlmeyer-Mertens conversa com Marisa Quintanilha).
Foto posada na manhã de autógrafos de José Inaldo Alonso e R. S. Kahlmeyer-Mertens
Da esquerda para direita: Wanderley Francisconi Mendes, Haroldo Zager, Luiz Calheiros (no alto, ao fundo) Maria Helena Latini, Antônio Soares (semi-oculto atrás de Maria Helena), Terezinha Campos, Geraldo Caldas, Franci Darigo, Carlos Mônaco, Eneida Fortuna, Renato A. Farias de Carvalho, Marisa Quintanilha, Luís Pimentel, Lena Jesus Ponte e Luiz Antônio Barros e WAnderlino T. Leite Netto (os dois últimos ao fundo). Foto de Murilo Lima.
No próximo dia 16 de junho, durante a sexta edição do Giro Cultural
(evento promovido pela Imprensa Oficial
do Rio de Janeiro, com apoio do Grupo
Mônaco de Cultura), o acadêmico R. S. Kahlmeyer-Mertens lançará seu Discursos e alocuções acadêmicas (Nitpress). Seleta de diversos textos de
oratória. Com prefácio de Jorge Loretti e orelhas de Sávio Soares de Sousa o
livro será lançado no Calçadão da Cultura/Livraria Ideal, que fica à Rua
Visconde de Itaboraí, n.◦ 222, centro, Niterói. O evento começa às 10 h. e tem
entrada franca.
A oratória acadêmica, ― mais explicadamente, a usual nas nossas
academias de letras, tanto a nacional como as estaduais e municipais ―, andou
perrengue por prolongados anos, toda a gente o sabe. Seguramente porque
arraigada a modelos herdados de outras fases já superadas de nossa cultura.
Repetitiva e monótona. Desatualizada, às vezes até ridícula. Agora, prefiro
dizer, de algumas décadas para cá, com a democratização das academias, esse
tipo de oratória vem dando sinais de consonância com os paradigmas da movimentada
era das comunicações. Não têm mais cabimento os discursos quilométricos, de
puro exibicionismo, cansativos e monótonos, eficazes apenas no tratamento da
insônia. Vivemos a civilização do recado direto, do colóquio produtivo e
interessante. Ao que percebo, na vivência acadêmica, a evolução, aí, é
perceptível ao primeiro contato com nossos oradores acadêmicos. E posso citar,
tranquilamente, para comprovar o dito, o exemplo do mestre Roberto S.
Kahlmeyer-Mertens, membro de várias e importantes instituições culturais, em
pleno vigor da juventude, autor dos discursos reunidos neste volume.
Inteligente e erudito, ensaísta e professor universitário, consciente de suas
responsabilidades como intelectual,
dotado da rara virtude gabada por São Tomás de Aquino, ― a da estudiosidade, ―
Kahlmeyer-Mertens é senhor de um estilo claro, fluente, natural, lúcido,
desbastado de barroquismos, fiel ao vernáculo, e transita pelos mais espinhosos
temas com o desembaraço e a firmeza de um atleta olímpico. Tudo isso justifica
a amizade e a admiração que lhe dedico.
Sávio Soares de Sousa
das Academias Fluminense e
Niteroiense de Letras
Grande foi a
satisfação ao receber do professor Roberto S. Kahlmeyer-Mertens o gentil
convite para prefaciar mais este livro editado pela Nitpress. Obra de um jovem intelectual
cujo trabalho nos inspira reconhecimento, admiração e respeito, Discursos e alocuções acadêmicas traz
textos que foram proferidos em circunstâncias da vida acadêmico-cultural deste
nosso estado do Rio de Janeiro. Confesso que procurei ler esses trabalhos com
imparcialidade, entretanto, logo, estas orações me tocaram emocionalmente
fazendo com que recordasse os anos de minha militância estudantil. Militância
de juventude esta que me rendeu lições úteis para toda a minha história com a
magistratura: já naquela época, percebi que brilhavam mais os atores sociais
que sabiam se expressar; a fala era, assim, a capacidade de criar simpatias,
congregar interesses e legitimar lideranças. Lendo o livro de Kahlmeyer-Mertens,
não apenas reconheço o mesmo talento eloquente a que me refiro acima, mas
também a habilidade superlativa e inata com a língua culta, a sofisticação e
fluidez do estilo oratório e – acima de tudo – o conteúdo de sua prosa repleta
de erudição histórica, literária e de alta filosofia. Com Discursos e alocuções acadêmicas, Kahlmeyer-Mertens nos faz crer na
feliz reputação de prodígio.
Diante desta
matéria, é dever deste prefácio ressaltar as qualidades de alguns dos escritos
aqui reunidos:
Na primeira
parte da obra, reservada a orações acadêmicas, encontramos o discurso de posse na
Academia Brasileira de Literatura – ABDL.
É uma fala inspirada por um sentimento de devoção e compromisso. Empossado na
cadeira patroneada pelo crítico e historiador literário José Veríssimo, o autor
nos oferece um fiel retrato daquele escritor a partir de sua obra crítica.
Evidencia-se, assim, o esforço de recepção que Veríssimo, em sua coluna no
antigo Jornal do Brasil, empreendia
em favor da formação do gosto literário em nosso país ao comentar obras de
Comte, Taine, Renan, Eça e Nietzsche. Enfocando, entre estes, principalmente o
nome do filósofo alemão, impressiona constatar que Kahlmeyer-Mertens, em seu
discurso, não apenas se mostra conhecedor das interpretações que Veríssimo faz
de Nietzche, e dos comentários de estudiosos de época como Eugène de Roberty,
quanto dos rumos das pesquisas sobre esse pensador na atualidade. Toda a
atenção filosófica dada a Veríssimo no presente discurso, entretanto, não é
menor do que a consideração dedicada ao anterior ocupante da cadeira 30 na
ABDL: o elogio ao desembargador José Eduardo Pizarro Drummond é permeado de
diligência e sinceridade. Tenho o prazer de poder afirmar o quanto esta oração contentou
a todos que estiveram presentes naquela cerimônia, especialmente os parentes da
terceira geração de José Veríssimo, que prestigiaram o evento.
Uma exaltação
à convivência nas academias é encontrada no discurso de posse no Cenáculo Fluminense de História e Letras
na cadeira 13, patronímica do polígrafo Afrânio Peixoto. O que gostaria de
destacar nesta peça não são os dados biográficos daquele membro da Academia Brasileira de Letras – ABL, que foi também médico, professor,
político e autor da obra literária mais lida no Brasil na época em que foi
divulgada. Chamo atenção para o momento simbólico no qual nosso orador declara
toda sua estima por sua terra. Ao tomar contato com o texto, por meio da
coletânea, o leitor poderá constatar que Kahlmeyer-Mertens consagra uma página
plena de encanto e beleza àquilo que poderíamos chamar de sentimento de
pertença a nossa terra fluminense.
Kahlmeyer-Mertens
empossou-se na Academia Niteroiense de
Letras – ANL no período em que eu fui Presidente daquela instituição. Com
seu discurso de posse, o acadêmico presenteou a todos com o encantamento
oferecido por sua ars retorica. Na
solenidade, ocorrida no auditório Amaury Pereira Muniz, foi oportuno lembrar oradores
que, eternizados pela força de seus gestos, em outrora fizeram uso da palavra
naquele mesmo espaço. Assim, ao evocar os nomes de Norival de Freitas e Jorge
Cortás Sader, a cerimônia acabou por celebrar um significativo capítulo da
cultura tribuna fluminense. Feito o elogio do patrono, o médico Bernardino
Senna Campos, o empossando passou ao louvor dos que o antecederam como
ocupantes na respectiva cadeira. Dentre aqueles antecessores, chamo a atenção
para Togo de Barros, governador do estado do Rio de Janeiro na década de 1950 e
figura com a qual os acadêmicos da ANL tiveram o privilégio de conviver.
Falas de
saudação podem ainda ser conferidas na sequência do livro. Entre elas está o
discurso de recepção ao acadêmico Luiz Antonio Barros, por ocasião de sua posse
na Academia Niteroiense de Letras. Em
sua prédica, Kahlmeyer-Mertens alude à tradição retórica vigente nas academias
de letras e ressalta a dificuldade de apresentar publicamente um personagem
singular recorrendo à filosofia de Sartre e à pedagogia poética de Marziano
Capella para legitimar suas premissas. No mesmo texto, evidencia, por um lado, a
figura simples e humilde de Luiz Antonio Barros, e ressalta, por outro, o
enorme mérito do empossando, ao lembrar que este, além de qualidades próprias,
é herdeiro de scholars como Gladstone
Chaves de Melo, Leodegário A. de Azevedo Filho e Maximiano de Carvalho de Silva.
Na segunda
parte da coletânea, reservada a alocuções várias, encontramos, primeiramente, o
pronunciado na Câmara Municipal de
Niterói, lido durante a cerimônia de cessão da Medalha José Cândido de
Carvalho, na ocasião em que Kahlmeyer-Mertens foi agraciado com a
referida comenda. É uma homenagem àquele escritor campista que, entre a
literatura romanesca e o jornalismo, tanto honrou o mundo literário com sua rica
e admirável produção artística. Membro da Academia
Brasileira de Letras e radicado em Niterói, não me lembro de ter lido estilo
literário mais original do que o daquele grande literato fluminense. No
presente discurso, foi apreciado um pouco da vida e obra daquele profundo
conhecedor da alma do povo brasileiro que – como bem diz nosso orador – possui
uma prosa espetacularmente brilhante e inimitável. Um traço surpreendente deste
trabalho é quando Kahlmeyer-Mertens narra o encontro que teve com José Cândido
de Carvalho, autor de “Olha para o céu Frederico” e do já clássico “O coronel e
o lobisomem”.
Após ler este
discurso, louvamos a feliz iniciativa daquela assembleia legislativa em conceder Medalha
a Roberto S. Kahlmeyer-Mertens, professor exímio, cujos méritos intelectuais
não apenas legitimam a acertada medida, quanto bonificam seu propositor.
As palavras
fraternas de Kahlmeyer-Mertens a Marco Lucchesi são – indubitavelmente – um dos
pontos altos do livro. Na ocasião em que o poeta, ensaísta, tradutor e membro
da Academia Brasileira de Letras foi
homenageado pelas instituições culturais de Niterói, em uma reunião do Cenáculo Fluminense de História e Letras,
Kahlmeyer-Mertens foi o escolhido, entre tantos, para fazer a saudação. Quem
conhece o homenageado pode avaliar a especial honra da tarefa. Com uma fala poética
e repleta da mais elevada erudição literária, nosso autor escreveu, com
propriedade e beleza, um discurso que faz jus à estatura do homenageado, um
discurso de excelência sem perder a afabilidade, um discurso que dará gosto a todos
aqueles que tiverem o privilégio de sua leitura.
Ao fim, temos
a saudação a Luís Antônio Pimentel, na data de seu centenário de vida.
Divulgado sob o título de Luís Antônio
Pimentel: Jubileum, o luminoso discurso foi proferido na sede da Academia Niteroiense de Letras, dando
início às comemorações do centenário de seu amigo poeta. Pimentel é uma bela
figura humana que fez da arte sua vida, fazendo com que também sua vida
ganhasse dimensão artística. No discurso, Kahlmeyer-Mertens – que possui várias
obras dedicadas ao poeta – supera expectativas ao evidenciar, servindo-se das
poucas palavras do jornalista Augusto Donadel Jorge, o valor dessa existência rica
e honesta em face de alguns dos respeitáveis trabalhos intelectuais que o poeta
miracemense dedicou a Niterói.
Esta apresentação
acabou por se tornar mais longa do que um bom prefácio deve ser. Justifique-se,
entretanto, sua extensão pela proporcional necessidade de mostrar – no presente
livro – como uma intelectualidade de escol se edifica nos dias de hoje. As atraentes
meditações de Kahlmeyer-Mertens, ora reunidas, precisam ser acolhidas com boa
vontade, e a inteligência que delas decorre apela imediatamente a uma atitude
respeitosa. Afinal, na imagem desse brilhante intelectual, cultor de valores
excelentes e estudioso de aspectos superiores do pensamento humano, reside uma
digna esperança a ser investida unanimemente: o amor por princípio, a
ilustração por caminho e a felicidade como propósito.
Obrigado, Roberto
Kahlmeyer-Mertens, por este livro cintilante de saber e beleza.
O
primeiro evento começa às 10 horas, o segundo, às 11 horas e, o terceiro, ao
meio-dia. Basta dar alguns passos para se deslocar de um ponto ao outro e
conferir diferentes atrações sem pagar nada.
Os
membros da Academia Fluminense de Letras,
Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e José Inaldo Alonso abrem as atividades
autografando seus novos livros Discursos
e alocuções acadêmicas e Lua Madura, às 10 horas, na Livraria Ideal, na Rua Visconde de
Itaboraí, 222, loja 3. Fundada em 1935, a livraria é o mais tradicional ponto de
encontro de escritores fluminenses e ficou conhecida por promover o Calçadão Cultural, encontro que reúne
intelectuais todos os sábados, na calçada da livraria.
Além
de tornar a manhã de sábado muito mais agradável, o Giro Cultural estimula a revitalização da região, ao
proporcionar atividades artísticas gratuitas à população.
O
Giro Cultural tem o apoio da
Sala de Cultura Leila Diniz, Consórcio Novo Rio, Prefeitura de Niterói. 12º BPM
(Niterói), Livraria Ideal,
Rioprevidência e do jornal O Fluminense.
Convicto do brocardo
lobatiano segundo o qual “um país se faz com homens e livros”, tentei elencar,
de memória, aqueles títulos que eu acreditava representar bem a cultura
literária de Niterói.Consultando várias
pessoas ligadas ao meio acadêmico de minha cidade, foi curioso o fato de minha
lista coincidir com os títulos apontados por aqueles conhecedores de livros.
Diante desta coincidência (ou deveria dizer “feliz serendipidade”), animei-me,
sem maiores pretensões, a apresentar quinzenalmente alguns dos livros que
teriam, de algum modo, marcado a cena literária niteroiense. Livros que
trouxeram contribuições substanciais em alguma área, inovações, resgates,
celebrações de datas festivas da cidade e que, até, ficaram conhecidos pelas
polêmicas que causaram.Em todos esses
casos, o valor literário ou histórico foi o que deu o critério para essas
escolhas que – longe de serem completas – serão singelos afagos na cultura de
nossa cidade.
Em cada quinzena, o
leitor de Literatura-Vivência poderá
conhecer, no Projeto “Livros que marcaram
Niterói”, um pouco mais das nossas letras.
Você já teve um amor atravessado?, de Fernando de Aviz
Em
dezembro do ano de 1982, Niterói presenciou a publicação de um livro de
crônicas intitulado: “Você já teve um
amor atravessado?”. Seu autor, por sua natureza binada (poeta e cronista,
por um lado; educador e biólogo, por outro), assinava com o heterônomo de Fernando
de Aviz. (Nem precisa dizer que não é casual a escolha de Roberto Santos
Almeida pela alcunha de Fernando. Sim, Fernando
é homenagem a Fernando Pessoa, célebre vate português; de Aviz é declaração afetiva a sua descendência lusitana e
ligação ancestral com a província de mesmo nome. Fernando de Aviz é, assim, o alter ego de nosso brasileiríssimo
Roberto Santos que, além de ser autor do referido livro, preside, atualmente, a
veneranda Academia Brasileira de
Literatura – ABDL).
“Você já teve um amor atravessado?” foi editado pela Livraria Panorama em co-edição com Letras Fluminenses (a mesma casa editorial que expedia o jornal
literário homônimo de Luiz Magalhães) e é reunião de textos originalmente
publicados em veículos que, na década de 1970, circulavam difundindo a boa
literatura: é o caso da Revista Única
e do fanzine Persona.
Qual seria a importância deste livro
a ponto de figurar neste projeto que busca resgatar os livros que marcaram
Niterói? Ora, em primeiro lugar,
uma resposta como esta não poderia ser dada fora da atmosfera da data de hoje (um
dia dos namorados) e, depois, não poderia ignorar os subsídios que o próprio
livro fornece sobre sua importância. Vejamos, por exemplo, o que mestre Ângelo Longo
diz em uma das orelhas: “Cronista, ele (Roberto/Fernando) colige o tempo na permanência do livro que
ora se estampa como se pretendesse marcar um caminho, assinalar uma passagem,
significar um pouco. Artista, ele transcende o espaço da impermanência das
coisas como se pretendesse um pouso no signo, um significado na marca, um
caminho-passagem.” Também Ronaldo de Carvalho Miguel, Vital dos Santos e Pedro
Jorge Salvador (este último recorrendo a um arsenal conceitual que vai de Hume
a Barthes, passando por Kierkegaard e Weber) emitem pareceres sobre o livro.
Contudo, é Elzita Nely B. do Vale, em poucas palavras, que resume a importância
do livro nas experiências estéticas que ele evoca/provoca: “As imagens
inigualáveis de quem sabe dizer o que sente, dispensam qualquer outro comentário”.
“Você já teve um amor atravessado?”, em sua época, foi lançado no circuito literário niteroiense
e despertou o interesse da comunidade letrada. Sua forma poética em prosa com
linguagem simultaneamente culta e desafetada é, em parte, responsável pelo seu
êxito. Outros fatores responsáveis pela boa acolhida do livro?... Talvez o
carisma de seu autor, que ficou conhecido na década de 1980 como “o poeta do
amor”. No mais, sigamos o conselho de Elzita do Vale, poupemos comentários e
nos presenteemos com a leitura do Fernando de Aviz neste dia dos namorados:
(AVIZ, Fernando de. Quem namora, não mora... In: Você já teve um amor atravessado?. Niterói: Panorama/Letras Fluminenses, 1982. p. 28-29)
Conto-lhes uma historinha, de autor desconhecido. É provável que a
conheçam. Chama-se: “A borboleta azul”.
Havia um homem muito culto capaz de responder sem erro a qualquer
pergunta. Uma garota sagaz resolveu inventar certa situação, armada de tal modo
que ele não lograsse acertar. Escondendo na mão uma borboleta azul, indagaria
ao mestre se ela se encontrava viva ou morta. Se ele dissesse estar morta, a
menina a deixaria voar. Provaria, assim, o erro do sábio. Se a resposta, ao
contrário, fosse estar viva, a menina a apertaria, matando-a. Comprovaria,
então, que aquele sábio se enganara. Desta maneira, qualquer que fosse a sua
resposta, ele estaria errando.
Certa de que criara um inteligente artifício, a jovem previa derrubar a
fama do homem, considerado, até então, verdadeiro gênio.Acercando-se dele na presença de várias
pessoas, perguntou:
– Seu sábio, eu estou aqui com uma borboleta azul na mão. Será que o
senhor pode me dizer se ela está viva ou morta?
Calmamente, o homem sorriu e respondeu:
– Depende de você. Ela está em suas mãos...
Assim, dizem, é a existência humana.
Pousam em nossas mãos muitas borboletas azuis. Podemos soltá-las... ou retê-las.
Cabe-nos escolher o que fazer com elas. Somos livres para decidir. O arbítrio
nos pertence. Ao longo dos anos,
liberamos ou preservamos várias delas.
Mas essas
borboletas azuis que nos chegam, de onde procedem?São elas mesmas que resolvem aonde ir?É de cada uma o desejo de procurar o próprio abrigo,
arriscando-se à decisão de serem esmagadas por outrem?
As oportunidades, com as quais a vida nos brinda, são muitas vezes prazerosas. Confiáveis. Estão,
suave e silenciosamente, escondidas entre nossos dedos. Estas, com carinho, merecem ser acolhidas. Aceitam o calor dos afetos. Permanecemconosco. Sentem-se protegidas. Mas,
sobretudo,dependem de nossas escolhas.De nossas decisões.
Por isso, já outras –– fugazes, efêmeras, transitivas – , evitamos prendê-las. Partem. São asas saídas
do nosso aconchego. Talvez busquem pousar
em mãos alheias.Ou prefiram esvoaçar no indefinido espaço da
vida. Algumas nos alcançam e adejam por ordem superior do
Destino. São também azuis. Encantam-nos com seu colorido.
Não nos compete, contudo, torná-las livres ou impedi-las de voar.
Cumpre-nos,
simplesmente, submeter nossa existência à mágica força de seus ditames. Sempre
rigorosos. Inflexíveis. São acontecimentos que fazem sentir o quanto é penoso
afrontar o que nos é destinado: dúvidas, inquietações, medos e inseguranças...
Contudo, também, certasalegrias...
Assim, perguntamos: em que medida, nós
somos agidos ou agentes dos atos praticados? Esta, a grande questão bipolar: o Livre Arbítrio
ouo Destino? Aquele, submisso à nossa
vontade, ingenuamente soberana. Este, implacável
dominador dos desejos, refreando nossa falsa liberdade. Ambos, valem-se das
cativantes borboletas azuis, frágeis símbolos das utopias humanas.E nós, eternos hospedeiros de seus sonhos.
Por acaso, o sábio da reflexiva história, que lhes contei, conseguiria indicar, com inconteste certeza, qual das situações
existenciais, a verdadeira?
Não há quem não fique contente (e
até lisonjeado) com uma crítica favorável a um trabalho. A alegria aumenta
exponencialmente quando reconhecimento e apreciação vêm de alguém como a
Professora Dalma Nascimento. Professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro – RJ, Doutora em Teoria Literária
e membro do Pen Club do Brasil. A
intelectual assistiu minha conferência comemorativa dos oitenta anos de Umberto Eco e, dias depois, enviou-me um ensaio apreciando aquela fala.
Recebi o texto como um presente –
este ofertado por uma figura cuja capacidade e inteligência só não são maiores
do que sua generosidade –. Ao publicá-lo em Literatura-Vivência,
longe de um ato de cabotinismo, desejo patentear o agradecimento cordial à
professora Dalma declarando a satisfação de tê-la como uma afinidade eletiva.
1 A performance do conferencista e a relevância do
autor
Com a peculiar
erudição que o caracteriza e o fluente domínio do tema, o filósofo e professor Roberto
Kahlmeyer-Mertens proferiu na última semana, no Cenáculo Fluminense de História e Letras, a conferência “Os ecos de
um intelectual Plural: Umberto Eco faz 80 anos”.Já no jogo das palavras do titulo, o
expositor provocou interesse de serem conhecidas as ressonâncias desse escritor
multifacetado,nascido em Alexandria (no
Piemonte italiano) em 5 de janeiro de 1932.
Assim, opensamento polissêmico de Eco foi sendo
analisadopor Kahlmeyer na sua fala
objetiva, metódica, produtora de sentidos, fruto de aguda investigação ede segurança epistemológica. Demonstrou
pesquisa, sem, contudo, se apoiar em textos previamenteescritos,iniciandoa exposição pela
biografia do autor. Contextualizou-o, enfatizando os reflexos existenciais na
produção das suas obras.Referiu-se à
enciclopédica cultura de Eco, um ser, ao mesmo tempo,filósofo, historiador, semiólogo, linguísta,
bibliógrafo, ensaístae romancista.
Transitando em tantos horizontes do intelecto,
eledoutorou-se em Turim orientado por
Luigi Pareyson, E, aoteorizar na suateseo pensamento de Tomás de
Aquino,o ideário do mestre tomista o
seduziu.Voltou-se, ainda mais,para ouniverso e a estética medievais.sendo este período o pilar temporalpreferido dassuasconstruções literáriasPorém, antes de tornar-se romancistade sucesso, triunfou no magistério. Professor
convidado em Yale, Harvard, Collège de France, lecionou também em Turim,
Florença e Milão, aposentando-se, na Universidade de Bolonha, no nível máximo
de titular.
Apesar dos múltiplos caminhos em philia dialógica, ou seja, em fraterna
interlocução, dois grandes vetores nortearam-lhe o trajeto. Primeiro, a escrita
teórico-ensaística, comprometida com a Semiótica e com os avanços da cultura de
massa. Depois, emerge aficção, através
da qual Umberto Eco se tornou mais conhecido pelo grandepúblico, embora estes dois veios sempre se
harmonizassem confluentes.
2 Etimologiase os ensaios teórico-semióticosde Eco
Antes de
aprofundar a primeira vertente das produções do autor, Kahlmeyer investigou
osignificado do termo Semiótica,
questão, aliás, de título divergente (Semiótica ou Semiologia?) conforme for
nomeada por teóricos europeus ou norte-americanos. Sem, contudo, aludir a tais
irrelevantes polêmicas,o conferencista
esclareceu que Semiótica, do grego semiotiké,
significa “ótica dos sinais”, isto é, “ter olhos de ver signos ou sinais”.
Então ateoria semiótica“permitecompreender sinais e desvendar suas referências aos códigos”.
Clarificando
ainda mais o assunto, Kahlmeyer foi ao étimo da palavra Teoria, advinda de Theorein (fixar), decompondo-a em Theos + Horaus (olhar dos deuses), o que demonstra ser ela, a Teoria, uma
visão privilegiada do mundo. Daí, apontar paraum “contemplar”, um “ver” profundo ao interpretar sinais. Tal
contemplaçãopermite criar novos
códigos, entender e fazer a exegese das culturas que estão emergindo. Conceito
este que,descoberto por Umberto Eco no Ensaio sobre o entendimento humano, de
Locke,foitrazido à atualidade e influenciou as
filosofias da linguagem e o discurso do imaginário.
No filão de
ensaios com teorias semióticas, o pensador italiano publicou trinta e três
livros. Numa batalha de ideias, o primeiro foi adesveladora Obra aberta, abrindocampos
de possibilidades à interpretação do literário. Em 1964, surgiu o tomo: Apocalípticos e integrados.Ali, Eco focaliza a problemáticada cultura de massa, analisa a estética do
mau gosto (o Kitsch), discutemitos e
símbolos massificadores da dinâmica contemporânea. Consigna também o
surgimentode outras estéticaspara atender às carências do consumo.
Centra-semaisem MacLuhan do que em Adorno.
No movimento
semiótico, entre outros livros, publicou A
estrutura ausente (1968); As formas
do conteúdo (1971); Seis passeios
pelos bosques da ficção (1994); Como
se faz uma tese (1995), metodologia, útil a alunos; Kant e o ornitorrinco (1997), refutação às categorias kantianas,
sendo o ornitorrinco, exceção a regras; Cinco
escritos morais (1997) sobreracismo, alteridade e fascismo. Organizou as coletâneas História da Beleza (2004) e História da Feiúra (2007), esta, com
textos que, à moda de Foucault, narrama
história dos interditos, onde o feio se associa ao hostil e ao denegrido. No
rápidopanorama teórico ensaístico –
tradutor dasnovas relações entre o
homem e o mundo –,o erudito expositor
mencionou Não contem com o fim do livro
(2110), obraque, segundo ele, será
objeto de futuras cogitaçõesno
Cenáculo.
3 As produções romanescas.
Umberto Eco
tornou-seficcionistainternacional com O nome da rosa,
trama eivada de discussões teológicas e filosóficas ambientada num convento
medieval. Compostaem 1978-1979, mas
lançadoem 1981-1982,ela é dotada de um Pós-escrito tão precioso quantoo livro, sobremodo para quem se dedica a este gênero romanesco.Adaptadaao cinema por Jean-Jacques Arnaud,e tendo SeanConnery e Christian
Slater nos papéis principais, anarrativacomprova ovalor de produções policiais, de há muito,
não mais considerada literatura menor na seara da arte. Enfático, Kahlmeyer
sublinhou a importânciaestética decomposições detetivescas.
A Idade Média, já se disse, constituimarco decisóriona formação intelectual do escritor italiano.
Assim, paramontar enredos fidedignos, Eco
elabora fichas, emprega clichês, recorre a autores medievais, serve-se de
cartografias, de signos iconográficos e de outros traços verídicos – como
afiançou o conferencista –visando ailustrar a exposição. O escritor deseja transfigurar uma época que lhe
seja própria. Kahlmeyer relatou pequenos detalhes, no entanto, relevantes à
estrutura textual. Exemplo: o apuro na construção da biblioteca. Para narrá-la,
Eco inventou um local arejado, a fim de ela poder ser queimada pela combustão. Deveria
expressar a cosmovisão coerente com o momento cultural, ainda que, de maneira
ficcionalizada.
A
seguir, pela exiguidade do tempo, não se ateve ao romance de 1988, O pêndulo de Foucault. Mas
iluminououtro, A ilha do dia anterior, de 1994, traduzido por Marco Lucchesi.
Localizado no polêmico século XVII, o texto se constrói – aliás, marca peculiar
de Eco –, com referênciasliterárias,
filosóficas, linguísticas, estéticas, astronômicas, náuticas, bélicas,
botânicas, médicas e até com a arte da esgrima. Em que pese a superabundância
de desdobramentos oceânicos, a escrita desenha excelente painel daquele
segmentohistórico com temas que
fagulham a fantasia. Caravelas, travessias, enigmas, espionagem, segredos de
estado, guerras, duelos, questões religiosas, amores idealizados são
ingredientes romanescos que dão ibope.
Além de tudo, há a utopia da Ilha Perdida ou
Encantada, sonho que mexe com o inconsciente coletivo desde tempos imemoriais.
A enigmática terra, na pena literária do escritor, situa-se naconfluência de tempos e espaços, no
centésimo-octogésimo meridiano, ou seja, entre o ontem e o hoje. Daí o título, A ilha do dia anterior. Em meio a tantos saberes, os episódiosconfiguram-se dúbiosem todos os níveis, o que lhes confere o
caráterdicotomizador e dilacerante da
estética maneirista, atuante naquele tempo histórico-estético captado pela
escritura moderna de Eco. [1]
Depois,
o Professor Kahlmeyer reportou-se ao Cemitério
de Praga,best-seller de agora.
Comentou a esquizofreniado personagem
central, Simone Simonini, o único “inventado” no relato. Ora eleassume suaidentidade de autêntico falsificador, ora, a outra, a do Abade Dalla
Piccola, embora ambos seignorem, mas se
comuniquem por recados.Mais um
dúplicegolpe de mestre do romancista!
Com cenários histórico-culturais e absurdos acontecimentos – verossímeis
apenasna estrutura interna –,na trama sedão a lerconspirações no
cemitério de Praga, entrefatos
escabrosos e estranhos, até com alusões aos “Protocolos dos Sábiosdo Sião”. Envolve, contudo,importantes acontecimentos factuais. Lá
estão, por exemplo, Garibaldi, Freud, Dumas, o Caso Dreyfus, Charcot, episódios
médicos, histerias, hipnoses, jesuítas, maçons, receitas culinárias. Realidade
e Irrealidade enlaçadas!O livro
reúneum pot-pourri diabólico até engaçado, no qual Simonini é visceralmente
antissemita, marca do avô,e,com alusões abjetas, coprológicas, ele
rechaçaváriasraças e sistemas...
Por
não maisdispor de tempo, o
conferencista não se deteve – mas não fez falta! – emdois romancesexpressivos: A misteriosa chama da
rainha Loana, e Baudolino. O
primeiro conta a vidade um
alfarrabista queacorda, com a memória
perdida, após um acidente vascular cerebral. O segundo, Baudolino, tradução também de Lucchesi, é uma deliciosanarrativa passada no século XII-XIII, época
deinúmeras transformações na Idade
Média Central. Descreve as façanhas de um herói popular bandoleiro, um camponês
sonhador erudito, pícaro andarilho numa divertidafarsa burlesca. Por meio dele, Eco repristina
lendas ouvidas, na infância em sua terra natal, dando ao personagem o mesmo
nome de São Baudolino, o padroeiro da cidade.
Finda
a brilhante conferência, o presidente da entidade, Júlio Vanni,encerrou a sessão, sendo o porta-vozda assistência “nos passeios pelos bosques da
ficção” e da cultura. Após o banquete do espírito, veio o ágape do corpo:
vinhos, salgados e doces sempre servidos naquela Casa Italiana. Porém, os ecos
de Eco, sonorizados pelavozdo conferencia, ficaram ressoandona memória coletiva...
Faz-se, portanto, necessário um ciclo sobre o
autor, tal o acervo do conferencista.Porque Roberto Kahlmeyer-Mertens deu-nos uma AULA, na acepção de
Barthes, quando este foi introduzidono Collège de France.
[1] Quando o livro foi lançado no Brasil,
publicamos na Tribuna da Imprensa,
caderno cultural (Tribuna Bis)em 29/ 03
/1995, p. 9,ampla resenha da obraA ilha
do dia anterior,como título: “A ilha do sonho eterno.Romance de Umberto Eco formado por labirintos
intelectuais’.Certostópicosde nossa leiturainserimos no
presente texto.