sexta-feira, 15 de junho de 2012

Sávio Soares de Sousa e Jorge Loretti: Fortunas críticas sobre os livro "Discursos e alocuções acadêmicas"



No próximo dia 16 de junho, durante a sexta edição do Giro Cultural (evento promovido pela Imprensa Oficial do Rio de Janeiro, com apoio do Grupo Mônaco de Cultura), o acadêmico R. S. Kahlmeyer-Mertens lançará seu Discursos e alocuções acadêmicas (Nitpress). Seleta de diversos textos de oratória. Com prefácio de Jorge Loretti e orelhas de Sávio Soares de Sousa o livro será lançado no Calçadão da Cultura/Livraria Ideal, que fica à Rua Visconde de Itaboraí, n.◦ 222, centro, Niterói. O evento começa às 10 h. e tem entrada franca.        



A oratória acadêmica, ― mais explicadamente, a usual nas nossas academias de letras, tanto a nacional como as estaduais e municipais ―, andou perrengue por prolongados anos, toda a gente o sabe. Seguramente porque arraigada a modelos herdados de outras fases já superadas de nossa cultura. Repetitiva e monótona. Desatualizada, às vezes até ridícula. Agora, prefiro dizer, de algumas décadas para cá, com a democratização das academias, esse tipo de oratória vem dando sinais de consonância com os paradigmas da movimentada era das comunicações. Não têm mais cabimento os discursos quilométricos, de puro exibicionismo, cansativos e monótonos, eficazes apenas no tratamento da insônia. Vivemos a civilização do recado direto, do colóquio produtivo e interessante. Ao que percebo, na vivência acadêmica, a evolução, aí, é perceptível ao primeiro contato com nossos oradores acadêmicos. E posso citar, tranquilamente, para comprovar o dito, o exemplo do mestre Roberto S. Kahlmeyer-Mertens, membro de várias e importantes instituições culturais, em pleno vigor da juventude, autor dos discursos reunidos neste volume. Inteligente e erudito, ensaísta e professor universitário, consciente de suas responsabilidades como intelectual, dotado da rara virtude gabada por São Tomás de Aquino, ― a da estudiosidade, ― Kahlmeyer-Mertens é senhor de um estilo claro, fluente, natural, lúcido, desbastado de barroquismos, fiel ao vernáculo, e transita pelos mais espinhosos temas com o desembaraço e a firmeza de um atleta olímpico. Tudo isso justifica a amizade e a admiração que lhe dedico.

Sávio Soares de Sousa
das Academias Fluminense e Niteroiense de Letras



Grande foi a satisfação ao receber do professor Roberto S. Kahlmeyer-Mertens o gentil convite para prefaciar mais este livro editado pela Nitpress. Obra de um jovem intelectual cujo trabalho nos inspira reconhecimento, admiração e respeito, Discursos e alocuções acadêmicas traz textos que foram proferidos em circunstâncias da vida acadêmico-cultural deste nosso estado do Rio de Janeiro. Confesso que procurei ler esses trabalhos com imparcialidade, entretanto, logo, estas orações me tocaram emocionalmente fazendo com que recordasse os anos de minha militância estudantil. Militância de juventude esta que me rendeu lições úteis para toda a minha história com a magistratura: já naquela época, percebi que brilhavam mais os atores sociais que sabiam se expressar; a fala era, assim, a capacidade de criar simpatias, congregar interesses e legitimar lideranças. Lendo o livro de Kahlmeyer-Mertens, não apenas reconheço o mesmo talento eloquente a que me refiro acima, mas também a habilidade superlativa e inata com a língua culta, a sofisticação e fluidez do estilo oratório e – acima de tudo – o conteúdo de sua prosa repleta de erudição histórica, literária e de alta filosofia. Com Discursos e alocuções acadêmicas, Kahlmeyer-Mertens nos faz crer na feliz reputação de prodígio.
Diante desta matéria, é dever deste prefácio ressaltar as qualidades de alguns dos escritos aqui reunidos:
Na primeira parte da obra, reservada a orações acadêmicas, encontramos o discurso de posse na Academia Brasileira de Literatura – ABDL. É uma fala inspirada por um sentimento de devoção e compromisso. Empossado na cadeira patroneada pelo crítico e historiador literário José Veríssimo, o autor nos oferece um fiel retrato daquele escritor a partir de sua obra crítica. Evidencia-se, assim, o esforço de recepção que Veríssimo, em sua coluna no antigo Jornal do Brasil, empreendia em favor da formação do gosto literário em nosso país ao comentar obras de Comte, Taine, Renan, Eça e Nietzsche. Enfocando, entre estes, principalmente o nome do filósofo alemão, impressiona constatar que Kahlmeyer-Mertens, em seu discurso, não apenas se mostra conhecedor das interpretações que Veríssimo faz de Nietzche, e dos comentários de estudiosos de época como Eugène de Roberty, quanto dos rumos das pesquisas sobre esse pensador na atualidade. Toda a atenção filosófica dada a Veríssimo no presente discurso, entretanto, não é menor do que a consideração dedicada ao anterior ocupante da cadeira 30 na ABDL: o elogio ao desembargador José Eduardo Pizarro Drummond é permeado de diligência e sinceridade. Tenho o prazer de poder afirmar o quanto esta oração contentou a todos que estiveram presentes naquela cerimônia, especialmente os parentes da terceira geração de José Veríssimo, que prestigiaram o evento.
Uma exaltação à convivência nas academias é encontrada no discurso de posse no Cenáculo Fluminense de História e Letras na cadeira 13, patronímica do polígrafo Afrânio Peixoto. O que gostaria de destacar nesta peça não são os dados biográficos daquele membro da Academia Brasileira de LetrasABL, que foi também médico, professor, político e autor da obra literária mais lida no Brasil na época em que foi divulgada. Chamo atenção para o momento simbólico no qual nosso orador declara toda sua estima por sua terra. Ao tomar contato com o texto, por meio da coletânea, o leitor poderá constatar que Kahlmeyer-Mertens consagra uma página plena de encanto e beleza àquilo que poderíamos chamar de sentimento de pertença a nossa terra fluminense.
Kahlmeyer-Mertens empossou-se na Academia Niteroiense de Letras – ANL no período em que eu fui Presidente daquela instituição. Com seu discurso de posse, o acadêmico presenteou a todos com o encantamento oferecido por sua ars retorica. Na solenidade, ocorrida no auditório Amaury Pereira Muniz, foi oportuno lembrar oradores que, eternizados pela força de seus gestos, em outrora fizeram uso da palavra naquele mesmo espaço. Assim, ao evocar os nomes de Norival de Freitas e Jorge Cortás Sader, a cerimônia acabou por celebrar um significativo capítulo da cultura tribuna fluminense. Feito o elogio do patrono, o médico Bernardino Senna Campos, o empossando passou ao louvor dos que o antecederam como ocupantes na respectiva cadeira. Dentre aqueles antecessores, chamo a atenção para Togo de Barros, governador do estado do Rio de Janeiro na década de 1950 e figura com a qual os acadêmicos da ANL tiveram o privilégio de conviver.
Falas de saudação podem ainda ser conferidas na sequência do livro. Entre elas está o discurso de recepção ao acadêmico Luiz Antonio Barros, por ocasião de sua posse na Academia Niteroiense de Letras. Em sua prédica, Kahlmeyer-Mertens alude à tradição retórica vigente nas academias de letras e ressalta a dificuldade de apresentar publicamente um personagem singular recorrendo à filosofia de Sartre e à pedagogia poética de Marziano Capella para legitimar suas premissas. No mesmo texto, evidencia, por um lado, a figura simples e humilde de Luiz Antonio Barros, e ressalta, por outro, o enorme mérito do empossando, ao lembrar que este, além de qualidades próprias, é herdeiro de scholars como Gladstone Chaves de Melo, Leodegário A. de Azevedo Filho e Maximiano de Carvalho de Silva.
Na segunda parte da coletânea, reservada a alocuções várias, encontramos, primeiramente, o pronunciado na Câmara Municipal de Niterói, lido durante a cerimônia de cessão da Medalha José Cândido de Carvalho, na ocasião em que Kahlmeyer-Mertens foi agraciado com a referida comenda. É uma homenagem àquele escritor campista que, entre a literatura romanesca e o jornalismo, tanto honrou o mundo literário com sua rica e admirável produção artística. Membro da Academia Brasileira de Letras e radicado em Niterói, não me lembro de ter lido estilo literário mais original do que o daquele grande literato fluminense. No presente discurso, foi apreciado um pouco da vida e obra daquele profundo conhecedor da alma do povo brasileiro que – como bem diz nosso orador – possui uma prosa espetacularmente brilhante e inimitável. Um traço surpreendente deste trabalho é quando Kahlmeyer-Mertens narra o encontro que teve com José Cândido de Carvalho, autor de “Olha para o céu Frederico” e do já clássico “O coronel e o lobisomem”.
Após ler este discurso, louvamos a feliz iniciativa daquela assembleia legislativa em conceder Medalha a Roberto S. Kahlmeyer-Mertens, professor exímio, cujos méritos intelectuais não apenas legitimam a acertada medida, quanto bonificam seu propositor.
As palavras fraternas de Kahlmeyer-Mertens a Marco Lucchesi são – indubitavelmente – um dos pontos altos do livro. Na ocasião em que o poeta, ensaísta, tradutor e membro da Academia Brasileira de Letras foi homenageado pelas instituições culturais de Niterói, em uma reunião do Cenáculo Fluminense de História e Letras, Kahlmeyer-Mertens foi o escolhido, entre tantos, para fazer a saudação. Quem conhece o homenageado pode avaliar a especial honra da tarefa. Com uma fala poética e repleta da mais elevada erudição literária, nosso autor escreveu, com propriedade e beleza, um discurso que faz jus à estatura do homenageado, um discurso de excelência sem perder a afabilidade, um discurso que dará gosto a todos aqueles que tiverem o privilégio de sua leitura.
Ao fim, temos a saudação a Luís Antônio Pimentel, na data de seu centenário de vida. Divulgado sob o título de Luís Antônio Pimentel: Jubileum, o luminoso discurso foi proferido na sede da Academia Niteroiense de Letras, dando início às comemorações do centenário de seu amigo poeta. Pimentel é uma bela figura humana que fez da arte sua vida, fazendo com que também sua vida ganhasse dimensão artística. No discurso, Kahlmeyer-Mertens – que possui várias obras dedicadas ao poeta – supera expectativas ao evidenciar, servindo-se das poucas palavras do jornalista Augusto Donadel Jorge, o valor dessa existência rica e honesta em face de alguns dos respeitáveis trabalhos intelectuais que o poeta miracemense dedicou a Niterói.
Esta apresentação acabou por se tornar mais longa do que um bom prefácio deve ser. Justifique-se, entretanto, sua extensão pela proporcional necessidade de mostrar – no presente livro – como uma intelectualidade de escol se edifica nos dias de hoje. As atraentes meditações de Kahlmeyer-Mertens, ora reunidas, precisam ser acolhidas com boa vontade, e a inteligência que delas decorre apela imediatamente a uma atitude respeitosa. Afinal, na imagem desse brilhante intelectual, cultor de valores excelentes e estudioso de aspectos superiores do pensamento humano, reside uma digna esperança a ser investida unanimemente: o amor por princípio, a ilustração por caminho e a felicidade como propósito.
Obrigado, Roberto Kahlmeyer-Mertens, por este livro cintilante de saber e beleza.   
Jorge Loretti
Da Academia Niteroiense de Letras





quarta-feira, 13 de junho de 2012

Kahlmeyer-Mertens e Inaldo Alonso: Dose dupla de literatura no “Projeto Giro Cultural”








O Centro de Niterói será palco, neste sábado (15 de junho), da sexta edição do projeto Giro Cultural, que promove atrações artísticas gratuitas todo primeiro sábado do mês, num circuito que começa na tradicional Livraria Ideal, passa pela Sala de Cultura Leila Diniz e chega ao Terminal Rodoviário RobertoSilveira.
O primeiro evento começa às 10 horas, o segundo, às 11 horas e, o terceiro, ao meio-dia. Basta dar alguns passos para se deslocar de um ponto ao outro e conferir diferentes atrações sem pagar nada.
Os membros da Academia Fluminense de Letras, Roberto S. Kahlmeyer-Mertens e José Inaldo Alonso abrem as atividades autografando seus novos livros Discursos e alocuções acadêmicas e Lua Madura, às 10 horas, na Livraria Ideal, na Rua Visconde de Itaboraí, 222, loja 3. Fundada em 1935, a livraria é o mais tradicional ponto de encontro de escritores fluminenses e ficou conhecida por promover o Calçadão Cultural, encontro que reúne intelectuais todos os sábados, na calçada da livraria.
Entre as atrações das edições anteriores do Giro Cultural, estiveram presentes o educador e escritor da Academia Brasileira de Letras Arnaldo Niskier, o poeta e Jornalista Luís AntônioPimentel; a banda de jazz Trinado e a Orquestra de Crodas da Grota. 
Além de tornar a manhã de sábado muito mais agradável, o Giro Cultural estimula a revitalização da região, ao proporcionar atividades artísticas gratuitas à população.
O Giro Cultural tem o apoio da Sala de Cultura Leila Diniz, Consórcio Novo Rio, Prefeitura de Niterói. 12º BPM (Niterói), Livraria Ideal, Rioprevidência e do jornal O Fluminense.


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domingo, 10 de junho de 2012

Projeto "Livros que marcaram Niterói" ("Você já teve um amor atravessado?" de Fernando de Aviz)


Convicto do brocardo lobatiano segundo o qual “um país se faz com homens e livros”, tentei elencar, de memória, aqueles títulos que eu acreditava representar bem a cultura literária de Niterói. Consultando várias pessoas ligadas ao meio acadêmico de minha cidade, foi curioso o fato de minha lista coincidir com os títulos apontados por aqueles conhecedores de livros. Diante desta coincidência (ou deveria dizer “feliz serendipidade”), animei-me, sem maiores pretensões, a apresentar quinzenalmente alguns dos livros que teriam, de algum modo, marcado a cena literária niteroiense. Livros que trouxeram contribuições substanciais em alguma área, inovações, resgates, celebrações de datas festivas da cidade e que, até, ficaram conhecidos pelas polêmicas que causaram. Em todos esses casos, o valor literário ou histórico foi o que deu o critério para essas escolhas que – longe de serem completas – serão singelos afagos na cultura de nossa cidade.
Em cada quinzena, o leitor de Literatura-Vivência poderá conhecer, no Projeto “Livros que marcaram Niterói”, um pouco mais das nossas letras.
 
 
 
Você já teve um amor atravessado?, de Fernando de Aviz
 
 
Capa da segunda edição de Você já teve um amor atravessado? de Roberto Santos
 
 
Em dezembro do ano de 1982, Niterói presenciou a publicação de um livro de crônicas intitulado: “Você já teve um amor atravessado?”. Seu autor, por sua natureza binada (poeta e cronista, por um lado; educador e biólogo, por outro), assinava com o heterônomo de Fernando de Aviz. (Nem precisa dizer que não é casual a escolha de Roberto Santos Almeida pela alcunha de Fernando. Sim, Fernando é homenagem a Fernando Pessoa, célebre vate português; de Aviz é declaração afetiva a sua descendência lusitana e ligação ancestral com a província de mesmo nome. Fernando de Aviz é, assim, o alter ego de nosso brasileiríssimo Roberto Santos que, além de ser autor do referido livro, preside, atualmente, a veneranda Academia Brasileira de Literatura – ABDL).
“Você já teve um amor atravessado?” foi editado pela Livraria Panorama em co-edição com Letras Fluminenses (a mesma casa editorial que expedia o jornal literário homônimo de Luiz Magalhães) e é reunião de textos originalmente publicados em veículos que, na década de 1970, circulavam difundindo a boa literatura: é o caso da Revista Única e do fanzine Persona.
Qual seria a importância deste livro a ponto de figurar neste projeto que busca resgatar os livros que marcaram Niterói? Ora, em primeiro lugar, uma resposta como esta não poderia ser dada fora da atmosfera da data de hoje (um dia dos namorados) e, depois, não poderia ignorar os subsídios que o próprio livro fornece sobre sua importância. Vejamos, por exemplo, o que mestre Ângelo Longo diz em uma das orelhas: “Cronista, ele (Roberto/Fernando) colige o tempo na permanência do livro que ora se estampa como se pretendesse marcar um caminho, assinalar uma passagem, significar um pouco. Artista, ele transcende o espaço da impermanência das coisas como se pretendesse um pouso no signo, um significado na marca, um caminho-passagem.” Também Ronaldo de Carvalho Miguel, Vital dos Santos e Pedro Jorge Salvador (este último recorrendo a um arsenal conceitual que vai de Hume a Barthes, passando por Kierkegaard e Weber) emitem pareceres sobre o livro. Contudo, é Elzita Nely B. do Vale, em poucas palavras, que resume a importância do livro nas experiências estéticas que ele evoca/provoca: “As imagens inigualáveis de quem sabe dizer o que sente, dispensam qualquer outro comentário”.
“Você já teve um amor atravessado?”, em sua época, foi lançado no circuito  literário niteroiense e despertou o interesse da comunidade letrada. Sua forma poética em prosa com linguagem simultaneamente culta e desafetada é, em parte, responsável pelo seu êxito. Outros fatores responsáveis pela boa acolhida do livro?... Talvez o carisma de seu autor, que ficou conhecido na década de 1980 como “o poeta do amor”. No mais, sigamos o conselho de Elzita do Vale, poupemos comentários e nos presenteemos com a leitura do Fernando de Aviz neste dia dos namorados:




(AVIZ, Fernando de. Quem namora, não mora... In: Você já teve um amor atravessado?. Niterói: Panorama/Letras Fluminenses, 1982. p. 28-29)




 

sábado, 9 de junho de 2012

Sobre sábios, arbítrios e borboletas azuis: Luiz Calheiros


Entre a singeleza das parábolas orientais e o realismo dramático de Giacomo Puccini, a “butterfly” fica, hoje, a cargo de Luiz Calheiros.
 
Bom fim de semana:







                                                                                                                           Luiz Calheiros

Conto-lhes uma historinha, de autor desconhecido. É provável que a conheçam. Chama-se: “A borboleta azul”.
Havia um homem muito culto capaz de responder sem erro a qualquer pergunta. Uma garota sagaz resolveu inventar certa situação, armada de tal modo que ele não lograsse acertar. Escondendo na mão uma borboleta azul, indagaria ao mestre se ela se encontrava viva ou morta. Se ele dissesse estar morta, a menina a deixaria voar. Provaria, assim, o erro do sábio. Se a resposta, ao contrário, fosse estar viva, a menina a apertaria, matando-a. Comprovaria, então, que aquele sábio se enganara. Desta maneira, qualquer que fosse a sua resposta, ele estaria errando.
Certa de que criara um inteligente artifício, a jovem previa derrubar a fama do homem, considerado, até então, verdadeiro gênio.  Acercando-se dele na presença de várias pessoas, perguntou:
– Seu sábio, eu estou aqui com uma borboleta azul na mão. Será que o senhor pode me dizer se ela está viva ou morta?
Calmamente, o homem sorriu e respondeu:
– Depende de você. Ela está em suas mãos... 
Assim, dizem, é a existência humana. Pousam em nossas mãos muitas borboletas azuis. Podemos soltá-las... ou retê-las. Cabe-nos escolher o que fazer com elas. Somos livres para decidir. O arbítrio nos pertence.  Ao longo dos anos, liberamos ou preservamos várias delas.
Mas essas borboletas azuis que nos chegam, de onde procedem?  São elas mesmas que resolvem aonde ir?  É de cada uma o desejo de procurar o próprio abrigo, arriscando-se à decisão de serem esmagadas por outrem?
As oportunidades, com as quais a vida nos brinda,  são muitas vezes prazerosas. Confiáveis. Estão, suave e silenciosamente, escondidas entre nossos dedos.  Estas, com carinho,  merecem  ser acolhidas. Aceitam o calor dos afetos.  Permanecem  conosco. Sentem-se protegidas.  Mas, sobretudo,  dependem de nossas escolhas.   De  nossas decisões.
Por isso, já  outras –– fugazes, efêmeras, transitivas – ,  evitamos prendê-las. Partem. São asas saídas do nosso aconchego.  Talvez busquem pousar em  mãos alheias.  Ou prefiram esvoaçar no indefinido espaço da vida.  Algumas  nos alcançam e adejam por ordem superior do Destino. São também azuis. Encantam-nos com seu colorido.
Não nos compete, contudo, torná-las  livres ou impedi-las de voar.
Cumpre-nos, simplesmente, submeter nossa existência à mágica força de seus ditames. Sempre rigorosos. Inflexíveis. São acontecimentos que fazem sentir o quanto é penoso afrontar o que nos é destinado: dúvidas, inquietações, medos e inseguranças... Contudo, também, certas  alegrias...
Assim, perguntamos: em que medida, nós somos agidos ou agentes dos atos praticados? Esta,  a grande questão bipolar: o Livre Arbítrio ou  o Destino? Aquele, submisso à nossa vontade, ingenuamente soberana. Este,  implacável dominador dos desejos, refreando nossa falsa liberdade. Ambos, valem-se das cativantes borboletas azuis, frágeis símbolos das utopias humanas.  E nós, eternos hospedeiros de seus sonhos.
Por acaso, o sábio da reflexiva história, que lhes contei, conseguiria  indicar, com inconteste certeza, qual das situações existenciais, a verdadeira?



Divulgação Cultural
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quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Kahlmeyer-Mertens nas vozes ressonantes de Umberto Eco", ensaio de Dalma Nascimento


Não há quem não fique contente (e até lisonjeado) com uma crítica favorável a um trabalho. A alegria aumenta exponencialmente quando reconhecimento e apreciação vêm de alguém como a Professora Dalma Nascimento. Professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro – RJ, Doutora em Teoria Literária e membro do Pen Club do Brasil. A intelectual assistiu minha conferência comemorativa dos oitenta anos de Umberto Eco e, dias depois, enviou-me um ensaio apreciando aquela fala.
Recebi o texto como um presente – este ofertado por uma figura cuja capacidade e inteligência só não são maiores do que sua generosidade –. Ao publicá-lo em Literatura-Vivência, longe de um ato de cabotinismo, desejo patentear o agradecimento cordial à professora Dalma declarando a satisfação de tê-la como uma afinidade eletiva.






1 A performance do conferencista e a relevância do autor  

Com a peculiar erudição que o caracteriza e o fluente domínio do tema, o filósofo e professor Roberto Kahlmeyer-Mertens proferiu na última semana, no Cenáculo Fluminense de História e Letras, a conferência “Os ecos de um intelectual Plural: Umberto Eco faz 80 anos”.  Já no jogo das palavras do titulo, o expositor provocou interesse de serem conhecidas as ressonâncias desse escritor multifacetado,  nascido em Alexandria (no Piemonte italiano) em 5 de janeiro de 1932.
Assim, o  pensamento polissêmico de Eco foi sendo analisado  por Kahlmeyer na sua fala objetiva, metódica, produtora de sentidos, fruto de aguda investigação e  de segurança epistemológica. Demonstrou pesquisa, sem, contudo, se apoiar em textos previamente  escritos,  iniciando  a exposição pela biografia do autor. Contextualizou-o, enfatizando os reflexos existenciais na produção das suas obras.  Referiu-se à enciclopédica cultura de Eco, um ser, ao mesmo tempo,  filósofo, historiador, semiólogo, linguísta, bibliógrafo, ensaísta   e romancista.
 Transitando em tantos horizontes do intelecto, ele  doutorou-se em Turim orientado por Luigi Pareyson, E, ao   teorizar  na sua  tese  o pensamento de Tomás de Aquino,  o ideário do mestre tomista o seduziu.  Voltou-se, ainda mais,   para o  universo e a estética medievais.  sendo este período o pilar temporal  preferido das  suas  construções literárias  Porém, antes de tornar-se romancista  de sucesso, triunfou no magistério. Professor convidado em Yale, Harvard, Collège de France, lecionou também em Turim, Florença e Milão, aposentando-se, na Universidade de Bolonha, no nível máximo de titular.
 Apesar dos múltiplos caminhos em philia dialógica, ou seja, em fraterna interlocução, dois grandes vetores nortearam-lhe o trajeto. Primeiro, a escrita teórico-ensaística, comprometida com a Semiótica e com os avanços da cultura de massa. Depois, emerge a   ficção, através da qual Umberto Eco se tornou mais conhecido pelo grande  público, embora estes dois veios sempre se harmonizassem confluentes.  


2 Etimologias  e os ensaios teórico-semióticos  de Eco

Antes de aprofundar a primeira vertente das produções do autor, Kahlmeyer investigou o  significado do termo Semiótica, questão, aliás, de título divergente (Semiótica ou Semiologia?) conforme for nomeada por teóricos europeus ou norte-americanos. Sem, contudo, aludir a tais irrelevantes polêmicas,  o conferencista esclareceu que Semiótica, do grego semiotiké, significa “ótica dos sinais”, isto é, “ter olhos de ver signos ou sinais”. Então a  teoria semiótica  “permite  compreender sinais e desvendar suas referências aos códigos”. 
Clarificando ainda mais o assunto, Kahlmeyer foi ao étimo da palavra Teoria, advinda de Theorein (fixar), decompondo-a em Theos + Horaus (olhar dos deuses), o que demonstra ser ela, a Teoria, uma visão privilegiada do mundo. Daí, apontar para  um “contemplar”, um “ver” profundo ao interpretar sinais. Tal contemplação  permite criar novos códigos, entender e fazer a exegese das culturas que estão emergindo. Conceito este que,  descoberto por Umberto Eco no Ensaio sobre o entendimento humano, de Locke,  foi  trazido à atualidade e influenciou as filosofias da linguagem e o discurso do imaginário.
No filão de ensaios com teorias semióticas, o pensador italiano publicou trinta e três livros. Numa batalha de ideias, o primeiro foi a  desveladora Obra aberta, abrindo campos de possibilidades à interpretação do literário. Em 1964, surgiu o tomo: Apocalípticos e integrados.  Ali, Eco focaliza a problemática  da cultura de massa, analisa a estética do mau gosto (o Kitsch), discute  mitos e símbolos massificadores da dinâmica contemporânea. Consigna também o surgimento  de outras estéticas  para atender às carências do consumo. Centra-se  mais  em MacLuhan do que em Adorno.
No movimento semiótico, entre outros livros, publicou A estrutura ausente (1968); As formas do conteúdo (1971); Seis passeios pelos bosques da ficção (1994); Como se faz uma tese (1995), metodologia, útil a alunos; Kant e o ornitorrinco (1997), refutação às categorias kantianas, sendo o ornitorrinco, exceção a regras; Cinco escritos morais (1997) sobre  racismo, alteridade e fascismo. Organizou as coletâneas História da Beleza (2004) e História da Feiúra (2007), esta, com textos que, à moda de Foucault, narram  a história dos interditos, onde o feio se associa ao hostil e ao denegrido. No rápido  panorama teórico ensaístico – tradutor das  novas relações entre o homem e o mundo –,  o erudito expositor mencionou Não contem com o fim do livro (2110), obra  que, segundo ele, será objeto de futuras cogitações  no Cenáculo.


3 As produções romanescas.

Umberto Eco tornou-se  ficcionista  internacional com O nome da rosa, trama eivada de discussões teológicas e filosóficas ambientada num convento medieval. Composta  em 1978-1979, mas lançado  em 1981-1982,  ela é dotada de um Pós-escrito tão precioso quanto  o livro, sobremodo para quem se dedica a este gênero romanesco.  Adaptada   ao cinema por Jean-Jacques Arnaud,  e tendo Sean  Connery e Christian Slater nos papéis principais, a  narrativa  comprova o  valor de produções policiais, de há muito, não mais considerada literatura menor na seara da arte. Enfático, Kahlmeyer sublinhou a importância  estética de  composições detetivescas.
 A Idade Média, já se disse, constitui  marco decisório  na formação intelectual do escritor italiano. Assim, para  montar enredos fidedignos, Eco elabora fichas, emprega clichês, recorre a autores medievais, serve-se de cartografias, de signos iconográficos e de outros traços verídicos – como afiançou o conferencista –visando a  ilustrar a exposição. O escritor deseja transfigurar uma época que lhe seja própria. Kahlmeyer relatou pequenos detalhes, no entanto, relevantes à estrutura textual. Exemplo: o apuro na construção da biblioteca. Para narrá-la, Eco inventou um local arejado, a fim de ela poder ser queimada pela combustão. Deveria expressar a cosmovisão coerente com o momento cultural, ainda que, de maneira ficcionalizada.
A seguir, pela exiguidade do tempo, não se ateve ao romance de 1988, O pêndulo de Foucault. Mas iluminou  outro, A ilha do dia anterior, de 1994, traduzido por Marco Lucchesi. Localizado no polêmico século XVII, o texto se constrói – aliás, marca peculiar de Eco –, com referências  literárias, filosóficas, linguísticas, estéticas, astronômicas, náuticas, bélicas, botânicas, médicas e até com a arte da esgrima. Em que pese a superabundância de desdobramentos oceânicos, a escrita desenha excelente painel daquele segmento  histórico com temas que fagulham a fantasia. Caravelas, travessias, enigmas, espionagem, segredos de estado, guerras, duelos, questões religiosas, amores idealizados são ingredientes romanescos que dão ibope.
 Além de tudo, há a utopia da Ilha Perdida ou Encantada, sonho que mexe com o inconsciente coletivo desde tempos imemoriais. A enigmática terra, na pena literária do escritor, situa-se na  confluência de tempos e espaços, no centésimo-octogésimo meridiano, ou seja, entre o ontem e o hoje. Daí o título, A ilha do dia anterior.  Em meio a tantos saberes, os episódios  configuram-se dúbios  em todos os níveis, o que lhes confere o caráter  dicotomizador e dilacerante da estética maneirista, atuante naquele tempo histórico-estético captado pela escritura moderna de Eco. [1] 
Depois, o Professor Kahlmeyer reportou-se ao Cemitério de Praga, best-seller de agora. Comentou a esquizofrenia  do personagem central, Simone Simonini, o único “inventado” no relato. Ora ele  assume sua  identidade de autêntico falsificador, ora, a outra, a do Abade Dalla Piccola, embora ambos se  ignorem, mas se comuniquem por recados.  Mais um dúplice  golpe de mestre do romancista! Com cenários histórico-culturais e absurdos acontecimentos – verossímeis apenas  na estrutura interna –,  na trama se  dão a ler  conspirações no cemitério de Praga, entre  fatos escabrosos e estranhos, até com alusões aos “Protocolos dos Sábios  do Sião”. Envolve, contudo,  importantes acontecimentos factuais. Lá estão, por exemplo, Garibaldi, Freud, Dumas, o Caso Dreyfus, Charcot, episódios médicos, histerias, hipnoses, jesuítas, maçons, receitas culinárias. Realidade e Irrealidade enlaçadas!  O livro reúne  um pot-pourri diabólico até engaçado, no qual Simonini é visceralmente antissemita, marca do avô,  e,  com alusões abjetas, coprológicas, ele rechaça  várias  raças e sistemas...
            Por não mais  dispor de tempo, o conferencista não se deteve – mas não fez falta! – em  dois romances  expressivos: A misteriosa chama da rainha Loana, e Baudolino. O primeiro conta a vida   de um alfarrabista que  acorda, com a memória perdida, após um acidente vascular cerebral. O segundo, Baudolino, tradução também de Lucchesi, é uma deliciosa  narrativa passada no século XII-XIII, época de  inúmeras transformações na Idade Média Central. Descreve as façanhas de um herói popular bandoleiro, um camponês sonhador erudito, pícaro andarilho numa divertida  farsa burlesca. Por meio dele, Eco repristina lendas ouvidas, na infância em sua terra natal, dando ao personagem o mesmo nome de São Baudolino, o padroeiro da cidade.
            Finda a brilhante conferência, o presidente da entidade, Júlio Vanni,  encerrou a sessão, sendo o porta-voz  da assistência “nos passeios pelos bosques da ficção” e da cultura. Após o banquete do espírito, veio o ágape do corpo: vinhos, salgados e doces sempre servidos naquela Casa Italiana. Porém, os ecos de Eco, sonorizados pela  voz  do conferencia, ficaram ressoando  na memória coletiva...
 Faz-se, portanto, necessário um ciclo sobre o autor, tal o acervo do conferencista.  Porque Roberto Kahlmeyer-Mertens deu-nos uma AULA, na acepção de Barthes, quando este foi introduzido  no Collège de France. 





[1] Quando o livro foi lançado no Brasil, publicamos na Tribuna da Imprensa, caderno cultural (Tribuna Bis)  em 29/ 03 /1995, p. 9,  ampla resenha da obra  A ilha do dia anterior,  com  o título: “A ilha do sonho eterno.  Romance de Umberto Eco formado por labirintos intelectuais’.   Certos  tópicos  de nossa leitura  inserimos no presente texto. 



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terça-feira, 5 de junho de 2012

O que significa ser fluminense? por R. S. Kahlmeyer-Mertens





Ser fluminense é encontrar-se no vão entre quatro pontos, não os marcos cardeais usados nas orientações no espaço ordinário, mas a guanabara, as serras, brejos e restingas quando destes me aproprio. É nessa quadrindade que a vagueza que somos se determina, se perfaz e se afeiçoa. Daí, é necessário dizer que ser fluminense não é voluntária condição; antes, é fruto de uma destinação que faz com que, insensivelmente, nos façamos identidade fluminense ante a diferença abismal, e pertença telúrica antes mesmo de declarações ufanas de vinculação atávica ou de posse de raiz. Assim, nos cultivamos fluminenses no a priori de uma dita “cultura fluminense”, de sorte que toda forma, estilo de vida, visão de mundo, cultura, vínculos e valores já são tardios. Aprendemos o fato de nosso ser com as lições que tomamos dos rios que nos dão o nome de flumen: pendendo das terras altas, eles já são rios desde que margens lhes foram dadas no nascedouro, não importando se formam caudalosas bacias nos planaltos, se, abruptos, quedam de escarpas, ou se, morosos, serpenteiam nos tabuleiros e planícies, todos – Paraíba do Sul, Macaé, Guandu, Piraí, Muriaé, Carangola, Pomba e Paquequer – são fluminenses a caminho da foz.
Testemunhas de cada palmo de nossa província, rios contam sua história nos sedimentos que trazem: memória e potamografia. Descrição do horizonte que somos e temos, de seu aberto, relevo, relatos e legendas... lavando a mataria espessa, o prado e a fazenda, povoados ou urbes, tomam eles o sal de cada solo e a cor que nosso céu empresta. Ser fluminense é, assim, o sincretismo desta fluência, a miscigenação que os primeiros souberam criar: o goitacá que instituiu o sentido de pátria já na origem; bandeirantes lusos e garimpeiros das Minas Gerais na pista faiscante do ouro; o negro, tenaz motor de empreitadas tantas; colonos estrangeiros cujo sangue e modos se imiscuíram aos autóctones, determinando a semblância que temos. Quadratura somos, somos quarenta vezes quatro; somos mais de dezesseis milhões.
Unidos na pluralidade, muitas palavras nos traduzem: Campos dos Goytacazes, Itaguaí, Itaperuna, Niterói, Teresópolis e Vassouras, nomes que ora ou outrora se firmaram por valores próprios, valeriam outros bons de se cantar: Cabo Frio, Duas Barras, São Fidélis, Paraty, Miracema, Cantagalo, Sumidouro, Rio Claro; Saquarema, Itaocara, Porto Real, Barra Mansa, Bom Jardim, São Gonçalo, Búzios, Sapucaia; Cordeiro, Itatiaia, Valença, Resende, Araruama, Macaé, Magé, Varre-Sai... Percebei, fluminense não é um adjetivo, não é algo aderido a estes que somos. Fluminense é substantivo, do mesmo modo que substancias são todos os atributos que nomeiam o mundo aí constituído: a restinga, maral, oleosa, salmourada, sinestésica, fértil; a guanabara, horizontal, urbana, velada, tórrida, célere; o brejo, lagunar, colonial, açucareiro, benfazejo; a serra, vertical, maciça, campesina, ancestral, sorridente, serena... uma pujança (!).
Com tal topologia, entretanto, tal instância essencial ainda não se mostra. Há de ser descoberta na silenciosa individualidade dos que aprendem a cultivar sua escuta... Cada qual, aqui, há de fazê-la por meio de uma experiência singular, e isso não deve ser pretexto para noticiar minha própria pessoa; esta fica aqui biograficamente sub-referenciada no registro que se segue.
*

Da casa situada em Mury, no oitavo distrito de Nova Friburgo, contam-se 846m. de altitude. Geralmente ensimesmado, aquele espaço entrega aos poucos sua intimidade com minha chegada. O quarto de solteiro é também o local de estudo e, apesar de confortável, é misto de cela de monge e dormitório de orfanato, nota sóbria dada pela mobília em pau preto. A janela se abre ao jardim, que seria morto durante a noite, não fossem o ruído de um córrego e os aromas de ervas que entram pelas venezianas. Um faisão assobia ao longe; minhas mãos, sobre os livros de filosofia, azulam com o frio; o corpo, no leito, experimenta a solidão perfeita traduzida na familiaridade do quarto, do jardim, dos ciprestes da cerca viva, da mata que sobe a encosta aí adiante, da rocha imemorial que se avulta em picos e penedos; enfim, do entorno. Pela manhã, após adaptar a vista ao brilho baço do sol daquelas serranias, vejo que o manacá que eu plantara de antanho floresceu pela primeira vez: uma única e pequena flor arroxeada que me permitiu articular – emocionado e grato – a identidade que sou em mundo. Mas seria mundo o melhor indicador do que significa ser fluminense? Ser fluminense é o pertencimento a um mundo ou a aspiração à “terra” que lhe é precondição?
Mundo e terra estão, aqui, deslocados de seu contexto filosófico original. Servem, contudo, como imagens plásticas para pensarmos nosso escopo, tarefa a nós favorecida pelas palavras de Michel Haar, em Le chant de terre:


"A terra possui um fundo secreto que resiste a toda elucidação, que não cede à violência de nenhuma explicação ou exposição. É preciso consentir a sua dimensão não laborada, sob pena de destruí-la. Ela deve se mostrar como esta que se reserva. Assim, a terra aparece bem no aberto, na claridade dos entes, mas como impenetrável. Ela é abertamente latente, manifestamente fechada. (...) Sendo essencialmente este movimento de tomada e retomada de si, ela faz surgir e aparecer visivelmente no centro do mundo este que se põe a cobrir. A terra é a livre aparição deste que reafirma constantemente seu ser. Como o domínio por excelência da livre aparição é o mundo, a terra torna-se ligada a uma condução ambígua e conflituosa com o mundo, seu contrário. (...) A terra não pode renunciar à abertura do mundo se ele deve aparecer ele mesmo como terra." (1)


Oculta, a terra é pano de fundo para o mundo, mundo é o aparecer da terra; é modo de ser que não se sabe pela via intelectual. Indômita, a terra não se submete ao olhar panorâmico das teorias, nem à autoridade dos pretensos sábios que as propalam. Terra libera a aparição do mundo dos entes e dos afazeres que, de fato, temos junto a esses; faz-se por meio de mundo sem com ele se confundir. Reafirma seu ser na tensão entre seu velamento e as amostras que dá no mundo; dá combate às ricas semânticas do mundo ao irromper com sua abissal indigência, sua originária pobreza: A terra nada possui; da terra nada nos podemos apropriar; com a terra recordamos apenas de nossa finitude de homens, do quanto o mundo nos é familiar e de que um deus chamado tempo é promessa para todo o porvir. A “fluminensidade” na qual habitamos é aqui forjada, é aqui conjugada.
Poucos sabem dessas premissas. Há quem diga que só os poetas o sabem, justamente por viverem predispostos à escuta das raízes na obscuridade do solo natal – “O poeta apenas, meu amigo; hoje só ele pode”(2) –. Entretanto, diante da necessidade de expressá-las, alguns deles deram a seu relato a roupagem de um romantismo de escola. Assim, fluminenses como Casimiro de Abreu e Fagundes Varela, ao comporem inspirados pela escuta da terra mater, cantaram a nostalgia romântica da casa paterna, mas o faziam de tal forma que esses cânticos constituem autênticos poemas geográficos.



NOTAS:
1. HAAR, 2000, p.122-123.
2. GOETHE, 1920, p.2.




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sábado, 2 de junho de 2012

"A ruptura dos nós", conto de Belvedere Bruno


Um conto que fala de ruptura com certos nós que nos atam ao cotidiano (para muitos, "nós górdios")? Ou seria um texto para falar de uma decisão que nos afasta do comportamento impessoal que nos diz: "assim nós fazemos", "assim nós pensamos", "assim nós existimos", nós, nós, nós... Todos nós, ninguém.
Um texto sobre singularidade?



A árvore proibida, de Sir Edward Coley Burne-Jones. Óleo sobre tela. (1882)





 
Quando me dispus a romper os nós que me atavam a um universo frágil e vazio, senti que a tarefa seria hercúlea. Não me acovardei. Foi como se montasse um cavalo alado e vislumbrasse paisagens que certamente reformulariam o roteiro de minha existência.
Deixei tudo para trás, não me importando se em meu ato havia ingratidão, frieza ou maldade. Dispensei autojulgamentos. Transformação era o que desejava, não o prejuízo de quem quer que fosse. Fui taxada como a desagregadora de lar. Logo eu, que sempre fui a boazinha, acalmando ânimos, aparando arestas... Cansei!
Saí do apartamento, deixei livre meu marido, pedi aos filhos que tomassem seu rumo. Queria viver a minha história, não mais a deles.
Comprei um chalé na serra e nunca senti vontade de enviar endereço a ninguém. Risquei da agenda todos os contatos. Rompi com o exterior, estafante em sua mesmice. Sinto o ar puro, o aroma desse verde sem fim.
Explosão de plenitude.
Que satisfação cortar minha cabeleira e abolir tinturas! Dar um basta aos salões, academias, shoppings! Caminhar sem preocupações, exercitando livremente o direito de estar em paz comigo mesma.
Como prezo a liberdade!  Ler, escrever bobagens, não pensar no amanhã!
Nenhuma saudade do passado. Não me lembro de coisas nem pessoas. Sempre tive certeza de que esse negócio de amor materno era mito, daí ter sido fácil, também, desvencilhar-me de meus filhos. Marido é como objeto, que permanece ao nosso lado enquanto tem função definida. Lamento apenas o tempo que perdi.
Serei, no íntimo, uma pessoa fria, sem vínculos afetivos? Não sei, nem quero analisar o fato. Estou feliz como nunca estive em minha vida. Não é a felicidade a meta do ser humano.
Se sinto falta de amor? O amor está no ar, é só questão de compreender que não é imprescindível a tão propalada simbiose.
Hum... a campainha está tocando. Que maravilha sempre saber quem é! A tal estabilidade que afaga, diferente daquela que esmaga. Hoje, celebraremos cinco anos da ruptura dos nós, que deu origem a um viver pleno de delícias!



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