“Ser anfitrião das belas letras.”
Com esta legenda, o presente Blog pretende abrir espaço para os talentos da literatura (com ênfase na fluminense). Tal sítio é reservado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias. Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária é o nosso papel.
Convicto do brocardo
lobatiano segundo o qual “um país se faz com homens e livros”, tentei elencar,
de memória, aqueles títulos que eu acreditava representar bem a cultura
literária de Niterói.Consultando várias
pessoas ligadas ao meio acadêmico de minha cidade, foi curioso o fato de minha
lista coincidir com os títulos apontados por aqueles conhecedores de livros.
Diante desta coincidência (ou deveria dizer “feliz serendipidade”), animei-me,
sem maiores pretensões, a apresentar quinzenalmente alguns dos livros que
teriam, de algum modo, marcado a cena literária niteroiense. Livros que
trouxeram contribuições substanciais em alguma área, inovações, resgates,
celebrações de datas festivas da cidade e que, até, ficaram conhecidos pelas
polêmicas que causaram.Em todos esses
casos, o valor literário ou histórico foi o que deu o critério para essas
escolhas que – longe de serem completas – serão singelos afagos na cultura de
nossa cidade.
Em cada quinzena, o
leitor de Literatura-Vivência poderá
conhecer, no Projeto “Livros que marcaram
Niterói”, um pouco mais das nossas letras.
Você já teve um amor atravessado?, de Fernando de Aviz
Em
dezembro do ano de 1982, Niterói presenciou a publicação de um livro de
crônicas intitulado: “Você já teve um
amor atravessado?”. Seu autor, por sua natureza binada (poeta e cronista,
por um lado; educador e biólogo, por outro), assinava com o heterônomo de Fernando
de Aviz. (Nem precisa dizer que não é casual a escolha de Roberto Santos
Almeida pela alcunha de Fernando. Sim, Fernando
é homenagem a Fernando Pessoa, célebre vate português; de Aviz é declaração afetiva a sua descendência lusitana e
ligação ancestral com a província de mesmo nome. Fernando de Aviz é, assim, o alter ego de nosso brasileiríssimo
Roberto Santos que, além de ser autor do referido livro, preside, atualmente, a
veneranda Academia Brasileira de
Literatura – ABDL).
“Você já teve um amor atravessado?” foi editado pela Livraria Panorama em co-edição com Letras Fluminenses (a mesma casa editorial que expedia o jornal
literário homônimo de Luiz Magalhães) e é reunião de textos originalmente
publicados em veículos que, na década de 1970, circulavam difundindo a boa
literatura: é o caso da Revista Única
e do fanzine Persona.
Qual seria a importância deste livro
a ponto de figurar neste projeto que busca resgatar os livros que marcaram
Niterói? Ora, em primeiro lugar,
uma resposta como esta não poderia ser dada fora da atmosfera da data de hoje (um
dia dos namorados) e, depois, não poderia ignorar os subsídios que o próprio
livro fornece sobre sua importância. Vejamos, por exemplo, o que mestre Ângelo Longo
diz em uma das orelhas: “Cronista, ele (Roberto/Fernando) colige o tempo na permanência do livro que
ora se estampa como se pretendesse marcar um caminho, assinalar uma passagem,
significar um pouco. Artista, ele transcende o espaço da impermanência das
coisas como se pretendesse um pouso no signo, um significado na marca, um
caminho-passagem.” Também Ronaldo de Carvalho Miguel, Vital dos Santos e Pedro
Jorge Salvador (este último recorrendo a um arsenal conceitual que vai de Hume
a Barthes, passando por Kierkegaard e Weber) emitem pareceres sobre o livro.
Contudo, é Elzita Nely B. do Vale, em poucas palavras, que resume a importância
do livro nas experiências estéticas que ele evoca/provoca: “As imagens
inigualáveis de quem sabe dizer o que sente, dispensam qualquer outro comentário”.
“Você já teve um amor atravessado?”, em sua época, foi lançado no circuito literário niteroiense
e despertou o interesse da comunidade letrada. Sua forma poética em prosa com
linguagem simultaneamente culta e desafetada é, em parte, responsável pelo seu
êxito. Outros fatores responsáveis pela boa acolhida do livro?... Talvez o
carisma de seu autor, que ficou conhecido na década de 1980 como “o poeta do
amor”. No mais, sigamos o conselho de Elzita do Vale, poupemos comentários e
nos presenteemos com a leitura do Fernando de Aviz neste dia dos namorados:
(AVIZ, Fernando de. Quem namora, não mora... In: Você já teve um amor atravessado?. Niterói: Panorama/Letras Fluminenses, 1982. p. 28-29)
Conto-lhes uma historinha, de autor desconhecido. É provável que a
conheçam. Chama-se: “A borboleta azul”.
Havia um homem muito culto capaz de responder sem erro a qualquer
pergunta. Uma garota sagaz resolveu inventar certa situação, armada de tal modo
que ele não lograsse acertar. Escondendo na mão uma borboleta azul, indagaria
ao mestre se ela se encontrava viva ou morta. Se ele dissesse estar morta, a
menina a deixaria voar. Provaria, assim, o erro do sábio. Se a resposta, ao
contrário, fosse estar viva, a menina a apertaria, matando-a. Comprovaria,
então, que aquele sábio se enganara. Desta maneira, qualquer que fosse a sua
resposta, ele estaria errando.
Certa de que criara um inteligente artifício, a jovem previa derrubar a
fama do homem, considerado, até então, verdadeiro gênio.Acercando-se dele na presença de várias
pessoas, perguntou:
– Seu sábio, eu estou aqui com uma borboleta azul na mão. Será que o
senhor pode me dizer se ela está viva ou morta?
Calmamente, o homem sorriu e respondeu:
– Depende de você. Ela está em suas mãos...
Assim, dizem, é a existência humana.
Pousam em nossas mãos muitas borboletas azuis. Podemos soltá-las... ou retê-las.
Cabe-nos escolher o que fazer com elas. Somos livres para decidir. O arbítrio
nos pertence. Ao longo dos anos,
liberamos ou preservamos várias delas.
Mas essas
borboletas azuis que nos chegam, de onde procedem?São elas mesmas que resolvem aonde ir?É de cada uma o desejo de procurar o próprio abrigo,
arriscando-se à decisão de serem esmagadas por outrem?
As oportunidades, com as quais a vida nos brinda, são muitas vezes prazerosas. Confiáveis. Estão,
suave e silenciosamente, escondidas entre nossos dedos. Estas, com carinho, merecem ser acolhidas. Aceitam o calor dos afetos. Permanecemconosco. Sentem-se protegidas. Mas,
sobretudo,dependem de nossas escolhas.De nossas decisões.
Por isso, já outras –– fugazes, efêmeras, transitivas – , evitamos prendê-las. Partem. São asas saídas
do nosso aconchego. Talvez busquem pousar
em mãos alheias.Ou prefiram esvoaçar no indefinido espaço da
vida. Algumas nos alcançam e adejam por ordem superior do
Destino. São também azuis. Encantam-nos com seu colorido.
Não nos compete, contudo, torná-las livres ou impedi-las de voar.
Cumpre-nos,
simplesmente, submeter nossa existência à mágica força de seus ditames. Sempre
rigorosos. Inflexíveis. São acontecimentos que fazem sentir o quanto é penoso
afrontar o que nos é destinado: dúvidas, inquietações, medos e inseguranças...
Contudo, também, certasalegrias...
Assim, perguntamos: em que medida, nós
somos agidos ou agentes dos atos praticados? Esta, a grande questão bipolar: o Livre Arbítrio
ouo Destino? Aquele, submisso à nossa
vontade, ingenuamente soberana. Este, implacável
dominador dos desejos, refreando nossa falsa liberdade. Ambos, valem-se das
cativantes borboletas azuis, frágeis símbolos das utopias humanas.E nós, eternos hospedeiros de seus sonhos.
Por acaso, o sábio da reflexiva história, que lhes contei, conseguiria indicar, com inconteste certeza, qual das situações
existenciais, a verdadeira?
Não há quem não fique contente (e
até lisonjeado) com uma crítica favorável a um trabalho. A alegria aumenta
exponencialmente quando reconhecimento e apreciação vêm de alguém como a
Professora Dalma Nascimento. Professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro – RJ, Doutora em Teoria Literária
e membro do Pen Club do Brasil. A
intelectual assistiu minha conferência comemorativa dos oitenta anos de Umberto Eco e, dias depois, enviou-me um ensaio apreciando aquela fala.
Recebi o texto como um presente –
este ofertado por uma figura cuja capacidade e inteligência só não são maiores
do que sua generosidade –. Ao publicá-lo em Literatura-Vivência,
longe de um ato de cabotinismo, desejo patentear o agradecimento cordial à
professora Dalma declarando a satisfação de tê-la como uma afinidade eletiva.
1 A performance do conferencista e a relevância do
autor
Com a peculiar
erudição que o caracteriza e o fluente domínio do tema, o filósofo e professor Roberto
Kahlmeyer-Mertens proferiu na última semana, no Cenáculo Fluminense de História e Letras, a conferência “Os ecos de
um intelectual Plural: Umberto Eco faz 80 anos”.Já no jogo das palavras do titulo, o
expositor provocou interesse de serem conhecidas as ressonâncias desse escritor
multifacetado,nascido em Alexandria (no
Piemonte italiano) em 5 de janeiro de 1932.
Assim, opensamento polissêmico de Eco foi sendo
analisadopor Kahlmeyer na sua fala
objetiva, metódica, produtora de sentidos, fruto de aguda investigação ede segurança epistemológica. Demonstrou
pesquisa, sem, contudo, se apoiar em textos previamenteescritos,iniciandoa exposição pela
biografia do autor. Contextualizou-o, enfatizando os reflexos existenciais na
produção das suas obras.Referiu-se à
enciclopédica cultura de Eco, um ser, ao mesmo tempo,filósofo, historiador, semiólogo, linguísta,
bibliógrafo, ensaístae romancista.
Transitando em tantos horizontes do intelecto,
eledoutorou-se em Turim orientado por
Luigi Pareyson, E, aoteorizar na suateseo pensamento de Tomás de
Aquino,o ideário do mestre tomista o
seduziu.Voltou-se, ainda mais,para ouniverso e a estética medievais.sendo este período o pilar temporalpreferido dassuasconstruções literáriasPorém, antes de tornar-se romancistade sucesso, triunfou no magistério. Professor
convidado em Yale, Harvard, Collège de France, lecionou também em Turim,
Florença e Milão, aposentando-se, na Universidade de Bolonha, no nível máximo
de titular.
Apesar dos múltiplos caminhos em philia dialógica, ou seja, em fraterna
interlocução, dois grandes vetores nortearam-lhe o trajeto. Primeiro, a escrita
teórico-ensaística, comprometida com a Semiótica e com os avanços da cultura de
massa. Depois, emerge aficção, através
da qual Umberto Eco se tornou mais conhecido pelo grandepúblico, embora estes dois veios sempre se
harmonizassem confluentes.
2 Etimologiase os ensaios teórico-semióticosde Eco
Antes de
aprofundar a primeira vertente das produções do autor, Kahlmeyer investigou
osignificado do termo Semiótica,
questão, aliás, de título divergente (Semiótica ou Semiologia?) conforme for
nomeada por teóricos europeus ou norte-americanos. Sem, contudo, aludir a tais
irrelevantes polêmicas,o conferencista
esclareceu que Semiótica, do grego semiotiké,
significa “ótica dos sinais”, isto é, “ter olhos de ver signos ou sinais”.
Então ateoria semiótica“permitecompreender sinais e desvendar suas referências aos códigos”.
Clarificando
ainda mais o assunto, Kahlmeyer foi ao étimo da palavra Teoria, advinda de Theorein (fixar), decompondo-a em Theos + Horaus (olhar dos deuses), o que demonstra ser ela, a Teoria, uma
visão privilegiada do mundo. Daí, apontar paraum “contemplar”, um “ver” profundo ao interpretar sinais. Tal
contemplaçãopermite criar novos
códigos, entender e fazer a exegese das culturas que estão emergindo. Conceito
este que,descoberto por Umberto Eco no Ensaio sobre o entendimento humano, de
Locke,foitrazido à atualidade e influenciou as
filosofias da linguagem e o discurso do imaginário.
No filão de
ensaios com teorias semióticas, o pensador italiano publicou trinta e três
livros. Numa batalha de ideias, o primeiro foi adesveladora Obra aberta, abrindocampos
de possibilidades à interpretação do literário. Em 1964, surgiu o tomo: Apocalípticos e integrados.Ali, Eco focaliza a problemáticada cultura de massa, analisa a estética do
mau gosto (o Kitsch), discutemitos e
símbolos massificadores da dinâmica contemporânea. Consigna também o
surgimentode outras estéticaspara atender às carências do consumo.
Centra-semaisem MacLuhan do que em Adorno.
No movimento
semiótico, entre outros livros, publicou A
estrutura ausente (1968); As formas
do conteúdo (1971); Seis passeios
pelos bosques da ficção (1994); Como
se faz uma tese (1995), metodologia, útil a alunos; Kant e o ornitorrinco (1997), refutação às categorias kantianas,
sendo o ornitorrinco, exceção a regras; Cinco
escritos morais (1997) sobreracismo, alteridade e fascismo. Organizou as coletâneas História da Beleza (2004) e História da Feiúra (2007), esta, com
textos que, à moda de Foucault, narrama
história dos interditos, onde o feio se associa ao hostil e ao denegrido. No
rápidopanorama teórico ensaístico –
tradutor dasnovas relações entre o
homem e o mundo –,o erudito expositor
mencionou Não contem com o fim do livro
(2110), obraque, segundo ele, será
objeto de futuras cogitaçõesno
Cenáculo.
3 As produções romanescas.
Umberto Eco
tornou-seficcionistainternacional com O nome da rosa,
trama eivada de discussões teológicas e filosóficas ambientada num convento
medieval. Compostaem 1978-1979, mas
lançadoem 1981-1982,ela é dotada de um Pós-escrito tão precioso quantoo livro, sobremodo para quem se dedica a este gênero romanesco.Adaptadaao cinema por Jean-Jacques Arnaud,e tendo SeanConnery e Christian
Slater nos papéis principais, anarrativacomprova ovalor de produções policiais, de há muito,
não mais considerada literatura menor na seara da arte. Enfático, Kahlmeyer
sublinhou a importânciaestética decomposições detetivescas.
A Idade Média, já se disse, constituimarco decisóriona formação intelectual do escritor italiano.
Assim, paramontar enredos fidedignos, Eco
elabora fichas, emprega clichês, recorre a autores medievais, serve-se de
cartografias, de signos iconográficos e de outros traços verídicos – como
afiançou o conferencista –visando ailustrar a exposição. O escritor deseja transfigurar uma época que lhe
seja própria. Kahlmeyer relatou pequenos detalhes, no entanto, relevantes à
estrutura textual. Exemplo: o apuro na construção da biblioteca. Para narrá-la,
Eco inventou um local arejado, a fim de ela poder ser queimada pela combustão. Deveria
expressar a cosmovisão coerente com o momento cultural, ainda que, de maneira
ficcionalizada.
A
seguir, pela exiguidade do tempo, não se ateve ao romance de 1988, O pêndulo de Foucault. Mas
iluminououtro, A ilha do dia anterior, de 1994, traduzido por Marco Lucchesi.
Localizado no polêmico século XVII, o texto se constrói – aliás, marca peculiar
de Eco –, com referênciasliterárias,
filosóficas, linguísticas, estéticas, astronômicas, náuticas, bélicas,
botânicas, médicas e até com a arte da esgrima. Em que pese a superabundância
de desdobramentos oceânicos, a escrita desenha excelente painel daquele
segmentohistórico com temas que
fagulham a fantasia. Caravelas, travessias, enigmas, espionagem, segredos de
estado, guerras, duelos, questões religiosas, amores idealizados são
ingredientes romanescos que dão ibope.
Além de tudo, há a utopia da Ilha Perdida ou
Encantada, sonho que mexe com o inconsciente coletivo desde tempos imemoriais.
A enigmática terra, na pena literária do escritor, situa-se naconfluência de tempos e espaços, no
centésimo-octogésimo meridiano, ou seja, entre o ontem e o hoje. Daí o título, A ilha do dia anterior. Em meio a tantos saberes, os episódiosconfiguram-se dúbiosem todos os níveis, o que lhes confere o
caráterdicotomizador e dilacerante da
estética maneirista, atuante naquele tempo histórico-estético captado pela
escritura moderna de Eco. [1]
Depois,
o Professor Kahlmeyer reportou-se ao Cemitério
de Praga,best-seller de agora.
Comentou a esquizofreniado personagem
central, Simone Simonini, o único “inventado” no relato. Ora eleassume suaidentidade de autêntico falsificador, ora, a outra, a do Abade Dalla
Piccola, embora ambos seignorem, mas se
comuniquem por recados.Mais um
dúplicegolpe de mestre do romancista!
Com cenários histórico-culturais e absurdos acontecimentos – verossímeis
apenasna estrutura interna –,na trama sedão a lerconspirações no
cemitério de Praga, entrefatos
escabrosos e estranhos, até com alusões aos “Protocolos dos Sábiosdo Sião”. Envolve, contudo,importantes acontecimentos factuais. Lá
estão, por exemplo, Garibaldi, Freud, Dumas, o Caso Dreyfus, Charcot, episódios
médicos, histerias, hipnoses, jesuítas, maçons, receitas culinárias. Realidade
e Irrealidade enlaçadas!O livro
reúneum pot-pourri diabólico até engaçado, no qual Simonini é visceralmente
antissemita, marca do avô,e,com alusões abjetas, coprológicas, ele
rechaçaváriasraças e sistemas...
Por
não maisdispor de tempo, o
conferencista não se deteve – mas não fez falta! – emdois romancesexpressivos: A misteriosa chama da
rainha Loana, e Baudolino. O
primeiro conta a vidade um
alfarrabista queacorda, com a memória
perdida, após um acidente vascular cerebral. O segundo, Baudolino, tradução também de Lucchesi, é uma deliciosanarrativa passada no século XII-XIII, época
deinúmeras transformações na Idade
Média Central. Descreve as façanhas de um herói popular bandoleiro, um camponês
sonhador erudito, pícaro andarilho numa divertidafarsa burlesca. Por meio dele, Eco repristina
lendas ouvidas, na infância em sua terra natal, dando ao personagem o mesmo
nome de São Baudolino, o padroeiro da cidade.
Finda
a brilhante conferência, o presidente da entidade, Júlio Vanni,encerrou a sessão, sendo o porta-vozda assistência “nos passeios pelos bosques da
ficção” e da cultura. Após o banquete do espírito, veio o ágape do corpo:
vinhos, salgados e doces sempre servidos naquela Casa Italiana. Porém, os ecos
de Eco, sonorizados pelavozdo conferencia, ficaram ressoandona memória coletiva...
Faz-se, portanto, necessário um ciclo sobre o
autor, tal o acervo do conferencista.Porque Roberto Kahlmeyer-Mertens deu-nos uma AULA, na acepção de
Barthes, quando este foi introduzidono Collège de France.
[1] Quando o livro foi lançado no Brasil,
publicamos na Tribuna da Imprensa,
caderno cultural (Tribuna Bis)em 29/ 03
/1995, p. 9,ampla resenha da obraA ilha
do dia anterior,como título: “A ilha do sonho eterno.Romance de Umberto Eco formado por labirintos
intelectuais’.Certostópicosde nossa leiturainserimos no
presente texto.
Ser fluminense é
encontrar-se no vão entre quatro pontos, não os marcos cardeais usados nas
orientações no espaço ordinário, mas a guanabara, as serras, brejos e restingas
quando destes me aproprio. É nessa quadrindade que a vagueza que somos se
determina, se perfaz e se afeiçoa. Daí, é necessário dizer que ser fluminense
não é voluntária condição; antes, é fruto de uma destinação que faz com que,
insensivelmente, nos façamos identidade fluminense ante a diferença abismal, e
pertença telúrica antes mesmo de declarações ufanas de vinculação atávica ou de
posse de raiz. Assim, nos cultivamos fluminenses no a priori de uma
dita “cultura fluminense”, de sorte que toda forma, estilo de vida, visão de
mundo, cultura, vínculos e valores já são tardios. Aprendemos o fato de nosso
ser com as lições que tomamos dos rios que nos dão o nome de flumen:
pendendo das terras altas, eles já são rios desde que margens lhes foram dadas
no nascedouro, não importando se formam caudalosas bacias nos planaltos, se,
abruptos, quedam de escarpas, ou se, morosos, serpenteiam nos tabuleiros e
planícies, todos – Paraíba do Sul, Macaé, Guandu, Piraí, Muriaé, Carangola,
Pomba e Paquequer – são fluminenses a caminho da foz.
Testemunhas de
cada palmo de nossa província, rios contam sua história nos sedimentos que
trazem: memória e potamografia. Descrição do horizonte que somos e temos, de seu
aberto, relevo, relatos e legendas... lavando a mataria espessa, o prado e a
fazenda, povoados ou urbes, tomam eles o sal de cada solo e a cor que nosso céu
empresta. Ser fluminense é, assim, o sincretismo desta fluência, a miscigenação
que os primeiros souberam criar: o goitacá que instituiu o sentido de pátria já
na origem; bandeirantes lusos e garimpeiros das Minas Gerais na pista faiscante
do ouro; o negro, tenaz motor de empreitadas tantas; colonos estrangeiros cujo
sangue e modos se imiscuíram aos autóctones, determinando a semblância que
temos. Quadratura somos, somos quarenta vezes quatro; somos mais de dezesseis
milhões.
Unidos na
pluralidade, muitas palavras nos traduzem: Campos dos Goytacazes, Itaguaí,
Itaperuna, Niterói, Teresópolis e Vassouras, nomes que ora ou outrora se
firmaram por valores próprios, valeriam outros bons de se cantar: Cabo Frio,
Duas Barras, São Fidélis, Paraty, Miracema, Cantagalo, Sumidouro, Rio Claro;
Saquarema, Itaocara, Porto Real, Barra Mansa, Bom Jardim, São Gonçalo, Búzios,
Sapucaia; Cordeiro, Itatiaia, Valença, Resende, Araruama, Macaé, Magé,
Varre-Sai... Percebei, fluminense não é um adjetivo, não é algo aderido
a estes que somos. Fluminense é substantivo, do mesmo modo que
substancias são todos os atributos que nomeiam o mundo aí constituído: a
restinga, maral, oleosa, salmourada, sinestésica, fértil; a
guanabara, horizontal, urbana, velada, tórrida, célere; o
brejo, lagunar, colonial, açucareiro, benfazejo; a serra,
vertical, maciça, campesina, ancestral, sorridente, serena... uma pujança
(!).
Com tal
topologia, entretanto, tal instância essencial ainda não se mostra. Há de ser
descoberta na silenciosa individualidade dos que aprendem a cultivar sua
escuta... Cada qual, aqui, há de fazê-la por meio de uma experiência singular, e
isso não deve ser pretexto para noticiar minha própria pessoa; esta fica aqui
biograficamente sub-referenciada no registro que se segue.
*
Da casa situada
em Mury, no oitavo distrito de Nova Friburgo, contam-se 846m. de altitude.
Geralmente ensimesmado, aquele espaço entrega aos poucos sua intimidade com
minha chegada. O quarto de solteiro é também o local de estudo e, apesar de
confortável, é misto de cela de monge e dormitório de orfanato, nota sóbria dada
pela mobília em pau preto. A janela se abre ao jardim, que seria morto durante a
noite, não fossem o ruído de um córrego e os aromas de ervas que entram pelas
venezianas. Um faisão assobia ao longe; minhas mãos, sobre os livros de
filosofia, azulam com o frio; o corpo, no leito, experimenta a solidão perfeita
traduzida na familiaridade do quarto, do jardim, dos ciprestes da cerca viva, da
mata que sobe a encosta aí adiante, da rocha imemorial que se avulta em picos e
penedos; enfim, do entorno. Pela manhã, após adaptar a vista ao brilho baço do
sol daquelas serranias, vejo que o manacá que eu plantara de antanho floresceu
pela primeira vez: uma única e pequena flor arroxeada que me permitiu articular
– emocionado e grato – a identidade que sou em mundo. Mas seria mundo o melhor
indicador do que significa ser fluminense? Ser fluminense é o pertencimento a um
mundo ou a aspiração à “terra” que lhe é precondição?
Mundo e terra
estão, aqui, deslocados de seu contexto filosófico original. Servem, contudo,
como imagens plásticas para pensarmos nosso escopo, tarefa a nós favorecida
pelas palavras de Michel Haar, em Le chant de terre:
"A terra possui um fundo secreto que resiste a
toda elucidação, que não cede à violência de nenhuma explicação ou exposição. É
preciso consentir a sua dimensão não laborada, sob pena de destruí-la. Ela deve
se mostrar como esta que se reserva. Assim, a terra aparece bem no aberto, na
claridade dos entes, mas como impenetrável. Ela é abertamente latente,
manifestamente fechada. (...) Sendo essencialmente este movimento de tomada e
retomada de si, ela faz surgir e aparecer visivelmente no centro do mundo este
que se põe a cobrir. A terra é a livre aparição deste que reafirma
constantemente seu ser. Como o domínio por excelência da livre aparição é o
mundo, a terra torna-se ligada a uma condução ambígua e conflituosa com o mundo,
seu contrário. (...) A terra não pode renunciar à abertura do mundo se ele deve
aparecer ele mesmo como terra." (1)
Oculta, a terra
é pano de fundo para o mundo, mundo é o aparecer da terra; é modo de ser que
não se sabe pela via intelectual. Indômita, a terra não se submete ao olhar
panorâmico das teorias, nem à autoridade dos pretensos sábios que as propalam.
Terra libera a aparição do mundo dos entes e dos afazeres que, de fato, temos
junto a esses; faz-se por meio de mundo sem com ele se confundir. Reafirma seu
ser na tensão entre seu velamento e as amostras que dá no mundo; dá combate às
ricas semânticas do mundo ao irromper com sua abissal indigência, sua originária
pobreza: A terra nada possui; da terra nada nos podemos apropriar; com a terra
recordamos apenas de nossa finitude de homens, do quanto o mundo nos é familiar
e de que um deus chamado tempo é promessa para todo o porvir. A “fluminensidade”
na qual habitamos é aqui forjada, é aqui conjugada.
Poucos sabem
dessas premissas. Há quem diga que só os poetas o sabem, justamente por viverem
predispostos à escuta das raízes na obscuridade do solo natal – “O poeta apenas,
meu amigo; hoje só ele pode”(2) –. Entretanto, diante da necessidade de
expressá-las, alguns deles deram a seu relato a roupagem de um romantismo de
escola. Assim, fluminenses como Casimiro de Abreu e Fagundes Varela, ao comporem
inspirados pela escuta da terra mater, cantaram a nostalgia romântica
da casa paterna, mas o faziam de tal forma que esses cânticos constituem
autênticos poemas geográficos.
Um conto que fala de ruptura com certos nós que nos atam ao cotidiano (para muitos, "nós górdios")? Ou seria um texto para falar de uma decisão que nos afasta do comportamento impessoal que nos diz: "assim nós fazemos", "assim nós pensamos", "assim nós existimos", nós, nós, nós... Todos nós, ninguém.
Quando me
dispus a romper os nós que me atavam a um universo frágil e vazio, senti que a
tarefa seria hercúlea. Não me acovardei. Foi como se montasse um cavalo alado e
vislumbrasse paisagens que certamente reformulariam o roteiro de minha
existência.
Deixei tudo
para trás, não me importando se em meu ato havia ingratidão, frieza ou maldade.
Dispensei autojulgamentos. Transformação era o que desejava, não o prejuízo de
quem quer que fosse. Fui taxada como a desagregadora de lar. Logo eu, que
sempre fui a boazinha, acalmando ânimos, aparando arestas... Cansei!
Saí do
apartamento, deixei livre meu marido, pedi aos filhos que tomassem seu rumo. Queria
viver a minha história, não mais a deles.
Comprei um
chalé na serra e nunca senti vontade de enviar endereço a ninguém. Risquei da
agenda todos os contatos. Rompi com o exterior, estafante em sua mesmice. Sinto
o ar puro, o aroma desse verde sem fim.
Explosão de
plenitude.
Que satisfação
cortar minha cabeleira e abolir tinturas! Dar um basta aos salões, academias,
shoppings! Caminhar sem preocupações, exercitando livremente o direito de estar
em paz comigo mesma.
Como prezo a
liberdade!Ler, escrever bobagens, não
pensar no amanhã!
Nenhuma
saudade do passado. Não me lembro de coisas nem pessoas. Sempre tive certeza de
que esse negócio de amor materno era mito, daí ter sido fácil, também,
desvencilhar-me de meus filhos. Marido é como objeto, que permanece ao nosso
lado enquanto tem função definida. Lamento apenas o tempo que perdi.
Serei, no
íntimo, uma pessoa fria, sem vínculos afetivos? Não sei, nem quero analisar o
fato. Estou feliz como nunca estive em minha vida. Não é a felicidade a meta do
ser humano.
Se sinto falta
de amor? O amor está no ar, é só questão de compreender que não é
imprescindível a tão propalada simbiose.
Hum... a
campainha está tocando. Que maravilha sempre saber quem é! A tal estabilidade
que afaga, diferente daquela que esmaga. Hoje, celebraremos cinco anos da
ruptura dos nós, que deu origem a um viver pleno de delícias!
Conta Luís Antônio Pimentel que –
em parceria com os poetas Geir Campos e Hugo Tavares – elaborava um vocabulário
sobre termos de marinha. O livro, mais uma obra de folclore do que um trabalho linguístico,
já teria até título: O linguajar dos
pescadores na orla da Guanabara. Entre os muitos verbetes estavam lá: “negró”,
“cinzido”, “velado”, “fateixa”... e outros vocábulos tão herméticos quanto poéticos
da fala dos marinheiros e pescadores. Em uma manhã, entretanto, Hugo Tavares, apressado
para ir para o trabalho, esqueceu na barca que faz a travessia Rio-Niterói a única
prova do livro que, fatidicamente, perdeu-se para sempre.
Quantas palavras matizadas de sal
estariam naquele manuscrito... quanta sabedoria maruja não haveria ali... quantas
metáforas náuticas e belos termos para se falar da vista do mar não se
perderam... Resgatar cada palavra de memória? Impossível! Melhor é imaginar
cada uma delas a partir da presente crônica de Carlos Rosa Moreira.
PANCETTISérie Bahia - Musa da paz. Óleo sobre tela, 1950.
Estou refestelado na poltrona de
domingo com as pernas esticadas e a cara virada para cima, para o céu de um
azul que chega a ser arrogante. É tanto azul que fecho os olhos, mas não
adianta: o azul permanece e diante dos meus olhos fechados se divide entre a
calma do céu e a inconstância do mar.
Você atravessa o azul, rema com vigor seu caiaque pouco à
frente do meu. Vejo seus longos cabelos escuros sobre as costas nuas morenas,
sua rija musculatura delicada e braços e ombros em perfeitos movimentos
ritmados. Eu sigo logo atrás, deslumbrado.
PANCETTI. Saquarema. Óleo sobre tela. 1955.
Foi o nordeste manso que alisou o
mar e permitiu nossa aventura. Se continuarmos neste ritmo, alcançaremos o
Boqueirão no estofo da maré, então será fácil atravessá-lo. A água está tão
clara que vejo passar as lajes, cinco, seis, dez metros lá no fundo. Gostaria
de mostrar a pedra onde vivia a imensa moreia verde que quase me mordeu. Mas
você não para... É bonito vê-la assim, avançando sobre o mar com determinação.
Você, que parece tão frágil, que é tão feminina, dá gosto vê-la, honey baby. Em breve dobraremos a ponta
e ficaremos paralelos à ilha. Quero rever a grande figueira sobre a duna de
areias brancas. Além da ponta as águas serão mais rasas, haverá o fundo de
pequeninas pedras da cor de ouro velho, outrora esconderijo de grandes linguados
que ali se aninhavam. À noite, Jacy
sairá das águas por trás da Ilha dos Porcos e deitará sua luz sobre as praias,
a luz que faz bem à sua alma, a luz que também te pertence. Mas eu quero pensar
coisas do mar, honey baby. Poderia te
contar histórias do mar. Casos de velhos pescadores, histórias que ouvi de
faroleiros em ilhas perdidas, coisas humildes acontecidas comigo. Queria
surpreender você, que desliza em seu mar com a segurança de quem pisa o chão de
sua casa. Lembro-me de que contou daquela praia selvagem, cravada na pedra,
solitária e inóspita, que o mar toma para si em cada maré cheia. Você nadava
nua com sua amiga e ambas sangravam num dia coincidente. E viram barbatanas
ameaçadoras e furtivas entre as ondas, possíveis predadores no rastro das
fêmeas.
PANCETTI. Cabo Frio. Óleo sobre tela. 1947
Penso tudo isso enquanto sigo
você. O mar está calmo e há essa brisa amiga, mas sabemos que os ventos mudam e
mexem com as águas. Tento captar seu cheiro e tudo o que sinto é o perfume do mar, esse
perfume que tanto amamos!Você é tão
simples, você é tão sua praia! Parece querer tão pouco. Eu é que sou assim,
como esses ventos que rondam, desembestam, parecem não acreditar na existência
de enseadas e calmarias que não precisam deles.
PANCETTI. Musa da paz. Óleo sobre tela (37,5 x 55 cm), 1950.
Cerro meus olhos com força.
Ultrapassamos ilha e continente, o mar se abriu. Há o sobe e desce das ondas
grandes e o movimento selvagem do oceano.
Gostaria de saber, honey baby, gostaria de acreditar que
emociono você. Acho que remará até o farol, ou à Gruta Azul, não sei... Vejo
suas costas bonitas, seus cabelos levados pela brisa salgada. E abro os olhos
para não ver você, minha grande, minha
pequena, oh, minha grande obsessão.
O conferencista, Roberto S. Kahlmeyer-Mertens, titular da cadeira n. 13 (patronímica de Afrânio Peixoto) recebe seu certificado após a apresentação, enquanto cumprimenta o presidente da instituição, Julio Cezar Vanni.