sábado, 2 de junho de 2012

"A ruptura dos nós", conto de Belvedere Bruno


Um conto que fala de ruptura com certos nós que nos atam ao cotidiano (para muitos, "nós górdios")? Ou seria um texto para falar de uma decisão que nos afasta do comportamento impessoal que nos diz: "assim nós fazemos", "assim nós pensamos", "assim nós existimos", nós, nós, nós... Todos nós, ninguém.
Um texto sobre singularidade?



A árvore proibida, de Sir Edward Coley Burne-Jones. Óleo sobre tela. (1882)





 
Quando me dispus a romper os nós que me atavam a um universo frágil e vazio, senti que a tarefa seria hercúlea. Não me acovardei. Foi como se montasse um cavalo alado e vislumbrasse paisagens que certamente reformulariam o roteiro de minha existência.
Deixei tudo para trás, não me importando se em meu ato havia ingratidão, frieza ou maldade. Dispensei autojulgamentos. Transformação era o que desejava, não o prejuízo de quem quer que fosse. Fui taxada como a desagregadora de lar. Logo eu, que sempre fui a boazinha, acalmando ânimos, aparando arestas... Cansei!
Saí do apartamento, deixei livre meu marido, pedi aos filhos que tomassem seu rumo. Queria viver a minha história, não mais a deles.
Comprei um chalé na serra e nunca senti vontade de enviar endereço a ninguém. Risquei da agenda todos os contatos. Rompi com o exterior, estafante em sua mesmice. Sinto o ar puro, o aroma desse verde sem fim.
Explosão de plenitude.
Que satisfação cortar minha cabeleira e abolir tinturas! Dar um basta aos salões, academias, shoppings! Caminhar sem preocupações, exercitando livremente o direito de estar em paz comigo mesma.
Como prezo a liberdade!  Ler, escrever bobagens, não pensar no amanhã!
Nenhuma saudade do passado. Não me lembro de coisas nem pessoas. Sempre tive certeza de que esse negócio de amor materno era mito, daí ter sido fácil, também, desvencilhar-me de meus filhos. Marido é como objeto, que permanece ao nosso lado enquanto tem função definida. Lamento apenas o tempo que perdi.
Serei, no íntimo, uma pessoa fria, sem vínculos afetivos? Não sei, nem quero analisar o fato. Estou feliz como nunca estive em minha vida. Não é a felicidade a meta do ser humano.
Se sinto falta de amor? O amor está no ar, é só questão de compreender que não é imprescindível a tão propalada simbiose.
Hum... a campainha está tocando. Que maravilha sempre saber quem é! A tal estabilidade que afaga, diferente daquela que esmaga. Hoje, celebraremos cinco anos da ruptura dos nós, que deu origem a um viver pleno de delícias!



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terça-feira, 29 de maio de 2012

Literatura maral, pintura de alto mar, música na maresia: Carlos Rosa Moreira


Conta Luís Antônio Pimentel que – em parceria com os poetas Geir Campos e Hugo Tavares – elaborava um vocabulário sobre termos de marinha. O livro, mais uma obra de folclore do que um trabalho linguístico, já teria até título: O linguajar dos pescadores na orla da Guanabara. Entre os muitos verbetes estavam lá: “negró”, “cinzido”, “velado”, “fateixa”... e outros vocábulos tão herméticos quanto poéticos da fala dos marinheiros e pescadores. Em uma manhã, entretanto, Hugo Tavares, apressado para ir para o trabalho, esqueceu na barca que faz a travessia Rio-Niterói a única prova do livro que, fatidicamente, perdeu-se para sempre.
Quantas palavras matizadas de sal estariam naquele manuscrito... quanta sabedoria maruja não haveria ali... quantas metáforas náuticas e belos termos para se falar da vista do mar não se perderam... Resgatar cada palavra de memória? Impossível! Melhor é imaginar cada uma delas a partir da presente crônica de Carlos Rosa Moreira.
  

PANCETTI Série Bahia - Musa da paz. Óleo sobre tela, 1950.


No azul


 


Estou refestelado na poltrona de domingo com as pernas esticadas e a cara virada para cima, para o céu de um azul que chega a ser arrogante. É tanto azul que fecho os olhos, mas não adianta: o azul permanece e diante dos meus olhos fechados se divide entre a calma do céu e a inconstância do mar.
Você atravessa o azul, rema com vigor seu caiaque pouco à frente do meu. Vejo seus longos cabelos escuros sobre as costas nuas morenas, sua rija musculatura delicada e braços e ombros em perfeitos movimentos ritmados. Eu sigo logo atrás, deslumbrado.



PANCETTI. Saquarema. Óleo sobre tela. 1955.

Foi o nordeste manso que alisou o mar e permitiu nossa aventura. Se continuarmos neste ritmo, alcançaremos o Boqueirão no estofo da maré, então será fácil atravessá-lo. A água está tão clara que vejo passar as lajes, cinco, seis, dez metros lá no fundo. Gostaria de mostrar a pedra onde vivia a imensa moreia verde que quase me mordeu. Mas você não para... É bonito vê-la assim, avançando sobre o mar com determinação. Você, que parece tão frágil, que é tão feminina, dá gosto vê-la, honey baby. Em breve dobraremos a ponta e ficaremos paralelos à ilha. Quero rever a grande figueira sobre a duna de areias brancas. Além da ponta as águas serão mais rasas, haverá o fundo de pequeninas pedras da cor de ouro velho, outrora esconderijo de grandes linguados que ali se aninhavam. À noite, Jacy sairá das águas por trás da Ilha dos Porcos e deitará sua luz sobre as praias, a luz que faz bem à sua alma, a luz que também te pertence. Mas eu quero pensar coisas do mar, honey baby. Poderia te contar histórias do mar. Casos de velhos pescadores, histórias que ouvi de faroleiros em ilhas perdidas, coisas humildes acontecidas comigo. Queria surpreender você, que desliza em seu mar com a segurança de quem pisa o chão de sua casa. Lembro-me de que contou daquela praia selvagem, cravada na pedra, solitária e inóspita, que o mar toma para si em cada maré cheia. Você nadava nua com sua amiga e ambas sangravam num dia coincidente. E viram barbatanas ameaçadoras e furtivas entre as ondas, possíveis predadores no rastro das fêmeas.


PANCETTI. Cabo Frio. Óleo sobre tela. 1947

Penso tudo isso enquanto sigo você. O mar está calmo e há essa brisa amiga, mas sabemos que os ventos mudam e mexem com as águas. Tento captar seu cheiro e  tudo o que sinto é o perfume do mar, esse perfume que tanto amamos!  Você é tão simples, você é tão sua praia! Parece querer tão pouco. Eu é que sou assim, como esses ventos que rondam, desembestam, parecem não acreditar na existência de enseadas e calmarias que não precisam deles.


PANCETTI. Musa da paz. Óleo sobre tela (37,5 x 55 cm), 1950.

Cerro meus olhos com força. Ultrapassamos ilha e continente, o mar se abriu. Há o sobe e desce das ondas grandes e o movimento selvagem do oceano.
Gostaria de saber, honey baby, gostaria de acreditar que emociono você. Acho que remará até o farol, ou à Gruta Azul, não sei... Vejo suas costas bonitas, seus cabelos levados pela brisa salgada. E abro os olhos para não ver você, minha grande, minha pequena, oh, minha grande obsessão.




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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Cobertura fotográfica da conferência de R. S. Kahlmeyer-Mertens no Cenáculo Fluminese de História e Letras





Para conferir as fotos da conferência “Os ecos de um intelectual plural – Umberto Eco faz 80 anos”.
acesse o Blog Focus: portal cultural. (AQUI)



O conferencista, Roberto S. Kahlmeyer-Mertens, titular da cadeira n. 13 (patronímica de Afrânio Peixoto) recebe seu certificado após a apresentação, enquanto cumprimenta o presidente da instituição, Julio Cezar Vanni. 





domingo, 27 de maio de 2012

Cânticos de transcendência, primaveras e cinzas: Poesias de Mauro Nunes


Quem seriam os atuais "atores" da literatura fluminense?
Esta pergunta tem por resposta uma série de nomes que, entre os nativos das terras do estado do Rio de Janeiro e os nela radicados, compõem um caldo literário com o tempero bem ao nosso gosto.
A postagem que se segue vem esboçar (ou ainda, ilustrar) uma resposta à referida questão. Apresentamos um poeta que compõe o significativo cenário da literatura fluminense.





Cânticos de transcendência, primaveras e cinzas: Poesias de Mauro Nunes




 

Mauro Nunes (*)

Transcendências


Impossível não te ver
Na manhã vestida de ternura
Ornada à luz do sol
A despertar aquarelas
A rabiscar nos olhos
As silhuetas das montanhas
No dissipar sereno das nuvens.

Impossível não te reconhecer
No movimento do dia novo
No revoar das gaivotas
A bailar na rota dos ventos
Todas juntas, doce sincronia
A espalmar suas asas no ar
Coreografia na grafia das cores.

Impossível não te sentir
No despertar viçoso do verde
Nas canções das andorinhas
Na batuta da liberdade
A saudar com prazer o dia
E fazer voar nosso olhar
Da imanência de nossas planícies.


Maria’s


Almejada, proibida, odiada
Dona das cantigas de amor
Terno semblante da vida
Ser do gozo e dos escárnios.
Cascata de lágrima sem cor
Sonho ancorado nas pedras
Prisioneira da paixão
Teu prazer, o fel do varão.
És coragem e teimosia
Mais que corpo e alma
Mulher sim, além de Maria.
Constela a terra azulada
Recria a seiva do sopro
Amamenta tua liberdade.

  

Sempre primavera


                    Às margens do rio São João
 
Inaudita leveza de poesia ofegante
Gravita às margens do rio São João
Suspira a nostalgia do jovem amante
E palmilha nas primaveras que se vão. 
O canto solitário da água inquieta
A lira encolhida pela ausência sentida
Versos e metáforas clamam o poeta
Pelas ruas d’uma vila envelhecida. 
Das margens o horizonte de Casimiro
Encerram os montes linhas traçadas
O silêncio respinga um vago suspiro. 
Nas ruínas pelo tempo enrugadas
Permanecem como folhas de papiro
Poesias valorosas, imortalizadas.



Operário

             A meu pai, in memorian
 
Remexendo nos velhos papeis
Encontrei-te de colo aberto
Segurando minhas tramas
Acalentando com suas mãos operárias
Minhas quedas por rebeldias
Cresci entre seus largos passos
E banhei-me no seu suor
Suor que me fez o que sou
Andei nas marcas de seus pés
Ancorei minha vida em teu sopro
Agora ouço tua voz calada
E o sussurro de sua coragem
Nesta estrada de curvas e sonhos.


Cinzas

Sozinho, o silêncio do tempo
Chegava dedilhando trovas
Entorpecendo vozes diurnas
Calando prosas em poesias
A noite levantava das cinzas
Orvalhando o sono do dia.

Na poeira d’um quarto vazio
A lua roubava as ilusões
Reinventando o real incerto
Silenciosa ela adormecia
A luz da noite se apagava
E ressurgia as novas horas.


(*) Mauro Sérgio Souza Nunes é natural de Saquarema – RJ e tem 39 anos. Mora em Macaé, onde exerce há cinco anos o ministério sacerdotal local. É padre da Igreja Católica há dez anos. Além desse ofício, é formado em Letras Português-Literatura e, atualmente, conclui o curso de Licenciatura em Filosofia. É professor concursado do Estado e, embora afastado, colabora em um projeto de Vestibular Social. Colaborou com artigos para jornais de Rio das Ostras. É militante do Movimento Fé e Política e adepto de atividades culturais.





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sábado, 26 de maio de 2012

Poeta e Jornalista, Luís Antônio Pimentel em matéria de O Globo





Aos 100 anos e cheio de histórias, mais antigo jornalista do país continua ativo



Luís Pimentel: carrega sempre uma máquina fotográfica no bolso
Guito Moreto / O Globo

RIO - Luís Antônio Pimentel se considera um sujeito de sorte. Sobreviveu a uma malária e uma febre amarela. Estava no Japão durante a Segunda Guerra Mundial, mas conseguiu sair do país antes que a bomba atômica fosse lançada. Circulou entre a nata da intelectualidade e da classe artística por várias décadas, incluindo Cecília Meirelles, Carmem Miranda, Barão de Itararé, Graciliano Ramos e Monteiro Lobato. Escreveu livros, músicas, poesias e, como jornalista, cobriu os eventos mais marcantes da História do Brasil. Colecionou romances com belas mulheres. Aos 74 anos, pôde, finalmente, viver seu grande amor, que conhecera 40 anos antes e com quem foi morar aos 96. Hoje, aos 100 anos, completados em março, seu fôlego parece não ter fim: vai a todas as festas em homenagem ao seu centenário, numa intensa agenda em Niterói, sua cidade do coração. Estão em cartaz duas exposições sobre sua vida e uma adaptação para o teatro de uma novela que escreveu em 1944, além do lançamento de uma antologia de seus textos em prosa e verso, "O amor segundo Luís Antônio Pimentel" (Editora Nitpress).

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/aos-100-anos-cheio-de-historias-mais-antigo-jornalista-do-pais-continua-ativo-4949376#ixzz1w1LWl0JF
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"Laços de afeto", por Wanderlino Teixeira Leite Netto


Não será preciso esperar tanto a ponto de se esquecer na espera: Café pingado, mais novo livro de Wanderlino Teixeira Leite Netto, será lançado em junho próximo.
Enquanto aguardamos para bebericar em sua poesia, que tal um pouco da prosa do autor?





Laços de afeto



 Mudavam-se à revelia. Por vontade própria, Aurélio e Mercedes permaneceriam no velho apartamento. Mas, aos oitenta, os desejos trocam de dono. Os filhos haviam decidido tê-los por perto, assim seria. Impotentes, presenciam a profanação de seus guardados. Os filhos, o genro, a nora, os netos, remexem armários e gavetas. Urge selecionar o que os homens da transportadora irão embalar e eles não tardam.
Mercedes vê os sacos de retalhos dos mais variados tecidos serem postos de lado. Aurélio não entende o descarte dos papéis de embrulhar pão, dos pedaços de barbante, das bulas, das caixas e dos vidros de remédios vazios. Afinal, estavam todos meticulosamente arrumados...
Miçangas e paetês espalham-se pelo chão, assim como pedaços de isopor, purpurina, velas de aniversários e enfeites de Natal.
Do bojo de um armário, saem sapatos fora de moda, bolsas dos mais diferentes feitios e tamanhos, alguns chapéus, todos vetados por uma comissão de netos.
Enquanto o genro amontoa junto à lixeira jornais amarelecidos, a filha descarta bibelôs. Os álbuns de retratos sofrem verdadeira pilhagem, cada um abocanha um naco do passado. Quando chega o pessoal da transportadora, tudo está definido.
Aurélio e Mercedes entreolham-se. A cumplicidade de mais de meio século é suficiente para indicar-lhes o que fazer. De uma pasta de couro, já um tanto desbotada, retiram os documentos. Com tesouras de ponta fina, em silêncio, picotam as cédulas de identidade.

 
(NETTO, Wanderlino Teixeira Leite. Laços de afeto. In: Retrato sem moldura. Niterói: Clube de Literatura Cromos, 1999).




Divilgação cultural
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quarta-feira, 23 de maio de 2012

“Panteão” a Agrippino Grieco, por José Cândido de Carvalho



Caricatura de Agrippino Grieco no traço de Appe.



Agrippino Grieco – Diabo manda lembranças






Logo de saída, Agrippino Grieco avisa:
– Acabo de vir do médico. Estou em forma.
Acredito. Vai atravessar o século em cima de suas fortes pernas de filho de camponeses. Rijo e narigudo. Aos poucos, o tempo foi fazendo dele uma ilha cercada de mil epigramas e de sessenta mil livros. Falou mal de todo mundo e todo mundo falou mal dele. Com uma desvantagem para Grieco: falou sempre bem mal dos outros. Sempre desancou os adversários em excelente estilo, no mais alegre e guisado estilo que alguém já inventou para dizer mal de alguém neste país. Agora, na sua casa do Méier, quase na marca dos oitenta anos, o velho diabo escreve, em chinelas, suas memórias, páginas e páginas em que a vida tem um encontro com um dos homens mais faiscantes do Brasil. São cinquenta primaveras de convivências com ideias, homens, acontecimentos e paisagens. E todo esse mundo é passado a limpo numa antiga máquina de escrever, espécie de mamute de parafusos e letras, mais velha do que as próprias memórias que datilografa. Lá está ela, cansada de guerra, sobre a mesa desarrumada de Agrippino, numa sala quieta de uma tarde de abril. Não é propriamente uma máquina. É um serpentário. Desse piano de dizer desaforos, que Grieco toca com um dedo só, têm saído os mais alegres ditos deste Brasil, as melhores caricaturas em palavras já feitas por mãos nacionais. A conversa do velho diabo tem feitio de festa italiana – bandolins, estandartes, flores, bandeiras com as cores dos pavões e piruetas de clown. As mãos de Grieco também falam. Seu nariz, como uma virgula enorme, marca a pontuação. Começa o show.
(...)     


Caricatura de Agrippino Grieco no traço de Theo.


Ironia a domicílio  

Não poupa ninguém. Nem amigos nem parentes. Nem ele mesmo. Ao espelho, ao fazer a barba, certamente dirá coisas de Grieco. Conta Donatello, seu filho e belo escritor abafado pelos veludos da diplomacia:
– Em casa, sempre fomos mais ou menos farpeados pelo velho. Depois que meu mano Francisco de Assis e eu fizemos concurso para o Itamarati, Grieco deitou frase dizendo que “no Brasil quem não dá para nada vai ser funcionário público, e quem não dá nem para isso vai ser diplomata”.
A frase correu mundo. É antológica. 



Elogio da traça 

Agrippino avança o nariz sobre a parede para mostrar um sujeito também narigudo, escritor do seu agrado e do seu convívio permanente: Eça de Queirós. Há ainda outras recordações que a vida dependurou na sala de Agrippino, desde quadros do seu cunhado Guttman Bicho a aquarelas compradas ao acaso de suas navegações pelo mundo, em Paris ou em Roma, em Belém do Pará ou no Largo do Rossio. Vou caminhando por entre os muros de livros de Grieco, os seus famosos 60 mil volumes. O Brasil, de cabo a rabo, está nesta montanha de papel e tinta, encadernado e naftalizado. Falo das traças, Grieco abre os braços para elogiar essas inimigas do papel:
 – Não há uma Sociedade Protetora das Traças, com planos de produção intensiva. É uma necessidade nacional, como o petróleo.
Nisso o velho diabo do Méier está redondamente enganado. Traça que se preza não rói livro ruim. É o que garante o romancista Herberto Sales. E eu com ele.
(...)



Os 4 grandes 

Indago:
– Quais as suas grandes admirações brasileiras de todos os tempos?
A resposta vem fácil:
– Castro Alves, José de Alencar, Euclides da Cunha e Machado de Assis.
E é só. 
(...)

Autógrafo de Agrippino Grieco (1969)
oferecido ao Prof. Luiz Antônio Barros 
durante manhã de autógrafos na Livraria Ideal.
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Verde, não 

Não empresta livros. E tem um medão danado de cachorros, embora tenha apregoado, em boa prosa, as virtudes deles. Não aprecia verduras. É inimigo pessoal dos agriões e das alfaces. Detesta o vento e o trovão. E crê, sem fanatismo, em coisa do além. Não que tenha visto algum fantasma, mas por não poder explicar certos acontecimentos. E, pelas dúvidas, mantém em seu quintal um bem regado e mimado pé de arruda. Não é verdura. É pé de coelho.

Capa de um exemplar de Os vivos e mortos de Grieco, primeira edição, 1931.
Acervo da biblioteca pessoal de Roberto Kahlmeyer-Mertens

Brincadeira de morrer

Não sei por que o nome de Manuel Bandeira entrou na conversa do Méier. Agrippino manda brasa: – Há mais de cinquenta anos que Bandeira diz, em prosa e verso, que vai morrer. E não cumpriu a palavra...
Em verdade, Grieco não quer, nem de longe, a morte de Bandeira. Nem de Bandeira nem de poeta nenhum, mesmo desses que rimam sabão com limão.
(...)

Ex-libris de Agrippino Grieco

O diabo de calças curtas 

Agrippino Grieco, fluminense de 1888, quase um século de bem ler e melhor escrever. Tem espalhado talento em tudo que escreve, em páginas definitivas, ou no fogo de artifício de seus inigualáveis epigramas. No fundo, não quer mal a ninguém. Continua sendo o mesmo menino da Rua Lava-Pés, o pegador de passarinhos dos campos de Paraíba do Sul. O menino que ainda agora tantos anos passados e repassados, escuta as noites sossegadas do Méier um rumor de águas antigas. É o rio de sua infância que está cantando.

(CARVALHO, José Cândido. Agrippino Grieco – O Diabo manda lembranças. In: Ninguém mata o arco-íris. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972. p. 3-8).




Divilgação cultural
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