“Ser anfitrião das belas letras.”
Com esta legenda, o presente Blog pretende abrir espaço para os talentos da literatura (com ênfase na fluminense). Tal sítio é reservado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias. Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária é o nosso papel.
Concedida ao escritor e acadêmico
Carlos Rosa Moreira, a presente entrevista do literato Affonso Romano de Sant’Anna
foi originalmente publicada no Literato – O Jornal das Letras de Niterói. Tendo cumprido seu papel de figurar
impresso naquele veículo, o texto de entrevista é gentilmente cedido por Carlos
Rosa para divulgação virtual no Literatura-Vivência.
Ler um trabalho como este não é
um excelente modo de começar a semana?!
“Tudo me inspira: sobretudo o nada” entrevista de Affonso Romano de Sant'Anna concedida a Carlos Rosa Moreira.
O mineiro Affonso Romano de Sant’Anna ensaista cronista, jornalista, professor e um dos maiores poetas da lingua portuguesa. De forma gentil, concedeu ao Literato (Jornal de Letras de Niterói) a entrevista que se segue. Nestes tempos em que tudo é “arte” desde rabiscos em muros a frases mal articuladas e berradas, seguidas por batidas ou marteladas, levantam-se a voz pausada e os persamentos cristalinos de ARS apontando caminhos em direção à verdadeira arte, jogando luz de uma crítica não agressiva, mais incisive sobre questões importantes de nossa cultura. Para mim, ouvi-lo é alimento. Apenas temo que sua voz seja das últimas, tornando-o quase um transgressor.
Carlos Rosa Moreira: Durante seis anos você dirigu a Bibiblioteca Nacional e fez, entre outros, aquele projeto admirável de criação e increment de bibliotecas por todo o Brasil.Se fosse agora, que projeto gostaria de fazer?
Affonso Romano de Sant'Anna: No livro Ler o mundo (Ed.Global) fiz uma síntese dos projetos realizados. Falar do que falta seria escrever outro livro.
CRM: De que sente falta na Literatura Nacional?
ARS: De críticos (não jornalistas, que façam reportagens). Que os cadernos culturais abram espaço para os brasileiros, que não sejamos meros importadores de best sellers estangeiros.
CRM: Pelo que se vê no atual meio cultural brasileiro, você é um transgressor?
ARS: A palavra “transgressor”, que entrou na moda, já me cansou. Já é possivel fazer um Museu da Transgressão.
CRM: É possivel ser escritor sem se export?
ARS: O escritor se expõe, queira ou não.
CRM: Qual a responsabilidade de um intelectual em seu meio?
ARS: Cada um sabe de si. Eu sou uma pessoa doente de história e do presente.
CRM: Duchamp se tivesse nascido no Brasil, faria aquele sucesso todo?
ARS: Nem pensar. Ele deu o golpe certo, percebeu que tinha que ir para os EUA terra do kitsch e da novidade
(Nota: Leiam O enigma vazio e Desconstruir Duchamp, livros nos quais ARS analisa Marcel Duchamp, o homem que influenciou a arte do sec.XX ).
CRM: Se estivesse na mesma situação do “Gil”personagem interpretado por Owen Wilson no “Meia noite em Paris”do Wood Allen, com que turma de escritores gostaria de encontrar?
ARS: Em geral, os escritores mitológicos são uma decepção na intimidade, preferia continuar a lê-los, apenas.
CRM: O que gostaria de reler, pelo prazer simples de ler?
ARS: Qualquer coisa. As leituras aleatórias são fecundantes. Dos grafitos nos muros às revistas de consultório.
CRM: Outras artes inspiram você, abrem caminho para a prosa ou a poesia?
ARS: Careço de arte como de uma vitamina imprescindível. Tudo me “ inspira”, sobretudo o “nada”.
CRM: Algum autor influenciou você?
ARS: Todos, inclusive os ruins, que indicam o caminho a não seguir.
CRM: Em que lugar gostaria de recitar uma poesia sua (se é que falta esse lugar)?
ARS: Já falei poesia em grutas, em teatro grego, na cama, no palco, na sala de aula, em igreja, bibliotecas, jardins, deserto, praia. Atualmente falo para dentro.
CRM: Que novidade gostaria de perceber em nossa cultura, Affonso?
ARS: Que a cultura fizesse parte do cardápio trivial do brasileiros.
Depois de uma passagem pelo Rio de Janeiro e de uma
temporada no Memorial da América Latina, em São Paulo, a exposição
"Guerra e Paz", de Candido Portinari, termina hoje, 20 de
maio de 2012. A
mostra, que recebeu mais de 120 mil pessoas, apresenta os painéis
"Guerra" e "Paz", que medem 14 metros de altura e 10
de largura, e cerca de 100 documentos preparatórios das obras, realizadas entre
1952 e 1956 sob encomenda do governo brasileiro.
A grandiloquência a exposição pode ser medida pela
importância da obra e de seu autor. Dimensão, esta, dada pelo texto crítico de
Israel Pedrosa (artista plástico que foi aluno de Portinari) veiculado na
presente postagem:
Sempre que se quis definir Portinari, a partir da
visão de sua obra, essa definição atingia tal abrangência que ultrapassava em
muito a caracterização, simplesmente humana, do pintor.
Foi assim quando de sua exposição no Museu de Arte
Moderna de Nova York, apresentando-o como Portinari of
Brazil,
formulação que dava-lhe o foro de pintor nacional de seu país.
No catálogo da exposição Cem
Obras Primasde Portinari,
realizada pelo Masp (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), seu
diretor Pietro Maria Bardi o qualificara como “um intérprete das misérias do
Terceiro Mundo”, tendo Antônio Bento, algum tempo depois, denominado-o
simplesmente: o pintor do Terceiro Mundo.
Ao reduzir o termo, Bento ampliava-lhe o sentido,
como que dissesse ser ele não apenas o intérprete das misérias, mas também das
lutas, alegrias e esperanças comuns a esse universo majoritário de nosso
planeta.
Hoje passadas várias décadas desses esforços de
definição, delineia-se claramente o perfil de Portinari como o de O
pintor do NovoMundo.
Epíteto que, ultrapassando o significado simplesmente geográfico, representa
sobretudo o novo mundo social e espiritual que o perene labor humano vem
construindo, como fruto de seus melhores anseios: a NovaEra
de
que Paul Klee e David Alfaro Siqueiros sonhavam ser os pioneiros. E que
realmente o foram, cada um a seu modo.
Este Novo Mundo, de
que Portinari viria a ser seu grande intérprete e magno representante, é o Novo
Mundo que
começa a emergir em meio às lutas e às aspirações, não apenas dos visionários
das regiões periféricas e dos atuais países emergentes, mas também às de toda a
humanidade progressista. Mundo de paz, de trabalho produtivo, de alegria,
felicidade e amor entre os seres humanos, e de fraterna confiança entre os
povos. Mundo que, alheio às desalentadoras especulações cerebrinas sobre o fim
da História, começa a palmilhar as sendas vislumbradas de superiores estágios
sociais da irrefreável História, nutridas pela incansável busca da
perfectibilidade da condição humana.
O Realismo do século XX
Se aplicarmos à obra de Portinari o conceito de John
Ruskin, de que para a análise da obra de arte a primeira pergunta a se fazer é:
“O que ela nos ensina?”, a resposta será o espanto. Veremos que melhor que nos
compêndios de história, de economia, de sociologia ou de política, o relato
visual de Portinari expressa os mais avançados conceitos da cultura de seu
tempo, que aponta sempre para um horizonte promissor.
Tomada em seu conjunto, como um imenso painel que
aborda todos os aspectos da alma humana e da vida social, da miséria e da
desgraça, aos anseios da bem-aventurança terrestre. O brilho do olhar de seus
miseráveis e degradados seres amoráveis tem a chama reivindicativa da
esperança. Sua obra, expressão coerente de sua generosa visão de mundo, não
decorre apenas de um “otimismo da vontade” em meio ao “pessimismo da razão”. É
expressão de uma razão combatente que, em meio à adversidade, revela os
lenitivos de uma cantata ao porvir. Então, tal como Shakespeare, Bach, Mozart
ou Goethe, em puro aporte ao conceito gramisciano, sua arte “ensina enquanto
arte, não como arte educativa”, adentrando o reino do conhecimento sensível,
tal como vislumbrara Vico. Sem desfalecimento a obra de Portinari assume
autêntica expressão do Realismo do século XX. Realismo herdeiro do mesmo clima
espiritual de Goya, Turner, Daumier, Millet e Courbet. Nutrida por hermenêutica
de toda a História da arte, a saga portinariana revela ressonâncias sensíveis
dos pré-renascentistas, dos renascentistas, dos tormentos de Grunewald, dos
arroubos expressionistas e até de insólitos ângulos cubistas. Seu Realismo,
expressão sublimada do modernismo estético do século XX, reveste-se com toda a
riqueza ancestral do vocabulário plástico universal. Contudo, não é um Realismo
sem fronteiras, como aspirava Roger Garaudy, pois nele, como
assinala o próprio Portinari, em seu poema Grunewald, há
um inequívoco norteamento humanístico:
O bem é teu, permanecerá.
Malditos eles donos do mal
Não existirão.
A universalidade de seu vocabulário plástico é ao
mesmo tempo a única forma de expressão de seu postulado estético. É com ela que
desde o início de sua saga ele revela um universo novo para a historicidade da
arte. Daí surgem as reminiscências rurais de sua infância, o cenário humilde
das nascentes metrópoles, cenas e alma da vida brasileira. A singeleza ou a
monumentalidade dessas visões estão expressas nos murais da casa de Brodósqui,
da capela da Pampulha, do Ministério da Educação, da Biblioteca do Congresso,
em Washington, e dos painéis e quadros que percorreram o território das três
Américas. Em período sombrio para a humanidade, a exposição de elementos dessa
imensa obra fez parte da “política de boa vizinhança” entre os Estados Unidos
da América do Norte e os povos da América Latina, na mobilização continental
contra o nazifacismo. Período que antecedeu a entrada do Brasil na 2ª Guerra
Mundial ao lado das potências aliadas.
A Exposição Da Galeria Charpentier
No imediato pós-guerra, quando Paris preparava-se
para reassumir sua condição de capital mundial da pintura, no outono de 1946, é
montada na Galeria Charpentier a grande exposição de Candido Portinari,
idealizada pelo historiador de arte e conservador do Museu do Louvre, Germain
Bazin, que escreveu o prefácio do catálogo da mostra.
Nele o crítico francês afirma que, sozinho e no
outro lado do mundo, o pintor de Brodósqui tomara espontaneamente essa posição
social, cuja inquietude começava então a surgir na França. Acrescentando que
confrontavam-se em sua obra todas as forças de expressão. Agia como se tivesse
de inventar por conta própria a pintura, abordando todas as técnicas e todas as
harmonias. Ao lado de telas cheias de ternura, havia outras de um
expressionismo pungente, cuja violência sem medida talvez causasse surpresa aos
parisienses, habituados a verem respeitados, mesmo nas maiores audácias, os
cânones elaborados por 30 anos de especulações plásticas obedientes ao bom-tom.
Essa violência soprava como um vento impetuoso,
vindo de seu próprio país. Terra dominadora dos trópicos, cuja força, no espaço
de uma geração, assimilava os brasileiro, à véspera da inauguração, Paris
apareceu coberta de cartazes anunciando a exposição de Portinari na Galeria
Charpentier. O êxito da mostra foi registrado em inúmeros noticiários e em mais
de 50 artigos de crítica e assistido por numeroso público: “comparecimento em
massa, verdadeira multidão”. Através da cadeia nacional da radiodifusão
francesa, o poeta Louis Aragon, um dos criadores do surrealismo, ressaltou a
expressão profunda, exata, humana e surpreendente de um artista estrangeiro
como Portinari, que em cuja obra se sentia representada sua nação... No mesmo
período da mostra de Portinari, realizaram-se em Paris o Salão de Outono e a
exposição de Kandinsky, dando início ao revigoramento da abstração pictórica.
A origem desse revigoramento
encontrava-se do outro lado do Atlântico, no êxito da distante exposição de
1913, no Armory Show, de Nova York. Evento catalisador de
público e prestígio para as vanguardas artísticas e para todo o movimento
modernista europeu, criando em meio aos artistas, à intelectualidade e à alta
burguesia norte-americana o decisivo apoio para o triunfo e a expansão
planetária dessas correntes artísticas que caracterizaram a cultura e as artes
do último século.
No curso da segunda metade desse citado século,
verifica-se a morte das denominadas vanguardas artísticas, dando início ao ciclo
de culto aos grandes artistas revelados por elas.
O fim das denominadas vanguardas artísticasestá ligado ao declínio do poder dospólos estéticos hegemônicos das grandespotências ocidentais.Em
decorrência do vigoroso surto de renovaçãocultural
que vinha se desenvolvendodesde o século XIX
e início do século XX nasantigas regiões
periféricas, caracterizadasagora como
universo emergente, juntando-se ao que de melhor produziram algunsartistas dos países desenvolvidos, surgemno decorrer do século passado excepcionaisexemplares de uma arte que abre caminho anovos estágios de fruição estética, apontandopara um almejado e inigualável mundo novo. Falamos
de uma cosmovisão alicerçada pelas sonoridades díspares de Aran Katchaturian,
Samuel Barber e Heitor Villa-Lobos; pela dramaturgia de Bertold Brecht; pelas
espantosas visões literárias de Mikhail Cholokhov, de Theodore Dreiser, Guimarães
Rosa e Gabriel García Márquez; pela poesia de Nazim Hikmet, Paul Valéry, Pablo
Neruda e Carlos Drummond de Andrade; pelos relampejares sísmicos de Serguei
Eisenstein, Akira Kurosawa, Frederico Fellini e Glauber Rocha; pela imagística
de Paul Klee, David Alfaro Siqueiros e Candido Portinari.
Os painéis Guerra e Paz
Para Portinari, os últimos anos da década de 1940 e
os primeiros da seguinte são marcados pela realização de seus grandes painéis
móveis: A
Primeira Missa no Brasil (1948), Tiradentes (1949),
Chegada
deD.
João VI ao Brasil (1952) e Guerra e Paz
(1952-1956).
Em 1952, atendendo a convite do Itamaraty, Portinari
inicia a realização das maquetes dos dois imensos painéis (14 x 10m cada) para
a decoração do edifício sede da ONU, em Nova York, projetado por Le Corbusier, e em cuja
elaboração trabalhara Oscar Niemeyer. Os temas escolhidos para os painéis foram
a Guerra
e a Paz –
síntese das preocupações e objetivos primordiais dos trabalhos das Nações
Unidas.
Decorridos quatro anos de árduo trabalho, no dia 5
de janeiro de 1956 os imensos painéis foram entregues ao Ministério das
Relações Exteriores. Durante o período de sua realização, a imprensa do país e
do exterior acompanhou com interesse o trabalho do artista. Ao ser anunciado o
seu término, desencadeou-se imenso movimento de opinião pública liderado por
eminentes intelectuais, artistas e organizações culturais e até por sindicatos
operários desejando a exposição dos painéis no Brasil, antes de seu envio para
Nova York.
Atendendo a este clamor geral, o Itamaraty organizou
a mostra dos painéis Guerra ePaz, no
Theatro Municipal do Rio de Janeiro, transformando-o no mais amplo salão de
exposição visto no Brasil até então, e no templo reverencial de um momento
específico de nossa contribuição à historicidade artística da humanidade.
No dia 27 de fevereiro de 1956, nas presenças do
presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, e altas autoridades,
de representantes políticos de todas as tendências, de intelectuais, artistas e
de eufórica multidão em clima de júbilo nacional, foi inaugurada a
extraordinária mostra.
Pouco mais de um ano depois, ante o secretário-geral
das Nações Unidas, Dag Hammarskjold, e representantes do Brasil, o embaixador
Cyro de Freitas-Valle e o ministro Jayme de Barros, em setembro de 1957, foram
inaugurados no edifício sede da ONU, em Nova York, os painéis Guerra
e Paz,
de Candido Portinari.
Considerações Gerais
Em 2007, marcando o cinquentenário da inauguração
dos painéis, o Projeto Portinari publicou o livro comemorativo da efeméride: Guerra
e Paz – Portinari. Nele, eu afirmara que os dois painéis constituíam
[...] um discurso visual uno em
sua complexa
complementaridade sobre os
extremos
da desgraça e da
bem-aventurança,
na trágica e comovedora visão
pintada por
Portinari.
Nas páginas da história da
arte, em que
surgem incontáveis guerras
datadas
e localizadas, como as de
Tróia, e do
Peloponeso pintadas por
Eufrônio, as
Batalhas de San Romano e
Anghiari, de
Paolo
Uccello e de Da Vinci, ou Guernica,
de Picasso, todas são narradas
por cenas
que as identificam, localizam e
datam.
Com os recursos próprios
ligados ao
tempo da pintura, cada uma
delas participando
da variada gama de conceitos
que vai do heroísmo à dor e ao
desespero
ou defendendo um solo, uma idéia
ou
uma causa que as
particularizam. A abordagem
de Portinari é outra. Não
identifica
guerra alguma, como se
afirmasse
que em essência todas se
equivalem no
desencadeamento de horror e
animalidade.
Nenhuma arma identificável, em
Portinari; a cavalgada apocalíptica
que
corta a cena em todas as
direções com
seu cortejo de conquista,
guerra, fome e
morte, não traz as cores
bíblicas do fogo
e do sangue, nem o preto, o
branco ou o
amarelo. É o azul que domina.
Uma trágica
e dorida sinfonia em azul,
passando
por toda sua escala. Os tons
escuros,
soturnos, ricos em variadas e
profundas
nuanças violáceas, desenham as
cenas
sobre fundo de claros azuis de
reflexos
verdátreos, tendentes aos leves
citrinos.
Contrastando com esse universo
azulado,
valorizando-o cromaticamente,
em contraponto
tonal, o cavalo manchetado de
carmim, a carnação de rostos,
braços e
pés saindo das vestes escuras
surgem em
vibrantes alaranjados que vão
das sombras
trevosas violáceas, aos quase
vermelhos
e rosas de intensa crepitação
luminosa.
Nesse clima de violentos
contrastes, de
soturna féerie,
o tropel ininterrupto liberta
as feras que aterrorizam o
mundo.
Estamos diante de um cataclismo
aterrador
em que os tempos remotos
confundem-se
com a origem dos tempos. Se
o terror
nos traz à memória reminiscências
de
anátemas de Luca Signorelli e
de Dürer, a
concepção, inventiva e fatura
nos trazem
de volta à realidade de uma
modernidade
intemporal.
Realçado por clara luz, um
eremita desnudo,
de pé em penitência, cobre os
olhos
com as mãos, em prece e
lamento. Figuras
em grupo compacto, genuflexo,
braços
levantados com as mãos
espalmadas e
rostos voltados para o céu,
nesse cenário
de morte deixam transparecer
uma aragem
de força e vida, de condenação
à própria
existência da guerra.
No painel Paz,
tal como acontece em seu par:
[...] são múltiplas as
reminiscências de
obras anteriores de Portinari,
como também
são vários os vestígios desses
trabalhos
em quadros posteriores do
Mestre.
O que significa dizer serem
eles elos coerentes
de uma imensa produção
pictórica
da mais alta representatividade
do poder
criador do século XX [...]. O
que emana
desse painel, nos enleva e
encanta, mais
que a idéia de paz e da paz, é
a própria
paz que nos invade ao
contemplá-lo. É a
sensação de penetrarmos num
universo
sereno, de comunhão fraterna no
trabalho
produtivo, num reino mágico de
cores reluzentes,
do som da ciranda de jovens num
canto universal de fraternidade
e confiança,
ou da candura dos folguedos
infantis. Com
todos esses tons dourados,
alegres, crepitantes
de vida, o pintor parece nos
dizer:
A paz universal é possível. Dia
virá em que
a humanidade desfrutará a paz
sem limites
no espaço e no tempo.
O livro Guerra e Paz – Portinari foi
publicado em dois volumes, com idêntica programação gráfica, em português e inglês.
War
andPeace
– Portinari foi oferecido pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Sr. Ban-Ki-Moon,
momentos antes do pronunciamento do presidente da República do Brasil, abrindo
a 62ª Assembleia-Geral da ONU.
A exposição dos painéis Guerra
e
Paz
no
Theatro Municipal do Riode
Janeiro
A realização da exposição dos painéis Guerra
e
Paz
de
Portinari no Theatro Municipal do Rio de Janeiro insere-se no clima de
crescente presença internacional do Brasil, não apenas na área econômica, mas
sobretudo no reconhecimento de nossos valores sociais em progressão, valores
intelectuais, morais e espirituais expressos em nosso amor à paz, à tolerância
no trato dos contrários, e nosso apego à arte, vivificado em todas as
manifestações do espírito nacional. A inimaginável, até então, vinda ao Brasil
dos monumentais painéis Guerra e Paz
de
Candido Portinari que ornamentam o saguão principal do edifício sede da ONU, em Nova York, só foi
possível graças a uma conjugação de fatores, destacando-se dentre eles:
Primeiro, a deliberação da grande
reforma do edifício sede da ONU, no período de 2010 a 2013. Período em que
as obras de Portinari teriam que ser removidas e abrigadas em outro local.
Segundo, a existência da modelar
organização do Projeto Portinari que idealizou e gerenciou, posteriormente,
toda a operação e motivou o governo brasileiro a solicitar e dar garantias à
ONU para o empréstimo dos painéis Guerra e Paz
a
serem expostos e restaurados no Brasil.
Terceiro, a existência nos mais
altos escalões da República, na Presidência, na Vice-presidência, no Ministério
das Relações Exteriores, no Ministério da Cultura e no BNDES de autoridades
sensíveis aos poderes e imperativos da Arte como manifestação insubstituível do
patrimônio intelectual, moral e psíquico da nação brasileira.
Parafraseando formulação que se tornara frequente
nos últimos tempos, podemos dizer que nunca na história desse país um governo
prestigiou tanto a cultura nacional, como o faz agora, com grande repercussão
internacional, em relação à obra de Candido Portinari.
O exemplo maior desta prestigiação está expresso na
parte final da histórica fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na
abertura da 62ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em que ele diz:
Senhoras e senhores, ao entrar
neste prédio,
os delegados podem ver uma obra
de arte presenteada pelo Brasil
às Nações
Unidas há 50 anos. Trata-se dos
murais
Guerra e Paz, pintados pelo
grande artista
brasileiro, Candido Portinari.
O sofrimento expresso no mural
que retrata
a guerra nos remete à alta
responsabilidade
das Nações Unidas de afastar o
risco de
conflitos armados.
O segundo mural revela que a
paz vai muito
além da ausência da guerra.
Pressupõe
bem-estar, saúde e um convívio
harmonioso
com a natureza. Pressupõe
justiça
social, liberdade e superação
dos flagelos
da fome e da pobreza.
Não é por acaso que o mural
Guerra está
colocado de frente para quem
chega, e o
mural Paz, para quem sai. A
mensagem do
artista é singela, mas
poderosa: transformar
aflições em esperança, guerra
em paz,
é a essência da missão das
Nações Unidas.
O Brasil continuará a trabalhar
para que
esta expectativa tão elevada se
torne definitivamente
realidade.
Muito obrigado.
Em meio a numeroso público em clima de júbilo nacional,
com a presença do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, representando
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do professor Luciano Coutinho,
presidente do BNDES, do diretor do Projeto Portinari, João Candido Portinari,
de autoridades federais, estaduais e municipais, na noite de 21 de dezembro de
2010, foi inaugurada a exposição dos monumentais painéis Guerra
e
Paz, de
Candido Portinari, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Vista proporcional do painel Paz
Apoteose da Paz
Por imensuráveis que sejam as distâncias e o número
de estrelas e de seus incontáveis planetas e satélites pelas infinitas galáxias
na imensidão cósmica, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na noite mágica da
inauguração da exposição dos painéis Guerra e Paz
de
Portinari, trazidos por empréstimo temporário da sede da ONU, NY,
transformara-se no epicentro artístico do universo. Impossível pensar que
naquele momento, em qualquer outro corpo celeste, a arte e tudo o que possa
haver de superior e sublime no universo estivessem sendo celebradas com tal
efusão apaixonante. Se seres de inteligência igual ou superior à existente aqui
existissem ou existirem em tais espaços siderais, por certo, reverenciariam o
magno espetáculo montado por uma obstinação filial apoiada por um presidente
operário, que se fez representar por eminente chanceler em meio a uma plateia
eufórica, interpretando em seu justo valor nossa mais vigorosa mensagem
artística, transformando-a em símbolo de uma cantata universal de paz.
A alegria reinante em todos os semblantes da
multidão que lotava o teatro, e que durante todo o período da exposição
envolveu o edifício com intermináveis filas, deixa transparecer o justificado
orgulho do reencontro de cada um e de todos com sua parcela da verdadeira alma
nacional e com os elementos precursores de seus almejados destinos
compartilhados na construção de um reino de perene paz e felicidade. Nem todos
tinham a mesma clareza sobre a extraordinária excepcionalidade do momento que
estavam vivendo, mas todos vislumbravam o privilégio que teriam pelo tempo
afora de poder afirmar: “Eu estive lá!” Seguramente, a memória nacional
guardará para sempre a lembrança do espetáculo de interação de todas as artes
no palco do maior teatro da “cidade maravilhosa”. Precedendo o desfile da
multidão diante da magistral obra de um dos maiores pintores de todos os
tempos, desenrolava-se o documentário de Carla Camurati, seguido pela dança de
Ana Botafogo e Alex Neoral, coreografada por David Parsons; o canto de Milton
Nascimento, a sonoridade de Villa-Lobos trazida pela Orquestra Sinfônica
Brasileira Jovem. Magnífico e bendito planeta este, em que a luminosidade
impera, e que em suas entranhas a matéria em seu mais elevado estágio de
perfectividade produz sonho, ideal e beleza, em que, mesmo entre suas diatribes
intestinas e dolorosas etapas do parto do alvorecer de um Novo Mundo, fascinou
o primeiro terráqueo a contemplá-lo do cosmo, arrancando-lhe a indelével
exclamação: “A terra é azul!” Tão azul como o descrito por Drummond no poema
declamado por Fernanda Montenegro naquela noite majestosa, diante dos painéis Guerra
e
Paz:
“e nada mais resiste à mão
pintora [...]
a mão-de-olhos-azuis
de Candido Portinari.”
(PEDROSA, Israel. O Pintor do
Novo Mundo. In: Revista Direitos Humanos.
São Paulo: Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República do
Brasil, 2012. p.14-20).
Antes mesmo de meus olhos se tornarem gulosos,
as coxas de Hermínia já me fascinavam. Naquele tempo, Hermínia metia-se num
maiô inteiro e caminhava com suas coxas em direção ao mar. Conhecedor de seus
horários, sempre me antecipava. Ao chegarem à praia, lá estava eu a
espreitá-las. Quando Hermínia se desvencilhava da toalha que trazia amarrada à
cintura e as coxas se mostravam, meus olhos ficavam febris.
Pouca diferença existiu, pelo menos
para mim, no dia em que Hermínia adotou o duas-peças. Dela interessavam-me as
coxas.
Maldito seja o inventor do trabalho.
Roubou-me as coxas de Hermínia em dias de semana. Além da agonia da espera, o
tormento da incerteza. E se no sábado o tempo nublasse? E se chovesse no
domingo?
Dias antes do seu casamento, descobri
um fiozinho azul numa das coxas de Hermínia, mas nem liguei. Morri foi de
inveja do noivo, estirado na brancura das areias, a cabeça recostada bem
pertinho do filete azulado.
Consumado o casório, as coxas de
Hermínia mudaram-se para longe de minhas vistas. Anos depois, na piscina do
clube, ressurgiram: divorciadas, com mais alguns fiozinhos azuis e umas gordurinhas
aqui e ali. Sempre aos domingos, as maduras coxas de Hermínia estiveram, por
algum tempo, ao alcance do meu olhar.
Ontem pela madrugada, enquanto todos
cochilavam, afastei as flores e levantei o vestido de Hermínia. No silêncio da
capela, meus olhos viúvos se despediram de suas coxas arroxeadas.
(NETTO, Wanderlino Teixeira Leite. As coxas de Hermínia. In: Retrato sem moldura. Niterói: Clube de Literatura Cromos, 1999).
Há cem anos, nasciam no Brasil vários nomes que ajudaram a construir a história cultural de nosso país. Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Evandro Lins e Silva, Luiz Gonzaga e Herivelto Martins estão entre eles. Assim como Luís Antônio Pimentel, jornalista, poeta e exímio haicaísta que completou, em 29 de março, o centenário de uma vida dedicada à cultura. Memória viva de Niterói, onde mora, e do país, ele encanta com a fala, assim como com a escrita. Para homenageá-lo, a Universidade Federal Fluminense, através de sua editora, escolheu-o como inspiração para o 6º Prêmio UFF de Literatura. As inscrições estão abertas e o tema proposto é: “O contador de histórias”. O autor classificado em primeiro lugar em cada categoria - conto, crônica e poesia - ganhará um notebook, além do Troféu Itapuca.
Antologia e festa – O edital já está disponível no site da editora (www.editora.uff.br/editais) com inscrições até 15 de agosto. Os vencedores do 6º Prêmio UFF de Literatura serão anunciados no dia 17 de dezembro, durante cerimônia na qual também será lançada uma antologia com 20 textos selecionados, nas categorias crônica, conto e poesia, organizada pela Editora da UFF, com o patrocínio da Fundação Euclides da Cunha, da Pró-Reitoria de Extensão da UFF e da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro. Os classificados em primeiro lugar em cada gênero literário receberão 10 (dez) exemplares da coletânea; os segundos colocados, 8 (oito); os terceiros, 5 (cinco). Os demais autores selecionados receberão 3 (três) exemplares, cada.
Podem participar do Prêmio UFF de Literatura escritores de língua portuguesa, editados ou inéditos, independentemente de sua nacionalidade. No entanto, o texto apresentado deverá ser rigorosamente inédito, seja na forma impressa ou na forma eletrônica. Não serão aceitas obras póstumas, nem aquelas assinadas por grupos. Cada concorrente poderá inscrever apenas um texto em cada categoria. O conto a ser enviado não pode ultrapassar quatro páginas, enquanto as crônicas e poesias deverão atingir, no máximo, três páginas.
Feliz é a instituição que tem a
força de gerar comunidade em torno de si (Schiller chega a atestar que esta é a
maior prova de viço que um empreendimento poderia dar).
No texto de hoje, o jornalista e historiador
Emmanuel Macedo Soares provoca a comunidade da Academia Niteroiense de Letras com um dado histórico: enquanto todos se mobilizam para
comemorar, no ano de 2013, os 70 anos de existência institucional da ANL, Emmanuel argumenta que a Academia já
passou dessa idade faz tempo.
Tal provocação nos faz lembrar a
afirmativa do jornalista e escritor Alan Riding segundo a qual: “A história é explosiva”. Sim, uma "pró-vocação",
um chamado às falas, afinal, qual seria o melhor modo de celebrar uma instituição
de cultura e pensamento senão pensando-a? Consideremos aberta a temporada de debates:
Li em algum lugar que a Academia
Niteroiense de Letras já começou a estocar foguetes para comemorar seus 70 anos
em 11 de junho de 2013. Coisa que nunca entendi, e até hoje não houve quem me
explicasse, é esse empenho da Academia em enganar sua idade, quando é fato
sabido e comprovado que ela foi fundada em 1931 e instalada a 28 de maio desse
ano na Faculdade de Direito, com toda pompa e circunstância. Dizem que essa
fundação não valeu, porque a Academia nunca funcionou. Mas funcionou, sim. Elegeu
25 acadêmicos e o interventor federal Ari Parreiras até prestigiou a posse
solene da primeira diretoria efetiva, em 22 de dezembro de 1931, com Raul de
Oliveira Rodrigues confirmado na presidência. Dos fundadores de 1931, muitos
voltaram para a refundação de 1943. Mas pelo menos dois tiveram cassada a
láurea acadêmica: Edésio Barbosa da Silva e Honório Peçanha. Cassados duas
vezes, aliás, porque ambos viviam e gozavam de excelente saúde em 1973, quando
a Academia ressurgiu de novo das cinzas. A exclusão de Honório até se pode explicar,
o que não significa entender: era considerado comunista e a 2ª Academia nasceu
do ventre da ditadura do Estado Novo, quando os comunistas não gozavam de
nenhum prestígio, muito pelo contrário. Foi novamente cassado pela 3ª Academia
de 1973, e pelo mesmíssimo motivo, estávamos entrando nos tristes Anos de Chumbo de outra triste ditadura.
Mas o doutor Edésio! O que fez este pacífico homem, mergulhado em suas
pesquisas da história de Porciúncula para merecer a cassação? Bom... voltando
às datas. A Academia de 1931 adormeceu logo no ano seguinte, é verdade. Mas a
de 1943 também adormeceu, desde 1955, quando o bom e insubstituível Horácio
Pacheco transferiu a presidência a monsenhor Uchoa. Com alguma benevolência
consideremos como atividade o fato de
ter assinado em 1959 o manifesto de lançamento do Movimento Cultural Fluminense,
bela ideia de dois Pimentéis: o Paulo
César, que já se foi, e o Luís Antônio, que para o bem do povo e felicidade
geral da nação continua entre nós. Depois disso, a Academia só dá sinais de
vida em agosto de 1973, quando passa de fato a existir, depois da desastrada
reforma que fez dela uma espécie de Academia Nítero-Cantagalense de Letras.
Digo isso porque entre outras ilustres sumidades injetou como patronos os
cantagalenses Silva Santos, José Carlos Rodrigues, Euclides da Cunha (vá lá),
que nunca ouviram falar em praça Araribóia. E até Américo de Castro, que
nasceu em Cantagalo mas foi trocar a primeira fralda na Espanha, enquanto
niteroienses como Felisberto de Carvalho ou Adelino Magalhães ficaram no maruí
do esquecimento. Pecadilho menor, que não vem ao caso. O que realmente incomoda
é essa discrepância de datas de fundação, que um dia há de ser corrigida. Que
as belas e vaidosas mulheres enganem a idade, é até charmoso. Mas não se admite
que uma sociedade dita cultural vire as costas com tanta sem-cerimônia para a
história. No caso, sua própria história.
Este retardatário gosto de
pureza, que me vem à boca do fundo coração, não sei se é tédio ou o sinal
de alvoradas renascentes.
Na areia branca onde a onda tenta
apagar vestígios de pés e levar todas as conchas, me deixo à espera de
outra vagas carregadas de conchas ou de passos que tatuem novas marcas na
epiderme do coração.
Pobre coração marinheiro, tão marcado, de que
canto obscuro desenterras imprevistamente esta harpa cheia de algas e de sons
submersos?
(JORGE, J. G. de Araújo. Harpa submersa. In: Harpa Submersa. São Paulo, 1952)