domingo, 20 de maio de 2012

Portinari, o "Pintor do Novo Mundo" em texto de Israel Pedrosa


Depois de uma passagem pelo Rio de Janeiro e de uma temporada no Memorial da América Latina, em São Paulo, a exposição "Guerra e Paz", de Candido Portinari, termina hoje, 20 de maio de 2012. A mostra, que recebeu mais de 120 mil pessoas, apresenta os painéis "Guerra" e "Paz", que medem 14 metros de altura e 10 de largura, e cerca de 100 documentos preparatórios das obras, realizadas entre 1952 e 1956 sob encomenda do governo brasileiro.
A grandiloquência a exposição pode ser medida pela importância da obra e de seu autor. Dimensão, esta, dada pelo texto crítico de Israel Pedrosa (artista plástico que foi aluno de Portinari) veiculado na presente postagem:




O Pintor do Novo Mundo

Sempre que se quis definir Portinari, a partir da visão de sua obra, essa definição atingia tal abrangência que ultrapassava em muito a caracterização, simplesmente humana, do pintor.
Foi assim quando de sua exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York, apresentando-o como Portinari of Brazil, formulação que dava-lhe o foro de pintor nacional de seu país.
No catálogo da exposição Cem Obras Primas de Portinari, realizada pelo Masp (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), seu diretor Pietro Maria Bardi o qualificara como “um intérprete das misérias do Terceiro Mundo”, tendo Antônio Bento, algum tempo depois, denominado-o simplesmente: o pintor do Terceiro Mundo.
Ao reduzir o termo, Bento ampliava-lhe o sentido, como que dissesse ser ele não apenas o intérprete das misérias, mas também das lutas, alegrias e esperanças comuns a esse universo majoritário de nosso planeta.
Hoje passadas várias décadas desses esforços de definição, delineia-se claramente o perfil de Portinari como o de O pintor do Novo Mundo. Epíteto que, ultrapassando o significado simplesmente geográfico, representa sobretudo o novo mundo social e espiritual que o perene labor humano vem construindo, como fruto de seus melhores anseios: a Nova Era de que Paul Klee e David Alfaro Siqueiros sonhavam ser os pioneiros. E que realmente o foram, cada um a seu modo.
Este Novo Mundo, de que Portinari viria a ser seu grande intérprete e magno representante, é o Novo Mundo que começa a emergir em meio às lutas e às aspirações, não apenas dos visionários das regiões periféricas e dos atuais países emergentes, mas também às de toda a humanidade progressista. Mundo de paz, de trabalho produtivo, de alegria, felicidade e amor entre os seres humanos, e de fraterna confiança entre os povos. Mundo que, alheio às desalentadoras especulações cerebrinas sobre o fim da História, começa a palmilhar as sendas vislumbradas de superiores estágios sociais da irrefreável História, nutridas pela incansável busca da perfectibilidade da condição humana.




O Realismo do século XX

 Se aplicarmos à obra de Portinari o conceito de John Ruskin, de que para a análise da obra de arte a primeira pergunta a se fazer é: “O que ela nos ensina?”, a resposta será o espanto. Veremos que melhor que nos compêndios de história, de economia, de sociologia ou de política, o relato visual de Portinari expressa os mais avançados conceitos da cultura de seu tempo, que aponta sempre para um horizonte promissor.
Tomada em seu conjunto, como um imenso painel que aborda todos os aspectos da alma humana e da vida social, da miséria e da desgraça, aos anseios da bem-aventurança terrestre. O brilho do olhar de seus miseráveis e degradados seres amoráveis tem a chama reivindicativa da esperança. Sua obra, expressão coerente de sua generosa visão de mundo, não decorre apenas de um “otimismo da vontade” em meio ao “pessimismo da razão”. É expressão de uma razão combatente que, em meio à adversidade, revela os lenitivos de uma cantata ao porvir. Então, tal como Shakespeare, Bach, Mozart ou Goethe, em puro aporte ao conceito gramisciano, sua arte “ensina enquanto arte, não como arte educativa”, adentrando o reino do conhecimento sensível, tal como vislumbrara Vico. Sem desfalecimento a obra de Portinari assume autêntica expressão do Realismo do século XX. Realismo herdeiro do mesmo clima espiritual de Goya, Turner, Daumier, Millet e Courbet. Nutrida por hermenêutica de toda a História da arte, a saga portinariana revela ressonâncias sensíveis dos pré-renascentistas, dos renascentistas, dos tormentos de Grunewald, dos arroubos expressionistas e até de insólitos ângulos cubistas. Seu Realismo, expressão sublimada do modernismo estético do século XX, reveste-se com toda a riqueza ancestral do vocabulário plástico universal. Contudo, não é um Realismo sem fronteiras, como aspirava Roger Garaudy, pois nele, como assinala o próprio Portinari, em seu poema Grunewald, há um inequívoco norteamento humanístico:

O bem é teu, permanecerá.
Malditos eles donos do mal
Não existirão.

A universalidade de seu vocabulário plástico é ao mesmo tempo a única forma de expressão de seu postulado estético. É com ela que desde o início de sua saga ele revela um universo novo para a historicidade da arte. Daí surgem as reminiscências rurais de sua infância, o cenário humilde das nascentes metrópoles, cenas e alma da vida brasileira. A singeleza ou a monumentalidade dessas visões estão expressas nos murais da casa de Brodósqui, da capela da Pampulha, do Ministério da Educação, da Biblioteca do Congresso, em Washington, e dos painéis e quadros que percorreram o território das três Américas. Em período sombrio para a humanidade, a exposição de elementos dessa imensa obra fez parte da “política de boa vizinhança” entre os Estados Unidos da América do Norte e os povos da América Latina, na mobilização continental contra o nazifacismo. Período que antecedeu a entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial ao lado das potências aliadas.




A Exposição Da Galeria Charpentier

No imediato pós-guerra, quando Paris preparava-se para reassumir sua condição de capital mundial da pintura, no outono de 1946, é montada na Galeria Charpentier a grande exposição de Candido Portinari, idealizada pelo historiador de arte e conservador do Museu do Louvre, Germain Bazin, que escreveu o prefácio do catálogo da mostra.
Nele o crítico francês afirma que, sozinho e no outro lado do mundo, o pintor de Brodósqui tomara espontaneamente essa posição social, cuja inquietude começava então a surgir na França. Acrescentando que confrontavam-se em sua obra todas as forças de expressão. Agia como se tivesse de inventar por conta própria a pintura, abordando todas as técnicas e todas as harmonias. Ao lado de telas cheias de ternura, havia outras de um expressionismo pungente, cuja violência sem medida talvez causasse surpresa aos parisienses, habituados a verem respeitados, mesmo nas maiores audácias, os cânones elaborados por 30 anos de especulações plásticas obedientes ao bom-tom.
Essa violência soprava como um vento impetuoso, vindo de seu próprio país. Terra dominadora dos trópicos, cuja força, no espaço de uma geração, assimilava os brasileiro, à véspera da inauguração, Paris apareceu coberta de cartazes anunciando a exposição de Portinari na Galeria Charpentier. O êxito da mostra foi registrado em inúmeros noticiários e em mais de 50 artigos de crítica e assistido por numeroso público: “comparecimento em massa, verdadeira multidão”. Através da cadeia nacional da radiodifusão francesa, o poeta Louis Aragon, um dos criadores do surrealismo, ressaltou a expressão profunda, exata, humana e surpreendente de um artista estrangeiro como Portinari, que em cuja obra se sentia representada sua nação... No mesmo período da mostra de Portinari, realizaram-se em Paris o Salão de Outono e a exposição de Kandinsky, dando início ao revigoramento da abstração pictórica.

A origem desse revigoramento encontrava-se do outro lado do Atlântico, no êxito da distante exposição de 1913, no Armory Show, de Nova York. Evento catalisador de público e prestígio para as vanguardas artísticas e para todo o movimento modernista europeu, criando em meio aos artistas, à intelectualidade e à alta burguesia norte-americana o decisivo apoio para o triunfo e a expansão planetária dessas correntes artísticas que caracterizaram a cultura e as artes do último século.
No curso da segunda metade desse citado século, verifica-se a morte das denominadas vanguardas artísticas, dando início ao ciclo de culto aos grandes artistas revelados por elas.

O fim das denominadas vanguardas artísticas está ligado ao declínio do poder dos pólos estéticos hegemônicos das grandes potências ocidentais. Em decorrência do vigoroso surto de renovação cultural que vinha se desenvolvendo desde o século XIX e início do século XX nas antigas regiões periféricas, caracterizadas agora como universo emergente, juntando-se ao que de melhor produziram alguns artistas dos países desenvolvidos, surgem no decorrer do século passado excepcionais exemplares de uma arte que abre caminho a novos estágios de fruição estética, apontando para um almejado e inigualável mundo novo. Falamos de uma cosmovisão alicerçada pelas sonoridades díspares de Aran Katchaturian, Samuel Barber e Heitor Villa-Lobos; pela dramaturgia de Bertold Brecht; pelas espantosas visões literárias de Mikhail Cholokhov, de Theodore Dreiser, Guimarães Rosa e Gabriel García Márquez; pela poesia de Nazim Hikmet, Paul Valéry, Pablo Neruda e Carlos Drummond de Andrade; pelos relampejares sísmicos de Serguei Eisenstein, Akira Kurosawa, Frederico Fellini e Glauber Rocha; pela imagística de Paul Klee, David Alfaro Siqueiros e Candido Portinari.




Os painéis Guerra e Paz

Para Portinari, os últimos anos da década de 1940 e os primeiros da seguinte são marcados pela realização de seus grandes painéis móveis: A Primeira Missa no Brasil (1948), Tiradentes (1949), Chegada de D. João VI ao Brasil (1952) e Guerra e Paz (1952-1956).
Em 1952, atendendo a convite do Itamaraty, Portinari inicia a realização das maquetes dos dois imensos painéis (14 x 10m cada) para a decoração do edifício sede da ONU, em Nova York, projetado por Le Corbusier, e em cuja elaboração trabalhara Oscar Niemeyer. Os temas escolhidos para os painéis foram a Guerra e a Paz – síntese das preocupações e objetivos primordiais dos trabalhos das Nações Unidas.
Decorridos quatro anos de árduo trabalho, no dia 5 de janeiro de 1956 os imensos painéis foram entregues ao Ministério das Relações Exteriores. Durante o período de sua realização, a imprensa do país e do exterior acompanhou com interesse o trabalho do artista. Ao ser anunciado o seu término, desencadeou-se imenso movimento de opinião pública liderado por eminentes intelectuais, artistas e organizações culturais e até por sindicatos operários desejando a exposição dos painéis no Brasil, antes de seu envio para Nova York.
Atendendo a este clamor geral, o Itamaraty organizou a mostra dos painéis Guerra e Paz, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, transformando-o no mais amplo salão de exposição visto no Brasil até então, e no templo reverencial de um momento específico de nossa contribuição à historicidade artística da humanidade.
No dia 27 de fevereiro de 1956, nas presenças do presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, e altas autoridades, de representantes políticos de todas as tendências, de intelectuais, artistas e de eufórica multidão em clima de júbilo nacional, foi inaugurada a extraordinária mostra.
Pouco mais de um ano depois, ante o secretário-geral das Nações Unidas, Dag Hammarskjold, e representantes do Brasil, o embaixador Cyro de Freitas-Valle e o ministro Jayme de Barros, em setembro de 1957, foram inaugurados no edifício sede da ONU, em Nova York, os painéis Guerra e Paz, de Candido Portinari.


Considerações Gerais

Em 2007, marcando o cinquentenário da inauguração dos painéis, o Projeto Portinari publicou o livro comemorativo da efeméride: Guerra e Paz – Portinari. Nele, eu afirmara que os dois painéis constituíam


[...] um discurso visual uno em sua complexa
complementaridade sobre os extremos
da desgraça e da bem-aventurança,
na trágica e comovedora visão pintada por
Portinari.
Nas páginas da história da arte, em que
surgem incontáveis guerras datadas
e localizadas, como as de Tróia, e do
Peloponeso pintadas por Eufrônio, as
Batalhas de San Romano e Anghiari, de
Paolo Uccello e de Da Vinci, ou Guernica,
de Picasso, todas são narradas por cenas
que as identificam, localizam e datam.
Com os recursos próprios ligados ao
tempo da pintura, cada uma delas participando
da variada gama de conceitos
que vai do heroísmo à dor e ao desespero
ou defendendo um solo, uma idéia ou
uma causa que as particularizam. A abordagem
de Portinari é outra. Não identifica
guerra alguma, como se afirmasse
que em essência todas se equivalem no
desencadeamento de horror e animalidade.
Nenhuma arma identificável, em
Portinari; a cavalgada apocalíptica que
corta a cena em todas as direções com
seu cortejo de conquista, guerra, fome e
morte, não traz as cores bíblicas do fogo
e do sangue, nem o preto, o branco ou o
amarelo. É o azul que domina. Uma trágica
e dorida sinfonia em azul, passando
por toda sua escala. Os tons escuros,
soturnos, ricos em variadas e profundas
nuanças violáceas, desenham as cenas
sobre fundo de claros azuis de reflexos
verdátreos, tendentes aos leves citrinos.
Contrastando com esse universo azulado,
valorizando-o cromaticamente, em contraponto
tonal, o cavalo manchetado de
carmim, a carnação de rostos, braços e
pés saindo das vestes escuras surgem em
vibrantes alaranjados que vão das sombras
trevosas violáceas, aos quase vermelhos
e rosas de intensa crepitação luminosa.
Nesse clima de violentos contrastes, de
soturna féerie, o tropel ininterrupto liberta
as feras que aterrorizam o mundo.
Estamos diante de um cataclismo aterrador
em que os tempos remotos confundem-se
com a origem dos tempos. Se o terror
nos traz à memória reminiscências de
anátemas de Luca Signorelli e de Dürer, a
concepção, inventiva e fatura nos trazem
de volta à realidade de uma modernidade
intemporal.
Realçado por clara luz, um eremita desnudo,
de pé em penitência, cobre os olhos
com as mãos, em prece e lamento. Figuras
em grupo compacto, genuflexo, braços
levantados com as mãos espalmadas e
rostos voltados para o céu, nesse cenário
de morte deixam transparecer uma aragem
de força e vida, de condenação à própria
existência da guerra.
No painel Paz, tal como acontece em seu par:
[...] são múltiplas as reminiscências de
obras anteriores de Portinari, como também
são vários os vestígios desses trabalhos
em quadros posteriores do Mestre.
O que significa dizer serem eles elos coerentes
de uma imensa produção pictórica
da mais alta representatividade do poder
criador do século XX [...]. O que emana
desse painel, nos enleva e encanta, mais
que a idéia de paz e da paz, é a própria
paz que nos invade ao contemplá-lo. É a
sensação de penetrarmos num universo
sereno, de comunhão fraterna no trabalho
produtivo, num reino mágico de cores reluzentes,
do som da ciranda de jovens num
canto universal de fraternidade e confiança,
ou da candura dos folguedos infantis. Com
todos esses tons dourados, alegres, crepitantes
de vida, o pintor parece nos dizer:
A paz universal é possível. Dia virá em que
a humanidade desfrutará a paz sem limites
no espaço e no tempo. 


O livro Guerra e Paz – Portinari foi publicado em dois volumes, com idêntica programação gráfica, em português e inglês. War and Peace – Portinari foi oferecido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Sr. Ban-Ki-Moon, momentos antes do pronunciamento do presidente da República do Brasil, abrindo a 62ª Assembleia-Geral da ONU.

 João Cândido Portinari, filho e curador da obra do autor de Guerra & Paz

A exposição dos painéis Guerra e Paz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro

A realização da exposição dos painéis Guerra e Paz de Portinari no Theatro Municipal do Rio de Janeiro insere-se no clima de crescente presença internacional do Brasil, não apenas na área econômica, mas sobretudo no reconhecimento de nossos valores sociais em progressão, valores intelectuais, morais e espirituais expressos em nosso amor à paz, à tolerância no trato dos contrários, e nosso apego à arte, vivificado em todas as manifestações do espírito nacional. A inimaginável, até então, vinda ao Brasil dos monumentais painéis Guerra e Paz de Candido Portinari que ornamentam o saguão principal do edifício sede da ONU, em Nova York, só foi possível graças a uma conjugação de fatores, destacando-se dentre eles:
Primeiro, a deliberação da grande reforma do edifício sede da ONU, no período de 2010 a 2013. Período em que as obras de Portinari teriam que ser removidas e abrigadas em outro local.
Segundo, a existência da modelar organização do Projeto Portinari que idealizou e gerenciou, posteriormente, toda a operação e motivou o governo brasileiro a solicitar e dar garantias à ONU para o empréstimo dos painéis Guerra e Paz a serem expostos e restaurados no Brasil.
Terceiro, a existência nos mais altos escalões da República, na Presidência, na Vice-presidência, no Ministério das Relações Exteriores, no Ministério da Cultura e no BNDES de autoridades sensíveis aos poderes e imperativos da Arte como manifestação insubstituível do patrimônio intelectual, moral e psíquico da nação brasileira.
Parafraseando formulação que se tornara frequente nos últimos tempos, podemos dizer que nunca na história desse país um governo prestigiou tanto a cultura nacional, como o faz agora, com grande repercussão internacional, em relação à obra de Candido Portinari.
O exemplo maior desta prestigiação está expresso na parte final da histórica fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da 62ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em que ele diz:


Senhoras e senhores, ao entrar neste prédio,
os delegados podem ver uma obra
de arte presenteada pelo Brasil às Nações
Unidas há 50 anos. Trata-se dos murais
Guerra e Paz, pintados pelo grande artista
brasileiro, Candido Portinari.
O sofrimento expresso no mural que retrata
a guerra nos remete à alta responsabilidade
das Nações Unidas de afastar o risco de
conflitos armados.
O segundo mural revela que a paz vai muito
além da ausência da guerra. Pressupõe
bem-estar, saúde e um convívio harmonioso
com a natureza. Pressupõe justiça
social, liberdade e superação dos flagelos
da fome e da pobreza.
Não é por acaso que o mural Guerra está
colocado de frente para quem chega, e o
mural Paz, para quem sai. A mensagem do
artista é singela, mas poderosa: transformar
aflições em esperança, guerra em paz,
é a essência da missão das Nações Unidas.
O Brasil continuará a trabalhar para que
esta expectativa tão elevada se torne definitivamente
realidade.
Muito obrigado.

 Em meio a numeroso público em clima de júbilo nacional, com a presença do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, representando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do professor Luciano Coutinho, presidente do BNDES, do diretor do Projeto Portinari, João Candido Portinari, de autoridades federais, estaduais e municipais, na noite de 21 de dezembro de 2010, foi inaugurada a exposição dos monumentais painéis Guerra e Paz, de Candido Portinari, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

 Vista proporcional do painel Paz

Apoteose da Paz

Por imensuráveis que sejam as distâncias e o número de estrelas e de seus incontáveis planetas e satélites pelas infinitas galáxias na imensidão cósmica, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na noite mágica da inauguração da exposição dos painéis Guerra e Paz de Portinari, trazidos por empréstimo temporário da sede da ONU, NY, transformara-se no epicentro artístico do universo. Impossível pensar que naquele momento, em qualquer outro corpo celeste, a arte e tudo o que possa haver de superior e sublime no universo estivessem sendo celebradas com tal efusão apaixonante. Se seres de inteligência igual ou superior à existente aqui existissem ou existirem em tais espaços siderais, por certo, reverenciariam o magno espetáculo montado por uma obstinação filial apoiada por um presidente operário, que se fez representar por eminente chanceler em meio a uma plateia eufórica, interpretando em seu justo valor nossa mais vigorosa mensagem artística, transformando-a em símbolo de uma cantata universal de paz.
A alegria reinante em todos os semblantes da multidão que lotava o teatro, e que durante todo o período da exposição envolveu o edifício com intermináveis filas, deixa transparecer o justificado orgulho do reencontro de cada um e de todos com sua parcela da verdadeira alma nacional e com os elementos precursores de seus almejados destinos compartilhados na construção de um reino de perene paz e felicidade. Nem todos tinham a mesma clareza sobre a extraordinária excepcionalidade do momento que estavam vivendo, mas todos vislumbravam o privilégio que teriam pelo tempo afora de poder afirmar: “Eu estive lá!” Seguramente, a memória nacional guardará para sempre a lembrança do espetáculo de interação de todas as artes no palco do maior teatro da “cidade maravilhosa”. Precedendo o desfile da multidão diante da magistral obra de um dos maiores pintores de todos os tempos, desenrolava-se o documentário de Carla Camurati, seguido pela dança de Ana Botafogo e Alex Neoral, coreografada por David Parsons; o canto de Milton Nascimento, a sonoridade de Villa-Lobos trazida pela Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem. Magnífico e bendito planeta este, em que a luminosidade impera, e que em suas entranhas a matéria em seu mais elevado estágio de perfectividade produz sonho, ideal e beleza, em que, mesmo entre suas diatribes intestinas e dolorosas etapas do parto do alvorecer de um Novo Mundo, fascinou o primeiro terráqueo a contemplá-lo do cosmo, arrancando-lhe a indelével exclamação: “A terra é azul!” Tão azul como o descrito por Drummond no poema declamado por Fernanda Montenegro naquela noite majestosa, diante dos painéis Guerra e Paz:
“e nada mais resiste à mão pintora [...]
a mão-de-olhos-azuis
de Candido Portinari.”
 
(PEDROSA, Israel. O Pintor do Novo Mundo. In: Revista Direitos Humanos. São Paulo: Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República do Brasil, 2012. p.14-20).





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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Fim de semana em meio às coxas de Hermínia


Enquanto esperamos Café pingado – próximo livro de poesias de Wanderlino Teixeira Leite Netto – é oportuno relembrar de sua prosa neste fim de semana.

PS: Quanto às “coxas de Hermínia”, eu me referia à crônica do autor... (Pensar o que mais?...)



Vera (ou Hermínia), desenho de Carlos Zéfiro.



As coxas de Hermínia 


                                                                                   Wanderlino Teixeira Leite Netto


Antes mesmo de meus olhos se tornarem gulosos, as coxas de Hermínia já me fascinavam. Naquele tempo, Hermínia metia-se num maiô inteiro e caminhava com suas coxas em direção ao mar. Conhecedor de seus horários, sempre me antecipava. Ao chegarem à praia, lá estava eu a espreitá-las. Quando Hermínia se desvencilhava da toalha que trazia amarrada à cintura e as coxas se mostravam, meus olhos ficavam febris.
Pouca diferença existiu, pelo menos para mim, no dia em que Hermínia adotou o duas-peças. Dela interessavam-me as coxas.
Maldito seja o inventor do trabalho. Roubou-me as coxas de Hermínia em dias de semana. Além da agonia da espera, o tormento da incerteza. E se no sábado o tempo nublasse? E se chovesse no domingo?
Dias antes do seu casamento, descobri um fiozinho azul numa das coxas de Hermínia, mas nem liguei. Morri foi de inveja do noivo, estirado na brancura das areias, a cabeça recostada bem pertinho do filete azulado.
Consumado o casório, as coxas de Hermínia mudaram-se para longe de minhas vistas. Anos depois, na piscina do clube, ressurgiram: divorciadas, com mais alguns fiozinhos azuis e umas gordurinhas aqui e ali. Sempre aos domingos, as maduras coxas de Hermínia estiveram, por algum tempo, ao alcance do meu olhar.
Ontem pela madrugada, enquanto todos cochilavam, afastei as flores e levantei o vestido de Hermínia. No silêncio da capela, meus olhos viúvos se despediram de suas coxas arroxeadas.


(NETTO, Wanderlino Teixeira Leite. As coxas de Hermínia. In: Retrato sem moldura. Niterói: Clube de Literatura Cromos, 1999).





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quarta-feira, 16 de maio de 2012

UFF homenageia Luís Antônio Pimentel em concurso literário





Há cem anos, nasciam no Brasil vários nomes que ajudaram a construir a história cultural de nosso país. Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Evandro Lins e Silva, Luiz Gonzaga e Herivelto Martins estão entre eles. Assim como Luís Antônio Pimentel, jornalista, poeta e exímio haicaísta que completou, em 29 de março, o centenário de uma vida dedicada à cultura. Memória viva de Niterói, onde mora, e do país, ele encanta com a fala, assim como com a escrita. Para homenageá-lo, a Universidade Federal Fluminense, através de sua editora, escolheu-o como inspiração para o 6º Prêmio UFF de Literatura. As inscrições estão abertas e o tema proposto é: “O contador de histórias”. O autor classificado em primeiro lugar em cada categoria - conto, crônica e poesia - ganhará um notebook, além do Troféu Itapuca.
Antologia e festa – O edital já está disponível no site da editora (www.editora.uff.br/editais) com inscrições até 15 de agosto. Os vencedores do 6º Prêmio UFF de Literatura serão anunciados no dia 17 de dezembro, durante cerimônia na qual também será lançada uma antologia com 20 textos selecionados, nas categorias crônica, conto e poesia, organizada pela Editora da UFF, com o patrocínio da Fundação Euclides da Cunha, da Pró-Reitoria de Extensão da UFF e da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro. Os classificados em primeiro lugar em cada gênero literário receberão 10 (dez) exemplares da coletânea; os segundos colocados, 8 (oito); os terceiros, 5 (cinco). Os demais autores selecionados receberão 3 (três) exemplares, cada.
Podem participar do Prêmio UFF de Literatura escritores de língua portuguesa, editados ou inéditos, independentemente de sua nacionalidade. No entanto, o texto apresentado deverá ser rigorosamente inédito, seja na forma impressa ou na forma eletrônica. Não serão aceitas obras póstumas, nem aquelas assinadas por grupos. Cada concorrente poderá inscrever apenas um texto em cada categoria. O conto a ser enviado não pode ultrapassar quatro páginas, enquanto as crônicas e poesias deverão atingir, no máximo, três páginas.






terça-feira, 15 de maio de 2012

"Academia Niteroiense, 70 anos. Será?" artigo exclusivo de Emmanuel de Macedo Soares


Feliz é a instituição que tem a força de gerar comunidade em torno de si (Schiller chega a atestar que esta é a maior prova de viço que um empreendimento poderia dar).
No texto de hoje, o jornalista e historiador Emmanuel Macedo Soares provoca a comunidade da Academia Niteroiense de Letras com um dado histórico: enquanto todos se mobilizam para comemorar, no ano de 2013, os 70 anos de existência institucional da ANL, Emmanuel argumenta que a Academia já passou dessa idade faz tempo.
Tal provocação nos faz lembrar a afirmativa do jornalista e escritor Alan Riding segundo a qual: “A história é explosiva”.
Sim, uma "pró-vocação", um chamado às falas, afinal, qual seria o melhor modo de celebrar uma instituição de cultura e pensamento senão pensando-a? Consideremos aberta a temporada de debates:





Academia Niteroiense, 70 anos. Será?





Emmanuel de Macedo Soares


Li em algum lugar que a Academia Niteroiense de Letras já começou a estocar foguetes para comemorar seus 70 anos em 11 de junho de 2013. Coisa que nunca entendi, e até hoje não houve quem me explicasse, é esse empenho da Academia em enganar sua idade, quando é fato sabido e comprovado que ela foi fundada em 1931 e instalada a 28 de maio desse ano na Faculdade de Direito, com toda pompa e circunstância.
Dizem que essa fundação não valeu, porque a Academia nunca funcionou. Mas funcionou, sim. Elegeu 25 acadêmicos e o interventor federal Ari Parreiras até prestigiou a posse solene da primeira diretoria efetiva, em 22 de dezembro de 1931, com Raul de Oliveira Rodrigues confirmado na presidência. Dos fundadores de 1931, muitos voltaram para a refundação de 1943. Mas pelo menos dois tiveram cassada a láurea acadêmica: Edésio Barbosa da Silva e Honório Peçanha.
Cassados duas vezes, aliás, porque ambos viviam e gozavam de excelente saúde em 1973, quando a Academia ressurgiu de novo das cinzas. A exclusão de Honório até se pode explicar, o que não significa entender: era considerado comunista e a 2ª Academia nasceu do ventre da ditadura do Estado Novo, quando os comunistas não gozavam de nenhum prestígio, muito pelo contrário. Foi novamente cassado pela 3ª Academia de 1973, e pelo mesmíssimo motivo, estávamos entrando nos tristes Anos de Chumbo de outra triste ditadura. Mas o doutor Edésio! O que fez este pacífico homem, mergulhado em suas pesquisas da história de Porciúncula para merecer a cassação? Bom... voltando às datas. A Academia de 1931 adormeceu logo no ano seguinte, é verdade. Mas a de 1943 também adormeceu, desde 1955, quando o bom e insubstituível Horácio Pacheco transferiu a presidência a monsenhor Uchoa. Com alguma benevolência consideremos como atividade o fato de ter assinado em 1959 o manifesto de lançamento do Movimento Cultural Fluminense, bela ideia de dois Pimentéis: o Paulo César, que já se foi, e o Luís Antônio, que para o bem do povo e felicidade geral da nação continua entre nós.
Depois disso, a Academia só dá sinais de vida em agosto de 1973, quando passa de fato a existir, depois da desastrada reforma que fez dela uma espécie de Academia Nítero-Cantagalense de Letras. Digo isso porque entre outras ilustres sumidades injetou como patronos os cantagalenses Silva Santos, José Carlos Rodrigues, Euclides da Cunha (vá lá), que nunca ouviram falar em praça Araribóia. E até Américo de Castro, que nasceu em Cantagalo mas foi trocar a primeira fralda na Espanha, enquanto niteroienses como Felisberto de Carvalho ou Adelino Magalhães ficaram no maruí do esquecimento. Pecadilho menor, que não vem ao caso. O que realmente incomoda é essa discrepância de datas de fundação, que um dia há de ser corrigida.
Que as belas e vaidosas mulheres enganem a idade, é até charmoso. Mas não se admite que uma sociedade dita cultural vire as costas com tanta sem-cerimônia para a história. No caso, sua própria história.



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segunda-feira, 14 de maio de 2012

A poesia siguética em J.G. de Araújo Jorge e Claude Debussy







Harpa Submersa



Este retardatário gosto de pureza,
que me vem à boca do fundo coração,
não sei se é tédio ou o sinal de alvoradas renascentes.

Na areia branca onde a onda tenta apagar
vestígios de pés e levar todas as conchas,
me deixo à espera de outra vagas carregadas de conchas
ou de passos que tatuem novas marcas
na epiderme do coração.

Pobre coração marinheiro, tão marcado,
de que canto obscuro desenterras imprevistamente
esta harpa cheia de algas e de sons submersos?


(JORGE, J. G. de Araújo. Harpa submersa. In: Harpa Submersa. São Paulo, 1952)





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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Extratos de uma vida... Crônica/reflexão de Sandro Rebel



Sim, falando sério sobre as coisas sérias da vida; a verdade ainda manda dizer: em tom afável e sem afetação de solenidade.
Tempo, vida, família, memória... Está tudo aí! É ler e sentir a crônica do escritor Sandro Pereira Rebel (cadeira cativa neste blog formado de literatura e vivências).





Vida: a viagem do tempo


                                                                                              Sandro Pereira Rebel


          Viajando, o tempo nos faz
          ir  a vida carregando
          e, no fazê-lo, nos traz
          o mistério do até quando.


Mamã, papá, vô, vó. Antes, houve, é claro, o berreiro  da chegada e aqueles incômodos salpicos de água benta na pia batismal. Depois, o primeiro tombo, o segundo, o terceiro, o vigésimo, o trigésimo oitavo, perde-se a conta. O primeiro “Parabéns pra você”, que confusão, não se entende nada. Mas teve brinquedo, principalmente muita bola.  E veio a professorinha do Jardim, sempre recordada, vida afora, com muita ternura. Logo após, a que nos ensinou o beabá, e que, naquele tempo, nem era chamada de tia.  Gripes, caxumba, catapora, amigdalite, rinite, otite e outros ites, todos, felizmente, sem gravidade, vão se sucedendo. Alergias também entram no rol, algumas tão esquisitas que mais parecem explicação de médico que não tem, ou não sabe, o que explicar. Mas, pelas mãos de Deus, e atrelados a seu parceiro, o tempo, a gente vai em frente, às vezes aos trancos e barrancos, mas sempre em frente. Vem o namoro  do alvorejar da mocidade, um beijinho hoje, mais um daqui a vinte dias, no escurinho do cinema, depois de prometido, a muito custo, em meio aos volteios de um bolero ou aos enleios de um fox-blue. Ah, que bonito! Os amigos dizendo que não, que somos românticos demais, e tentando nos encaminhar para os descaminhos.  Que será de nós quando crescermos? Profissão do pai, será uma boa? Mas é tão antiga... E têm tantas outras por aí à nossa volta, mais rendosas.... O avô e a avó já se foram há muito. O pai deve estar se preparando, quer dizer, sendo preparado para também ir. A mãe não demora e passa a ser a bola da vez. Será que vamos casar? E com quem? E filhos, será que vamos ter? Quantos? E que fazer deles? O vestibular, a faculdade, os professores nos passando uma porção de ensinamentos inúteis, como, aliás, já haviam feito, só que com menos requinte e pompa, os seus colegas de cátedra lá nos primórdios dos nossos estudos. O pai, que estava por ir, já foi mesmo. A mãe, viúva, certamente que não vai durar muito tempo. E vêm o “enfim sós” e  as consequências, os filhos. A mãe realmente não durou quase nada. O trabalho, nunca se sabe se escolhemos o melhor. O mais das vezes não é aquele que almejamos. Mas vai dando para o gasto. Um sucessinho aqui, outro acolá, um percalço a menos, outro a mais, nem tudo dá certo mas  podia ser pior. E o patrimônio?  Sim, sempre ouvimos dizer que, para ser bem respeitado, o homem tem de ter um sólido patrimônio. Mas damos graças aos céus quando conseguimos possuir um só apartamentozinho que seja, usando aquele financiamento oficial que só se consegue quitar com a certidão de óbito. Mas, paciência, também isto está pra lá de bom. Afinal, os filhos já estão crescidos, exercendo profissões meio inusitadas para o nosso gosto, não mais só as de médico, advogado, engenheiro, dentista, veterinário e mais uma meia dúzia de outras que davam maior e melhor “status” no nosso tempo. A informática chega, tudo se torna computadorizado e globalizado, e as atividades vinculadas a ela ou dela decorrentes ficam sendo  – como dizem eles – as “quentes”. E não é que aquelas crianças já até estão nos falando de genros e noras e nos prometendo muitos netos? E daí em diante, principalmente depois que essa promessa  – a dos netos –  se torna linda realidade, as coisas passam a acontecer atropeladamente, a toque de caixa, a vida resolve correr demais na frente da gente. Ah, que saudade das gripes, da caxumba, da catapora, das alergias! As nossas atuais mazelas requerem cautelas bem maiores. Há que se ver e controlar permanentemente as taxas de colesterol, ureia, creatinina, ácido úrico, glicose, triglicerídios, estar sempre fiscalizando o coração, os pulmões, a próstata etc., há que se pensar, enfim, mais seriamente que nunca, que somos apenas pobres mortais morríveis a qualquer hora. Pois depois dos tantos questionamentos, como os lembrados acima  – que compõem o painel de nossas vidas, e que em verdade são, enquanto de algum modo participamos da  construção delas, a sua grande motivação –,  de repente nos sentimos postos inteiramente à margem dos seus rumos, a mercê apenas e tão somente do inexorável passar do tempo. A tal ponto e com tamanha intensidade é esta a realidade que se põe  diante de nós nessa quadra da vida, que só o que então nos fica restando, para encará-la, é a total entrega àquela indagação, suprema e última, que precede, inexorável e irrespondível, o princípio e o fim de tudo e de todos: e agora, o que virá?
                                          
Texto extraído do livro “Cronicontando”,
onde    aparece com o título “Um extrato da vida”





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