sexta-feira, 18 de maio de 2012

Fim de semana em meio às coxas de Hermínia


Enquanto esperamos Café pingado – próximo livro de poesias de Wanderlino Teixeira Leite Netto – é oportuno relembrar de sua prosa neste fim de semana.

PS: Quanto às “coxas de Hermínia”, eu me referia à crônica do autor... (Pensar o que mais?...)



Vera (ou Hermínia), desenho de Carlos Zéfiro.



As coxas de Hermínia 


                                                                                   Wanderlino Teixeira Leite Netto


Antes mesmo de meus olhos se tornarem gulosos, as coxas de Hermínia já me fascinavam. Naquele tempo, Hermínia metia-se num maiô inteiro e caminhava com suas coxas em direção ao mar. Conhecedor de seus horários, sempre me antecipava. Ao chegarem à praia, lá estava eu a espreitá-las. Quando Hermínia se desvencilhava da toalha que trazia amarrada à cintura e as coxas se mostravam, meus olhos ficavam febris.
Pouca diferença existiu, pelo menos para mim, no dia em que Hermínia adotou o duas-peças. Dela interessavam-me as coxas.
Maldito seja o inventor do trabalho. Roubou-me as coxas de Hermínia em dias de semana. Além da agonia da espera, o tormento da incerteza. E se no sábado o tempo nublasse? E se chovesse no domingo?
Dias antes do seu casamento, descobri um fiozinho azul numa das coxas de Hermínia, mas nem liguei. Morri foi de inveja do noivo, estirado na brancura das areias, a cabeça recostada bem pertinho do filete azulado.
Consumado o casório, as coxas de Hermínia mudaram-se para longe de minhas vistas. Anos depois, na piscina do clube, ressurgiram: divorciadas, com mais alguns fiozinhos azuis e umas gordurinhas aqui e ali. Sempre aos domingos, as maduras coxas de Hermínia estiveram, por algum tempo, ao alcance do meu olhar.
Ontem pela madrugada, enquanto todos cochilavam, afastei as flores e levantei o vestido de Hermínia. No silêncio da capela, meus olhos viúvos se despediram de suas coxas arroxeadas.


(NETTO, Wanderlino Teixeira Leite. As coxas de Hermínia. In: Retrato sem moldura. Niterói: Clube de Literatura Cromos, 1999).





Divilgação cultural
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quarta-feira, 16 de maio de 2012

UFF homenageia Luís Antônio Pimentel em concurso literário





Há cem anos, nasciam no Brasil vários nomes que ajudaram a construir a história cultural de nosso país. Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Evandro Lins e Silva, Luiz Gonzaga e Herivelto Martins estão entre eles. Assim como Luís Antônio Pimentel, jornalista, poeta e exímio haicaísta que completou, em 29 de março, o centenário de uma vida dedicada à cultura. Memória viva de Niterói, onde mora, e do país, ele encanta com a fala, assim como com a escrita. Para homenageá-lo, a Universidade Federal Fluminense, através de sua editora, escolheu-o como inspiração para o 6º Prêmio UFF de Literatura. As inscrições estão abertas e o tema proposto é: “O contador de histórias”. O autor classificado em primeiro lugar em cada categoria - conto, crônica e poesia - ganhará um notebook, além do Troféu Itapuca.
Antologia e festa – O edital já está disponível no site da editora (www.editora.uff.br/editais) com inscrições até 15 de agosto. Os vencedores do 6º Prêmio UFF de Literatura serão anunciados no dia 17 de dezembro, durante cerimônia na qual também será lançada uma antologia com 20 textos selecionados, nas categorias crônica, conto e poesia, organizada pela Editora da UFF, com o patrocínio da Fundação Euclides da Cunha, da Pró-Reitoria de Extensão da UFF e da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro. Os classificados em primeiro lugar em cada gênero literário receberão 10 (dez) exemplares da coletânea; os segundos colocados, 8 (oito); os terceiros, 5 (cinco). Os demais autores selecionados receberão 3 (três) exemplares, cada.
Podem participar do Prêmio UFF de Literatura escritores de língua portuguesa, editados ou inéditos, independentemente de sua nacionalidade. No entanto, o texto apresentado deverá ser rigorosamente inédito, seja na forma impressa ou na forma eletrônica. Não serão aceitas obras póstumas, nem aquelas assinadas por grupos. Cada concorrente poderá inscrever apenas um texto em cada categoria. O conto a ser enviado não pode ultrapassar quatro páginas, enquanto as crônicas e poesias deverão atingir, no máximo, três páginas.






terça-feira, 15 de maio de 2012

"Academia Niteroiense, 70 anos. Será?" artigo exclusivo de Emmanuel de Macedo Soares


Feliz é a instituição que tem a força de gerar comunidade em torno de si (Schiller chega a atestar que esta é a maior prova de viço que um empreendimento poderia dar).
No texto de hoje, o jornalista e historiador Emmanuel Macedo Soares provoca a comunidade da Academia Niteroiense de Letras com um dado histórico: enquanto todos se mobilizam para comemorar, no ano de 2013, os 70 anos de existência institucional da ANL, Emmanuel argumenta que a Academia já passou dessa idade faz tempo.
Tal provocação nos faz lembrar a afirmativa do jornalista e escritor Alan Riding segundo a qual: “A história é explosiva”.
Sim, uma "pró-vocação", um chamado às falas, afinal, qual seria o melhor modo de celebrar uma instituição de cultura e pensamento senão pensando-a? Consideremos aberta a temporada de debates:





Academia Niteroiense, 70 anos. Será?





Emmanuel de Macedo Soares


Li em algum lugar que a Academia Niteroiense de Letras já começou a estocar foguetes para comemorar seus 70 anos em 11 de junho de 2013. Coisa que nunca entendi, e até hoje não houve quem me explicasse, é esse empenho da Academia em enganar sua idade, quando é fato sabido e comprovado que ela foi fundada em 1931 e instalada a 28 de maio desse ano na Faculdade de Direito, com toda pompa e circunstância.
Dizem que essa fundação não valeu, porque a Academia nunca funcionou. Mas funcionou, sim. Elegeu 25 acadêmicos e o interventor federal Ari Parreiras até prestigiou a posse solene da primeira diretoria efetiva, em 22 de dezembro de 1931, com Raul de Oliveira Rodrigues confirmado na presidência. Dos fundadores de 1931, muitos voltaram para a refundação de 1943. Mas pelo menos dois tiveram cassada a láurea acadêmica: Edésio Barbosa da Silva e Honório Peçanha.
Cassados duas vezes, aliás, porque ambos viviam e gozavam de excelente saúde em 1973, quando a Academia ressurgiu de novo das cinzas. A exclusão de Honório até se pode explicar, o que não significa entender: era considerado comunista e a 2ª Academia nasceu do ventre da ditadura do Estado Novo, quando os comunistas não gozavam de nenhum prestígio, muito pelo contrário. Foi novamente cassado pela 3ª Academia de 1973, e pelo mesmíssimo motivo, estávamos entrando nos tristes Anos de Chumbo de outra triste ditadura. Mas o doutor Edésio! O que fez este pacífico homem, mergulhado em suas pesquisas da história de Porciúncula para merecer a cassação? Bom... voltando às datas. A Academia de 1931 adormeceu logo no ano seguinte, é verdade. Mas a de 1943 também adormeceu, desde 1955, quando o bom e insubstituível Horácio Pacheco transferiu a presidência a monsenhor Uchoa. Com alguma benevolência consideremos como atividade o fato de ter assinado em 1959 o manifesto de lançamento do Movimento Cultural Fluminense, bela ideia de dois Pimentéis: o Paulo César, que já se foi, e o Luís Antônio, que para o bem do povo e felicidade geral da nação continua entre nós.
Depois disso, a Academia só dá sinais de vida em agosto de 1973, quando passa de fato a existir, depois da desastrada reforma que fez dela uma espécie de Academia Nítero-Cantagalense de Letras. Digo isso porque entre outras ilustres sumidades injetou como patronos os cantagalenses Silva Santos, José Carlos Rodrigues, Euclides da Cunha (vá lá), que nunca ouviram falar em praça Araribóia. E até Américo de Castro, que nasceu em Cantagalo mas foi trocar a primeira fralda na Espanha, enquanto niteroienses como Felisberto de Carvalho ou Adelino Magalhães ficaram no maruí do esquecimento. Pecadilho menor, que não vem ao caso. O que realmente incomoda é essa discrepância de datas de fundação, que um dia há de ser corrigida.
Que as belas e vaidosas mulheres enganem a idade, é até charmoso. Mas não se admite que uma sociedade dita cultural vire as costas com tanta sem-cerimônia para a história. No caso, sua própria história.



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segunda-feira, 14 de maio de 2012

A poesia siguética em J.G. de Araújo Jorge e Claude Debussy







Harpa Submersa



Este retardatário gosto de pureza,
que me vem à boca do fundo coração,
não sei se é tédio ou o sinal de alvoradas renascentes.

Na areia branca onde a onda tenta apagar
vestígios de pés e levar todas as conchas,
me deixo à espera de outra vagas carregadas de conchas
ou de passos que tatuem novas marcas
na epiderme do coração.

Pobre coração marinheiro, tão marcado,
de que canto obscuro desenterras imprevistamente
esta harpa cheia de algas e de sons submersos?


(JORGE, J. G. de Araújo. Harpa submersa. In: Harpa Submersa. São Paulo, 1952)





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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Extratos de uma vida... Crônica/reflexão de Sandro Rebel



Sim, falando sério sobre as coisas sérias da vida; a verdade ainda manda dizer: em tom afável e sem afetação de solenidade.
Tempo, vida, família, memória... Está tudo aí! É ler e sentir a crônica do escritor Sandro Pereira Rebel (cadeira cativa neste blog formado de literatura e vivências).





Vida: a viagem do tempo


                                                                                              Sandro Pereira Rebel


          Viajando, o tempo nos faz
          ir  a vida carregando
          e, no fazê-lo, nos traz
          o mistério do até quando.


Mamã, papá, vô, vó. Antes, houve, é claro, o berreiro  da chegada e aqueles incômodos salpicos de água benta na pia batismal. Depois, o primeiro tombo, o segundo, o terceiro, o vigésimo, o trigésimo oitavo, perde-se a conta. O primeiro “Parabéns pra você”, que confusão, não se entende nada. Mas teve brinquedo, principalmente muita bola.  E veio a professorinha do Jardim, sempre recordada, vida afora, com muita ternura. Logo após, a que nos ensinou o beabá, e que, naquele tempo, nem era chamada de tia.  Gripes, caxumba, catapora, amigdalite, rinite, otite e outros ites, todos, felizmente, sem gravidade, vão se sucedendo. Alergias também entram no rol, algumas tão esquisitas que mais parecem explicação de médico que não tem, ou não sabe, o que explicar. Mas, pelas mãos de Deus, e atrelados a seu parceiro, o tempo, a gente vai em frente, às vezes aos trancos e barrancos, mas sempre em frente. Vem o namoro  do alvorejar da mocidade, um beijinho hoje, mais um daqui a vinte dias, no escurinho do cinema, depois de prometido, a muito custo, em meio aos volteios de um bolero ou aos enleios de um fox-blue. Ah, que bonito! Os amigos dizendo que não, que somos românticos demais, e tentando nos encaminhar para os descaminhos.  Que será de nós quando crescermos? Profissão do pai, será uma boa? Mas é tão antiga... E têm tantas outras por aí à nossa volta, mais rendosas.... O avô e a avó já se foram há muito. O pai deve estar se preparando, quer dizer, sendo preparado para também ir. A mãe não demora e passa a ser a bola da vez. Será que vamos casar? E com quem? E filhos, será que vamos ter? Quantos? E que fazer deles? O vestibular, a faculdade, os professores nos passando uma porção de ensinamentos inúteis, como, aliás, já haviam feito, só que com menos requinte e pompa, os seus colegas de cátedra lá nos primórdios dos nossos estudos. O pai, que estava por ir, já foi mesmo. A mãe, viúva, certamente que não vai durar muito tempo. E vêm o “enfim sós” e  as consequências, os filhos. A mãe realmente não durou quase nada. O trabalho, nunca se sabe se escolhemos o melhor. O mais das vezes não é aquele que almejamos. Mas vai dando para o gasto. Um sucessinho aqui, outro acolá, um percalço a menos, outro a mais, nem tudo dá certo mas  podia ser pior. E o patrimônio?  Sim, sempre ouvimos dizer que, para ser bem respeitado, o homem tem de ter um sólido patrimônio. Mas damos graças aos céus quando conseguimos possuir um só apartamentozinho que seja, usando aquele financiamento oficial que só se consegue quitar com a certidão de óbito. Mas, paciência, também isto está pra lá de bom. Afinal, os filhos já estão crescidos, exercendo profissões meio inusitadas para o nosso gosto, não mais só as de médico, advogado, engenheiro, dentista, veterinário e mais uma meia dúzia de outras que davam maior e melhor “status” no nosso tempo. A informática chega, tudo se torna computadorizado e globalizado, e as atividades vinculadas a ela ou dela decorrentes ficam sendo  – como dizem eles – as “quentes”. E não é que aquelas crianças já até estão nos falando de genros e noras e nos prometendo muitos netos? E daí em diante, principalmente depois que essa promessa  – a dos netos –  se torna linda realidade, as coisas passam a acontecer atropeladamente, a toque de caixa, a vida resolve correr demais na frente da gente. Ah, que saudade das gripes, da caxumba, da catapora, das alergias! As nossas atuais mazelas requerem cautelas bem maiores. Há que se ver e controlar permanentemente as taxas de colesterol, ureia, creatinina, ácido úrico, glicose, triglicerídios, estar sempre fiscalizando o coração, os pulmões, a próstata etc., há que se pensar, enfim, mais seriamente que nunca, que somos apenas pobres mortais morríveis a qualquer hora. Pois depois dos tantos questionamentos, como os lembrados acima  – que compõem o painel de nossas vidas, e que em verdade são, enquanto de algum modo participamos da  construção delas, a sua grande motivação –,  de repente nos sentimos postos inteiramente à margem dos seus rumos, a mercê apenas e tão somente do inexorável passar do tempo. A tal ponto e com tamanha intensidade é esta a realidade que se põe  diante de nós nessa quadra da vida, que só o que então nos fica restando, para encará-la, é a total entrega àquela indagação, suprema e última, que precede, inexorável e irrespondível, o princípio e o fim de tudo e de todos: e agora, o que virá?
                                          
Texto extraído do livro “Cronicontando”,
onde    aparece com o título “Um extrato da vida”





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quinta-feira, 10 de maio de 2012

É Bocage, mas poderia ser Glauco Mattoso; é século XVIII, mas poderia ser século XXI

 
Fotografia do filme Saraband (2003), de Ingmar Bergman


Soneto da beata experta



                                                                                                                                           Bocage
                                        
Não te crimino a ti, plebe insensata,
A van superstição não te crimino;
Foi natural, que o frade era ladino,
É experta em macaquices a beata:

Só crimino esse heroe de bola chata,
Que na eschola de Marte inda é menino,
E ao falso pastor, pastor sem tino,
Que tão mal das ovelhas cura, e tracta:

Item, crimino o respeitavel Cunha,
Que a frias petas credito não dera,
A ser philosopho, como suppunha: [dysrhythmico]

Coitado! Protestou com voz sincera
Fazer geral, contrita caramunha,
Porem ficou peor que d'antes era!

  





quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ensaio de Dalma Nascimento: "A ponte e o rio - alegorias de situações humanas"




"Caminho e balança,
 ponte e palavra
 encontram-se em uma passagem.
 Vai e toma sobre ti
 erro e pergunta
 ao longo de tua única senda".
               (Martin Heidegger, A experiência do pensar)

 
        
                                                  A ponte e o rio                           



1- As tensões existenciais da história

A concisa peça teatral de Norberto Seródio Boechat, De Repente, Vozes, encena poeticamente, atitudes psicológicas e filosóficas do viver humano através do dramático diálogo de duas figuras alegóricas [1] em tensão: a Ponte e o Rio. Iluminando reflexões fundamentais de conteúdo universal, o autor, com novos timbres e imagens, problematiza situações   existenciais frequentes entre pensadores do passado e do presente.
A trama de Boechat se desenrola num ambiente campesino de tonalidades neoclássicas e românticas, sugeridas no texto pela rubrica com as marcações de palco. Delineia-se, então, no imaginário do leitor/espectador a cena introdutória: o lusco-fusco de um entardecer/ anoitecer bucólico, em que a paisagem natural, com exuberantes metáforas, ganha conotações cósmicas atemporais: montanhas, um vale, voos de pássaros, ruídos rurais de um final do dia, brisa suave levantando “cálices de pó e folhas secas”, nuvens.  Infinito.
Aberto totalmente o pano do cenário, eis, em primeiro plano, os dois núcleos geradores do relato. De um lado, a Ponte: solitária, contemplativa, imutável. Petrificada entre dois rochedos. Com a madeira corroída pelo tempo e pelos dramas a que assiste, mostra-se majestosa. Mas, sendo uma representação anímica das inquietações humanas, sofre tensões subterrâneas. Sem vida própria, sente “as dores e alegrias” dos que por ela passam e “entram em (sua) essência e fazem vibrar o íntimo de (suas) fibras envelhecidas”. Vicariamente, delega suas emoções aos transeuntes que vêm e vão; ao vento “que leva ao pó (suas) feridas”; à chuva, que lhe “lava as entranhas”. Busca, assim, “nessa vida todo seu significado e grandiosidade”, ainda que, em segredo, ou inconsciente, deseje as palpitações do mundo. 
De outro lado, o Rio, em contínua movência e mutações. Corajoso, ele aceita e assume “o universal destino”, que lhe foi traçado. Mas não se cristaliza em verdades prontas. Aventura-se. Transita por continentes. Confere beleza ao entorno. “Penetra as rochas em mil desenhos”. “Junta-se ao mar’. Renova-se. “É expressão do infinito na infinitude das formas”. “Jamais, repete os movimentos”. Como já pensara Heráclito, suas águas, de fato, nunca são iguais. Ninguém passa duas vezes pelo mesmo rio. Porém, apesar da importância, sofre igualmente “as dores e o peso dos corpos” dos que por ele navegam. Convive com antinomias. Partilha da ambivalência das coisas, conforme confessa à Ponte: “Não vês que, há milênios, transporto esperança, luzes nos conveses. Mas ao mesmo tempo, escuridão nos porões?”. Julga-se, entretanto, um semideus: “Sabes, quase sou uma divindade: carrego a força da vida, o princípio... e o fim”. Imerso na primitividade arcaica, ele reúne em si o dualismo do sacer, do sagrado inaugural, quando claridade e trevas, começo e término deveriam ter-se abraçado  sem os maniqueísmos reducionistas das posteriores religiões.
O simbólico universo acima, apenas esboçado, claramente denota que a proposta de Boechat é colocar em questão, por meio de emblemas alegóricos, o Grande Teatro da Alma, onde contracenam e se conflitam duas condutas humanas divergentes: o conformado imobilismo dos indivíduos-Ponte e a dinâmica construtiva dos seres-Rio. Com argumentos específicos a ambos, tal mensagem se dá a entender quando se digladiam as codificadas certezas de um, diante da mutante fluidez dos atos em processo, do outro. Pedagógico sem proselitismo, o autor pretende demonstrar por esse embate que tudo depende da decisão pessoal. Das escolhas, pois o problema central reside no crucial impasse: acolher a inércia da Ponte ou o fluir arfante do Rio? Aceitar o risco aleatório do novo ou o desenho existencial já riscado pelo destino, embora só Deus conheça por inteiro o traçado do bordado?
Porém, o final da peça deixa entrever o triunfo – ainda que provisório –, da ação humana. Ação que gradativa se vai construindo rumo àquela infinidade de formas ainda sem forma, em compasso e confluência com a harmonia circulante no cosmos. Tanto que, diante do apelo actante e vitalista do Rio, a Ponte, até então estática, foi-se dissolver na incessante correnteza das Águas. “Uma farpa de madeira”­ – parte de si – irrigou-se na vida. Metonimicamente, ela imergiu no todo. Universalizou-se. Com delicadeza, a cena conclusiva, em frases curtas, deslizantes, sonoras, traduz o  momento de sua essencial e delicada entrega:   

Uma farpa de madeira seca desprende-se lentamente. Desenha movimentos no ar, e em seguida, deita-se suavemente sobre a água. Flutua.
Perde-se, inexoravelmente, no fluxo. 


2- A questão da influência e o desvio do cânone  

A escrita alegoria de Boechat preserva, nos bastidores textuais de sua construção, um palimpsesto de memórias literárias e filosóficas. Camadas superpostas de vários estilos artísticos, de visões de mundo, de eternas inquietações filosóficas estão ali – submersas, mas pulsantes – entre as frestas do discurso numa interlocução bem moderna.  Nas últimas décadas– com os estudos críticos de Harold Bloom (A angústia da influência, O mapa da desleitura), de Gérard Genette (Palimpsestes), de Júlia Kristeva (Semanálise) sobre a intertextualidade, de Mikail Bakhtin e de demais mentores dos estudos literários – sabe-se que a influência de um autor sobre outro não mais se sustenta segundo a concepção do passado.
  À luz do revisionismo teórico atual, cada escritor, apesar de conservar ecos temáticos ou linhas estruturais dos que o precederam, instaura seu próprio fazer. Constrói seu caminho pela qualidade da divergência e não pela mera identidade dos modelos preexistentes. Não imita. Recria. Redimensiona o existente. Aliás, influência, para Nietzsche, já significava revitalização.  Desvio da norma para instaurar o novo.
Sobre isso, Harold Bloom elaborou longa meditação, ligada à leitura dos antigos pelos modernos. Expõe que o produtor de agora traz, no inconsciente, uma bagagem de escritas e, ao compor sua obra, se deixa contagiar por tudo ali estocado. Para Bloom, o autor do presente deve “ler”, mas “desler” os predecessores, a fim de amortecer a tradição e processar o “desvio” do cânone. Contudo, sem “a angústia da influência”, pois, mesmo que não o queira, a voz do outro estará “pichada em tinta invisível nas entrelinhas” da nova produção. Ou melhor, ressoando, nela. O teórico norte-americano empregou o termo clinamen, colhido no latino Lucrécio, para significar a misreading, isto é, a desleitura e o “desvio” de um texto em relação à obra do antecessor.
Tal explicação acima, meio extensa, surgiu aqui porque, em De Repente, Vozes, sonorizam-se, interlocutivos, temas e procedimentos literários diversos. Logo avulta, por exemplo, o artifício da alegoria, comum entre os clássicos gregos e latinos, com propostas moralizantes e construções animistas, embora a alegoria tenha ressurgido, revigorada, na Idade Média, no Neoclassicismo (Arcadismo), noRomantismo e, no século XX, sobretudo com os estudos de Walter Benjamin.
Também ecos de Thomas Merton, o monge filósofo da “contemplação” e da “ação” –  as duas linhas de força da peça de Boechat – dão-se a ouvir “nas entrelinhas”, em que pese o episódio ali narrado seja totalmente outro. Porém, aproxima-se dele pelo estilo, pela paisagem, pelo enfoque da natureza antropomorfizada. Lembra, sobretudo certas passagens alegóricas de A via de Chuang-Tzu,  um dos livros  de Merton [2].
Além disso, há o emprego da prosopopeia, figura da linguagem literária de certos contos antigos e do universo do faz-de-conta do “Era uma vez”, onde bichos e seres inanimados falam e dramatizam ações humanas. A estrutura e o tom da peça fazem também pensar em um apólogo, composição dialogada em prosa ou verso com uma lição moral, na qual figuram objetos imagisticamente dotados de palavras, de que é paradigmático exemplo “A agulha e a linha”, de Machado de Assis.  
Já na trilha dos pré-socráticos, emerge, em De Repente, Vozes, “pichada em tinta invisível”, a cosmovisão de Parmênides, o filósofo do permanente, opondo-se ao vir-a-ser de Heráclito, o filósofo da mudança. E, na mesma dimensão dinâmica do devir, mais modernamente lá está, camuflado, Ernst Bloch, o pensador alemão do “princípio esperança”, com os companheiros comungantes do mesmo credo que acentuaram, na esteira marxista, o poder transformador do Homem, graças à ação.
A trama de Boechat requisita ainda mais memórias para o convívio intertextual renovador. A Ponte, por sua vez, na aparente harmonia, equilíbrio e precisão dos inícios, representa o lado apolíneo. E o Rio, turbilhonante de paixões criativas, recorda o sensório desconstrutivismo dionisíaco. Estão, aí, os dois polos articuladores das tensões do trágico, problemática tão bem desenvolvida por Nietzsche em A origem da tragédia.


3- Conclusão  

Norberto Seródio Boechat abasteceu-se em fontes originárias, recriando-as nas águas de sua cisterna. “Leu” e “desleu” os mestres. Realizou o clinamen, preconizado por Bloom. Aliás, esta não é uma maneira indireta e generosa de entregar aos leitores o que os antigos têm de melhor?  Mas, ao mesmo tempo, Boechat marcou a sua diferença, na confluência de múltiplas vozes: antigas e atuais. Daí, a perfeita adequação do título: De Repente, Vozes,  Vozes que “não mais que de repente”, se fizeram ouvir na placidez silente de um simbólico anoitecer neoclássico-romântico nas tonalidades modernas de seu alegórico Teatro da Alma. Vozes para levarem os humanos a pensarem... Pensarem... Pois “o pensamento não é uma centelha de Deus nas sinapses?” [3].  Então, “por que não permitir que uma velha Ponte discuta com o Rio?”. 



[1] Alegoria aqui  é  entendida no etimológico sentido grego de allós = outro +  agorein = falar.   De ser uma coisa, mas falar (representar) outra, ou melhor, de apontar para algo diverso de sua intrínseca  realidade. As alegorias encarnam conceitos abstratos, “modelares”, cuja existência está em outro lugar de sua própria representação. Talvez a melhor definição de alegoria seja a de Isidoro de Sevilha: et aliud enin sonat  et allud intelligentur, ou seja:” dizer uma coisa, significando outra”.
                                              
[2] Thomas Merton (1915-1968) escritor norte-americano, embora nascido na França, compôs, nesta obra, uma série de versões pessoais de trechos clássicos do filósofo do século IV ou III a.C.,  Chuang Tzu,  talvez o mais espiritual dos pensadores chineses representantes do taoísmo. A “re-criação” também da sabedoria antiga por Merton, um místico moderno, oferece uma visão extraordinária do mundo e do pensamento intemporal.  Merton influenciou intelectuais, políticos e espiritualistas das décadas de 70 e 80 do século passado.
[3] Sinapse, local de contato entre neurônios, onde ocorre a transmissão de impulsos nervosos de uma célula à outra.




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