“Ser anfitrião das belas letras.”
Com esta legenda, o presente Blog pretende abrir espaço para os talentos da literatura (com ênfase na fluminense). Tal sítio é reservado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias. Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária é o nosso papel.
Há cem anos, nasciam no Brasil vários nomes que ajudaram a construir a história cultural de nosso país. Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Evandro Lins e Silva, Luiz Gonzaga e Herivelto Martins estão entre eles. Assim como Luís Antônio Pimentel, jornalista, poeta e exímio haicaísta que completou, em 29 de março, o centenário de uma vida dedicada à cultura. Memória viva de Niterói, onde mora, e do país, ele encanta com a fala, assim como com a escrita. Para homenageá-lo, a Universidade Federal Fluminense, através de sua editora, escolheu-o como inspiração para o 6º Prêmio UFF de Literatura. As inscrições estão abertas e o tema proposto é: “O contador de histórias”. O autor classificado em primeiro lugar em cada categoria - conto, crônica e poesia - ganhará um notebook, além do Troféu Itapuca.
Antologia e festa – O edital já está disponível no site da editora (www.editora.uff.br/editais) com inscrições até 15 de agosto. Os vencedores do 6º Prêmio UFF de Literatura serão anunciados no dia 17 de dezembro, durante cerimônia na qual também será lançada uma antologia com 20 textos selecionados, nas categorias crônica, conto e poesia, organizada pela Editora da UFF, com o patrocínio da Fundação Euclides da Cunha, da Pró-Reitoria de Extensão da UFF e da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro. Os classificados em primeiro lugar em cada gênero literário receberão 10 (dez) exemplares da coletânea; os segundos colocados, 8 (oito); os terceiros, 5 (cinco). Os demais autores selecionados receberão 3 (três) exemplares, cada.
Podem participar do Prêmio UFF de Literatura escritores de língua portuguesa, editados ou inéditos, independentemente de sua nacionalidade. No entanto, o texto apresentado deverá ser rigorosamente inédito, seja na forma impressa ou na forma eletrônica. Não serão aceitas obras póstumas, nem aquelas assinadas por grupos. Cada concorrente poderá inscrever apenas um texto em cada categoria. O conto a ser enviado não pode ultrapassar quatro páginas, enquanto as crônicas e poesias deverão atingir, no máximo, três páginas.
Feliz é a instituição que tem a
força de gerar comunidade em torno de si (Schiller chega a atestar que esta é a
maior prova de viço que um empreendimento poderia dar).
No texto de hoje, o jornalista e historiador
Emmanuel Macedo Soares provoca a comunidade da Academia Niteroiense de Letras com um dado histórico: enquanto todos se mobilizam para
comemorar, no ano de 2013, os 70 anos de existência institucional da ANL, Emmanuel argumenta que a Academia já
passou dessa idade faz tempo.
Tal provocação nos faz lembrar a
afirmativa do jornalista e escritor Alan Riding segundo a qual: “A história é explosiva”. Sim, uma "pró-vocação",
um chamado às falas, afinal, qual seria o melhor modo de celebrar uma instituição
de cultura e pensamento senão pensando-a? Consideremos aberta a temporada de debates:
Li em algum lugar que a Academia
Niteroiense de Letras já começou a estocar foguetes para comemorar seus 70 anos
em 11 de junho de 2013. Coisa que nunca entendi, e até hoje não houve quem me
explicasse, é esse empenho da Academia em enganar sua idade, quando é fato
sabido e comprovado que ela foi fundada em 1931 e instalada a 28 de maio desse
ano na Faculdade de Direito, com toda pompa e circunstância. Dizem que essa
fundação não valeu, porque a Academia nunca funcionou. Mas funcionou, sim. Elegeu
25 acadêmicos e o interventor federal Ari Parreiras até prestigiou a posse
solene da primeira diretoria efetiva, em 22 de dezembro de 1931, com Raul de
Oliveira Rodrigues confirmado na presidência. Dos fundadores de 1931, muitos
voltaram para a refundação de 1943. Mas pelo menos dois tiveram cassada a
láurea acadêmica: Edésio Barbosa da Silva e Honório Peçanha. Cassados duas
vezes, aliás, porque ambos viviam e gozavam de excelente saúde em 1973, quando
a Academia ressurgiu de novo das cinzas. A exclusão de Honório até se pode explicar,
o que não significa entender: era considerado comunista e a 2ª Academia nasceu
do ventre da ditadura do Estado Novo, quando os comunistas não gozavam de
nenhum prestígio, muito pelo contrário. Foi novamente cassado pela 3ª Academia
de 1973, e pelo mesmíssimo motivo, estávamos entrando nos tristes Anos de Chumbo de outra triste ditadura.
Mas o doutor Edésio! O que fez este pacífico homem, mergulhado em suas
pesquisas da história de Porciúncula para merecer a cassação? Bom... voltando
às datas. A Academia de 1931 adormeceu logo no ano seguinte, é verdade. Mas a
de 1943 também adormeceu, desde 1955, quando o bom e insubstituível Horácio
Pacheco transferiu a presidência a monsenhor Uchoa. Com alguma benevolência
consideremos como atividade o fato de
ter assinado em 1959 o manifesto de lançamento do Movimento Cultural Fluminense,
bela ideia de dois Pimentéis: o Paulo
César, que já se foi, e o Luís Antônio, que para o bem do povo e felicidade
geral da nação continua entre nós. Depois disso, a Academia só dá sinais de
vida em agosto de 1973, quando passa de fato a existir, depois da desastrada
reforma que fez dela uma espécie de Academia Nítero-Cantagalense de Letras.
Digo isso porque entre outras ilustres sumidades injetou como patronos os
cantagalenses Silva Santos, José Carlos Rodrigues, Euclides da Cunha (vá lá),
que nunca ouviram falar em praça Araribóia. E até Américo de Castro, que
nasceu em Cantagalo mas foi trocar a primeira fralda na Espanha, enquanto
niteroienses como Felisberto de Carvalho ou Adelino Magalhães ficaram no maruí
do esquecimento. Pecadilho menor, que não vem ao caso. O que realmente incomoda
é essa discrepância de datas de fundação, que um dia há de ser corrigida. Que
as belas e vaidosas mulheres enganem a idade, é até charmoso. Mas não se admite
que uma sociedade dita cultural vire as costas com tanta sem-cerimônia para a
história. No caso, sua própria história.
Este retardatário gosto de
pureza, que me vem à boca do fundo coração, não sei se é tédio ou o sinal
de alvoradas renascentes.
Na areia branca onde a onda tenta
apagar vestígios de pés e levar todas as conchas, me deixo à espera de
outra vagas carregadas de conchas ou de passos que tatuem novas marcas na
epiderme do coração.
Pobre coração marinheiro, tão marcado, de que
canto obscuro desenterras imprevistamente esta harpa cheia de algas e de sons
submersos?
(JORGE, J. G. de Araújo. Harpa submersa. In: Harpa Submersa. São Paulo, 1952)
Sim,
falando sério sobre as coisas sérias da vida; a verdade ainda manda dizer: em tom afável e sem afetação de solenidade.
Tempo,
vida, família, memória... Está tudo aí! É ler e sentir a crônica do escritor
Sandro Pereira Rebel (cadeira cativa neste blog formado de literatura e vivências).
Mamã, papá, vô,
vó. Antes, houve, é claro, o berreiro da
chegada e aqueles incômodos salpicos de água benta na pia batismal. Depois, o
primeiro tombo, o segundo, o terceiro, o vigésimo, o trigésimo oitavo, perde-se
a conta. O primeiro “Parabéns pra você”, que confusão, não se entende nada. Mas
teve brinquedo, principalmente muita bola.E veio a professorinha do Jardim, sempre recordada, vida afora, com
muita ternura. Logo após, a que nos ensinou o beabá, e que, naquele tempo, nem
era chamada de tia.Gripes, caxumba,
catapora, amigdalite, rinite, otite e outros ites, todos, felizmente, sem
gravidade, vão se sucedendo. Alergias também entram no rol, algumas tão
esquisitas que mais parecem explicação de médico que não tem, ou não sabe, o
que explicar. Mas, pelas mãos de Deus, e atrelados a seu parceiro, o tempo, a
gente vai em frente, às vezes aos trancos e barrancos, mas sempre em frente.
Vem o namoro do alvorejar da mocidade,
um beijinho hoje, mais um daqui a vinte dias, no escurinho do cinema, depois de
prometido, a muito custo, em meio aos volteios de um bolero ou aos enleios de
um fox-blue. Ah, que bonito! Os amigos dizendo que não, que somos românticos
demais, e tentando nos encaminhar para os descaminhos.Que será de nós quando crescermos? Profissão
do pai, será uma boa? Mas é tão antiga... E têm tantas outras por aí à nossa
volta, mais rendosas.... O avô e a avó já se foram há muito. O pai deve estar
se preparando, quer dizer, sendo preparado para também ir. A mãe não demora e
passa a ser a bola da vez. Será que vamos casar? E com quem? E filhos, será que
vamos ter? Quantos? E que fazer deles? O vestibular, a faculdade, os
professores nos passando uma porção de ensinamentos inúteis, como, aliás, já
haviam feito, só que com menos requinte e pompa, os seus colegas de cátedra lá
nos primórdios dos nossos estudos. O pai, que estava por ir, já foi mesmo. A
mãe, viúva, certamente que não vai durar muito tempo. E vêm o “enfim sós” e as consequências, os filhos. A mãe realmente
não durou quase nada. O trabalho, nunca se sabe se escolhemos o melhor. O mais
das vezes não é aquele que almejamos. Mas vai dando para o gasto. Um sucessinho
aqui, outro acolá, um percalço a menos, outro a mais, nem tudo dá certo mas podia ser pior. E o patrimônio? Sim, sempre ouvimos dizer que, para ser bem
respeitado, o homem tem de ter um sólido patrimônio. Mas damos graças aos céus
quando conseguimos possuir um só apartamentozinho que seja, usando aquele
financiamento oficial que só se consegue quitar com a certidão de óbito. Mas,
paciência, também isto está pra lá de bom. Afinal, os filhos já estão
crescidos, exercendo profissões meio inusitadas para o nosso gosto, não mais só
as de médico, advogado, engenheiro, dentista, veterinário e mais uma meia dúzia
de outras que davam maior e melhor “status” no nosso tempo. A informática chega,
tudo se torna computadorizado e globalizado, e as atividades vinculadas a ela
ou dela decorrentes ficam sendo – como
dizem eles – as “quentes”. E não é que aquelas crianças já até estão nos
falando de genros e noras e nos prometendo muitos netos? E daí em diante,
principalmente depois que essa promessa– a dos netos –se torna linda
realidade, as coisas passam a acontecer atropeladamente, a toque de caixa, a
vida resolve correr demais na frente da gente. Ah, que saudade das gripes, da
caxumba, da catapora, das alergias! As nossas atuais mazelas requerem cautelas
bem maiores. Há que se ver e controlar permanentemente as taxas de colesterol,
ureia, creatinina, ácido úrico, glicose, triglicerídios, estar sempre
fiscalizando o coração, os pulmões, a próstata etc., há que se pensar, enfim,
mais seriamente que nunca, que somos apenas pobres mortais morríveis a qualquer
hora. Pois depois dos tantos questionamentos, como os lembrados acima– que compõem o painel de nossas vidas, e que
em verdade são, enquanto de algum modo participamos daconstrução delas, a sua grande motivação –,de repente nos sentimos postos inteiramente à
margem dos seus rumos, a mercê apenas e tão somente do inexorável passar do
tempo. A tal ponto e com tamanha intensidade é esta a realidade que se põe diante de nós nessa quadra da vida, que só o
que então nos fica restando, para encará-la, é a total entrega àquela
indagação, suprema e última, que precede, inexorável e irrespondível, o
princípio e o fim de tudo e de todos: e agora, o que virá?
A concisa peça
teatral de Norberto Seródio Boechat, De Repente,
Vozes, encena poeticamente, atitudes psicológicas e filosóficas do viver
humano através do dramático diálogo de duas figuras alegóricas [1] em
tensão: a Ponte e o Rio. Iluminando reflexões fundamentais de conteúdo
universal, o autor, com novos timbres e imagens, problematiza situaçõesexistenciais frequentes entre pensadores do
passado e do presente.
A trama de
Boechat se desenrola num ambiente campesino de tonalidades neoclássicas e
românticas, sugeridas no texto pela rubrica com as marcações de palco. Delineia-se,
então, no imaginário do leitor/espectador a cena introdutória: o lusco-fusco de
um entardecer/ anoitecer bucólico, em que a paisagem natural, com exuberantes
metáforas, ganha conotações cósmicas atemporais: montanhas, um vale, voos de
pássaros, ruídos rurais de um final do dia, brisa suave levantando “cálices de
pó e folhas secas”, nuvens. Infinito.
Aberto
totalmente o pano do cenário, eis, em primeiro plano, os dois núcleos geradores
do relato. De um lado, a Ponte: solitária, contemplativa, imutável. Petrificada
entre dois rochedos. Com a madeira corroída pelo tempo e pelos dramas a que assiste,
mostra-se majestosa. Mas, sendo uma representação anímica das inquietações
humanas, sofre tensões subterrâneas. Sem vida própria, sente “as dores e
alegrias” dos que por ela passam e “entram em (sua) essência e fazem vibrar o
íntimo de (suas) fibras envelhecidas”. Vicariamente, delega suas emoções aos
transeuntes que vêm e vão; ao vento “que leva ao pó (suas) feridas”; à chuva,
que lhe “lava as entranhas”. Busca, assim, “nessa vida todo seu significado e
grandiosidade”, ainda que, em segredo, ou inconsciente, deseje as palpitações do
mundo.
De outro
lado, o Rio, em contínua movência e mutações. Corajoso, ele aceita e assume “o
universal destino”, que lhe foi traçado. Mas não se cristaliza em verdades
prontas. Aventura-se. Transita por continentes. Confere beleza ao entorno. “Penetra
as rochas em mil desenhos”. “Junta-se ao mar’. Renova-se. “É expressão do infinito
na infinitude das formas”. “Jamais, repete os movimentos”. Como já pensara Heráclito,
suas águas, de fato, nunca são iguais. Ninguém passa duas vezes pelo mesmo rio.
Porém, apesar da importância, sofre igualmente “as dores e o peso dos corpos”
dos que por ele navegam. Convive com antinomias. Partilha da ambivalência das
coisas, conforme confessa à Ponte: “Não vês que, há milênios, transporto
esperança, luzes nos conveses. Mas ao mesmo tempo, escuridão nos porões?”. Julga-se,
entretanto, um semideus: “Sabes, quase sou uma divindade: carrego a força da
vida, o princípio... e o fim”. Imerso na primitividade arcaica, ele reúne em si
o dualismo do sacer, do sagrado
inaugural, quando claridade e trevas, começo e término deveriam ter-se abraçado
sem os maniqueísmos reducionistas das
posteriores religiões.
O simbólico
universo acima, apenas esboçado, claramente denota que a proposta de Boechat é
colocar em questão, por meio de emblemas alegóricos, o Grande Teatro da Alma,
onde contracenam e se conflitam duas condutas humanas divergentes: o conformado
imobilismo dos indivíduos-Ponte e a dinâmica construtiva dos seres-Rio. Com
argumentos específicos a ambos, tal mensagem se dá a entender quando se digladiam
as codificadas certezas de um, diante da mutante fluidez dos atos em processo,
do outro. Pedagógico sem proselitismo, o autor pretende demonstrar por esse
embate que tudo depende da decisão pessoal. Das escolhas, pois o problema
central reside no crucial impasse: acolher a inércia da Ponte ou o fluir arfante
do Rio? Aceitar o risco aleatório do novo ou o desenho existencial já riscado
pelo destino, embora só Deus conheça por inteiro o traçado do bordado?
Porém, o final
da peça deixa entrever o triunfo – ainda que provisório –, da ação humana. Ação que
gradativa se vai construindo rumo àquela infinidade de formas ainda sem forma, em
compasso e confluência com a harmonia circulante no cosmos. Tanto que, diante do
apelo actante e vitalista do Rio, a Ponte, até então estática, foi-se dissolver
na incessante correnteza das Águas. “Uma farpa de madeira” – parte de si –
irrigou-se na vida. Metonimicamente, ela imergiu no todo. Universalizou-se. Com
delicadeza, a cena conclusiva, em frases curtas, deslizantes, sonoras, traduz o
momento de sua essencial e delicada entrega:
Uma farpa de
madeira seca desprende-se lentamente. Desenha movimentos no ar, e em seguida, deita-se suavemente sobre a água.
Flutua.
Perde-se, inexoravelmente, no fluxo.
2- A questão da influência e o desvio do
cânone
A escrita
alegoria de Boechat preserva, nos bastidores textuais de sua construção, um
palimpsesto de memórias literárias e filosóficas. Camadas superpostas de vários
estilos artísticos, de visões de mundo, de eternas inquietações filosóficas estão
ali – submersas, mas pulsantes – entre as frestas do discurso numa interlocução
bem moderna. Nas últimas décadas– com os
estudos críticos de Harold Bloom (A angústia
da influência, O mapa da desleitura), de Gérard Genette (Palimpsestes), de Júlia Kristeva (Semanálise) sobre a intertextualidade, de
Mikail Bakhtin e de demais mentores dos estudos literários – sabe-se que a
influência de um autor sobre outro não mais se sustenta segundo a concepção do
passado.
À luz do
revisionismo teórico atual, cada escritor, apesar de conservar ecos temáticos ou
linhas estruturais dos que o precederam, instaura seu próprio fazer. Constrói
seu caminho pela qualidade da divergência e não pela mera identidade dos modelos
preexistentes. Não imita. Recria. Redimensiona o existente. Aliás, influência,
para Nietzsche, já significava revitalização. Desvio da norma para instaurar o novo.
Sobre isso, Harold
Bloom elaborou longa meditação, ligada à leitura dos antigos pelos modernos.
Expõe que o produtor de agora traz, no inconsciente, uma bagagem de escritas e,
ao compor sua obra, se deixa contagiar por tudo ali estocado. Para Bloom, o autor
do presente deve “ler”, mas “desler” os predecessores, a fim de amortecer a
tradição e processar o “desvio” do cânone. Contudo, sem “a angústia da
influência”, pois, mesmo que não o queira, a voz do outro estará “pichada em tinta
invisível nas entrelinhas” da nova produção. Ou melhor, ressoando, nela. O teórico
norte-americano empregou o termo clinamen,
colhido no latino Lucrécio, para significar a misreading, isto é, a desleitura e o “desvio” de um texto em
relação à obra do antecessor.
Tal explicação
acima, meio extensa, surgiu aqui porque, em De
Repente, Vozes, sonorizam-se, interlocutivos, temas e procedimentos
literários diversos. Logo avulta, por exemplo, o artifício da alegoria, comum entre
os clássicos gregos e latinos, com propostas moralizantes e construções
animistas, embora a alegoria tenha ressurgido, revigorada, na Idade Média, no Neoclassicismo
(Arcadismo), noRomantismo e, no século XX, sobretudo com os estudos de Walter
Benjamin.
Também ecos
de Thomas Merton, o monge filósofo da “contemplação” e da “ação” – as duas linhas de força da peça de Boechat – dão-se
a ouvir “nas entrelinhas”, em que
pese o episódio ali narrado seja totalmente outro. Porém, aproxima-se dele pelo
estilo, pela paisagem, pelo enfoque da natureza antropomorfizada. Lembra,
sobretudo certas passagens alegóricas de A
via de Chuang-Tzu, um dos livros de Merton [2].
Além disso,
há o emprego da prosopopeia, figura da linguagem literária de certos contos antigos
e do universo do faz-de-conta do “Era uma vez”, onde bichos e seres inanimados
falam e dramatizam ações humanas. A estrutura e o tom da peça fazem também pensar
em um apólogo, composição dialogada em prosa ou verso com uma lição moral, na
qual figuram objetos imagisticamente dotados de palavras, de que é
paradigmático exemplo “A agulha e a linha”, de Machado de Assis.
Já na trilha
dos pré-socráticos, emerge, em De Repente,
Vozes, “pichada em tinta invisível”, a cosmovisão de Parmênides, o filósofo
do permanente, opondo-se ao vir-a-ser de Heráclito, o filósofo da mudança. E,
na mesma dimensão dinâmica do devir, mais modernamente lá está, camuflado, Ernst
Bloch, o pensador alemão do “princípio esperança”, com os companheiros
comungantes do mesmo credo que acentuaram, na esteira marxista, o poder
transformador do Homem, graças à ação.
A trama de
Boechat requisita ainda mais memórias para o convívio intertextual renovador. A
Ponte, por sua vez, na aparente harmonia, equilíbrio e precisão dos inícios, representa
o lado apolíneo. E o Rio, turbilhonante de paixões criativas, recorda o sensório
desconstrutivismo dionisíaco. Estão, aí, os dois polos articuladores das
tensões do trágico, problemática tão bem desenvolvida por Nietzsche em A origem da tragédia.
3- Conclusão
Norberto
Seródio Boechat abasteceu-se em fontes originárias, recriando-as nas águas de
sua cisterna. “Leu” e “desleu” os mestres. Realizou o clinamen, preconizado por Bloom. Aliás, esta não é uma maneira indireta
e generosa de entregar aos leitores o que os antigos têm de melhor? Mas, ao mesmo tempo, Boechat marcou a sua diferença,
na confluência de múltiplas vozes: antigas e atuais. Daí, a perfeita adequação
do título: De Repente, Vozes, Vozes que “não mais que de repente”, se
fizeram ouvir na placidez silente de um simbólico anoitecer neoclássico-romântico
nas tonalidades modernas de seu alegórico Teatro da Alma. Vozes para levarem os
humanos a pensarem... Pensarem... Pois “o pensamento não é uma centelha de Deus
nas sinapses?” [3].
Então, “por que não permitir que uma
velha Ponte discuta com o Rio?”.
[1]Alegoria aquiéentendida no etimológico sentido grego de allós = outro + agorein = falar. De ser uma coisa, mas falar (representar)
outra, ou melhor, de apontar para algo diverso de sua intrínsecarealidade. As alegorias encarnam conceitos
abstratos, “modelares”, cuja existência está em outro lugar de sua própria
representação. Talvez a melhor definição de alegoria seja a de Isidoro de
Sevilha: et aliud enin sonatet allud intelligentur, ou seja:” dizer
uma coisa, significando outra”.
[2] Thomas Merton (1915-1968) escritor
norte-americano, embora nascido na França, compôs, nesta obra, uma série de
versões pessoais de trechos clássicos do filósofo do século IV ou III a.C.,Chuang Tzu, talvez o mais espiritual dos pensadores chineses
representantes do taoísmo.A “re-criação”
também da sabedoria antiga por Merton, um místico moderno, oferece uma visãoextraordinária do mundo e do pensamento
intemporal.Merton influenciou
intelectuais, políticos e espiritualistas das décadas de 70 e 80 do século
passado.
[3]Sinapse, local de contato entre neurônios, onde ocorre
a transmissão de impulsos nervosos de uma célula à outra.
O eclético cronista, contista, jornalista, poeta
e desenhista Antônio Soares (literariamente Aso) prepara, para este ano, um livro
que promete boas críticas. Sabendo como criar a expectativa aos seus leitores
(técnicas, quem sabe, aprendidas com o “Amigo da Onça”, que ele desenhou para o magazine O Cruzeiro depois da morte de Carlos Estevão), Aso apenas envia ilustração, feita de próprio punho,
dos personagens de seus principais contos.
Esquadrão da morte em "Nada a ver com a filha do prefeito"
Em vez de "A Pantera (que é animal esrangeiro) Côr de Rosa", vem à cena policial "A Jaguatirica (bicho tupiniquim) Côr de Abóbora". Assim a reportagem especializada criou o "Inspetor Cruz-ô", ironizando o franzino detetive Aldenir Moura ("Miúdo" para os íntimos ... e os demais também) que investigava os sucessivos óbitos - acidentes fatais, segundo a Perícia - ocorridos no Edifício Encarnação, atribuindo-os a um "Esquadrão da Morte".
O ananicado tira, entretanto, insistia na tese de assassinatos, não descartando também a sinistra hipótese de que um "serial killer" vinha ceifando vidas no condomínio.
Eis o mistério focalizado em "Nada a Ver Com a Filha do Prefeito" que o leitor encontrará no livro "- Ouçam-me, por favor! Estou aqui! e outros contos ilustrados" que o jornalista/cartunista Antônio Soares (Aso) editará ainda neste semestre.