“Ser anfitrião das belas letras.”
Com esta legenda, o presente Blog pretende abrir espaço para os talentos da literatura (com ênfase na fluminense). Tal sítio é reservado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias. Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária é o nosso papel.
Este retardatário gosto de
pureza, que me vem à boca do fundo coração, não sei se é tédio ou o sinal
de alvoradas renascentes.
Na areia branca onde a onda tenta
apagar vestígios de pés e levar todas as conchas, me deixo à espera de
outra vagas carregadas de conchas ou de passos que tatuem novas marcas na
epiderme do coração.
Pobre coração marinheiro, tão marcado, de que
canto obscuro desenterras imprevistamente esta harpa cheia de algas e de sons
submersos?
(JORGE, J. G. de Araújo. Harpa submersa. In: Harpa Submersa. São Paulo, 1952)
Sim,
falando sério sobre as coisas sérias da vida; a verdade ainda manda dizer: em tom afável e sem afetação de solenidade.
Tempo,
vida, família, memória... Está tudo aí! É ler e sentir a crônica do escritor
Sandro Pereira Rebel (cadeira cativa neste blog formado de literatura e vivências).
Mamã, papá, vô,
vó. Antes, houve, é claro, o berreiro da
chegada e aqueles incômodos salpicos de água benta na pia batismal. Depois, o
primeiro tombo, o segundo, o terceiro, o vigésimo, o trigésimo oitavo, perde-se
a conta. O primeiro “Parabéns pra você”, que confusão, não se entende nada. Mas
teve brinquedo, principalmente muita bola.E veio a professorinha do Jardim, sempre recordada, vida afora, com
muita ternura. Logo após, a que nos ensinou o beabá, e que, naquele tempo, nem
era chamada de tia.Gripes, caxumba,
catapora, amigdalite, rinite, otite e outros ites, todos, felizmente, sem
gravidade, vão se sucedendo. Alergias também entram no rol, algumas tão
esquisitas que mais parecem explicação de médico que não tem, ou não sabe, o
que explicar. Mas, pelas mãos de Deus, e atrelados a seu parceiro, o tempo, a
gente vai em frente, às vezes aos trancos e barrancos, mas sempre em frente.
Vem o namoro do alvorejar da mocidade,
um beijinho hoje, mais um daqui a vinte dias, no escurinho do cinema, depois de
prometido, a muito custo, em meio aos volteios de um bolero ou aos enleios de
um fox-blue. Ah, que bonito! Os amigos dizendo que não, que somos românticos
demais, e tentando nos encaminhar para os descaminhos.Que será de nós quando crescermos? Profissão
do pai, será uma boa? Mas é tão antiga... E têm tantas outras por aí à nossa
volta, mais rendosas.... O avô e a avó já se foram há muito. O pai deve estar
se preparando, quer dizer, sendo preparado para também ir. A mãe não demora e
passa a ser a bola da vez. Será que vamos casar? E com quem? E filhos, será que
vamos ter? Quantos? E que fazer deles? O vestibular, a faculdade, os
professores nos passando uma porção de ensinamentos inúteis, como, aliás, já
haviam feito, só que com menos requinte e pompa, os seus colegas de cátedra lá
nos primórdios dos nossos estudos. O pai, que estava por ir, já foi mesmo. A
mãe, viúva, certamente que não vai durar muito tempo. E vêm o “enfim sós” e as consequências, os filhos. A mãe realmente
não durou quase nada. O trabalho, nunca se sabe se escolhemos o melhor. O mais
das vezes não é aquele que almejamos. Mas vai dando para o gasto. Um sucessinho
aqui, outro acolá, um percalço a menos, outro a mais, nem tudo dá certo mas podia ser pior. E o patrimônio? Sim, sempre ouvimos dizer que, para ser bem
respeitado, o homem tem de ter um sólido patrimônio. Mas damos graças aos céus
quando conseguimos possuir um só apartamentozinho que seja, usando aquele
financiamento oficial que só se consegue quitar com a certidão de óbito. Mas,
paciência, também isto está pra lá de bom. Afinal, os filhos já estão
crescidos, exercendo profissões meio inusitadas para o nosso gosto, não mais só
as de médico, advogado, engenheiro, dentista, veterinário e mais uma meia dúzia
de outras que davam maior e melhor “status” no nosso tempo. A informática chega,
tudo se torna computadorizado e globalizado, e as atividades vinculadas a ela
ou dela decorrentes ficam sendo – como
dizem eles – as “quentes”. E não é que aquelas crianças já até estão nos
falando de genros e noras e nos prometendo muitos netos? E daí em diante,
principalmente depois que essa promessa– a dos netos –se torna linda
realidade, as coisas passam a acontecer atropeladamente, a toque de caixa, a
vida resolve correr demais na frente da gente. Ah, que saudade das gripes, da
caxumba, da catapora, das alergias! As nossas atuais mazelas requerem cautelas
bem maiores. Há que se ver e controlar permanentemente as taxas de colesterol,
ureia, creatinina, ácido úrico, glicose, triglicerídios, estar sempre
fiscalizando o coração, os pulmões, a próstata etc., há que se pensar, enfim,
mais seriamente que nunca, que somos apenas pobres mortais morríveis a qualquer
hora. Pois depois dos tantos questionamentos, como os lembrados acima– que compõem o painel de nossas vidas, e que
em verdade são, enquanto de algum modo participamos daconstrução delas, a sua grande motivação –,de repente nos sentimos postos inteiramente à
margem dos seus rumos, a mercê apenas e tão somente do inexorável passar do
tempo. A tal ponto e com tamanha intensidade é esta a realidade que se põe diante de nós nessa quadra da vida, que só o
que então nos fica restando, para encará-la, é a total entrega àquela
indagação, suprema e última, que precede, inexorável e irrespondível, o
princípio e o fim de tudo e de todos: e agora, o que virá?
A concisa peça
teatral de Norberto Seródio Boechat, De Repente,
Vozes, encena poeticamente, atitudes psicológicas e filosóficas do viver
humano através do dramático diálogo de duas figuras alegóricas [1] em
tensão: a Ponte e o Rio. Iluminando reflexões fundamentais de conteúdo
universal, o autor, com novos timbres e imagens, problematiza situaçõesexistenciais frequentes entre pensadores do
passado e do presente.
A trama de
Boechat se desenrola num ambiente campesino de tonalidades neoclássicas e
românticas, sugeridas no texto pela rubrica com as marcações de palco. Delineia-se,
então, no imaginário do leitor/espectador a cena introdutória: o lusco-fusco de
um entardecer/ anoitecer bucólico, em que a paisagem natural, com exuberantes
metáforas, ganha conotações cósmicas atemporais: montanhas, um vale, voos de
pássaros, ruídos rurais de um final do dia, brisa suave levantando “cálices de
pó e folhas secas”, nuvens. Infinito.
Aberto
totalmente o pano do cenário, eis, em primeiro plano, os dois núcleos geradores
do relato. De um lado, a Ponte: solitária, contemplativa, imutável. Petrificada
entre dois rochedos. Com a madeira corroída pelo tempo e pelos dramas a que assiste,
mostra-se majestosa. Mas, sendo uma representação anímica das inquietações
humanas, sofre tensões subterrâneas. Sem vida própria, sente “as dores e
alegrias” dos que por ela passam e “entram em (sua) essência e fazem vibrar o
íntimo de (suas) fibras envelhecidas”. Vicariamente, delega suas emoções aos
transeuntes que vêm e vão; ao vento “que leva ao pó (suas) feridas”; à chuva,
que lhe “lava as entranhas”. Busca, assim, “nessa vida todo seu significado e
grandiosidade”, ainda que, em segredo, ou inconsciente, deseje as palpitações do
mundo.
De outro
lado, o Rio, em contínua movência e mutações. Corajoso, ele aceita e assume “o
universal destino”, que lhe foi traçado. Mas não se cristaliza em verdades
prontas. Aventura-se. Transita por continentes. Confere beleza ao entorno. “Penetra
as rochas em mil desenhos”. “Junta-se ao mar’. Renova-se. “É expressão do infinito
na infinitude das formas”. “Jamais, repete os movimentos”. Como já pensara Heráclito,
suas águas, de fato, nunca são iguais. Ninguém passa duas vezes pelo mesmo rio.
Porém, apesar da importância, sofre igualmente “as dores e o peso dos corpos”
dos que por ele navegam. Convive com antinomias. Partilha da ambivalência das
coisas, conforme confessa à Ponte: “Não vês que, há milênios, transporto
esperança, luzes nos conveses. Mas ao mesmo tempo, escuridão nos porões?”. Julga-se,
entretanto, um semideus: “Sabes, quase sou uma divindade: carrego a força da
vida, o princípio... e o fim”. Imerso na primitividade arcaica, ele reúne em si
o dualismo do sacer, do sagrado
inaugural, quando claridade e trevas, começo e término deveriam ter-se abraçado
sem os maniqueísmos reducionistas das
posteriores religiões.
O simbólico
universo acima, apenas esboçado, claramente denota que a proposta de Boechat é
colocar em questão, por meio de emblemas alegóricos, o Grande Teatro da Alma,
onde contracenam e se conflitam duas condutas humanas divergentes: o conformado
imobilismo dos indivíduos-Ponte e a dinâmica construtiva dos seres-Rio. Com
argumentos específicos a ambos, tal mensagem se dá a entender quando se digladiam
as codificadas certezas de um, diante da mutante fluidez dos atos em processo,
do outro. Pedagógico sem proselitismo, o autor pretende demonstrar por esse
embate que tudo depende da decisão pessoal. Das escolhas, pois o problema
central reside no crucial impasse: acolher a inércia da Ponte ou o fluir arfante
do Rio? Aceitar o risco aleatório do novo ou o desenho existencial já riscado
pelo destino, embora só Deus conheça por inteiro o traçado do bordado?
Porém, o final
da peça deixa entrever o triunfo – ainda que provisório –, da ação humana. Ação que
gradativa se vai construindo rumo àquela infinidade de formas ainda sem forma, em
compasso e confluência com a harmonia circulante no cosmos. Tanto que, diante do
apelo actante e vitalista do Rio, a Ponte, até então estática, foi-se dissolver
na incessante correnteza das Águas. “Uma farpa de madeira” – parte de si –
irrigou-se na vida. Metonimicamente, ela imergiu no todo. Universalizou-se. Com
delicadeza, a cena conclusiva, em frases curtas, deslizantes, sonoras, traduz o
momento de sua essencial e delicada entrega:
Uma farpa de
madeira seca desprende-se lentamente. Desenha movimentos no ar, e em seguida, deita-se suavemente sobre a água.
Flutua.
Perde-se, inexoravelmente, no fluxo.
2- A questão da influência e o desvio do
cânone
A escrita
alegoria de Boechat preserva, nos bastidores textuais de sua construção, um
palimpsesto de memórias literárias e filosóficas. Camadas superpostas de vários
estilos artísticos, de visões de mundo, de eternas inquietações filosóficas estão
ali – submersas, mas pulsantes – entre as frestas do discurso numa interlocução
bem moderna. Nas últimas décadas– com os
estudos críticos de Harold Bloom (A angústia
da influência, O mapa da desleitura), de Gérard Genette (Palimpsestes), de Júlia Kristeva (Semanálise) sobre a intertextualidade, de
Mikail Bakhtin e de demais mentores dos estudos literários – sabe-se que a
influência de um autor sobre outro não mais se sustenta segundo a concepção do
passado.
À luz do
revisionismo teórico atual, cada escritor, apesar de conservar ecos temáticos ou
linhas estruturais dos que o precederam, instaura seu próprio fazer. Constrói
seu caminho pela qualidade da divergência e não pela mera identidade dos modelos
preexistentes. Não imita. Recria. Redimensiona o existente. Aliás, influência,
para Nietzsche, já significava revitalização. Desvio da norma para instaurar o novo.
Sobre isso, Harold
Bloom elaborou longa meditação, ligada à leitura dos antigos pelos modernos.
Expõe que o produtor de agora traz, no inconsciente, uma bagagem de escritas e,
ao compor sua obra, se deixa contagiar por tudo ali estocado. Para Bloom, o autor
do presente deve “ler”, mas “desler” os predecessores, a fim de amortecer a
tradição e processar o “desvio” do cânone. Contudo, sem “a angústia da
influência”, pois, mesmo que não o queira, a voz do outro estará “pichada em tinta
invisível nas entrelinhas” da nova produção. Ou melhor, ressoando, nela. O teórico
norte-americano empregou o termo clinamen,
colhido no latino Lucrécio, para significar a misreading, isto é, a desleitura e o “desvio” de um texto em
relação à obra do antecessor.
Tal explicação
acima, meio extensa, surgiu aqui porque, em De
Repente, Vozes, sonorizam-se, interlocutivos, temas e procedimentos
literários diversos. Logo avulta, por exemplo, o artifício da alegoria, comum entre
os clássicos gregos e latinos, com propostas moralizantes e construções
animistas, embora a alegoria tenha ressurgido, revigorada, na Idade Média, no Neoclassicismo
(Arcadismo), noRomantismo e, no século XX, sobretudo com os estudos de Walter
Benjamin.
Também ecos
de Thomas Merton, o monge filósofo da “contemplação” e da “ação” – as duas linhas de força da peça de Boechat – dão-se
a ouvir “nas entrelinhas”, em que
pese o episódio ali narrado seja totalmente outro. Porém, aproxima-se dele pelo
estilo, pela paisagem, pelo enfoque da natureza antropomorfizada. Lembra,
sobretudo certas passagens alegóricas de A
via de Chuang-Tzu, um dos livros de Merton [2].
Além disso,
há o emprego da prosopopeia, figura da linguagem literária de certos contos antigos
e do universo do faz-de-conta do “Era uma vez”, onde bichos e seres inanimados
falam e dramatizam ações humanas. A estrutura e o tom da peça fazem também pensar
em um apólogo, composição dialogada em prosa ou verso com uma lição moral, na
qual figuram objetos imagisticamente dotados de palavras, de que é
paradigmático exemplo “A agulha e a linha”, de Machado de Assis.
Já na trilha
dos pré-socráticos, emerge, em De Repente,
Vozes, “pichada em tinta invisível”, a cosmovisão de Parmênides, o filósofo
do permanente, opondo-se ao vir-a-ser de Heráclito, o filósofo da mudança. E,
na mesma dimensão dinâmica do devir, mais modernamente lá está, camuflado, Ernst
Bloch, o pensador alemão do “princípio esperança”, com os companheiros
comungantes do mesmo credo que acentuaram, na esteira marxista, o poder
transformador do Homem, graças à ação.
A trama de
Boechat requisita ainda mais memórias para o convívio intertextual renovador. A
Ponte, por sua vez, na aparente harmonia, equilíbrio e precisão dos inícios, representa
o lado apolíneo. E o Rio, turbilhonante de paixões criativas, recorda o sensório
desconstrutivismo dionisíaco. Estão, aí, os dois polos articuladores das
tensões do trágico, problemática tão bem desenvolvida por Nietzsche em A origem da tragédia.
3- Conclusão
Norberto
Seródio Boechat abasteceu-se em fontes originárias, recriando-as nas águas de
sua cisterna. “Leu” e “desleu” os mestres. Realizou o clinamen, preconizado por Bloom. Aliás, esta não é uma maneira indireta
e generosa de entregar aos leitores o que os antigos têm de melhor? Mas, ao mesmo tempo, Boechat marcou a sua diferença,
na confluência de múltiplas vozes: antigas e atuais. Daí, a perfeita adequação
do título: De Repente, Vozes, Vozes que “não mais que de repente”, se
fizeram ouvir na placidez silente de um simbólico anoitecer neoclássico-romântico
nas tonalidades modernas de seu alegórico Teatro da Alma. Vozes para levarem os
humanos a pensarem... Pensarem... Pois “o pensamento não é uma centelha de Deus
nas sinapses?” [3].
Então, “por que não permitir que uma
velha Ponte discuta com o Rio?”.
[1]Alegoria aquiéentendida no etimológico sentido grego de allós = outro + agorein = falar. De ser uma coisa, mas falar (representar)
outra, ou melhor, de apontar para algo diverso de sua intrínsecarealidade. As alegorias encarnam conceitos
abstratos, “modelares”, cuja existência está em outro lugar de sua própria
representação. Talvez a melhor definição de alegoria seja a de Isidoro de
Sevilha: et aliud enin sonatet allud intelligentur, ou seja:” dizer
uma coisa, significando outra”.
[2] Thomas Merton (1915-1968) escritor
norte-americano, embora nascido na França, compôs, nesta obra, uma série de
versões pessoais de trechos clássicos do filósofo do século IV ou III a.C.,Chuang Tzu, talvez o mais espiritual dos pensadores chineses
representantes do taoísmo.A “re-criação”
também da sabedoria antiga por Merton, um místico moderno, oferece uma visãoextraordinária do mundo e do pensamento
intemporal.Merton influenciou
intelectuais, políticos e espiritualistas das décadas de 70 e 80 do século
passado.
[3]Sinapse, local de contato entre neurônios, onde ocorre
a transmissão de impulsos nervosos de uma célula à outra.
O eclético cronista, contista, jornalista, poeta
e desenhista Antônio Soares (literariamente Aso) prepara, para este ano, um livro
que promete boas críticas. Sabendo como criar a expectativa aos seus leitores
(técnicas, quem sabe, aprendidas com o “Amigo da Onça”, que ele desenhou para o magazine O Cruzeiro depois da morte de Carlos Estevão), Aso apenas envia ilustração, feita de próprio punho,
dos personagens de seus principais contos.
Esquadrão da morte em "Nada a ver com a filha do prefeito"
Em vez de "A Pantera (que é animal esrangeiro) Côr de Rosa", vem à cena policial "A Jaguatirica (bicho tupiniquim) Côr de Abóbora". Assim a reportagem especializada criou o "Inspetor Cruz-ô", ironizando o franzino detetive Aldenir Moura ("Miúdo" para os íntimos ... e os demais também) que investigava os sucessivos óbitos - acidentes fatais, segundo a Perícia - ocorridos no Edifício Encarnação, atribuindo-os a um "Esquadrão da Morte".
O ananicado tira, entretanto, insistia na tese de assassinatos, não descartando também a sinistra hipótese de que um "serial killer" vinha ceifando vidas no condomínio.
Eis o mistério focalizado em "Nada a Ver Com a Filha do Prefeito" que o leitor encontrará no livro "- Ouçam-me, por favor! Estou aqui! e outros contos ilustrados" que o jornalista/cartunista Antônio Soares (Aso) editará ainda neste semestre.
O
título evoca o livro que o saudoso educador e acadêmico Paulo de Almeida Campos
dedicou a Nova Friburgo – RJ, no ano de 1987. Entretanto, hoje, sob a mesma
legenda, temos aqui a obra de outro educador (advogado, jornalista, poeta) e
imortal da Academia Friburguense de Letras:
Humberto El-Jaick.
Nas
poesias de El-Jaick, temos um retrato lírico daquela cidade que – segundo a metáfora
de Rui Barbosa – seria a mais preciosa
esmeralda na coroa de nossas serras fluminenses.
Estejamos, pois, preparados para um pouco de memória e literatura friburguense e, por
extensão, fluminense.
Convicto do brocardo lobatiano
segundo o qual “um país se faz com homens e livros”, tentei elencar, de memória,
aqueles títulos que eu acreditava representar bem a cultura literária de
Niterói.Consultando várias pessoas
ligadas ao meio acadêmico de minha cidade, foi curioso o fato de minha lista
coincidir com os títulos apontados por aqueles conhecedores de livros. Diante
desta coincidência (ou deveria dizer “feliz serendipidade”), animei-me, sem
maiores pretensões, a apresentar quinzenalmente alguns dos livros que teriam, de
algum modo, marcado a cena literária niteroiense. Livros que trouxeram
contribuições substanciais em alguma área, inovações, resgates, celebrações de
datas festivas da cidade e que, até, ficaram conhecidos pelas polêmicas que
causaram.Em todos esses casos, o valor
literário ou histórico foi o que deu o critério para essas escolhas que – longe
de serem completas – serão singelos afagos na cultura de nossa
cidade.
Em cada
quinzena, o leitor de Literatura-Vivência poderá conhecer, no
Projeto “Livros que marcaram
Niterói”, um pouco mais das nossas letras.
O homem fluminense, de Vera de Vives
Aos conhecedores da
literatura especializada sobre o Rio de Janeiro parece ser patente a
importância e excelência que a tetralogia de Alberto Ribeiro Lamego possui.
Obra reconhecida e, ainda hoje, estudada com significativo proveito, O homem e a Serra, O homem e a Guanabara, O
homem e o Brejo e O homem e a Restinga
constituem um competente trabalho que envolve a geografia física, a demografia,
a etnologia e a geologia de nosso estado (quanto a este último item,
impressiona o autor dissertar até sobre a granulação dos compostos rochosos
presentes nos penedos de nossas serras!).
A atenção ainda hoje
voltada para estas obras foi, sem dúvida, a responsável pela tímida visitação
que se faz a outros títulos que enfocam, da mesma forma, aspectos
significativos de nosso Rio de Janeiro. Entre estes: O homem fluminense.
Editado em regime de
cooperação pela Fundação Estadual de
Museus do Estado do Rio de Janeiro e pelo Museu de Artese Tradições
Populares, no ano de 1977,
a obra foi idealizado por Elton Medeiros, embora toda a
pesquisa de campo e redação tenha ficado a cargo da jornalista e escritora Vera
de Vives.[1]
Produzido pela já referida Fundação, tendo como seu presidente Leonídio Ribeiro
Filho, o trabalho é fruto de uma pesquisa etnológica que pretendia registrar traços da vida rural: moradia/arquitetura,
as técnicas da lavoura, a pesca e seus ambientes (rios, banhados e lagoas), os
gêneros agrícolas cultivados, os utensílios, a culinária típica; a arte material, renda de bilros, os
santeiros e escultores de madeira, os artífices de instrumentos musicais, a
cerâmica manual etc; a arte imaterial
(nomeada pela autora “arte espiritual fluminense”), o caxambu e o jongo, boi
pintadinho e jaguará, folias de reis e do Divino, a Carvalhada, as festas de Paraty
e Saquarema etc...
Com metodologia bem fixada
e adequadas técnicas de pesquisa de campo, o trabalho que deu origem a O homem fluminense possuía uma única
justificativa: a de que era necessário documentar a cultura fluminense diante
do risco de sua descaracterização ante o inevitável avanço da cultura de massa.
Também um único objetivo: preservar as memórias
de nosso estado. E, por fim, uma generosa oferta: “O homem fluminense é uma homenagem a elas (as memórias do estado),
pela tenacidade com que souberam preservar suas raízes e tradições”. (p.3)
A elaboração dos sete
capítulos que compõem esta obra de mais de cem páginas exigiu da equipe
envolvida no projeto longas viagens por 23 municípios fluminenses. Luís Antônio
Pimentel (que colaborou como fotógrafo no livro), em depoimento exclusivo ao
Blog Literatura-Vivência, narra um
pouco dessa aventura: “Eram verdadeiras
incursões ao coração do estado. Havia horas em que andávamos léguas debaixo de
sol e comendo a poeira naquelas estradas de chão. Era um grande alento quando
podíamos nos abandonar nos bancos da kombi que vinha nos buscar. Mas ninguém da
equipe reclamava, estávamos todos cansados mas muito satisfeitos com o que fazíamos.
Só a Vera parecia não cansar!”. Além de Pimentel, trabalharam na
documentação fotográfica Jorge Sirito Vives (marido de Vera de Vives), Zalmir
Gonçalves, Gilson Barreto e Roberto Costa de Sá Peixoto. Estes fizeram com que O homem fluminense se tornasse um
documento ricamente ilustrado com requintes de detalhes.
Entre as três mencionadas
divisões do livro, a que certamente parece melhor documentada é aquela que
trata da “Arte espiritual fluminense”. Os folguedos são minuciosamente
descritos ali por meio da prosa límpida e objetiva de Vera de Vives. Esta parte
ainda traz as letras e as partituras das músicas que embalam àquelas
manifestações culturais. Destaquem-se, neste momento, as peças do mineiro-pau
de Santo Antônio de Pádua, a folia de reis de Duas Barras e a “Benção da
farinha”, oriunda da folia do Divino de Saquarema. Desta última, pedimos licença
para reproduzir, aqui, sua singeleza:
“São José,
Santa Maria
− Jesus,
Maria
Puxando a
sua bestinha
− Jesus,
Maria, protegei...
Jesus,
Maria.”
(p. 92)
Embora na época de seu
lançamento a obra tenha recebido uma ampla tiragem, todos estes anos sem uma
nova reedição faz com que exemplares de O
homem fluminense sejam mais frequentemente encontrados em bibliotecas
públicas e em estabelecimentos de ensino (proporcionalmente, são poucos os
exemplares pertencentes a particulares). Ainda que esta falta seja insuficiente
para considerar O homem fluminense um
livro raro, estamos convictos de que: por sua louvável iniciativa, sua
elaboração acurada e sua caprichosa acolhida, a Obrajá nasceu sobre a reputação de “raro livro”.
[1]Vera de Vives foi membro da AcademiaNiteroiense de Letras – ANLe durante década assinou uma coluna chamada “Diário
sem data”, no jornal O Fluminense. Entusiasmada
defensora da causa fluminensista, escreveu um romance dedicado à lenda
cantagalense do Mão de Luva, a obra se chama Descobertas e extravios (Record, 1997).