sexta-feira, 20 de abril de 2012

Projeto "Livros que marcaram Niterói" ("Presença da cultura fluminense", de Horácio Pacheco)


Convicto do brocardo lobatiano segundo o qual “um país se faz com homens e livros”, tentei elencar, de memória, aqueles títulos que eu acreditava representar bem a cultura literária de Niterói.  Consultando várias pessoas ligadas ao meio acadêmico de minha cidade, foi curioso o fato de minha lista coincidir com os títulos apontados por aqueles conhecedores de livros. Diante desta coincidência (ou deveria dizer “feliz serendipidade”), animei-me, sem maiores pretensões, a apresentar quinzenalmente alguns dos livros que teriam, de algum modo, marcado a cena literária niteroiense. Livros que trouxeram contribuições substanciais em alguma área, inovações, resgates, celebrações de datas festivas da cidade e que, até, ficaram conhecidos pelas polêmicas que causaram.  Em todos esses casos, o valor literário ou histórico foi o que deu o critério para essas escolhas que – longe de serem completas – serão singelos afagos na cultura de nossa cidade.

A contar de hoje, assim, em cada quinzena, o leitor de Literatura-Vivência poderá conhecer, no Projeto “Livros que marcaram Niterói”, um pouco mais das nossas letras.



Presença da cultura fluminense, de Horácio Pacheco


Presença da Cultura Fluminense em primeira e única edição.


“Admirardes a riquíssima paisagem cultural fluminense”. Sem saber que cravava um marco literário na cultura do estado do Rio de Janeiro, é com este convite que Horácio Pacheco finaliza o seu Presença da cultura fluminense. No discurso festivo, proferido em solenidade da Academia Fluminense de Letras – AFL, no dia 13 de março de 1975, o autor consagra à nossa terra, em páginas abreviadas, um de seus mais proeminentes retratos. A relevância deste breve documento só pode ser apreendida depois de situada no tempo em que foi concebida.
Editada a Lei Complementar nº 20, de 1974, e assinada pelo então Presidente da República Ernesto Geisel, fundiam-se a Guanabara e o Rio de Janeiro. Separados desde 1834, na data de 15 de março de 1975 se restauraria a unidade preexistente. Ainda que conservados os símbolos e legendas do antigo estado do Rio de Janeiro, e em meio ao inegável entusiasmo que a novidade provocava, alguns “antenas” esperavam com apreensão o produto dessa síntese. Ao fim da década de 1960, quando a fusão era apenas uma hipótese aventada, alguns intelectuais já se mostravam pressurosos quanto ao impacto de uma tal fusão sobre a identidade cultural da Velha Província. Não é por acaso que nesses anos tenham-se proliferado publicações que pretendiam “um registro de nosso patrimônio cultural” no qual “afigura-se oportuno mostrar, além das belezas panorâmicas, a exuberância dos nossos poetas e prosadores, e a alma fluminense.” Esta missão, tal como formulada por Jacy Pacheco em sua antologia literária Paisagem fluminense (1969), já havia sido intentada por Rubens Falcão um ano antes, em sua Antologia de Poetas Fluminenses (1968), além de perseguida pelo olhar antropológico de Vera de Vives, mesmo posteriormente à dita fusão, em O homem fluminense (1977). Contudo, é em Presença da Cultura Fluminense (1975), que vemos mais bem noticiados os traços identitários de nosso estado.
Ao lado das já referidas obras e de outras que versam sobre o Rio de Janeiro (neste último caso a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, do IBGE; e a alentada tetralogia de Alberto Ribeiro Lamego, O homem e a Guanabara, a Serra, o Brejo e a Restinga), o opúsculo de Horácio Pacheco difere não apenas por sua extensão mas, também, por sua natureza. Interessado em descrever traços sócio-político-culturais de um Rio de Janeiro originário, nos vemos diante de um discurso acadêmico. Peça que testemunha a viva tradição oratória que, àquela época, ainda exibia seu vigor, criatividade e erudição por meio das prédicas de mestre Horácio e das assinadas por nomes como Alberto Francisco Torres, Paulo de Almeida Campos, Alaôr Eduardo Scisínio, entre outros cavalheiros de uma nobre escola de cortesia e inteligência.
Na Ética a Nicômaco, Aristóteles orienta sobre o lidar com homens instruídos de diferentes ofícios. Segundo ele, seria insensato exigir, por exemplo, de um tribuno, demonstrações e conclusões rigorosas; do mesmo modo, aceitar raciocínios apenas prováveis de um matemático. No entanto, aquele velho heleno se admiraria ao verificar o grau de fidedignidade obtido por Horácio Pacheco em suas discrições do homo fluminensis, de suas imagens e visões de mundo. Tal fato se explica, por um lado, por nosso autor (um Bacharel em Direito por formação) ser, antes de tudo, um professor dotado de metódico interesse investigativo e oportuna preocupação didática; por outro, o fato de o autor ter nascido em Ribeirão Preto - SP, tendo escolhido em 1935 o RJ para nele se radicar, isso faz com que a condição fluminense de Horácio Pacheco não seja um lance do acaso, mas de um ato de vontade, um engajamento referendado por jus cordis. Entendemos que, não sendo nascido no Rio de Janeiro, o autor desfrutou de um distanciamento ótimo para fazer suas análises, ao mesmo tempo em que valorizava os apreciáveis atributos desse torrão.
Está enganado o leitor que reputaria Presença da cultura fluminense como resultado de intuições esparsas mescladas a protestos afetivos metidos em traje retórico, a receita de “misto de ensaio e epitalâmio, com borrifos de história, sociologia e antropologia cultural” dada pelo próprio Horácio e reforçada por Lyad de Almeida ainda é imprecisa, a ponto de não nos deixar entrever as matrizes disciplinares apropriadas de Alberto Lamego, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda (ousaria ainda assinalar, ali, traços apenas esboçados da presença de Arthur Ramos e Wilson Martins).
Depois de evidenciar, amparado pela ciência desses scholars, aspectos do comportamento dos fluminenses (esses generalizados sob o título de “técnica de bondade”), Horácio Pacheco indica também seus ofícios, culinária e folguedos. O olhar que o autor relanceia sobre a paisagem cultural do Rio de Janeiro ainda segue o rastro de cintilâncias deixado pelos melhores filhos da terra em diferentes épocas, locais (municípios) e áreas do saber. Horácio Pacheco elenca, por fim, de modo tão completo quanto o possível, o que é autenticamente fluminense nas artes, nas letras e nos fazeres de competência técnica. São oportunamente lembrados por nosso autor os nomes dos literatos poetas Luiz Pistarini, Lili Leitão, B. Lopes e os prosadores Silva Jardim, Agripino Grieco e José Cândido de Carvalho (esses dois últimos não só contemporâneos como também companheiros); nas ciências humanas Euclydes da Cunha, Alberto Torres e Oliveira Viana são ressaltados; especificamente na educação, Benjamin Constant, Felisberto de Carvalho, Guilherme Briggs e Bittencourt Silva são lembranças felizes, entre outros tantos ainda constantes na significativa tradição política, jurídica e médica do referido estado.
Caminhando para a peroração de seu discurso, Horácio Pacheco ainda registra um agradecimento cordial a instituições culturais que trabalhariam pela difusão cultural do estado do Rio de Janeiro. Nestes votos de consideração, se reforça a fé que o autor nunca deixou de depositar no movimento das academias de letras do estado, convicção esta constatada tanto nos diversos laços de pertencimento acadêmico que o autor conservava (não apenas como membro, mas como dirigente e, em alguns casos, fundador), quanto nas palavras judiciosas sobre essas Casas de cultura: “atalaias, todas elas, de nossa sobrevivência cultural”.
Publicado em agosto de 1975 pelo Instituto Niteroiense de Desenvolvimento Cultural, sob os auspícios de seu presidente Lyad de Almeida, a tiragem de mil exemplares feita nas oficinas da Gráfica Editora La Cava Santos definitivamente não foi suficiente para garantir o legado de Horácio Pacheco até a presente data.

Já não estaria na hora de uma segunda edição deste belo texto?





terça-feira, 17 de abril de 2012

Nosso primeiro ano...







Em meio aos muitos festejos do centésimo aniversário de Luís Antônio Pimentel, Literatura-Vivência completou seu primeiro ano de atividades. Naquela data, entendendo não poder concorrer com o nosso amado poeta (Pimentel é hors concour), preferimos reservar as comemorações do blog para quando nossa programação retornasse a sua rotina.

Comemore-se, portanto, desde já, a renovação dos votos de “ser anfitrião das belas letras”. Literatura-Vivência (o aniversariante) continuará voltado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias.

Nós, moderadores, almejamos prosseguir na tarefa de preservar a memória da literatura (especialmente a fluminense), promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária.
Além de nossa programação normal, Literatura-Vivência na próxima postagem (a ocorrer na sexta-feita), revelará o seu mais novo projeto. Aguardemos comemorando...






segunda-feira, 16 de abril de 2012

"O Amor Segundo Luís Antônio Pimentel" inclui fotografias tiradas por Pimentel e amigos alindam a presente edição, repleta de loas e hosanas ao amor (artigo de Roberto Santos em "O Fluminense" )















O Amor Segundo Luís Antônio Pimentel.
Luiz Augusto Erthal e Luiz Antonio Barros (Organizadores). Nitpress Editora. 160 páginas. R$ 35.



                                                                                                                                      


Nosso jovem centenário Luís Antônio Pimentel, em certos instantes, deixa-se levar por aquele clássico canto de Dante: “O amor me move. Só por ele eu falo”. Observando como o tema do amor é recorrente em seus inúmeros textos, Luiz Augusto Erthal e Luiz Antonio Barros organizaram a presente antologia, dividida em três belas dimensões: reunião de poemas, haicais e 12 dias com Leviana (novela relâmpago em 13 edições).
Roberto Kahlmeyer-Mertens, no “Prefácio”, anota que esses “três momentos integrantes se completam, fazendo com que a coletânea conserve coerência, coesão e efeitos estéticos de onde quer que se arranque à leitura”. Assim, perfeitamente esclarecido, o leitor logo lê no “Poema do Amanhã”: “Amanhã, quando fores minha,/ eu serei sol,/rompendo as brumas em que te envolveram./Meus gestos serão paisagem/ escorrendo ternura (...)” Adiante, o poeta confessa; ”eu tenho ciúmes do sol/ porque te beija muito...//Beija demais/o teu corpo formoso/ e a tua boca de carmim...”
No sopro erótico que funde amor e vida, fazendo coro com o vento do amor total — a Vinicius de Moraes —, Pimentel indica o amante desejo: “Amar-te a noite toda, e enquanto queiras,/Ver as dunas dos seios atrevidos/ e o gozo sombreando-te as olheiras;//e renovar o amor cada manhã,/ nos beijos, nas carícias, nos gemidos,/ no tapete, no leito, no divã”.
Famosos, sem dúvida, desde a década de 50, são seus haicais, dos quais, na pág. 85, há encantador exemplo: “Olhos de uva verde/ anunciam que teu corpo/ é taça de vinho.” Ou, em explosão de paixão, o revelado segredo; “Decorei teu corpo./Sei-o na ponta da língua/ melhor que ninguém”.
A novela “Leviana”, que recentemente ganhou brilho de peça teatral, é precedida por prefácio do poeta Gomes Filho, na 1ª edição. E dela, pouco a pouco, surge coleante perfil: “O relógio de Leviana só dizia as horas certas quando estava parado”; “Leviana tinha uma religião — o Amor; um deus — o Fingimento: e uma oração — o Pecado. Leviana dizia que pecar é muito mais humano que rezar.”
Não se pode deixar de ler, ao final do volume, “Glossário e Notas” e “Dados biobibliográficos” — aquele organizado pelo mestre Luiz Antonio Barros, e estes assinados pela pena inteligente e sensível de \Graça Porto.
Fotografias tiradas por Pimentel e amigos alindam a presente edição, repleta de loas e hosanas ao amor — sentimento que é “sede depois de se ter bem bebido”, no dizer de Guimarães Rosa. Na orelha do livro, Fernando de Aviz assegura que a lírica sinfônica de Pimentel é um “misto de contar e cantar, com duração mínima para os próximos 100 anos”.

Confira a matéria em seu contexto original clicando AQUI.






domingo, 15 de abril de 2012

Um soneto...







Não te arruínes, alma, enriquece

Centro da minha terra pecadora,
alma gasta da própria rebeldia,
porque tremes lá dentro se por fora
vais caiando as paredes de alegria?

Para quê tanto luxo na morada
arruinada, arrendada a curto prazo?
Herdam de ti os vermes? Na jornada
do corpo te consomes ao acaso?


Não te arruínes, alma, enriquece:
vende as horas de escória e desperdício
e compra a eternidade que mereces,


sem piedade do servo ao teu serviço.
Devora a Morte e o que de nós terá,
que morta a Morte nada morrerá.


(SHAKESPEARE, William. In: Sonetos. Tradução de Carlos de Oliveira)







Revista Internacional "Literacia" (novo número)



Caro Leitor,
Em nosso Editorial de hoje compartilho com você uma oração que recebi. Diante o mar de lama da corrupção que nos assola e envergonha só um milagre capaz de salvar o Brasil.
Quem sabe Deus é de fato Brasileiro?
Para seu Prazer de Ler, visite seu Colunista Preferido, vale conferir:
  
 Affonso Romano de Sant'Anna: O lobo e o cordeiro: versões
    
 Aquiles Reis: Poética alagoana

Eliana Crivellari: Gabriel N. Neves

  Roberto Kahlmeyer-Mertens: Da atualidade do projeto hermenêutico diltheyano.


  Valentina Latiffa: Harvard... para quem?


 Jairo Ferreira Machado: Olhos de rimel

José Félix: Auri sacra fames


Obrigada por sua companhia e boasleituras.
Sempre: Paz e Bem !
anamerij
A LITERACIA



sábado, 14 de abril de 2012

"Balada do Cavalão" - Poema de Vinícius de Moraes para Niterói


A ideia de cordialidade (esboçada por Ribeiro Couto, apropriada por Gilberto Freyre e formulada sob os rigores da ciência por Sérgio Buarque de Hollanda), tem sua síntese e corporificação  no nome Francisco Tomasco de Albuquerque. Vice-presidente do Instituto Histórico Geográfico de Niterói, presidente do Círculo Monárquico de Niterói, além de membro de inúmeras instituições acadêmico-literárias do Brasil, o pesquisador não é apenas versado in litteris et artibus, mas também no protocolo do bem receber. Quem já desfrutou do privilégio de visitar sua bela residência no bairro de São Francisco, em Niterói, certamente teve oportunidade de conhecer sua esplêndida  biblioteca de história (mapoteca em anexo) e de gozar da bela vista das praias de São Francisco e Charitas pela janela de sua ampla sala.
Comovido pela vista do morro do Cavalão e pela generosidade tipicamente mineira do casal Tomasco, minha maneira de agradecer a cordial acolhida nesta tarde de sábado é reproduzir, na postagem de hoje, a poesia que Vinícius de Moraes fez para o belíssimo mirante no qual residem o Professor Francisco Tomasco de Albuquerque  e sua esposa Marcia. 


Com toda dedicação e simpatia

Roberto Kahlmeyer-Mertens



Vista da praia de São Francisco do Morro do Cavalão


Balada do Cavalão




A tarde morre bem tarde
No morro do Cavalão...
Tem um poder de sossego.
Dentro do meu coração
Quanto sangue derramado!

Balança, rede, balança...

Susana deixou minha alma
Numa grande confusão
Seu berço ficou vazio
No morro do Cavalão:
Pequena estrela da tarde.

Ah, gosto da minha vida
Sangue da minha paixão!

Levou o anjo o outro anjo
Da saudade de seu pai
Susana foi de avião
Com quinze dias de idade
Batendo todos os recordes!

Que tarde que a tarde cai!

Poeta, diz teu anseio
Que o santo te satisfaz:
Queria fazer mais um filho
Queria tanto ser pai!

Voam cardumes de aves
No cristal rosa do ar.
Vontade de ser levado
Pelas correntes do mar
Para um grande mar de sangue!

E a vida passa depressa
No morro do Cavalão
Entre tantas flores, tantas
Flores tontas, parasitas
Parasitas da nação.

Quanta garrafa vazia
Quanto limão pelo chão!
Menina, me diz um verso
Bem cheio de ingratidão?
- Era uma vez um poeta
No morro do Cavalão
Tantas fez que a dor-de-corno
Bateu com ele no chão
Arrastou ele nas pedras
Espremeu seu coração
Que pensa usted que saiu?
Saiu cachaça e limão.

Susana nasceu morena
E é Mello Moraes também:
É minha filha pequena
Tão boa de querer bem!

Oh, Saco de São Francisco
Que eu avisto a cavaleiro
Do morro do Cavalão!
(O Saco de São Francisco
Xavier não chama não
Há de ser sempre de Assis:
São Francisco Xavier
É nome de uma estação)
Onde está minha alegria
Meus amores onde estão?

A casa das mil janelas
É a casa do meu irmão
Lá dentro me esperam elas
Que dormem cedo com medo
    Da trinca do Cavalão.

Balança, rede, balança...




Divulgação Cultural
(Clique na imagem para ampliar)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A “fluminensidade” novamente em pauta


Provando que a ideia de uma identidade fluminense não é provincianismo, o escritor Gilson Rangel Rolim, explora com proficiência a temática na postagem de hoje.





RJ – Identidade em questão




Devo dizer, inicialmente, que sou fluminense por escolha. Vindo do sul do Espírito Santo na primeira infância, aí pelo início dos anos 1930, por todo o resto de meus quase oitenta anos tenho vivido na Velha Província; em Niterói, por quase todo esse tempo. Portanto, com muito orgulho, me considero fluminense e, mais particularmente, niteroiense.

Não tem esta palestra a intenção de acirrar as divergências históricas que, de forma latente, às vezes dominam os fluminenses da capital (cariocas) e os das demais regiões do estado. O escopo deste trabalho é tecer algumas considerações sobre as origens deste nosso Rio de Janeiro, a partir da chegada do portugueses ao Cabo de S. Tomé (município de Campos dos Goytacazes) em 21 de dezembro de 1501, dez dias antes de chegarem à Baía de Guanabara.

Reconheço que o fato de ter sido o centro do poder no Brasil por quase duzentos anos (de 1763, com a transferência da capital de Bahia para a cidade do Rio de Janeiro, a 1960, quando Brasília passou a capital do País) deu à hoje capital de nosso estado, uma hegemonia cultural inquestionável, na região e no país.Tal hegemonia, entretanto, não se estendia  ao resto da província, salvo durante o período em que a cultura cafeeira predominava no interior do Rio de Janeiro, isso em boa parte do século XIX, durante o período imperial. As velhas fazendas localizadas em municípios do Vale do Paraíba são a memória viva desses tempos.

O gentílico fluminense, vindo do original latino flumen, que significa rio, era o adotado por toda a população do Rio de Janeiro, da cidade e do restante da província. A partir de 1834, com a criação do Município Neutro (a Corte), o termo carioca, de origem indígena, significando, segundo alguns estudiosos, casa de branco, passou a designar seus habitantes. Já o gentílico fluminense ficou para referência aos demais habitantes da província. Contudo, por força da tradição, a designação fluminense continuou prevalecendo, mesmo para a Corte, cuja elite era chamada de sociedade fluminense, não só pelo grande Machado de Assis como pelos demais escritores da época. O próprio Machado deu a alguns de seus trabalhos o título de “Contos fluminenses”. O clube Fluminense, que entre seus apaixonados torcedores tinha o grande escritor Nelson Rodrigues, e tem o nosso estimado confrade Wanderlino, ganhou esse nome devido à tradição e a beleza de nosso gentílico. O termo carioca passou a predominar na cidade do Rio de Janeiro com o advento da República, devido a seu crescimento econômico e político, coincidindo com a decadência da cafeicultura do interior, situação que pôs em segundo plano a Província Fluminense, já então transformada em estado, usualmente chamado de Estado do Rio.

Até aqui eu não justifiquei a razão do título desta palestra: RJ – Identidade em questão. Por isso mesmo vou prosseguir nas considerações e, estou certo, justificarei o título.

É fora de dúvida que a cidade do Rio de Janeiro e o território do estado a que pertence tiveram origem histórica na mesma época. Dez dias antes que a expedição portuguesa comandada por Gaspar de Lemos, tendo em sua companhia o navegador Américo Vespucio, descobrisse a baía de Guanabara (a leste, Niterói; e a oeste, o Rio de Janeiro) em 1º de janeiro de 1502, já o território fluminense (podemos assim chamá-lo) fora descoberto por essa expedição, que já chegara ao Cabo de S. Tomé (município de Campos, hoje dos Goytacazes), em 21 de dezembro de 1501. Prosseguindo, a expedição chegou a Angra dos Reis, a 6 de janeiro de 1502.  Se acrescentarmos que em 1503 uma outra expedição, esta comandada por Gonçalo Coelho, descobriu Cabo Frio, no local onde hoje está o município de Arraial do Cabo, veremos que o território do Rio de Janeiro é uno desde os primórdios.

Por todo o tempo que se seguiu à fundação da cidade do Rio de Janeiro, em 1565, a colonização feita nas antigas capitanias de S.Tomé (de Pero Góis da Silveira) e S. Vicente (de Martim Afonso de Souza), que constituíam o território da província, foi feita sem que houvesse separação entre a cidade e as demais vilas e povoados. Em 1808, quando da chegada da Corte Portuguesa, D. João VI à frente, o Rio de Janeiro tinha duas cidades (Rio e Cabo Frio) e seis vilas (Angra dos Reis, Parati, Magé, Macacu, Campos dos Goytacazes   também chamada S. Salvador e S. Gonçalo). Niterói só viria a ser considerada vila em 1819, com o nome de Vila Real da Praia Grande. Como território uno o Rio de Janeiro permaneceu até 1834 quando, pelo ato adicional de 12 de agosto de 1834, foi criado o Município Neutro, no espaço onde hoje se localiza a cidade do Rio de Janeiro. A partir de então, a província fluminense viu-se seccionada, tendo como capital a cidade de Niterói; o município neutro passou a sediar a Corte, o governo do País.

Tem início aí a questão da personalidade da província/estado do Rio de Janeiro. Emancipada, já não mais integrando o território fluminense, a cidade do Rio de Janeiro com sua importância de capital do Império estabeleceu, mais que geograficamente, uma separação cultural com o restante da província. È certo que, como ressaltei anteriormente, a província fluminense por força de sua economia cafeeira mantinha uma posição de destaque na política brasileira, tendo como vultos de destaque figuras como Evaristo da Veiga, Gonçalves Ledo, Paulino José Soares de Sousa (Visconde do Uruguai), Joaquim José Rodrigues (Visconde de Itaboraí), Benjamin Constant e Silva Jardim, entre tantos outros. Todavia, como já mencionado, enquanto a cidade do Rio de Janeiro caminhava para o desenvolvimento econômico e cultural, sobretudo a partir da queda do império, o Rio de Janeiro, estado, entrava em fase de estagnação econômica. Era natural, pois, que o gentílico carioca assumisse lugar de destaque, deixando em segundo plano o tradicional fluminense.

Para a província e, mais tarde, Estado do Rio de Janeiro, o fato de ser uma extensão da capital do País (pejorativamente, seu quintal), não lhe causava maiores constrangimentos. Afinal, em seu histórico território, localizava-se o centro político e cultural do Brasil. Todavia, com a transferência da capital para Brasília, em 1960, e a criação do Estado da Guanabara, aquela condição de quase colônia do Estado do Rio de Janeiro passou a ser inaceitável. Do ponto de vista político, a mudança da capital foi altamente vantajosa para o estado recém-criado (custo dos serviços essenciais por conta da União, aplicação de imposto estadual (IVC) em um único município, etc.). Ao Estado do Rio, como assim era chamado, apesar de sua condição de extensão da capital do País, nenhuma compensação. A circunstância de ter municípios próximos ao Rio (Niterói, S.Gonçalo, Duque de Caixas e Nova Iguaçu, principalmente) com populações crescentes, tornava o Estado da Guanabara favorecido com a participação tributária dessas populações através da predominância da economia carioca. É importante observar que, não obstante esta circunstância, o Estado da Guanabara era dependente do Estado do Rio quanto a água, energia e hortifrutigranjeiros. Os quinze anos de existência do novo estado coincidiram com o surgimento do que se pode chamar Rio Metropolitano (a cidade do Rio e suas vizinhas), com problemas comuns que ultrapassavam os limites político-administrativos estabelecidos. Outra circunstância a considerar foi o surgimento no início dos anos 1970, na região de Macaé e Campos, dos campos petrolíferos que viriam a mudar todo panorama econômico do território fluminense como um todo,  proporcionando ao Estado do Rio a retomada de seu crescimento econômico. Sem entrar no mérito da decisão política adotada ou a legitimidade do governo federal de então, devemos reconhecer a perspicácia do General Geisel que, percebendo a inconveniência de manter duas unidades federativas num território que jamais deveria ser separado, decidiu reunificar o Estado do Rio de Janeiro, em 1975, no que foi conhecido como Fusão.

Lideranças políticas e sociais, e mesmo populares, tanto da cidade do Rio de Janeiro quanto do Estado do Rio posicionaram-se contrariamente à Fusão, que eu chamo de reintegração territorial fluminense, alegando que as populações não haviam sido consultadas.  Era uma fraca alegação. Conforme tive oportunidade de me manifestar em artigo publicado no Jornal do Brasil em maio de 2005, por ocasião de uma campanha pela desfusão, não houve consulta quando do desmembramento, em 1834; não houve em 1889, quando da transformação do Município Neutro em Distrito Federal; também não houve quando da criação do Estado da Guanabara. Logo, para restaurar a integridade territorial fluminense não fazia sentido realizar uma consulta à população. Aliás, essa tentativa de desfusão partiu de certos setores da elite bairrista carioca, que se recusam a admitir-se fluminenses, e foi acompanhada por setores do velho Estado do Rio, com justificativas provincianas.

Assim foi que por quase cento e quarenta e um anos, a identidade do Rio de Janeiro, quer como província, quer como estado, esteve dividida entre o gentílico fluminense, das tradições da Velha Província, e o carioca, da metrópole, capital do País. Desta forma, por força de sua condição de centro cultural do Brasil, o bairrismo carioca aflorou a ponto de, através de seus meios de comunicação (jornais, principalmente), colocar em condição subalterna o velho Estado do Rio.

Em todos os estados, os habitantes de suas capitais tem orgulho de dizer-se do ESTADO, mineiros, paulistas, gaúchos, pernambucanos e os demais. Apenas aqui, os da capital esquivam-se de dizer-se fluminenses, preferindo realçar sua condição de cariocas. O pior é que, por influência da mídia, e por ignorância às vezes, muitos dos habitantes da região metropolitana parecem envergonhados de se dizerem niteroienses, gonçalenses, caxienses ou iguaçuanos; chegam a orgulhar-se de se dizerem cariocas. Apenas mais recentemente, quando já temos trinta e quatro anos de reunificação territorial, é que o gentílico fluminense começa a ganhar força; não obstante, certas atividades de âmbito estadual ainda são chamadas erradamente de cariocas.

Desejo enfatizar que o objetivo de meu questionamento é levantar a bandeira da verdadeira identidade dos habitantes do Estado do Rio de Janeiro. Somos todos fluminenses, do Rio, de Campos, de Niterói, de Resende, de Petrópolis, de Itaperuna e dos demais municípios. Observei que a tentativa de relegar o gentílico fluminense a segundo plano surgiu logo após a Fusão. Observem o que aconteceu com as entidades esportivas, a começar pelo futebol: em vez de Federação Fluminense de Futebol, a exemplo da paulista, da mineira, da gaúcha e as dos demais estados, Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ); o mesmo ocorreu com os outros esportes. E na política? Não foram poucas as vezes em que escrevi para jornais contestando a designação “deputado carioca” e “senador carioca” para referência aos representantes de nosso estado no Congresso Nacional.

Não me move qualquer sentimento de aversão aos coestaduanos cariocas. O que eu combato é o uso do gentílico carioca no lugar do belo e tradicional gentílico fluminense, que por direito aplica-se às pessoas e coisas do Estado do Rio de Janeiro. Se outrora a expressão “cariocas e fluminenses” fazia sentido, hoje não mais. Usá-la hoje seria admitir a existência de duas comunidades sob uma federação.

Finalizo com uma declaração de amor a esta cidade de Niterói, de tão belas tradições e tantas belezas naturais, em que vivo por tantas décadas. Não obstante essa benquerença a nossa “cidade sorriso”, reconheço que, enquanto capital da Velha Província, o era apenas de direito, pois a capital de fato era a metrópole carioca, que fazia e ainda faz a cabeça dos fluminenses em geral. Como já acontece há tanto tempo, continuemos a usufruir dessa integração e dos encantos da “cidade maravilhosa”, de sua gente que, em milhares de casos, tem laços familiares nas cidades que lhe são vizinhas.




Divulgação Cultural
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