terça-feira, 17 de abril de 2012

Nosso primeiro ano...







Em meio aos muitos festejos do centésimo aniversário de Luís Antônio Pimentel, Literatura-Vivência completou seu primeiro ano de atividades. Naquela data, entendendo não poder concorrer com o nosso amado poeta (Pimentel é hors concour), preferimos reservar as comemorações do blog para quando nossa programação retornasse a sua rotina.

Comemore-se, portanto, desde já, a renovação dos votos de “ser anfitrião das belas letras”. Literatura-Vivência (o aniversariante) continuará voltado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias.

Nós, moderadores, almejamos prosseguir na tarefa de preservar a memória da literatura (especialmente a fluminense), promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária.
Além de nossa programação normal, Literatura-Vivência na próxima postagem (a ocorrer na sexta-feita), revelará o seu mais novo projeto. Aguardemos comemorando...






segunda-feira, 16 de abril de 2012

"O Amor Segundo Luís Antônio Pimentel" inclui fotografias tiradas por Pimentel e amigos alindam a presente edição, repleta de loas e hosanas ao amor (artigo de Roberto Santos em "O Fluminense" )















O Amor Segundo Luís Antônio Pimentel.
Luiz Augusto Erthal e Luiz Antonio Barros (Organizadores). Nitpress Editora. 160 páginas. R$ 35.



                                                                                                                                      


Nosso jovem centenário Luís Antônio Pimentel, em certos instantes, deixa-se levar por aquele clássico canto de Dante: “O amor me move. Só por ele eu falo”. Observando como o tema do amor é recorrente em seus inúmeros textos, Luiz Augusto Erthal e Luiz Antonio Barros organizaram a presente antologia, dividida em três belas dimensões: reunião de poemas, haicais e 12 dias com Leviana (novela relâmpago em 13 edições).
Roberto Kahlmeyer-Mertens, no “Prefácio”, anota que esses “três momentos integrantes se completam, fazendo com que a coletânea conserve coerência, coesão e efeitos estéticos de onde quer que se arranque à leitura”. Assim, perfeitamente esclarecido, o leitor logo lê no “Poema do Amanhã”: “Amanhã, quando fores minha,/ eu serei sol,/rompendo as brumas em que te envolveram./Meus gestos serão paisagem/ escorrendo ternura (...)” Adiante, o poeta confessa; ”eu tenho ciúmes do sol/ porque te beija muito...//Beija demais/o teu corpo formoso/ e a tua boca de carmim...”
No sopro erótico que funde amor e vida, fazendo coro com o vento do amor total — a Vinicius de Moraes —, Pimentel indica o amante desejo: “Amar-te a noite toda, e enquanto queiras,/Ver as dunas dos seios atrevidos/ e o gozo sombreando-te as olheiras;//e renovar o amor cada manhã,/ nos beijos, nas carícias, nos gemidos,/ no tapete, no leito, no divã”.
Famosos, sem dúvida, desde a década de 50, são seus haicais, dos quais, na pág. 85, há encantador exemplo: “Olhos de uva verde/ anunciam que teu corpo/ é taça de vinho.” Ou, em explosão de paixão, o revelado segredo; “Decorei teu corpo./Sei-o na ponta da língua/ melhor que ninguém”.
A novela “Leviana”, que recentemente ganhou brilho de peça teatral, é precedida por prefácio do poeta Gomes Filho, na 1ª edição. E dela, pouco a pouco, surge coleante perfil: “O relógio de Leviana só dizia as horas certas quando estava parado”; “Leviana tinha uma religião — o Amor; um deus — o Fingimento: e uma oração — o Pecado. Leviana dizia que pecar é muito mais humano que rezar.”
Não se pode deixar de ler, ao final do volume, “Glossário e Notas” e “Dados biobibliográficos” — aquele organizado pelo mestre Luiz Antonio Barros, e estes assinados pela pena inteligente e sensível de \Graça Porto.
Fotografias tiradas por Pimentel e amigos alindam a presente edição, repleta de loas e hosanas ao amor — sentimento que é “sede depois de se ter bem bebido”, no dizer de Guimarães Rosa. Na orelha do livro, Fernando de Aviz assegura que a lírica sinfônica de Pimentel é um “misto de contar e cantar, com duração mínima para os próximos 100 anos”.

Confira a matéria em seu contexto original clicando AQUI.






domingo, 15 de abril de 2012

Um soneto...







Não te arruínes, alma, enriquece

Centro da minha terra pecadora,
alma gasta da própria rebeldia,
porque tremes lá dentro se por fora
vais caiando as paredes de alegria?

Para quê tanto luxo na morada
arruinada, arrendada a curto prazo?
Herdam de ti os vermes? Na jornada
do corpo te consomes ao acaso?


Não te arruínes, alma, enriquece:
vende as horas de escória e desperdício
e compra a eternidade que mereces,


sem piedade do servo ao teu serviço.
Devora a Morte e o que de nós terá,
que morta a Morte nada morrerá.


(SHAKESPEARE, William. In: Sonetos. Tradução de Carlos de Oliveira)







Revista Internacional "Literacia" (novo número)



Caro Leitor,
Em nosso Editorial de hoje compartilho com você uma oração que recebi. Diante o mar de lama da corrupção que nos assola e envergonha só um milagre capaz de salvar o Brasil.
Quem sabe Deus é de fato Brasileiro?
Para seu Prazer de Ler, visite seu Colunista Preferido, vale conferir:
  
 Affonso Romano de Sant'Anna: O lobo e o cordeiro: versões
    
 Aquiles Reis: Poética alagoana

Eliana Crivellari: Gabriel N. Neves

  Roberto Kahlmeyer-Mertens: Da atualidade do projeto hermenêutico diltheyano.


  Valentina Latiffa: Harvard... para quem?


 Jairo Ferreira Machado: Olhos de rimel

José Félix: Auri sacra fames


Obrigada por sua companhia e boasleituras.
Sempre: Paz e Bem !
anamerij
A LITERACIA



sábado, 14 de abril de 2012

"Balada do Cavalão" - Poema de Vinícius de Moraes para Niterói


A ideia de cordialidade (esboçada por Ribeiro Couto, apropriada por Gilberto Freyre e formulada sob os rigores da ciência por Sérgio Buarque de Hollanda), tem sua síntese e corporificação  no nome Francisco Tomasco de Albuquerque. Vice-presidente do Instituto Histórico Geográfico de Niterói, presidente do Círculo Monárquico de Niterói, além de membro de inúmeras instituições acadêmico-literárias do Brasil, o pesquisador não é apenas versado in litteris et artibus, mas também no protocolo do bem receber. Quem já desfrutou do privilégio de visitar sua bela residência no bairro de São Francisco, em Niterói, certamente teve oportunidade de conhecer sua esplêndida  biblioteca de história (mapoteca em anexo) e de gozar da bela vista das praias de São Francisco e Charitas pela janela de sua ampla sala.
Comovido pela vista do morro do Cavalão e pela generosidade tipicamente mineira do casal Tomasco, minha maneira de agradecer a cordial acolhida nesta tarde de sábado é reproduzir, na postagem de hoje, a poesia que Vinícius de Moraes fez para o belíssimo mirante no qual residem o Professor Francisco Tomasco de Albuquerque  e sua esposa Marcia. 


Com toda dedicação e simpatia

Roberto Kahlmeyer-Mertens



Vista da praia de São Francisco do Morro do Cavalão


Balada do Cavalão




A tarde morre bem tarde
No morro do Cavalão...
Tem um poder de sossego.
Dentro do meu coração
Quanto sangue derramado!

Balança, rede, balança...

Susana deixou minha alma
Numa grande confusão
Seu berço ficou vazio
No morro do Cavalão:
Pequena estrela da tarde.

Ah, gosto da minha vida
Sangue da minha paixão!

Levou o anjo o outro anjo
Da saudade de seu pai
Susana foi de avião
Com quinze dias de idade
Batendo todos os recordes!

Que tarde que a tarde cai!

Poeta, diz teu anseio
Que o santo te satisfaz:
Queria fazer mais um filho
Queria tanto ser pai!

Voam cardumes de aves
No cristal rosa do ar.
Vontade de ser levado
Pelas correntes do mar
Para um grande mar de sangue!

E a vida passa depressa
No morro do Cavalão
Entre tantas flores, tantas
Flores tontas, parasitas
Parasitas da nação.

Quanta garrafa vazia
Quanto limão pelo chão!
Menina, me diz um verso
Bem cheio de ingratidão?
- Era uma vez um poeta
No morro do Cavalão
Tantas fez que a dor-de-corno
Bateu com ele no chão
Arrastou ele nas pedras
Espremeu seu coração
Que pensa usted que saiu?
Saiu cachaça e limão.

Susana nasceu morena
E é Mello Moraes também:
É minha filha pequena
Tão boa de querer bem!

Oh, Saco de São Francisco
Que eu avisto a cavaleiro
Do morro do Cavalão!
(O Saco de São Francisco
Xavier não chama não
Há de ser sempre de Assis:
São Francisco Xavier
É nome de uma estação)
Onde está minha alegria
Meus amores onde estão?

A casa das mil janelas
É a casa do meu irmão
Lá dentro me esperam elas
Que dormem cedo com medo
    Da trinca do Cavalão.

Balança, rede, balança...




Divulgação Cultural
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sexta-feira, 13 de abril de 2012

A “fluminensidade” novamente em pauta


Provando que a ideia de uma identidade fluminense não é provincianismo, o escritor Gilson Rangel Rolim, explora com proficiência a temática na postagem de hoje.





RJ – Identidade em questão




Devo dizer, inicialmente, que sou fluminense por escolha. Vindo do sul do Espírito Santo na primeira infância, aí pelo início dos anos 1930, por todo o resto de meus quase oitenta anos tenho vivido na Velha Província; em Niterói, por quase todo esse tempo. Portanto, com muito orgulho, me considero fluminense e, mais particularmente, niteroiense.

Não tem esta palestra a intenção de acirrar as divergências históricas que, de forma latente, às vezes dominam os fluminenses da capital (cariocas) e os das demais regiões do estado. O escopo deste trabalho é tecer algumas considerações sobre as origens deste nosso Rio de Janeiro, a partir da chegada do portugueses ao Cabo de S. Tomé (município de Campos dos Goytacazes) em 21 de dezembro de 1501, dez dias antes de chegarem à Baía de Guanabara.

Reconheço que o fato de ter sido o centro do poder no Brasil por quase duzentos anos (de 1763, com a transferência da capital de Bahia para a cidade do Rio de Janeiro, a 1960, quando Brasília passou a capital do País) deu à hoje capital de nosso estado, uma hegemonia cultural inquestionável, na região e no país.Tal hegemonia, entretanto, não se estendia  ao resto da província, salvo durante o período em que a cultura cafeeira predominava no interior do Rio de Janeiro, isso em boa parte do século XIX, durante o período imperial. As velhas fazendas localizadas em municípios do Vale do Paraíba são a memória viva desses tempos.

O gentílico fluminense, vindo do original latino flumen, que significa rio, era o adotado por toda a população do Rio de Janeiro, da cidade e do restante da província. A partir de 1834, com a criação do Município Neutro (a Corte), o termo carioca, de origem indígena, significando, segundo alguns estudiosos, casa de branco, passou a designar seus habitantes. Já o gentílico fluminense ficou para referência aos demais habitantes da província. Contudo, por força da tradição, a designação fluminense continuou prevalecendo, mesmo para a Corte, cuja elite era chamada de sociedade fluminense, não só pelo grande Machado de Assis como pelos demais escritores da época. O próprio Machado deu a alguns de seus trabalhos o título de “Contos fluminenses”. O clube Fluminense, que entre seus apaixonados torcedores tinha o grande escritor Nelson Rodrigues, e tem o nosso estimado confrade Wanderlino, ganhou esse nome devido à tradição e a beleza de nosso gentílico. O termo carioca passou a predominar na cidade do Rio de Janeiro com o advento da República, devido a seu crescimento econômico e político, coincidindo com a decadência da cafeicultura do interior, situação que pôs em segundo plano a Província Fluminense, já então transformada em estado, usualmente chamado de Estado do Rio.

Até aqui eu não justifiquei a razão do título desta palestra: RJ – Identidade em questão. Por isso mesmo vou prosseguir nas considerações e, estou certo, justificarei o título.

É fora de dúvida que a cidade do Rio de Janeiro e o território do estado a que pertence tiveram origem histórica na mesma época. Dez dias antes que a expedição portuguesa comandada por Gaspar de Lemos, tendo em sua companhia o navegador Américo Vespucio, descobrisse a baía de Guanabara (a leste, Niterói; e a oeste, o Rio de Janeiro) em 1º de janeiro de 1502, já o território fluminense (podemos assim chamá-lo) fora descoberto por essa expedição, que já chegara ao Cabo de S. Tomé (município de Campos, hoje dos Goytacazes), em 21 de dezembro de 1501. Prosseguindo, a expedição chegou a Angra dos Reis, a 6 de janeiro de 1502.  Se acrescentarmos que em 1503 uma outra expedição, esta comandada por Gonçalo Coelho, descobriu Cabo Frio, no local onde hoje está o município de Arraial do Cabo, veremos que o território do Rio de Janeiro é uno desde os primórdios.

Por todo o tempo que se seguiu à fundação da cidade do Rio de Janeiro, em 1565, a colonização feita nas antigas capitanias de S.Tomé (de Pero Góis da Silveira) e S. Vicente (de Martim Afonso de Souza), que constituíam o território da província, foi feita sem que houvesse separação entre a cidade e as demais vilas e povoados. Em 1808, quando da chegada da Corte Portuguesa, D. João VI à frente, o Rio de Janeiro tinha duas cidades (Rio e Cabo Frio) e seis vilas (Angra dos Reis, Parati, Magé, Macacu, Campos dos Goytacazes   também chamada S. Salvador e S. Gonçalo). Niterói só viria a ser considerada vila em 1819, com o nome de Vila Real da Praia Grande. Como território uno o Rio de Janeiro permaneceu até 1834 quando, pelo ato adicional de 12 de agosto de 1834, foi criado o Município Neutro, no espaço onde hoje se localiza a cidade do Rio de Janeiro. A partir de então, a província fluminense viu-se seccionada, tendo como capital a cidade de Niterói; o município neutro passou a sediar a Corte, o governo do País.

Tem início aí a questão da personalidade da província/estado do Rio de Janeiro. Emancipada, já não mais integrando o território fluminense, a cidade do Rio de Janeiro com sua importância de capital do Império estabeleceu, mais que geograficamente, uma separação cultural com o restante da província. È certo que, como ressaltei anteriormente, a província fluminense por força de sua economia cafeeira mantinha uma posição de destaque na política brasileira, tendo como vultos de destaque figuras como Evaristo da Veiga, Gonçalves Ledo, Paulino José Soares de Sousa (Visconde do Uruguai), Joaquim José Rodrigues (Visconde de Itaboraí), Benjamin Constant e Silva Jardim, entre tantos outros. Todavia, como já mencionado, enquanto a cidade do Rio de Janeiro caminhava para o desenvolvimento econômico e cultural, sobretudo a partir da queda do império, o Rio de Janeiro, estado, entrava em fase de estagnação econômica. Era natural, pois, que o gentílico carioca assumisse lugar de destaque, deixando em segundo plano o tradicional fluminense.

Para a província e, mais tarde, Estado do Rio de Janeiro, o fato de ser uma extensão da capital do País (pejorativamente, seu quintal), não lhe causava maiores constrangimentos. Afinal, em seu histórico território, localizava-se o centro político e cultural do Brasil. Todavia, com a transferência da capital para Brasília, em 1960, e a criação do Estado da Guanabara, aquela condição de quase colônia do Estado do Rio de Janeiro passou a ser inaceitável. Do ponto de vista político, a mudança da capital foi altamente vantajosa para o estado recém-criado (custo dos serviços essenciais por conta da União, aplicação de imposto estadual (IVC) em um único município, etc.). Ao Estado do Rio, como assim era chamado, apesar de sua condição de extensão da capital do País, nenhuma compensação. A circunstância de ter municípios próximos ao Rio (Niterói, S.Gonçalo, Duque de Caixas e Nova Iguaçu, principalmente) com populações crescentes, tornava o Estado da Guanabara favorecido com a participação tributária dessas populações através da predominância da economia carioca. É importante observar que, não obstante esta circunstância, o Estado da Guanabara era dependente do Estado do Rio quanto a água, energia e hortifrutigranjeiros. Os quinze anos de existência do novo estado coincidiram com o surgimento do que se pode chamar Rio Metropolitano (a cidade do Rio e suas vizinhas), com problemas comuns que ultrapassavam os limites político-administrativos estabelecidos. Outra circunstância a considerar foi o surgimento no início dos anos 1970, na região de Macaé e Campos, dos campos petrolíferos que viriam a mudar todo panorama econômico do território fluminense como um todo,  proporcionando ao Estado do Rio a retomada de seu crescimento econômico. Sem entrar no mérito da decisão política adotada ou a legitimidade do governo federal de então, devemos reconhecer a perspicácia do General Geisel que, percebendo a inconveniência de manter duas unidades federativas num território que jamais deveria ser separado, decidiu reunificar o Estado do Rio de Janeiro, em 1975, no que foi conhecido como Fusão.

Lideranças políticas e sociais, e mesmo populares, tanto da cidade do Rio de Janeiro quanto do Estado do Rio posicionaram-se contrariamente à Fusão, que eu chamo de reintegração territorial fluminense, alegando que as populações não haviam sido consultadas.  Era uma fraca alegação. Conforme tive oportunidade de me manifestar em artigo publicado no Jornal do Brasil em maio de 2005, por ocasião de uma campanha pela desfusão, não houve consulta quando do desmembramento, em 1834; não houve em 1889, quando da transformação do Município Neutro em Distrito Federal; também não houve quando da criação do Estado da Guanabara. Logo, para restaurar a integridade territorial fluminense não fazia sentido realizar uma consulta à população. Aliás, essa tentativa de desfusão partiu de certos setores da elite bairrista carioca, que se recusam a admitir-se fluminenses, e foi acompanhada por setores do velho Estado do Rio, com justificativas provincianas.

Assim foi que por quase cento e quarenta e um anos, a identidade do Rio de Janeiro, quer como província, quer como estado, esteve dividida entre o gentílico fluminense, das tradições da Velha Província, e o carioca, da metrópole, capital do País. Desta forma, por força de sua condição de centro cultural do Brasil, o bairrismo carioca aflorou a ponto de, através de seus meios de comunicação (jornais, principalmente), colocar em condição subalterna o velho Estado do Rio.

Em todos os estados, os habitantes de suas capitais tem orgulho de dizer-se do ESTADO, mineiros, paulistas, gaúchos, pernambucanos e os demais. Apenas aqui, os da capital esquivam-se de dizer-se fluminenses, preferindo realçar sua condição de cariocas. O pior é que, por influência da mídia, e por ignorância às vezes, muitos dos habitantes da região metropolitana parecem envergonhados de se dizerem niteroienses, gonçalenses, caxienses ou iguaçuanos; chegam a orgulhar-se de se dizerem cariocas. Apenas mais recentemente, quando já temos trinta e quatro anos de reunificação territorial, é que o gentílico fluminense começa a ganhar força; não obstante, certas atividades de âmbito estadual ainda são chamadas erradamente de cariocas.

Desejo enfatizar que o objetivo de meu questionamento é levantar a bandeira da verdadeira identidade dos habitantes do Estado do Rio de Janeiro. Somos todos fluminenses, do Rio, de Campos, de Niterói, de Resende, de Petrópolis, de Itaperuna e dos demais municípios. Observei que a tentativa de relegar o gentílico fluminense a segundo plano surgiu logo após a Fusão. Observem o que aconteceu com as entidades esportivas, a começar pelo futebol: em vez de Federação Fluminense de Futebol, a exemplo da paulista, da mineira, da gaúcha e as dos demais estados, Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ); o mesmo ocorreu com os outros esportes. E na política? Não foram poucas as vezes em que escrevi para jornais contestando a designação “deputado carioca” e “senador carioca” para referência aos representantes de nosso estado no Congresso Nacional.

Não me move qualquer sentimento de aversão aos coestaduanos cariocas. O que eu combato é o uso do gentílico carioca no lugar do belo e tradicional gentílico fluminense, que por direito aplica-se às pessoas e coisas do Estado do Rio de Janeiro. Se outrora a expressão “cariocas e fluminenses” fazia sentido, hoje não mais. Usá-la hoje seria admitir a existência de duas comunidades sob uma federação.

Finalizo com uma declaração de amor a esta cidade de Niterói, de tão belas tradições e tantas belezas naturais, em que vivo por tantas décadas. Não obstante essa benquerença a nossa “cidade sorriso”, reconheço que, enquanto capital da Velha Província, o era apenas de direito, pois a capital de fato era a metrópole carioca, que fazia e ainda faz a cabeça dos fluminenses em geral. Como já acontece há tanto tempo, continuemos a usufruir dessa integração e dos encantos da “cidade maravilhosa”, de sua gente que, em milhares de casos, tem laços familiares nas cidades que lhe são vizinhas.




Divulgação Cultural
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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sexta-feira da paixão em companhia de Friedrich, Varela e Bach


Para o cristão, a época é de meditar sobre a singularidade da tarefa do Cristo (na tela de Friedrich); de entender o sentido profundo da paixão e dela compartilhar (na poesia de Varela) e de celebrar um reino do coração (com o São Matheus, de Bach).
Para o leigo, pode ser uma ocasião para se estar, uma vez mais, diante do belo...


 Riesengebirgslandschaft (1810), de Caspar Friedrich
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Cântico do calvário

                                                                   Fagundes Varela

                                                                                  À memória de meu Filho
                                                                                               morto a 11 de dezembro de 1863


Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, a inspiração, a pátria,
O porvir de teu pai! - Ah! no entanto,
Pomba, - varou-te a flecha do destino!
Astro, - engoliu-te o temporal do norte!
Teto, - caíste!- Crença, já não vives!
Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
Correi! um dia vos verei mais belas
Que os diamantes de Ofir e de Golconda
Fulgurar na coroa de martírios
Que me circunda a fronte cismadora!
São mortos para mim da noite os fachos,
Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,
E à vossa luz caminharei nos ermos!
Estrelas do sofrer, gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! Sede benditas!
Oh! filho de minh'alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
Minha esperança amargamente doce!
Quando as garças vierem do ocidente
Buscando um novo clima onde pausarem,
Não mais te embalarei sobre os joelhos,
Nem de teus olhos no cerúleo brilho
Acharei um consolo a meus tormentos!
Não mais invocarei a musa errante
Nesses retiros onde cada folha
Era um polido espelho de esmeralda
Que refletia os fugitivos quadros
Dos suspirados tempos que se foram!
Não mais perdido em vaporosas cismas
Escutarei ao pôr-do-sol, nas serras,
Vibrar a trompa sonorosa e leda
Do caçador que aos lares se recolhe!
Não mais! A areia tem corrido, e o livro
De minha infanda história está completo!
Pouco tenho de andar! Um passo ainda
E o fruto de meus dias, negro, podre,
Do galho eivado rolará por terra!
Ainda um treno, e o vendaval sem freio
Ao soprar quebrará a última fibra
Da lira infausta que nas mãos sustenho!
Tornei-me o eco das tristezas todas
Que entre os homens achei! o lago escuro
Onde o clarão dos fogos da tormenta
Miram-se as larvas fúnebres do estrago!
Por toda a parte em que arrastei meu manto
Deixei um traço fundo de agonias!...
Oh! quantas horas não gastei, sentado
Sobre as costas bravias do Oceano,
Esperando que a vida se esvaísse
Como um floco de espuma, ou como o friso
Que deixa n'água o lenha do barqueiro!
Quantos momentos de loucura e febre
Não consumi perdido nos desertos,
Escutando os rumores das florestas,
E procurando nessas vozes torvas
Distinguir o meu cântico de morte?
Quantas noites de angústias e delírios
Não velei, entre as sombras espreitando
A passagem veloz do gênio horrendo
Que o mundo abate ao galopar infrene
Do selvagem corcel!... E tudo embalde!
A vida parecia ardente e doida
Agarrar-se a meu ser!... E tu tão jovem,
Tão puro ainda, ainda n'alvorada,
Ave banhada em mares de esperança,
Rosa em botão, crisálida entre luzes,
Foste o escolhido na tremenda ceifa!
Ah! quando a vez primeira em meus cabelos
Senti bater teu hálito suave:
Quando em meus braços te cerrei, ouvindo
Pulsar-te o coração divino ainda;
Quando fitei teus olhos sossegados,
Abismos de inocência e de candura,
E baixo e a medo murmurei: meu filho!
Meu filho! Frase imensa, inexplicável,
Grata como o chorar de Madalena
Aos pés do Redentor... ah! pelas fibras
Senti rugir o vento incendiado
Desse amor infinito que eterniza
O consórcio dos orbes que se enredam
Dos mistérios do ser na teia augusta
Que prende o céu à terra e a terra aos anjos!
Que se expande em torrentes inefáveis
Do seio imaculado de Maria!
Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem!
E de meu erro a punição cruenta
Na mesma glória que elevou-me aos astros,
Chorando aos pés da cruz, hoje padeço!
O som da orquestra, o retumbar dos bronzes,
A voz mentida de rafeiros bardos,
Torpe alegria que circunda os berços
Quando a opulência doura-lhes as bordas,
Não te saudaram ao sorrir primeiro,
Clícia mimosa rebentada à sombra!
Mas, ah! se pompas, esplendor faltaram-te,
Tiveste mais que os príncipes da terra!
Templos, altares de afeição sem termos!
Mundos de sentimento e de magia!
Cantos ditados pelo próprio Deus!
Oh! quantos reis que a humanidade aviltam,
E o gênio esmagam dos soberbos tronos,
Trocariam a púrpura romana
Por um verso, uma nota, um som apenas
Dos fecundos poemas que inspiraste!
Que belos sonhos! Que ilusões benditas!
Do cantor infeliz lançaste à vida,
Arco-íris de amor! luz da aliança,
Calma e fulgente em meio da tormenta!
Do exílio escuro a cítara chorosa
Surgiu de novo e às virações errantes
Lançou dilúvios de harmonia! O gozo
Ao pranto sucedeu. As férreas horas
Em desejos alados se mudaram.
Noites fugiam, madrugadas vinham,
Mas sepultado num prazer profundo
Não te deixava o berço descuidoso,
Nem de teu rosto meu olhar tirava,
Nem de outros sonhos que dos teus vivia!
Como eras lindo! Nas rosadas faces
Tinhas ainda o tépido vestígio
Dos beijos divinais, - nos olhos langues
Brilhava o brando raio que acendera
A bênção do Senhor quando o deixaste!
Sobre teu corpo a chusma dos anjinhos,
Filhos do éter e da luz, voavam,
Riam-se alegres, das caçoilas níveas
Celeste aroma te vertendo ao corpo!
E eu dizia comigo:- teu destino
Será mais belo que o cantar das fadas
Que dançam no arrebol, - mais triunfante
Que o sol nascente derribando ao nada
Muralhas de negrume!... Irás tão alto
Como o pássaro-rei do Novo Mundo!
Ai! doido sonho!... Uma estação passou-se
E tantas glórias, tão risonhos planos
Desfizeram-se em pó! O gênio escuro
Abrasou com seu facho ensangüentado
Meus soberbos castelos. A desgraça
Sentou-se em meu solar, e a soberana
Dos sinistros impérios de além-mundo
Com seu dedo real selou-te a fronte!
Inda te vejo pelas noites minhas,
Em meus dias sem luz vejo-te ainda,
Creio-te vivo, e morto te pranteio!...
Ouço o tanger monótono dos sinos,
E cada vibração contar parece
As ilusões que murcham-se contigo!
Cheias de frases pueris, estultas,
O linho mortuário que retalham
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas
Saudades e perpétuas, sinto o aroma
Do incenso das igrejas, ouço os cantos
Dos ministros de Deus que me repetem
Que não és mais da terra!... E choro embalde.
Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves,
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe?
No vulto solitário de uma estrela.
E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite,
Nas ondas nebulosas do ocidente!
Brilha e fulgura! Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh'alma.