sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sexta-feira da paixão em companhia de Friedrich, Varela e Bach


Para o cristão, a época é de meditar sobre a singularidade da tarefa do Cristo (na tela de Friedrich); de entender o sentido profundo da paixão e dela compartilhar (na poesia de Varela) e de celebrar um reino do coração (com o São Matheus, de Bach).
Para o leigo, pode ser uma ocasião para se estar, uma vez mais, diante do belo...


 Riesengebirgslandschaft (1810), de Caspar Friedrich
(clique na imagem para ampliar)



Cântico do calvário

                                                                   Fagundes Varela

                                                                                  À memória de meu Filho
                                                                                               morto a 11 de dezembro de 1863


Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, a inspiração, a pátria,
O porvir de teu pai! - Ah! no entanto,
Pomba, - varou-te a flecha do destino!
Astro, - engoliu-te o temporal do norte!
Teto, - caíste!- Crença, já não vives!
Correi, correi, oh! lágrimas saudosas,
Legado acerbo da ventura extinta,
Dúbios archotes que a tremer clareiam
A lousa fria de um sonhar que é morto!
Correi! um dia vos verei mais belas
Que os diamantes de Ofir e de Golconda
Fulgurar na coroa de martírios
Que me circunda a fronte cismadora!
São mortos para mim da noite os fachos,
Mas Deus vos faz brilhar, lágrimas santas,
E à vossa luz caminharei nos ermos!
Estrelas do sofrer, gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! Sede benditas!
Oh! filho de minh'alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
Minha esperança amargamente doce!
Quando as garças vierem do ocidente
Buscando um novo clima onde pausarem,
Não mais te embalarei sobre os joelhos,
Nem de teus olhos no cerúleo brilho
Acharei um consolo a meus tormentos!
Não mais invocarei a musa errante
Nesses retiros onde cada folha
Era um polido espelho de esmeralda
Que refletia os fugitivos quadros
Dos suspirados tempos que se foram!
Não mais perdido em vaporosas cismas
Escutarei ao pôr-do-sol, nas serras,
Vibrar a trompa sonorosa e leda
Do caçador que aos lares se recolhe!
Não mais! A areia tem corrido, e o livro
De minha infanda história está completo!
Pouco tenho de andar! Um passo ainda
E o fruto de meus dias, negro, podre,
Do galho eivado rolará por terra!
Ainda um treno, e o vendaval sem freio
Ao soprar quebrará a última fibra
Da lira infausta que nas mãos sustenho!
Tornei-me o eco das tristezas todas
Que entre os homens achei! o lago escuro
Onde o clarão dos fogos da tormenta
Miram-se as larvas fúnebres do estrago!
Por toda a parte em que arrastei meu manto
Deixei um traço fundo de agonias!...
Oh! quantas horas não gastei, sentado
Sobre as costas bravias do Oceano,
Esperando que a vida se esvaísse
Como um floco de espuma, ou como o friso
Que deixa n'água o lenha do barqueiro!
Quantos momentos de loucura e febre
Não consumi perdido nos desertos,
Escutando os rumores das florestas,
E procurando nessas vozes torvas
Distinguir o meu cântico de morte?
Quantas noites de angústias e delírios
Não velei, entre as sombras espreitando
A passagem veloz do gênio horrendo
Que o mundo abate ao galopar infrene
Do selvagem corcel!... E tudo embalde!
A vida parecia ardente e doida
Agarrar-se a meu ser!... E tu tão jovem,
Tão puro ainda, ainda n'alvorada,
Ave banhada em mares de esperança,
Rosa em botão, crisálida entre luzes,
Foste o escolhido na tremenda ceifa!
Ah! quando a vez primeira em meus cabelos
Senti bater teu hálito suave:
Quando em meus braços te cerrei, ouvindo
Pulsar-te o coração divino ainda;
Quando fitei teus olhos sossegados,
Abismos de inocência e de candura,
E baixo e a medo murmurei: meu filho!
Meu filho! Frase imensa, inexplicável,
Grata como o chorar de Madalena
Aos pés do Redentor... ah! pelas fibras
Senti rugir o vento incendiado
Desse amor infinito que eterniza
O consórcio dos orbes que se enredam
Dos mistérios do ser na teia augusta
Que prende o céu à terra e a terra aos anjos!
Que se expande em torrentes inefáveis
Do seio imaculado de Maria!
Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem!
E de meu erro a punição cruenta
Na mesma glória que elevou-me aos astros,
Chorando aos pés da cruz, hoje padeço!
O som da orquestra, o retumbar dos bronzes,
A voz mentida de rafeiros bardos,
Torpe alegria que circunda os berços
Quando a opulência doura-lhes as bordas,
Não te saudaram ao sorrir primeiro,
Clícia mimosa rebentada à sombra!
Mas, ah! se pompas, esplendor faltaram-te,
Tiveste mais que os príncipes da terra!
Templos, altares de afeição sem termos!
Mundos de sentimento e de magia!
Cantos ditados pelo próprio Deus!
Oh! quantos reis que a humanidade aviltam,
E o gênio esmagam dos soberbos tronos,
Trocariam a púrpura romana
Por um verso, uma nota, um som apenas
Dos fecundos poemas que inspiraste!
Que belos sonhos! Que ilusões benditas!
Do cantor infeliz lançaste à vida,
Arco-íris de amor! luz da aliança,
Calma e fulgente em meio da tormenta!
Do exílio escuro a cítara chorosa
Surgiu de novo e às virações errantes
Lançou dilúvios de harmonia! O gozo
Ao pranto sucedeu. As férreas horas
Em desejos alados se mudaram.
Noites fugiam, madrugadas vinham,
Mas sepultado num prazer profundo
Não te deixava o berço descuidoso,
Nem de teu rosto meu olhar tirava,
Nem de outros sonhos que dos teus vivia!
Como eras lindo! Nas rosadas faces
Tinhas ainda o tépido vestígio
Dos beijos divinais, - nos olhos langues
Brilhava o brando raio que acendera
A bênção do Senhor quando o deixaste!
Sobre teu corpo a chusma dos anjinhos,
Filhos do éter e da luz, voavam,
Riam-se alegres, das caçoilas níveas
Celeste aroma te vertendo ao corpo!
E eu dizia comigo:- teu destino
Será mais belo que o cantar das fadas
Que dançam no arrebol, - mais triunfante
Que o sol nascente derribando ao nada
Muralhas de negrume!... Irás tão alto
Como o pássaro-rei do Novo Mundo!
Ai! doido sonho!... Uma estação passou-se
E tantas glórias, tão risonhos planos
Desfizeram-se em pó! O gênio escuro
Abrasou com seu facho ensangüentado
Meus soberbos castelos. A desgraça
Sentou-se em meu solar, e a soberana
Dos sinistros impérios de além-mundo
Com seu dedo real selou-te a fronte!
Inda te vejo pelas noites minhas,
Em meus dias sem luz vejo-te ainda,
Creio-te vivo, e morto te pranteio!...
Ouço o tanger monótono dos sinos,
E cada vibração contar parece
As ilusões que murcham-se contigo!
Cheias de frases pueris, estultas,
O linho mortuário que retalham
Para envolver teu corpo! Vejo esparsas
Saudades e perpétuas, sinto o aroma
Do incenso das igrejas, ouço os cantos
Dos ministros de Deus que me repetem
Que não és mais da terra!... E choro embalde.
Mas não! Tu dormes no infinito seio
Do Criador dos seres! Tu me falas
Na voz dos ventos, no chorar das aves,
Talvez das ondas no respiro flébil!
Tu me contemplas lá do céu, quem sabe?
No vulto solitário de uma estrela.
E são teus raios que meu estro aquecem!
Pois bem! Mostra-me as voltas do caminho!
Brilha e fulgura no azulado manto,
Mas não te arrojes, lágrima da noite,
Nas ondas nebulosas do ocidente!
Brilha e fulgura! Quando a morte fria
Sobre mim sacudir o pó das asas,
Escada de Jacó serão teus raios
Por onde asinha subirá minh'alma.









sexta-feira, 30 de março de 2012

"No céu como as estrelas" - Comunidade literária de Niterói se despede de A. Barcellos Sobral




A. Barcellos Sobral
(1919 - 2012)

Na noite de ontem nos deixou o poeta, esteta e teórico da literatura A. Barcellos Sobral. Sobral era autor de significativa obra poética e possuía um ensaio de estética original intitulado Contemplação da unidade – Tentativa de uma holística da existência. Autor, também, de obras primas como Misael, crônicas de uma paternidade e No alto como as estrelas, Sobral despertava a admiração e o respeito de todos que conheciam sua obra.
Celebrando a memória deste que reunia todas as condições para – sem favor algum – ser chamado de savant, a postagem de hoje traz um conjunto de apreciações da obra do autor e excertos de uma entrevista inédita concedida por aquele teórico a mim (entrevista que será publicada num livro chamado Conversações com intelectuais fluminenses, a ser lançado em maio próximo).




Depoimentos

“... os poetas modernos têm medo do pensamento. Fogem da poesia filosófica. Ou então ficam no puro abstracionismo. O senhor não. Enfrenta essa coisa dificílima: a poesia e a especulação. E o seu pensamento não esmaia a beleza. Nem esta abafa a meditação.
O essencial é que vejo, nos seus versos, um sentido próprio, um caminho original e alguma coisa que pode vir a marcar...
... sinto que seus versos, não só por serem inéditos, mas por serem o que são, representam alguma coisa de sério e mesmo de importante.”

Pois li Misael, agora. E gostei muito. Belo texto. Você é um grande poeta. Feliz Misael, que teve um tal pai. Felizes os cinco filhos, que tiveram Você. Delicadeza, harmonia, uma atmosfera simbolista, a depuração, o ritmo sutil, tudo impecável, raro. Gratíssimo a Você pelo dom dessa alta poesia, expressa numa forma perfeita, num estilo que está entre os mais puros do Brasil. Você me lembra às vezes certas páginas refinadas do melhor Andrade Murici. Quer dizer, um herdeiro do simbolismo. Misael precisa de ser publicado. E quanto antes.
Creia que foi um prazer para mim dialogar tranquilamente com a sua poesia. Você é puramente um poeta. Que carta bonita lhe mandou Tristão ― há tantos anos... Consagradora. Calorosa. Plena justiça a você, a seu talento, a essa misteriosa dedicação desinteressada à poesia ― mysterium fidei. Você já leu A minha Fé, de Joaquim Nabuco, uma apologia da sua fé, escrita em Petrópolis, 1892-1893, inédita até agora no Brasil, publicada pelo Instituto Joaquim Nabuco, do Recife? Que livro penetrante. Sua poesia é toda filosófica. Você é simultaneamente um poeta e um filósofo. Uma poesia densamente psicológica, sim, e tocada sempre por uma indagação metafísica. Você poderia chamar à sua Poética Diário Metafísico, à maneira de Gabriel Marcel. Porque você é um homo viator, um peregrino, um servidor da verdade, alguém que não se pertence, mas pertence à poesia, à vida transcendente. Que domínio completo e ágil tem você da forma poética. Você encontrou realmente a sua forma, o seu ritmo perfeito, harmoniosa, exato, a sua respiração. Poesia é respiração. Você recebeu de fato esse grande dom poético, o poder de exprimir a vida em termos de beleza. Você está longe felizmente de ser um racionalista. Você acolhe a vida, a vida toda, inteira, na sua complexidade. Você bem sabe que “intellectus quidam defectus est ratio”, a razão é a imperfeição da inteligência. Você é inteligência e sensibilidade. Guardo uma impressão muito agradável dessa poesia profunda, vivida, sofrida, existencial, de uma densidade e de uma leveza constante, que é a sua poesia. Você é um criador pleno, maduro, altamente consciente. Você conhece a poesia de Wilson Alvarenga Borges? Lembrei-me agora dele a propósito de você. Há analogias entre as experiências poéticas dos dois artistas. Penso a seu respeito na obra de Raïssa Maritain, tão vertical, tão diáfana, tão espiritual sempre. La Vie Donnée, Lettre de Nuit, Au Creux du Rocher, tantas páginas de suma beleza, como o poema trágico Deus Excelsus Terribilis, em plena guerra. Você pertence a esse nobre universo dos poetas profundamente espirituais. Um Max Jacob, um Pierre Reverdy, um Alphonsus, um Dom Marco Barbosa, um Francisco Karam, uma Maria Isabel, uma Carminha Gouthier... Tantos. Receba o abraço de admiração afetuosa do seu velho e enternecido leitor, que deseja tudo de bom para você.


“Quanta angústia e quanta reflexão. Agora a carta de Tristão torna-se mais clara para mim. Terá sido a análise do POEMA? O Sr. me lembra o Leopardi e o Augusto dos Anjos, em sua cósmica e dilacerante indagação, pondo de lado o arcabouço cientifico, que emprestava à forma uma mensagem específica. Lembra-me, de certo modo, Leconte de Lisle e, mais intensamente ainda, lembra-me o poema de Arturo Graf. Exatamente. Graf. No poema em que fala de um silêncio voraz, avassalador, implacável, a contrastar com o rumor de sua angústia e desespero.
Os seus poemas são de uma beleza e de uma força extraordinária. O aspecto místico, ainda que importante, não prepondera. A sua força se concentra muitíssimo na melodia intrínseca de cada reflexão. Logopéia, teria dito Ezra Pound.
Uma poesia transida por uma intensa re-flexão, onde a mística e o lirismo se entrelaçam num ritmo preciso e concentrado. O poeta, a natureza e os homens tecem um dialogo com a eternidade, a partir do fluxo do cosmos e da conquista da alma.
Tenha por ora a minha impressão mais ardente e sincera de uma grande poesia.”
 

“A densidade das reflexões consignadas em Contemplação da unidade nos mostra que o livro é mais que um tratado de estética: estaríamos diante de um daqueles casos em que o valor da obra se mostra quando nos sentimos desafiados ao seu estudo. Trata-se de um trabalho cuja importância se mensura pelo tempo dispensado ao seu entendimento. (...) A autenticidade do projeto de A. Barcellos Sobral necessita de herdeiros disponíveis a aprender a sua visada abrangente, criadora e rigorosa, de gente que esteja disponível a contemplar a Unidade.
Eis o trabalho da vida de um homem, um livro que nos ensina que a contemplação não é apenas exploração ou crítica, mas um amor sem paixão, capaz de perceber as coisas simples, serenamente”.


 “Magnificamente poeta, A. Barcellos Sobral tem o aplauso entusiasmado da primeira linha da crítica brasileira de Alceu Amoroso Lima a Antonio Carlos Villaça, de Henrique Serpa Pinto a Marco Lucchesi. Vozes que confirmam a vocação do poeta e a cosmovisão do artista.
Desde 1955, quando o Clube de Poesia de Campos, sob a liderança do sempre lembrado Mario Newton Filho, lançou Poema – 1º Caderno, A. Barcellos Sobral foi reconhecido como autor de uma poesia essencialmente espiritual, de fundo dramático. Em No Alto Como as Estrelas, editado em 1987, pela Cátedra, e neste Misael, sua produção evolui para o lirismo, dela desaparecendo todos os vestígios da primeira publicação.
Misael – Crônica de uma paternidade é uma coletânea de primoroso texto, permeando aleluias e hosanas com formas abissais de ternura e beleza. Livro reclamado, de há muito, pelas estantes mais categorizadas da poética brasileira, Misael satisfaz a espera de anos, para tornar-se obra obrigatória na nominata do que melhor existe em nosso país”.


“De seu livro Poema⁄1º Caderno agradou-me mais a primeira parte. Julgo realizada a experiência de uma diferente metrificação. Há uma mágica, um ritmo ímpar, que resultam da nova contagem de sílabas, e muito bem se adaptam ao seu pensamento”. 



Entrevista


ROBERTO KAHLMEYER-MERTENS: Não há como começar essa entrevista senão dizendo o quanto sua presença em nosso projeto é grata e só nos honra. Receio estar me repetindo, mas devo dizer que obras como Misael em nada ficam a dever a livros como o Hipérion[1] de Hölderlin ou os Frutos da terra[2] de André Gide.

 A. BARCELLOS SOBRAL: Agradeço o elogio, o interesse e o convite que tanto me prestigia.

 (...)


K-M: Numa primeira avaliação do conjunto de sua obra, por um olhar superficial, ela parece heterodoxa. Temos poesia lírica, dramática, poemetos que o senhor chama de “parábolas”, poemas em prosa e, no fim de tudo, um ensaio científico. Numa segunda visão, atenta ao conteúdo, é possível enxergar um fio condutor que parece perpassar os seus textos, desde a obra de juventude, lá em 1955, caminhando necessariamente para o seu livro Contemplação da unidade,[3] de 1998. Com isso talvez se esboce o itinerário para o que o senhor, nesse livro, chama de “poesia integral”. Minha leitura é correta ou estaria diante apenas de uma impressão? Há um ‘leitmotiv’ ou seria uma miragem?

BS: Há o fio condutor. E isso já pode ser constatado desde minhas parábolas, pois nelas já há a indicação do que penso filosoficamente. Meu entendimento de filosofia é diverso do tradicional. Penso que seja mais próximo do de sabedoria, encontrada no pensamento oriental e em alguns místicos do cristianismo, do que na tradição filosófica, que às vezes tende a uma verborragia. Perdoe se digo isso a um leitor de Kant, Hegel e Heidegger, como você.

K-M: O que o senhor chama de parábolas são como pequenos poemas. Tais como “koans”, enigmas budistas a que certos cientistas contemporâneos recorreram para pensar a física quântica. Permita-me que leia duas parábolas de seu livro No alto como as Estrelas:


“Falo demais do ser
e da beleza. Pode a fonte
mudar seu canto?”

E ainda

“Penso em Deus.
Corre a tartaruga
atrás da luz.”

BS: Muito bem. Note-se que a parábola, antes de ser literária, tem uma significação filosófica, em um plano ainda mais profundo. Tenho perto de 2500 parábolas, que contam uma longa história. Isso é sinal de uma direção e, mesmo que não declare isso, é algo implícito no desenvolvimento de minha obra.

K-M: Identifico, então, um caminho da poesia à filosofia. O que prova que poesia e pensamento científico, na sua obra,  são indissociáveis.

BS: Pois não, perfeito!  

K-M: Talvez por isso vejamos comentários que apontam para esse mesmo sentido sobre o senhor, como é o caso de Marco Lucchesi, Antônio Carlos Villaça e, entre todos os comentários, o de Alceu Amoroso Lima quando (se me permite que leia) diz que: 

 “Os poetas modernos têm medo do pensamento. Fogem da poesia filosófica. Ou então ficam no puro abstracionismo. O senhor não. Enfrenta essa coisa dificílima: a poesia e a especulação. E o seu pensamento não esmaia a beleza. Nem abafa a meditação (...) o essencial é que vejo, nos seus versos, um sentido próprio, um caminho original e alguma coisa que pode vir a marcar (...) sinto que em seus versos, não só por serem inéditos, mas por serem o que são representam alguma coisa de sério e mesmo de importante”. 

Esse parecer, vindo de quem vem, é mais que autorizado. Daí, gostaria de saber como o senhor vê a implicação entre poesia e pensamento. Poesia e filosofia seriam mesmo duas montanhas vizinhas? 

BS: Deixe-me ver aqui... é uma longa história... Temos aqui o item 3.2.1 do Contemplação da unidade. Neste item, apresento os meios de projeção estética. O que entendo por projeção estética é a situação do fato estético, nos meios de projeção estética: o microespaço, o macroespaço, o megaespaço e o microespaço-tempo. No microespaço-tempo, teríamos o pensamento, a sensação, o sentimento, a emoção, as pulsões etc. e as artes que se projetam no espaço-tempo psicológico, isto é, a poesia e a música. O microespaço-tempo se divide em físico e psicológico. Isso pode ser verificado em poesias como as contidas em meu Agonia e ressurreição, pois os poemas que aí coloco correspondem ao paradigma de minha poética “psiqueísta” (de psiqueísmo), sem pretender criar uma nova escola literária. 

K-M: O senhor poderia recitar uma das poesias, para que possamos ter uma maior clareza do que se trata, por meio da exemplificação? 

BS: Pois não. Aqui está: 

“Noite fechada.
Caída sobre os neurônios.
A esperança como armadura
menor do que o guerreiro
fere-lhe a resistência.
Mas ele não cede
põe sobre o mal-estar
unguento de paciência.
Resiste heroicamente
como um dique de pedra
resiste à pressão da inundação.
Proibido capitular
ou mesmo gemer resmungar.
A regra é resistir.
Opor logística espiritual bastante
para transformar angústia e caos
em mais ser em mais ser.” 

Aqui se expressam os termos da minha poética.




[1] HÖLDERLIN, Friedrich. Hypérion. München: Die Deutscher Klassiker, 1993.
[2] GIDE, André. Les nourritures terrestres, et Les nouvelles nourritures. Paris: Gallimard, 1935.
[3] Cf: Bibliografia ao fim desta entrevista.



Principais obras:
Poema/1° Caderno. Campos: Clube de Poesia de Campos, 1955.
No alto como as estrelas. Rio de Janeiro: Cátedra, 1986.
Misael – Crônicas de uma paternidade: Niterói: Cromos, 1996.
Contemplação da unidade – Tentativa de uma holística da existência. 2ª. ed. Niterói: Nitpress, 2010.


Em sinal de luto a A. Barcellos Sobral, o Blog Literatura-Vivência deixará de fazer postagens por
7 dias, a contar da presente data.






Programação mensal da Academia Niteroiense de Letras - Lançamento de novo número da Revista Eletrônica "A Cadeira"



Atendendo a pedidos de leitores do Blog e de frequentadores das reuniões da Academia Niteroiense de Letras, passaremos a divulgar, mensalmente, no Literatura-Vivência a programação acadêmica da ANL.




Dia 4 de abril de 2012
Ciclo de Palestras
“Ressonâncias e memórias de Maria Jacintha”
Palestrante: Marise Rodrigues
17h / gratuito
Rua Visconde do Uruguai, 456 – Centro

***

Dia 11 de abril de 2012
Ciclo de Palestras
“Literatura e imaginário”
Palestrante: Iduína Mont`Alverne B. Chaves
17h / gratuito
Rua Visconde do Uruguai, 456 – Centro
***

Dia 18 de abril de 2012
Painel da Saudade em louvor à memória de Vera de Vives
Orador: Sávio Soares de Sousa
17h / gratuito
Rua Visconde do Uruguai, 456 – Centro

***

Dia 25
Projeto “Conversa Literária”
Mediador: Gilson Rolim
Entrevistado: Jorge Loretti
17h / gratuito
Rua Visconde do Uruguai, 456 – Centro




Entrada Franca

A edição de abril/maio/junho de A Cadeira, revista virtual da Academia Niteroiense de Letras - ANL,  já se encontra no site da ANL. Para acessá-la, entre em www.academianiteroiense.org.br
 e clique em “Revista virtual”. Depois, é só seguir o índice.




Divulgação Cultural
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quinta-feira, 29 de março de 2012

Sobre serenidade, minimalismo e intensidade...




Reza a lenda que durante a reconstrução do Japão, no pós-guerra, representantes dos EUA estiveram visitando Tokyo. Num desses eventos oficiais, um dos estrangeiros (que representava uma conhecida rede norte-americana de museus) foi apresentado a um dos mais respeitados artistas japoneses. Usando da influência de seus assessores, o ocidental conseguiu um convite para jantar na casa do ancião japonês. O jantar viria acompanhado da possibilidade de apreciar a obra pictórica daquele artista.
Chegando a casa simples, o Marchand americano foi cordialmente recebido e, após o jantar, ansioso, foi conduzido à sala ao lado para apreciar a pintura do japonês.
Deparou-se, então, com uma única tela que foi contemplada com ar especialístico durante uns dez minutos. Acabado dali, o americano indagou pelos outros quadros. Foi quando o pintor japonês, admirado, perguntou-lhe:

“ – Mas o senhor consegue ver mais de um quadro por dia?”

A estória, em tom de anedota, ilustra a maneira diversa com que ocidentais e orientais entendem não apenas a arte mas, também, a riqueza. Para o primeiro, riqueza está associada ao acúmulo, à profusão, à quantidade; para o segundo, tem mais a ver com intensidade. 

*

Neste dia 29 de março de 2012, comemoramos o centenário do poeta, jornalista e professor Luís Antônio Pimentel. Muitos louvam Pimentel por sua centena de anos vividos, outros falam de sua vasta obra (mais de 20 livros), mas o maior valor de Pimentel está no fato de ele ter feito sua vida muito mais de intensidade do que de quantidade. Uma prova disso é que, ao escolher uma poesia para praticar, adotou logo o haicai e nesta se fez mestre. Uma poesia serena, minimalista, intensa, mas não menos expressiva... uma poesia que diz muito acerca de seu poeta... conheçamos a poesia haicai de Pimentel (e afastem-se daqui todos aqueles que não se contentam com uma poesia por dia.):


 

Borboletas rubras?
Não! É a sapucaia em flor
A enfeitar a relva.

(PIMENTEL, Luís Antônio. Obras Reunidas. Vol. 2. Niterói: Niterói Livros, 2004. p.418)






Divulgação Cultural
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Clique AQUI e assista a matéria do RJ-TV
da Rede Globo, sobre Luís Antônio Pimentel.


domingo, 25 de março de 2012

Lançamento dos livros “Eles nasceram em Niterói” e “Topônimos tupis de Niterói”.

Dando sequência aos eventos relacionados à comemoração do centenário do poeta Luís Antônio Pimentel, notificamos o lançamento de um livro que congrega edições dos títulos Eles nasceram em Niterói e Topônimos tupis de Niterói.

No primeiro, vemos uma terceira edição ampliada do livro que traz uma criteriosa seleta dos nomes mais ilustres nascidos nesta cidade: Antônio Callado, Antônio Parreiras, Benjamim ConstantEverardo Backheuser, Felisberto de CarvalhoLeila Diniz, Lili Leitão, Márcia Haydée, Roberto DaMatta e Sérgio Mendes são apenas alguns dos perfilados. No segundo, temos o produto de uma ampla pesquisa de Pimentel sobre os nomes de lugares em língua Tupi, de nossa cidade. Um dos livros mais bem sucedidos de Pimentel, Topônimos tupis de Niterói (em sua quinta edição) constitui fonte relevante de estudos para gerações de escolares.
Esta edição comemorativa, promovida pela Secretaria de Cultura de Niterói e pela Fundação de Artes de Niterói – FAN, com o apoio da Imprensa Oficial do Rio de Janeiro, não teria sido possível sem o trabalho engajado de Caio Mattos, Margareth da Luz (responsáveis pela editoração e revisão gráfica) e Will Martins (autor da foto da capa). A estes penhoramos – em nome de Luís Antônio Pimentel – nossos mais sinceros agradecimentos.
Na data do lançamento festivo do livro (gratuito), o público niteroiense ainda poderá assistir à apresentação da Banda Municipal Santa Cecília. Local: Campo de São Bento. Rua Gavião Peixoto, s/n. Icaraí, Niterói.






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sábado, 24 de março de 2012

Cobertura fotográfica do lançamento do livro “O amor segundo Luís Antônio Pimentel” e estreia da peça “Doze dias com Leviana”.


Um dia histórico para a cultura letrada de Niterói... No teatro em que nasceu a dramaturgia brasileira, a novela “Doze dias com Leviana”, de Luís Antônio Pimentel, escrita em 1935, estreia em grande estilo em Niterói. Enquanto se aguardava o espetáculo, o niteroiense pode participar, na Sala Carlos Couto, da noite de lançamento do livro “O amor segundo Luís Antônio Pimentel” (Nitpress, 2012), que antologiza poesias líricas e eróticas do autor.
Como mostra o registro literário, a elite literária da cidade veio prestigiar o autor que completa 100 anos de idade no próximo dia 29.






Interior da Sala Carlos Couto, anexa ao TMnit

Luís Antônio Pimentel acompanhado de seus admiradores às vésperas do centenário.

O Professor Roberto Kahlmeyer-Mertens, a atriz e contadora de histórias Bia Bedran e o Presidente da Academia Brasileira de Literatura Roberto Santos

O livreiro Carlos Monaco, o médico Benvindo de Salles e o Jornalista Jourdan Amora

Antônio Machado (Toninho, Presidente da Sociedade Fluminense de Fotografia)
Sérgio Chacon, José Chacon de Assis e o Diretor Geral do Teatro Municipal de Niterói Sohail Saud.

Pimentel e Graça Porto

O Editor da Nitpress Luiz Augusto Erthal, o Jornalista Julio Vasco
e o Livreiro e Promotor cultural Carlos Monaco

Lucilia Dowslley e Luís Antônio Pimentel: ambos levantando Um brinde à poesia!

Um flagrante da conversa de Roberto Santos com a poeta Beatriz Chacon

Um poeta com 100, cercado de jovens (todos com 16 anos):
estudantes do Colégio Salesiano de Santa Rosa.

Kahlmeyer e Vasco entretidos em uma conversa literária.

Ana Paula Campos, Zuleika Hallais Walsh (Escritora e Companheira de Pimentel)
ao lado de outras convidadas do evento.

Roberto Kahlmeyer-Mertens, Roberto Santos (Fernando de Aviz)
 e Luiz Antonio Barros, respectivamente: prefaciador, autor das orelhas
e antologista de "O amor segundo Luís Antônio Pimentel".


Capa do livro lançado.



ESTREIA DA PEÇA DOZE DIAS COM LEVIANA

Vista panorâmica do Teatro João Caetano - Niterói.


Cartaz da peça


Vista geral da plateia do teatro,
em destaque o casal Luís Antônio Barros e Maria do Brazil S. Barros.
Na foto, ainda se pode identificar Beatriz Chacon, a acadêmica Elisabeth do Valle, Presidente da Academia de Letras da Região Oceânica Rosemar Sônia Pereira e o jornalista Julio Vasco.

O casal Zuleika e Pimentel

Zuleika Hallais Walsh, Luís Antônio Pimentel e o Editor da Nitpress
e produtor da peça Luiz Erthal

O casal Kahlmeyer-Mertens

Lucilia Dowslley e Maria Helena Latini, dose dupla de poesia boa!

Detalhes do TMnit

"Conheci Leviana numa estação de broadcasting (...)"

"Leviana canta no broadcasting pelo prazer de cantar - boemia de cigarra.
Leviana sabe que, quando chegar o inverno, ela terá muitas peles..."

"Leviana tinha uma religião - o Amor; um deus, - o Fingimento; e uma oração - o Pecado. Leviana dizia que pecar era muito mais humano que rezar".

"Gosto de você, porque me dá a impressão perfeita de dois homens. Quando acendo a luz , é um troglodita; quando apago é um - gentlemann."

Com 100 anos de idade, Luís Antônio Pimentel subiu ao palco para cumprimentar o elenco.

O produtor Luiz Augusto Erthal, a atriz Amanda Gallo (Leviana) e Pimentel.

Pimentel (ao centro) junto ao elenco de Doze dias com Leviana

O agradecimento emocionado/emocionante
(Da esquerda para direita: Luiz Erthal, Luiz Pimentel e Guga Gallo, Diretor da peça) 

A satisfação do autor nos bastidores



quarta-feira, 21 de março de 2012

Centenário de Pimentel em dose dupla






Luís Antônio Pimentel, provavelmente o mais antigo jornalista em atividade no Brasil, completa 100 anos de vida no próximo dia 29. Dividindo sua longa militância na imprensa com uma intensa produção literária, ele é hoje um dos maiores ícones da cultura fluminense, reconhecido internacionalmente por seu talento multifacetado – memorialista, poeta, fotógrafo e muito mais.
Para comemorar a data, a editora Nitpress, que tem em Pimentel o maior expoente de seu cast editorial, prepara o lançamento da antologia O amor segundo Luís Antônio Pimentel, que acontecerá no dia 23 de março, às 19 horas, no Teatro Municipal de Niterói, precedendo, no mesmo dia e local, a estreia da peça “12 dias com Leviana”, baseada em novela homônima de 1944, sendo este o primeiro texto de Pimentel levado ao palco.
Os dois eventos, praticamente simultâneos, abrem festivamente a semana do centenário de Pimentel, cujas comemorações envolvem várias atividades na cidade de Niterói, onde ele vive desde a infância, após deixar a sua Miracema, no interior fluminense. Pimentel tem sido um pioneiro em diversos aspectos e um ator/espectador da história:
- Aos 10 anos, participa de um experimento de Roquete Pinto, que o escolhe no meio do público e lhe pões os fones aos ouvidos para testemunhar, durante a Exposição Internacional de 1922, no Rio de Janeiro, a primeira transmissão radiofônica no Brasil;
- Nos primeiros anos da década de 30, já como jornalista, assina uma coluna diária na Gazeta de Notícias sobre os bastidores do rádio, veículo que viu/ouviu nascer. Trava contato com os grandes nomes do rádio na época – data desse período a novela 12 dias com Leviana, que narra um romance intenso vivido por um jovem poeta com uma cantora do broadcasting – e tem músicas suas gravadas (também é compositor bissexto, com parceiros como Orestes Barbosa) por Carmem Miranda, entre outros intérpretes;
- Comunista convicto, é preso em 1936. Em 1937, fugindo da perseguição do Estado Novo, consegue uma bolsa de estudos no Japão, onde trabalha na Rádio de Tóquio e trava contato com a cultura japonesa. Torna-se o primeiro poeta brasileiro a ser traduzido e publicado no Japão, com o livro Namida no Kito (Prece em lágrima), em 1940;
- No mesmo ano, tem publicado no Brasil o primeiro livro de contos japoneses: Contos do velho Nipon, relançado pela Nitpress em 2009, pelas comemorações do centenário da imigração japonesa para o Brasil (na ocasião, Pimentel foi um dos três brasileiros, sendo o único de origem não nipônica, homenageados pelo governo do Japão);
- Com a entrada do Brasil na II Guerra Mundial, ele retorna, trazendo na bagagem o cânone do haicai, gênero poético oriental que ajuda a introduzir, criando uma importante escola haicaista em Niterói, onde até hoje cultiva discípulos de vida e poesia;
- Participa da organização da Sociedade Fluminense de Fotografia, da qual é hoje o único fundador vivo. Suas fotos, sobretudo os nus femininos, correm o mundo em diversas exposições internacionais;
- Membro da Academia Fluminense de Letras, entre várias outras instituições acadêmicas, publicou quase duas dezenas de livros, enfeixados em 2004 nas suas Obras Reunidas. Em 2007, um trabalho inédito veio à luz – Haicais Onomásticos, marcando o início de sua atuação na Nitpress.
Aos 100 anos, Pimentel continua produtivo. Vai todo dia de ônibus do bairro de Icaraí, onde mora, ao Centro de Niterói, levar pessoalmente sua coluna diária – “Artes Fluminenses” – para o jornal A Tribuna.
Serviço da peça:
Adaptação da novela escrita por Luís Antônio Pimentel em 1935, a peça “12 dias com Leviana” narra um romance intenso e meteórico de um jovem poeta com uma cantora de rádio nos anos áureos do broadcasting. Fútil e volúvel, a personalidade de Leviana contrasta com a alma sensível do amante. Trata-se do primeiro texto de Pimentel levado ao palco. Completando 100 anos de vida no próximo dia 29, o autor – considerado um dos introdutores do gênero poético haicai no Brasil – é o mais antigo jornalista em atividade do país e possui cerca de 20 livros publicados.

 

Ficha técnica:
Produção: Editora Nitpress
Direção: Guga Gallo
Adaptação: Luiz Augusto Erthal
Produtora executiva: Graça Porto
Elenco: Amanda Gallo e Anderson Caldeiras


Temporada:
De 23 a 25 de março de 2012, com espetáculos às 21 horas na sexta e no sábado e às 20 horas no domingo.
Ingressos a R$ 30,00 (preço único), com 50% de desconto para menores de 21 anos, maiores de 60 anos e estudantes.
Teatro Municipal de Niterói (Rua XV de Novembro, 35 • Centro • Niterói • Rio de Janeiro • CEP: 24020-125 • Tel: 21 2620-1624


Confira esta postagem em seu contexto original no Blog da editora Nitpress


Divulgação Cultural
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