quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Índice remissivo do romance "O dom do crime", de Marco Lucchesi (exclusivo para o Literatura-Vivência)



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No domingo dia 4 de março, serão retomadas as atividades do projeto Escritores ao ar livro, das 10 às 13h., na praça Getúlio Vargas, na praia de Icaraí. O espaço oferecido pelo escritor e publicitário Paulo Roberto Cecchetti congrega outros escritores, leitores e demais amantes da cultura. Durante toda semana, até a referida data, o Blog Literatura-Vivência brindará com seus leitores alguns dos Escritores ao ar livro, publicando seus textos.
Será tim-tim até o domingo da semana que vem...



Um índice remissivo... e para que serve um índice deste tipo? Ora, em obras com rico conteúdo e temática vária, referências históricas (biográficas e topográficas), este tipo de guia nos permite o fácil acesso a dados e informações registrando a incidência e localização de cada um desses elementos. Um índice remissivo, assim, faz com que saibamos onde está o quê e nos permite uma visão mais abrangente do conjunto da obra.
É bem verdade, não é todo livro que precisa de um aparato como este, mas, no caso do romance O dom do crime, é uma cortesia oferecer clareza remissiva a prosa tão erudita.
Sem pretensões, o membro da Academia Niteroiense de Letras Luiz Antonio Barros oferece ao seu confrade Marco A. Lucchesi este elenco de remissões. Tão completo quanto o possível, o belo e riquíssimo romance ambientado no Rio de Janeiro do século XIX está, agora, devidamente mapeado pelo espírito cartografador e atento do Prof. Barros.
Quem já leu o livro de Marco Lucchesi agora pode relê-lo (valeria a pena) servindo-se das entradas deste índice. Aos que ainda não leram, têm nesta ferramenta carta a astrolábio para fazê-lo. 
Boa leitura!  


 
LUCCHESI, Marco A. O dom do crime. Rio de Janeiro: Record, 2010.



ÍNDICE REMISSIVO
 


                                                                                                                            Luiz Antonio Barros

Academia  Imperial  de  Medicina, 56

Acrópole, 10

Agostinho, Santo,  11, 148

Alcazar Lírico, O, 93

Alencar, José de, 43, 47

Alencar, Leonel de [ irmão de José de Alencar ] , 41

Alferes Almada, 17

Alienista, O, 142

Aljube, 14, 80

Almanaque Laemmert, 36, 139

Almeida, Manuel Antônio de, 22

Alusão a Francisco Otaviano: a vida em brancas nuvens, 91

Alusão a José de Alencar:  a volúpia que lhe estremecia o corpo, 123

Alusão a Machado de Assis: a geologia dos campos santos, 21; o território da loucura – O Alienista, 33; a roda dos enjeitados – Pai contra Mãe, 62;  centenas de Escobares, 24; a natureza parecia estar chorando: alusão a Brás Cubas, de Machado de Assis, 32

Antônia, a índia, 13

Ao Bastidor de Bordar, 43

Ariadne [ personagem da mitologia grega],  134

Arquivo Nacional, 154

Azevedo, Aluísio de, 80, 81

Barão de Cotegipe, 51

Barão de Paranapiacaba, 51

Barão de Petrópolis, 133

Barão de Torres Homem, 36

Barbeiro de Sevilha, O, 45

Barbosa, Dr., 135

Barbosa, Rui, 16, 38, 156

Baronesa de Taquari, 72

Baronesa XXX, 12

Beaumarchais, 45

Bentham, 14

Bentinho & D. Glória, 62

Bentinho & Mariano, 57

Bento Santiago ( Bentinho ), 22, 39, 41, 53, 56,63, 65, 68, 76, 83, 87, 88, 89, 99, 107, 109, 127, 147

Berquó, rua, 132 [ próximo ao São João Batista ]

Biblioteca Nacional, 12, 154

Bilac, Olavo, 58

Blanqui, Louis, 11, 14, 24, 36, 105, 111, 146, 147

Bocaiúva, Quintino, 31, 47

Brás Cubas, 37, 112, 127, 146, 152

Brás Martins [ pai de Olavo Bilac ], 58

Bruxo do Cosme Velho, O, 151

Busch Varella, 16, 17, 18, 19, 38, 49, 51, 68, 92, 95, 96, 103, 107, 108, 115, 135, 137, 139, 143

Camargo, Aurélia, personagem de Senhora, de Alencar, 43

Camilo, 63

Camilo de Montserrat, 12, 13

Campo de Santana, 22, 75, 87, 88

Candiani, 22

Cândida de Paiva Oliveira, D. , 129, 130, 131, 132, 137, 138

Capital do Império, A, 21

Capitólio, 10, 118

Capitu [ personagem de Dom Casmurro, de Machado de Assis ] , 39, 41, 43, 63, 68, 75, 76, 83, 85, 87, 99, 100, 109, 112, 127, 128, 147, 152

Carlos Arthur Busch Varella, 38: v. Busch Varella

Carlota, 50

Carolina Augusta, 55

Cartomante, A, 63

Casa de Pensão, 80, 81

Casa de Pianos de Guigon, 44

Casa dos Condes de São Mamede, 73

Casa Verde, A, 142

Casimiro de Abreu, 103

Castro Alves, 51

Catete, 132

Celso, Afonso, 31

Cemitério de Caju, 154

Cemitério do Maruí, 52, 154

Cerqueira Lima, Dr., 33

Champanhe, um caso de metonímia, 97

Champollion, 22

Cícero, 50

Coelho, Carlos, 129

Colégio dos Jesuítas, 21, 36, 117

Colégio Pedro II, 13, 50, 51

Comborço [ palavra empregada por Machado em Dom Casmurro e no conto Missa do Galo] , 92

Comte, 11

Conde d’Eu, 56

Conde de Irajá, 46

Conselheiro Aires: Carmo e Aguiar, 44

Convento de Santa Teresa, 25

Corte, A, 15, 16,23, 36, 38, 45, 46, 51, 55, 59, 68, 102

Cosme Velho, 10, 73

Crisálidas, de Machado de Assis, 43

Cúria metropolitana, 154

Curupaiti, 26

D. Pedro II, 13, 26, 46, 91

Da Ajuda, ladeira, 117 [ denominada Ladeira do Seminário até o séc. XX ]

Da Ajuda, rua, [ atualmente Chile ], 93

Da Alfândega, rua, 22

Da Carioca, rua, 23 (?)

Da Guanabara, baía, 23, 25, 48   

Da Guarda Velha, rua, [ atualmente rua da Av. Treze de Maio], 65

Da Imperatriz, rua,[ atualmente rua Camerino],  33

Da Lapa, praia, 12, 25

Da Mãe do Bispo, ladeira, 117

Da Misericórdia, ladeira, 21, 117

Da Silva, Helena Augusta, 26, 32, 33

Das Belas Noites, rua, 43 [ atual Rua Juan Pablo Duarte ]

Davi, As trombetas de, 47

De Botafogo, praia, 23, 39

De Icaraí, praia, 41

De Moraes, Evaristo, 17, 18, 19

Demóstenes, 50

Deolinda Belarmina, 55

De Santa Luzia, praia, 43

De São Pedro, rua, 14 [ Foi incorporada à Av. Presidente Vargas ]

Deuses de Casaca, Os, 32

Diário do Rio de Janeiro, 31, 79

Dias, Antônio, 131

Dias, José, 56, 57,67, 68, 75, 112

Dias, José, o agregado e Divino, Leonor Eufrosina do Amor, a agregada, 67,68, 79, 83, 87

Direita, rua, 50 [atual Rua Primeiro de Março ]

Divina Comédia, A, 15, 147

Divino, Leonor Eufrosina do Amor, 69

Do Carmo, ladeira, 118

Do Castelo, ladeira, 117

Do Castelo, morro, 118 [ hoje Esplanada do Castelo]

Do Cotovelo, ladeira, 117, 119 [ Beco do Cotovelo é a atual Rua Vieira Fazenda ]

Do Hospício, rua, 44 [ atual Rua Buenos Aires ]

Do Ouvidor, rua, 31, 69

Do Resende, rua, 53

Dom Casmurro, 19, 57, 64,87, 88, 99, 153

Don Giovani, 38

Dos Barbonos, rua, 20,26, 33, 36, 59, 61, 62, 73, 75, 76, 102, 115, 130, 131, 151 [ atual Evaristo da Veiga ]

Dos Ourives, rua, 10 [ Atual Rua Miguel Couto ]

Dos Santos, Maria José, 35

Doutor Ciclope, 15

Doutor Ulisses, 15

Duarte, Antônio, 135. V.  Duarte Coronel

Duarte, Coronel, 91, 93, 101, 102, 103, 137

Ebing, Kraft, 142

Eça de Queirós, 85

Eclesiastes, 11

Eldorado, O, 92, 93, 99

Eponina, D., esposa de Francisco Otaviano, 91

Escobar, 24, 100

Escrava Esperidiana, A, 26, 44, 54, 115, 116, 121

Esperidião, 58, 83

Eufrosina, Leonor, 68, 139

Eu narrador & Brás Cubas, 11

Eu narrador & Ninguém, Dr. Ulisses, Dr. Ciclope, 15

Evangelho das Selvas, O, 51

Evaristo da Veiga, rua: futura denominação da rua dos Barbonos, 131

Faculdade de Direito de São Paulo, 50

Faculdade de Medicina do Morro do Castelo, 35

Fagundes Varela, 51, 52

Faillace, Vera, 154

Feijó, Luís, 56

Felisberta, esposa de Busch, 51

Félix, personagem de Ressurreição, de Machado de Assis, 147

Ferreira Viana, 16, 132

Festa do Divino, 22

Filangieri, 14

Filgueiras, Caetano, 14, 103

Firmo Diniz, 17, 53, 64, 93, 95, 139

Floresta, Nísia, 38

Fort Du Taureau, 146

Fortaleza de Santa Cruz, 119

Francisco de Monte Alverne, 45. V. Monte Alverne

Freguesia de São José, 55

Freiras da Ajuda, As, 12

Francisca de Assis, mãe de José Mariano de Assis, 55

Francisco Otaviano, 61, 91

Fúrias, As [ essas temíveis divindades mitológicas são a personificação da maldição ], 121

Gazeta Médica do Rio de Janeiro, 134

Graziela, a gata, 11, 146

Guerra do Paraguai, A, 26, 31, 38, 45, 130, 133

Guerra do dos Canudos, 17

Gustavo, 84

Hanehmann, 10, 56

Havana, um caso de metonímia, 14, 20

Helena do Vale [ pers. do livro Helena, de Machado de Assis,  43, 87

Helena Augusta, 38: novo nome de Helena Maria, após o casamento, 35,36, 37, 39, 41, 43, 59, 75, 83, 85, 86, 88, 92, 93, 99, 101, 102, 103, 107, 108, 112, 113, 115, 116, 121, 122, 127, 128, 129 , 130, 131, 137, 138, 143, 145, 146, 147, 152

Helena Maria – V. Helena Augusta.  

Hipócrates, 96

Hospício de Pedro II, 135

Hotel Brisson, 93

Hôtel de France, 26

Hotel do Globo, 20

Hugo, Victor, 45

Iago, 88

Igreja da Glória, A, 39, 133

Igreja de Santana, 37, 88

Igreja de São Gonçalo Garcia, 22

Igreja de São Pedro dos Clérigos, 22

Igreja do Carmo, A, 26, 43

Imitação de Cristo, 43

Inferno de Dante, O, 131

Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 20, 152

Instituto Homeopático do Brasil, 56

Janela dos Barbonos & Janela de Montecavalos, 75

João Caetano, 48

Joaquim Maria [Machado de Assis], 26

Jordão, Lia, 154

Jornal do Commercio, 12, 79

José Maurício, Pe, 55

José Veríssimo, 147

Juliana [ empregada em O Primo Basílio], 85

Junqueira Freire, 51

Jurujuba, 13

Lagrange, 22

Leopardi, 11

Leopoldina Josefina,  55

Livraria Garnier, 12, 13

Lopes, Solano, 147

Lucia de Lammermoor, 22

Lucíola, livro de José de Alencar, 12 ; volúpia que lhe estremecia o corpo: Lucíola, cap. 7, 123

Luísa, personagem de O Primo Basílio, 27, 85

Luiza Maria, irmã de Helena Maria, 36, 133

Macedo, Joaquim Manuel de,  22, 37, 46, 80, 117, 118

Machado de Assis, 14, 19, 20, 21, 22, 27, 31, 32, 33, 38, 39, 43, 45, 47, 52, 55, 59, 62, 63, 64, 71, 72, 85, 91, 103, 111, 112, 113, 117, 119, 147, 152

Madame Barbet, 36

Madame de Staël, 72

Marquês de Caxias, 31, 147

Marquês de Maricá, 42, 55

Marquês de Olinda, 12

Marquês de Sade, 11, 148

Marquês do Paraná, 38

Matacavalos, 75 [ atual Riachuelo]

Matusalém, 13

Medeiros e Albuquerque, 152

Mendonça, Lúcio de, 48

Moisés, 28

Monte Alverne, 16, 45, 46, 47, 48, 49, 51, 111, 112, 147

Morro do Castelo, 18, 23, 25, 36, 59, 61, 117, 147

Morro do Senado, O, 25

Mosteiro de São Bento, 25

Museu da Justiça, 154

Nabuco o pai de , 15 (?)

Nabuco de Araújo, 51

Nabuco, Joaquim, 152

Napoleão, Arthur, 71

Neves, Antônio José Pereira das, 135

Ninguém, 15

Niterói, 11, 15, 37, 109, 119

Nossa Senhora do Desterro ( Itaboraí ), 35

Novais, Carolina Augusta Xavier de [ esposa de Machado de Assis], 38, 71, 72

Olimpo, 135

Ordem da Rosa, 59

Ordem de Cristo, 59

Otaviano, Francisco, 47,61, 91

Pascal, 11

Passeio Público, O, 13, 25, 43

Paulo e Francesca, 131

Perez, Eliane, 154

Pertence, Dr., 135

Pia dei Tolomei, 15

Ponta de Iago [ Uma ponta de Iago é o título do cap. LXII de Dom Casmurro ], 68

Pontes Visgueiro, 80

Porcelana de Sèvres, 96

Porto, um caso de metonímia, 97

Praia Grande, 41, 109 [ atual Niterói ]

Primo Basílio, O, 27, 85

Princesa Isabel, A, 51, 56

Quando eu era vivo, 152

Quincas Borba, 111

Rabelo, Laurindo, 36, 41

Raimundo Martiniano, 76,  84, 124, 129, 130, 131, 132, 137, 138

Renan, 10

Ressurreição, livro de Machado de Assis, 147

Ribeyrolles, Charles, 52

Rio de Heráclito, O, 12

Rita, 63

Romero, Sílvio, 10

Roda dos Enjeitados, A,  [ aparece no conto Pai contra mãe, de Machado de Assis], 62

Rossio, 103

Santa Casa de Misericórdia, 26, 58, 154

Santo Agostinho, 148

São Domingos, Niterói, 41, 102, 108, 109, 115

São Jorge, 22

São Leonardo, 25

São Luís do Maranhão, 80

São Severo, 25

Schmidt de Vasconcelos, Dr., 9, 10, 20, 148

Segredo de Augusta, O, de Machado de Assis, 92

Sêneca, 10

Senhora, ou seja, Aurélia Camargo, do romance Senhora, de Alencar, 84

Silva, José Joaquim Ludovino da, 135

Silva, José Mariano da, 26, 32, 36, 38, 39, 41, 50, 53, 55, 57, 58, 59, 64, 65, 68, 80, 83, 88, 89, 91, 92, 93, 96, 97, 99, 101, 102, 106, 107, 108, 109, 115, 121, 122, 129, 130, 132, 133, 134, 135. 136, 137, 138, 139, 141, 143, 147

Sisson, 46

Sociedade Petalógica, 103

Sófocles, 48, 49

Souza, Raimundo Martiniano Alves de, 129. V. Raimundo Martiniano

Surville, Léon, 129

Teatro de São Pedro, 22

Tijuca, 41

Tio Cosme [ personagem de Dom Casmurro, de Machado de Assis ] , 53, 80

Torres Homem, pai, / Torres Homem, filho, 56, 133, 134, 135, 136, 139, 143

Trabalhadores do Mar, Os, 45

Tristão e Isolda, 58

Valadão, Manuel, 56

Vasconcelos [ personagem de O Segredo de Augusta, de Machado de Assis], 92

Vasconcelos, Zacarias de Góis e , 26, 112, 132, 147

Vilela, 63, 64

Visconde de Taunay, 13, 152

Viscondessa de Abrantes, 12

Vitória do Riachuelo, 112

Viveiros de Castro, 141, 142

Viúva Coelho, A, 26, 130, 137, 138. Cf.  Coelho, Carlos

Viúva XXX, 12

Xavier, Faustino, 71, 72

Xavier, Francisco, 56

Zanardeli, 13






Divulgação Cultural
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"Luís Antônio Pimentel - 100 anos em foco", uma retrospectiva da vida do jornalista, professor, historiador e poeta Luís Antônio Pimentel que, em 29 de março, completa 100 anos! A exposiçãoacontece no Solar do Jambeiro, com vernissage no dia 22 de março, 5ª feira, às17 horas. A curadoria é do fiel amigo e também poeta, Paulo Roberto Cecchetti.No dia 19 de abril haverá um "talk show", às 16 horas, com a presençado homenageado. A exposição fica aberta para visitação até 29 de abril,domingo, no horário de funcionamento do Solar. Na foto um bico de pena dosaudoso artista plástico Miguel Coelho com haicai do Pimentel.


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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Reencontros "rebelianos"


No domingo dia 4 de março, serão retomadas as atividades do projeto Escritores ao ar livro, das 10 às 13h., na praça Getúlio Vargas, na praia de Icaraí. O espaço oferecido pelo escritor e publicitário Paulo Roberto Cecchetti congrega outros escritores, leitores e demais amantes da cultura. A partir de hoje, durante toda semana, até a referida data, o Blog Literatura-Vivência brindará com seus leitores alguns dos Escritores ao ar livro, publicando seus textos.
Será tim-tim até o domingo da semana que vem...


Foto: Carolina Tavares (Praia de Icaraí - Niterói), Blog: Café com canela


Um reencontro

                                                                                                                       Sandro Pereira Rebel

 Há casos em que os encontros
 que revolvem tempos idos
acabam em desencontros
confusos e doloridos.
 Reencontro com velhos amigos que há muito tempo não se vêem é gostoso, sim, mas às vezes se torna complicado. Vejam, por exemplo, o que me aconteceu na última manhã de domingo: de repente, em meio à habitual caminhada pelo calçadão de Icaraí, dou de cara com alguém e logo lhe abro os braços, esfuziante:
 – Lineu! Oh, Lineu, que prazer revê-lo!
 E o Lineu não se fez de rogado. Bastou-lhe olhar-me uma só fração de segundo para corresponder por inteiro a toda a efusão do meu abraço:
– Mas é você mesmo?  Nem acredito! Quanto tempo, meu Deus!
 – Poxa, Lineu, que felicidade! Por onde andou? Vamos, me conta. Afinal, 40 anos, no mínimo, já se passaram desde que nos vimos pela última vez, não? 
E daí pra frente o papo correu solto, entre um chopinho e outro no primeiro bar que encontramos nas imediações. Foi um tal de perguntar por fulano e por sicrano e por beltrano, que não tinha mais fim. E   – o que é pior –   o mais das vezes, as respostas, quer do meu lado, quer do lado do Lineu, eram quase sempre as  mesmas:  nunca mais vi; soube que andava muito doente; vi outro dia, coitado, nem parecia aquele...
Até que, em determinado momento, o Lineu se dirigiu a mim chamando-me, pela primeira vez, pelo que supunha fosse o meu nome:
 – Mas, e você, Eduardo, meu caro Dudu, o xodó das liceistas, me fala mais de você, da família, do que tem feito, de como, enfim, tem sido a sua vida.
Já por aí, vêem, a coisa começava a complicar-se: o Lineu tinha trocado meu nome...  Mas, pensando bem, que importância tinha isso? O importante eram as boas lembranças que ele estava me trazendo. Aliás, só agora percebo, eu também não era capaz de jurar que o nome dele fosse mesmo Lineu. Não seria Alceu?
 Resolvi, então, assumir convicto o papel do Dudu e continuar recordando outros amigos comuns que, àquela altura, conseguiam ainda não ter sido mexidos naquele cipoal de cinzas que estávamos revolvendo.
– E o Jarrinha, tem notícias dele?
– Ah, o Jarrinha! Que apelido mais louco, né? Pois você não soube, Dudu? O Jarrinha já se foi há uns três ou quatro anos. Câncer, sabe. E no fígado, quer dizer, em poucos meses se acabou, coitadinho! Era um bom menino. Um tanto descabeçado, mas, no fundo, um bom menino sim. Que Deus o tenha, né?
 – É  – concordei –,  que Deus o tenha.
Mas, a partir daí, obviamente, a conversa já não prosseguiu tão animada nem aquele reencontro continuou sendo tão festejado. Afinal, Jarrinha era nada mais nada menos que o meu apelido dos tempos de Liceu lá na minha cidade natal, a gloriosa Campos dos Goytacazes...


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"Luís Antônio Pimentel - 100 anos em foco", uma retrospectiva da vida do jornalista, professor, historiador e poeta Luís Antônio Pimentel que, em 29 de março, completa 100 anos! A exposiçãoacontece no Solar do Jambeiro, com vernissage no dia 22 de março, 5ª feira, às17 horas. A curadoria é do fiel amigo e também poeta, Paulo Roberto Cecchetti.No dia 19 de abril haverá um "talk show", às 16 horas, com a presençado homenageado. A exposição fica aberta para visitação até 29 de abril,domingo, no horário de funcionamento do Solar. Na foto um bico de pena dosaudoso artista plástico Miguel Coelho com haicai do Pimentel.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

"Academia Niteroiense de Letras" - Programação para o mês de março de 2012



Programação para o mês de março de 2012


Dia 6 - 17h
Reunião de Diretoria

Dia 7 - 17h
Reunião de convívio
Roda de leitura (leve seu texto para ser lido e comentado)

Dia 14 - 17h
Projeto “Datas significativas”

“Luís Antônio Pimentel: Jubileum (homenagem ao centenário de nascimento de Luís Antônio Pimentel, atual ocupante da Cadeira 07, patronímica de José do Patrocínio)

Palestrante: Roberto S. Kahlmeyer-Mertens


Dia 21 - 17h
Projeto “Música na Academia”
Participação de integrantes do projeto “Mesa de Botequim” (AABB/Niterói)

“O samba: origens e alguns de seus nomes”

Palestrante: Lauro Gomes de Araújo

Dia 28 – 18h
Projeto “Datas significativas”

Homenagem ao centenário de nascimento de Carlos Tortelly Rodrigues Costa, ex-ocupante da Cadeira 21, patronímica de Luís Antônio Silva Santos

Palestrante: Waldenir de Bragança

Sessão conjunta: Academia Niteroiense de Letras / Academia Fluminense de Letras /Academia Fluminense de Medicina

OBS.: Os eventos dos dias 7, 14 e 21 serão realizados na sede da Academia Niteroiense de Letras (Rua Visconde do Uruguai, 245 – Centro); o do dia 28, na sede da Academia Fluminense de Letras (Praça da república, s/nº - Centro)



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"Luís Antônio Pimentel - 100 anos em foco", uma retrospectiva da vida do jornalista, professor, historiador e poeta Luís Antônio Pimentel que, em 29 de março, completa 100 anos! A exposiçãoacontece no Solar do Jambeiro, com vernissage no dia 22 de março, 5ª feira, às17 horas. A curadoria é do fiel amigo e também poeta, Paulo Roberto Cecchetti.No dia 19 de abril haverá um "talk show", às 16 horas, com a presençado homenageado. A exposição fica aberta para visitação até 29 de abril,domingo, no horário de funcionamento do Solar. Na foto um bico de pena dosaudoso artista plástico Miguel Coelho com haicai do Pimentel.


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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

"Marcha de quarta-feira de cinzas", de Vinícius de Moraes





Vinícius de Moraes (1913-1980) compôs, em 1964, a Marcha de quarta-feira de cinzas. A mesma música seria gravada no ano seguinte durante uma apresentação no Teatro Municipal de São Paulo. Para muitos, a canção não passaria de mais uma composição carnavalesca de Vinícius em parceria com Carlos Lyra. Entretanto, a melancolia que ali imperava não era a de foliões que precisariam aguardar um ano por outro carnaval. Vinícius, em sua sensibilidade de poeta (de “antena da raça”, como diz o já “chichê” de T. S. Eliot), havia captado a conjuntura política que o país se inserira com o Golpe Militar e entrevia os desdobramentos funestros deste evento. Passados aqueles os anos de adversidade, ficou a canção que ensina que em qualquer regime totalitário o povo é cinza e pessoas se tornam “gente que nem se vê”:



Marcha de quarta-feira de cinzas, de Vinícius de Moraes


Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
[Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe
Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz

(Composição: Vinícius de Moraes / Carlos Lyra)





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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

"Por que tão bela, se vesga? Porque vesga, se bela?..." Primeira chamada para o lançamento do livro de Aso


O eclético cronista, contista, jornalista, poeta e desenhista Antônio Soares (literariamente Aso) prepara, para este ano, um livro que promete boas críticas. Sabendo como criar a expectativa aos seus leitores (técnicas, quem sabe, aprendidas com o “Amigo da Onça”, que ele desenhou para o magazine O Cruzeiro depois da morte de Carlos Estevão), Aso apenas envia o retrato, feito de próprio punho, da personagem de um de seus principais contos. Uma musa estrábica?!...
Parodiando Machado em seu Memórias póstumas de Brás Cubas, pergunto-me: Por que tão bela, se vesga? Porque vesga, se bela? O livro de Aso deve trazer essas respostas...


 Ilustração do livro: Ouça-me, por favor! Estou aqui! , de Aso.


                                                                                                                                    Antônio Soares

A primeira vez em que a vi fiquei fascinado, não sei se por seus olhos ou por sua boca...
Você, certamente, me dará razão, logo que a conheça. É deslumbrante!... Ela é a protagonista do meu caso, digo conto Uma Questão de Estrabismo, no livro em preparos finais que editarei este ano. Consta de 26 contos ilustrados, sendo os dois últimos em forma de HQ. Título: Ouça-me, por favor! Estou aqui! 




 
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Carnaval 2011: dois momentos de gozo e um de reflexão.


Para quem não está nem um pouco interessado em “la fest de Momo”, dois motivos de gozo e um de reflexão: o primeiro desfrute é literário, o conto carnavalesco “O bebê de tarlatana rosa”, de João do Rio; o segundo deleite é o vídeo com o baile de máscaras do musical “Fantasma da Ópera”, com música de Andrew Lloyd Webber. A reflexão fica a cargo da corajosa jornalista Raquel Shehezade que (destoando de dezenas de comentaristas que se esforçam por imitar o Paulo Francis) diz verdades bem inconvenientes acerca de nossa catarse oficial anual...





 O bebê de tarlatana rosa
  

                                                                                                                                   João do Rio

- Oh! uma história de máscaras! Quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura...
E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade.
Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um Gianaclis autêntico, parecia absorto.
- É uma aventura alegre? Indagou Maria.
- Conforme os temperamentos.
- Suja?
- Pavorosa ao menos.
- De dia?
- Não. Pela madrugada.
- Mas, homem de Deus, conta! Suplicava Anatólio. Olha que está adoecendo a Maria.

Heitor puxou um largo trago à cigarreta.
- Não há quem não saia no Carnaval disposto no excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias. O desejo, quase doentio é como incutido, infiltrado pelo ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro dias paranóicos, de pulos, de guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é possível. Não há quem se contente com uma...
- Nem com um, atalhou Anatólio.
- Os sorrisos são ofertas, os olhos suplicam, as gargalhadas passam como arrepios de urtiga pelo ar. É possível que muita gente consiga ser indiferente. Eu sinto tudo isso. E saindo, à noite, para a pornéia da cidade, saio como na Fenícia saíam os navegadores para a procissão da Primavera, ou os alexandrinos para a noite de Afrodita.
- Muito bonito! Ciciou Maria de Flor.
- Está claro que este ano organizei uma partida com quatro ou cinco atrizes e quatro ou cinco companheiros. Não me sentia com coragem de ficar só como um trapo no vagalhão de volúpia e de prazer da cidade. O grupo era o meu salva-vidas. No primeiro dia, no sábado, andávamos de automóvel a percorrer os bailes. Íamos indistintamente beber champagne aos clubes de jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais ordinários. Era divertidíssimo e ao quinto clube estávamos de todo excitados. Foi quando lembrei uma visita ao baile público do Recreio. - "Nossa Senhora! disse a primeira estrela de revistas, que ia conosco. Mas é horrível! Gente ordinária, marinheiros à paisana, fúfias do pedaços mais esconsos da rua de S. Jorge, um cheiro atroz, rolos constantes..." - Que tem isso? Não vamos juntos?"
Com efeito. Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se bem. Naturalmente fomos e era desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparrimando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar, todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas, de íncubos em frascos de álcool, que têm as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de papel-arroz. Não havia nada de novo. Apenas, como o grupo parara diante dos dançarinos, eu senti que se roçava em mim, gordinho e apetecível, um bebê de tarlatana rosa. Olhei-lhe as pernas de meia curta. Bonitas. Verifiquei os braços, o caído das espáduas, a curva do seio. Bem agradável. Quanto ao rosto era um rostinho atrevido, com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se ofertando. Só postiço trazia o nariz, um nariz tão bem-feito, tão acertado, que foi preciso observar para verificá-lo falso. Não tive dúvida. Passei a mão e preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu mais e disse num suspiro: - ai que dói! Estão vocês a ver que eu fiquei imediatamente disposto a fugir do grupo. Mas comigo iam cinco ou seis damas elegantes capazes de se debochar mas de não perdoar os excessos alheios, e era sem linha correr assim, abandonando-as, atrás de uma freqüentadora dos bailes do Recreio. Voltamos para os automóveis e fomos cear no clube mais chic e mais secante da cidade.
- E o bebê?
- O bebê ficou. Mas no domingo, em plena Avenida, indo eu ao lado do chauffeur; no burburinho colossal, senti um beliscão na perna e urna voz rouca dizer: "para pagar o de ontem". Olhei. Era o bebê rosa, sorrindo, com o nariz postiço, aquele nariz tão perfeito. Ainda tive tempo de indagar: aonde vais hoje?
- A toda parte! Respondeu, perdendo-se num grupo tumultuoso.
- Estava perseguindo-te! Comentou Maria de Flor.
- Talvez fosse um homem... soprou desconfiado o amável Anatólio.
- Não interrompam o Heitor! Fez o barão, estendendo a mão.
Heitor acendeu outro Gianaclis, ponta de ouro, continuou:
- Não o vi mais nessa noite e segunda-feira não o vi também. Na terça desliguei-me do grupo e cai no mar alto da depravação, só, com uma roupa leve por cima da pele e todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade inteira estava assim. É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes, é o instante em que as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e todos nós a achamos inútil, a honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.
Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval.
- A quem o dizes!... Suspirou Maria de Flor.
- Mas eu estava sem sorte, com a guigne, com o caiporismo dos defuntos índios. Era aproximar-me, era ver fugir a presa projetada. Depois de uma dessas caçadas pelas avenidas e pelas praças, embarafustei pelo S. Pedro, meti-me nas danças, rocei-me àquela gente em geral pouco limpa, insisti aqui, ali. Nada!
- É quando se fica mais nervoso!
- Exatamente. Fiquei nervoso até o fim do baile, vi sair toda gente, e saí mais desesperado. Eram três horas da manhã. O movimento das ruas abrandara. Os outros bailes já tinham acabado. As praças, horas antes incendiadas pelos projetores elétricos e as cambiantes enfumadas dos fogos de bengala, caiam em sombras - sombras cúmplices da madrugada urbana. E só, indicando a folia, a excitação da cidade, um ou outro carro arriado levando máscaras aos beijos ou alguma fantasia tilintando guizos pelas calçadas fofas de confete. Oh! a impressão enervante dessas figuras irreais na semi-sombra das horas mortas, roçando as calçadas, tilintando aqui, ali um som perdido de guizo! Parece qualquer coisa de impalpável, de vago, de enorme, emergindo da treva aos pedaços... E os dominós embuçados, as dançarinas amarfanhadas, a coleção indecisa dos máscaras de último instante arrastando-se extenuados! Dei para andar pelo largo do Rocio e ia caminhando para os lados da secretaria do interior, quando vi, parado, o bebê de tarlatana rosa.
Era ele! Senti palpitar-me o coração. Parei.
- "Os bons amigos sempre se encontram" disse.
O bebê sorriu sem dizer palavra. Estás esperando alguém? Fez um gesto com a cabeça que não. Enlacei-o. - Vens comigo? Onde? Indagou a sua voz áspera e rouca. - Onde quiseres! Peguei-lhe nas mãos. Estavam úmidas mas eram bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco.
- Por pouco...
- Não era preciso mais no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia com a sua voz arfante e lúbrica: - "Aqui não!" Passei-lhe o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se em mim, mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir todo o bestial desejo que os meus diziam. Nessas fases do amor não se conversa. Não trocamos uma frase. Eu sentia a ritmia desordenada do meu coração e o sangue em desespero. Que mulher! Que vibração! Tínhamos voltado ao jardim. Diante da entrada que fica fronteira à rua Leopoldina, ela parou, hesitou. Depois arrastou-me, atravessou a praça, metemo-nos pela rua escura e sem luz. Ao fundo, o edifício das Belas-Artes era desolador e lúgubre. Apertei-a mais. Ela aconchegou-se mais. Como os seus olhos brilhavam! Atravessamos a rua Luís de Camões, ficamos bem embaixo das sombras espessas do Conservatório de Música. Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor vagamente ruça com a treva espancada um pouco pela luz dos combustores distantes. O meu bebê gordinho e rosa parecia um esquecimento do vicio naquela austeridade da noite. - Então, vamos? Indaguei. - Para onde? - Para a tua casa. - Ah! não, em casa não podes... - Então por aí. - Entrar, sair, despir-me. Não sou disso! - Que queres tu, filha? É impossível ficar aqui na rua. Daqui a minutos passa a guarda. - Que tem? - Não é possível que nos julguem aqui para bom fim, na madrugada de cinzas. Depois, às quatro tens que tirar a máscara. - Que máscara? - O nariz. - Ah! sim! E sem mais dizer puxou-me. Abracei-a. Beijei-lhe os braços, beijei-lhe o colo, beijei-lhe o pescoço. Gulosamente a sua boca se oferecia. Em torno de nós o mundo era qualquer coisa de opaco e de indeciso. Sorvi-lhe o lábio.
Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela, um nariz com cheiro a resina, um nariz que fazia mal. - Tira o nariz! - Ela segredou: Não! Não! Custa tanto a colocar! Procurei não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama.
O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal-estar curioso, um estado de inibição esquisito. - Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não te disfarça nada. - Disfarça sim! - Não! Procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não era dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinante - uma caveira com carne...
Despeguei-a, recuei num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu tremia de horror, de nojo. O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão com a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos. - Perdoa! Perdoa! Não me batas. A culpa não é minha! Só no Carnaval é que eu posso gozar. Então, aproveito, ouviste? Aproveito. Foste tu que quiseste...
Sacudi-a com fúria, pu-la de pé num safanão que a devia ter desarticulado. Uma vontade de cuspir, de lançar apertava-me a glote, e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele nariz, de quebrar aqueles dentes, de matar aquele atroz reverso da Luxúria... Mas um apito trilou. O guarda estava na esquina e olhava-nos, reparando naquela cena da semitreva. Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo o mundo que a beijara? Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa, os queixos batendo, ardendo em febre.
Quando parei à porta para tirar a chave, é que reparei que a minha mão direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa...

Heitor de Alencar parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria de Flor mostrava uma contração de horror na face e o doce Anatólio parecia mal. O próprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor. Houve um silêncio agoniento. Afinal o barão Belfort ergueu-se, tocou a campainha para que o criado trouxesse refrigerantes e resumiu:
- Uma aventura, meus amigos, uma bela aventura. Quem não tem do Carnaval a sua aventura? Esta é pelo menos empolgante.
E foi sentar-se ao piano.







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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Duas poesias inéditas do poeta Mauro Nunes


Quem já se deu a pena de ler o cabeçalho do nosso blog – aquele que é comum a toda postagem – deve lembrar que uma das bandeiras empunhadas pelo Literatura-Vivência é: “Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária (...)”.
É com gosto que a postagem de hoje apresenta um talento fluminense digno de nota: Mauro Nunes. Deste poeta, teremos duas poesias inéditas e exclusivas para o Literatura-Vivência.
Boa leitura!


O Beijo, de Maria João Franco


Ósculo

Mauro Nunes (*)

Um beijo amigo, ternura
Mãos entrelaçadas, concórdia
Um abraço fraterno, companheiro

Mais que selar um contrato
Ainda que em papéis de seda
Mais que definir sentenças
Ainda que sejam plausíveis 

Mais que degustar a bebida
Ainda que a mais nobre
Mais que sentar à mesa
Ainda que sejam íntimos
Mais que inaugurar o novo
Ainda que seja preciso

O ósculo profetiza a paz
Desarma as tramas soberbas
Eterniza o sabor do amor
O ósculo não é o selo do traidor
É a súplica por compaixão
Não é o prêmio da insensatez
É o sublime toque de unidade
Na essência do universo-amor.


 Fluidez

O tempo vem num vai e vem
Sem horas, minutos, sem tempo
O ontem sobrevive no agora
O já deseja o imprevisível do depois
Lá se foi o espanto da razão
Fecharam-se os olhos à contemplação
Não há tempo
Para o improviso do aviso
O teatro está desnudo, não há ensaio
Tudo flui, tudo é e já não será
A rotina é fria como cálculos
A inspiração se apagou no tempo
Que venha na manhã,
O amanhã.



(*) Mauro Sérgio Souza Nunes é natural de Saquarema – RJ e tem 39 anos. Mora em Macaé, onde exerce há cinco anos o ministério sacerdotal local. É padre da Igreja Católica há dez anos. Além desse ofício, é formado em Letras Português-Literatura e, atualmente, conclui o curso de Licenciatura em Filosofia. É professor concursado do Estado e, embora afastado, colabora em um projeto de Vestibular Social. Colaborou com artigos para jornais de Rio das Ostras. É militante do Movimento Fé e Política e adepto de atividades culturais.





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