sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Carnaval 2011: dois momentos de gozo e um de reflexão.


Para quem não está nem um pouco interessado em “la fest de Momo”, dois motivos de gozo e um de reflexão: o primeiro desfrute é literário, o conto carnavalesco “O bebê de tarlatana rosa”, de João do Rio; o segundo deleite é o vídeo com o baile de máscaras do musical “Fantasma da Ópera”, com música de Andrew Lloyd Webber. A reflexão fica a cargo da corajosa jornalista Raquel Shehezade que (destoando de dezenas de comentaristas que se esforçam por imitar o Paulo Francis) diz verdades bem inconvenientes acerca de nossa catarse oficial anual...





 O bebê de tarlatana rosa
  

                                                                                                                                   João do Rio

- Oh! uma história de máscaras! Quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura...
E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade.
Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um Gianaclis autêntico, parecia absorto.
- É uma aventura alegre? Indagou Maria.
- Conforme os temperamentos.
- Suja?
- Pavorosa ao menos.
- De dia?
- Não. Pela madrugada.
- Mas, homem de Deus, conta! Suplicava Anatólio. Olha que está adoecendo a Maria.

Heitor puxou um largo trago à cigarreta.
- Não há quem não saia no Carnaval disposto no excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias. O desejo, quase doentio é como incutido, infiltrado pelo ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro dias paranóicos, de pulos, de guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é possível. Não há quem se contente com uma...
- Nem com um, atalhou Anatólio.
- Os sorrisos são ofertas, os olhos suplicam, as gargalhadas passam como arrepios de urtiga pelo ar. É possível que muita gente consiga ser indiferente. Eu sinto tudo isso. E saindo, à noite, para a pornéia da cidade, saio como na Fenícia saíam os navegadores para a procissão da Primavera, ou os alexandrinos para a noite de Afrodita.
- Muito bonito! Ciciou Maria de Flor.
- Está claro que este ano organizei uma partida com quatro ou cinco atrizes e quatro ou cinco companheiros. Não me sentia com coragem de ficar só como um trapo no vagalhão de volúpia e de prazer da cidade. O grupo era o meu salva-vidas. No primeiro dia, no sábado, andávamos de automóvel a percorrer os bailes. Íamos indistintamente beber champagne aos clubes de jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais ordinários. Era divertidíssimo e ao quinto clube estávamos de todo excitados. Foi quando lembrei uma visita ao baile público do Recreio. - "Nossa Senhora! disse a primeira estrela de revistas, que ia conosco. Mas é horrível! Gente ordinária, marinheiros à paisana, fúfias do pedaços mais esconsos da rua de S. Jorge, um cheiro atroz, rolos constantes..." - Que tem isso? Não vamos juntos?"
Com efeito. Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se bem. Naturalmente fomos e era desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparrimando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar, todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas, de íncubos em frascos de álcool, que têm as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de papel-arroz. Não havia nada de novo. Apenas, como o grupo parara diante dos dançarinos, eu senti que se roçava em mim, gordinho e apetecível, um bebê de tarlatana rosa. Olhei-lhe as pernas de meia curta. Bonitas. Verifiquei os braços, o caído das espáduas, a curva do seio. Bem agradável. Quanto ao rosto era um rostinho atrevido, com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se ofertando. Só postiço trazia o nariz, um nariz tão bem-feito, tão acertado, que foi preciso observar para verificá-lo falso. Não tive dúvida. Passei a mão e preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu mais e disse num suspiro: - ai que dói! Estão vocês a ver que eu fiquei imediatamente disposto a fugir do grupo. Mas comigo iam cinco ou seis damas elegantes capazes de se debochar mas de não perdoar os excessos alheios, e era sem linha correr assim, abandonando-as, atrás de uma freqüentadora dos bailes do Recreio. Voltamos para os automóveis e fomos cear no clube mais chic e mais secante da cidade.
- E o bebê?
- O bebê ficou. Mas no domingo, em plena Avenida, indo eu ao lado do chauffeur; no burburinho colossal, senti um beliscão na perna e urna voz rouca dizer: "para pagar o de ontem". Olhei. Era o bebê rosa, sorrindo, com o nariz postiço, aquele nariz tão perfeito. Ainda tive tempo de indagar: aonde vais hoje?
- A toda parte! Respondeu, perdendo-se num grupo tumultuoso.
- Estava perseguindo-te! Comentou Maria de Flor.
- Talvez fosse um homem... soprou desconfiado o amável Anatólio.
- Não interrompam o Heitor! Fez o barão, estendendo a mão.
Heitor acendeu outro Gianaclis, ponta de ouro, continuou:
- Não o vi mais nessa noite e segunda-feira não o vi também. Na terça desliguei-me do grupo e cai no mar alto da depravação, só, com uma roupa leve por cima da pele e todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade inteira estava assim. É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes, é o instante em que as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e todos nós a achamos inútil, a honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.
Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval.
- A quem o dizes!... Suspirou Maria de Flor.
- Mas eu estava sem sorte, com a guigne, com o caiporismo dos defuntos índios. Era aproximar-me, era ver fugir a presa projetada. Depois de uma dessas caçadas pelas avenidas e pelas praças, embarafustei pelo S. Pedro, meti-me nas danças, rocei-me àquela gente em geral pouco limpa, insisti aqui, ali. Nada!
- É quando se fica mais nervoso!
- Exatamente. Fiquei nervoso até o fim do baile, vi sair toda gente, e saí mais desesperado. Eram três horas da manhã. O movimento das ruas abrandara. Os outros bailes já tinham acabado. As praças, horas antes incendiadas pelos projetores elétricos e as cambiantes enfumadas dos fogos de bengala, caiam em sombras - sombras cúmplices da madrugada urbana. E só, indicando a folia, a excitação da cidade, um ou outro carro arriado levando máscaras aos beijos ou alguma fantasia tilintando guizos pelas calçadas fofas de confete. Oh! a impressão enervante dessas figuras irreais na semi-sombra das horas mortas, roçando as calçadas, tilintando aqui, ali um som perdido de guizo! Parece qualquer coisa de impalpável, de vago, de enorme, emergindo da treva aos pedaços... E os dominós embuçados, as dançarinas amarfanhadas, a coleção indecisa dos máscaras de último instante arrastando-se extenuados! Dei para andar pelo largo do Rocio e ia caminhando para os lados da secretaria do interior, quando vi, parado, o bebê de tarlatana rosa.
Era ele! Senti palpitar-me o coração. Parei.
- "Os bons amigos sempre se encontram" disse.
O bebê sorriu sem dizer palavra. Estás esperando alguém? Fez um gesto com a cabeça que não. Enlacei-o. - Vens comigo? Onde? Indagou a sua voz áspera e rouca. - Onde quiseres! Peguei-lhe nas mãos. Estavam úmidas mas eram bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco.
- Por pouco...
- Não era preciso mais no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia com a sua voz arfante e lúbrica: - "Aqui não!" Passei-lhe o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se em mim, mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir todo o bestial desejo que os meus diziam. Nessas fases do amor não se conversa. Não trocamos uma frase. Eu sentia a ritmia desordenada do meu coração e o sangue em desespero. Que mulher! Que vibração! Tínhamos voltado ao jardim. Diante da entrada que fica fronteira à rua Leopoldina, ela parou, hesitou. Depois arrastou-me, atravessou a praça, metemo-nos pela rua escura e sem luz. Ao fundo, o edifício das Belas-Artes era desolador e lúgubre. Apertei-a mais. Ela aconchegou-se mais. Como os seus olhos brilhavam! Atravessamos a rua Luís de Camões, ficamos bem embaixo das sombras espessas do Conservatório de Música. Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor vagamente ruça com a treva espancada um pouco pela luz dos combustores distantes. O meu bebê gordinho e rosa parecia um esquecimento do vicio naquela austeridade da noite. - Então, vamos? Indaguei. - Para onde? - Para a tua casa. - Ah! não, em casa não podes... - Então por aí. - Entrar, sair, despir-me. Não sou disso! - Que queres tu, filha? É impossível ficar aqui na rua. Daqui a minutos passa a guarda. - Que tem? - Não é possível que nos julguem aqui para bom fim, na madrugada de cinzas. Depois, às quatro tens que tirar a máscara. - Que máscara? - O nariz. - Ah! sim! E sem mais dizer puxou-me. Abracei-a. Beijei-lhe os braços, beijei-lhe o colo, beijei-lhe o pescoço. Gulosamente a sua boca se oferecia. Em torno de nós o mundo era qualquer coisa de opaco e de indeciso. Sorvi-lhe o lábio.
Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela, um nariz com cheiro a resina, um nariz que fazia mal. - Tira o nariz! - Ela segredou: Não! Não! Custa tanto a colocar! Procurei não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama.
O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal-estar curioso, um estado de inibição esquisito. - Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não te disfarça nada. - Disfarça sim! - Não! Procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não era dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinante - uma caveira com carne...
Despeguei-a, recuei num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu tremia de horror, de nojo. O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão com a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos. - Perdoa! Perdoa! Não me batas. A culpa não é minha! Só no Carnaval é que eu posso gozar. Então, aproveito, ouviste? Aproveito. Foste tu que quiseste...
Sacudi-a com fúria, pu-la de pé num safanão que a devia ter desarticulado. Uma vontade de cuspir, de lançar apertava-me a glote, e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele nariz, de quebrar aqueles dentes, de matar aquele atroz reverso da Luxúria... Mas um apito trilou. O guarda estava na esquina e olhava-nos, reparando naquela cena da semitreva. Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo o mundo que a beijara? Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa, os queixos batendo, ardendo em febre.
Quando parei à porta para tirar a chave, é que reparei que a minha mão direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa...

Heitor de Alencar parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria de Flor mostrava uma contração de horror na face e o doce Anatólio parecia mal. O próprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor. Houve um silêncio agoniento. Afinal o barão Belfort ergueu-se, tocou a campainha para que o criado trouxesse refrigerantes e resumiu:
- Uma aventura, meus amigos, uma bela aventura. Quem não tem do Carnaval a sua aventura? Esta é pelo menos empolgante.
E foi sentar-se ao piano.







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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Duas poesias inéditas do poeta Mauro Nunes


Quem já se deu a pena de ler o cabeçalho do nosso blog – aquele que é comum a toda postagem – deve lembrar que uma das bandeiras empunhadas pelo Literatura-Vivência é: “Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária (...)”.
É com gosto que a postagem de hoje apresenta um talento fluminense digno de nota: Mauro Nunes. Deste poeta, teremos duas poesias inéditas e exclusivas para o Literatura-Vivência.
Boa leitura!


O Beijo, de Maria João Franco


Ósculo

Mauro Nunes (*)

Um beijo amigo, ternura
Mãos entrelaçadas, concórdia
Um abraço fraterno, companheiro

Mais que selar um contrato
Ainda que em papéis de seda
Mais que definir sentenças
Ainda que sejam plausíveis 

Mais que degustar a bebida
Ainda que a mais nobre
Mais que sentar à mesa
Ainda que sejam íntimos
Mais que inaugurar o novo
Ainda que seja preciso

O ósculo profetiza a paz
Desarma as tramas soberbas
Eterniza o sabor do amor
O ósculo não é o selo do traidor
É a súplica por compaixão
Não é o prêmio da insensatez
É o sublime toque de unidade
Na essência do universo-amor.


 Fluidez

O tempo vem num vai e vem
Sem horas, minutos, sem tempo
O ontem sobrevive no agora
O já deseja o imprevisível do depois
Lá se foi o espanto da razão
Fecharam-se os olhos à contemplação
Não há tempo
Para o improviso do aviso
O teatro está desnudo, não há ensaio
Tudo flui, tudo é e já não será
A rotina é fria como cálculos
A inspiração se apagou no tempo
Que venha na manhã,
O amanhã.



(*) Mauro Sérgio Souza Nunes é natural de Saquarema – RJ e tem 39 anos. Mora em Macaé, onde exerce há cinco anos o ministério sacerdotal local. É padre da Igreja Católica há dez anos. Além desse ofício, é formado em Letras Português-Literatura e, atualmente, conclui o curso de Licenciatura em Filosofia. É professor concursado do Estado e, embora afastado, colabora em um projeto de Vestibular Social. Colaborou com artigos para jornais de Rio das Ostras. É militante do Movimento Fé e Política e adepto de atividades culturais.





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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A literatura entre a solidão e a exigência, entrevista com o escritor Chico Lopes


Publicada originalmente no último número de Literato - O jornal das letras de Niterói, a entrevista com o escritor Chico Lopes, concedida a Carlos Rosa Moreira, tem aqui sua reprise. Agradecemos ao entrevistador e a toda a equipe editorial do Jornal pela gentil cessão da matéria.


Capa de um dos últimos livros de Chico Lopes


Chico Lopes (Francisco Carlos Lopes), escritor e artista plástico. Nasceu em Novo Horizonte, SP, em 1952. Publicou os livros de contos “Nó de Sombras” (Instituto Moreira Salles, 2000); “Dobras da Noite” (Inst. Moreira Salles, 2004); “Hóspedes do Vento” (Nankim Editorial,SP, 2010). Está lançando a novela “O estranho no corredor”, pela Editora 34, de SP. É tradutor e no momento trabalha para a série “Jovens Leitores”, da Editora Rocco. Tem várias traduções de literatura americana clássica e contemporânea pela Rocco, Landmark e Ediouro. É programador cultural e apresentador da área cinematográfica no Instituto Moreira Salles. É crítico de cinema e de literatura.  Seus contos e resenhas estão em várias publicações como a revista Cult e jornais como o Correio Braziliense, Minas Gerais, Rascunho e outros, além dos sites Verdes Trigos, Cronópios e Germina. Escreve um romance e tem livros inéditos em vários gêneros literários.
1-      Chico, o escritor em você sempre existiu?
R: Creio que o descobri lá pelos 13 ou 14 anos. Senti vontade de ser escritor nessa época, quando caiu em minhas mãos o “Capitães de Areia”, do Jorge Amado. Ler aquilo me deu uma vontade louca de escrever.
2-      Você é organizado para escrever?
R: Não sou muito organizado. Escrevo em jorros, às vezes 40, 50 páginas numa tarde. E às vezes posso não render nada. Não tenho método nem horário, mas acredito em inspiração. Tenho o hábito de reescrever muito e sou implacável com o que não aprovo, rasgo, esqueço e recomeço.
3-      Há um processo de depuração? Mostra os textos a amigos, deixa-os amadurecer na gaveta?
R: Acredito em depuração. Não costumo mostrar trabalhos em andamento. É uma superstição, talvez. Só submeto o texto a alguém quando os acredito prontíssimos.
4-      Como é se desfazer de uma emoção? Ter de enxugar dói?
R: Não me dói enxugar. Sou implacável.
5-      O que atrapalha um escritor, além do barulho?
R: Palpites infelizes. Patotas que querem que você adote determinadas estéticas. Um escritor tem de ser deixado sozinho com seus demônios, erros e purgações. Literatura é feita de exílio, solidão e depuração.       
6-      Existe um estado de espírito ideal para escrever?
R: O melhor estado de espírito é um imenso desejo de criar outro mundo, recriar a realidade, a memória, dar vida, sangue novo a fantasmas. Também sou movido por impulsos que só podem ser chamados de eróticos, um desejo de beleza, de exaltação.
7-      Você vai lançar sua novela, seu primeiro texto longo. Houve uma exigência interna e repentina ou já existia um desejo antigo de escrever uma narrativa mais longa?
R: Eu sempre escrevi contos, mas queria um mergulho mais intenso. A novela foi nascendo paralelamente e se expandiu como uma planta, ao longo de décadas, com muitas reescrituras. Peguei o gosto pelas narrativas mais longas. Agora escrevo o que pode ser classificado como romance, estou entusiasmado.
(Em dezembro será lançada a novela “O estranho no corredor”, primeiro texto longo de Chico Lopes).
8-      O que frustra você nessa literatura brasileira contemporânea?
R: Há tanta coisa frustrante... As pessoas querem a celebridade rápida, querem ser elogiadas por qualquer besteira que aprontem. Há pouca cultura literária. Há pessoas que só conhecem resumos e orelhas de livros. A superficialidade e a vaidade são marcas da contemporaneidade. Há um ecletismo estético que é puro oportunismo, mas é nota dominante do mercado editorial, esse “vale-tudo” torna as pessoas mais superficiais.
9-      Qual a sua ambição literária?
R: Continuar escrevendo. “Romper a machadadas o mar gelado que há dentro de nós”, como dizia Kafka. Atingir o ponto mais alto da profunda conversa com o leitor inteligente.
10-  Algum autor mudou sua visão sobre a Litertatura?
R: Proust. “Em busca do tempo perdido” mudou toda a minha vida literária.
11-  Outras artes inspiram você?
R: Sim, a pintura. A música, que me parece a maior das artes. O cinema.
12-  Cite algumas preferências literárias nacionais e estrangeiras.
R: São muitas... Americanos: Truman Capote, Carson Mc Cullers, Philip Roth... Franceses: Camus, Proust, Celine, Green... Brasileiros: Graciliano, Rosa, Machado, Clarice, Lúcio Cardoso... Russos (os maiores de todos): Tolstoi, Dostoievski, Tchecov...
13-  Chico, você pertence a alguma “família” literária?
R: Acho que descendo de uma família que inclui Julien Green, Lúcio Cardoso, Dostoievski, Graciliano, Cornélio Penna... Gente preocupada com o lado sombrio do ser humano.
14-  E agora, após o lançamento de “O estranho no corredor”?
R: Bem, acho que vou me dedicar às narrativas longas, sem esquecer os contos. Creio que não somos donos do nosso destino literário. Eu gostaria de escrever um romance longuíssimo, sem prazo para acabar. Talvez no conjunto, meus três livros de contos e a novela sejam exatamente isso, um único livro desdobrado em muitos.




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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Kairós e poesis segundo Vinícius de Morais




Daniel Defoe, em páginas tantas de seu romance Moll Flanders, diz que se reconhece um grande amante quando, junto a ele, o êxtase remonta o momento da criação. Esta máxima estética bem poderia ser agenciada em favor dos poetas. Um poeta é genuíno quando sua poesia é capaz de soar como na origem, com o mesmo viço da primeira palavra entoada por um homem na atmosfera diáfana da gênese; quando nela reside o mistério que reúne em corifeu poetas seculares; quando em seu verbo, mesmo respeitando as fronteiras da finitude humana, expressam-se referências que trazem à tona este que poetiza. Vejamos como isto se dá junto ao poeta/amante Vinícius de Morais:



Poética

                                                                                       Vinícius de Moraes

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.





(MORAES, Vinícius. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998)





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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

"A morte de um leão", poema de Leconte de Lisle



Leão morto (Löwendenkmal), monumento em Luzern - Suíça
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                                                                                                                                 Leconte de Lisle

La mort d’um Lion


Étant un vieux chasseur altéré de grand air,
Et de sang noir des boeufs, Il avait l’habitude
De contempler de haut les plaines et la mer,
Et de rugir em paix, libre em as solitude.

Aussi, comme um damné que rode dans l’enfer,
Poour l’inepte plaisir de cette multitude
Il avait et venait dans sa cage de fer,
Heurtant les deux cloisons, avec sa tête rude.

L’horrible sort, enfin, ne devant plus changer,
Il cessa brusquement de boire et de manger:
Et la mort emporta son âme vagabonde.

Õ coeur toujours en proie à la rébellion ,
Qui tournes, haletant, dans la cage du monde,
Lâche, que ne fais-tu comme a fait ce lion?


A morte dum leão


Ávido do ar livre era um velho caçador
Ao sangue negro dos bois habituara-se
E do alto as planícies e o mar a contemplar.

No inferno vagando como um réprobo,
Desta multidão pro prazer estéril
Na janela de ferro andando pra lá e prá cá,
A rude cabeça contra dois tabiques batendo.

O infausto destino, por fim, agora consumado:
De beber e comer bruscamente cessou,
E a alma vagabunda a morte levou-lhe.

Oh, coração, pela revolta sempre atormentado,
O qual, arquejante, pra janela do mundo regressas,
Covarde, por que não ages como o fez este leão?








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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Uma casa, um poeta e o Sebastião, artigo de Emmanuel Macedo Soares.


Enquanto lia o testemunho afetivo de Emmanuel sobre o poeta araruamense José Geraldo da Conceição Caú, veio-me de imediato à memória aquela música do Gonzaguinha que diz assim: “Enquanto eu acreditar que a pessoa é coisa ‘mais maior de grande’...” (ouça a música ao fim da postagem).
Como ando levando muito a sério essas intuições/memórias que de vez em quando me assaltam, julguei adequado, no dia de hoje – 6 de fevereiro, aniversário de 152 anos de Araruama – publicar o texto que evoca o legado de um dos mais diletos filhos daquela cidade que vem sendo chamada de “Cancún brasileira”.
É a contribuição de vidas como a de Kaú (tão grande que faz com que o Gonzaguinha precise contrariar o vernáculo para expressar toda sua grandeza) que valoriza o capital intelectual e simbólico das gentes e dos lugares.
Encontre o endosso para essas palavras introdutórias no artigo de Emmanuel Macedo Soares, escrito com exclusividade para o Literatura-Vivência:



Uma casa, um poeta e o Sebastião


                                                                                                                   Emmanuel Macedo Soares

O casarão que olhava desde 1872 para a matriz de São Sebastião de Araruama, sede da Câmara, Prefeitura, coletorias e quanto mais ali coubesse, aguardava há vinte ou trinta anos o destino de todo prédio antigo em cidade moderna: ou demolição, ou ruína.
Pois escapou. Virou uma bela Casa de Cultura, bonita, confortável e luminosa como deviam ser todas as Casas de Cultura. E melhor ainda: tomou o nome de um poeta da terra, talvez o de maior mestria no trato das palavras, que partiu moço mas deixou marcas e heranças de sua genialidade.
No registro civil, José Geraldo da Conceição Caú. Kaú para os amigos, alunos, leitores, espectadores, resumindo em três letras uma vida curta, mas múltipla, porque além de poeta lecionava português e literatura, escrevia e montava peças teatrais e ainda lhe sobrava inspiração para pintar ou fuxicar os mistérios insondáveis da filosofia.
Eu o conheci pirralho, quer dizer, quando ele era pirralho. Introvertido, silencioso, angustiado às vezes, mas de uma angústia que não era doente, nascia de sua precoce consciência do mundo. Nos identificamos num montão de coisas e divergimos num montão de coisas, porque divergir é próprio dos gênios, e ele era gênio.
Tínhamos um amigo comum, o Sebastião Raposo, que eu vi nascer, crescer e morrer jovem também, muito mais jovem que o Kaú. Não era poeta, nem precisava ser, porque o que tinha de bondade e pureza no coração e na alma valia por dez ou vinte Lusíadas.
Vem tudo isso a propósito porque o prefeito André Mônica fez uma bela restauração na Casa de Cultura de Araruama e a colocou sobre patronato do Kaú, que por sua vez escreveu um de seus mais sentidos poemas quando da morte do Sebastião.

E aqui vos deixo com os três, o poeta, seu amigo e seu poema:

 
Existe, sempre, a vida...

                              Para Sebastião Raposo

Um corpo descansa...
Nós, os corpos inevitavelmente cansados.
Um dia, um; depois outro.
Nós, os muitos nós das nossas tantas encruzilhadas.
Uma parada, comum, obrigatória,
embora os corações não tenham hora...
Uma palmeira, um cipreste,
uma lajem, sua inscrição...
Meu Deus! Como somos datas,
palavras e números como pedras...
Extremamente vãos os mármores gloriosos de toda competição.
Enquanto a natureza alcança o céu tão fácil,
nós fazemos do ter sólido uma pesada profissão.
A palmeira está, simplesmente, no tronco da vida,
nós, os homens, precisamos da morte
para nos sentir irmãos.
Por que o homem chora?
Porque fica. Ou porque, a cada amigo de que se despede,
também vai indo embora...

Índice de imagens:

Foto 1: Casa de Cultura de Araruama (foto oficial de divulgação);
Foto 2: Kaú no traço da artista plástica Luzia Nametalla;
Foto 3: Uma das últimas fotos do poeta Kaú (acervo da família).



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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A poesia crepuscular de Lena Jesus Ponte


Poesias inéditas de Lena Jesus Ponte, exclusivas para o Literatura-Vivência:

Foto:  Steffane S. Tristão. Luzes da noite. 



                                                                                                                      Lena Jesus Ponte

Crepúsculo urbano


Um helicóptero deseja ser pássaro,
canta metálico.
Pálido, o Cristo sobre a montanha
afasta as asas cortantes.
Estridente, o fim do dia buzina.

Uma estrela se infiltra na paisagem,
pede passagem para a poesia.


* * *

Queda livre

Não tenho o álcool,
o ópio,
o lexotan,
o sono nem a morte
para me dar suporte.

Tenho a cirurgia sem anestesia,
o corte e a dor,
hemorragia que não estanca,
a cor vermelha sobre fundo branco.

* * *

Era uma vez, quase noite...

                         (para papai, in memoriam)

Ontem meu pai chegou
em inesperada visita.
Eu tomava café.
Ofereci a ele uma xícara.
Fumou um cigarro na janela.
Falou de umas tantas andorinhas
que trançavam o fim do dia...
Contei-lhe dos bisnetos que não conheceu.
A cada graça das crianças, ele sorria...

Na hora de ir embora,
sua mão de vazios pega a minha,
e a voz de neblina convida: − Vem comigo?

Eu quase que ia...

* * *

De passagem

Na rua dorme um menino
sem lençol de afeto.
Na rua sonha um menino
sonhos sem imagens.
Na rua seca um menino
sem sequer as miragens de um deserto.

O menino dorme,
abraçado à calçada,
aconchegado ao cimento.
Que faz todo mundo neste momento exato?
Dormimos todos um sono profundo.

***



Divulgação Cultural
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