quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O Desejo segundo Lorca e Alonso


Quem um dia afirmou que o desejo era problema pertencente à dialética hegeliana precisa dar uma boa lida em Lorca e em Alonso... O desejo é dos poetas.


Flamenco, Anônimo.


Desejo

                                                                                                                                  García Lorca


Só o teu coração quente
e nada mais.

Meu paraíso um campo
sem rouxinol nem liras,
com um rio discreto
e uma fontezinha.

Sem a espora do vento
por sobre a copa,
nem a estrela que quer
ser folha.

Uma enorme luz
que fosse
vaga-lume
de outra,
em um campo de
olhares partidos.

Um repouso claro
e ali nossos beijos,
lunares sonoros
do eco,
se abririam mui longe.

E teu coração quente,
nada mais.


(LORCA, García. Livro de poemas, canções e outras poesias. 2ª ed. Trad. Oscar Mendes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1976. p.108.)


Desejo



Quero a noite de rosas dos teus olhos
para acalanto dos meus dias sidos
e o frescor do luar dos teus cabelos
para orvalhar de lírios meus caminhos.

Quero a brisa de estrelas dos teus passos
para rota dos meus cheios de ocasos
e a música do azul das alvoradas
no silêncio trevoso das esperas.

O brancor de camélia dos teus seios
e a sucata de sombras dos teus gestos
para encher de ternura os meus vazios.

Quero a manhã que trazes pelo corpo,
translúcida de longes siderais,
para sermos um só no amor total!

(ALONSO, José Inaldo. O luar de meus andados. 2ª ed. Niterói: Nitpress, 2009. p.50)





Divulgação Cultural
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Iberê Camargo, sua "trivia" e seus processos

O que dizer de Iberê Camargo na postagem de hoje? Talvez apenas relatar a funda primeira impressão que sua arte me causou em 1996. Grito que reverbera até hoje... Querer mais seria afoitez vadia.



“Arte, para mim, foi sempre uma obsessão. Nunca toquei a vida com a ponta dos dedos. Tudo o que fiz, fiz sempre com paixão”. (Iberê Camargo, 1914–1994)


CAMARGO, Iberê. Tudo te é falso e inútil III (1992).


“ – Minha contestação é feita de renúncia, de não-participação, de não-conivência, de não-alinhamento com o que não considero ético e justo. Sou como aqueles que, desarmados, deitam-se no meio da rua para impedir a passagem dos carros da morte. Esta forma de resistência, se praticada por todos, se constituiria em uma força irresistível [...]
– O drama [...] trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais íntima que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida.
– Por que sou assim?
– Porque todo homem tem um dever social, um compromisso com o próximo.
– Não há um ideal de beleza, mas o ideal de uma verdade pungente e sofrida que é a minha vida, é tua vida, é nossa vida, nesse caminhar no mundo.
– Sou impiedoso e crítico com minha obra. Não há espaço para alegria. É difícil revelar o significado das coisas. O Homem olha a sua face, interroga-se e não sabe quem é.
– Acho que toda grande obra tem raízes no sofrimento. A minha nasce da dor.
– A vida dói [...]”.


CAMARGO, Iberê. As Idiotas (1991).

CAMARGO, Iberê. Tudo te é falso e inútil (1992).

"As figuras que povoam minhas telas envolvem-se na tristeza dos crepúsculos dos dias de minha infância, guri criado na solidão da campanha do Rio Grande do Sul."

CAMARGO, Iberê. Fantasmagoria (1987).

"A verdade da obra de arte é a expressão que ela nos transmite. Nada mais do que isso!"


CAMARGO, Iberê. Solidão (1994).

"Não há um ideal de beleza, mas o ideal de uma verdade pungente e sofrida que é a minha vida, é tua vida, é nossa vida, nesse caminhar no mundo."





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sábado, 28 de janeiro de 2012

Aula de lógica com Sandro Pereira Rebel


Texto de Sandro Rebel reproduzindo a aula de lógica não-aristotélica do Professor Dr. Jovelino (Catedrático em Ciências Ocultas e Letras Apagadas). Ao final, não deixem de assistir ao vídeo com acirrada quaestio disputata entre filósofos vários. 


Exemplar da "Lógica", de Aristóteles, datado de 1570


A lógica


                                                                                                                                
Sandro Pereira Rebel


A lógica e a razão,
quando não bem entendidas,
podem gerar confusão
que as torna até descabidas.


Abriu-se vaga de porteiro no prédio e o condomínio, para preenchê-la, cercou-se de todas as cautelas. Cinco candidatos se apresentaram e o síndico cuidou de apanhar, a respeito da vida pregressa de cada um, as referências mais detalhadas. Tratou, principalmente, do item moral: o cidadão haveria de ter, mais que tudo, um caráter acima de qualquer suspeita. Mas preocupou-se também com apurar o atendimento, ou não, por parte dos concorrentes, de outros requisitos igualmente importantes. Nível de educação, grau de urbanidade, os seus hábitos e costumes, a dedicação ao serviço, a assiduidade no exercê-lo, sobre tudo isso procurou informar-se minudentemente, através de entrevistas pessoais com eles, os pleiteantes ao cargo, e de contatos com antigos empregadores deles. À questão da assiduidade e, como um corolário dela, à da permanência no posto em tempo integral, também dedicou especial atenção, até porque, por experiência própria (era síndico há mais de dez anos), e por observações que colhera junto a outros colegas de ofício com vasto conhecimento no ramo, tinha chegado à conclusão de que um dos problemas que mais comumente afetam o desempenho do porteiro de edifício é a tendência que ele tem para não ficar na portaria. É, de fato, esta, uma realidade incontestável: o de que menos um porteiro gosta é de estar na portaria.
Após cumprido assim, com o maior rigor, todo esse exaustivo processo de seleção, a escolha do novo porteiro recaiu no Jovelino, um mulatinho do interior de Minas, simpático, de trato agradável e muito comunicativo, apesar do forte jeitão de matuto presente na cara meio abobalhada. Era pouco ou nada letrado, mas no quesito caráter dera de goleada nos seus competidores, pois, destes, o mais qualificado era o que só tinha tido duas passagens pela polícia. Neste particular, o mineirinho mostrara-se mesmo imbatível. Daí que, ao admiti-lo no emprego, o patrão só cuidou foi de enfatizar para ele a recomendação que diversas vezes já lhe passara durante as preliminares do recrutamento:

– A pessoa, para entrar no prédio, tem que antes dizer seu nome.

– Mas meu nome, doutor? Como é que ela vai saber? E eu digo se ela perguntar?

– Não, Jovelino. Seu nome, no caso, é o nome dela, a pessoa, entendeu? Ela, então, antes de entrar no prédio, tem que dizer o nome dela, o apartamento aonde quer ir e o que vai fazer lá. Sem isto, Jovelino, não abra nunca o portão. Além disso, você tem que apanhar, pelo interfone, a autorização do morador para o visitante subir, entendeu?

Passou-se perto de um mês e tudo ia correndo bem: o empregador satisfeito com o empregado e o empregado satisfeito com o empregador. Mas eis que um dia, ou melhor, uma noite, a desgraça bateu à porta dos dois. Alguém, chegando ao edifício, passou pro Jovelino as informações que este lhe pedira:

– Meu nome é Chico. Quero ir ao apartamento 1002, o do síndico. Vou só fazer uma visitinha a ele. Coisa ligeira.

Nome, destino e propósito assim informados, Jovelino não teve dúvidas: abriu o portão.
No dia seguinte, os jornais estampavam a notícia do assalto e da surra que levara o dono do apartamento “visitado”, com direito até a coronhadas de revólver por haver tentado enfrentar o meliante.
Chamado às falas, Jovelino foi claro:

– Uai, o moço já tinha dito o nome dele e pra onde queria ir. Foi até bem explicadinho: quando passou por mim, deu uma risadinha, acho que por causa da cara de bocó que o pessoal diz que eu tenho, disse que era um tal de “larapo” – que eu logo vi que era o sobrenome dele – e que estava ali a serviço. O diabo desse fone aí estava com defeito, e eu então deixei o moço subir, uai!






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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Academia Fluminense de Letras outorga título de Acadêmico Honorário ao Reitor da UFF



Prosseguindo com a tarefa de divulgar e apoiar personalidades e instituições culturais do estado do Rio de Janeiro, em especial em Niterói, a postagem de hoje trata da solenidade da Academia Fluminense de Letras – AFL, na qual se deu posse, na condição de Membro Honorário, ao Doutor Roberto de Souza Salles, magnífico Reitor da Universidade Federal Fluminense – UFF. A celebração, em toda sua pompa e circunstância, pode ser acompanhada a partir de nossa cobertura fotográfica:

Biblioteca Pública de Niterói - BPN, onde se sedia a Academia Fluminense de Letras - AFL (foto Oficial)


Chegada do homenageado (foto de Lucia Motta, acadêmica da Classe de Belas Artes da AFL)

Plano geral da audiência

Uma comitiva de acadêmicos da AFL e de autoridades estaduais conduzem o Reitor da UFF ao recinto da Academia. Na foto, Roberto de Souza Salles está ladeado pelas acadêmicas Marcia Maria de Jesus Peçanha, Eneida Fortuna de Barros; atrás, o Presidente da Academia Fluminense de Medicina - AFM Alcir Vicente Visela Chacar, entre outros pares.

Com a mesa diretora composta, o Presidente Waldenir de Bragança dá início aos trabalhos
(na extremidade esquerda da mesa a Diretora da BPN, Glória Blauth e a Presidente da Associação Niteroiense de Escritores - ANE, Leda Mendes Jorge (esta última, também acadêmica da AFL).


 
Entre as autoridades presentes estiveram a Aidyl Preis, Professora Emérita e ex-Vice-Reitora da UFF.
O Presidente Wandenir de Bragança faz sua alocução de recepção ao Reitor Roberto de Souza Salles

Waldenir durante o discurso de recepção do colega médico Roberto Salles
na Academia Fluminense de Letras - AFL (Foto: Lúcia Motta).

Idem (Foto: Lúcia Motta).

Idem (Foto: Lúcia Motta).

Idem... (Foto: Lúcia Motta).

Vista parcial da plateia durante o discurso de Waldenir de Bragança.

A Diretoria da AFL dá posse ao Magnífico Reitor Roberto de Souza Salles na condição de Membro Honorário.

Vossa Magnificência, o Reitor Roberto Salles presta o juramento acadêmico.

Entrega do Diploma de membro Honorário da AFL pela Professora  Aidyl Preis. (Foto: Lúcia Motta).

Idem

Entrega da medalha e da farda ao membro Honorário da AFL pela Dr. Alcir Chacar. (Foto: Lúcia Motta).

Os acadêmicos Sandro Pereira Rebel e José Alfredo de Andrade estiveram presentes e estavam felizes em poder trajar o fardão da Academia (o mais novo implemento da atual presidência da AFL).

O Reitor da UFF profere seu discurso de Posse na AFL.

Em seu discurso, o Reitor Roberto Salles lembrou-nos que a homenagem vem ao encontro das comemorações do Jubileu de Ouro da Universidade Federal Fluminens - UFF.

O Reitor defendeu o apoio para instituições que trabalham pela cultura de nosso estado.

Ao fim, o Reitor Roberto de Souza Salles assinou um termo de cooperação por meio do qual a UFF apoiará as atividades da AFL. 

O momento da assinatura do termo de cooperação entre a Universidade e a Academia.

Ao fim da solenidade um grande número de pessoas cumprimentou o Acadêmico Honorário da AFL.

A conversa entre o Reitor da UFF e Alódio Moledo dos Santos


Fim de festa na Casa de Edmo Rodrigues Lutterbach. Roberto Kahlmeyer-Mertens ao lado do busto do célebre fluminense/cantagalense.






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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

"Da fragilidade de um projeto amoroso", por Branca Eloysa


Sim, Sartre já sinalizara a precariedade da existência humana... Atualmente, falam os pós-modernos  da fluidez dos mundos, dos amores líquidos, das vidas em risco... Seriam estas as novas formas de descrever o que os gregos sempre subministraram como o caráter “agônico” de nossas existências? Ainda dependeríamos dos helenos ou bastaria ir até Chico Buarque para intuir o que é este “agon”: “No peito a saudade cativa/ faz força pro tempo parar/mas eis que chega a roda viva/e carrega a saudade prá lá ...”

Quem for de coragem está convidado a experimentar essas disposições - com radicalidade - na prosa dorida de Branca Eloysa:






Da fragilidade de um projeto amoroso

Para Isa, In memoriam (Anita Heloisa Pedreira Ferreira Mantuano, 1953-2001).



                                                                                                                                    Branca Eloysa

Contam as lendas que em Belém nasceu o menino,
Eu conto que em Belém Maria deu à luz um menino. E como qualquer Maria, sentiu medo e dor, chorou, gritou, se confundiu, amou e desatinou. Pois de Marias nasceram Calígulas e Tibérios. Herodes e Pilatos. Cristos e Césares. Pedros e Paulos. E os Judas, coitados. E o guerreiro de farda dourada e o guerrilheiro de roupas esfarrapadas. E de Marias nasceram os Hitlers e os Lumumbas. E os Ches e os Pinochets. Os valentes e os covardes. Os torturados e os torturadores. Os santos e os demônios. Os gênios e os imbecis. Os sábios e os tolos. Os marginais e os domesticados. E os poetas, ah, os poetas...
E das Marias nasceram outras Marias. Benditos e malditos frutos dos nossos ventres. Ave, Marias.
E de repente, às vésperas do séc. XXI, as Marias começaram a gerar mais e mais, em procriação desenfreada. Uns diplomados, engravatados, adestrados. Outros descabelados, drogados, desesperados. Uns obscenamente superalimentados; outros pálidos vultos esfomeados. Uns que compunham canções, amavam as flores, os rios, os mares, as estrelas e as montanhas. E se amavam entre si. Outros que fabricavam canhões, hiroshimas e napalms. E mísseis, apontados para os próprios corações. E nem sabiam o quanto se odiavam.
E as Marias pariam. Em quartos luxuosos, refrigerados e floridos. No asfalto. Nos morros, nas caatingas, nos alagados. Cientificamente – provetas! – assépticas. Primitivamente – de cócoras – no esterco. Pariam. E umas diziam pela boca do consumo: “Este é o meu filho, muito prendado, cheio de doutorados!”. E outras pela boca do músico-poeta Chico Buarque: “Olhaí, olha o meu guri, olhaí, ele disse que chegava lá!...” Olhos secos, fixos na foto do filho assassinado, primeira página de um jornal qualquer.
E a fartura e a miséria – cara a cara – nos afligia. Éramos Marias.
Aí enlouquecemos. E saímos pelas ruas e praças – de maio, junho ou dezembro, pouco importa – e gritamos, e choramos, e imploramos, dizendo: “Basta!”
Surdos, cada qual com suas verdades, os homens continuavam a manipular suas maquinarias. Técnicos e tecnocratas.
E um dia, em universos longínquos, sábios extraterrenos registraram o desaparecimento de uma pequenina esfera azul, num sistema planetário X. Explodira contra todos os cálculos e possibilidades e deixara ecoando no espaço infinito um som estranho e pungente. Talvez o derradeiro gemido – vencido – das Marias, lamentando o terrível fracasso de seus projetos de vida e amor.
Há quem garanta que uma, só uma, escapou. Partiu para outra galáxia e recomeçou. Amou, procriou, acreditou, Ainda.
Isa, onde está você?

(ELOYSA, Branca. Extrato. In: Rua Ana Barbosa 45, Meyer. Niterói; Cosmos, 1990 )
 
 
 
 
 
Divulgação Cultural
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domingo, 22 de janeiro de 2012

"Como se faz um homem", excerto de A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector



Capa da primeira edição de A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector (Livraria Francisco Alves, 1961)


 Autógrafo de Clarice Lispector (acima, em vermelho) e de Antônio Carlos Jobim (abaixo, em azul),  num exemplar da primeira edição de A Maçã no Escuro,
acervo da biblioteca pessoal de Roberto Kahlmeyer-Mertens



Primeira parte: Como se faz um homem





                                                                                                                        Clarice Lispector,
                                                                                                                         por Giorgio Di Chirico




1
Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranqüilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu. Até que mais profundamente tarde também a lua desapareceu.
Nada agora diferenciava o sono de Martim do lento jardim sem lua: quando um homem dormia tão no fundo passava a não ser mais do que aquela árvore de pé ou o pulo do sapo no escuro.
Algumas árvores haviam ali crescido com enraizado vagar até atingir o alto das próprias copas e o limite de seu destino. Outras já haviam saído da terra em bruscos tufos. Os canteiros tinham uma ordem que procurava concentradamente servir a uma simetria. Se esta era discernível do alto da sacada do grande hotel, uma pessoa estando ao nível dos canteiros não descobria essa ordem; entre os canteiros o caminho se pormenorizava em pequenas pedras talhadas.
Sobretudo numa das alamedas o Ford estava parado há tanto tempo que já fazia parte do grande jardim entrelaçado e de seu silêncio.
No entanto, de dia a paisagem era outra, e os grilos vibrando ocos e duros deixavam a extensão inteiramente aberta, sem uma sombra. Enquanto o cheiro era o seco cheiro de pedra exasperada que o dia tem no campo. Ainda nesse mesmo dia Martim ficara de pé na sacada procurando, com inútil obediência, não perder nada do que se passava. Mas o que se passava não era muito: antes de começar a estrada que se perdia em suspensa poeira de sol, apenas o jardim nada mais que contemplável; compreensível e simétrico do alto da sacada; emaranhado quando se fazia parte dele — e esta lembrança o homem há duas semanas guardava nos pés com aplicação cuidadosa, conservando-a para um uso eventual. Por mais atenção, no entanto, o dia era inescalável; e como um ponto desenhado sobre o mesmo ponto, a voz do grilo era o próprio corpo do grilo, e nada informava. A única vantagem do dia é que na extrema luz o carro se tornava um pequeno besouro que facilmente alcançaria a estrada.
Mas enquanto o homem dormia o carro se tornava enorme como é gigantesca uma máquina parada. E de noite o jardim era ocupado pela secreta urdidura com que o escuro se mantém, num trabalho cuja existência os vaga-lumes inesperadamente traem; certa umidade também denunciava o labor. E a noite era um elemento em que a vida, por se tornar estranha, era reconhecível.

[...]

Dentro do silêncio de novo intacto, o homem agora olhou estupidamente o teto invisível que no escuro era tão alto quanto o céu. Largado de costas na cama, tentou num esforço de prazer gratuito reconstituir o ruído das rodas, pois enquanto não sentia dor era de um modo geral prazer que ele sentia. Da cama não via o jardim. Um pouco de bruma entrava pelas venezianas abertas, o que se denunciou ao homem pelo cheiro de algodão úmido e por uma certa ânsia física de felicidade que a cerração dá. Fora apenas um sonho, então. Cético, embora, ele se ergueu.
Nas trevas nada viu da sacada, e nem sequer adivinhou a simetria dos canteiros. Algumas manchas mais negras que o próprio negrume indicaram o provável lugar das árvores. O jardim não passava ainda de um esforço de sua memória, e o homem olhou quieto, adormecido. Um ou outro vaga-lume tornava mais vasta a escuridão.
Esquecido do sonho que o guiara até a sacada, o corpo do homem achou bom se sentir saudavelmente de pé: é que o ar suspenso mal alterava a escura posição das folhas. Ali, pois, deixou-se ficar, dócil, atordoado, com a sucessão de quartos desocupados atrás de si. Sem emoção aqueles quartos vazios repetiam-no e repetiam-no até se apagarem aonde o homem já não se alcançava mais. Martim suspirou dentro de seu largo sono acordado. Sem insistir demais, tentou atingir a noção dos últimos quartos como se ele próprio se tivesse tornado grande demais e espalhado, e, por algum motivo que já esquecera, precisasse obscuramente se recolher para talvez pensar ou sentir. Mas não conseguiu, e estava muito aprazível. Assim ele ficou, com o ar cortês de um homem que levou uma pancada na cabeça. Até que — como quando um relógio pára de bater e só então nos adverte que antes batia — Martim percebeu o silêncio e dentro do silêncio a sua própria presença. Agora, através de uma incompreensão muito familiar, o homem começou enfim a ser indistintamente ele mesmo.
Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio: trevas foram sendo entendidas, ramos começaram lentamente a se formar sob o balcão, sombras se dividiram em flores ainda irresolutas — com os limites ocultos pelo viço imóvel das plantas, os canteiros se delinearam cheios, macios. O homem grunhiu aprovando: com certa dificuldade acabara de reconhecer o jardim que nessas duas semanas de sono constituíra em intervalos a sua irredutível visão.
Foi nesse momento que uma lua desfalecida perpassou uma nuvem em grande silêncio, em silêncio derramou-se sobre pedras calmas, desaparecendo em silêncio na escuridão. A cara enluarada do homem se dirigiu então para a alameda onde o Ford estaria imóvel.
Mas o carro desaparecera.
O corpo inteiro do homem subitamente despertou. Num relance astuto seus olhos percorreram a escuridão toda do jardim — e, sem um gesto de aviso, ele se virou para o quarto em leve pulo de macaco.
Nada porém se mexia no oco do aposento que de escuro se tornara enorme. O homem ficou resfolegando atento e inutilmente feroz, com as mãos avançadas para o ataque. Mas o silêncio do hotel era o mesmo da noite. E sem limites visíveis, o quarto prolongava no mesmo exalar-se a escuridão do jardim. Para se despertar o homem esfregou várias vezes os olhos com o dorso de uma das mãos enquanto deixava a outra livre para a defesa. Foi inútil sua nova sensibilidade: nas trevas os olhos totalmente abertos não viram sequer as paredes.
Era como se o tivessem depositado solto num campo. E enfim ele acordasse de um longo sonho do qual haviam feito parte um hotel agora desmanchado num chão vazio, um carro apenas imaginado pelo desejo, e sobretudo tivessem desaparecido os motivos de um homem estar todo expectante num lugar que também este era expectativa.
De real só lhe restou a sagacidade que o fizera dar um pulo para indistintamente se defender. A mesma que o levava agora a raciocinar com inesperada lucidez que se o alemão tivesse ido denunciá-lo levaria algum tempo para ir e voltar com a Polícia.
O que ainda o deixava temporariamente livre — a menos que o criado tivesse sido encarregado de vigiá-lo. E nesse caso o criado, se o era, estaria neste mesmo instante à porta daquele mesmo quarto com o ouvido atento ao menor movimento do hóspede.
Assim pensou ele. E findo o raciocínio, ao qual chegara com a maleabilidade com que um invertebrado se torna menor para deslizar, Martim mergulhou de novo na mesma ausência anterior de razões e na mesma obtusa imparcialidade, como se nada tivesse a ver consigo mesmo, e a espécie se encarregasse dele. Sem um olhar para trás, guiado por uma escorregadia destreza de movimentos, começou a descer pela sacada apoiando pés inesperadamente flexíveis na saliência dos tijolos. Na sua atenta remotidão o homem sentia perto da cara o cheiro malévolo das heras quebradas como se nunca o fosse esquecer. Sua alma agora apenas alerta não distinguia o que era ou não importante, e a toda operação ele deu a mesma consideração escrupulosa.
Num pulo macio, que fez o jardim asfixiar-se em suspiro retido, ele se achou em pleno centro de um canteiro — que se arrepiou todo e depois se fechou. Com o corpo advertido o homem esperou que a mensagem de seu pulo fosse transmitida de secreto em secreto eco até se transformar em longínquo silêncio; seu baque terminou se espraiando nas encostas de alguma montanha. Ninguém ensinara ao homem essa conivência com o que se passa de noite, mas um corpo sabe.
Ele esperou um pouco mais. Até que nada aconteceu. Só então tateou com minúcia os óculos no bolso: estavam inteiros. Suspirou com cuidado e finalmente olhou em torno. A noite era de uma grande e escura delicadeza.

(LISPECTOR, Clarice. A Maçã no Escuro. Rio de Janeiro - São Paulo -  Belo Horizonte: Francisco Alves, 1961, p. 11-17)


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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

"Imortais", três pequenas crônicas de Carlos Rosa Moreira





Imortais

                                                                                                                              Carlos Rosa Moreira

Não havia nada nas noites daquela cidadezinha. Eu voltava para o hotel quando o celular tocou e me deram a notícia. Foi ruim, um momento terrível, mas, que jeito? Ainda caminhei uns passos, então lembrei de convidá-lo para tomar uma cerveja. Tinha um pequeno boteco, o único ainda aberto, mas Osmar aceitou na hora.

─ Uma cerveja e dois copos ─ pedi ao rapaz do boteco.

─ Dois copos?

─ É, dois copos.

A cerveja veio e servi o Osmar e a mim do jeito que gostamos, com um bom colarinho. Ele puxou o cigarro de sempre; eu peguei um charuto.

─ Você tem que fumar um desses, Osmar. Pelo menos, não traga.

─ Bobagem, prefiro os meus ─ e terminou a frase com uma tosse daquelas.

Então conversamos sobre velhas coisas, as coisas das quais ele mais gostava. Falamos de comida de boteco, de roça e sertão, do bem que a chuva mansa faz às folhagens, do perfume das leiras ao cair a tarde, dos nossos filhos. Cheguei a iniciar uma conversa sobre assombração, mas não seria de bom tom. Um bêbado tentou sentar na cadeira do Osmar.

─ Eh! Sai pra lá, meu chapa, não tá vendo o meu amigo aí, pô!

O bêbado arregalou os olhos para mim e saiu de banda.

Osmar e eu ainda conversamos muito. Só fomos embora porque o boteco fechou. Ele me levou até o hotel e depois sumiu na noite das calçadas. Foi um dia triste aquele, mas, pelo menos, passamos umas horas de conversa, né companheiro?
E temos conversado muito nesses “bares da vida”. Tem garçom que traz a cerveja preferida do Osmar antes de a gente pedir. Imagine quando estivermos juntos de vez, hein Osmar? Mas... será que vai ter cerveja?


***


Ah, meu caro Chico, hoje me lembrei de você. Você sabe, faz tempo que deixei as montanhas. Mas da última vez, na Travessia, você estava comigo, não estava? Tenho certeza de que estava. Mas lembrei de você por outro motivo, foi por causa de uma loira que subiu as escadas na minha frente, num prédio aqui do centro da cidade. Chico, parecia aquela loira do Pão de Açúcar... Lembra? Foi na abertura da temporada de 1989, quando escalamos pelo Costão. Estávamos no “Jacó”, respirando um pouco, quando surgiu a loira. Passou por nós como o vento, pôs um pezinho aqui, outro ali, abriu spagat e, num átimo, transpôs aquela “escadinha” de pedra e sumiu escalando paredão acima. Nós ficamos embaixo, de bocas abertas com as cordas nas mãos, apreciando a técnica da loira e o espetáculo que o short largo ofereceu.
Depois daquele dia no Pão de Açúcar ainda subimos muitas montanhas. Subimos não, eu subi e encontrei você lá em cima no ar frio e cristalino que amamos. Faz tempo, Chico, que não pego uma trilha ou desafio um paredão, mas qualquer hora o encontro aí nas alturas, nessa relva baixa e perfumada onde as árvores não crescem e onde os riachos congelam no mês de julho. Qualquer hora, companheiro...


***

Roberto, amigo véio, hoje eu fui pro mar. Fazia tempo, rapaz. Chamei e esperei, mas você não apareceu. Ou estava lá e eu não vi? feito aqueles cações de Arraial que nadavam invisíveis entre a gente, lembra? Bons tempos, né Roberto? Hoje havia ondas perfeitas em Itacoá, mas a água estava tão clara que preferi ficar por aqui. Há três dias um sudoeste trouxe boas águas lá do oceano, “água roxa”, como gostamos. Refiz nossos percursos, atravessei os lajeados e depois me deitei naquela pedra lisa da ilha. Havia tainhas na superfície e badejos no fundo, mas eu só desejava nadar. Puxei assunto com você na pedra, como fazíamos ao retornar dos mergulhos, mas você não respondeu. Um solitário pescador de linha chegou a se assustar comigo, pois eu falava, falava e ria muito de uns fatos engraçados acontecidos com os nossos amigos. Acho que você estava lá, meio emburrado e quieto daquele seu jeito. Depois parei de falar e fiquei admirando o mar. A gente vai, Roberto, e nada muda. Tinha aquela brisa mansa soprando de sul, e na ponta da Fortaleza o espumeiro de sempre, formado pelas ondas desse vento calmo. O perfume da maresia enchia os pulmões, ah... como é bom o cheiro de mar! Tem mar aí, Roberto?




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