“Ser anfitrião das belas letras.”
Com esta legenda, o presente Blog pretende abrir espaço para os talentos da literatura (com ênfase na fluminense). Tal sítio é reservado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias. Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária é o nosso papel.
Texto de Sandro Rebel reproduzindo a aula de lógica não-aristotélica do Professor Dr. Jovelino (Catedrático em Ciências Ocultas e Letras Apagadas). Ao final, não deixem de assistir ao vídeo com acirrada quaestio disputata entre filósofos vários.
Exemplar da "Lógica", de Aristóteles, datado de 1570
A lógica
Sandro Pereira Rebel
A lógica e a razão,
quando não bem entendidas,
podem gerar confusão
que as torna até descabidas.
Abriu-se vaga de porteiro no prédio e o condomínio, para preenchê-la, cercou-se de todas as cautelas. Cinco candidatos se apresentaram e o síndico cuidou de apanhar, a respeito da vida pregressa de cada um, as referências mais detalhadas. Tratou, principalmente, do item moral: o cidadão haveria de ter, mais que tudo, um caráter acima de qualquer suspeita. Mas preocupou-se também com apurar o atendimento, ou não, por parte dos concorrentes, de outros requisitos igualmente importantes. Nível de educação, grau de urbanidade, os seus hábitos e costumes, a dedicação ao serviço, a assiduidade no exercê-lo, sobre tudo isso procurou informar-se minudentemente, através de entrevistas pessoais com eles, os pleiteantes ao cargo, e de contatos com antigos empregadores deles. À questão da assiduidade e, como um corolário dela, à da permanência no posto em tempo integral, também dedicou especial atenção, até porque, por experiência própria (era síndico há mais de dez anos), e por observações que colhera junto a outros colegas de ofício com vasto conhecimento no ramo, tinha chegado à conclusão de que um dos problemas que mais comumente afetam o desempenho do porteiro de edifício é a tendência que ele tem para não ficar na portaria. É, de fato, esta, uma realidade incontestável: o de que menos um porteiro gosta é de estar na portaria.
Após cumprido assim, com o maior rigor, todo esse exaustivo processo de seleção, a escolha do novo porteiro recaiu no Jovelino, um mulatinho do interior de Minas, simpático, de trato agradável e muito comunicativo, apesar do forte jeitão de matuto presente na cara meio abobalhada. Era pouco ou nada letrado, mas no quesito caráter dera de goleada nos seus competidores, pois, destes, o mais qualificado era o que só tinha tido duas passagens pela polícia. Neste particular, o mineirinho mostrara-se mesmo imbatível. Daí que, ao admiti-lo no emprego, o patrão só cuidou foi de enfatizar para ele a recomendação que diversas vezes já lhe passara durante as preliminares do recrutamento:
– A pessoa, para entrar no prédio, tem que antes dizer seu nome.
– Mas meu nome, doutor? Como é que ela vai saber? E eu digo se ela perguntar?
– Não, Jovelino. Seu nome, no caso, é o nome dela, a pessoa, entendeu? Ela, então, antes de entrar no prédio, tem que dizer o nome dela, o apartamento aonde quer ir e o que vai fazer lá. Sem isto, Jovelino, não abra nunca o portão. Além disso, você tem que apanhar, pelo interfone, a autorização do morador para o visitante subir, entendeu?
Passou-se perto de um mês e tudo ia correndo bem: o empregador satisfeito com o empregado e o empregado satisfeito com o empregador. Mas eis que um dia, ou melhor, uma noite, a desgraça bateu à porta dos dois. Alguém, chegando ao edifício, passou pro Jovelino as informações que este lhe pedira:
– Meu nome é Chico. Quero ir ao apartamento 1002, o do síndico. Vou só fazer uma visitinha a ele. Coisa ligeira.
Nome, destino e propósito assim informados, Jovelino não teve dúvidas: abriu o portão.
No dia seguinte, os jornais estampavam a notícia do assalto e da surra que levara o dono do apartamento “visitado”, com direito até a coronhadas de revólver por haver tentado enfrentar o meliante.
Chamado às falas, Jovelino foi claro:
– Uai, o moço já tinha dito o nome dele e pra onde queria ir. Foi até bem explicadinho: quando passou por mim, deu uma risadinha, acho que por causa da cara de bocó que o pessoal diz que eu tenho, disse que era um tal de “larapo” – que eu logo vi que era o sobrenome dele – e que estava ali a serviço. O diabo desse fone aí estava com defeito, e eu então deixei o moço subir, uai!
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Prosseguindo com a tarefa de divulgar e apoiar personalidades e instituições culturais do estado do Rio de Janeiro, em especial em Niterói, a postagem de hoje trata da solenidade da Academia Fluminense de Letras – AFL, na qual se deu posse, na condição de Membro Honorário, ao Doutor Roberto de Souza Salles, magnífico Reitor da Universidade Federal Fluminense – UFF. A celebração, em toda sua pompa e circunstância, pode ser acompanhada a partir de nossa cobertura fotográfica:
Chegada do homenageado (foto de Lucia Motta, acadêmica da Classe de Belas Artes da AFL)
Plano geral da audiência
Uma comitiva de acadêmicos da AFL e de autoridades estaduais conduzem o Reitor da UFF ao recinto da Academia. Na foto, Roberto de Souza Salles está ladeado pelas acadêmicas Marcia Maria de Jesus Peçanha, Eneida Fortuna de Barros; atrás, o Presidente da Academia Fluminense de Medicina - AFM Alcir Vicente Visela Chacar, entre outros pares.
Com a mesa diretora composta, o Presidente Waldenir de Bragança dá início aos trabalhos
(na extremidade esquerda da mesa a Diretora da BPN, Glória Blauth e a Presidente da Associação Niteroiense de Escritores - ANE, Leda Mendes Jorge (esta última, também acadêmica da AFL).
Entre as autoridades presentes estiveram a Aidyl Preis, Professora Emérita e ex-Vice-Reitora da UFF.
O Presidente Wandenir de Bragança faz sua alocução de recepção ao Reitor Roberto de Souza Salles
Waldenir durante o discurso de recepção do colega médico Roberto Salles
na Academia Fluminense de Letras - AFL (Foto: Lúcia Motta).
Idem (Foto: Lúcia Motta).
Idem (Foto: Lúcia Motta).
Idem... (Foto: Lúcia Motta).
Vista parcial da plateia durante o discurso de Waldenir de Bragança.
A Diretoria da AFL dá posse ao Magnífico Reitor Roberto de Souza Salles na condição de Membro Honorário.
Vossa Magnificência, o Reitor Roberto Salles presta o juramento acadêmico.
Entrega do Diploma de membro Honorário da AFL pela Professora Aidyl Preis. (Foto: Lúcia Motta).
Idem
Entrega da medalha e da farda ao membro Honorário da AFL pela Dr. Alcir Chacar. (Foto: Lúcia Motta).
Os acadêmicos Sandro Pereira Rebel e José Alfredo de Andrade estiveram presentes e estavam felizes em poder trajar o fardão da Academia (o mais novo implemento da atual presidência da AFL).
O Reitor da UFF profere seu discurso de Posse na AFL.
Em seu discurso, o Reitor Roberto Salles lembrou-nos que a homenagem vem ao encontro das comemorações do Jubileu de Ouro da Universidade Federal Fluminens - UFF.
O Reitor defendeu o apoio para instituições que trabalham pela cultura de nosso estado.
Ao fim, o Reitor Roberto de Souza Salles assinou um termo de cooperação por meio do qual a UFF apoiará as atividades da AFL.
O momento da assinatura do termo de cooperação entre a Universidade e a Academia.
Ao fim da solenidade um grande número de pessoas cumprimentou o Acadêmico Honorário da AFL.
A conversa entre o Reitor da UFF e Alódio Moledo dos Santos
Fim de festa na Casa de Edmo Rodrigues Lutterbach. Roberto Kahlmeyer-Mertens ao lado do busto do célebre fluminense/cantagalense.
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Sim, Sartre já sinalizara a precariedade da existência humana... Atualmente, falam os pós-modernos da fluidez dos mundos, dos amores líquidos, das vidas em risco... Seriam estas as novas formas de descrever o que os gregos sempre subministraram como o caráter “agônico” de nossas existências? Ainda dependeríamos dos helenos ou bastaria ir até Chico Buarque para intuir o que é este “agon”: “No peito a saudade cativa/ faz força pro tempo parar/mas eis que chega a roda viva/e carrega a saudade prá lá ...”
Quem for de coragem está convidado a experimentar essas disposições - com radicalidade - na prosa dorida de Branca Eloysa:
Da fragilidade de um projeto amoroso
Para Isa, In memoriam (Anita Heloisa Pedreira Ferreira Mantuano, 1953-2001).
Eu conto que em Belém Maria deu à luz um menino. E como qualquer Maria, sentiu medo e dor, chorou, gritou, se confundiu, amou e desatinou. Pois de Marias nasceram Calígulas e Tibérios. Herodes e Pilatos. Cristos e Césares. Pedros e Paulos. E os Judas, coitados. E o guerreiro de farda dourada e o guerrilheiro de roupas esfarrapadas. E de Marias nasceram os Hitlers e os Lumumbas. E os Ches e os Pinochets. Os valentes e os covardes. Os torturados e os torturadores. Os santos e os demônios. Os gênios e os imbecis. Os sábios e os tolos. Os marginais e os domesticados. E os poetas, ah, os poetas...
E das Marias nasceram outras Marias. Benditos e malditos frutos dos nossos ventres. Ave, Marias.
E de repente, às vésperas do séc. XXI, as Marias começaram a gerar mais e mais, em procriação desenfreada. Uns diplomados, engravatados, adestrados. Outros descabelados, drogados, desesperados. Uns obscenamente superalimentados; outros pálidos vultos esfomeados. Uns que compunham canções, amavam as flores, os rios, os mares, as estrelas e as montanhas. E se amavam entre si. Outros que fabricavam canhões, hiroshimas e napalms. E mísseis, apontados para os próprios corações. E nem sabiam o quanto se odiavam.
E as Marias pariam. Em quartos luxuosos, refrigerados e floridos. No asfalto. Nos morros, nas caatingas, nos alagados. Cientificamente – provetas! – assépticas. Primitivamente – de cócoras – no esterco. Pariam. E umas diziam pela boca do consumo: “Este é o meu filho, muito prendado, cheio de doutorados!”. E outras pela boca do músico-poeta Chico Buarque: “Olhaí, olha o meu guri, olhaí, ele disse que chegava lá!...” Olhos secos, fixos na foto do filho assassinado, primeira página de um jornal qualquer.
E a fartura e a miséria – cara a cara – nos afligia. Éramos Marias.
Aí enlouquecemos. E saímos pelas ruas e praças – de maio, junho ou dezembro, pouco importa – e gritamos, e choramos, e imploramos, dizendo: “Basta!”
Surdos, cada qual com suas verdades, os homens continuavam a manipular suas maquinarias. Técnicos e tecnocratas.
E um dia, em universos longínquos, sábios extraterrenos registraram o desaparecimento de uma pequenina esfera azul, num sistema planetário X. Explodira contra todos os cálculos e possibilidades e deixara ecoando no espaço infinito um som estranho e pungente. Talvez o derradeiro gemido – vencido – das Marias, lamentando o terrível fracasso de seus projetos de vida e amor.
Há quem garanta que uma, só uma, escapou. Partiu para outra galáxia e recomeçou. Amou, procriou, acreditou, Ainda.
Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranqüilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu. Até que mais profundamente tarde também a lua desapareceu.
Nada agora diferenciava o sono de Martim do lento jardim sem lua: quando um homem dormia tão no fundo passava a não ser mais do que aquela árvore de pé ou o pulo do sapo no escuro.
Algumas árvores haviam ali crescido com enraizado vagar até atingir o alto das próprias copas e o limite de seu destino. Outras já haviam saído da terra em bruscos tufos. Os canteiros tinham uma ordem que procurava concentradamente servir a uma simetria. Se esta era discernível do alto da sacada do grande hotel, uma pessoa estando ao nível dos canteiros não descobria essa ordem; entre os canteiros o caminho se pormenorizava em pequenas pedras talhadas.
Sobretudo numa das alamedas o Ford estava parado há tanto tempo que já fazia parte do grande jardim entrelaçado e de seu silêncio.
No entanto, de dia a paisagem era outra, e os grilos vibrando ocos e duros deixavam a extensão inteiramente aberta, sem uma sombra. Enquanto o cheiro era o seco cheiro de pedra exasperada que o dia tem no campo. Ainda nesse mesmo dia Martim ficara de pé na sacada procurando, com inútil obediência, não perder nada do que se passava. Mas o que se passava não era muito: antes de começar a estrada que se perdia em suspensa poeira de sol, apenas o jardim nada mais que contemplável; compreensível e simétrico do alto da sacada; emaranhado quando se fazia parte dele — e esta lembrança o homem há duas semanas guardava nos pés com aplicação cuidadosa, conservando-a para um uso eventual. Por mais atenção, no entanto, o dia era inescalável; e como um ponto desenhado sobre o mesmo ponto, a voz do grilo era o próprio corpo do grilo, e nada informava. A única vantagem do dia é que na extrema luz o carro se tornava um pequeno besouro que facilmente alcançaria a estrada.
Mas enquanto o homem dormia o carro se tornava enorme como é gigantesca uma máquina parada. E de noite o jardim era ocupado pela secreta urdidura com que o escuro se mantém, num trabalho cuja existência os vaga-lumes inesperadamente traem; certa umidade também denunciava o labor. E a noite era um elemento em que a vida, por se tornar estranha, era reconhecível.
[...]
Dentro do silêncio de novo intacto, o homem agora olhou estupidamente o teto invisível que no escuro era tão alto quanto o céu. Largado de costas na cama, tentou num esforço de prazer gratuito reconstituir o ruído das rodas, pois enquanto não sentia dor era de um modo geral prazer que ele sentia. Da cama não via o jardim. Um pouco de bruma entrava pelas venezianas abertas, o que se denunciou ao homem pelo cheiro de algodão úmido e por uma certa ânsia física de felicidade que a cerração dá. Fora apenas um sonho, então. Cético, embora, ele se ergueu.
Nas trevas nada viu da sacada, e nem sequer adivinhou a simetria dos canteiros. Algumas manchas mais negras que o próprio negrume indicaram o provável lugar das árvores. O jardim não passava ainda de um esforço de sua memória, e o homem olhou quieto, adormecido. Um ou outro vaga-lume tornava mais vasta a escuridão.
Esquecido do sonho que o guiara até a sacada, o corpo do homem achou bom se sentir saudavelmente de pé: é que o ar suspenso mal alterava a escura posição das folhas. Ali, pois, deixou-se ficar, dócil, atordoado, com a sucessão de quartos desocupados atrás de si. Sem emoção aqueles quartos vazios repetiam-no e repetiam-no até se apagarem aonde o homem já não se alcançava mais. Martim suspirou dentro de seu largo sono acordado. Sem insistir demais, tentou atingir a noção dos últimos quartos como se ele próprio se tivesse tornado grande demais e espalhado, e, por algum motivo que já esquecera, precisasse obscuramente se recolher para talvez pensar ou sentir. Mas não conseguiu, e estava muito aprazível. Assim ele ficou, com o ar cortês de um homem que levou uma pancada na cabeça. Até que — como quando um relógio pára de bater e só então nos adverte que antes batia — Martim percebeu o silêncio e dentro do silêncio a sua própria presença. Agora, através de uma incompreensão muito familiar, o homem começou enfim a ser indistintamente ele mesmo.
Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio: trevas foram sendo entendidas, ramos começaram lentamente a se formar sob o balcão, sombras se dividiram em flores ainda irresolutas — com os limites ocultos pelo viço imóvel das plantas, os canteiros se delinearam cheios, macios. O homem grunhiu aprovando: com certa dificuldade acabara de reconhecer o jardim que nessas duas semanas de sono constituíra em intervalos a sua irredutível visão.
Foi nesse momento que uma lua desfalecida perpassou uma nuvem em grande silêncio, em silêncio derramou-se sobre pedras calmas, desaparecendo em silêncio na escuridão. A cara enluarada do homem se dirigiu então para a alameda onde o Ford estaria imóvel.
Mas o carro desaparecera.
O corpo inteiro do homem subitamente despertou. Num relance astuto seus olhos percorreram a escuridão toda do jardim — e, sem um gesto de aviso, ele se virou para o quarto em leve pulo de macaco.
Nada porém se mexia no oco do aposento que de escuro se tornara enorme. O homem ficou resfolegando atento e inutilmente feroz, com as mãos avançadas para o ataque. Mas o silêncio do hotel era o mesmo da noite. E sem limites visíveis, o quarto prolongava no mesmo exalar-se a escuridão do jardim. Para se despertar o homem esfregou várias vezes os olhos com o dorso de uma das mãos enquanto deixava a outra livre para a defesa. Foi inútil sua nova sensibilidade: nas trevas os olhos totalmente abertos não viram sequer as paredes.
Era como se o tivessem depositado solto num campo. E enfim ele acordasse de um longo sonho do qual haviam feito parte um hotel agora desmanchado num chão vazio, um carro apenas imaginado pelo desejo, e sobretudo tivessem desaparecido os motivos de um homem estar todo expectante num lugar que também este era expectativa.
De real só lhe restou a sagacidade que o fizera dar um pulo para indistintamente se defender. A mesma que o levava agora a raciocinar com inesperada lucidez que se o alemão tivesse ido denunciá-lo levaria algum tempo para ir e voltar com a Polícia.
O que ainda o deixava temporariamente livre — a menos que o criado tivesse sido encarregado de vigiá-lo. E nesse caso o criado, se o era, estaria neste mesmo instante à porta daquele mesmo quarto com o ouvido atento ao menor movimento do hóspede.
Assim pensou ele. E findo o raciocínio, ao qual chegara com a maleabilidade com que um invertebrado se torna menor para deslizar, Martim mergulhou de novo na mesma ausência anterior de razões e na mesma obtusa imparcialidade, como se nada tivesse a ver consigo mesmo, e a espécie se encarregasse dele. Sem um olhar para trás, guiado por uma escorregadia destreza de movimentos, começou a descer pela sacada apoiando pés inesperadamente flexíveis na saliência dos tijolos. Na sua atenta remotidão o homem sentia perto da cara o cheiro malévolo das heras quebradas como se nunca o fosse esquecer. Sua alma agora apenas alerta não distinguia o que era ou não importante, e a toda operação ele deu a mesma consideração escrupulosa.
Num pulo macio, que fez o jardim asfixiar-se em suspiro retido, ele se achou em pleno centro de um canteiro — que se arrepiou todo e depois se fechou. Com o corpo advertido o homem esperou que a mensagem de seu pulo fosse transmitida de secreto em secreto eco até se transformar em longínquo silêncio; seu baque terminou se espraiando nas encostas de alguma montanha. Ninguém ensinara ao homem essa conivência com o que se passa de noite, mas um corpo sabe.
Ele esperou um pouco mais. Até que nada aconteceu. Só então tateou com minúcia os óculos no bolso: estavam inteiros. Suspirou com cuidado e finalmente olhou em torno. A noite era de uma grande e escura delicadeza.
(LISPECTOR, Clarice. A Maçã no Escuro. Rio de Janeiro - São Paulo - Belo Horizonte: Francisco Alves, 1961, p. 11-17)
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Não havia nada nas noites daquela cidadezinha. Eu voltava para o hotel quando o celular tocou e me deram a notícia. Foi ruim, um momento terrível, mas, que jeito? Ainda caminhei uns passos, então lembrei de convidá-lo para tomar uma cerveja. Tinha um pequeno boteco, o único ainda aberto, mas Osmar aceitou na hora.
─ Uma cerveja e dois copos ─ pedi ao rapaz do boteco.
─ Dois copos?
─ É, dois copos.
A cerveja veio e servi o Osmar e a mim do jeito que gostamos, com um bom colarinho. Ele puxou o cigarro de sempre; eu peguei um charuto.
─ Você tem que fumar um desses, Osmar. Pelo menos, não traga.
─ Bobagem, prefiro os meus ─ e terminou a frase com uma tosse daquelas.
Então conversamos sobre velhas coisas, as coisas das quais ele mais gostava. Falamos de comida de boteco, de roça e sertão, do bem que a chuva mansa faz às folhagens, do perfume das leiras ao cair a tarde, dos nossos filhos. Cheguei a iniciar uma conversa sobre assombração, mas não seria de bom tom. Um bêbado tentou sentar na cadeira do Osmar.
─ Eh! Sai pra lá, meu chapa, não tá vendo o meu amigo aí, pô!
O bêbado arregalou os olhos para mim e saiu de banda.
Osmar e eu ainda conversamos muito. Só fomos embora porque o boteco fechou. Ele me levou até o hotel e depois sumiu na noite das calçadas. Foi um dia triste aquele, mas, pelo menos, passamos umas horas de conversa, né companheiro?
E temos conversado muito nesses “bares da vida”. Tem garçom que traz a cerveja preferida do Osmar antes de a gente pedir. Imagine quando estivermos juntos de vez, hein Osmar? Mas... será que vai ter cerveja?
***
Ah, meu caro Chico, hoje me lembrei de você. Você sabe, faz tempo que deixei as montanhas. Mas da última vez, na Travessia, você estava comigo, não estava? Tenho certeza de que estava. Mas lembrei de você por outro motivo, foi por causa de uma loira que subiu as escadas na minha frente, num prédio aqui do centro da cidade. Chico, parecia aquela loira do Pão de Açúcar... Lembra? Foi na abertura da temporada de 1989, quando escalamos pelo Costão. Estávamos no “Jacó”, respirando um pouco, quando surgiu a loira. Passou por nós como o vento, pôs um pezinho aqui, outro ali, abriu spagat e, num átimo, transpôs aquela “escadinha” de pedra e sumiu escalando paredão acima. Nós ficamos embaixo, de bocas abertas com as cordas nas mãos, apreciando a técnica da loira e o espetáculo que o short largo ofereceu.
Depois daquele dia no Pão de Açúcar ainda subimos muitas montanhas. Subimos não, eu subi e encontrei você lá em cima no ar frio e cristalino que amamos. Faz tempo, Chico, que não pego uma trilha ou desafio um paredão, mas qualquer hora o encontro aí nas alturas, nessa relva baixa e perfumada onde as árvores não crescem e onde os riachos congelam no mês de julho. Qualquer hora, companheiro...
***
Roberto, amigo véio, hoje eu fui pro mar. Fazia tempo, rapaz. Chamei e esperei, mas você não apareceu. Ou estava lá e eu não vi? feito aqueles cações de Arraial que nadavam invisíveis entre a gente, lembra? Bons tempos, né Roberto? Hoje havia ondas perfeitas em Itacoá, mas a água estava tão clara que preferi ficar por aqui. Há três dias um sudoeste trouxe boas águas lá do oceano, “água roxa”, como gostamos. Refiz nossos percursos, atravessei os lajeados e depois me deitei naquela pedra lisa da ilha. Havia tainhas na superfície e badejos no fundo, mas eu só desejava nadar. Puxei assunto com você na pedra, como fazíamos ao retornar dos mergulhos, mas você não respondeu. Um solitário pescador de linha chegou a se assustar comigo, pois eu falava, falava e ria muito de uns fatos engraçados acontecidos com os nossos amigos. Acho que você estava lá, meio emburrado e quieto daquele seu jeito. Depois parei de falar e fiquei admirando o mar. A gente vai, Roberto, e nada muda. Tinha aquela brisa mansa soprando de sul, e na ponta da Fortaleza o espumeiro de sempre, formado pelas ondas desse vento calmo. O perfume da maresia enchia os pulmões, ah... como é bom o cheiro de mar! Tem mar aí, Roberto?
Divulgação Cultural
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Luís Antônio Pimentel, escritor fluminense, desmente a etimologia da palavra “aposentado”, aquele que “fica no aposento”, recluso do mundo. Nunca se acomodou na cadeira de balanço, de chinelos e pijama, a olhar pela janela, igual à Carolina da música, nem fica vendo a banda passar. Sorrindo à vida no alto de seus noventa anos, está continuamente aberto à beleza do amor, aos signos modernos e jamais abandona a sua máquina fotográfica Nikon, ou o seu pequeno gravador, aliado à eterna inspiração de versejar. E muito bem!
Com seu lúcido olhar de Poeta dos maiores tons em muitos livros de vários temas e estilos publicados, Pimentel integrou-se à paisagem cultural de Niterói. Sempre no fluxo dos acontecimentos memoráveis lá está ele, capturando, com as lentes da sua objetiva, flashes do cotidiano, e relatando episódios verídicos e pitorescos “causos”, a que não faltam a fantasia criadora e o conhecimento linguístico, armazenado em sua longa e frutífera existência.
Jornalista, membro do Instituto Histórico e de várias Academias de Letras, estudioso de provérbios populares e dos topônimos tupis, dos quais fez até um dicionário, ele é também biógrafo de pessoas e lugares em sua coluna semanal de A Tribuna. Niterói. Porém, um dos títulos talvez de que mais ele se orgulhe é o de ser Membro do Calçadão da Cultura do Grupo Mônaco, do Carlos Mônaco da Livraria, além de possuir a carteira nº 1 da Sociedade Fluminense de Fotografia.
Tendo vivido muito tempo no Japão, trabalhou na rádio de Tóquio e publicou, em 1940, o primeiro livro de um poeta brasileiro no idioma nipônico. Com saberes, tão múltiplos e profundos, é verbete da Enciclopédia Delta-Larousse. Colecionador de lembranças, revela, em livros, artigos, fotos e entrevistas até na televisão, a memória nacional e do Estado do Rio de Janeiro. Quem quiser saber algo do passado, logo procura o grande mestre Pimentel.
Por ser dono deste dom, Pimentel lembra um Arconte, aquele dignitário da antiga Grécia, respeitado pela comunidade, preservador e intérprete dos documentos e das leis da pólis. Arconte tem a mesma raiz de “arqueologia”, de “arquivo”, de “arcano” e de “arqueiro”. De fato, Luís Antônio Pimentel, o verdadeiro Arconte de Niterói, é o arquivo vivo da cidade.
Na efervescência das coisas, lá está ele na arkhé, ou seja, nos fundamentos dos fatos, para reconstituir os laços esfiapados da memória coletiva. Submerge nos arcanos da tradição e de lá retorna iluminado. E, com a mestria de um arqueiro, o Arconte Pimentel lança o arco da aliança do passado cultural às gerações futuras.
(Publicado em O Correio, edição “Aposentadoria, em 15 de setembro de 2002, na qual o Poeta-Arconte Luís Antônio Pimentel figurou na capa do jornal, com sua máquina Nikon e seu sorriso, sempre jovem e brejeiro, clicando certamente uma cena cultural de Niterói.)
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«Contra o fechamento da Livraria Camões»:
Não considero apenas a demolidora frase de Arlete, meu retorno intempestivo, o óleo no asfalto, a árvore à beira da estrada. Há um sem-número de outros cacos formando este mosaico. Afinal, nada acontece por acaso nem deve ser olhado isoladamente. A árvore, por exemplo. Quando a plantaram, semente ainda, já estava destinada a me proporcionar este momento paradoxal, misto de agonia e paz. Quantas vezes passei por ela, em idas e vindas, sem jamais imaginar tal desfecho. Impávida no descampado, copa farta de galhos e folhas, tronco robusto, solidamente fincada ao solo por uma teia de raízes, esperou-me pacientemente. Se Arlete não me tivesse dito o que disse, a esta hora eu estaria ao seu lado. Se as palavras inexistissem, tudo teria sido diferente entre mim e Arlete. Mas há o verbo, maldito seja. Mais um pouco, a árvore ficaria para trás e um gramado razoavelmente regular acolheria o automóvel quando, ziguezagueante, ele deixou a estrada. Minha decisão de abandonar a casa pela madrugada, sob o impacto do comentário ferino de Arlete, sem dúvida contribuiu para o acontecido. Não fosse o lusco-fusco do amanhecer, com certeza eu teria percebido a mancha amarelada no asfalto, óleo recém-trocado, conforme pude ouvir de alguém neste atropelo de vozes aflitas: “Meu Deus, que horror!”, “Afaste as crianças, leve daqui as crianças”. “O celular... o celular...”Ai, meu Deus!” “Alguém sabe o número? ” Mais uns centímetros, temo, a lâmina espetada em meu peito tornar-se-á mortífera. Essa gente há de estranhar meu sorriso. Acho graça da mesóclise. “O momento não se presta a firulas gramaticais”, Arlete diria se aqui estivesse e lhe fosse possível intrometer-se em meu pensamento. Arlete, Arlete... Da cintura para baixo, sinto meu corpo amortecido. Agora sim, querida Arlete, com certeza já não sou o mesmo. Rompendo o último fio a nos unir, ela dissera isso exatamente, logo após eu havê-la feito gozar como nunca. De início pareceu-me zombaria, mas aqui, preso às ferragens, lembro-me de que o olhar de Arlete se mostrava opaco. Naquele instante, desfizemos nosso pacto de convivência. Sinto cheiro de sangue, de resina e do perfume favorito de Arlete. “Ligou para os bombeiros?” “Deus do céu!” “Pra Polícia Rodoviária, ligou?” “Já não lhe disse para afastar as crianças?” Estranhamente, nunca estive tão lúcido. Meu relacionamento com Arlete, muitas vezes nebuloso, se aclarou por inteiro. Não há dúvida, foram elas, as palavras, as responsáveis pelos abismos, pelos tantos desencontros. Desde o primeiro instante, Arlete delas se valeu para fustigar-me. Qual exímio espadachim, ela sempre soube o momento certo de investir. E foram muitos lanhos, muitas cicatrizes nesses dez anos de estocadas. A lâmina em meu peito materializa o golpe derradeiro. Arlete, Arlete... Nossos momentos felizes foram silenciosos. Instintivamente, estabelecemos um pacto de convivência repleto de olhares. Os olhos de Arlete, ao contrário de seus lábios, nutriam-me o ego. “Você já não é o mesmo”. Quando me lançou esse dardo, ainda extenuada pelo gozo, busquei em seus olhos o desmentido, mas vi uma nuvem neles. Os patrulheiros chegaram primeiro. Ouço o freio de suas viaturas, as batidas das portas, os passos ligeiros. Conheci Arlete berrando palavras de ordem numa passeata. Saídas de sua boca, pareciam punhais, setas certeiras, inteiramente apropriadas à ocasião. Com o tempo, descobri que as armas verbais de Arlete independiam de manifestações cívicas. Arlete, Arlete... Relembro sua sentença, seu olhar opaco, minha súbita decisão de abandonar a casa de campo madrugada ainda. As luzes difusas do amanhecer são enganosas, camuflam coisas, mostram o inexistente. Havia óleo na pista, vi um remendo no asfalto. Num instante, tudo se deu e aqui estou, entre as ferragens, uma lâmina-frase espetada no peito. Agora os bombeiros: “Isolem a área, tragam a motosserra, tomem cuidado, há uma lâmina no peito da vítima”. Veloz, meu pensamento viaja. Vai até quando conheci Arlete, mas não passa daí. Se tento ir além, ele retorna ao momento em que deixei a casa de campo. Quando quis saber as razões de ela esgrimir com palavras, Arlete pareceu meditar, mas a resposta veio vaga: “Talvez seja atávico...” Nesses anos todos, Arlete nunca me afagou com palavras, só seus olhos me fizeram carinho. Quando deles mais precisei, eles não brilharam. Passo a crer na falsidade deles. Olhos enganosos, plenos de desfaçatez. Sempre exerceram o dom de iludir. Acreditei neles, neles depositei todas as fichas, meu cacife de esperanças. Cúmplices de Arlete, bancaram o jogo e me deixaram de mãos vazias. Ai, essa pontada no peito e a sensação de haver um filete a escorrer dentro de mim. O barulho da motosserra rasgando as chapas metálicas, vozes distantes, imagens difusas. Por fim, uma névoa e um rosto de mulher. Cale-se, Arlete, e afaste de mim esse olhar.
(NETTO, Wanderlino Teixeira Leite. Arlete, Arlete. In: Beijo de língua. Rio de Janeiro: Editoração, 2007)