domingo, 22 de janeiro de 2012

"Como se faz um homem", excerto de A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector



Capa da primeira edição de A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector (Livraria Francisco Alves, 1961)


 Autógrafo de Clarice Lispector (acima, em vermelho) e de Antônio Carlos Jobim (abaixo, em azul),  num exemplar da primeira edição de A Maçã no Escuro,
acervo da biblioteca pessoal de Roberto Kahlmeyer-Mertens



Primeira parte: Como se faz um homem





                                                                                                                        Clarice Lispector,
                                                                                                                         por Giorgio Di Chirico




1
Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranqüilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu. Até que mais profundamente tarde também a lua desapareceu.
Nada agora diferenciava o sono de Martim do lento jardim sem lua: quando um homem dormia tão no fundo passava a não ser mais do que aquela árvore de pé ou o pulo do sapo no escuro.
Algumas árvores haviam ali crescido com enraizado vagar até atingir o alto das próprias copas e o limite de seu destino. Outras já haviam saído da terra em bruscos tufos. Os canteiros tinham uma ordem que procurava concentradamente servir a uma simetria. Se esta era discernível do alto da sacada do grande hotel, uma pessoa estando ao nível dos canteiros não descobria essa ordem; entre os canteiros o caminho se pormenorizava em pequenas pedras talhadas.
Sobretudo numa das alamedas o Ford estava parado há tanto tempo que já fazia parte do grande jardim entrelaçado e de seu silêncio.
No entanto, de dia a paisagem era outra, e os grilos vibrando ocos e duros deixavam a extensão inteiramente aberta, sem uma sombra. Enquanto o cheiro era o seco cheiro de pedra exasperada que o dia tem no campo. Ainda nesse mesmo dia Martim ficara de pé na sacada procurando, com inútil obediência, não perder nada do que se passava. Mas o que se passava não era muito: antes de começar a estrada que se perdia em suspensa poeira de sol, apenas o jardim nada mais que contemplável; compreensível e simétrico do alto da sacada; emaranhado quando se fazia parte dele — e esta lembrança o homem há duas semanas guardava nos pés com aplicação cuidadosa, conservando-a para um uso eventual. Por mais atenção, no entanto, o dia era inescalável; e como um ponto desenhado sobre o mesmo ponto, a voz do grilo era o próprio corpo do grilo, e nada informava. A única vantagem do dia é que na extrema luz o carro se tornava um pequeno besouro que facilmente alcançaria a estrada.
Mas enquanto o homem dormia o carro se tornava enorme como é gigantesca uma máquina parada. E de noite o jardim era ocupado pela secreta urdidura com que o escuro se mantém, num trabalho cuja existência os vaga-lumes inesperadamente traem; certa umidade também denunciava o labor. E a noite era um elemento em que a vida, por se tornar estranha, era reconhecível.

[...]

Dentro do silêncio de novo intacto, o homem agora olhou estupidamente o teto invisível que no escuro era tão alto quanto o céu. Largado de costas na cama, tentou num esforço de prazer gratuito reconstituir o ruído das rodas, pois enquanto não sentia dor era de um modo geral prazer que ele sentia. Da cama não via o jardim. Um pouco de bruma entrava pelas venezianas abertas, o que se denunciou ao homem pelo cheiro de algodão úmido e por uma certa ânsia física de felicidade que a cerração dá. Fora apenas um sonho, então. Cético, embora, ele se ergueu.
Nas trevas nada viu da sacada, e nem sequer adivinhou a simetria dos canteiros. Algumas manchas mais negras que o próprio negrume indicaram o provável lugar das árvores. O jardim não passava ainda de um esforço de sua memória, e o homem olhou quieto, adormecido. Um ou outro vaga-lume tornava mais vasta a escuridão.
Esquecido do sonho que o guiara até a sacada, o corpo do homem achou bom se sentir saudavelmente de pé: é que o ar suspenso mal alterava a escura posição das folhas. Ali, pois, deixou-se ficar, dócil, atordoado, com a sucessão de quartos desocupados atrás de si. Sem emoção aqueles quartos vazios repetiam-no e repetiam-no até se apagarem aonde o homem já não se alcançava mais. Martim suspirou dentro de seu largo sono acordado. Sem insistir demais, tentou atingir a noção dos últimos quartos como se ele próprio se tivesse tornado grande demais e espalhado, e, por algum motivo que já esquecera, precisasse obscuramente se recolher para talvez pensar ou sentir. Mas não conseguiu, e estava muito aprazível. Assim ele ficou, com o ar cortês de um homem que levou uma pancada na cabeça. Até que — como quando um relógio pára de bater e só então nos adverte que antes batia — Martim percebeu o silêncio e dentro do silêncio a sua própria presença. Agora, através de uma incompreensão muito familiar, o homem começou enfim a ser indistintamente ele mesmo.
Então as coisas passaram a se reorganizar a partir dele próprio: trevas foram sendo entendidas, ramos começaram lentamente a se formar sob o balcão, sombras se dividiram em flores ainda irresolutas — com os limites ocultos pelo viço imóvel das plantas, os canteiros se delinearam cheios, macios. O homem grunhiu aprovando: com certa dificuldade acabara de reconhecer o jardim que nessas duas semanas de sono constituíra em intervalos a sua irredutível visão.
Foi nesse momento que uma lua desfalecida perpassou uma nuvem em grande silêncio, em silêncio derramou-se sobre pedras calmas, desaparecendo em silêncio na escuridão. A cara enluarada do homem se dirigiu então para a alameda onde o Ford estaria imóvel.
Mas o carro desaparecera.
O corpo inteiro do homem subitamente despertou. Num relance astuto seus olhos percorreram a escuridão toda do jardim — e, sem um gesto de aviso, ele se virou para o quarto em leve pulo de macaco.
Nada porém se mexia no oco do aposento que de escuro se tornara enorme. O homem ficou resfolegando atento e inutilmente feroz, com as mãos avançadas para o ataque. Mas o silêncio do hotel era o mesmo da noite. E sem limites visíveis, o quarto prolongava no mesmo exalar-se a escuridão do jardim. Para se despertar o homem esfregou várias vezes os olhos com o dorso de uma das mãos enquanto deixava a outra livre para a defesa. Foi inútil sua nova sensibilidade: nas trevas os olhos totalmente abertos não viram sequer as paredes.
Era como se o tivessem depositado solto num campo. E enfim ele acordasse de um longo sonho do qual haviam feito parte um hotel agora desmanchado num chão vazio, um carro apenas imaginado pelo desejo, e sobretudo tivessem desaparecido os motivos de um homem estar todo expectante num lugar que também este era expectativa.
De real só lhe restou a sagacidade que o fizera dar um pulo para indistintamente se defender. A mesma que o levava agora a raciocinar com inesperada lucidez que se o alemão tivesse ido denunciá-lo levaria algum tempo para ir e voltar com a Polícia.
O que ainda o deixava temporariamente livre — a menos que o criado tivesse sido encarregado de vigiá-lo. E nesse caso o criado, se o era, estaria neste mesmo instante à porta daquele mesmo quarto com o ouvido atento ao menor movimento do hóspede.
Assim pensou ele. E findo o raciocínio, ao qual chegara com a maleabilidade com que um invertebrado se torna menor para deslizar, Martim mergulhou de novo na mesma ausência anterior de razões e na mesma obtusa imparcialidade, como se nada tivesse a ver consigo mesmo, e a espécie se encarregasse dele. Sem um olhar para trás, guiado por uma escorregadia destreza de movimentos, começou a descer pela sacada apoiando pés inesperadamente flexíveis na saliência dos tijolos. Na sua atenta remotidão o homem sentia perto da cara o cheiro malévolo das heras quebradas como se nunca o fosse esquecer. Sua alma agora apenas alerta não distinguia o que era ou não importante, e a toda operação ele deu a mesma consideração escrupulosa.
Num pulo macio, que fez o jardim asfixiar-se em suspiro retido, ele se achou em pleno centro de um canteiro — que se arrepiou todo e depois se fechou. Com o corpo advertido o homem esperou que a mensagem de seu pulo fosse transmitida de secreto em secreto eco até se transformar em longínquo silêncio; seu baque terminou se espraiando nas encostas de alguma montanha. Ninguém ensinara ao homem essa conivência com o que se passa de noite, mas um corpo sabe.
Ele esperou um pouco mais. Até que nada aconteceu. Só então tateou com minúcia os óculos no bolso: estavam inteiros. Suspirou com cuidado e finalmente olhou em torno. A noite era de uma grande e escura delicadeza.

(LISPECTOR, Clarice. A Maçã no Escuro. Rio de Janeiro - São Paulo -  Belo Horizonte: Francisco Alves, 1961, p. 11-17)


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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

"Imortais", três pequenas crônicas de Carlos Rosa Moreira





Imortais

                                                                                                                              Carlos Rosa Moreira

Não havia nada nas noites daquela cidadezinha. Eu voltava para o hotel quando o celular tocou e me deram a notícia. Foi ruim, um momento terrível, mas, que jeito? Ainda caminhei uns passos, então lembrei de convidá-lo para tomar uma cerveja. Tinha um pequeno boteco, o único ainda aberto, mas Osmar aceitou na hora.

─ Uma cerveja e dois copos ─ pedi ao rapaz do boteco.

─ Dois copos?

─ É, dois copos.

A cerveja veio e servi o Osmar e a mim do jeito que gostamos, com um bom colarinho. Ele puxou o cigarro de sempre; eu peguei um charuto.

─ Você tem que fumar um desses, Osmar. Pelo menos, não traga.

─ Bobagem, prefiro os meus ─ e terminou a frase com uma tosse daquelas.

Então conversamos sobre velhas coisas, as coisas das quais ele mais gostava. Falamos de comida de boteco, de roça e sertão, do bem que a chuva mansa faz às folhagens, do perfume das leiras ao cair a tarde, dos nossos filhos. Cheguei a iniciar uma conversa sobre assombração, mas não seria de bom tom. Um bêbado tentou sentar na cadeira do Osmar.

─ Eh! Sai pra lá, meu chapa, não tá vendo o meu amigo aí, pô!

O bêbado arregalou os olhos para mim e saiu de banda.

Osmar e eu ainda conversamos muito. Só fomos embora porque o boteco fechou. Ele me levou até o hotel e depois sumiu na noite das calçadas. Foi um dia triste aquele, mas, pelo menos, passamos umas horas de conversa, né companheiro?
E temos conversado muito nesses “bares da vida”. Tem garçom que traz a cerveja preferida do Osmar antes de a gente pedir. Imagine quando estivermos juntos de vez, hein Osmar? Mas... será que vai ter cerveja?


***


Ah, meu caro Chico, hoje me lembrei de você. Você sabe, faz tempo que deixei as montanhas. Mas da última vez, na Travessia, você estava comigo, não estava? Tenho certeza de que estava. Mas lembrei de você por outro motivo, foi por causa de uma loira que subiu as escadas na minha frente, num prédio aqui do centro da cidade. Chico, parecia aquela loira do Pão de Açúcar... Lembra? Foi na abertura da temporada de 1989, quando escalamos pelo Costão. Estávamos no “Jacó”, respirando um pouco, quando surgiu a loira. Passou por nós como o vento, pôs um pezinho aqui, outro ali, abriu spagat e, num átimo, transpôs aquela “escadinha” de pedra e sumiu escalando paredão acima. Nós ficamos embaixo, de bocas abertas com as cordas nas mãos, apreciando a técnica da loira e o espetáculo que o short largo ofereceu.
Depois daquele dia no Pão de Açúcar ainda subimos muitas montanhas. Subimos não, eu subi e encontrei você lá em cima no ar frio e cristalino que amamos. Faz tempo, Chico, que não pego uma trilha ou desafio um paredão, mas qualquer hora o encontro aí nas alturas, nessa relva baixa e perfumada onde as árvores não crescem e onde os riachos congelam no mês de julho. Qualquer hora, companheiro...


***

Roberto, amigo véio, hoje eu fui pro mar. Fazia tempo, rapaz. Chamei e esperei, mas você não apareceu. Ou estava lá e eu não vi? feito aqueles cações de Arraial que nadavam invisíveis entre a gente, lembra? Bons tempos, né Roberto? Hoje havia ondas perfeitas em Itacoá, mas a água estava tão clara que preferi ficar por aqui. Há três dias um sudoeste trouxe boas águas lá do oceano, “água roxa”, como gostamos. Refiz nossos percursos, atravessei os lajeados e depois me deitei naquela pedra lisa da ilha. Havia tainhas na superfície e badejos no fundo, mas eu só desejava nadar. Puxei assunto com você na pedra, como fazíamos ao retornar dos mergulhos, mas você não respondeu. Um solitário pescador de linha chegou a se assustar comigo, pois eu falava, falava e ria muito de uns fatos engraçados acontecidos com os nossos amigos. Acho que você estava lá, meio emburrado e quieto daquele seu jeito. Depois parei de falar e fiquei admirando o mar. A gente vai, Roberto, e nada muda. Tinha aquela brisa mansa soprando de sul, e na ponta da Fortaleza o espumeiro de sempre, formado pelas ondas desse vento calmo. O perfume da maresia enchia os pulmões, ah... como é bom o cheiro de mar! Tem mar aí, Roberto?




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domingo, 15 de janeiro de 2012

"Pimentel: o Arconte da memória fluminense", por Dalma Nascimento

O que mais dizer de Pimentel depois do texto da professora Dalma?...


Luís Antônio Pimentel ao lado de Carlos Monaco durante a homenagem do Giro Cultural,
promovida pela Imprensa Oficial do Rio de Janeiro e do Grupo Mônaco de Cultura.
(Foto de Alberto Araújo)



                                                                                                                                  Dalma Nascimento

Luís Antônio Pimentel, escritor fluminense, desmente a etimologia da palavra “aposentado”, aquele que “fica no aposento”, recluso do mundo. Nunca se acomodou na cadeira de balanço, de chinelos e pijama, a olhar pela janela, igual à Carolina da música, nem fica vendo a banda passar. Sorrindo à vida no alto de seus noventa anos, está continuamente aberto à beleza do amor, aos signos modernos e jamais abandona a sua máquina fotográfica Nikon, ou o seu pequeno gravador, aliado à eterna inspiração de versejar. E muito bem!
Com seu lúcido olhar de Poeta dos maiores tons em muitos livros de vários temas e estilos publicados, Pimentel integrou-se à paisagem cultural de Niterói. Sempre no fluxo dos acontecimentos memoráveis lá está ele, capturando, com as lentes da sua objetiva, flashes do cotidiano, e relatando episódios verídicos e pitorescos “causos”, a que não faltam a fantasia criadora e o conhecimento linguístico, armazenado em sua longa e frutífera existência.
Jornalista, membro do Instituto Histórico e de várias Academias de Letras, estudioso de provérbios populares e dos topônimos tupis, dos quais fez até um dicionário, ele é também biógrafo de pessoas e lugares em sua coluna semanal de A Tribuna. Niterói. Porém, um dos títulos talvez de que mais ele se orgulhe é o de ser Membro do Calçadão da Cultura do Grupo Mônaco, do Carlos Mônaco da Livraria, além de possuir a carteira nº 1 da Sociedade Fluminense de Fotografia.
Tendo vivido muito tempo no Japão, trabalhou na rádio de Tóquio e publicou, em 1940, o primeiro livro de um poeta brasileiro no idioma nipônico. Com saberes, tão múltiplos e profundos, é verbete da Enciclopédia Delta-Larousse. Colecionador de lembranças, revela, em livros, artigos, fotos e entrevistas até na televisão, a memória nacional e do Estado do Rio de Janeiro. Quem quiser saber algo do passado, logo procura o grande mestre Pimentel.
Por ser dono deste dom, Pimentel lembra um Arconte, aquele dignitário da antiga Grécia, respeitado pela comunidade, preservador e intérprete dos documentos e das leis da pólis. Arconte tem a mesma raiz de “arqueologia”, de “arquivo”, de “arcano” e de “arqueiro”. De fato, Luís Antônio Pimentel, o verdadeiro Arconte de Niterói, é o arquivo vivo da cidade.
Na efervescência das coisas, lá está ele na arkhé, ou seja, nos fundamentos dos fatos, para reconstituir os laços esfiapados da memória coletiva. Submerge nos arcanos da tradição e de lá retorna iluminado. E, com a mestria de um arqueiro, o Arconte Pimentel  lança o arco da aliança do passado cultural às gerações futuras.

(Publicado em O Correio, edição “Aposentadoria, em 15 de setembro de 2002, na qual o Poeta-Arconte Luís Antônio Pimentel figurou na capa do jornal, com sua máquina Nikon e seu sorriso, sempre jovem e brejeiro, clicando certamente uma cena cultural de Niterói.)



 
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Abaixo existe um texto que pode copiar e colar
em sua própria mensagem de email,
para ajudar a divulgar o abaixo-assinado
«Contra o fechamento da Livraria Camões»:



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

"Arlete, Arlete..." Conto de Wanderlino Teixeira Leite Netto





Arlete, Arlete...



                                                                                                      Wanderlino Teixeira Leite Netto

Não considero apenas a demolidora frase de Arlete, meu retorno intempestivo, o óleo no asfalto, a árvore à beira da estrada. Há um sem-número de outros cacos formando este mosaico. Afinal, nada acontece por acaso nem deve ser olhado isoladamente. A árvore, por exemplo. Quando a plantaram, semente ainda, já estava destinada a me proporcionar este momento paradoxal, misto de agonia e paz. Quantas vezes passei por ela, em idas e vindas, sem jamais imaginar tal desfecho. Impávida no descampado, copa farta de galhos e folhas, tronco robusto, solidamente fincada ao solo por uma teia de raízes, esperou-me pacientemente. Se Arlete não me tivesse dito o que disse, a esta hora eu estaria ao seu lado. Se as palavras inexistissem, tudo teria sido diferente entre mim e Arlete. Mas há o verbo, maldito seja. Mais um pouco, a árvore ficaria para trás e um gramado razoavelmente regular acolheria o automóvel quando, ziguezagueante, ele deixou a estrada. Minha decisão de abandonar a casa pela madrugada, sob o impacto do comentário ferino de Arlete, sem dúvida contribuiu para o acontecido. Não fosse o lusco-fusco do amanhecer, com certeza eu teria percebido a mancha amarelada no asfalto, óleo recém-trocado, conforme pude ouvir de alguém neste atropelo de vozes aflitas: “Meu Deus, que horror!”, “Afaste as crianças, leve daqui as crianças”. “O celular... o celular...”Ai, meu Deus!” “Alguém sabe o número? ” Mais uns centímetros, temo, a lâmina espetada em meu peito tornar-se-á mortífera. Essa gente há de estranhar meu sorriso. Acho graça da mesóclise. “O momento não se presta a firulas gramaticais”, Arlete diria se aqui estivesse e lhe fosse possível intrometer-se em meu pensamento. Arlete, Arlete... Da cintura para baixo, sinto meu corpo amortecido. Agora sim, querida Arlete, com certeza já não sou o mesmo. Rompendo o último fio a nos unir, ela dissera isso exatamente, logo após eu havê-la feito gozar como nunca. De início pareceu-me zombaria, mas aqui, preso às ferragens, lembro-me de que o olhar de Arlete se mostrava opaco. Naquele instante, desfizemos nosso pacto de convivência. Sinto cheiro de sangue, de resina e do perfume favorito de Arlete. “Ligou para os bombeiros?” “Deus do céu!” “Pra Polícia Rodoviária, ligou?” “Já não lhe disse para afastar as crianças?” Estranhamente, nunca estive tão lúcido. Meu relacionamento com Arlete, muitas vezes nebuloso, se aclarou por inteiro. Não há dúvida, foram elas, as palavras, as responsáveis pelos abismos, pelos tantos desencontros. Desde o primeiro instante, Arlete delas se valeu para fustigar-me. Qual exímio espadachim, ela sempre soube o momento certo de investir. E foram muitos lanhos, muitas cicatrizes nesses dez anos de estocadas. A lâmina em meu peito materializa o golpe derradeiro. Arlete, Arlete... Nossos momentos felizes foram silenciosos. Instintivamente, estabelecemos um pacto de convivência repleto de olhares. Os olhos de Arlete, ao contrário de seus lábios, nutriam-me o ego. “Você já não é o mesmo”. Quando me lançou esse dardo, ainda extenuada pelo gozo, busquei em seus olhos o desmentido, mas vi uma nuvem neles. Os patrulheiros chegaram primeiro. Ouço o freio de suas viaturas, as batidas das portas, os passos ligeiros. Conheci Arlete berrando palavras de ordem numa passeata. Saídas de sua boca, pareciam punhais, setas certeiras, inteiramente apropriadas à ocasião. Com o tempo, descobri que as armas verbais de Arlete independiam de manifestações cívicas. Arlete, Arlete... Relembro sua sentença, seu olhar opaco, minha súbita decisão de abandonar a casa de campo madrugada ainda. As luzes difusas do amanhecer são enganosas, camuflam coisas, mostram o inexistente. Havia óleo na pista, vi um remendo no asfalto. Num instante, tudo se deu e aqui estou, entre as ferragens, uma lâmina-frase espetada no peito. Agora os bombeiros: “Isolem a área, tragam a motosserra, tomem cuidado, há uma lâmina no peito da vítima”. Veloz, meu pensamento viaja. Vai até quando conheci Arlete, mas não passa daí. Se tento ir além, ele retorna ao momento em que deixei a casa de campo. Quando quis saber as razões de ela esgrimir com palavras, Arlete pareceu meditar, mas a resposta veio vaga: “Talvez seja atávico...” Nesses anos todos, Arlete nunca me afagou com palavras, só seus olhos me fizeram carinho. Quando deles mais precisei, eles não brilharam. Passo a crer na falsidade deles. Olhos enganosos, plenos de desfaçatez. Sempre exerceram o dom de iludir. Acreditei neles, neles depositei todas as fichas, meu cacife de esperanças. Cúmplices de Arlete, bancaram o jogo e me deixaram de mãos vazias. Ai, essa pontada no peito e a sensação de haver um filete a escorrer dentro de mim. O barulho da motosserra rasgando as chapas metálicas, vozes distantes, imagens difusas. Por fim, uma névoa e um rosto de mulher. Cale-se, Arlete, e afaste de mim esse olhar.

(NETTO, Wanderlino Teixeira Leite. Arlete, Arlete. In: Beijo de língua. Rio de Janeiro: Editoração, 2007)





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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O poeta Marco Aurélio Mello Reis segundo Emmanuel de Macedo Soares




Um poeta de Niterói


                                                               Emmanuel de Macedo Soares

Marco Aurélio Mello Reis é um poeta de Niterói, um niteroiense da Mem de Sá, que estudou no Liceu, curtiu a praça da República e a praia de Icaraí, andou nas barcas da Cantareira e depois foi percorrer os caminhos do mundo, à procura de um caminho.
Encontrou a poesia, que na incoerência de todas as buscas acaba sendo a única coerência de todos os achados.
Não a tece para ser exibida, mas para ser presença nitidamente demarcada com linhas fortes na nossa literatura contemporânea, e esse espaço já lhe foi assegurado pelo juízo dos mestres, de Tristão de Ataíde a Pedro Nava, de Dom Marcos Barbosa a Antônio Carlos Vilaça, de Drummond a Odylo Costa, filho.
E não se trata de manifestações reticentes ou gentis de poeta para poeta, mas de afirmativas que muito concretamente reconhecem e proclamam a perícia e sensibilidade de Marco Aurélio no trato da palavra, de cada uma delas.
Às vezes chega a fazê-lo de forma tão propositadamente lúdica que joga de repente no verso uns jardineiros topiários, umas sáxeas telas, umas serranas saxifragáceas ou umas magias seminíferas, simplesmente para vê-lo resistir ao desafio e continuar fluindo livre e solto, sem perda do metro ou da beleza.
Coisa de mestre que bem conhece cada peça que manipula, e não foi à toa que o bom e indispensável Drummond, tão avaro no dizer e mais ainda no elogiar, se permitiu abrir exceção para este niteroiense da Mem de Sá:

Estou dividido entre duas emoções: a de quem recebe um fino presente e a de quem imerge numa corrente de poesia de grande pureza, em que tudo é essencial e nada se mostra com ostentação, brilho, rumor. O tom velado, mas seguro, de cada poema, lembra música surdinada que se dirige mais à alma que aos ouvidos. E tudo se passa num diálogo discretíssimo entre poeta e leitor, como se aquele não quisesse ser escutado por mais ninguém, e só na confidência se manifestasse toda a sua riqueza. Guardei uma profunda e delicada impressão desses poemas reunidos, de alguém que não aspira à popularidade, pois se compraz no simples e constante exercício da poesia, sem esquecer, antes celebrando-a, e amando-a, a obra de outros poetas.

Não há precisão de mais dizer, e aqui vos deixo com um pouco da poesia de Marco Aurélio Mello Reis.


SONETINHO DO AMOR TECELÃO

Tenho um amor para dar,
amor tão forte e tão puro,
que certo ainda o darei
àquela que não procuro

Tenho um amor para dar,
dentro do peito tecido,
que há de ser como uma rede
de fio fino e macio,

para nele se enredar
o amor que um dia vier
como a surpresa da vida.

Meu amor, como um tear,
tece o fio do viver
nesse fio de esperar...



O MEU MENINO

Só um menino me importa,
entre todos os meninos:
não aquele que eu não tive,
mas aquele que eu não fui.

Sentir de nada adianta.
O que adiante é sentir-se.
E eu sinto, mas não me sinto
vendo os meninos que brincam.

Eis o tempo a confundir-se,
na pergunta do que sou:
sou o menino que não fui
no menino que ainda sou.



VISÃO

Surpresa para o olhar,
tua visão visitou-me:
levei tempo a pensar
no que o tempo levou-me.

Mesmo o jeito de estar
em ti, assim como estou-me.
Mesmo o ar de sonhar
de quando mais amou-me.

Mas como foi não vi
claro teu rosto escuro
de não estar aqui.

E estava eu no jardim
e pensava no puro
antigamente mim.



ORAÇÃO POR JOAQUIM CARDOZO

Senhor, o servo Joaquim
andou no mundo a buscar
arco ou poema que unisse
vossos mundos paralelos.

Andou no mundo a medir
as fundadas estruturas
que permitissem nas formas
(nas formas, como na vida)

o convívio dos contrários:
firme amarração no verso,
gesto de asa no concreto.

Senhor, o servo Joaquim
alto poeta e engenheiro
é homem de universais
e nordestinas virtudes.

Se andou no mundo tão só,
teve o coração varado
pela sorte de seu povo...
Uma grande dor sentiu!

Senhor, inclinai a fronte,
e ouvi atento esta prece,
agora que se aproxima
a hora entre todas dúbia
de vosso servo Joaquim
noitemente amanhecer.







sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Rosa & Rebel: Começando 2012 bem-humorado.



Em meio às azáfamas do fim de ano, estive por várias vezes com Sandro Rebel em eventos literários. Em tempo, é preciso dizer que o “escritor Rebel” não é um personagem criado por mim para dinamizar o Literatura-Vivência (quem sabe uma figura fictícia, como o “delegado Palhares”, frequente nos contos de Nelson Rodrigues, ou o Agamenon Mendes Pedreira, da coluna de O Globo). Sandro Pereira Rebel existe, e exerce sobre mim e o blog um efeito de voz da consciência... Da última vez que estivemos juntos ele me falou:
“ – Roberto, o blog vai muito bem, está muito bom... mas não descuide do humor, Roberto. – Não deixe que a literatura humorada fique de fora, não deixe.”
Após este aconselhamento – que soou para mim como sentenças solenes de um bonzo tibetano – fiquei pensando como fazer constar a literatura e o humor no blog. Pensei em usar algo do Stanislaw Ponte Preta, quem sabe algo da genial Roda do Café Paris, lembrei que tantas vezes já me servi de José Cândido de Carvalho... Ao me lembrar do campista Zé Cândido (per analogiam ao campista Rebel), fui assaltado pela lembrança de minha última ida a Campos dos Goytacazes - RJ, lembrei-me da cordialidade do povo goitacá (somente equiparável à hospitalidade sóbria do mineiro). Em meu “brainstorming”, então, houve uma triangulação súbita (dessas que apenas o fenomenólogo Edmund Husserl saberia explicar) e eu acabei por recordar de um escrito do mineiro Guimarães Rosa, texto lido por mim em 1996... (vejam só como o pensamento foi longe!).
“Aletria e hermenêutica” é prefácio de Tutameia. Postando no blog este prefácio, que funciona autonomamente bem, cumprimos a prazenteira missão de trazer a prosa “humorada” para o Literatura-Vivência. Se verdade (como nos diz René Descartes, lá no seu Discurso do Método) que a palavra escrita nos propicia conversar com as melhores mentes que a Humanidade já produziu, então ouvir/ler Guimarães Rosa com suas gagues deve ser uma boa maneira de começar 2012.

Esta é para você, Rebel!


 Guimarães Rosa no traço de Baptistão



Aletria e hermenêutica


A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota.
A anedota, pela etimologia e para a finalidade, requer fechado ineditismo. Uma anedota é como um fósforo: riscado, deflagrado, foi-se a serventia. As sirva talvez ainda a outro emprego a já usada, qual mão de indução ou por exemplo instrumento de análise, nos tratos da poesia e da transcendência. Nem será sem razão que a palavra “graça” guarde os sentido de gracejo, de dom sobrenatural, e de atrativo. No terreno do humour, imenso em confins vários, pressentem-se mui hábeis pontos e caminhos. E que, na prática de arte, comicidade e humorismo atuem como catalisadores ou sensibilizantes ao alegórico espiritual e ao não-prosaico, é verdade que se confere de modo grande. Risada e meia? Acerte-se nisso em Chaplin e em Cervantes. Não é o chiste rasa coisa ordinária: tanto seja porque escancha os planos da lógica, propondo-nos realidade superior e dimensões para mágicos novos sistemas de pensamento.
Não que dê toda anedota evidência de fácil prestar-se àquela ordem de desempenhos: donde, e como naturalmente elas se arranjam em categorias ou tipos certos, quem sabe conviria primeiro que a respeito se tentasse qualquer razoável classificação. E há que, numa separação mal debuxada, caberia desde logo série assaz sugestiva - demais que já de si o drolático responde ao mental e ao abstrato - a qual, a grosso, de cômodo e até que lhe venha nome apropriado, perdoe talvez chamar-se de: anedotas de abstração.
Serão essas – as com alguma coisa excepta – as de pronta valia no que aqui se quer tirar: seja, o leite que a vaca não prometeu.
Talvez porque mais direto colindem com o não-senso, a ele afins: e o não-senso, crê-se, reflete por um triz a coerência do mistério geral, que nos envolve e cria. A vida também é para ser lida. Não literalmente, mas em seu supra-senso. E a gente, por enquanto, só a lê por tortas linhas. Está-se a achar que se ri. Veja-se Platão, que nos dá o “Mito da Caverna”.
Siga-se, para ver, o conhecidíssimo figurante, que anda pela rua, empurrando sua carrocinha de pão, quando alguém lhe grita: “ – Manuel, corre a Niterói, tua mulher está feito louca, tua casa está pegando fogo!...” Larga o herói a carrocinha, corre, voa, vai, toma a barca, atravessa a Baía quase... e exclama : “ – Que diabo! eu não me chamo Manuel, não moro em Niterói, não sou casado e não tenho casa...”
Agora, ponha-se em frio exame a estorieta, sangrada de todo burlesco, e tem-se uma fórmula à Kafka, o esqueleto algébrico ou tema nuclear de um romance kafkaesco por ora não ainda escrito.
De análogo pathos, balizando posição-limite da irrealidade existencial ou de estática angústia – e denunciando ao mesmo tempo a goma-arábica da língua quotidiana ou círculo-de-giz-de-prender-peru – será aquela do cidadão que viajava de bonde, passageiro único, em dia de chuva, e como estivesse justo sentado debaixo de goteira, perguntou-lhe o condutor por que não trocava de lugar. Ao que, inerme, humano, inerte, ele respondeu: “ – Trocar... com quem?”
Menos ou mais o mesmo, em ethos negativo, verseja-se na copla:

“Esta si que es calle, calle;
calle de valor y miedo,
Quiero entrar y no me dejan,
quiero salir y no puedo.”

Movente importante símbolo, porém, exprimindo possivelmente – e de modo novo original – a busca de Deus (ou de algum Éden pré-prisco, ou da restituição de qualquer de nós à invulnerabilidade e plenitude primordiais) é o caso do garotinho, que, perdido, na multidão, na praça, em festa de quermesse, se aproxima de um polícia e, choramingando indaga: “ – Seo guarda, o sr. não viu um homem e uma mulher sem um meninozinho assim como eu?!”
Entretanto – e isso concerne com a concepção hegeliana do erro absoluto? – aguda solução foi a de que se valeu o inglês, desesperado já com as sucessivas falsas ligações que o telefone lhe perpetrava : “ – Telefonista, dê-me, por favor, um “número errado” errado...”
Sintetiza em si, porém, próprio geral, o mecanismo dos mitos – sua formulação sensificadora e concretizante, de malhas para captar o incogniscível – a maneira de um sujeito procurar explicar o que é o telégrafo-sem-fio: “ – Imagine um cachorro basset, tão comprido, que a cabeça está no Rio e aponta do rabo em Minas. Se se belisca a ponta do rabo, em Minas, a cabeça, no Rio, pega a latir...”
“ – E é isso o telégrafo-sem-fio?”
“ – Não. Isso é o telégrafo com fio. O sem-fio é a mesma coisa ... mas sem o corpo do cachorro.”

Já de menos invenção – valendo por “fallacia non causae pro causa” e a ilustrar o: “ab absurdo sequitur quolibet”, em aras da Escolástica – é a facécia do diálogo; “ – Em escavações, no meu país, encontraram fios de cobre: prova de que os primitivos habitantes conheciam já o telégrafo...”
“ – Pois, no meu, em escavações não se encontrou fio nenhum. Prova de que, lá, pré-historicamente, já se usava o telégrafo sem fio.”
E destoa o tópico, para o elementar, transposto em escala de ingênua hilariedade, chocarrice, neste:

“ – Joãozinho, dê um exemplo de substantivo concreto.”
“ – Minhas calças, Professora.”
“ – E de abstrato?”
“ – As suas, Professora.”

Por aqui, porém, vai-se chegar perto do nada residual, por sequência de operações substrativas, nesta outra, que é uma definição “por extração” – “O nada é uma faca sem lâmina, da qual se tirou o cabo...” (Só que, o que assim se põe, é o argumento de Bergson contra a idéia do “nada absoluto”: “... porque a idéia do objeto “não existindo” é necessariamente a idéia do objeto “existindo”, acrescida da representação de uma exclusão desse objeto pela realidade atual tomada em bloco.” Trocado em miudo: esse “nada” seria apenas um ex-nada, produzido por uma ex-faca.) Ou – agora o motivo lúdico – fornece-nos outro menino, com sua também desitiva definição do “nada”: “ – É um balão, sem pele...”
E com isso está-se de volta à poesia, colhendo imagens de eliminação parcial, como exemplo à mão, as estrelas, que no “Soir Religieux” de Verhaeren:

“Semblent les feux de grands cierges, tenus en main,
Dont on n’aperçoit pas monter la tige immense.”


Ou total, como nesta “adivinha”, que propunha uma menina do sertão “ – O que é, o que é: que é melhor do que Deus, pior do que o diabo, que a gente morta come, e se a gente viva comer morre?” Resposta: “ – É nada.”
Ou seriada, como na universal estória dos “Dez pretinhos” (“Seven Little indians” ou “Ten little Nigger boys”; “Dix petits négrillons”; “Zwölf kleine Neger”) ou na quadra de Apporelly, citada de memória:
 
  "As minhas ceroulas novas,
Ceroulas das mais modernas,
Não tem cós, não tem cadaços,
Não têm botões e não tem pernas”.

E é provocativo movimento de parafrasear tais versos:

Comprei uns óculos novos,
óculos dos mais excelentes;
não têm aros, não têm asas,
não têm grau e não têm lentes...


Dissuada-se-nos porém de aplicar – por exame de sentir, balanço ou divertimento – a paráfrase a mais íntimos assuntos:

Meu amor é bem sincero,
Amor dos mais convincentes:
............(etc).
 


Com o que, pode o pilheriático efeito passar a drástico desilusionante. Como no fato do espartano – nos Apophthégmata lakoniká de Plutarco - que depenou um rouxinol e, achando-lhe pouca carne, xingou: “ – Você é uma voz, e mais nada!”
Assim atribui-se a Voltaire – que, outra hora, diz ser a mesma amiúde “o romance do espírito” – a estrafalária seguinte definição de “Metafísica”: “É um cego, com olhos vendados, num quarto escuro, procurando um gato preto ... que não está lá.”
Seja quem seja, apenas o autor da blague não imaginou é que o cego em tão pretas condições pode não achar o gato, que pensa que busca, mas topar resultado mais importante – para lá da tacteada concentração. E vê-se que nessa risca é que devem adiantar os koan do Zen.
E houve mesmo a áqüica e eficaz receita que o médico deu a cliente neurótico: “R. / Uso int. / Aqua fontis, 30 c.c. / Illa repetita, 20 c.c. / Eadem stillata, 100 c.c. / Nihil aliunde, q.s.” (E eliminou-se de propósito nesta versão o “Hidrogeni protoxis”, que figura noutras variantes).
Tudo portanto, o que em compensação vale é que as coisas não são em si tão simples, se bem que ilusórias. “O erro não existe: pois que enganar-se seria pensar ou dizer o que não é, isto é: não pensar nada, não dizer nada” – proclama genial Protágoras; nisto, Platão é do contra, querendo que o erro seja coisa positiva; aqui, porém, sejamos amigos de Platão, mas ainda mais amigos da verdade; pela qual, aliás, diga-se, luta-se ainda e muito, no pensamento grego.
Pois o próprio Apporelly, em vésparas da nacional e política desordem, costumava hastear o refrão:

“Há qualquer coisa no ar
Além dos aviões da Panair...”

Ainda, por azo da triunfal chegada ao Rio do aviador Sarmento de Beiles em raid transatlântico, estampou ele no “A Manha”... uma foto normal da Guanabara, Pão de Açúcar, sob legenda: “O Argos, à entrada da barra, quando ainda não se o via...” Mas um capítulo sobre o entusiasmo, a fé, a expectação criadora, podia epigrafar-se com a braba piada.
Deixemos vir os pequenos em geral notáveis intérpretes, convocando-os do livro “Criança diz cada uma!” de Pedro Bloch:

O TÚNEL. O menino cisma e pergunta: “– Por que será que sempre constroem um morro em cima de túneis?”

O TERRENO. Diante de uma casa em demolição, o menino observa: “– Olha, pai! Estão fazendo um terreno!”

O VIADUTO. A guriazinha de quatro anos olhou, do alto do viaduto do Chá, o Vale, e exclamou empolgada: – “Mamãe! Olha! Que buraco lindo!”

A RISADA. A menina – estavam de visita a um protético – repentinamente entrou na sala, com uma dentadura articulada, que descobrira em alguma prateleira – “Titia! Titia! Encontrei uma risada!”

O VERDADEIRO GATO. O menino explicava ao pai a morte do bichinho: “ – O gato saiu do gato, pai, e só ficou o corpo do gato”.

Recresce que o processo à vezes se aplica, prática e rapidamente, a bem da simplificação. Entra uma dama em loja:

“– Tem o Sr. pano para remendos?”

“– E de que cor são os buracos, minha senhora?”
Ao passo que a nada, ao “nada privativo”, teve aquele outro, anti-poeta, de reduzir a girafa, que passava da marca : “ – Você está vendo esse bicho aí? Pois ele não existe!...” – como recurso para sutilizar o excesso de existência dela, sobre o comum, desimaginável. Dissesse tal: – Isto é o-que-é que mais e demais há, do que nem não há...
Ora, porém, a idêntica niilificação enfática recorre Rilke, trazendo, de forte maneira, do imaginário aoreal, um ser fabuloso, que preexcede – o Licorne:

“Oh, este é o animal que não existe...” Todavia desdeixante rasgo dialético foi o do que, ao reencontrar velho amigo, que pedia-lhe o segredo da aparente e invariada mocidade, respondeu: - “Mulheres...” – e após suspensão e pausa : “ – Evito-as...!”
Tudo tal a “hipótese de trabalho”na estória dos soldados famintos que ensinavam à velha avarenta fazer a “Sopa de Pedra”. Mistura tambem a gente interina clara de ovo ao açúcar a limpar-se no tacho; e junta folhas de mamoeiro e bosta de vaca à roupa alva sendo lavada.
Remite-se a mulher. Omita-se igual o homem. Ora. Que o homem é a sombra de um sonho, referia Pindaro, skias ónar ánthropos; e __ vinda de outras eras... - Augusto dos Anjos.
(...)

Mas reza pela erística o capiau que, tentando dar a outra idéia de uma eletrola, em fim de esforço, se desatolou com esta intocável equação: “– Você sabe o que é uma máquina de costura? Pois a vitrola é muito diferente...”

(...)

Nem é nada excepcionalmente maluco o gaio descobrimento do paciente que, com ternura, Manuel Bandeira nos diz em seu livro “Andorinha, Andorinha”:
“Quando o visitante do Hospício de Alienados atravessava uma sala, viu um louquinho de ouvido colado à parede, muito atento. Uma hora depois, passando na mesma sala, lá estava o homem na mesma posição. Acercou-se dele e perguntou : “Que é que você está ouvindo?”O louquinho virou-se e disse: “Encoste a cabeça e escute.” O outro colou o ouvido à parede, não ouviu nada: “Não estou ouvindo nada.”Então o louquinho explicou intrigado: “Está assim há cinco horas.”
Afinal de contas, a parede são vertiginosos átomos, soem ser. Houve já até, não sei onde ou nos Estados-Unidos, uma certa parede que irradiava, ou emitia por si ondas de sons, perturbando os rádio-ouvintes etc. O universo é cheio de silêncios bulhentos. O maluquinho podia tanto ser um cientista amador quanto um profeta aguardando se completasse séria revelação. Apenas, nós é que estamos acostumados com que as paredes é que tenham ouvidos, e não os maluquinhos.
Por onde, pelo comum, poder-se corrigir o ridículo ou o grotesco, até levá-los ao sublime: seja daí que seu entre-limite é tão tênue. E não será esse um caminho por onde o perfeitíssimo se alcança? Sempre que algo de importante e grande se faz, houve um silogismo inconcluso, ou, digamos, um pulo do cômico ao excelso.

Conflui, portanto, que:
Os dedos são anéis ausentes?
Há palavras assim: desintegração...
O ar é o que não se vê, fora e dentro das pessoas.
O mundo é Deus estando em toda a parte.
O mundo, para um ateu, é Deus não estando nunca em nenhuma parte.
Copo não basta: é preciso um cálice ou dedal com água para as grandes tempestades.
O 0 é um buraco não esburacado.
O que é - automaticamente?
O avestruz é uma girafa; só o que tem é que é um passarinho.
Haja a barriga sem o rei. (Isto é: o homem sem algum rei na barriga.)
Entre Abel e Caim, pulou-se um irmão começado por B.
Se o tolo admite, seja nem que um instante, que é nele mesmo que está o que não o deixa entender, já começou a melhorar em argúcia.
A peninha no rabo do gato não é apenas “para atrapalhar”.
Há uma rubra ou azul impossibilidae no roxo (e no não roxo)
O copo com água pela metade: está meio cheio ou meio vazio?
Saudade é o predomínio do que não está presente, diga-se, ausente.
Diz-se de um infinito – rendez-vous das paralelas todas.
O silêncio proposital dá a maior possibilidade de música.
Se viemos do nada, é claro que vamos para o tudo.

(...)

(ROSA, João Guimarães. Prefácio ao livro “Tutaméia”, In: Obras Completas - Ficção Completa. Vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 519-526).

 

domingo, 1 de janeiro de 2012

"Receita de ano novo", por Carlos Drummond de Andrade



WARREN, JimWarren. La Toile. Óleo sobre tela.


Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(ANDRADE, Carlos Drummond. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003)