segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O poeta Marco Aurélio Mello Reis segundo Emmanuel de Macedo Soares




Um poeta de Niterói


                                                               Emmanuel de Macedo Soares

Marco Aurélio Mello Reis é um poeta de Niterói, um niteroiense da Mem de Sá, que estudou no Liceu, curtiu a praça da República e a praia de Icaraí, andou nas barcas da Cantareira e depois foi percorrer os caminhos do mundo, à procura de um caminho.
Encontrou a poesia, que na incoerência de todas as buscas acaba sendo a única coerência de todos os achados.
Não a tece para ser exibida, mas para ser presença nitidamente demarcada com linhas fortes na nossa literatura contemporânea, e esse espaço já lhe foi assegurado pelo juízo dos mestres, de Tristão de Ataíde a Pedro Nava, de Dom Marcos Barbosa a Antônio Carlos Vilaça, de Drummond a Odylo Costa, filho.
E não se trata de manifestações reticentes ou gentis de poeta para poeta, mas de afirmativas que muito concretamente reconhecem e proclamam a perícia e sensibilidade de Marco Aurélio no trato da palavra, de cada uma delas.
Às vezes chega a fazê-lo de forma tão propositadamente lúdica que joga de repente no verso uns jardineiros topiários, umas sáxeas telas, umas serranas saxifragáceas ou umas magias seminíferas, simplesmente para vê-lo resistir ao desafio e continuar fluindo livre e solto, sem perda do metro ou da beleza.
Coisa de mestre que bem conhece cada peça que manipula, e não foi à toa que o bom e indispensável Drummond, tão avaro no dizer e mais ainda no elogiar, se permitiu abrir exceção para este niteroiense da Mem de Sá:

Estou dividido entre duas emoções: a de quem recebe um fino presente e a de quem imerge numa corrente de poesia de grande pureza, em que tudo é essencial e nada se mostra com ostentação, brilho, rumor. O tom velado, mas seguro, de cada poema, lembra música surdinada que se dirige mais à alma que aos ouvidos. E tudo se passa num diálogo discretíssimo entre poeta e leitor, como se aquele não quisesse ser escutado por mais ninguém, e só na confidência se manifestasse toda a sua riqueza. Guardei uma profunda e delicada impressão desses poemas reunidos, de alguém que não aspira à popularidade, pois se compraz no simples e constante exercício da poesia, sem esquecer, antes celebrando-a, e amando-a, a obra de outros poetas.

Não há precisão de mais dizer, e aqui vos deixo com um pouco da poesia de Marco Aurélio Mello Reis.


SONETINHO DO AMOR TECELÃO

Tenho um amor para dar,
amor tão forte e tão puro,
que certo ainda o darei
àquela que não procuro

Tenho um amor para dar,
dentro do peito tecido,
que há de ser como uma rede
de fio fino e macio,

para nele se enredar
o amor que um dia vier
como a surpresa da vida.

Meu amor, como um tear,
tece o fio do viver
nesse fio de esperar...



O MEU MENINO

Só um menino me importa,
entre todos os meninos:
não aquele que eu não tive,
mas aquele que eu não fui.

Sentir de nada adianta.
O que adiante é sentir-se.
E eu sinto, mas não me sinto
vendo os meninos que brincam.

Eis o tempo a confundir-se,
na pergunta do que sou:
sou o menino que não fui
no menino que ainda sou.



VISÃO

Surpresa para o olhar,
tua visão visitou-me:
levei tempo a pensar
no que o tempo levou-me.

Mesmo o jeito de estar
em ti, assim como estou-me.
Mesmo o ar de sonhar
de quando mais amou-me.

Mas como foi não vi
claro teu rosto escuro
de não estar aqui.

E estava eu no jardim
e pensava no puro
antigamente mim.



ORAÇÃO POR JOAQUIM CARDOZO

Senhor, o servo Joaquim
andou no mundo a buscar
arco ou poema que unisse
vossos mundos paralelos.

Andou no mundo a medir
as fundadas estruturas
que permitissem nas formas
(nas formas, como na vida)

o convívio dos contrários:
firme amarração no verso,
gesto de asa no concreto.

Senhor, o servo Joaquim
alto poeta e engenheiro
é homem de universais
e nordestinas virtudes.

Se andou no mundo tão só,
teve o coração varado
pela sorte de seu povo...
Uma grande dor sentiu!

Senhor, inclinai a fronte,
e ouvi atento esta prece,
agora que se aproxima
a hora entre todas dúbia
de vosso servo Joaquim
noitemente amanhecer.







sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Rosa & Rebel: Começando 2012 bem-humorado.



Em meio às azáfamas do fim de ano, estive por várias vezes com Sandro Rebel em eventos literários. Em tempo, é preciso dizer que o “escritor Rebel” não é um personagem criado por mim para dinamizar o Literatura-Vivência (quem sabe uma figura fictícia, como o “delegado Palhares”, frequente nos contos de Nelson Rodrigues, ou o Agamenon Mendes Pedreira, da coluna de O Globo). Sandro Pereira Rebel existe, e exerce sobre mim e o blog um efeito de voz da consciência... Da última vez que estivemos juntos ele me falou:
“ – Roberto, o blog vai muito bem, está muito bom... mas não descuide do humor, Roberto. – Não deixe que a literatura humorada fique de fora, não deixe.”
Após este aconselhamento – que soou para mim como sentenças solenes de um bonzo tibetano – fiquei pensando como fazer constar a literatura e o humor no blog. Pensei em usar algo do Stanislaw Ponte Preta, quem sabe algo da genial Roda do Café Paris, lembrei que tantas vezes já me servi de José Cândido de Carvalho... Ao me lembrar do campista Zé Cândido (per analogiam ao campista Rebel), fui assaltado pela lembrança de minha última ida a Campos dos Goytacazes - RJ, lembrei-me da cordialidade do povo goitacá (somente equiparável à hospitalidade sóbria do mineiro). Em meu “brainstorming”, então, houve uma triangulação súbita (dessas que apenas o fenomenólogo Edmund Husserl saberia explicar) e eu acabei por recordar de um escrito do mineiro Guimarães Rosa, texto lido por mim em 1996... (vejam só como o pensamento foi longe!).
“Aletria e hermenêutica” é prefácio de Tutameia. Postando no blog este prefácio, que funciona autonomamente bem, cumprimos a prazenteira missão de trazer a prosa “humorada” para o Literatura-Vivência. Se verdade (como nos diz René Descartes, lá no seu Discurso do Método) que a palavra escrita nos propicia conversar com as melhores mentes que a Humanidade já produziu, então ouvir/ler Guimarães Rosa com suas gagues deve ser uma boa maneira de começar 2012.

Esta é para você, Rebel!


 Guimarães Rosa no traço de Baptistão



Aletria e hermenêutica


A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota.
A anedota, pela etimologia e para a finalidade, requer fechado ineditismo. Uma anedota é como um fósforo: riscado, deflagrado, foi-se a serventia. As sirva talvez ainda a outro emprego a já usada, qual mão de indução ou por exemplo instrumento de análise, nos tratos da poesia e da transcendência. Nem será sem razão que a palavra “graça” guarde os sentido de gracejo, de dom sobrenatural, e de atrativo. No terreno do humour, imenso em confins vários, pressentem-se mui hábeis pontos e caminhos. E que, na prática de arte, comicidade e humorismo atuem como catalisadores ou sensibilizantes ao alegórico espiritual e ao não-prosaico, é verdade que se confere de modo grande. Risada e meia? Acerte-se nisso em Chaplin e em Cervantes. Não é o chiste rasa coisa ordinária: tanto seja porque escancha os planos da lógica, propondo-nos realidade superior e dimensões para mágicos novos sistemas de pensamento.
Não que dê toda anedota evidência de fácil prestar-se àquela ordem de desempenhos: donde, e como naturalmente elas se arranjam em categorias ou tipos certos, quem sabe conviria primeiro que a respeito se tentasse qualquer razoável classificação. E há que, numa separação mal debuxada, caberia desde logo série assaz sugestiva - demais que já de si o drolático responde ao mental e ao abstrato - a qual, a grosso, de cômodo e até que lhe venha nome apropriado, perdoe talvez chamar-se de: anedotas de abstração.
Serão essas – as com alguma coisa excepta – as de pronta valia no que aqui se quer tirar: seja, o leite que a vaca não prometeu.
Talvez porque mais direto colindem com o não-senso, a ele afins: e o não-senso, crê-se, reflete por um triz a coerência do mistério geral, que nos envolve e cria. A vida também é para ser lida. Não literalmente, mas em seu supra-senso. E a gente, por enquanto, só a lê por tortas linhas. Está-se a achar que se ri. Veja-se Platão, que nos dá o “Mito da Caverna”.
Siga-se, para ver, o conhecidíssimo figurante, que anda pela rua, empurrando sua carrocinha de pão, quando alguém lhe grita: “ – Manuel, corre a Niterói, tua mulher está feito louca, tua casa está pegando fogo!...” Larga o herói a carrocinha, corre, voa, vai, toma a barca, atravessa a Baía quase... e exclama : “ – Que diabo! eu não me chamo Manuel, não moro em Niterói, não sou casado e não tenho casa...”
Agora, ponha-se em frio exame a estorieta, sangrada de todo burlesco, e tem-se uma fórmula à Kafka, o esqueleto algébrico ou tema nuclear de um romance kafkaesco por ora não ainda escrito.
De análogo pathos, balizando posição-limite da irrealidade existencial ou de estática angústia – e denunciando ao mesmo tempo a goma-arábica da língua quotidiana ou círculo-de-giz-de-prender-peru – será aquela do cidadão que viajava de bonde, passageiro único, em dia de chuva, e como estivesse justo sentado debaixo de goteira, perguntou-lhe o condutor por que não trocava de lugar. Ao que, inerme, humano, inerte, ele respondeu: “ – Trocar... com quem?”
Menos ou mais o mesmo, em ethos negativo, verseja-se na copla:

“Esta si que es calle, calle;
calle de valor y miedo,
Quiero entrar y no me dejan,
quiero salir y no puedo.”

Movente importante símbolo, porém, exprimindo possivelmente – e de modo novo original – a busca de Deus (ou de algum Éden pré-prisco, ou da restituição de qualquer de nós à invulnerabilidade e plenitude primordiais) é o caso do garotinho, que, perdido, na multidão, na praça, em festa de quermesse, se aproxima de um polícia e, choramingando indaga: “ – Seo guarda, o sr. não viu um homem e uma mulher sem um meninozinho assim como eu?!”
Entretanto – e isso concerne com a concepção hegeliana do erro absoluto? – aguda solução foi a de que se valeu o inglês, desesperado já com as sucessivas falsas ligações que o telefone lhe perpetrava : “ – Telefonista, dê-me, por favor, um “número errado” errado...”
Sintetiza em si, porém, próprio geral, o mecanismo dos mitos – sua formulação sensificadora e concretizante, de malhas para captar o incogniscível – a maneira de um sujeito procurar explicar o que é o telégrafo-sem-fio: “ – Imagine um cachorro basset, tão comprido, que a cabeça está no Rio e aponta do rabo em Minas. Se se belisca a ponta do rabo, em Minas, a cabeça, no Rio, pega a latir...”
“ – E é isso o telégrafo-sem-fio?”
“ – Não. Isso é o telégrafo com fio. O sem-fio é a mesma coisa ... mas sem o corpo do cachorro.”

Já de menos invenção – valendo por “fallacia non causae pro causa” e a ilustrar o: “ab absurdo sequitur quolibet”, em aras da Escolástica – é a facécia do diálogo; “ – Em escavações, no meu país, encontraram fios de cobre: prova de que os primitivos habitantes conheciam já o telégrafo...”
“ – Pois, no meu, em escavações não se encontrou fio nenhum. Prova de que, lá, pré-historicamente, já se usava o telégrafo sem fio.”
E destoa o tópico, para o elementar, transposto em escala de ingênua hilariedade, chocarrice, neste:

“ – Joãozinho, dê um exemplo de substantivo concreto.”
“ – Minhas calças, Professora.”
“ – E de abstrato?”
“ – As suas, Professora.”

Por aqui, porém, vai-se chegar perto do nada residual, por sequência de operações substrativas, nesta outra, que é uma definição “por extração” – “O nada é uma faca sem lâmina, da qual se tirou o cabo...” (Só que, o que assim se põe, é o argumento de Bergson contra a idéia do “nada absoluto”: “... porque a idéia do objeto “não existindo” é necessariamente a idéia do objeto “existindo”, acrescida da representação de uma exclusão desse objeto pela realidade atual tomada em bloco.” Trocado em miudo: esse “nada” seria apenas um ex-nada, produzido por uma ex-faca.) Ou – agora o motivo lúdico – fornece-nos outro menino, com sua também desitiva definição do “nada”: “ – É um balão, sem pele...”
E com isso está-se de volta à poesia, colhendo imagens de eliminação parcial, como exemplo à mão, as estrelas, que no “Soir Religieux” de Verhaeren:

“Semblent les feux de grands cierges, tenus en main,
Dont on n’aperçoit pas monter la tige immense.”


Ou total, como nesta “adivinha”, que propunha uma menina do sertão “ – O que é, o que é: que é melhor do que Deus, pior do que o diabo, que a gente morta come, e se a gente viva comer morre?” Resposta: “ – É nada.”
Ou seriada, como na universal estória dos “Dez pretinhos” (“Seven Little indians” ou “Ten little Nigger boys”; “Dix petits négrillons”; “Zwölf kleine Neger”) ou na quadra de Apporelly, citada de memória:
 
  "As minhas ceroulas novas,
Ceroulas das mais modernas,
Não tem cós, não tem cadaços,
Não têm botões e não tem pernas”.

E é provocativo movimento de parafrasear tais versos:

Comprei uns óculos novos,
óculos dos mais excelentes;
não têm aros, não têm asas,
não têm grau e não têm lentes...


Dissuada-se-nos porém de aplicar – por exame de sentir, balanço ou divertimento – a paráfrase a mais íntimos assuntos:

Meu amor é bem sincero,
Amor dos mais convincentes:
............(etc).
 


Com o que, pode o pilheriático efeito passar a drástico desilusionante. Como no fato do espartano – nos Apophthégmata lakoniká de Plutarco - que depenou um rouxinol e, achando-lhe pouca carne, xingou: “ – Você é uma voz, e mais nada!”
Assim atribui-se a Voltaire – que, outra hora, diz ser a mesma amiúde “o romance do espírito” – a estrafalária seguinte definição de “Metafísica”: “É um cego, com olhos vendados, num quarto escuro, procurando um gato preto ... que não está lá.”
Seja quem seja, apenas o autor da blague não imaginou é que o cego em tão pretas condições pode não achar o gato, que pensa que busca, mas topar resultado mais importante – para lá da tacteada concentração. E vê-se que nessa risca é que devem adiantar os koan do Zen.
E houve mesmo a áqüica e eficaz receita que o médico deu a cliente neurótico: “R. / Uso int. / Aqua fontis, 30 c.c. / Illa repetita, 20 c.c. / Eadem stillata, 100 c.c. / Nihil aliunde, q.s.” (E eliminou-se de propósito nesta versão o “Hidrogeni protoxis”, que figura noutras variantes).
Tudo portanto, o que em compensação vale é que as coisas não são em si tão simples, se bem que ilusórias. “O erro não existe: pois que enganar-se seria pensar ou dizer o que não é, isto é: não pensar nada, não dizer nada” – proclama genial Protágoras; nisto, Platão é do contra, querendo que o erro seja coisa positiva; aqui, porém, sejamos amigos de Platão, mas ainda mais amigos da verdade; pela qual, aliás, diga-se, luta-se ainda e muito, no pensamento grego.
Pois o próprio Apporelly, em vésparas da nacional e política desordem, costumava hastear o refrão:

“Há qualquer coisa no ar
Além dos aviões da Panair...”

Ainda, por azo da triunfal chegada ao Rio do aviador Sarmento de Beiles em raid transatlântico, estampou ele no “A Manha”... uma foto normal da Guanabara, Pão de Açúcar, sob legenda: “O Argos, à entrada da barra, quando ainda não se o via...” Mas um capítulo sobre o entusiasmo, a fé, a expectação criadora, podia epigrafar-se com a braba piada.
Deixemos vir os pequenos em geral notáveis intérpretes, convocando-os do livro “Criança diz cada uma!” de Pedro Bloch:

O TÚNEL. O menino cisma e pergunta: “– Por que será que sempre constroem um morro em cima de túneis?”

O TERRENO. Diante de uma casa em demolição, o menino observa: “– Olha, pai! Estão fazendo um terreno!”

O VIADUTO. A guriazinha de quatro anos olhou, do alto do viaduto do Chá, o Vale, e exclamou empolgada: – “Mamãe! Olha! Que buraco lindo!”

A RISADA. A menina – estavam de visita a um protético – repentinamente entrou na sala, com uma dentadura articulada, que descobrira em alguma prateleira – “Titia! Titia! Encontrei uma risada!”

O VERDADEIRO GATO. O menino explicava ao pai a morte do bichinho: “ – O gato saiu do gato, pai, e só ficou o corpo do gato”.

Recresce que o processo à vezes se aplica, prática e rapidamente, a bem da simplificação. Entra uma dama em loja:

“– Tem o Sr. pano para remendos?”

“– E de que cor são os buracos, minha senhora?”
Ao passo que a nada, ao “nada privativo”, teve aquele outro, anti-poeta, de reduzir a girafa, que passava da marca : “ – Você está vendo esse bicho aí? Pois ele não existe!...” – como recurso para sutilizar o excesso de existência dela, sobre o comum, desimaginável. Dissesse tal: – Isto é o-que-é que mais e demais há, do que nem não há...
Ora, porém, a idêntica niilificação enfática recorre Rilke, trazendo, de forte maneira, do imaginário aoreal, um ser fabuloso, que preexcede – o Licorne:

“Oh, este é o animal que não existe...” Todavia desdeixante rasgo dialético foi o do que, ao reencontrar velho amigo, que pedia-lhe o segredo da aparente e invariada mocidade, respondeu: - “Mulheres...” – e após suspensão e pausa : “ – Evito-as...!”
Tudo tal a “hipótese de trabalho”na estória dos soldados famintos que ensinavam à velha avarenta fazer a “Sopa de Pedra”. Mistura tambem a gente interina clara de ovo ao açúcar a limpar-se no tacho; e junta folhas de mamoeiro e bosta de vaca à roupa alva sendo lavada.
Remite-se a mulher. Omita-se igual o homem. Ora. Que o homem é a sombra de um sonho, referia Pindaro, skias ónar ánthropos; e __ vinda de outras eras... - Augusto dos Anjos.
(...)

Mas reza pela erística o capiau que, tentando dar a outra idéia de uma eletrola, em fim de esforço, se desatolou com esta intocável equação: “– Você sabe o que é uma máquina de costura? Pois a vitrola é muito diferente...”

(...)

Nem é nada excepcionalmente maluco o gaio descobrimento do paciente que, com ternura, Manuel Bandeira nos diz em seu livro “Andorinha, Andorinha”:
“Quando o visitante do Hospício de Alienados atravessava uma sala, viu um louquinho de ouvido colado à parede, muito atento. Uma hora depois, passando na mesma sala, lá estava o homem na mesma posição. Acercou-se dele e perguntou : “Que é que você está ouvindo?”O louquinho virou-se e disse: “Encoste a cabeça e escute.” O outro colou o ouvido à parede, não ouviu nada: “Não estou ouvindo nada.”Então o louquinho explicou intrigado: “Está assim há cinco horas.”
Afinal de contas, a parede são vertiginosos átomos, soem ser. Houve já até, não sei onde ou nos Estados-Unidos, uma certa parede que irradiava, ou emitia por si ondas de sons, perturbando os rádio-ouvintes etc. O universo é cheio de silêncios bulhentos. O maluquinho podia tanto ser um cientista amador quanto um profeta aguardando se completasse séria revelação. Apenas, nós é que estamos acostumados com que as paredes é que tenham ouvidos, e não os maluquinhos.
Por onde, pelo comum, poder-se corrigir o ridículo ou o grotesco, até levá-los ao sublime: seja daí que seu entre-limite é tão tênue. E não será esse um caminho por onde o perfeitíssimo se alcança? Sempre que algo de importante e grande se faz, houve um silogismo inconcluso, ou, digamos, um pulo do cômico ao excelso.

Conflui, portanto, que:
Os dedos são anéis ausentes?
Há palavras assim: desintegração...
O ar é o que não se vê, fora e dentro das pessoas.
O mundo é Deus estando em toda a parte.
O mundo, para um ateu, é Deus não estando nunca em nenhuma parte.
Copo não basta: é preciso um cálice ou dedal com água para as grandes tempestades.
O 0 é um buraco não esburacado.
O que é - automaticamente?
O avestruz é uma girafa; só o que tem é que é um passarinho.
Haja a barriga sem o rei. (Isto é: o homem sem algum rei na barriga.)
Entre Abel e Caim, pulou-se um irmão começado por B.
Se o tolo admite, seja nem que um instante, que é nele mesmo que está o que não o deixa entender, já começou a melhorar em argúcia.
A peninha no rabo do gato não é apenas “para atrapalhar”.
Há uma rubra ou azul impossibilidae no roxo (e no não roxo)
O copo com água pela metade: está meio cheio ou meio vazio?
Saudade é o predomínio do que não está presente, diga-se, ausente.
Diz-se de um infinito – rendez-vous das paralelas todas.
O silêncio proposital dá a maior possibilidade de música.
Se viemos do nada, é claro que vamos para o tudo.

(...)

(ROSA, João Guimarães. Prefácio ao livro “Tutaméia”, In: Obras Completas - Ficção Completa. Vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 519-526).

 

domingo, 1 de janeiro de 2012

"Receita de ano novo", por Carlos Drummond de Andrade



WARREN, JimWarren. La Toile. Óleo sobre tela.


Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(ANDRADE, Carlos Drummond. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003)




domingo, 25 de dezembro de 2011

Conto de Charles Dickens retrata a atual "imagem" do dia 25 de dezembro (artigo de R. S. Kahlmeyer-Mertens no Jornal do Brasil, 25/12/2008)


Ilustração de "Um Conto de Natal" de Charles Dickens


(Clique sobre a imagem para ampliá-la)


Faça aqui download gratuito do conto de Dickens,
um presente de natal do Blog Literatura-Vivência:



Versões:





sábado, 24 de dezembro de 2011

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

"Um livro na sua árvore de natal", Dalcídio Jurandir



Em 2007, José Roberto Freire Pereira, filho do escritor paraense Dalcídio Jurandir, me passou um recorte de jornal datado de 1973 contendo um artigo do pai. Já era a época em que se via as lojas enfeitadas e cânticos natalinos em cada casa.
Inspirado pelo artigo de Dalcídio, passei a parodiá-lo naquele fim de ano escrevendo algo parecido. Tratava-se de escritos de retrospectiva sobre tudo que havia sido lançado em termos de literatura. Isso foi feito em 2008, 2009 e 2010, no espaço  da distinta coluna Artes Fluminenses, assinada por Luís Antônio Pimentel, no Jornal A Tribuna.
Em 2011, julguei importante republicar o texto de Dalcídio. Ecce homo (datado? Não, atualíssimo):



 
Um livro na sua árvore de natal,
  
                                                                                                                                Dalcídio Jurandir

- Que presente vai me dar, este Natal? Uma cesta, um perfume, aquele colar que vimos juntos na vitrina?
- Não. Um livro.
- Mas livro?!
Entraram na livraria, o rapaz pediu o Pequeno Príncipe, de Exupéry e deu a ela:
- Pra começo de conversa e de Natal. Principie.
- Príncipe? Príncipe o que?
- A ler, menina! Comece pelo Príncipe.
Certo é que perfume, colar, a meia, tão habituais ao Natal, não temem concorrência de livro. Nem as grandes cestas que parecem cargas lotando a sala de jantar próspera ou as mais discretas, por mais baratas, que vão para o subúrbio, velha encomenda pensada há meses. As coisas, como presentes, ainda só valem pelo brilho, quantidade e preço.
Embora caro e nunca necessário quanto o arroz e o feijão, ou mesmo a castanha, o livro custa menos que a gravata e dura mais que o perfume e o sabonete
Passarão os Natais e aquela moça há de encontrar na sua casa, relido ou esquecido, mas constante, o livrinho comprado de circunstância que lhe falará sempre de um Príncipe e de suas sutis aventuras. O rapaz poupou o bolso praticando um bom-gosto, atreveu-se a entrar na livraria ao invés de entrar na perfumaria. E isso há dez anos não era assim.
Não era hábito de Natal fazer presente de livro, coitado do livro ali na montra cinzenta, entre o tédio do caixeiro e a solidariedade poeirenta dos outros livros, seus companheiros de solidão e abandono.
Agora o desamparado é confiado a uma embalagem, e tome papel colorido e tome laço de fita, aparece na vitrina, num ar festivo, como caixa de presente. Vem aos poucos ganhando seu lugar de Natal e Ano Bom.
Os novos tempos sopraram o velho pó das montras e sacodem o embaraço de quem quer dar um presente: Que tal um livro? Barato, fino, lisonjeia quem dá e quem recebe. Vamos ao livro.


A eletrônica sugere um presente

Se menino quer brinquedo, o técnico espera aquele livro que vive namorando, o Eletrônica Aplicada e convém que seu amigo se lembre disso e apareça com o presente. E há professores e estudantes que desejariam ganhar, neste Natal, aquele Evolução da Física, de Einstein e Infeld, que custa apenas setecentos cruzeiros. É possível que a estudante de faculdade de filosofia vacile entre a pulseira e o A Origem da Terra que a preocupa nas suas aulas. Aqui esse moço parou diante da vitrina, lendo A Mecânica do Cérebro e sua curiosidade é compreensível, estuda psicologia e confia que o amigo lhe apareça em pleno Natal com o desejado volume. E não custa experimentar mandar de presente a um técnico de carros aquele Manual do Volkswagem.


A ilustração como presente de festa

Ilustrar-se é uma antiga aspiração popular, ilustrar-se naquele sentido de ler um almanaque, ler curiosidades, folhear um dicionário. Como presente de Natal, a ilustração reserva muito atrativo. Por exemplo, O Livro da Natureza, o Deuses, Túmulos e Sábios, as fartas enciclopédias, Milagres da Novocaína e o persuasivo Vença a Alergia a quatrocentos cruzeiros. E para maior resistência da ilustração, bom presente é a História da Liberdade no Brasil, de Viriato Correia.
Podemos ir aos preços mais altos, como a Enciclopédia de Arte, da editora Martins, a sete mil cruzeiros, as coleções da Cultrix - Histórias e Paisagens do Brasil - vários volumes, a seis e quinhentos ou a História das Invenções, e pode-se chegar a este: Sexo: perguntas e respostas, Guia para um casamento feliz ou mandar embrulhar, como presente, o Amor e Capitalismo, de Cláudio de Araújo Lima.


Pendure a ficção na sua árvore

Se tem árvore, não hesite, tome o rumo da livraria e veja o desfile da ficção brasileira um pouco ansiosa de virar presente, um pouco ainda envergonhada, mas que diabo! Não faz mal sair num embrulho lindo, ser pendurada na árvore ou discretamente entregue ao amigo:
Convém ler a ficção nacional, senhores que gostam de dar presentes de festas, convém! Por exemplo, aqui temos o segundo volume de Marques Rebelo, A Mudança, e aí você encontra o Rio em excelente prosa; mande embrulhar também o Maria de Cada Porto, de Moacir Lopes, não esqueça Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa, O Vento do Amanhecer em Macambira, de José Condé, Matéria de Memória, de Carlos Heitor Cony, o Corpo Vivo, de Adonias Filho, Serras Azuis, de Geraldo França de Lima, o Ganga-Zumba, de João Felício dos Santos, o Arquipélago, de Érico Veríssimo, a coleção Graciliano Ramos numa verdadeira embalagem de Natal, todo o José Lins do Rego.
Entre a quantidade dos presentes nunca será demais A Comédia Humana, de Balzac, da editora Globo, ou a coleção Dostoievski, da José Olympio, o Guerra e Paz, de Tolstoi ou Grandes Esperanças, de Dickens. E será bom incluir no roteiro uma visita a Machado de Assis, seus livros devem estar em toda estante; e fazemos questão de lembrar que há um romance indispensável para presente: o Triste Fim de Policarpo Quaresma, do carioca Lima Barreto.
Por outro lado, os que gostam da velha aventura podem ainda ler o Alexandre Dumas em Os Três Mosqueteiros e O Colar da Rainha e a coluna maciça dos romances policiais – mas sempre livro.


A hora da poesia

Em matéria de poesia é seguir os bons poetas e a Aguilar pode dar de presente o Fernando Pessoa em volume muito digno. Mas não esquecer, leitora da grama em Del Castilho, defronte do conjunto residencial, que bom presente é também As Primaveras, de Casimiro de Abreu, ou as Espumas Flutuantes, de Castro Alves, ou, então, o Terceira Feira, de João Cabral de Melo Neto.
Não fica aí a sugestão, porque outros poetas estão ao nosso alcance, neste Natal: Lição de Coisas, de Carlos Drummond de Andrade, Para Viver um Grande Amor, de Vinicius de Moraes, O País do Não Chove, de Homero Homem e o Violão de Rua. Estão à sua espera, que é comprar, levar e o presente valeu por toda vida.
 
 
Miudeza também é presente

Os mais modestos não desejam os livros mais ricos ou os mais sábios e sim aqueles, por exemplo, da coleção “Como Se Faz...", "Como Se Vence”, onde é fácil encontrar para um presentinho despretensioso, o Arte de Fazer Amigos, o Aprenda a Conversar, Como emagrecer comendo e tudo a preço camarada.
Informações úteis, como presente, é uma boa sugestão de Natal e Ano Bom; este, por exemplo, Da Tabela Price ou Conheça seus Direitos, além do Aprenda a Nadar Corretamente e mande a seu amigo um “Manual de Judô”, sempre é livro.
Para um distante amigo da roça, não será bom mandar de presente o Lições Práticas de Avicultura? A um que se empenha no esoterismo, mande esse volume aqui, solene, por nome Cabala.


Os livros sérios
Todo livro é sério e creio que nada mais sério do que um livro de poesia. Mas aqui os sérios são os livros de fisionomia grave como, por exemplo, o Reflexões sobre a História, de Burckhardt, o Pré-Revolução Brasileira, de Celso Furtado, A Inflação Brasileira, de 1820 a 1958, a Coleção Saber, com mais de cinquenta volumes, o Princípios de Planejamento Econômico, o Manual de Economia Política, da Editorial Vitória, o Formação Histórica do Brasil, de Nelson Werneck Sodré, os livros da coleção Brasiliana, o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luiz da Câmara Cascudo, o Cristianismo Hoje, da editora Universitária, a preços que variam de trezentos e setecentos.
Cabe incluir, pela atualidade, o Política Externa Independente, de Santiago Dantas. Um Hatha-Yoga é um presente de Natal a amigo que cultiva essa transcendente matéria. E em meio a tamanha seriedade de livros, não esquecer que o Natal e Ano Bom reclamam livros de cozinha, este, por exemplo, Prenda Seu Marido... Cozinhando.
Agora, noutra escala, a da crítica, temos dois presentes de significação: A Glória de César e o Punhal de Brutus, de Álvaro Lins, e o Laboratório Poético de Cassiano Ricardo, de Osvaldino Marques.


“Homenzinho na Ventania"

A Editora do Autor lançou uma nova coleção de presentes: A Mulher do Vizinho, de Fernando Sabino, A Bolsa e a Vida, de Carlos Drummond de Andrade, o O Retrato na Gaveta, de Otto Lara Rezende e Homenzinho na Ventania, de Paulo Mendes Campos.
Outro presente de festas é o Banho de Cheiro, de Eneida, os “Cadernos do Povo Brasileiro”, da Civilização Brasileira, o álbum de Portinari, a coleção Les plus beaux: insetos, borboletas, cães, o El Greco, o Picasso, o Caribe.
Para um político, bom presente é Vida de Virgílio de Melo Franco, de Carolina Nabuco. Temos depois, ou antes, os livros sobre futebol: Copa do Mundo, de Mário Filho e Drama dos Bi-Campeões, de Armando Nogueira e Araújo Neto.
E do assunto Pelé, podemos chegar ao assunto teatro e apanhar da Aguilar o Bodas de Sangue, de Federico Garcia Lorca, chegando, ainda, ao Pagador de Promessas e A Invasão, de Dias Gomes. E a um amigo curioso da África, mande África - as raízes da revolta, e sobre Fidel, o ainda atual A Verdade sobre Cuba.
Um político pode receber para ensinamento a toda hora, o História das Lutas Sociais no Brasil, de Everardo Dias, e a outro que queira ter um bom santo na sua estante não é mau lhe oferecer As Confissões de Santo Agostinho.


O mundo maravilhoso gira em torno de Monteiro Lobato


No Brasil, a história para criança continua a girar em torno de Monteiro Lobato. Os meninos continuam a ver no mestre o avô contador de histórias. Por isso, chovem os livros de Monteiro Lobato nos sapatos, na noite de Natal, e com ele os outros livros, os outros autores, o cortejo dos bichos e fadas e tudo que é o faz-de-conta e o encantado e o que é ainda bom de contar às crianças.
Aqui, o presente é mais numeroso e vale a pena. Preferível este Na Região dos Peixes Fosforescentes ou a Coleção para Jovens, da editora Brasiliense, que o revolverzinho de bandido...
Mas não só menino necessita de livro. Gente grande também. E agora Natal e Ano Bom é a ocasião de fazer do livro um bom, e até bem barato, entre coisas tão caras, presentes de festas.




terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Encerramento do ano literário em Niterói com o lançamento do próximo número de "Literato - O Jornal das Letras de Niterói"




Convite:

 Literato - O Jornal das Letras de Niterói (n. 07, dezembro de 2011), será lançado no Calçadão da Cultura, Livraria Ideal (Rua Visconde de Itaboraí, 222, Centro, Niterói), na próxima quinta-feira, dia 22 de dezembro às 10h.

Com o lançamento, se encerra o ano literário de nossa cidade.

A Livraria Ideal doará livros durante a reunião festiva

Aproveitamos para agradecer à Secretaria Municipal de Cultura,
à Fundação de Artes Municipal e à Imprensa Oficial do Rio de Janeiro pelo apoio na edição de mais este número de Literato.


Por favor, repassem e compareçam.
A entrada é franca e a presença é grata.