DI CAVALCANTI, Emiliano. Mulher de Rosa. Óleo Sobre tela. 1951.
Literatura-Vivência, em suas postagens, tem por premissa sempre mesclar mais de uma mídia. Textos, imagens (foto, pinturas, caricaturas etc), áudio visuais (clips, curta metragens, animações...) e músicas fazem parte de nosso layout.
Na postagem de hoje, buscamos reunir todas essas categorias para bem ilustrar o múltiplo Di Cavalcanti (o artista era muito mais do que um “pintor de mulatas”). O traço caricato de Appe, o texto do “impagável” José Cândido de Carvalho, os quadros do próprio Di Cavalcanti e o polêmico curta-metragem “Di”, com direção de Glauber Rocha (que esteve proibido, até bem pouco tempo, pela família do pintor), formam um perfil de nosso enfocado:
Di Cavalcanti
Emiliano é seu nome e Di Cavalcanti a sua glória. Hoje, ao dobrar a esquina dos setenta, um dos seus grandes prazeres é perder tempo. Uns amontoam dinheiro, Di perde tempo, é campeão nacional e internacional, com diplomas registrados na França e em Porto da Caixas. Sai de casa com planejamentos rígidos e imutáveis. Vai fazer isso, fazer aquilo. Ao botar o pé fora da porta, dá de frontispício com um sujeito que conheceu, certa noite, num bistrô de Paris ou num cabaré em Buenos Aires. É aquele espadachinar de abraços:
− Seu Di, que prazer!
Di Cavalcanti está perdido. O bom Emiliano, boêmio como um gato de muro antigo. Seu navio pode viajar para a Inglaterra ou para a China. Mas pode acontecer também de encalhar num golfo de chope em Cordovil...
E que tem feito Di Cavalcanti nesses anos de iê-iê-iê de agora? Muita coisa. Principalmente honra o mundo com o seu talento, espadeirando tintas, lambuzando o século com as mais importantes cores já saídas de pincéis brasileiros. Hoje, Di Cavalcanti é uma glória bem estabelecida, firmada e incontestada. Qualquer rabisco seu, feito à pressa em papel de embrulho, vale muitos salários-mínimos. Di valoriza o que toca. É o mágico da companhia.
(...)
DI CAVALCANTI, Emiliano. Esboço. s/d.
Di e as andorinhas
Di Cavalcanti não mora. Circula. Vai a gente perguntar por ele e disca o Graham Bell. Do outro lado da linha alguém informa que Di está em São Paulo, na França ou na Bahia. Ao contrário das andorinhas, Di corre atrás do inverno. É louco pelo frio. Na União Soviética, certa ocasião, pegou termômetro a muitos quilômetros abaixo de zero. Mas o bom carioca da Rua Riachuelo aguentou o inverno russo com a maior dignidade. Como um esquimó de gravata e óculos.
(...)
DI CAVALCANTI, Emiliano. Pierrete. Óleo Sobre tela. 1922.
Glória nas grades
Diz: − Uma tarde, dando de olho num céu muito azul, pensei em Lisboa. E para Lisboa embarquei esquecido de que Salazar estava vivo. Estava. Fui preso.
Trancafiaram Di com glória e tudo.
(...)
DI CAVALCANTI, Emiliano. Independência. Óleo Sobre tela. 1969.
Amizade a longo prazo
De Jean-Paul Sartre, seu amigo, guarda forte impressão. A impressão de um homem à altura de seu tempo, não só como escritor, como exemplo de dignidade. De Assis Chateaubriand afirma ser o brasileiro mais realizador que conheceu. Um homem de espírito e ação. Chateaubriand de mão aberta, sempre pronto a servir, sempre pronto a dar ao Brasil e aos brasileiros alguma coisa. Há cinquenta anos, na porta de O País, conheceu Chateaubriand. Meio século de uma admiração que não envelhece.
De Jean-Paul Sartre, seu amigo, guarda forte impressão. A impressão de um homem à altura de seu tempo, não só como escritor, como exemplo de dignidade. De Assis Chateaubriand afirma ser o brasileiro mais realizador que conheceu. Um homem de espírito e ação. Chateaubriand de mão aberta, sempre pronto a servir, sempre pronto a dar ao Brasil e aos brasileiros alguma coisa. Há cinquenta anos, na porta de O País, conheceu Chateaubriand. Meio século de uma admiração que não envelhece.
E fala de pintura e de pintores. Cita nomes nacionais e estrangeiros. Mas para Di o grande mágico do circo continua a ser Pablo Picasso, um artista à prova de tempo. Uma eternidade de pintor. Muitos outros, na longa caminhada que terão de fazer até a glória, serão apenas nomes, pobres nomes de arquivo, quando muito com duas ou três palavras na história da sensibilidade do século. Picasso não. Explica Di:
− Há excelentes pintores que fazem Picassos. Mas Picasso é o único que faz Picassos propriamente ditos. Originais, com a marca da eternidade.
E sobre pintura não disse mais. Ficou em Picasso.
(...)
CAVALCANTI, Emiliano. Samba. Óleo Sobre tela. 1928
DI CAVALCANTI, Emiliano. Cinco moças de Guaratinguetá. Óleo Sobre tela. 1930.
( CARVALHO, José Cândido. Ninguém mata o arco-íris – 35 retratos em 3x4. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972. pp.68-73.)
Curta metragem de Glauber Rocha
Divulgação Cultural
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