“Ser anfitrião das belas letras.”
Com esta legenda, o presente Blog pretende abrir espaço para os talentos da literatura (com ênfase na fluminense). Tal sítio é reservado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias. Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária é o nosso papel.
Embora o título lembre Gustavo Corção, seria preciso ter um Corção com tudo fora do lugar... Eis, novamente, Mario Fumanga, bungee jumper dos abismos do texto:
Montes e mentes ausentes de vários presentes, premidas por coágulos poentes; híbrido tempo das vozes surdas que foram dizimadas pelo utilitário, pelo agora presente ‘tenho, logo sou’... Perceber-se incompleto é um imperativo peculiar dos que vêem o redondo do brilho do sol nas águas e mágoas do mundo desconhecido de Cousteau ou aquele que viu o Rosa sem Guimarães. O astro quente a tudo ofusca e busca o choro do gelo ao contato direto. Homens são como lágrimas, descem pelo corpo no momento de sua convocação/composição sob fôrmas-formas-fomes de registro: infância, ator da consciência enquanto produto da coincidência.
Fazer o já feito é voltar-se ao recorte junto ao peito – o da apropriação – que é obstrução, busca da “sempre incompleta e problemática construção do que já não existe”. Como da palavra, aquela que colore os tímpanos com sons arbitrários, quase atonal. Na célula da vida é o gene do universo do desejo, esse que só é possível no tempo futuro, palavra, enquanto veículo transitório que cuida-se em revelar o invisível que se esconde por detrás do visível, signo descartável conjugador de Barthes com essência de Valéry. Sim ao texto que grita as vozes mesmo não audíveis, devorador de imagens, essas que são pássaros em vôo, que vemos no outro da fome e frio. Essas que são plasticidades contínuas, que são moradas do sentido, núcleos-duros da expressão humana, macrosemânticas do real.
Faça seu texto grito mesmo mudo, forte mesmo fome; o texto que busca na árvore o graveto, que nasceu não sabe se forte, que cresceu, não sabe se vida, não sabe se noite, não sabe se... graveto de árvores mortas, árvores de imagens do homem de 15 no Sudão que distancia o olhar do sorriso, aproximando a morte que logo, logo chega. Graveto-base da simulação, ferramenta da mentira, instrumento da utopia. O que nele (homem) é o graveto, graveto-homem ou homem-graveto? Quem chora a si chorando-se aos outros não perde o belo da construção do que já foi, ganha a beleza do impenetrável dada por aquele momento só, ao fundo do nada quando algo qualquer é símbolo do belo mesmo no assimétrico-estético. Para onde foi o sorriso de si ao outro? Como cumprir a tétrica obrigação utilitária de ser feliz? No mundo dos olhos tenros a falta de olhos. Membros que formam, facilmente, ângulos ou do mesmo das hastes do arco-quadrático; não cobrem o corpo, pois só haveria a roupa triste, por ser posta em um não-corpo. Mas vitrines sorriem, pois, como a água, assumem a forma do recipiente-imagem de quem constrói. Não importa, qualquer tentativa de falar seria da, não a. Onde está o outro do outro que depende do outro para tornar-se... outro? Ele é o inferno ou peça de um museu que suplanta a idéia de “macabro”? Brancos trituradores, ironicamente fortes de nada triturar e, mesmo assim, teimam em aparecer, cavando um espaço ainda não-espaço, fazendo-se. Outro, eterno outro... Na construção de consensos, mantendo a diversidade unida, no composto-composição de “belas almas” que teimam em sair, apenas, da palavra pobre à pobre palavra.
Homem-sem que luta “por um chão pra morrer, por esse pão pra dormir”, é o homem mesmo dono de seu corpo, de suas cores e nomes; é o homem habitante do planeta fertilizado pela beleza de todos os olhos; é o ser de todos os dias na construção de sua própria existência. O homem trabalha transformando a natureza (sem dominá-la), relação que dá o ingresso para o espetáculo da existência e dignidade humanas, nesse ato produz (criador) e se reproduz (trabalhador): ser que constrói. Mas se o produto de seu trabalho lhe é estranho e enfrenta-o como uma “força estranha”, a que ela pertence? Homem que não tem apalavra, mas é, deixa de ser, homem?
O homem depende do produto do criador (?) a fim de se tornar um produtor, mas que (m) é esse criador? O homem necessita da terra, não para uma cova-rasa, mas para reproduzir-se como espécie, que fará o homem que não possui esse espaço de produção-reprodução? “Debulhar o trigo, recolher cada bago do trigo, forjar do trigo o milagre do pão”: como? Pela palavra, na palavra, com/sendo a palavra. “Conhecer os segredos da terra, cio da terra, propícia, estação e fecundar o chão”... sem chão? Dar palavra a quem não tem.
Que nos valham os homens sem: vida, teto, comida, fé, cores, nomes, flores, palavras, terras! São eles “homens que lutam por um dia e são bons; lutam por um ano e são melhores e já lutam por toda a vida: são imprescindíveis.” Palavra, terra, pra quem dela precisa.
Manter a vontade criadora sob a égide do impulso vital é falar, no texto, o que se é, o que se tem, o que se cria e reproduz; como do imperativo kantiano: “faça o que você pensa poder ter um valor universal”. É morto em si, sabemos, mas grita forte quando lido, quando visto como algo que diz: registro do belo. Florescer do telos do caos, da potência em ato, natureza de cultura; do impor-se a tarefa de controlar o desejo, sendo razão, mas vendo-a limitada, pois vida é pulsão, precisa ser escutada, precisa ser dita, precisa, “ZEN” pressa, registrar: a verdade é concreta.
Na roupa das palavras vemos o despir do mundo (os deuses são inúteis!), sendo de lugar nenhum, morrendo estrategicamente a fim de preservar/sorver a vida, [produzindo belos éteres que compõem as idéias grandes e essas se fazem quando realizadas no texto]; pensando estás falando – platonicamente – consigo mesmo. Não registre o pulso, faça-se pulsão no processo de vitalização da idéia que traz como premissa a morte, esta que é o único outro lugar para uma maneira contraditória de estar em lugar nenhum, de fazer-se compreender no/pelo outro, na composição alquímica de imagens, valorizando o diálogo até que ele se faça desnecessário. A palavra necessária é aquela que não foi escrita, que integra entregando-se nas finas veias do pulsar lispectoriano.
Ver a vitalidade na escrita, como no istmo da existência, é aproximar-se da morte na comunidade dos cegos de olhos claros e límpidos que querem o mundo sem a perspectiva brechtiana do distanciamento sem tarefa? Somos unívocos? “Fazemos parte de dois mundos unívocos/unilaterais que se interligam, pois a existência de um depende da não-vida do outro, que não é visto ao espelho, porque sua alma não quer estar mais presa nesse coletivo mundo-caos” de linda menina dos olhos ontem e beijo sempre; de gente que escreve “para despistar a morte e destruir os fantasmas que nos afligem por dentro; mais aquilo que a gente escreve só pode ser útil quando coincide de alguma maneira com a necessidade coletiva de conquista de identidade”; Galeano assim diz, dito da impossibilidade enquanto afirmação, das imagens que nunca foram poesia e agora se fazem luz no registro, como de sempre: “de perto ninguém é normal”...
No ato de desencantamento da natureza vemos o movimento distante da idéia castração que o coloca como sinal de imperfeição. A metáfora é um instrumento de reflexão mesmo na logicidade do argumentativo-contemplativo-dissertativo. São elas, em muito, repetição do que se foi sendo. Tudo ao movimento caótico que segue iludindo o linear-razão! A ordem está no caos, as regras são constitutivo-construtivas do solo falso de solidez árida que perde-se em qualquer simples chuva de palavras de Exupéry, o que não expulsa a necessidade de compor lugares nos não-lugares, seduzindo e criando um/o leitor; o texto é arte e esta é integração construtora de pólos, onde seu corpo “se refresca, enquanto outros se perdem nessa constante ventania. A ventania é uma fila: de bancos da vida, dos pretendentes (jamais pretendidos). Todas essas são sofridas, mas não comparáveis àquela imagem... Ah! A fila da morte, os frágeis seres não sentem dor, raiva... amor; apenas aguardam um átomo-luz no guichê da madrasta vida mãe-brisa. Um vento malvado e inevitável passa sobre esse ser que sangra lágrimas-palavras, nesse papel que para ser ouvido/lido sangrou a natureza”, e a voz sangra na linda menina de beijo sempre e corpo latente, que grita o belo, o da promessa de felicidade.
Ora, num texto, os dois lugares mais indicados para colocar as informações a que se dá destaque são o começo e o fim, ou seja, as seções que costumam denominar de “introdução” ou “conclusão”. Você não é obrigado a colocar determinada informação em seções consagradas como as ditas; na abertura ou no fechamento do texto, escreva informações relevantes para o leitor, faça-o sentir você, endemicamente, sem o uso unicriador de frases curtas, as que podem tornar o texto enfadonho, inclusive a você; busque a selva de imagens, narre o consórcio de temas buscando os buracos da teoria, despreze o consenso da consciência, busque o simples em toda sua complexidade, brincando.
Ao longo de um texto coerente (ou o que diz o que nunca se espera que se diga), ocorrem repetições (mesmo que seja uma ordem instauradora, caótica) “retomadas de elementos (palavras, frases e seqüências que expressam fatos ou conceitos). Essa retomada é normalmente feita por pronomes (e pelas terminações verbais que os indicam) ou por palavras e expressões equivalentes ou sinônimas”. A tentação da criação do “cemitério de idéias” é objeto-sedução dos que nunca instauraram, mas estão em off no discurso univalente que se diz coletivo não-se-sabe-de-onde. “Também podemos repetir a mesma palavra ou expressão, o que deve ser feito com cuidado, a fim de que o ritmo não seja prejudicado”. Mas não existe a idéia no singular, a realidade é polissêmica, mesmo o singular é plural.
Brinque palavras, brinque vidas, expulse o superego da criação mesmo sendo habitante-bolha de um espaço ciber-simpático. A riqueza de imagens/palavras nada mais é que a crise/caos do excesso de linguagens, como na voz-instauração de Bornheim; como Blade Runner, dizima psicólogos-zumbis que caçam crianças, querendo acabar com a idade de ouro onde elas existem (Novalis). Tenha uma esperança insaciável de inocência, não creia na imagem definitiva, desdiga o dito do não-gênio, sê gênio, pois este “é somente a infância redescoberta” composta pelo flâneur, sim... Baudelaire!
O homem que dizem que explica lembra que as crianças tendem a tratar as palavras como “coisas”; queira, leitor, queira morrer “coisa”, pois essa não busca um fim útil. “Palavras, imagens, metáforas não são, para as crianças-infância, símbolos abstratos, mas duplo das coisas, tanto assim que a nomeação basta para fazer as coisas existirem”, construindo leitores. “É preciso que as potencialidades da escrita se iluminem ao olhar de leitores variados no correr do tempo”, esse construtor do que é universal. Na geometria do sorriso a curvatura do universo depende de sua densidade de matéria, sem a amputação de idéias, pois viver é... é... é muito perigoso. Como em Nietzsche onde a morte de Deus é quebra dos fundamentos, ou do mesmo que Derrida que urra um NÃO ao utilitário/ mercado leitor/criador, onde o fantasma das mercadorias transforma consumidores em fantasmas”.
A você é disposto o ponto que se diz início (Poincaré) e esse é um hiato entre o mesmo e o outro, como da origem: essência (?) infinita do tempo, fazendo-se condição, estabelecendo a vizinhança, temática e heteróclita. Diga não á forma, a indeterminação é uma pré-condição da liberdade.
O texto-registro diz-se mesmo em afasia, estabelecendo jogos de verdade, desconstruindo erros e nomes nas cores mortas da viagem transcendental da falsa liberdade, do mundo-ópio de irresponsabilidade em série, sóbria esquizofrenia de imagens. A letra produzida pelo choro é solidamente líquida no discurso.
Todo discurso tem uma materialidade/objetividade/síntese do diverso-temporalidade? “Estabelece a ruptura enquanto processo-revolução? O ato de falar está diretamente ligado a restrições. Ao falar delimitamos e circunscrevemos os limites semânticos; ocupe-se/preocupe-se em jogar o leitor para o mundo de Carowll, onde erro e triunfo indistintamente induzem ao vazio, uma vacuidade cosmológica que o gnoticismo chama de ‘Kenoma’: a terra devastada, ou espaço deserto que se vê em toda tradição literária do romance’”. Mesmo que passe pelos rituais de fala (norma culta da língua), não construa, a partir de sua “caixa de ferramentas”, a Logofobia da negação do sim, pois “a serpente que não perde suas peles morre” (Nietzsche).
Idéias no texto são confissões da carne, tendo o belo como telos individual, deflacionário do desprezo conceitual. “Só se encontram palavras para descrever aquilo que se despreza, não importa o quanto tenha sido estimado outrora”, Nietzscheanamente, tente, viver ao sol poente... Tenha o leitor como o quem se nos diz grande, com fôlego, pois no mundo do encurtamento de distâncias este é necessário. Estude o ponto, o sim-não-talvez sempre lembrado por aquele que busca tentando construir – e constrói-construindo-estudando o homem eleito na premissa: “conhecer é um ato de violência em relação às coisas, é preciso o olhar para longe; é preciso em primeiro lugar observar as diferenças, para descobrir as propriedades”. Já no mundo romano vimos a convenção/construção das disciplinas, mas mesmo aí é um espaço de produção/reprodução de subjetividades, onde o pensamento tem uma função de diagnóstico, numa realidade mutante e misantrópica, intersubjetiva; só chegamos a leis gerais pela observação.
Como o poeta, sonhe “com a época da curiosidade”, desvincule-se do barateamento da positividade. “Quem nos dá a realidade que anda por aí”? A criança, essa que registra/instala a universalidade da voz, expondo um projeto de lucidez no tema-retrato falado: o que se vê nunca é aquilo que foi, mas sempre o que se disse (como Wenders: “a imagem quando vista não é mais”). Uma vez fixada nas palavras, as imagens de memória se apagam, assim Polo aborta o que não é sendo.
O texto não é uma coisa só do literato, é coisa dos homens que dizem que as palavras são coisas. Textos-livres que se perguntam: “pode a Literatura tornar os objetos visíveis?” Busque a experiência/interpretação aleatória (Flaubert), fotografe a não-imagem, constitruída. Quando fotografar/criar imagens/compor idéias volta a ser uma operação constitutiva do real se fazendo imagem, e não a captura, por um sujeito, da reflexão de um real já dado, com juízos de valor, na experiência em estado puro. Esse estado é o filtro do mundo criante-criança-infância que vê na palavra o que não se pode enxergar, que registra o hiato como nas diásporas: realidade/representação, fato/valor, natureza/cultura, universal/particular. São elas o “caldo de cultura-mundo” e as representações são uma propriedade do espírito, mas o ponto de vista está no corpo. Este, o corpo, é conhecimento e o que vale para esse vale para a ação. Um texto é discurso, é promessa de verdade, que além de ter um significado, é também uma ação-reação, que não finda, é/será sempre início.
Abordar formas de registro é como narrar a própria humanidade, esta dirige-se primeiro à ciência; mas, se a ciência é incapaz de instruí-la, como precisa de uma explicação suficiente ou satisfatória, dirige-se a seu próprio coração ou à sua imaginação, que no momento do “vale o escrito”, como que foge do plano da consciência. Pensamos prioritariamente no caos como forma de amansar os espíritos no ato da compostura/composição do texto, pois o linear é a atitude de engatinhamento da criação que se quer livre, como do mundo mitológico, “o estado primordial, primitivo do mundo é o Caos. Era, segundo os poetas, uma matéria que existia desde toda a eternidade, sob uma forma vaga, indefinível, indescritível, em que os princípios de todos os seres particulares estavam confundidos. O Caos era, ao mesmo tempo, uma divindade por assim dizer rudimentar, mas capaz de fecundidade. Ele gerou a Noite, mais tarde, Érebo. Em linguagem menos mitológica, podemos simplesmente dizer que a Noite e o Caos precederam a criação dos céus e da luz [infância e imagem]. Essa, aqui onde estamos, a Terra, mãe universal de todos os seres, nasceu imediatamente após o Caos”. As formas de registro exigem o olhar, mesmo turvo, para o céu (olhar de veredas), mas este azul finda-se... viver é melhor do quê? Ela não sabe, infância que se perde é o choro constante confundido na chuva de todos os céus, pois “o círculo não é redondo”, o tempo não é linear. Mesmo infância os homens fazem história, faça-se...
A trova acima é apenas uma das inúmeras (a bem dizer unânimes) referências elogiosas que, durante minha vivência cultural em Niterói, encontrei sobre a pessoa de Waldir de Carvalho. A postagem de hoje, dedicada a esta figura vem lembrar sua vida e obra e ainda veicula uma delicada crônica de Walnize Carvalho, filha que segue as veredas literárias abertas pelo pai.
Waldir Pinto de Carvalho (Perfil)
Waldir Pinto de Carvalho, filho de Antônio Pinto Pessanha e d. Carmelina da Conceição Carvalho Pessanha, nasceu na Fazenda Ciprião, 5 distrito de Campos, próximo a Santo Amaro, no dia 27 de julho de 1923.
Filho de plantador de canas, aprendeu as primeiras letras com seu tio Zezé Prisco, dono de um colégio particular, e mais tarde escrivão do 3 distrito. Continuou a estudar como autodidata.
Enquanto se dedicava à profissão de alfaiate, foi assaltado pela idéia de escrever, sendo o teatro a sua forte vocação, razão bastante para não perder o lançamento de peças no extinto Teatro Paris, na rua 13 de Maio.
Casando-se em 1946 com a Srta. Zeni Pereira de Carvalho, filha de Domingos Pereira Filho e d. Magalona Pereira da Cunha, transferiu-se para a cidade-sede do município. Em 1948, descoberto pelo locutor Agnaldo Batista, passou a colaborar com a Rádio Cultura de Campos com uma página humorística: “Jornal de Ontem”. A seguir, produziu para o animador HernonViana, que o lançou profissionalmente, o quadro “O Dr. Mata A. Machado”.
Em 1951 deixou seu cargo de contra-mestre na alfaiataria de João Waked, isto porque indicado por Prisco de Almeida, foi contratado como redator-produtor por Dr. Mário Ferraz Sampaio para a Rádio Cultura que na época mantinha uma programação no estilo da Rádio Nacional.
Durante 10 anos ali esteve dando expansão à sua vocação de escritor. Na Cultura produziu esquetes, crônicas, legendas para musicais e, sobretudo contribuiu para a criação da sua seção de rádio-teatro.
Durante este período escreveu com especial dedicação peças completas e rádio-novelas, destacando-se entre estas, “Almas Negras”, “Melodia da Alma”, “A Sentença Divina” (tendo como tema o controle da natalidade), “A Canção de Ninar” (tema judical sobre doação). Como novidade criou a rádio-novela histórica, focalizando os heróis campistas, quando foi homenageado pela Câmara Municipal em virtude de ter feito a novela “A Epopéia de Patrocínio”, a qual passou a integrar a programação oficial da Municipalidade do centenário de nascimento do “Tigre da Abolição”, conforme iniciativa do Dr. Ewerton Paes da Cunha, então Diretor de Educação da Prefeitura.
Teve radiofonizada novelas no Cairo (Egito) em parceria com Kamal Abbas.
Em 1960, o prefeito Dr. José Alves de Azevedo o nomeou tesoureiro da Prefeitura. Em 1973, com 50 anos da idade e já vovô, resolveu oficializar seus conhecimentos fazendo exames de cursos supletivos e tendo ingressado no mundo universitário. Em 1978 formou-se em Direito. Todavia, nem o seu cargo público ou a sua nova profissão o impediram de continuar escrevendo.
A partir de 1974, e durante dois anos, produziu semanalmente uma rádio-reportagem histórica sobre Campos para a Campos Difusora, sob o título de “Nossa Terra, Nossa Gente”.
Participou de toda a vida cultural de Campos, inclusive tendo participado no Festival de Cinema Super-8 com os filmes: “A Carona” e “Desajsute”.
Colaborou com todos os jornais de Campos e como quase todas emissoras radiofônicas da cidade. Em 1980, através das páginas de “A Notícia”, publicou aos domingos e, em forma de folhetim, uma peça para teatro intitulada “Essa gente Bem...”, uma sátira à sociedade campista. Encerrou participação em jornais no “Monitor Campista” em 2003.
Foi membro das seguintes instituições culturais: Academia Pedralva – Letras e Artes; Academia Campista de Letras (em ambas ocupou a presidência); Instituto Campista de Literatura; União Brasileira de Trovadores; Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Instituto Histórico de Campos dos Goytacazes; Cenáculo Fluminense de História e Letras (Niterói); I. L. A. (Bom Jesus do Itabapoana); Academia Fluminense de Letras (Niterói, onde ocupou a cadeira do campista Azevedo Cruz).
Recebeu diversas honrarias, destacando-se: Medalha de “Honra ao Mérito” – conferida pelo Rotary Blub São Salvador (1980); Ordem Municipal do Mérito – conferida pela Câmara e Executivo municipais (1991); Diploma dos 100 anos de fundação – conferido pela Associação Comercial e Industrial de Campos (1991); Prêmio Municipal de Cultura “Alberto Lamego” – conferido pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (1992); Ordem do Mérito “Benta Pereira” – conferida pela Câmara e Executivo municipais (1993); Diploma e Medalha Tiradentes – conferidos pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Projeto do Deputado Barbosa Lemos) em 1994; Diploma da Acadêmico Correspondente – conferido pela Academia Itaocarense de Letras (1995) e Moção pela Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes (1995).
Autor dos seguintes livros: “Gente que é nome de Rua”, volumes I (1986), II (1988) e III (2001); “Na Terra dos Heréos”, volumes I (1987) e II (1996) e III (1999); “O escravo cirurgião” (1988); “Cantos e Contos” (1989); “Campos depois do Centenário”, volumes I (1991), II (1995) e III (2000); “A Roda dos Expostos” (1994); “O Sorteado” (1994); “Até que chegue a Primavera” (1997); “Padre Nosso” (1998) e “Se não me trai a memória” (2003).
Como o autor dizia “somos todos uma obra inacabada”, deixou vários escritos inéditos que vão desde peças teatrais, crônicas, contos e um roteiro para TV (“Benta Pereira ou O Levante”).
Veio a falecer em 31 de dezembro de 2007 deixando viúva, três filhas, seis netos e três bisnetos.
Haveria de ter (como teve) uma forte lembrança para falar dele neste mês de julho. Afinal, se ainda estivesse entre nós, meu pai teria completado no último dia 27, 88 anos.
E foi quando, meses atrás, indo à sua casa (onde ainda reside mamãe – sua companheira de tantos anos) ela me presenteou com um dos seus adornos: uma echarpe de seda colorida com o seguinte comentário: - Leve para você. Só peço que não desate o nó que foi feito por seu pai, com muito carinho para mim.
O entrelaçamento era de beleza artesanal: uma mistura de laço e nó de gravata. Belo de se ver; difícil de se fazer e impossível de se querer desmanchar.
Por um momento vi diante de meus olhos patenteada mais uma de suas artes: a de fazer nós com perfeição. E foram tantos!... O que era dado na linha da minúscula agulha em seu tempo de alfaiate; os que fazia com esmero nas múltiplas gravatas que possuía e – em especial – os que utilizava barbantes para amarrar embrulhos. Nestes não importava o conteúdo, a embalagem assumia ares de presente de aniversário.
O certo é que cada nó possuía um particular detalhe que só ele – meu pai – sabia atar e desatar.
Voltei para casa, já com o mimo no pescoço, com lágrimas nos olhos e um nó apertado na garganta.
Com avidez fui à estante do meu quarto e busquei o livro “Quase memória”, de Carlos Heitor Cony, com a certeza de que o relendo encontraria identificação com o sentimento que me dominava.
Para quem não leu (e recomendo) o autor “se reencontra com o pai – já falecido há 10 anos - através de uma encomenda que lhe chega às mãos”.
Fiz a releitura com emoção e criteriosamente extraio fragmentos que reproduzo aqui para os leitores:
“(...) Foi então que olhei bem o embrulho. Só ele daria nó exato e sólido. Só ele fazia essas pequenas coisas com perícia. (...) Colocava solenidade nas coisas, fosse apanhar objeto no chão ou fazer a barba, tudo demandava uma técnica que só ele sabia. (...) Me aproximei para admirar o nó perfeito, justo, uma obra de arte. (...) Parece exagero louvar um nó, mas o pai era o primeiro a se vangloriar na arte de dar nó. (...) Olho com admiração, com bruto respeito a obra-prima feita com aqueles dedos...”
Respiro fundo. Coincidência? Semelhança?
Fecho o livro.
Saio de casa. Caminho pela cidade. Meus passos lentos me levam pelas ruas tal qual o nó da echarpe me levou “pelas ruas da memória”.
Painéis Guerra e Paz no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro
O ano de 2010 encerrou-se com uma exposição de arte que talvez tenha sido a mostra da década. Nessa data, os painéis Guerra e Paz, do pintor Cândido Portinari, retornaram ao Brasil para uma nova apresentação pública.
Fora de nosso país há mais de 50 anos, as referidas obras (presenteadas às Organizações das Nações Unidas – ONU) ocuparam o mesmo espaço de sua primeira apresentação, dias antes de seguir para os EUA, em 1957. Dado as suas dimensões, os painéis não puderam ser expostos no Museu Nacional de Belas Artes, tendo, sido, então, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro o palco de Portinari.
Em 2010, novamente o teatro recebeu os painéis para nova apreciação do povo brasileiro. Na ocasião, muitos textos foram produzidos para registrar as impressões provocadas pela intensa carga dramática do painel Guerra e pela mensagem pacifista trazida pelo painel Paz.
Devo confessar que tendo assistido a mostra em seu último dia, fiquei motivado (pela admiração ou, mesmo, pelo espanto que as obras me causaram) a escrever ensaios sobre os painéis. Cheguei a rascunhar uma introdução ao painel Guerra (fragmento que veiculo como apêndice ao fim desta postagem), interrompi, entretanto, meu exercício ao saber que o artista plástico Israel Pedrosa (amigo e ex-aluno de Candido Portinari) também redigia um texto sobre as obras.
A postagem de hoje – quiçá a mais especial que o Blog Literatura-Vivência já tenha publicado – conta com o texto inédito de Israel Pedrosa comentando a exposição de Portinari. Certos de que a exposição dos painéis Guerra e Paz sempre poderá ser bem narrada, agradecemos a exclusividade e o privilégio a Mestre Pedrosa.
A atual realização da exposição dos painéis Guerra e Paz de Portinari, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, insere-se no clima de crescente presença internacional do Brasil, não apenas na área econômica, mas sobretudo no reconhecimento de nossos valores sociais em progressão, valores intelectuais, morais e espirituais expressos em nosso amor à Paz, à tolerância no trato dos contrários, e nosso apego à arte, vivificado em todas as manifestações do espírito nacional.
A inimaginável, até então, vinda ao Brasil dos monumentais painéis Guerra e Paz de Candido Portinari que ornamentam o saguão principal do edifício sede da ONU, em Nova York, só foi possível, graças a uma conjugação de fatores, destacando-se dentre eles:
Primeiro, a deliberação da grande reforma do edifício sede da ONU, no período de 2010 a 2013. Período em que as obras de Portinari teriam que ser removidas e abrigadas em outro local.
Segundo, a existência da modelar organização do Projeto Portinari que idealizou e gerenciou posteriormente, toda a operação, e motivou o Governo Brasileiro a solicitar e dar garantias à ONU para o empréstimo dos painéis Guerra e Paz a serem expostos e restaurados no Brasil.
Terceiro, a existência nos mais altos escalões da República, na Presidência, na Vice-presidência, no Ministério das Relações Exteriores, no Ministério da Cultura e no BNDES de autoridades sensíveis aos poderes e imperativos da Arte como manifestação insubstituível do patrimônio intelectual, moral e psíquico da nação brasileira.
Parafraseando formulação que se tornara frequente nos últimos tempos, podemos dizer que nunca na história desse país um governo prestigiou tanto a cultura nacional, como o faz agora, com grande repercussão internacional, em relação à obra de Candido Portinari.
O exemplo maior desta prestigiação está expresso na parte final da histórica fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da 62ª Assembléia Geral das Nações Unidas, em que ele diz:
“Senhoras e Senhores,
Ao entrar neste prédio, os delegados podem ver uma obra de arte presenteada pelo Brasil às Nações Unidas há 50 anos. Trata-se dos murais “Guerra” e “Paz”, pintados pelo grande artista brasileiro, Candido Portinari.
O sofrimento expresso no mural que retrata a guerra nos remete à alta responsabilidade das Nações Unidas de afastar o risco de conflitos armados.
O segundo mural revela que a paz vai muito além da ausência da guerra. Pressupõe bem-estar, saúde e um convívio harmonioso com a natureza. Pressupõe justiça social, liberdade e superação dos flagelos da fome e da pobreza.
Não é por acaso que o mural “Guerra” está colocado de frente para quem chega, e o mural “Paz”, para quem sai. A mensagem do artista é singela, mas poderosa: transformar aflições em esperança, guerra em paz, é a essência da missão das Nações Unidas.
O Brasil continuará a trabalhar para que esta expectativa tão elevada se torne definitivamente realidade.
Em meio a numeroso público em clima de júbilo nacional, com a presença do Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, representando o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Professor Luciano Coutinho, Presidente do BNDES, do Diretor do Projeto Portinari, João Candido Portinari, de representantes do BNDES, de autoridades federais, estaduais e municipais, na noite de 21 de Dezembro de 2010, foi inaugurada a exposição dos monumentais painéis Guerra e Paz, de Candido Portinari, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Na noite de encerramento da exposição, no palco à frente do painel Paz, ladeados pelos representantes do BNDES, o pintor Israel Pedrosa, a Secretária de Cultura do Estado, Adriana Rattes, o Prof. João Candido Portinari, filho de Portinari e a cineasta Carla Camurati, Diretora do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Por imensuráveis que sejam as distâncias e o número de estrelas e de seus incontáveis planetas e satélites pelas infinitas galáxias na imensidão cósmica, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro na noite mágica da inauguração da Exposição dos painéis Guerra e Paz de Portinari, trazidos por empréstimo temporário da sede da ONU, NY, transformara-se no epicentro artístico do universo.
Impossível pensar que naquele momento, em qualquer outro corpo celeste, a arte e tudo o que possa haver de superior e sublime no universo, estivesse sendo celebrado com tal efusão apaixonante.
Se seres de inteligência igual ou superior a existente aqui existissem ou existirem em tais espaços siderais, por certo reverenciariam o magno espetáculo montado por uma obstinação filial apoiada por um presidente operário, que se fez representar por eminente chanceler em meio a uma platéia eufórica, interpretando em seu justo valor nossa mais vigorosa mensagem artística, transformando-a em símbolo de uma cantata universal de paz.
A alegria reinante em todos os semblantes da multidão que lotava o teatro, e que durante todo o período da exposição envolveu o edifício com intermináveis filas, deixa transparecer o justificado orgulho do reencontro de cada um e de todos com sua parcela da verdadeira alma nacional e com os elementos precursores de seus almejados destinos compartilhados na construção de um reino de perene paz e felicidade.
Nem todos tinham a mesma clareza sobre a extraordinária excepcionalidade do momento que estavam vivendo, mas todos vislumbravam o privilégio que teriam pelo tempo afora de poder afirmar: eu estive lá!
Seguramente a memória nacional guardará para sempre a lembrança do espetáculo de interação de todas as artes no palco do maior teatro da “cidade maravilhosa”.
Precedendo o desfile da multidão diante da magistral obra de um dos maiores pintores de todos os tempos, desenrolava-se o documentário de Carla Camurati, seguido pela dança de Ana Botafogo e Alex Neoral, coreografada por David Parsons; o canto de Milton Nascimento, a sonoridade de Villa-Lobos trazida pela Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem.
Magnífico e bendito planeta, este, em que a luminosidade impera, e que em suas entranhas a matéria em seu mais elevado estágio de perfectividade produz sonho, ideal e beleza, em que, mesmo entre suas diatribes intestinas e dolorosas etapas do parto do alvorecer de um Novo Mundo, fascinou o primeiro terráqueo a contemplá-la do cosmo, arrancando-lhe a indelével exclamação: “a terra é azul!” Tão azul como o descrito por Drummond no poema declamado por Fernanda Montenegro naquela noite majestosa, diante dos painéis Guerra e Paz: “e nada mais resiste à mão pintora (...) a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari.”
Painéis Guerra e Paz expostos no Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Guerra e Paz em novo ângulo
Interpretação fenomenológica do painel Guerra, de Cândido Portinari (fragmento)
“(...) tudo que é consequência de um tempo de guerra, no qual todo homem é inimigo de todo homem; o mesmo é válido também para o tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força e intenção. Numa tal situação não há lugar para a indústria, pois seu fruto é incerto. Consequentemente não há o cultivo da terra, nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas pelo mar; não há construções confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força; não há conhecimento na face da terra, nem cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não há sociedade; e o que é pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta.” (1)
Quando em arte se evoca o tema guerra e paz, é a ideia da guerra que primeiro nos toma. Imagens de coisas da guerra ganham lugar. Entre essas, antes mesmo do ideológico no conflito de secessão nos Estados Unidos ou das nossas polêmicas reminiscências contra o Paraguai (eloquentemente retratadas por Victor Meirelles), ganham naturalmente imagem, em primeiro lugar, a Guernica, de Picasso; depois, a série de gravuras Desastres da Guerra, de Goya. Dispensando a apresentação a ambas, diremos, destes, apenas que retratam a face explicitamente violenta do fenômeno. Entretanto, se abordada a guerra como um fenômeno, é licito considerar sua aparição e, do mesmo modo, suas zonas de “sombreamento”; assim, para além das crônicas de heroísmo dos teatros de batalha e da sua inevitável face sangrenta, há uma outra realidade objetiva que depende de sutil percepção para posteriormente ser evidenciada em toda sua dramaticidade. Esta se expressa em palavras no texto de nossa epígrafe, extrato do célebre tratado político de Hobbes, e em imagens no painel Guerra (1956) de Portinari.
Diante de sua grandiloquência, no instante após experimentar um silêncio admirado, nos sentimos tentados a falar sobre a obra, de diversas maneiras, usando variadas lentes. As falas com acento psicanalítico e estruturalista saem na frente e por isso mesmo são as ferramentas teóricas que a crítica de arte julga as mais apropriadas para tais dissertações. Com a venia dos que tão talentosamente se movem nestes domínios, hesitemos ante ao ímpeto de nos deixar seduzir pela astúcia metódica, pois, se resistirmos um pouco mais a entrega ligeira à fala, talvez a obra se digne a mostrar-se por si mesma, sem que tenhamos que recorrer às teorias próprias às referidas correntes. Se guardarmos a postura atenta, certamente evitaremos nos envolver na imbricada malha daquela refinada teoria psicologista, responsável pela submissão da obra a um conjunto de símbolos que encontram sede na figura de um sujeito cuja dimensão inconsciente teria parcela decisiva em sua determinação. Do mesmo modo, nos acautelaríamos de incorrer nos infindáveis malabarismos dialéticos do método marxista, que até hoje não nos levaram além de pareceres judiciosos segundo os quais Portinari é apenas um modernista brasileiro (ao lado de Di Cavalcanti, Tarsila e Cícero Dias)(2) ou de que é o artista prodigioso que “assimilou bem Picasso e mais a luminosidade do Brasil”.(3) Na contramão dessas atitudes obstrutivas do ver, deixemos a obra falar por si mesma; deixemos que ela própria oriente nosso olhar. Apreciação? Não, descrição.
O que mostra o quadro? (...)
PORTINARI, Cândido. Guerra. Nova York: ONU, 1952-56 (14m x 10m )
Conhecido apenas dos leitores mais dedicados, seu autor, Giuseppe Tomasi Di Lampedusa é, segundo entendo – e sem favor algum – um dos grandes mestres da literatura do século XX. Para que confiram se esta minha posição judiciosa procede, disponho aqui o link para o Blog de Alfredo Braga, onde o leitor poderá ler o conto que dá nome ao livro. O texto é longo, mas vale a pena ir até a última palavra.
Ao final da leitura, desafio o leitor mais cético a achar o tema das sereias pueril, e a não acreditar nesses seres mitológicos depois da prosa verossímil de Lampedusa. O conto é uma aula de persuasão literária!
Giuseppe Tomasi di Lampedusa (Palermo, 23 de dezembro 1896 - Roma, 23 de Julho 1957) foi um escritor italiano. Membro de uma das mais tradicionais famílias sicilianas, príncipe de Lampedusa e duque de Palma, combateu na Primeira Guerra Mundial. Sua obra-prima, O Leopardo (Il Gattopardo) foi sucessivamente recusada por editoras italianas mas quando foi publicada após a morte do autor, transformou-se imediatamente em sucesso de público e crítica.
Contradizendo os juízos de que o Blog Literatura-Vivência é sisudo demais e que não tem paciência para o chiste, não sendo audiência para o bom humor, eis aí um dos textos de sátira às afetações da dita cultura "descolada". O texto é antigo (e desde a década de 2000 circula pela internet) mas a piada é atualíssima.
Postagem dedicada ao Sandro Rebel
O Abapuru, de Tarsila do Amaral
A primeira festa de aniversário de Mano Wladimir
Por Vladimir Cunha
(Em tempo: Mano Waldimir é o nome do filho da Marisa Monte.)
Mano Wladimir está tenso. No colo da mãe, Marisa Monte, ele ainda não conseguiu entender exatamente o que está se passando. Ao seu lado, Carlinhos Brown conversa com Wally Salomão, que cita uma poesia de Caetano Veloso, que dá um brigadeiro orgânico (sem chocolate e sem leite condensado, cortesia do buffet Doces Bárbaros) para Zeca, que leva um pito da mãe, Paula Lavigne. Mano Wladimir está tenso. É a sua primeira festa de aniversário.
“Criança sã
De uma rã
Guardiã
Eu sou seu fã
Na manhã
Aramaçã
Cunhã”.
A música infantil escrita por Arnaldo Antunes especialmente para a festa é a trilha sonora da dança das cadeiras. Nada da Turma da Mônica, nada de atores desempregados vestidos de Pikachu. Aqui a coisa é diferente. MM resolveu ser mãe em grande estilo e contratou a Companhia Bufa de Artes e Performances do Absurdo para animar a festa.
Fantasiado de Ed Motta, um ator recita de trás para a frente toda a obra de Eça de Queiroz para algumas crianças. Do outro lado da sala, um grupo de clowns (sim, porque numa festa como essa é proibido ter palhaço) ensaia uma volta à posição fetal enquanto ostenta reproduções dos parangolés de Hélio Oiticica. Num canto, Carlinhos Brown dá uma entrevista para uma repórter da revista Bravo, escalada especialmente para cobrir o evento.
" - E aí, Brown? Está feliz com o primeiro aninho do Mano Wladimir?"
"- É uma coisa da modernidade nagô, no que tange a referência espaço/tempo do ciclo da história humana. O cósmico supremo da realização superlativa, a poética da bioenergia enquanto motor da sublimação ótica. É onde o eu e o tu fundem-se na epiderme inconsciente."
"- E o que você deu de presente para ele?"
"- Pensei na questão do pacifismo, na guerra como catalisador das emoções humanas ao mesmo tempo em que atrai e repudia o ser. A máquina ceifadora que gera vibrações orgônicas, que tangencia e descontinua a unidade solar dos povos."
"- Como assim?"
"- Eu dei um boneco dos Comandos em Ação…"
Enquanto as crianças não podem comer o bolo de cenoura, aniz e mel de cana que traz estampado uma reprodução de O Abaporu, de Tarsila do Amaral, em sua cobertura – Marisa Monte serve a elas copos de suco de gengibre e balas de cravo da Índia. Até que Paula Lavigne tem a ideia de chamá-las para um karaokê. Quem começa a brincadeira é Benedito Tutankamon Pedro Baby, cinco anos e filho de um dos roadies de Arnaldo Antunes, que canta O Avarandado do Amanhecer, de Caetano Veloso. Em seguida é a vez de Zabelê Tucumã Nhenhé Çairã, três anos e filha da empresária de Carlinhos Brown, que canta Ana de Amsterdã, de Chico Buarque. Ao saber que a próxima criança a cantar é a impronunciável Zadhe Akham Mahalubé Sinosukarnopatrionitnafilewathua, filha da copeira de Marisa Monte, Paula Lavigne acha melhor suspender o karaokê.
É hora do Parabéns a Você. Os convidados reúnem-se em torno da mesa. E então, Marisa Monte anuncia uma surpresa: quem irá cantar o Parabéns é Carlinhos Brown. Brown, que andava meio sumido depois de sua entrevista para a Bravo, aparece vestido com um cocar feito de canudinhos de plástico, uma camisa de jornal e uma tanga de folhas de bananeira. Atrás dele, 315 percussionistas da Timbalada, um videomaker e quatro poetas marginais. Brown pega um garrafão de água mineral e começa a cantar sua versão para Parabéns a Você:
"- Vim para cantar
A tropicália alegria de um povo
Azul, badauê, zumbi
Ela não me quer
Mas sou um tacle regueiro
Viva o divino samba de João
Monarco na rua
Meu bloco chegou."
Arnaldo Antunes se empolga e começa a recitar poesias descontroladamente, Marisa Monte gorgeia e improvisa algumas melodias, a Timbalada toca um samba-reggae, Paula Lavigne cai na farra e Caetano acha tudo “lindo”. O videomaker filma e Wally Salomão escreve o release. Os poetas marginais aproveitam a confusão para roubar uns docinhos.
Um executivo de uma grande gravadora, que entrou de penetra, contrata todos os presentes e promete CD, DVD, livro, críticas favoráveis no New York Times, participação de David Byrne e especial de televisão. Para comemorar, Arnaldo Antunes põe um disco de Lupicínio Rodrigues. O ator vestido de Ed Motta cospe fogo. Marisa Monte lê Mário Quintana em voz alta.
Mano Wladimir chora. É a sua primeira festa de aniversário.
Gianni Vattimo (Turim, 4 de janeiro de 1936) é um filósofo e político italiano, um dos expoentes do pós-modernismo europeu.
Discípulo de Luigi Pareyson, graduou-se em Filosofia, na cidade de Turim, em 1959. Especializou-se em Heidelberg, Alemanha, com Karl Löwith e Hans-Georg Gadamer, cujo pensamento introduziu na Itália. Em 1964, tornou-se professor de Estética na Universidade de Turim e, a partir de 1982, de Filosofia Teorética. Ensinou, na condição de professor visitante, em vários universidades dos Estados Unidos.
Nos anos 1950, trabalhou em programas culturais da RAI. É diretor da Rivista di estetica, membro de comissões científicas de vários periódicos italianos e estrangeiros e sócio-correspondente da Academia de Ciência de Turim.