domingo, 25 de setembro de 2011

"Eros & Psyque" - Poema de Fernando Pessoa



    BURNE-JONES, Edward (Sir.). Eros e Psyque. Sheffield Art Gallery,
Sheffield, Reino Unido, 1871. Óleo sobre tela.


Eros e Psique, por Fernando Pessoa

Ao Roberto Santos Almeida


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.


Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.


A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.


Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.


E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,


E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
                        (PESSOA, Fernando. Revista Presença, Coimbra: 1934 n.o 41.)






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sábado, 24 de setembro de 2011

Garimpando no sebo e outras ponderações





Cunha e Silva Filho

Não sou leitor compulsivo, mas, dentro do meu ritmo, procuro, ainda que tardiamente, dar conta de algumas leituras fundamentais. O importante é o preparo, com critério seletivo. A leitura, uma atividade intelectual in process, ou aproveitando a quase sutileza de quem disse que nunca se sabe ao certo quando acabamos a leitura e um Guimarães Rosa (1908-1967) ou de um Clarice Lispector (1920-1977) São escritores múltiplos, formuladores de enigmas.
Porém, não é minha intenção aqui nessa conversa analisar aqueles dois ficcionistas. Deixarei para o espaço do ensaio. Quero-lhe falar, leitor – longe de mim pluralizar este termo – teria que brigar com os leitores de Machado de Assis.O que é pior, por cima de tudo, não sou ficcionista – hélas! – mas o que hei de fazer se os deuses da prosa não me bafejaram com o talento dos que têm criado, bem ou mal, mundos de criaturas “de papel”?
Estive, hoje, no Centro do Rio, e para não quebrar a regra, deu um pulinho na velha São José, um dos mais antigos sebos cariocas. Só o proprietário, o Germano, tem sessenta anos de atividade nesse ramo de venda de livros.
Desta vez, comprei muito pouco, pouquíssimo.A safra não estava boa no terreno das letras. No velho sebo da São José já houve dias gloriosos, com um oferta de fazer inveja a qualquer bibliófilo ou bookworm. “Garimpei” aqui, “garimpei” ali, e dei de cara com dois autores, antigos tanto quanto a São José e o seu acervo: um velho livro que há anos queria comprar, do filólogo Silveira Bueno, Manual de califasia, califonia, calirritmia e arte de dizer ( 4.ed. São Paulo: Edição Saraiva, 1952) O outro, As fontes da criação literária, de Carmelo M. Bonet. 1 ed. Tradução de Antonio G. Gonçalves, (São Paulo: Ed. Mestre Jou, 1970). Óbvio, que a São José também vende livros novos, mas a sua especialidade é o sebo que, por sua vez, torna-se o ganha-pão do livreiro.
Por falar em livro usado, o Germano lamentou que as vendas estão em baixa. A coisa está preta. Já fecharam sebos conhecidos no Centro do Rio. Não, só sebo, uma livraria i importante como a Martins Fontes, que também é editora de grande porte, fechou seu endereço na principal avenida do Rio, a famosa Avenida Rio Branco. Mau sinal para o comércio dos livros. Essa livraria mudou-se para a Zona Sul carioca. Antigamente, entrar na seção de livros estrangeiros da Martins Fontes era um grande prazer: o tratamento dado ao cliente era nota dez. O nível de atendimento foi caindo, caindo... até chegar àquele desfecho amargo. Não sei não, contudo prevejo que há o dedo aí de outros modos de vender livros, cujo principal responsável seja talvez a Internet.
Não culpemos só a Internet. Pode estar havendo uma decadência de poder aquisitivo da população. O livro é produto caro, mesmo o do sebo. Há também a concorrência forte de livrarias online, brasileiras e estrangeiras. Com vendas remetidas pelos Correios, o cliente, um pouco acomodado, prefere fazer a encomenda via Internet.
Um outro agravante, a meu ver, seria um certo desinteresse geral por obras antigas (dirá melhor estudos antigos) em determinadas áreas do conhecimento humano. Vejamos no terreno dos estudos lingüísticos, filológicos. Basta dizer que, numa recente conferência, a que assisti na Academia Niteroiense de Letras o filólogo Maximiano de Carvalho e Silva, professor emérito de língua portuguesa da Universidade Federal Fluminense, a certa altura de sua exposição acerca de aspectos culturais de Niterói, sobretudo a constituição dos cursos de letras e seus fundadores, mencionou o triste fato de que alunos (e bem provavelmente alguns professores universitários, diria eu) não dão tanta importância a alguns teóricos de um passado não tão remoto assim, tais como os já falecidos Said Ali, o português Herculano de Carvalho, Serafim da Silva Netto, Sílvio Elia, (vai ver até que venham a incluir o grande linguísta Mattoso Câmara Jr. e outros autores tidos por eles como desatualizados para os estudos linguísticos de hoje). Ora, isso não passa de um absurdo e de falta de alta visão diacrônica da linguística e da filologia numa época, a dos dias que correm, em que o que mais importa é o imediatismo, a sincronia de um saber afundado, algumas vezes, na superficialidade do “primado do instante”, para usar, mais uma vez, o título de um artigo meu escrito há um bom tempo.
Se o aluno de letras hoje persistir em votar sentimento de indiferença pela filologia e pela história das teorias linguísticas estará construindo castelos de areia O conhecimento filológico e o estudo das humanidades clássicas nunca serão matéria morta, mas sim matéria arqueológica viva que deve ser dominada e conhecida pelas gerações atuais. Sem os estudos helênicos e latinos estará em perigo toda uma vasta cultura erudita que deverá ser cultivada por jovens estudiosos do presente. Imitemos o que seja bom neste aspecto os países adiantados da Europa e mesmo dos Estados Unidos e de certos países das outras Américas.
Enquanto isso, Germano se queixa e com razão. O custo do aluguel de espaço para um a livraria no Centro do Rio é muito caro e a tendência é encarecer mais cm as modificações que essa parte da cidade vai sofrer. Falam da construção de shopping centers. Os olhos dos senhorios vão crescendo. Business is business, friends apart! Não há amizades ou concessões de descontos quando o negócio é aluguel.
Saí da livraria um pouco triste com o que ouvi sobre a situação dos sebos e da vida do livro em geral, aí incluindo alunos, professores, pobreza de ideias, escolas públicas de baixa qualidade, desamor às grandes obras e autores e um certo enfado de estar vivendo no meio de tudo isso. Aproveitemos para refletir sobre tudo isso e.... a comprar e ler os livros com o respeito que merecem. Que me perdoem a casmurrice!


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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O que foi feito da Sala Luís Antônio Pimentel?...



Fachada da Biblioteca Pública de Niterói - BPN

No último dia 18 de setembro, recebi esta mensagem do jornalista, historiador e acadêmico Emmanuel de Macedo Soares:

 
“Caro Roberto,

Escrevi esse desabafo pensando no teu blog, que é hoje, sem favor, o melhor microfone de todos nós que nos metemos nesse inglório e doloroso fazer cultural.
Meu objetivo não é a crítica (pura ou impura) a quem quer que seja, embora o gesto idiota da Secretaria Estadual de Cultura  o mereça, mas sim despertar as manifestações deste teu público atento e participativo num desagravo coletivo ao nosso tão querido e tão indispensável Pimentel.
Deixo a teu critério, é claro, aproveitar ou não o escrito.

Grande abraço

Emmanuel”


O texto que se seguia à mensagem versava sobre um tema que todos comentam timidamente desde que a biblioteca estadual foi reinaugurada, mas que ninguém se encorajou a falar abertamente. Trata-se da retirada, depois da reforma, da placa que registrava a existência da Sala Luís Antônio Pimentel, naquele prédio (assunto que bem poderia ser estendido ao nome da Biblioteca que passou a não mais chamar Biblioteca Estadual Geraldo Montedoneo Bezerra de Menezes) para chamar Biblioteca Pública de Niterói – BPN.
Entendendo que a questão levantada pelo texto é isenta de qualquer interesse político menor, que não fustiga qualquer figura individualmente, e que demonstra o legítimo anseio por entender o motivo da retirada do nome de Luís Antônio Pimentel (personalidade que traduz longo e importante capítulo da cultura niteroiense) é que o texto é publicado em Literatura-Vivência.
É preciso lembrar que, em nosso meio, o termo intelectual, não raro, é utilizado em sentido lato (intelectual seria um indivíduo que atraiu para si a reputação de bom leitor, de indivíduo cuja inteligência se destaca da maioria, alguém com alguma cultura literária acumulada após ter vivido muitos anos de idade e até – pasmem – alguém que possui muitos livros...). Deste modo, na mesma proporção que preciosista e ingênua, ela é também equívoca e errônea, justamente por desconsiderar uma característica sem a qual o intelectual jamais poderia ser assim conhecido. Que característica seria essa? Resposta: a intervenção pública em favor da sociedade que este – mesmo sem mandato – representa (um intelectual sem intervenção pública se resumiria a ser um professor, um literato, um erudito, um orador de ocasião ou um medalhão na sociedade).
Literatura-Vivência, enquanto fórum de debates democráticos, entende ter obrigação política solidária junto aos membros da comunidade letrada; reserva-se, portanto a atitude racional, autônoma e crítica, além da intervenção pública toda vez que isso for necessário. Apenas assim pode pretender-se um espaço intelectual (stricto sensu).
Por sua vez, sem pretender ser a fala da sociedade, a intervenção de Emmanuel Macedo Soares não apenas buscar a compreensão das motivações do fato, quanto pró-voca (sic) a discussão, junto à comunidade letrada de Niterói, sobre este episódio de interesse coletivo.
O “desabafo” de Emmanuel Macedo Soares, na íntegra, é o que temos a seguir:



O que foi feito da Sala Luís Antônio Pimentel?...




Soube, por um amigo, que a Secretaria Estadual de Cultura retirou de uma das salas da Biblioteca Estadual o nome do nosso emblemático Luís Antônio Pimentel, sob a alegação de que a lei proibe homenagens a pessoas vivas.
Os governos em nosso país, como todos sabemos, são muito rigorosos no cumprimento das leis. A lei proíbe o cidadão de roubar e matar, e como o governo é um cumpridor intransigente da lei, vivemos nesse paraíso em que não há ladrões nem assassinos. Os poucos que aparecem são rigorosamente punidos com séculos de prisão.
Os nossos hospitais funcionam magnificamente, porque o governo cumpre religiosamente a constituição e as leis que garantem ao cidadão o direito à saúde. As escolas, nem se fala. Oferecem um ensino de altíssima qualidade, porque assim manda a lei e o governo é um fiel cumpridor das leis.
Mas vamos e venhamos. Eu cansei de cruzar na Avenida Amaral Peixoto com o comandante Amaral Peixoto, a caminho do PSD, que ali tinha sede. Vi o embaixador Paschoal Carlos Magno inaugurar no campo de São Bento o Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, aos beijos e abraços com um rapaz muito distinto que na falta de emprego melhor nomearam prefeito de Niterói. Não faz muito tempo, também vi o juiz Alédio Vieira Braga assistir a inauguração do Forum Trabalhista que leva seu nome em Niterói. No Rio de Janeiro há um autódromo com o nome de Nelson Piquet, que pelo menos até este momento em que escrevo ainda está vivo.
Por sobre isso, é infinita a quantidade de plaquinhas com que governadores, secretários, diretores e subdiretores disso e daquilo tentam imortalizar seus nomes toda vez que inauguram alguma obra pública, sem dar as mínimas para as leis. É bem capaz de até haver alguma na nova Biblioteca Estadual de Niterói.
Aliás, também o nome de Matoso Maia foi retirado da sala que apadrinhava, talvez porque a secretaria não saiba quem foi Matoso, ou ignore que ele já morreu.
Há exatos 50 anos eu conheço e convivo com o Luís Antônio Pimentel, e sei que ele está pouco se lixando para o gesto grosseiro da secretaria dita de Cultura. Sua imortalidade não depende nem precisa de plaquinhas. Não foi conquistada pelo fato de ser filho ou neto ou sobrinho de nenhum político, mas pelas obras que escreveu, pelas aulas que ministrou formando tantos jovens, e sobretudo pela irretocável conduta como ser humano, que felizmente ainda hoje serve de exemplo a todos nós.






sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Gracinda Rosa da Costa transformando adversidade em prosa (ou verso).


Quando é que a adversidade se transforma em prosa (ou verso)? Resposta: quando um revés, pelas vias do verbo, se faz reverso. Um exemplo disso? O conto O relógio do hospital, de Graciliano Ramos. Um outro? a crônica Uma cadeira de rodas?, de Gracinda Rosa da Costa:


    CAMARGO, Iberê. Tudo te é falso e inútil.
Coleção Maria Coussirat Camargo: Fundação Iberê Camargo, 1991.
Óleo sobre tela, 155 x 200cm. (Foto: Fabio Del Rey).



Uma cadeira de rodas?


                                                                                           Gracinda Rosa  
                                                                                                                
A ambulância percorreu a curta distância entre o hospital e meu edifício com a sirene anunciando a sua passagem. Fui conduzida na maca até a sala do meu apartamento, onde me esperava a cadeira de rodas. Deveria ocupá-la por alguns meses, segundo as prescrições do cirurgião que se encarregara de restaurar meu fêmur, vítima de uma fratura múltipla, na queda que sofri em uma esquina perto de onde moro.
Os enfermeiros me transferiram da maca para a cadeira de rodas e se foram.
Eu inaugurava, ali, uma nova realidade em minha vida. Senti logo grande simpatia pela cadeira que, emprestada por amigos, permitiria minha locomoção pela casa durante o período de recuperação. Por dois meses não poderia encostar o pé direito no chão. Dependia de alguém que me conduzisse para lá e para cá e que cuidasse de todos os afazeres domésticos, pois estava com sérias limitações que me impediam de levar uma vida normal.
Encarando a ideia de que estaria, durante um bom tempo, presa à cadeira de rodas, com sérias restrições às minhas atividades, não me deixei abater. Lembrei-me do Monteiro Lobato que, em 1941, durante o movimento que ficou conhecido como o “escândalo do petróleo”, foi preso e mantido em detenção preventiva, pois estava sendo acusado “pelo crime de escrever uma carta sincera ao Presidente Vargas”. Ele confessa que sempre havia sonhado com uma reclusão que lhe permitisse ficar a sós consigo mesmo, para meditar sobre o livro de Walter Piktin – A Short Introduction to the History of Human Stupidity. Aproveitou, também, para dedicar-se à tradução do Kim, do Kipling.
Condenada à vida de cadeirante, durante algum tempo, por que não aproveitar a oportunidade para pôr em dia minhas leituras e escritas? De início, apenas li. Desfilaram sob meus olhos páginas de Rosamunde Pilcher, Miguel de Cervantes, Gustave Flaubert, João Ubaldo Ribeiro, José Saramago, Inês Pedrosa, Pascal Mercier, Ney Eichler Cardoso, Dênis de Moraes, Machado de Assis, Kahlmeyer-Mertens, Maria José Dupré, Ondjaki, Lya Luft, Antônio Skármeta, Dalcídio Jurandir, etc. Logo que tive acesso ao computador, tratei de digitar um livro meu, que estava quase concluído, ainda na sua fase manuscrita. Sem as muitas saídas para a Academia e diversos eventos, tive tempo para terminá-lo e concluir sua digitação, sem pressa. Lá estão os originais em uma pasta, devidamente rotulada, e acomodada na estante, junto a outros escritos inéditos.
Voltei-me, depois, para um novo livro, cujo roteiro já estava esboçado, e nele trabalhei por algum tempo.
As visitas e telefonemas dos amigos tornaram mais amenos aqueles dias de convalescença. Dois meses depois de minha cirurgia, pude colocar os pés no chão e, no mês seguinte, voltei a caminhar, com ajuda do andador e da bengala amiga. Eis que esta liberdade permitiu que me dedicasse a muitos outros afazeres. Além das costuras e arrumações, já podia sair para as compras ou idas ao banco. Voltei à Academia (ANL) e aos “Escritores ao Ar Livro”. De compromisso em compromisso, o tempo começou a ficar escasso. Inspirei-me, então, no Saramago que, na última etapa de sua vida, tinha permissão de trabalhar apenas uma página por dia, não abandonando, portanto o seu papel de escritor. Tomei como obrigação escrever essa página diária e, em breve, espero estar com mais um livro concluído.
Não chegarei ao extremo do Lobato que agradece ao General responsável pela sua prisão pelos “tantos deliciosos e inesquecíveis dias passados na Casa de Detenção...”, mas seria ingratidão não registrar o valioso papel que minha cadeira de rodas representou nesse complicado período se minha vida, dando-me o ensejo de tantas leituras e de um bom avanço nas minhas escritas.

Obra de arte pintada por cadeirantes utilizando as próprias rodas das cadeiras





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domingo, 11 de setembro de 2011

Poema de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)





Ao Fernando de Aviz

Num meio-dia de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.
 Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
 subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando agente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espirito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."

E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É a minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

 


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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Café Paris, Baudelaire & Muna Omran: " - Ah! Bienal..."


Às vésperas do segundo sábado de Bienal - com lançamento de livro sobre a roda literária do Café Paris - lembremos a poesia romântica de Baudelaire, na pena de Muna Omran:



Folha de rosto de um exemplar de As flores do mal, de Baudelaire,
edição definitiva publicada um ano após a morte do poeta (1868),
 acervo da biblioteca pessoal de Roberto Kahlmeyer-Mertens


As flores do mal - Um delirante encontro parisiense


                                                                                                                                        Muna Omran

Após um dia de intensa leitura,
saio da Bibliothèque Nationale de France
e chego às margens do Sena.
Lá, sinto o cheiro de Baudelaire,
cheiro das flores do mal.
Sou marginal,
no jogo matinal,
caminho contra a multidão,
no Boulevard Saint German,
em busca do poeta francês.


Nos jardins de Luxemburgo,
Calmamente, o vejo
Contemplar o verde.
E respirar os ares parisienses
Sem um mínimo de pudor.


Oh! Verdes cabelos misturados à paisagem de Luxemburgo.
Repentinamente, some.
vou atrás,
em direção a Bois de Bologne
e vejo suas sifilíticas e raquíticas prostitutas.
Baudelaire por elas é atraído
e por elas foi traído.


Some meu poeta marginal,
agora, atravesso a Saint German
e entro na Saint Michel.
De novo a multidão.
A fonte,
os cafés,
a Sorbonne,
corro em direção ao Opera,
e de repente me vejo na “Boule” de Montparnasse.


Sigo o cheiro das flores do bem,
lembro das palavras que acabo de ler.
Quero encontrar meu poeta francês.


Como um animal,
sinto o forte cheiro de Baudelaire,
e atrás dele,
entro por um grande portão.
Vejo lápides,
olhares fúnebres,
todos lúgubres.
Entre eles,
mais um poeta torto,
o “gauche” das flores do mal.






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