Fachada da Biblioteca Pública de Niterói - BPN
No último dia 18 de setembro, recebi esta mensagem do jornalista, historiador e acadêmico Emmanuel de Macedo Soares:
“Caro Roberto,
Escrevi esse desabafo pensando no teu blog, que é hoje, sem favor, o melhor microfone de todos nós que nos metemos nesse inglório e doloroso fazer cultural.
Meu objetivo não é a crítica (pura ou impura) a quem quer que seja, embora o gesto idiota da Secretaria Estadual de Cultura o mereça, mas sim despertar as manifestações deste teu público atento e participativo num desagravo coletivo ao nosso tão querido e tão indispensável Pimentel.
Deixo a teu critério, é claro, aproveitar ou não o escrito.
Grande abraço
Emmanuel”
O texto que se seguia à mensagem versava sobre um tema que todos comentam timidamente desde que a biblioteca estadual foi reinaugurada, mas que ninguém se encorajou a falar abertamente. Trata-se da retirada, depois da reforma, da placa que registrava a existência da Sala Luís Antônio Pimentel, naquele prédio (assunto que bem poderia ser estendido ao nome da Biblioteca que passou a não mais chamar Biblioteca Estadual Geraldo Montedoneo Bezerra de Menezes) para chamar Biblioteca Pública de Niterói – BPN.
Entendendo que a questão levantada pelo texto é isenta de qualquer interesse político menor, que não fustiga qualquer figura individualmente, e que demonstra o legítimo anseio por entender o motivo da retirada do nome de Luís Antônio Pimentel (personalidade que traduz longo e importante capítulo da cultura niteroiense) é que o texto é publicado em Literatura-Vivência.
É preciso lembrar que, em nosso meio, o termo intelectual, não raro, é utilizado em sentido lato (intelectual seria um indivíduo que atraiu para si a reputação de bom leitor, de indivíduo cuja inteligência se destaca da maioria, alguém com alguma cultura literária acumulada após ter vivido muitos anos de idade e até – pasmem – alguém que possui muitos livros...). Deste modo, na mesma proporção que preciosista e ingênua, ela é também equívoca e errônea, justamente por desconsiderar uma característica sem a qual o intelectual jamais poderia ser assim conhecido. Que característica seria essa? Resposta: a intervenção pública em favor da sociedade que este – mesmo sem mandato – representa (um intelectual sem intervenção pública se resumiria a ser um professor, um literato, um erudito, um orador de ocasião ou um medalhão na sociedade).
Literatura-Vivência, enquanto fórum de debates democráticos, entende ter obrigação política solidária junto aos membros da comunidade letrada; reserva-se, portanto a atitude racional, autônoma e crítica, além da intervenção pública toda vez que isso for necessário. Apenas assim pode pretender-se um espaço intelectual (stricto sensu).
Por sua vez, sem pretender ser a fala da sociedade, a intervenção de Emmanuel Macedo Soares não apenas buscar a compreensão das motivações do fato, quanto pró-voca (sic) a discussão, junto à comunidade letrada de Niterói, sobre este episódio de interesse coletivo.
O “desabafo” de Emmanuel Macedo Soares, na íntegra, é o que temos a seguir:
O que foi feito da Sala Luís Antônio Pimentel?...
Soube, por um amigo, que a Secretaria Estadual de Cultura retirou de uma das salas da Biblioteca Estadual o nome do nosso emblemático Luís Antônio Pimentel, sob a alegação de que a lei proibe homenagens a pessoas vivas.
Os governos em nosso país, como todos sabemos, são muito rigorosos no cumprimento das leis. A lei proíbe o cidadão de roubar e matar, e como o governo é um cumpridor intransigente da lei, vivemos nesse paraíso em que não há ladrões nem assassinos. Os poucos que aparecem são rigorosamente punidos com séculos de prisão.
Os nossos hospitais funcionam magnificamente, porque o governo cumpre religiosamente a constituição e as leis que garantem ao cidadão o direito à saúde. As escolas, nem se fala. Oferecem um ensino de altíssima qualidade, porque assim manda a lei e o governo é um fiel cumpridor das leis.
Mas vamos e venhamos. Eu cansei de cruzar na Avenida Amaral Peixoto com o comandante Amaral Peixoto, a caminho do PSD, que ali tinha sede. Vi o embaixador Paschoal Carlos Magno inaugurar no campo de São Bento o Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, aos beijos e abraços com um rapaz muito distinto que na falta de emprego melhor nomearam prefeito de Niterói. Não faz muito tempo, também vi o juiz Alédio Vieira Braga assistir a inauguração do Forum Trabalhista que leva seu nome em Niterói. No Rio de Janeiro há um autódromo com o nome de Nelson Piquet, que pelo menos até este momento em que escrevo ainda está vivo.
Por sobre isso, é infinita a quantidade de plaquinhas com que governadores, secretários, diretores e subdiretores disso e daquilo tentam imortalizar seus nomes toda vez que inauguram alguma obra pública, sem dar as mínimas para as leis. É bem capaz de até haver alguma na nova Biblioteca Estadual de Niterói.
Aliás, também o nome de Matoso Maia foi retirado da sala que apadrinhava, talvez porque a secretaria não saiba quem foi Matoso, ou ignore que ele já morreu.
Há exatos 50 anos eu conheço e convivo com o Luís Antônio Pimentel, e sei que ele está pouco se lixando para o gesto grosseiro da secretaria dita de Cultura. Sua imortalidade não depende nem precisa de plaquinhas. Não foi conquistada pelo fato de ser filho ou neto ou sobrinho de nenhum político, mas pelas obras que escreveu, pelas aulas que ministrou formando tantos jovens, e sobretudo pela irretocável conduta como ser humano, que felizmente ainda hoje serve de exemplo a todos nós.






















