domingo, 11 de setembro de 2011

Poema de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)





Ao Fernando de Aviz

Num meio-dia de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.
 Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
 subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espirito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando agente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espirito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."

E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É a minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

 


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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Café Paris, Baudelaire & Muna Omran: " - Ah! Bienal..."


Às vésperas do segundo sábado de Bienal - com lançamento de livro sobre a roda literária do Café Paris - lembremos a poesia romântica de Baudelaire, na pena de Muna Omran:



Folha de rosto de um exemplar de As flores do mal, de Baudelaire,
edição definitiva publicada um ano após a morte do poeta (1868),
 acervo da biblioteca pessoal de Roberto Kahlmeyer-Mertens


As flores do mal - Um delirante encontro parisiense


                                                                                                                                        Muna Omran

Após um dia de intensa leitura,
saio da Bibliothèque Nationale de France
e chego às margens do Sena.
Lá, sinto o cheiro de Baudelaire,
cheiro das flores do mal.
Sou marginal,
no jogo matinal,
caminho contra a multidão,
no Boulevard Saint German,
em busca do poeta francês.


Nos jardins de Luxemburgo,
Calmamente, o vejo
Contemplar o verde.
E respirar os ares parisienses
Sem um mínimo de pudor.


Oh! Verdes cabelos misturados à paisagem de Luxemburgo.
Repentinamente, some.
vou atrás,
em direção a Bois de Bologne
e vejo suas sifilíticas e raquíticas prostitutas.
Baudelaire por elas é atraído
e por elas foi traído.


Some meu poeta marginal,
agora, atravesso a Saint German
e entro na Saint Michel.
De novo a multidão.
A fonte,
os cafés,
a Sorbonne,
corro em direção ao Opera,
e de repente me vejo na “Boule” de Montparnasse.


Sigo o cheiro das flores do bem,
lembro das palavras que acabo de ler.
Quero encontrar meu poeta francês.


Como um animal,
sinto o forte cheiro de Baudelaire,
e atrás dele,
entro por um grande portão.
Vejo lápides,
olhares fúnebres,
todos lúgubres.
Entre eles,
mais um poeta torto,
o “gauche” das flores do mal.






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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Instituições literárias de Niterói festejam o novo número de “Literato” na sede da Academia Fluminense de Letras.



Novo número de Literato, lançado no dia 06 de setembro de 2011.

O Literato – Jornal das letras de Niterói divulga o trabalho das principais instituições de letras da Cidade. Oferecido pela Secretaria Municipal de Cultura em associação à Fundação de Arte de Niterói (e com o apoio da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro), instituições como a Academia Fluminense de Letras, a Academia Niteroiense de Letras, o Cenáculo Fluminense de História e Letras, o Grupo Mônaco de Cultura e o Centro Cultural Maria Sabina (entre outras) se valem deste veículo para publicar sua produção intelectual, divulgar e noticiar seus eventos. Assim sendo, trimestralmente, as Instituições literárias dispõem de uma página para mostrar o que possuem de melhor.
Em cada novo número de Literato, com o intuito de reforçar os laços entre instituições, órgãos públicos e a sociedade, o jornal é lançado em um evento no qual os presidentes instituições, editores, redatores, colaboradores e, principalmente, leitores se reúnem em congraçamento. A postagem do Literatura-Vivência de hoje é o registro do número 06 (ano II, setembro 2011) do assim chamado “Jornal das Letras de Niterói”, que teve lugar na sede da Academia Fluminense de Letras, atuante na recém-reformada Biblioteca Pública de Niterói:


Fachada da Biblioteca Pública de Niterói - BPN, uma das referências da cultura da Cidade


Vista interna da BPN.

Placa em que se confere à Academia Fluminense de Letras sede no espaço da Biblioteca (Foto de O Fluminense)

O Presidente da Academia Fluminense de Letras, Dr. Edmo Rodrigues Lutterbach,
faz as honras da casa aos convidados que chegam.

Adriana Machado, representante da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro,
assina o livro de presenças.

Roberto S. Kahlmeyer-Mertens com o Presidente Edmo Lutterbach
e Diretora da Biblioteca Pública de Niterói Glória Blauth

Novamente Kahlmeyer-Mertens, Lutterbach e Blauth

A chegada de Walmir Ventura Rêgo
(ao fundo, a acessora da I.O.-RJ, Adriana Machado; Edmo Lutterbach ao lado).

Neide Barros Rêgo, Walmir Ventura e Edmo Lutterbach.

Neide Barros Rêgo assina o livro de presença e o casal de acadêmicos Gilson Rangel Rolim e Edel Costa  (representantes respectivos da Academia Niteroiense de Letras - ANL e da Associação Niteroiense de Escritores - ANE ) aguardam para também subscrever.

A jornalista Aparecida Rollemberg,
representando a Secretaria Municipal de Cultura e a Fundação de Artes de Niterói.

Aparecida Rollemberg registrando sua presença.

 Vitral decorativo com motivo literário no salão da
Academia Fluminense de Letras.




Representantes das diversas Instituições literárias
e dos demais órgãos envolvidos na publicação de Literato.

Julio Vanni, Aparecido Rollemberg, Edmo Lutterbach, Carlos Mônaco e Neide Barros Rêgo
Alguns dos representantes das instituições literárias que integram o Jornal.

Parte da assistência do evento: pequena mas seleta.

A descontração após a formalidade.


Entre os presente, o detaque para Graça Eliana Thuler, presidente do Clube de Esperanto de Niterói e Juber Baesso, representando a Academia de Letras da Região Oceânica de Niterói - ALRON.

Da esquerda para a direita: Carlos Mônaco. Julio Cezar Vanni e Edmo R. Lutterbach
(homens que trabalham pela cultura de Niterói).

Ao fundo: Gilson Rangel Rolim e Marco Aurélio Faria; em primeiro plano, Edel Costa, a professora Dionilce Silva de Faria. Neide Barros Rêgo (de costas).


O debate de Julio Vanni com Marco Aurélio Faria.

O presidente da Academia Fluminense de Letras, Edmo Rodrigues Lutterbach e o presidente do Cenáculo Fluminense de História e Letras, Julio Cezar Vanni: colóquio de fim de festa.


Dois retratos do contentamento de Carlos Silvestre Mônaco


O afável Julio Cezar Vanni aprecia o novo número de Literato.


Imagem noturna da fachada da  BPN, sede da AFL.



Luís Antônio Pimentel, Bienal 2011.
(assita o vídeo):




Fotos da homenagem à Pimentel na Bienal 2011.



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domingo, 4 de setembro de 2011

Poesias de um "poetinha diletante"

Vale aqui tudo aquilo que eu falei sobre poetas e cangalhas na postagem de 2 de julho:



Poesias de Tempo e caminho,
por Roberto S. Kahlmeyer-Mertens


A Gracinda Rosa
Luiz Antônio Barros
Geraldo Freitas Caldas
Wanderlino Teixeira Leite Netto


Na aurora,
logo que descoberta a graça,
esculpiu-se a mulher
cujo seio terno
soube acolher o tempo.
Referência e signo
de um poder ser possível
na penumbra imemorial.


Eu queria um verbo
capaz de reunir o acaso que sou,
ao vale em que moro;
ao sentido do outro com quem vou.
Um verbo com meu semblante
redimindo cismas;
as máculas que se sofreu.
E que me fizesse entender doravante.


No mais quieto do espírito,
ali onde se esqueceu do como se é,
rumina o tempo transformações.
Sem que saibamos;
sem que ousemos saber;
sem que saibamos ser.
O tempo faz e deixa
que nos reunamos com o sagrado.

KAHLMEYER-MERTENS, R. S. Tempo e caminho.
Rio de Janeiro: Publit, 2006. pp. 16, 44, 46.



Vidas pequenas,
viço do princípio:
luz, solo; verbo.
Serenidade
Soa-me familiar,
Silente vésper.

A senda grata
ao orvalho da noite.
Novo verdor?

KAHLMEYER-MERTENS, R. S. In: Roteiro da poesia brasileira – Anos 2000.
(Org. Marco Lucchesi). Rio de Janeiro: Global, 2009. p. 159.






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Convidamos a todos para o lançamento de
Literato – O Jornal das Letras de Niterói –
do Número 06 Ano II - Setembro 2011, que será distribuído gratuitamente,
no auditório da Academia Fluminense de Letras,
prédio da Biblioteca Pública de Niterói, Praça da República s/n - Centro,
na próxima terça-feira, dia 06/09, 16h.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Para quem não vai à Bienal no fim de semana, viajar com Renato Augusto Farias de Carvalho é um bom programa.



Uns dias serenos




Viajar é uma ação renovadora, sempre. Pressupõe desamarrar (pré)conceitos e esquecer inevitáveis comparações. Mais que tudo, viajar é redescobrir, é surpreender-se. Encontro, dessa feita, uma Europa escaldante, sob um céu ocre avermelhado, que parece igualar todos os rostos, inflexivelmente escondidos em enormes lentes escuras. É, sem dúvida, o reino do Sol. Mas, os jardins de Portugal não revelam queixumes: a maioria tem as relvas espontaneamente verdes, uma espécie misteriosa de reserva dos dias mais frescos. Encanta-me, a pátria de Camões, de Fernando Pessoa, de Amália Rodrigues, de Maria Aliete Galhoez, de Agustina Bessa Luís e de Fernando Namora, que eu li, por obrigação, nos velhos tempos de exame vestibular. É bonito sentir-se a alma nova de um país que busca a própria modernidade sem perder respeito e amor às estruturas sociais, costumes e tradições. Procuro entender Portugal como deve ser: a um tempo simples e sofisticado, Portugal europeu. O Rio Douro parece invenção poética, margeando milhares de parreiras, matrizes do abençoado vinho do Porto. Permanecem serenos, em Lisboa, o antigo elétrico, o apaixonado fado, a imponência dos teatros na velha Baixa, os edifícios da universidade, próximos à Torre do Tombo, e admiro, sobretudo, os ideais literários e políticos de uma juventude atenta às expressões de liberdade e de desprezo às amarras das ditaduras. As azulejarias das pequeninas estações ferroviárias refletem a romântica preservação da alma portuguesa, enquanto os comboios passam rápidos, reconduzindo-nos, contrariamente, aos antigos e descansados acenos de um tempo de ontem, registrado apenas nas imaginações.
Revejo o Castelo de Guimarães, onde nasceu o 1º rei – D. Afonso Henriques – e vou percorrendo as ruas e ladeiras da histórica cidade do Porto, e Vila Nova de Gaia. Procuro, com cautela, o eterno Café Majestic e a maravilhosa Livraria Lello... No norte, não se pode esquecer as cidades de Aveiro, Viseu, Lamego, Penafiel, Régua, tampouco a Várzea de Ovelha, no Conselho de Marco de Canavezes, onde nasceu a pequena notável: Carmem Miranda. Guardo um carinho especial à minha tão íntima Vila de Lousada e às terras vulcânicas das Termas de Alcafache. Trago, por fim, na bagagem, alguns exemplares do excelente JL – Jornal de Letras Artes e Ideias – um quinzenário informativo português, que demonstra o interesse pelo movimento intelectual lusitano da atualidade. Não posso deixar de citar os museus portugueses, referência especial ao Museu da Cidade e ao Calouste Gulbenkian, construído “para receber a Coleção de Arte do grande financeiro armênio”, contando mais de 7000 objetos de arte: é visita obrigatória, de, pelo menos, um dia inteiro. Deixo Portugal com alma e coração enriquecidos em direção a Veneza, e vamos alcançando a Croácia, Tunísia, a irresistível Madeira e suas verdejantes montanhas, as Canárias, a doce Málaga... E retorno ao inquestionável murmurinho sempre azul-forte da nossa costa brasileira. O vento é morno, assobia abraços e lá se vêm o Recife de Manuel Bandeira e João Cabral, a Bahia de Mãe Menininha, e Jorge Amado... Até chegarmos às costas do irmão Pão de Açúcar – nosso Rio de Janeiro: alegria da volta, da casa, dos amigos, e um sussurro meio confuso de muitas notícias (que nem queríamos ouvir!) a respeito de desafetos, desacordos e páginas policiais... Entretanto, é aqui, aqui mesmo, onde mora a esperança verde e amarela que nós aprendemos a cantar e reter desde crianças.



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terça-feira, 30 de agosto de 2011

"A cor inexistente" na mediação entre Pedrosa e Lucchesi




Imaginemos duas horas nas quais cores e palavras se misturassem numa mesma paleta, que intuições intelectuais e afetos gravitassem num mesmo ambiente, afinando ânimos e consolidando ideias. Duas horas nas quais a aula se transforma em culto à inteligência e a matéria se transubstancializa em autêntico saber. Uma aula assim só se torna possível se observadas três condições: 1. a acolhida de muitos, 2. a disposição de alguns e 3. a presença de uma generosidade única.

As fotos que se seguem retratam essa combinação de fatores durante a aula que o artista plástico Israel Pedrosa deu – a convite do Professor Marco Lucchesi – no encerramento do curso de Especialização, veiculado ao Projeto Museu da Vida, na Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro (29 de agosto de 2011):


Castelo Mourisco, símbolo maior da Fiocruz


Campus da Fiocruz em Manguinhos - RJ 



Marco Lucchesi, Israel Pedrosa e Roberto S. Kahlmeyer-Mertens
nos momentos qua antecederam a aula.

O fraterno diálogo entre Lucchesi e Pedrosa


Marco Lucchesi apresenta Israel Pedrosa para seus alunos e
declara sua afinidade intelectual com o artista e teórico da arte.

“O autor tem todas as características dos maníacos, dos loucos, dos possessos, dos obsessos, dos obsediados, dos obsecados, dos obsessionados com a imensidão de sua racionalidade buscadora, e inquisidora e de sua emoção transfiguradora que o transformam num sábio e artista, às vezes até quase um santo, pois às vezes a miragem e o projeto de que se deixou motivar o levam a orações quase franciscanas de aparente ingenuidade, vale dizer, de pureza que não atemoriza os iluminados.”

Antônio Houaiss. Críticas, depoimentos e notícias.
In: Da cor à cor inexistente. Rio de Janeiro: SENAC Nacional, 2009. p.240.


Pedrosa inicia sua aula falando dos anos de sua educação estética.

“Da cor à cor inexistente é o título do esplêndido livro de Israel Pedrosa, pintor e senhor de sua arte e que alcança dizer o máximo, e bem, com a maior clareza, sobre as teorias da cor, endereçando-se à prática profissional à experiência e à paixão do artista. Um livro para artistas, professores e estudantes de arte, para críticos e curiosos da arte e da pintura (...) Israel Pedrosa, com paixão pelo assunto e responsabilidade profissional, com capacidade excepcional de pesquisador, fez um estudo completo sobre a importância da cor e seus fenômenos interferentes na visão.”

Quirino Campofiorito, idem, p.241.


O pintor fala do convívio com o mestre Cândido Portinari nas décadas de 1940-60

“A vista inventa as cores, ou melhor, a vista metamorfoseia a realidade ao seu modo. E embora isso seja totalmente imaginário, é cientificamente constatável. É como nas narrativas fantásticas de Kafka e Garcia Márquez: nada daquilo existe (...) Esta obra deveria ser utilizada nas aulas de filosofia ou ser convertida em manual para a gente entender as verdades políticas e ideológicas que nos tentam impingir(...) Portanto, retomando o fabuloso livro de Israel Pedrosa, pode-se dizer que entre a cor e a cor inexistente estão todas as cores, sobretudo as imaginárias.”




"Você já reparou que que a cor preta na luz é mais clara que a branca na sombra?"
Com essa saudável provocação de Portinari, Pedrosa lançou-se em suas primeiras especulações cromáticas.

“Carlos Drummond de Andrade em uma de suas poesias indaga: ‘Como é o lugar/quando ninguém passa por ele?/Existem as coisas sem serem vistas?’ (...) Israel Pedrosa é um dos incontestáveis valores intelectuais de nosso país. Seu legado artístico e teórico forneceu subsídios para a criação de novos paradigmas estéticos, contribuições presentes no duradouro êxito de seu Da cor à cor inexistente.”





O artista e teórico da arte desfiou a rede de relações com a co presente em sua pesquisa original.
Segundo ele, a investigação que revelou o fenômeno da "cor inexistente" cobrou-lhe estudos de física teórica e um diálogo com o ensaio sobra a Teoria das cores, de Goethe.

“(...) se tudo é vibração, eu, como amigo de Israel Pedrosa e homem interessado na abertura de horizontes sempre novos ao conhecimento e ao progresso humanos, confesso que estou vibrando – e o digo sem falsa modéstia, pois o mais triste que pode haver neste mundo é ser incapaz de vibrar.”

Geir Campos, idem, p.244.



Israel Pedrosa conta que muito mais do que pesquisa, o estudo da cor demanda
o desenvolvimento de uma acuidade visual.


“(...) Tua contribuição enriquece e renova a paleta (talvez considerem anacrônico mencioná-la) que se conserva ainda na mão do homem, que o coração comanda. Tens à tua frente um caminho aberto. E tu o percorrerás com a mesma honestidade e modéstia que marcaram tua árdua escalada.”

Iberê Camargo, idem, p.244.




Luminosidade, percentual de cor, vibração, percepção... conceitos que Pedrosa precisou explicar demonstrando algumas experiências de sua pesquisa.

Na foto, Lucchesi acessora Pedrosa durante a demonstração com discos cromáticos.

“Agradável reabrir, de vez em quando, o envelope que trouxe a mensagem de boas-festas do Pintor Israel Pedrosa. E, dentro, comprovar que a cor inexistente existe mesmo. Pelo que se conclui muitas outras coisas ditas inexistentes, lá um dia poderão também existir, e com isto se alcançará não apenas a essência da harmonia cromática, mas a própria essência da harmonia universal.”







Pedrosa recorre às suas serigrafias para demonstrar o fenômeno da cor inexistente aplicado à arte.

Roberto Kahlmeyer-Mertens assiste Pedrosa durante a exposição.


As obras do artista despertam o interesse e entusiasmo dos alunos.

“(...) Pedrosa abriu caminho próprio a partir de uma descoberta a que ele deu o nome de cor inexistente (...). Pedrosa reduz a experiência estética ao aqui e agora das excitações da retina. E isto não impede, mas, pelo contrário, propicia uma tal intensificação do campo visual, que nos termina por desencadear uma carga de impacto e, por um instante que seja, nos fascina”.

Ferreira Gullar, idem, p.245.


Israel Pedrosa notou que por mais que desse cursos regularmente para difundir as ideias relativas à cor inexistente, havia a dificuldade de compreensão do fenômeno do público das artes. Essa falta de pré-requisitos Pedrosa procurou sanar escrevendo Da cor à cor inexistente.

Com Da cor à cor inexistente, Israel Pedrosa foi premiado pelo Instituto Thomas Mann na Alemanha.

Por causa do êxito de Da cor à cor inexistente, Israel Pedrosa forneceu acessoria a diversas emissoras de TV (no Brasil e na Alemanha) na época de implantação da TV à cores.
Este livro "nascido diante do cavalete" também rendeu-lhe o convita para coordenar a equipé que escrevia o verbete "cor", na Enciclopédia Mirador/Britânnica do Brasil.


“Excelente o discurso que Israel Pedrosa pronunciou por ocasião da reabertura do Museu Antônio Parreiras. Simples, objetivo, esse ilustre mestre de tintas, dos maiores do Brasil de hoje, fez o retrato 3 x 4 do fluminense Parreiras com inigualável precisão. Nem uma palavra a mais, nem uma a menos, Israel estava em dia de
Capela Sistina”.
 
 

Ao fim da aula, Marco Lucchesi agradeceu a participação do "filósofo da cor" em seu curso

  Pedrosa em um gesto amistoso resolveu sortear os livros entre os alunos presentes.

“(...) A boa verdade é que a sua condição de filósofo da cor assegura o título de pintor das ideias, de artista da renovação, de renovação no processo da arte (...) Saudamos, igualmente, sua obra escrita, notadamente os estudos de 1968, quando veio a público o que poderíamos talvez denominar Teoria e prática
do mistério da cor (...)”.

Marcos Almir Madeira, idem, p.246.



Diversos alunos foram agraciados com os livros com o conteúdo da aula

Também uma serigrafia do artista foi sorteada.

Pedrosa chegou a autografar livros

“(...) o ensaísta rigoroso e sutil caminhou com a mesma verdade e com a mesma demanda em suas Dez aulas magistrais. Pedrosa ultimou aqui sua genealogia. Homenagem a outros que vemos a si mesmo (...) Não sei de uma inquietação e de uma perfeição que convivam de modo tão harmonioso no mesmo ateliê, no misterioso refúgio de Israel, laboratório químico e teatro alquímico, buscando a clara geometria das coisas, em seus diálogos noturnos (...)”

Marco Lucchesi, idem, p.247.



Após a aula, o clima foi de descontração, contentamento e gratidão mútua.

Os professores Israel Pedrosa, Roberto Kahlmeyer-Mertens, Marco Lucchesi e a secretária Chistina Rivas



Fotos do grupo





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