segunda-feira, 29 de agosto de 2011

“Misael” – Crônica de paternidade e correspondência poética


Não é segredo o juízo que faço do livro Misael, fruto da mestria de A. Barcellos Sobral. Minha apreciação se encontra registrada em uma postagem anterior de Literatura-Vivência (confira). Por agora, devo ratificar que se trata de um livro de valor singular, algo que demorará a ser superado na cena literária fluminense. Fico feliz em não estar só nesta avaliação, poetas respeitados como Wanderley Francisconi Mendes, José Inaldo Alonso (além de outras personalidade das letras: Alceu Amoroso Lima e Antônio Carlos Villaça) têm o mesmo parecer sobre esta “crônica de uma paternidade”.
Recentemente encontrei na poetisa Neide Barros Rêgo outra admiradora de A. Barcellos Sobral. Neide (que foi responsável pela organização de algumas importantes antologias poéticas de nosso estado, como é o caso da memorável Água escondida – Poesia) é autora de uma carta que não só reforça o coro favorável a Misael, quanto nos fornece subsídios conhecer mais detalhes da recepção desta obra no ano de 1998.
A postagem de hoje, além de trazer algumas partes seletas de Misael (deixando que o leitor possa fazer também sua avaliação sobre a obra), traz a afetiva carta de Neide Barros Rêgo ao mestre A. Barcellos Sobral.





Fragmentos de Misael – Crônica de uma paternidade


                                                                                                                         A. Barcellos Sobral

10.
Aí vem ele. Acendrar, cada vez mais, o coração: que a luz se encharque de luz. Acender os olhos, as mãos. Lavar-me nas águas da tua serenidade, Senhor: inocência não ficará, junto de mim, como flor ao pé do espinheiro.
Não posso tanto perder-me da angelitude. É preciso que, entre dois extremos – ele e eu, haja coincidências brancas.

11.
Por fim ele chegou. Como diamante bacento, mal garimpado na gruna.
Veio batizado de sangue. Lágrimas houve de Inaiá. Lágrimas simples como o orvalho que rega a felicidade das flores.
Bendita seja a vida que o fez belo como o dia. Puro como a trapoeraba dos campos.
Bendita seja Inaiá – portão de ouro por onde ele entrou para habitar o enigma da vida.
As águas jogam-se no abismo para que as cidades se iluminem.

(...)

15.
Ah, o momento em que o ouvimos, pela primeira vez, o choro do filho recém-chegado!
Toque para acordar que põe em marcha, no curso da imaginação, um bando de futuros. Segunda vida reacendendo a nossa velha vida. Como se engenhoso infinito irrompesse de surpresa.

16.
Ele dorme enrolado no cobertor. Sono límpido, de rola, na acácia do jardim. Dorme ao lado de Inaiá, ainda cansada do sofrimento mágico de anteontem. Um contraste está armado sobre o leito generoso: a palidez da face que a tormenta machucou; e o róseo do anjo, incólume, intato como a manhã do campo.
Se eu pudesse dormir um instante com seu sono, quando acordasse explicaria ao homem o rosto de Deus.

(...)

18.
Misael. Assim o chamaremos.
Que seja esse o outro nome da bondade, da beleza e da verdade.
Esse nome é harpa da esperança. Nela ensaiamos o adágio da felicidade. Parece-nos um nome forte para dizer as fortalezas e delicados que lhe ensinaremos.

(...)

21.
Dizem que ele parece comigo. O eco reproduz e remenda a voz esmigalhada. A madrugada copia o amanhecer.
Parece que nos sentimos mais vivos, na vida de nossos filhos, quando algum deles demonstra alguma parecença conosco. No físico, no temperamento ou no caráter. Ver-nos duplicado ou triplicado em algum de nossos filhos como que dilata nosso tempo existencial. Prova nossa força geratriz, sua preponderância sobre as demais que influem nos secretíssimos processos genéricos.
O filho que se parece conosco é como um parceiro, um cúmplice que prolonga nosso sentimento de vida, nossa presença entre as demais presenças humanas.

(...)

26.
O sorriso de Misael encanta como um rasgo de infinito.
O girassol acompanha o movimento furtivo do Sol. Eu sigo os jeitos e alegrias de Misael, que está viçoso como capim, às margens úmidas do ribeiro.
Felicidade inédita, esse captar a delicadeza. A pequenina imensidade. O existir suculento de Misael.

(...)

30.
Os olhos de Misael são dois candeeiros que iluminam a claridade do nosso quarto.
Seus lábios estão a ponto de descobrir a volúpia da palavra. Neles ainda zumbe a abelha da inocência.
Ele aprendeu a levantar e sacudir os braços tênues. Balança-os como o vento balança as hastes do tinhorão que Inaiá plantou atrás da casa.
Quando ele ri, o rosto se acende como céu de verão.

31.
Ao isolar-me para escrever, tenho a impressão de que não devia fazê-lo. De que estou em prejuízo.
Deixando Misael, a fim de escrever estas notas, sinto-me como se deixasse o ouro pelo cobre salpicado de azinhavre.
Valerá a pena trocar, por alguns momentos, a obra da carne pela obra do espírito? Metafísica nenhuma seria capaz de resolver esse doce problema.

(...)

34.
Que quer ele, ao levantar os braços flutuantes e balançá-los, no ar, como dois pêndulos tontos, desencontrados, quando dele aproximo meu rosto? Às vezes, penso que se sente atraído pelos meus cabelos, e coloco-me de modo que ele possa tocá-los. No entanto, quando ele os alcança, recua. Como se eles queimassem seus dedos. Assim faz o pássaro ferido, À aproximação das mãos que tentam recolhê-lo, na moita onde se abrigou.
Outras vezes, penso que ele gosta desses balanceios, a ponto de fruí-lo com os músculos e nervos calouros.
Em nada ele toca com esses gestos quase sonâmbulos. Com estes, certamente, exercita-se o ritmo existencial. A dinâmica que, um dia, ele executará nas suas rondas, na sua temporada de adulto.
Os braços, ainda cegos, de Misael são um colar que perdura o céu em volta de meu pescoço.

35.
Filhos são metástases de tempo que a vida desprende e usa para compor e recompor o rio da sua duração, dentro da eternidade do universo.

(...)

(SOBRAL, A. Barcellos. Misael – Crônicas de uma paternidade.
Niterói: Cromos, 1996.)



Carta de Neide Barros Rêgo a A. Barcellos Sobral (datada de 1998)

                                                                                                                             Neide Barros Rêgo

Prezado Sobral:


Com o meu pedido de desculpas pela demora em pronunciar-me, aqui estou para expressar-lhe a minha gratidão pelo envio de seu livro “Misael – Crônica de uma paternidade” e dizer-lhe o quanto apreciei sua oferta.
Agradeço, sensibilizada, a gentileza de enviar-me sua mais recente publicação, da qual foi portadora uma amiga muito especial – Mila Barbosa.
Foi um presente precioso. Embevecida, li e reli vários tópicos, os quais pretendo ler muitas vezes.
Seu Misael exerce sobre nós o efeito da água fresca, quando estamos sedentos; do alimento saboroso, quando estamos famintos; da música suave, quando necessitamos de paz, bem-estar, repouso em cama aconchegante de quarto silencioso. Misael nos enleva e nos eleva.
Bem-aventurados os mansos porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurado você, Sobral, cuja alma pura tem a mansidão dos santos e dos anjos. Em você há suavidade, delicadeza de sentimentos.
No mundo estressante de hoje, de correrias, preocupações, ansiedades, pressa, medos, violências, torna-se quase impossível acompanhar-se com tranquilidade o crescimento de nossos filhos. E você o fez, até mesmo antes de eles passarem pelo “portão de Inaiá” para ver a luz do dia.
Vocês saborearam o sono tranquilo, o trocar de fraldas, o efeito da música, o fechar dos olhos, o erguer dos braços, o ficar de pé, o interesse pelas novidades, as descobertas, os passeios, as curiosidades, as experiências.
De você e de Inaiá os filhos receberam, diuturnamente, dedicação, paciência, bondade, compreensão. Dotado de sensibilidade, e com a arte de um exímio escritor, um verdadeiro poeta, você consegue passar todas as suas emoções para nós, leitores. A riqueza literária passeia por todo o texto. Passeia e permanece. Seu texto é pura seda. Seda pura.
O livro encantou-me desde a dedicatória a Inaiá e a seus filhos. Encantou-me da primeira à última página. “Se não olharmos para o alto, não veremos as estrelas.” Emocionei-me com tanto Amor e tanta Beleza.

Deus o abençoe.
Neide Barros Rêgo







Divulgação Cultural
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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Maximiano de Carvalho e Silva na Academia Niteroiense de Letras (um dia de história)

             Fachada da Academia Niteroiense de Letras no traço de Miguel Coelho


“Senhora Presidente da Academia Niteroiense de Letras, minha querida, ex-aluna, colaboradora em projetos de pesquisa Márcia Pessanha que, até pouco tempo, via como Diretora da Faculdade de Educação da UFF;
meu querido amigo Roberto Kahlmeyer-Mertens, que foi o intermediário deste convite, sempre atento, sempre dando-me tantas provas de dinamismo, de interesse cultural, que é um dado altamente auspicioso, Kahlmeyer-Mertens é um representante de uma geração que está disposta a continuar um trabalho encetado ao longo dos anos;
meu caro Jorge Fernando Loretti, amigo de velha data na UFF, nós trabalhamos juntos na consolidação daquela universidade a qual eu vou me referir na palestra de hoje;
meu amigo Israel Pedrosa, companheiro de longa data, nós estamos ligados por uma amizade muito grande; meus caros ex-alunos, também representados pelo acadêmico Luiz Antônio Barros, que falou, aqui, em nome da Academia, deixando-me sob funda emoção em verificar que livros que eu ajudei a fazer, que eu editei e fiz chegar às mãos de meus alunos ficaram guardados em sua lembrança.
Devo confessar que uma das tristezas do professor está no fato de, depois do contato com a turma, ele perder o contato, sem saber o que aconteceu. Esta declaração de carinho e apreço que acaba de me ser dada é, com certeza, um grande estímulo para o prosseguimento de nossa missão. Não esmorecer para não desmerecer.”

Foi com esse cumprimento cordial (transcrição fiel da fala introdutória à palestra “Alguns aspectos da vida cultural de Niterói”) que o professor Maximiano de Carvalho e Silva iniciou sua comunicação na Academia Niteroiense de Letras diante de um auditório tão repleto quanto atento. Cercado de quatro gerações de alunos, colegas professores, acadêmicos de diversas instituições literárias e da grande maioria das figuras de relevo cultural da cidade, o ilustre filólogo, aos 85 anos, deu mostras de grande lucidez e carisma ao dissertar sobre a gênese de instituições acadêmico-universitárias de nossa cidade, sobre personalidades que junto a elas atuaram e de fatos verdadeiramente históricos.

Após a palestra Maximiano de Carvalho e Silva (rematada por uma salva de palmas com toda audiência de pé), Jorge Fernando Loretti traduziu em palavras o sentimento comum a todos os que estiveram naquela sessão de 24 de agosto de 2011: “Tenho a impressão que o dia de hoje ficará marcado para sempre na memória de nossa Academia”.

O registro deste dia histórico para a ANL é o que temos na presente postagem:






 O acadêmico Luiz Antônio Barros, ex-aluno de Maximiano de Carvalho e Silva, durante a alocução que apresentou o palestrante ao público que lotou o recinto da Academia Niteroiense de Letras

A mesa diretora da ANL composta por Jorge Loretti (em primeiro plano),
Maximiano de Carvalho e Silva (palestrante), Marcia Maria de Jesus Pessanha (Presidente) e
Israel Pedrosa (artista plástico e convidado de honra da ANL).

Maximiano de Carvalho e Silva iniciou a palestra lembrando do ano de 1953, quando foi convidado a ser professor assistente do filólogo Gladston Chaves de Melo na PUC-RJ. Período em que foi professor de alunos ilustres como a acadêmica da ABL Nélida Piñon


O palestrante dissertou lembrou também do colega professor Rosalvo do Vale (um dos maiores latinistas brasileiros) que, em 1957, lhe fez o instigante convite para lecionar na então incipiente Faculdade Fluminense de Filosofia, em Niterói.


Vista da seleta audiência do evento. Entre os presentes podemos divisar a professora Maria Felisberta Trindade, os acadêmicos Geraldo Freitas Caldas e Gracinda Rosa.


Novo ângulo da plateia na qual se identifica o acadêmico Luiz Antônio Barros em primeiro plano, os acadêmicos Gracinda Rosa e Geraldo Caldas (ainda na primeira fila); na fila de trás os acadêmicos Antônio Soares, Edel Costa, Gilson Rangel Rolim. Ao fundo da sala temos ainda José Alfredo de Andrade e Sandro Rebel, ambos membros da ANL


Pormenor da plateia no qual o professor Antônio Puhl
e a professora Dalma Nascimento aparecem em destaque.


Novo ângulo da audiência


Maximiano de Carvalho e Silva dissertou especialmente sobre a Faculdade Fluminense de Filosofia.


O palestrante lembrou que entre os primeiros professores da Faculdade Fluminense de Filosofia estava um notável grupo de especialistas em estudos clássicos, filológicos, linguísticos e literários em que avultavam as figuras de Ismael de Lima Coutinho, Balthasar Xavier de Andrade e Silva e Antenor Nascentes. A esse mesmo grupo, nos primeiros anos da faculdade, também pertenceram os professores Horácio Pacheco, Silvio Edmundo Elia e Cleonice Berardinelli.

Nomes relativos à “fina flor da intelectualidade e do magistério fluminense” estiveram presentes na fala do palestrante, entre eles: e Ismael de Lima Coutinho.


A afirmativa segundo a qual “os nomes de Durval de Almeida Batista Pereira e Ismael de Lima Coutinho não podem deixar de ser lembrados aqui em Niterói”, arrancou aplausos da plateia.

Segundo o professor Maximiano de Carvalho e Silva, 25 de maio de 1946 é data do lançamento da pedra fundamental de Faculdade Fluminense de Filosofia. Consolidada a faculdade, a reunião que viabilizou o projeto possuía em sua ata a assinatura das seguintes personalidades: Afro Amaral Fontoura, Lealdino Soares Alcântara, Claudio Vianna, Francisco Mariano Bittencourt Silva e Ismael de Lima Coutinho. Os nomes que se juntaram a esses, posteriormente não poderiam também deixar de ser lembrados: Durval Batista Pereira, Camilo Guerreiro, Monsenhor Uchôa, Ernani Pires de Melo, Benedito Ottoni, Abel Elias de Oliveira, José Agostinho de Lara Vilela, Maria Pereira das Neves, Felício Toledo, Everardo Backheuser e João Raposo.


Maximiano de Carvalho e Silva defendeu a necessidade de se fazer um histórico da Universidade Federal Fluminense, e propôs que mesmo as instituições acadêmico-literárias possuam um registro histórico. Louvou a Academia Niteroiense de Letras ao saber que a Instituição possui um livro que conta sua história, a saber: A dança das cadeiras – História da Academia Niteroiense de Letras, do acadêmico Wanderlino Teixeira Leite Netto.

O palestrante ressaltou e insistiu na preservação da memória das instituições acadêmicas e universitárias, sendo aplaudido de pé.


Após a palestra, o professor Maximiano de Carvalho e Silva respondeu perguntas de Wanderlino Teixeira Leite Netto, de Gilson Rangel Rolim e  de outros interessados no diálogo.


Também o Dr. Jorge Loretti fez uso da palavra, comentando e elogiando a fala do colega.




Ao fim, a Presidente Marcia Maria de Jesus Pessanha (ex-aluna de Maximiano)
encerrou a sessão.

O palestrante recebe os cumprimentos do público após sua fala.


O educador Antônio Puhl interage com o filólogo Maximiano de Carvalho e Silva


Roberto S. Kahlmeyer-Mertens presenteia Maximiano de Carvalho e Silva com um exemplar de Vida Apertada, obra de Luiz Leitão resgatada em edição crítica e dotada de aparato filológico.


Max recebe os cumprimentos do Pedrosa.


Acadêmicos, amigos e ex-alunos aguardam para afagar o antigo mestre


O professor e ensaísta Francisco Cunha e Silva Filho em colóquio com Maximiano


Jorge Loretti, Maximiano de Carvalho e Silva,
 Israel Pedrosa e R. S. Kahlmeyer-Mertens
em 24 de agosto de 2011


Maximiano de Carvalho e Silva em meio a um grupo de ex-alunos entre os quais se identifica a profa. Dalma Nascimento, a professora Márcia Pessanha e o professor Luiz Antônio Barros.


A acadêmica Edel Costa com Jorge Loretti


O professor Maximiano de Carvalho e Silva com o poeta piauiense Alberto Araújo


O crítico e ensaísta Cunha Silva Filho, o professor de filosofia Kahlmeyer-Mertens e o lexicógrafo Luiz Antônio Barros: três bons amigos.




Saudação de Luiz Antônio Barros a Maximiano de Carvalho e Silva

                                                                                                                              Luiz Antônio Barros

A 5 de julho de 1926, nascia no Rio de Janeiro Maximiano de Carvalho e Silva, professor emérito da UFF, onde tive o privilégio de ser seu aluno nos idos de 1967. Seu currículo é alentado, mas eu me restringirei a dados essenciais para não fatigar a plateia. Destaquemos:
 
a) Livre-docente em Filologia Portuguesa – UFF
b) Membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia
c) Professor da UFF (1957-1968), por onde se aposentou como titular de Filologia / Crítica Textual.
d) Professor de Língua Portuguesa dos Cursos de Jornalismo e Letras da PUC-RJ - ( 1953-1968).
e) Diretor do Centro de Pesquisas da Fundação Casa de Rui Barbosa ( 1970-1975)
f) Professor de Língua Portuguesa de vários educandários da cidade do Rio de Janeiro, como o Colégio de São Bento, o Colégio Pedro II e o Colégio de Aplicação da Faculdade Nacional de Filosofia (1945-1970).

Atividades culturais e administrativas que exerce atualmente:

a) Magistério e pesquisa, principalmente nos domínios das ciências da linguagem (Crítica Textual, Linguística Portuguesa, estudos literários) e dos estudos históricos.
b) Atividades editoriais, como autor de edições especiais e de artigos publicados na revista Confluência, editada pelo Liceu Literário Português e em outros periódicos.
c) Diretor bibliotecário do Liceu Literário Português. (Rio de Janeiro)
d) Membro da Comissão Diretora do Instituto de Língua Portuguesa do Liceu Literário Português.

Principais obras:

a) Sousa da Silveira: O Homem e a obra – sua contribuição à crítica textual no Brasil.
Publicado em 1983, pela Editora Presença, com o patrocínio do INL: texto revisto e ampliado da tese com que obteve dois anos antes o diploma de livre-docente em Filologia Portuguesa pela UFF.
b) Maximiano de Carvalho e Silva (org.): Homenagem a Manuel Bandeira, RJ, Presença, 1986.
c) Sousa da Silveira, Lições de Português, 6ª. ed. melhorada . Revisão crítica, em consulta com o autor, pelo Prof. Maximiano – Livros de Portugal – Rio de Janeiro, 1960.
d) Sousa da Silveira – Dois Autos de Gil Vicente (o Auto da Alma e o Auto da Mofina Mendes), 3ª. ed., com prefácio do Prof. Maximiano e estudo prévio de Cleonice Berardinelli, Rio, Fundação Casa de Rui Barbosa, 1972.
e) “Os Lusíadas” comentados por Augusto Epifânio da Silva Dias, 3ª. ed., com estudo prévio do prof. Maximiano, Rio de Janeiro, MEC, 1972.
 
Deixei para a parte final desta minha apresentação o registro de alguns livros lidos e consultados no meu tempo de UFF.

a) Gonçalves Dias – v. 18 da coleção Nossos Clássicos, Agir, 1969: revisão crítica em consulta com o autor Manuel Bandeira, de Maximiano de Carvalho e Silva.
b) Dom Casmurro: apuração do texto, revisão, introdução e notas por Maximiano de Carvalho e Silva – Ed. Melhoramentos, São Paulo, 1966.
Os primeiranistas da UFF, em 1967, lemos este romance com a satisfação e a segurança de estarmos lendo uma obra com o seu texto fidedigno. Tal leitura teve um sabor que jamais esquecerei.
c) Cadernos MEC de Português, em três volumes. O 3º v. foi escrito pelo Prof. Maximiano. Lembro-me de que eu já ministrava umas aulinhas naquela época. O livro do MEC me deu as primeiras noções do que era mais necessário para os alunos. Trata-se de um livro agradável, isento de gramatiquices, é óbvio, ensina os alunos a consultar dicionários, estimula os alunos a descobrirem os nomes de nossa literatura (Lobato, Gonçalves Dias, Castro Alves, Cassiano Ricardo, Cecília Meireles, Alencar, Machado...), de nossa música erudita (Carlos Gomes), dos que lutaram pela abolição da escravatura, como Joaquim Nabuco, de importantes sociólogos, como Gilberto Freire, de importantes autores portugueses  como Camões...
d) Gramática Histórica da Língua Portuguesa, de Said Ali. São Paulo: Melhoramentos, 1964. Estabelecimento do texto, revisão, notas e índices de Maximiano de Carvalho e Silva. (Infelizmente não encontrei o meu exemplar; acredito que alguém se esqueceu de devolvê-lo)

Professor Max, passo às suas mãos um exemplar da “Coletânea de Estudos Linguísticos e Literários Said Ali”, Org. pela Profa. Acaciamaria de Fátima O. da Costa.
Editado pela Nitpress. Trata-se de uma homenagem justíssima ao grande Manuel Said Ali, sobre quem declarou Capistrano de Abreu:” Said Ali não é dos que se comparam; é dos que se separam.”

Bem: antes que alguém pense que o palestrante de hoje sou eu, passo a palavra, com muito orgulho, ao Prof. Maximiano de Carvalho e Silva.

Obrigado.






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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Agosto: mês do cachorro louco, mês das bruxas, agosto mês do desgosto...

Em 24 de agosto houve a erupção do Vesúvio que destruiu Herculano e Pompeia, é a data em que Getúlio meteu uma bala no peito, é dia de palestra de Maximiano de Carvalho e Silva na Academia Niteroiense de Letras e de crônica de Carlos Rosa Moreira, exclusivo para o Literatura-Vivência.




Agosto: mês do cachorro louco, mês das bruxas, agosto mês do desgosto...


                                                                                                                            Carlos Rosa Moreira

Agosto não é mês dos mais queridos. Acho isso grande injustiça; acho também ignorância. Talvez não gostem dele porque não tem feriados. Tem o Dia dos Pais, menos concorrido (e dispendioso) do que o das mães; tem o insosso Dia do Soldado, festejado na data de nascimento do Duque de Caxias, dia vinte e cinco. E parece não ter mais nada que valha um festejo ou um feriadozinho. Mas imagino que o motivo da antipatia pode ser outro. Antigamente, quando havia as deliciosas férias de inverno que duravam julho inteiro, era agosto que punha fim nelas. O danado do agosto recomeçava o ano. “Ai, meu Deus, tá chegando agosto...” Dizia alguém, a aproveitar os derradeiros dias do amigável julho. E agosto se tornou o “mês do meio”, um mês sem charme que deve passar.
As pessoas precisam ver. É necessário ver para viver. Coloca-se a vida num canudo sem janelas dentro do qual se repete dia após dia o mesmo ritual. A vida se torna algo a ser consumido pelas horas. Deseja-se que dias, semanas, meses e anos passem, de preferência, bem rápido. Mas um mês não é, simplesmente, dias a correr um atrás do outro. Os meses têm características e personalidades ligadas à natureza, aos astros, à História. Para começar, agosto é um mês nobre. É dedicado a Caio Júlio César Otaviano, chamado Augustus (daí, agosto), o apoteótico imperador que ao morrer tornou-se deus. A deusa Ceres ─ deusa da agricultura ─ , a mesma Démeter que os romanos pegaram emprestada dos gregos, consagra agosto. E aqui no Brasil, Ceres é deusa-mãe.
Afirmo isso porque, como se não bastasse ser nobre, agosto é, nada mais nada menos, o mês da floração do capim-gordura. Sim senhores, um rico presente da deusa Ceres. Convido-vos a sair do canudo, ide apreciar a floração do capim-gordura!
É preciso escolher um canto de serra. Melhor será uma pequena vila do interior, um lugar de plantação e colheita. Haverá morros cobertos de capim-gordura. Chegue cedo, antes do nascer do sol. Deixe o carro, vá a pé. Agasalhe-se, pois o mês é de frio. Fará bem sentir esse frio na cara. É frio caído do céu durante a noite sob forma de sereno perfumoso; e é frio que emana da terra, onde o sereno se aconchegou. Caminhe. Pise a terra dos caminhos. De um lado terá a mancha esbranquiçada das encostas cobertas pelo capim-gordura, mal iluminadas pela luz difusa da madrugada; do outro lado haverá plantações e as leiras recém-semeadas. O céu começará a clarear. Vai ficar azul, que é cor de céu em agosto. Vem o Sol, surge manso, com raios delicados e tenros trazendo uma quenturinha boa. Então a luz aumenta, dá firmeza ao azul e se deita sobre as encostas de capim-gordura. Os pendões em floração, cheios de orvalho, recebem aquela luz e brilham, brancos, imaculados, cobrindo as encostas de neve. É a neve tropical do capim-gordura em floração. Verdadeiro espetáculo que a arte do Sol desvenda aos olhos, graciosamente, durante o mês de agosto. Se tiver sorte, soprará uma brisa carinhosa que fará a neve dançar, e você pensará que as colinas caminham ao seu lado. Mantenha o peito aberto e a cabeça erguida, respire fundo o perfume daquele pedacinho da Terra onde você está. Seus pulmões e seu cérebro clamarão por respiradas profundas e agradecerão. Desveja a vida do canudo e aprenda a ver. Agradeça por estar vivo. Observe as plantações ao lado e as humildes leiras, berços das plantinhas novas. Abaixe-se, pegue a terra, cheire-a, passe no rosto, sinta-a entre seus dedos. Você estará de mãos dadas com Ceres, a deusa da terra e das plantas. Siga pelos caminhos pisando a terra que é mãe e agasalho. O Sol vai subir e queimará sua pele com a luz que não existe no canudo onde sua vida transcorre. Se você perceber o coração sorrir e se sentir feliz, é porque um cantinho esquecido da sua alma ganhou um carinho. A deusa o abençoou, deu-lhe de presente a simplicidade e a beleza da vida. E soprou-lhe aos ouvidos que não devemos desaprender a ver. Os presentes são muitos, e nos chegam de diversas maneiras. Nossa mãe Terra é pródiga. Mas abafamos dentro de nós a ligação com o mundo que nos cerca e com todos os seres dos quais somos irmãos. Porém essa ligação é indelével, inquebrantável, eterna. Precisamos senti-la, necessitamos vê-la, somos parte da família. Senão nosso espírito sofre, um sofrimento mudo que nos consome, mesmo sem percebermos.






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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Euclydes da Cunha, poeta

4:54h. Fim de um serão de estudos. Uma postagem só para o dia nascer feliz:

Euclydes da Cunha segundo Cândido Portinari  



Saint-Just

Un discours de Saint-Just donnait tout de suíte
un caractère terríble au débat...
(RAPFY: Procès de Louis XVI)


Quando à tribuna ele se ergueu, rugindo,
- Ao forte impulso das paixões audazes
Ardente o lábio de terríveis frases
E a luz do gênio em seu olhar fulgindo,


A tirania estremeceu nas bases,
De um rei na fronte ressumou, pungindo,
Um suor de morte e um terror infindo
Gelou o seio aos cortesãos sequazes -


Uma alma nova ergueu-se em cada peito,
Brotou em cada peito uma esperança,
De um sono acordou, firme, o Direito -


E a Europa - o mundo - mais que o mundo, a França -
Sentiu numa hora sob o verbo seu
As comoções que em séculos não sofreu!









segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Um encontro com livros; um encontro consigo nos livros





Nos livros me encontro


Muna Omran



Livros
amordaçados,
no espírito perdido,
no coração partido,
no verso silenciado,
no poema aprisionado,
no termo maculado,
no espírito vazio,
no amor sumido,

Livros

calados.
Casas.
Bares.
Bailes.
Não há espelhos
Nem allegros
Nem minuetos
Nem palavras do momento.

Livros

anchados.
Na escrivaninha,
não está o poetinha
nem suas riminhas
e assim não há poesia

Livros
lacrados.
Um poeta louco,
um poeta rouco,
com a folha em branco,
pensa no canto.

Livros

marcados.
Metáforas
Rosa
Ironias
Machado
Metonímias
Cecílias
Hipérbato
Lispector
mergulho na lírica...

Livros
sentidos.
Estoura a leitura.
O coração se liberta,
espírito em loucura,
palavras na alma borbulham
e enfrentam a biblioteca

Livros

cravados.

Na alma do poeta,
a liberdade se alegra.
Nas estantes da grande biblioteca,
esbarram as palavras impressas.


Livros
abraçados.

Os Amores de Moll Flanders
nos morros de ventos uivantes
cantados pela língua de Cervantes.
Doravante

Livros
amados.

 
 



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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Maria Sabina de Albuquerque: Um compêndio




Quem conhece Maria Sabina? Esta pergunta incomoda duplamente. Em primeiro lugar, irrita os leitores que conhecem esta que foi, além de poetisa, jornalista, declamadora, líder feminista, escritora, professora de  oratória, de francês, de inglês, de literatura universal, enfim, uma personalidade de destaque na cena cultural da primeira metade do século XX; por outro lado, provoca os que não a conhecem, pois os confronta com a ignorância do legado literário desta figura (ignorância que, nesse caso, quase constitui um déficit de formação). Entre os dois casos, contudo, julgo que o primeiro incômodo ainda é mais próprio, pois nele se encontra potencialmente mesclado o inconformismo de ver Maria Sabina de Albuquerque com menos reconhecimento do que o merecido, além da vontade saudável de colocá-la no nicho em que ela deveria estar. Que posto seria esse? Ora, precisamente aquele que é destinado a uma diva da cultura e literatura brasileiras (ao lado de Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, e Cecília Meireles).
A referida vontade – felizmente – não fica no plano do idealismo. Ela ganha concretude em um trabalho admirável desenvolvido desde 1961 pelo Centro Cultural Maria Sabina (CCMS), espaço dedicado à memória da pessoa e obra da autora. Prova maior desta dedicação é Neide Barros Rêgo, a mais autêntica seguidora de Maria Sabina  e que, com diligência, preside os diversos empreendimentos do referido Centro Cultural.
É também capitaneada por Neide Barros Rêgo uma equipe de pesquisadores que prepara, já há 13 anos, um compêndio que pretende reunir a vasta documentação sobre a vida e obra da autora. Maria Sabina se encontrará, assim, muito bem “mapeada” em uma edição que compilará seus escritos literários, notas biográficas, as muitas notícias históricas veiculadas em jornais de circulação da época e rico material fotográfico que retrata as diversas fases da longa Carreira da autora.
Programado para ser uma volume substancial, os organizadores do Compêndio em homenagem à Maria Sabina, já se encontram na iminência de ter que se haver com pelo menos três alentados tomos, dado à riqueza documental que esta pesquisa de fôlego trouxe como resultado (o mesmo fôlego que emulou outros trabalhos organizados por Neide Barros Rêgo, como por exemplo: a antologia Água escondida, de 1994, e Brazila Esperanta Parnaso, de 2007).
Publicado este compêndio, julgo que todos podemos responder, positivamente, à pergunta com a qual este artigo se inicia, justamente por saber que Maria Sabina, além de uma Biografia é um todo compendiado e, como bem nos diz Hegel, “A verdade está no todo”(!)


Silêncio

                                                                              Maria Sabina de Albuquerque

Silêncio... quanto mais sugeres que a palavra!
Tua eloquência estranha e persuasiva
tem tanta força em sua imprecisão!
Falas melhor de tudo quanto lavra
no recôndito da alma inquieta e viva,
perturbas muito mais o coração

Silêncio... para as almas foste feito:
tudo o que é belo ou mau no nosso peito
fala melhor se tudo se calou...
É no silêncio que melhor se pensa;
no silêncio a saudade se condensa;
sempre em silêncio é que melhor se amou.

O silêncio foi feito para a prece;
é no silêncio que a nossa alma tece
a trama singular das ilusões...
É no silêncio que melhor se chora;
é no silêncio que melhor se adora

e em silêncio se falam os corações...




Divulgação Cultural
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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Cegueira da palavra – Leitura, literatura e filosofia






Todo o visível é enunciável e é inteiramente
visível porque é inteiramente enunciável
Foucault

Os deuses não morreram: o que morreu foi a
nossa visão deles. Não se foram: deixamos de os ver.
Pessoa



Que o universal só é alcançado no pensamento está dito em todos os liames e meandros onde o lógos posiciona-se hora em vez que conjugado com o mithos, abandonando a pretensão dos épicos gregos da pequenina Atenas reclamada nas viagens translúcidas de Vernant; cabe-nos investigar a ordem dessa afirmação. Talvez aqui falemos de Literatura.
Inspirar formas e propalar imagens descontinuamente proto-históricas é um dos grandes desafios postos na ordem da existência das positividades, nesse espaço onde o método é premissa e o ritmador de existências revela-se Pollock das almas que passam a existir quando do bater de asas do colibri.
Há um saber explicitamente-implícito no cotidiano dos mortais: o cego não vê. Daí constatamos o quanto potencialmente ignorante somos, universalmente débeis estamos e homicidas do belo nos tornamos. Ao dar possibilidade histórica de existência ao texto o autor deve procurar a cegueira das palavras e lembrar que todas têm imagem; desnudá-las de sentidos anteriores sem a ordem onipotencializadora do novo, com a revelação do descontínuo que se encontra em processo de. Mas o cego é que nutre essa possibilidade, pois já está no caminho das imagens livres, vê com as mãos e com os outros sentidos que desenvolve por necessidade e possibilidade/materialidade existencial de ocupar as vias urbanas de vitalidades múltiplas onde a forma é que dita o campo de significados, não a imagem recebida unilateralmente; a visão do cego transforma, a nossa nubla, forma em tomos formas já designadas como verdadeiras. Mas o que é a verdade senão um lapso da investigação poética? Uma possibilidade que quando pensada evapora, que quando vista líquida ilude; o ato de repouso dos olhos a faz gasosa.
A verdade é escrava da razão, a imagem do cego projeta uma outra idéia de espaço-tempo. O cego faz Literatura, recria o criado. Assim como em Deleuze quando da Filosofia, o cego é o inventor de conceitos. Saramago já gritou isso.
Não seria um caminho para você, leitor, buscar a cegueira das imagens, passando a ver o que só é visto inicialmente com as mãos? Talvez esteja aqui um exercício da anatomia das imagens – talvez Literatura – que são designadas por aqueles que não vêem o verde como verde, mas sua essência, a cor que é dita pela pulsão de todas as funções existenciais, distantes de Sartre, deslocando conceitualmente as reflexões de Heidegger e enveredando-se pela imagética criação de Dali por vezes repousada nas geometrizações de Picasso, no todo, desintegradas por Warol.
Possivelmente tal desintegração possa ser vista no enfrentamento da leitura como atividade plural que coloca em xeque a unidade entre autor, obra e leitor; levando também ao questionamento das verdades instituídas por disciplinas como a História e Teoria da Literatura.
Escrever e/ou transcender o espaço-tempo no plano de uma concretude possível abarca os devaneios instaurados pela idéia de limite ou ordem de aparição. Há quem diga que o pensar já é um telos instaurador e as reticências da abstração aportam em um ponto final.
A escrita é uma produção, instauradora de verdades que se percebe como tal quando da busca, daí sua centralidade. Quando situada no plano binário (seria hora de nos dirigirmos para a terceira dimensão ou buscar o alcance da música atonal?) erige autor-leitor, intermediado pela obra. Teriam, os mesmos, existências independentes? Talvez a Literatura não permitisse.
Ler é atribuir significados, ato esse grávido de tradições e interconexões do criado, alguns diriam do existente em qualquer dos mundos possíveis. Perquirindo a idéia de que original é quem plagia primeiro – misto de Platão e Lavoisier operado por Matoso – diríamos que a obra serve ao criador até o momento que não for lida; assim, quando lida, estará de posse do leitor, promiscuindo-se infinitamente nesse processo. Daqui pode ser feito o istmo de verdade, este em processo de solidez ideológica, um dos momentos do reino da História e Teoria da Literatura, gestão efêmera quando conjugadas pelos verbos convencer e seduzir. Diria Silviano: se eu conseguir prender meu leitor até a 30a página de meu livro, conquistei-o. Pois sim, não há representações sólidas sobre as nuvens. A leitura está entranhada no âmbito da cultura, da ressignificação e mostra-se uma contrabandista de significantes e significados.
A obra não é uma via de acesso ao real muitas das vezes instaurado pela ficção? O melhor dos mundos possíveis é esse mundo e a criatura – texto – esvai-se em infinitudes a partir do momento que se faz concebida; iludem-se – leitor e autor – que elas lhes pertencem, e o tempo de apropriação é um istmo ou aquilo que quando pensado deixa de ser (convocando Wenders: a imagem quando vista não é mais).
Pensar em unidade nessa trilogia esquizofrênica da criação é abortar a idéia de linearidade intersubjetivada no caos. O real é composto de ilusões e/ou partículas de angstrons da ilusão. Afinal o que é real e ficção no mundo literário? Que nos ouça Rosa, que nos leia João Cabral e que nos vasculhem Machado! São existências profundamente heterogêneas que conferem graus de simetria e homogeneidade, a leitura faz captá-lo. O belo depende disso pois é simétrico mesmo quando em fractais. O esculpir de Rodin nos fala, mesmo de fora da fractalidade. O caos é uma ordem, ainda desconhecida, mas exibida nas ruas de João do Rio.
Como só vemos o que conhecemos e o traduzimos a partir do que somos, a leitura instaura-se como o sopro do criador (o desafio é identificá-lo, criador) sobre o já criado, em um ritmo espiralado, transmutando-se a cada passo caótico, a cada cognição, a cada ato de empréstimo de existências conferidas por autor e obra no momento de transcendência do leitor.
Talvez o desafio seja ser obra, ser criatura-criante; ser algo que ainda não foi no espaço-tempo. Tanto História quanto Ciência da Literatura não capturam tal movimento, ainda estão na discussão prévia de ditar verdades – porém necessárias – de Copérnico, mas a simbiose de atribuição de significados no plano dos significantes – leitura – já consome Newton e Einstein no plano histórico de Heisenberg.
Os deuses são cegos e a razão é moral. O autor deve ser um asceta de cego, sem a megalomania acidental-obrigatória do discurso cristão que unifica essa cegueira, que funda estatutos de verdade, que conjuga a construção de imagens no singular e faz do plural da palavra a miséria dos fracos, fundando a mais fétida moral. No politeísmo do cotidiano amoral a limitação da experiência é explícita e os que querem o recurso da não-forma amparam-se na experiência trágica da loucura que se mostra como ausência de obra, que sai do campo do batismo de caserna, que faz do campo de visão a bengala da inutilidade verbal.
Sim, o verbo é fundante mas a palavra prenhe de possibilidades está sempre em construção, continuamente descontínua e em profundo flerte com a loucura, fomentando realidades que vários deuses não acessaram – mesmo demiurgos – e que por isso se colocam como ditadores de realidades, criadores de essências que se mostram como odores fétidos de putrefação cintilante, uma negação de Dostoievski. Não é humano o ato de categorização da palavra, os homens quando homens são, necessariamente – também –, discurso de palavras que ainda não se foram, mas gestadas/geradas/geridas/geladas no ato mesmo do pensamento; aquele que descortina o discurso no universo de mudez da criação, viabiliza a condição histórica de possibilidades e esteriliza tudo o que há de nocivo à saúde do autor, esse integrante do Olimpo da beleza, hóspede do habitat do traço/treco/trança/troco/tripa/trôpego; perfilado aleatoriamente no espaço infinito que se mostra finito aos olhos contaminados pelas certezas do mundo fácil, lá aonde o homem perde seu principal instrumento diferenciador da fauna terráquea: a palavra. Ela é um fractal e produzida sob sons, esses só ouvidos pelos desprendidos. Aqui a rima é lixo e o não-visto é luxo, luxúria. Literatura?
O discurso da loucura tornou-se adjetivo da démarche histórica do universo da arte. Do Rosário, Gogh, Claudel e outros não formatados aqui se fazem presentes. A arte liberta de toda (?) referência de dominação quando pensada como transgressão do óbvio, nesse universo a Literatura integra/entrega o suspiro dos vivos. A Literatura dá voz ao louco, este cria e transgride o real dos empedernidos de normalidade. Não pode! Não pode! Não pode mostrar-se confortador e/ou conformado com os deuses da escrita - que não morreram, sabemos. Os deuses realmente mostram sua força quando tornam-se profundamente desnecessários. Delicioso desafio: saborear o fel lendo os papéis preenchidos por Nise, numa simbiose de Psicologia, Literatura e Filosofia, emanadora da música.
Não enxergar. É esse o imperativo categórico dos que fazem gritar a liberdade, dos que percorrem letras buscando a disparidade da razão. Desrazoar a razão é o exercício primeiro da criação, desarvorando/mostrando seus limites e expressando sua crise no oceano de sensibilidade ativa/hermenêutica quando em relação com o pensamento, pois onde a palavra naufraga o texto navega e a razão desintegra. Somos minúsculos na captação.
Procurar a heterogeneidade nos leva ao encontro da homogeneidade e faz-nos perder a produção em série quando alcançado o que fora busca. É tão bela a idéia da busca pela busca, mas o mundo de mercadorias-neon só permite que busquemos o que já foi devidamente colocado como de objetivo claro, não vê que o nome das coisas não é as coisas. Assim, talvez, a Literatura leia Aristóteles e seja nutrida por Baudelaire.
Não pode haver objetividade sem a caracterização explícita do processo subjetivo. O concreto é posterior ao abstrato e exige da imaterialidade polissêmica o quadro que ainda não foi, mas está tomando forma a cada grão de realidade que repousa em seu texto, a cada letra que perfila o espaço em branco de Gates. Onde estão os guardiões de idéias que não entram nessa busca pela cegueira? Ora, para pensar abstratamente é necessário um corpo, pois nosso compromisso deve ser sempre com o pensamento; por mais que ele esteja limitado pela razão que é falha/folha/fosca, mas contém uma forte disciplina interna de lançar-se ao concreto, contaminando-se de materialidade, dando palavra ao texto, tirando-o do enclausuramento das luzes que a tudo vê e nada capta, só representa o óbvio da transgressão no plano da representação, em muito, da verdade, essa desprezível instauradora de normas.
A essência do texto é ser um conjunto de palavras vivas, tentando ir além da démarche dos neologismos, buscando os orvalhos de significados das transliterações dos irmãos Campos, estes que – junto com Pignatari – fizeram da estética das palavras um grito-alto-mudo das artes urbanas: concretismo; onde a palavra grita a libertação do cárcere, sem memórias, estado bruto. Talvez verdade literária.
O conhecimento produz conhecimento. Sim à redundância difícil que se mostra superficialmente fácil. Enganemos os adoradores de deuses que os vêem sob a ótica da necessidade, que fazem do perdão a figura fácil do sorriso sem espaços com um imperativo que se mostra combustível dos apolíneos: transgressão. Adorar a alguém é fazer-se escravo do fútil, há algo mais desprezível? Quando servo da cegueira abra os olhos. Sê Zaratustra.
O espaço da palavra é o próprio espaço do texto-organismo e o tecido orgânico das idéias é o próprio corpo tornado fundador do logos. Nada, nada estabelece limites tão rígidos à liberdade de um texto quanto à absoluta falta de palavra, a absoluta falta de idéias, a morte do pensamento e a megalomania da reflexão. Literalizar a realidade talvez seja o seu recriar.
Um texto mostra-se fundante, quando, também, cega o local enquanto índice do global, respeita o movimento incessante das partículas que compõem a semântica, pluraliza a etimologia e percebe as infinitas possibilidades de aparição da polissemia. Enganou-se quem disse (diz?) que só a ciência produz conhecimento, se assim o for somos todos cientistas na acepção iluminista da palavra. Será que em todo o planeta há a conjugação que ser é ser em si estendendo-se ao outro? Quem determina abruptamente os campos semânticos deve percorrer a escrita de Caetano nas neo-imagens dos sons de Campos com as devidas aliterações e paronomásias (peias dos pés presos... pretas)? O texto é uma poesia do impreciso, terrivelmente precisa, que nos maravilha e nos agride na sordidez coiseante (a coisa coiseia, ou as coisas coisificam, não nos diz Heidegger?) das imagens, compactadora das angústias e das incertezas humanas, expulsando a doença das palavras, aquela fragmentadora de pulsões; valendo-se da habilidade do autor que não privilegia tal dimensão factual, como essência, mas pensá-la em sua realidade e expô-la. Que nos valham os límpidos sons das idéias de Roberto Machado musicalizados por duas notas: descontinuidade e saber.
O texto é um simples acidente cuja realidade individual não deve prejudicar a ordem essencial da palavra, fá-la brotar do impossível, conhecendo. Conhecer a palavra é revelar seus sintomas, o que está mais próximo de sua natureza. Ora, o que mostra o estudo da palavra – fusão terminal da Filosofia e Literatura – mostra o espaço da percepção a tal ponto um espaço lingüístico que não há uma diferença fundamental entre ver e dizer. Aqui o liame-limite da cegueira, onde todos os sentidos tornam-se desnecessários por não haver privilegiamento do momento mesmo da captação da idéia, fundando o espaço para realização do texto.
É a aproximação da estrutura lógica do leitor que permite à história das palavras sorver um de seus objetivos fundamentais: a nomeação do visível em comunicação com o invisível. Pela estrutura o visto torna-se dito e o cego aparece como um mestre em transcendência; aqui o que se chama de estrutura está permeado por uma experiência temporal, ainda não percebida, mas os apressados já a querem definir, dizendo o que está, negligenciando o que não está. Guiar-se pela facilidade para quê? Até hoje não sabemos em qual inseto metamorfoseou-se Gregor; a pressa determinou a barata...
Quem cria cuida e queda pelo quântico dos dissimulados. Um não aos meros reprodutores, os mesmos de linearidade burra que matam qualquer possibilidade do coro das Bacantes. Não queira fazer-se eunuco do desejo, grite o insano de Munch e carnalize a imagem com Bacon, deixando-a em pendência, nublando o que está claro: crise.
Para que haja signo uma idéia deve representar outra e, ao mesmo tempo, nela deve estar manifestada essa representação. Mas os signos copulam com o tempo e a poligamia autoral faz crescer internamente o mundo dos cegos e dos que lutam para sê-lo, para sorver a seiva da selva dos servos do politeísmo autoral. Só é original quem se faz ouvinte e perde a visão quando do ato da escrita ou mesmo desdiz o dito no campo branco de celulose. Talvez haja aqui Literatura.
Toda morte tem positividade. Não queremos positivismo, mas recuperar (?) o que nunca se perdera na base dos cegos: burla da imagem! Optemos por morrer na suposta totalidade, não deixando marca/possibilidade de vida. O vínculo se mostra independentemente de nossa limitada vontade do distanciar-se. Ar que compõe a atmosfera que nem todas as narinas estão aptas a imiscuir-se, promiscuir-se, aludir-se, evadir-se. O evasivo de Woody não é a marca de sua genialidade? A não-captação do quadro já pintado e a eleição do outro no mesmo contexto do sempre não é o nutriente das lentes de Godard? A câmera não segue o pulso das pálpebras no percurso traçado pelos jovens da Nouvelle Vague? A imagem contextual em movimento não é o imperativo categórico do velho no Cinema Novo ou nos nórdicos do Dogma? Morte, sim, morte sempre. Ela condição de possibilidade de vida, que no sagrado encontra-se em aberto, dessacralizado. Faz-se Severina, morte e vida.
O cansaço é natural quando a análise mostra-se iceberg, correndo um sério risco da cegueira nunca chegar e a nossa música nunca mais tocar. Não, não distinguimos por critérios de objetividade, pois ela, só, é burra; não faz em nenhum momento, só se deixa fazer, unilateralmente. Ao lixo os critérios de objetividade, mas só depois de compreendidos e milimetricamente sorvidos. Assim, a intersubjetividade é explicitada na intertextualidade. O caminho de nós mesmos são os outros, devemos vê-los como cegos que cerceiam a facilidade da imagem, que jogam a palavra no abismo das possibilidades, transgridem o linear, buscam o caos...