“Ser anfitrião das belas letras.”
Com esta legenda, o presente Blog pretende abrir espaço para os talentos da literatura (com ênfase na fluminense). Tal sítio é reservado ao fomento e divulgação da boa poesia, da crônica, do conto, da crítica e, também, da vivência em meio às Instituições acadêmico-literárias. Preservar a memória dessa literatura, promover o trabalho de autores cujas obras já se encontram consolidadas e apoiar as promessas que ingressam na senda literária é o nosso papel.
Quando à tribuna ele se ergueu, rugindo, - Ao forte impulso das paixões audazes Ardente o lábio de terríveis frases E a luz do gênio em seu olhar fulgindo,
A tirania estremeceu nas bases, De um rei na fronte ressumou, pungindo, Um suor de morte e um terror infindo Gelou o seio aos cortesãos sequazes -
Uma alma nova ergueu-se em cada peito, Brotou em cada peito uma esperança, De um sono acordou, firme, o Direito -
E a Europa - o mundo - mais que o mundo, a França - Sentiu numa hora sob o verbo seu As comoções que em séculos não sofreu!
Quem conhece Maria Sabina? Esta pergunta incomoda duplamente. Em primeiro lugar, irrita os leitores que conhecem esta que foi, além de poetisa, jornalista, declamadora, líder feminista, escritora, professora de oratória, de francês, de inglês, de literatura universal, enfim, uma personalidade de destaque na cena cultural da primeira metade do século XX; por outro lado, provoca os que não a conhecem, pois os confronta com a ignorância do legado literário desta figura (ignorância que, nesse caso, quase constitui um déficit de formação). Entre os dois casos, contudo, julgo que o primeiro incômodo ainda é mais próprio, pois nele se encontra potencialmente mesclado o inconformismo de ver Maria Sabina de Albuquerque com menos reconhecimento do que o merecido, além da vontade saudável de colocá-la no nicho em que ela deveria estar. Que posto seria esse? Ora, precisamente aquele que é destinado a uma diva da cultura e literatura brasileiras (ao lado de Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, e Cecília Meireles).
A referida vontade – felizmente – não fica no plano do idealismo. Ela ganha concretude em um trabalho admirável desenvolvido desde 1961 pelo Centro Cultural Maria Sabina (CCMS), espaço dedicado à memória da pessoa e obra da autora. Prova maior desta dedicação é Neide Barros Rêgo, a mais autêntica seguidora de Maria Sabina e que, com diligência, preside os diversos empreendimentos do referido Centro Cultural.
É também capitaneada por Neide Barros Rêgo uma equipe de pesquisadores que prepara, já há 13 anos, um compêndio que pretende reunir a vasta documentação sobre a vida e obra da autora. Maria Sabina se encontrará, assim, muito bem “mapeada” em uma edição que compilará seus escritos literários, notas biográficas, as muitas notícias históricas veiculadas em jornais de circulação da época e rico material fotográfico que retrata as diversas fases da longa Carreira da autora.
Programado para ser uma volume substancial, os organizadores do Compêndio em homenagem à Maria Sabina, já se encontram na iminência de ter que se haver com pelo menos três alentados tomos, dado à riqueza documental que esta pesquisa de fôlego trouxe como resultado (o mesmo fôlego que emulou outros trabalhos organizados por Neide Barros Rêgo, como por exemplo: a antologia Água escondida, de 1994, e Brazila Esperanta Parnaso, de 2007).
Publicado este compêndio, julgo que todos podemos responder, positivamente, à pergunta com a qual este artigo se inicia, justamente por saber que Maria Sabina, além de uma Biografia é um todo compendiado e, como bem nos diz Hegel, “A verdade está no todo”(!)
nossa visão deles. Não se foram: deixamos de os ver.
Pessoa
Que o universal só é alcançado no pensamento está dito em todos os liames e meandros onde o lógos posiciona-se hora em vez que conjugado com o mithos, abandonando a pretensão dos épicos gregos da pequenina Atenas reclamada nas viagens translúcidas de Vernant; cabe-nos investigar a ordem dessa afirmação. Talvez aqui falemos de Literatura.
Inspirar formas e propalar imagens descontinuamente proto-históricas é um dos grandes desafios postos na ordem da existência das positividades, nesse espaço onde o método é premissa e o ritmador de existências revela-se Pollock das almas que passam a existir quando do bater de asas do colibri.
Há um saber explicitamente-implícito no cotidiano dos mortais: o cego não vê. Daí constatamos o quanto potencialmente ignorante somos, universalmente débeis estamos e homicidas do belo nos tornamos. Ao dar possibilidade histórica de existência ao texto o autor deve procurar a cegueira das palavras e lembrar que todas têm imagem; desnudá-las de sentidos anteriores sem a ordem onipotencializadora do novo, com a revelação do descontínuo que se encontra em processo de. Mas o cego é que nutre essa possibilidade, pois já está no caminho das imagens livres, vê com as mãos e com os outros sentidos que desenvolve por necessidade e possibilidade/materialidade existencial de ocupar as vias urbanas de vitalidades múltiplas onde a forma é que dita o campo de significados, não a imagem recebida unilateralmente; a visão do cego transforma, a nossa nubla, forma em tomos formas já designadas como verdadeiras. Mas o que é a verdade senão um lapso da investigação poética? Uma possibilidade que quando pensada evapora, que quando vista líquida ilude; o ato de repouso dos olhos a faz gasosa.
A verdade é escrava da razão, a imagem do cego projeta uma outra idéia de espaço-tempo. O cego faz Literatura, recria o criado. Assim como em Deleuze quando da Filosofia, o cego é o inventor de conceitos. Saramago já gritou isso.
Não seria um caminho para você, leitor, buscar a cegueira das imagens, passando a ver o que só é visto inicialmente com as mãos? Talvez esteja aqui um exercício da anatomia das imagens – talvez Literatura – que são designadas por aqueles que não vêem o verde como verde, mas sua essência, a cor que é dita pela pulsão de todas as funções existenciais, distantes de Sartre, deslocando conceitualmente as reflexões de Heidegger e enveredando-se pela imagética criação de Dali por vezes repousada nas geometrizações de Picasso, no todo, desintegradas por Warol.
Possivelmente tal desintegração possa ser vista no enfrentamento da leitura como atividade plural que coloca em xeque a unidade entre autor, obra e leitor; levando também ao questionamento das verdades instituídas por disciplinas como a História e Teoria da Literatura.
Escrever e/ou transcender o espaço-tempo no plano de uma concretude possível abarca os devaneios instaurados pela idéia de limite ou ordem de aparição. Há quem diga que o pensar já é um telos instaurador e as reticências da abstração aportam em um ponto final.
A escrita é uma produção, instauradora de verdades que se percebe como tal quando da busca, daí sua centralidade. Quando situada no plano binário (seria hora de nos dirigirmos para a terceira dimensão ou buscar o alcance da música atonal?) erige autor-leitor, intermediado pela obra. Teriam, os mesmos, existências independentes? Talvez a Literatura não permitisse.
Ler é atribuir significados, ato esse grávido de tradições e interconexões do criado, alguns diriam do existente em qualquer dos mundos possíveis. Perquirindo a idéia de que original é quem plagia primeiro – misto de Platão e Lavoisier operado por Matoso – diríamos que a obra serve ao criador até o momento que não for lida; assim, quando lida, estará de posse do leitor, promiscuindo-se infinitamente nesse processo. Daqui pode ser feito o istmo de verdade, este em processo de solidez ideológica, um dos momentos do reino da História e Teoria da Literatura, gestão efêmera quando conjugadas pelos verbos convencer e seduzir. Diria Silviano: se eu conseguir prender meu leitor até a 30a página de meu livro, conquistei-o. Pois sim, não há representações sólidas sobre as nuvens. A leitura está entranhada no âmbito da cultura, da ressignificação e mostra-se uma contrabandista de significantes e significados.
A obra não é uma via de acesso ao real muitas das vezes instaurado pela ficção? O melhor dos mundos possíveis é esse mundo e a criatura – texto – esvai-se em infinitudes a partir do momento que se faz concebida; iludem-se – leitor e autor – que elas lhes pertencem, e o tempo de apropriação é um istmo ou aquilo que quando pensado deixa de ser (convocando Wenders: a imagem quando vista não é mais).
Pensar em unidade nessa trilogia esquizofrênica da criação é abortar a idéia de linearidade intersubjetivada no caos. O real é composto de ilusões e/ou partículas de angstrons da ilusão. Afinal o que é real e ficção no mundo literário? Que nos ouça Rosa, que nos leia João Cabral e que nos vasculhem Machado! São existências profundamente heterogêneas que conferem graus de simetria e homogeneidade, a leitura faz captá-lo. O belo depende disso pois é simétrico mesmo quando em fractais. O esculpir de Rodin nos fala, mesmo de fora da fractalidade. O caos é uma ordem, ainda desconhecida, mas exibida nas ruas de João do Rio.
Como só vemos o que conhecemos e o traduzimos a partir do que somos, a leitura instaura-se como o sopro do criador (o desafio é identificá-lo, criador) sobre o já criado, em um ritmo espiralado, transmutando-se a cada passo caótico, a cada cognição, a cada ato de empréstimo de existências conferidas por autor e obra no momento de transcendência do leitor.
Talvez o desafio seja ser obra, ser criatura-criante; ser algo que ainda não foi no espaço-tempo. Tanto História quanto Ciência da Literatura não capturam tal movimento, ainda estão na discussão prévia de ditar verdades – porém necessárias – de Copérnico, mas a simbiose de atribuição de significados no plano dos significantes – leitura – já consome Newton e Einstein no plano histórico de Heisenberg.
Os deuses são cegos e a razão é moral. O autor deve ser um asceta de cego, sem a megalomania acidental-obrigatória do discurso cristão que unifica essa cegueira, que funda estatutos de verdade, que conjuga a construção de imagens no singular e faz do plural da palavra a miséria dos fracos, fundando a mais fétida moral. No politeísmo do cotidiano amoral a limitação da experiência é explícita e os que querem o recurso da não-forma amparam-se na experiência trágica da loucura que se mostra como ausência de obra, que sai do campo do batismo de caserna, que faz do campo de visão a bengala da inutilidade verbal.
Sim, o verbo é fundante mas a palavra prenhe de possibilidades está sempre em construção, continuamente descontínua e em profundo flerte com a loucura, fomentando realidades que vários deuses não acessaram – mesmo demiurgos – e que por isso se colocam como ditadores de realidades, criadores de essências que se mostram como odores fétidos de putrefação cintilante, uma negação de Dostoievski. Não é humano o ato de categorização da palavra, os homens quando homens são, necessariamente – também –, discurso de palavras que ainda não se foram, mas gestadas/geradas/geridas/geladas no ato mesmo do pensamento; aquele que descortina o discurso no universo de mudez da criação, viabiliza a condição histórica de possibilidades e esteriliza tudo o que há de nocivo à saúde do autor, esse integrante do Olimpo da beleza, hóspede do habitat do traço/treco/trança/troco/tripa/trôpego; perfilado aleatoriamente no espaço infinito que se mostra finito aos olhos contaminados pelas certezas do mundo fácil, lá aonde o homem perde seu principal instrumento diferenciador da fauna terráquea: a palavra. Ela é um fractal e produzida sob sons, esses só ouvidos pelos desprendidos. Aqui a rima é lixo e o não-visto é luxo, luxúria. Literatura?
O discurso da loucura tornou-se adjetivo da démarche histórica do universo da arte. Do Rosário, Gogh, Claudel e outros não formatados aqui se fazem presentes. A arte liberta de toda (?) referência de dominação quando pensada como transgressão do óbvio, nesse universo a Literatura integra/entrega o suspiro dos vivos. A Literatura dá voz ao louco, este cria e transgride o real dos empedernidos de normalidade. Não pode! Não pode! Não pode mostrar-se confortador e/ou conformado com os deuses da escrita - que não morreram, sabemos. Os deuses realmente mostram sua força quando tornam-se profundamente desnecessários. Delicioso desafio: saborear o fel lendo os papéis preenchidos por Nise, numa simbiose de Psicologia, Literatura e Filosofia, emanadora da música.
Não enxergar. É esse o imperativo categórico dos que fazem gritar a liberdade, dos que percorrem letras buscando a disparidade da razão. Desrazoar a razão é o exercício primeiro da criação, desarvorando/mostrando seus limites e expressando sua crise no oceano de sensibilidade ativa/hermenêutica quando em relação com o pensamento, pois onde a palavra naufraga o texto navega e a razão desintegra. Somos minúsculos na captação.
Procurar a heterogeneidade nos leva ao encontro da homogeneidade e faz-nos perder a produção em série quando alcançado o que fora busca. É tão bela a idéia da busca pela busca, mas o mundo de mercadorias-neon só permite que busquemos o que já foi devidamente colocado como de objetivo claro, não vê que o nome das coisas não é as coisas. Assim, talvez, a Literatura leia Aristóteles e seja nutrida por Baudelaire.
Não pode haver objetividade sem a caracterização explícita do processo subjetivo. O concreto é posterior ao abstrato e exige da imaterialidade polissêmica o quadro que ainda não foi, mas está tomando forma a cada grão de realidade que repousa em seu texto, a cada letra que perfila o espaço em branco de Gates. Onde estão os guardiões de idéias que não entram nessa busca pela cegueira? Ora, para pensar abstratamente é necessário um corpo, pois nosso compromisso deve ser sempre com o pensamento; por mais que ele esteja limitado pela razão que é falha/folha/fosca, mas contém uma forte disciplina interna de lançar-se ao concreto, contaminando-se de materialidade, dando palavra ao texto, tirando-o do enclausuramento das luzes que a tudo vê e nada capta, só representa o óbvio da transgressão no plano da representação, em muito, da verdade, essa desprezível instauradora de normas.
A essência do texto é ser um conjunto de palavras vivas, tentando ir além da démarche dos neologismos, buscando os orvalhos de significados das transliterações dos irmãos Campos, estes que – junto com Pignatari – fizeram da estética das palavras um grito-alto-mudo das artes urbanas: concretismo; onde a palavra grita a libertação do cárcere, sem memórias, estado bruto. Talvez verdade literária.
O conhecimento produz conhecimento. Sim à redundância difícil que se mostra superficialmente fácil. Enganemos os adoradores de deuses que os vêem sob a ótica da necessidade, que fazem do perdão a figura fácil do sorriso sem espaços com um imperativo que se mostra combustível dos apolíneos: transgressão. Adorar a alguém é fazer-se escravo do fútil, há algo mais desprezível? Quando servo da cegueira abra os olhos. Sê Zaratustra.
O espaço da palavra é o próprio espaço do texto-organismo e o tecido orgânico das idéias é o próprio corpo tornado fundador do logos. Nada, nada estabelece limites tão rígidos à liberdade de um texto quanto à absoluta falta de palavra, a absoluta falta de idéias, a morte do pensamento e a megalomania da reflexão. Literalizar a realidade talvez seja o seu recriar.
Um texto mostra-se fundante, quando, também, cega o local enquanto índice do global, respeita o movimento incessante das partículas que compõem a semântica, pluraliza a etimologia e percebe as infinitas possibilidades de aparição da polissemia. Enganou-se quem disse (diz?) que só a ciência produz conhecimento, se assim o for somos todos cientistas na acepção iluminista da palavra. Será que em todo o planeta há a conjugação que ser é ser em si estendendo-se ao outro? Quem determina abruptamente os campos semânticos deve percorrer a escrita de Caetano nas neo-imagens dos sons de Campos com as devidas aliterações e paronomásias (peias dos pés presos... pretas)? O texto é uma poesia do impreciso, terrivelmente precisa, que nos maravilha e nos agride na sordidez coiseante (a coisa coiseia, ou as coisas coisificam, não nos diz Heidegger?) das imagens, compactadora das angústias e das incertezas humanas, expulsando a doença das palavras, aquela fragmentadora de pulsões; valendo-se da habilidade do autor que não privilegia tal dimensão factual, como essência, mas pensá-la em sua realidade e expô-la. Que nos valham os límpidos sons das idéias de Roberto Machado musicalizados por duas notas: descontinuidade e saber.
O texto é um simples acidente cuja realidade individual não deve prejudicar a ordem essencial da palavra, fá-la brotar do impossível, conhecendo. Conhecer a palavra é revelar seus sintomas, o que está mais próximo de sua natureza. Ora, o que mostra o estudo da palavra – fusão terminal da Filosofia e Literatura – mostra o espaço da percepção a tal ponto um espaço lingüístico que não há uma diferença fundamental entre ver e dizer. Aqui o liame-limite da cegueira, onde todos os sentidos tornam-se desnecessários por não haver privilegiamento do momento mesmo da captação da idéia, fundando o espaço para realização do texto.
É a aproximação da estrutura lógica do leitor que permite à história das palavras sorver um de seus objetivos fundamentais: a nomeação do visível em comunicação com o invisível. Pela estrutura o visto torna-se dito e o cego aparece como um mestre em transcendência; aqui o que se chama de estrutura está permeado por uma experiência temporal, ainda não percebida, mas os apressados já a querem definir, dizendo o que está, negligenciando o que não está. Guiar-se pela facilidade para quê? Até hoje não sabemos em qual inseto metamorfoseou-se Gregor; a pressa determinou a barata...
Quem cria cuida e queda pelo quântico dos dissimulados. Um não aos meros reprodutores, os mesmos de linearidade burra que matam qualquer possibilidade do coro das Bacantes. Não queira fazer-se eunuco do desejo, grite o insano de Munch e carnalize a imagem com Bacon, deixando-a em pendência, nublando o que está claro: crise.
Para que haja signo uma idéia deve representar outra e, ao mesmo tempo, nela deve estar manifestada essa representação. Mas os signos copulam com o tempo e a poligamia autoral faz crescer internamente o mundo dos cegos e dos que lutam para sê-lo, para sorver a seiva da selva dos servos do politeísmo autoral. Só é original quem se faz ouvinte e perde a visão quando do ato da escrita ou mesmo desdiz o dito no campo branco de celulose. Talvez haja aqui Literatura.
Toda morte tem positividade. Não queremos positivismo, mas recuperar (?) o que nunca se perdera na base dos cegos: burla da imagem! Optemos por morrer na suposta totalidade, não deixando marca/possibilidade de vida. O vínculo se mostra independentemente de nossa limitada vontade do distanciar-se. Ar que compõe a atmosfera que nem todas as narinas estão aptas a imiscuir-se, promiscuir-se, aludir-se, evadir-se. O evasivo de Woody não é a marca de sua genialidade? A não-captação do quadro já pintado e a eleição do outro no mesmo contexto do sempre não é o nutriente das lentes de Godard? A câmera não segue o pulso das pálpebras no percurso traçado pelos jovens da Nouvelle Vague? A imagem contextual em movimento não é o imperativo categórico do velho no Cinema Novo ou nos nórdicos do Dogma? Morte, sim, morte sempre. Ela condição de possibilidade de vida, que no sagrado encontra-se em aberto, dessacralizado. Faz-se Severina, morte e vida.
O cansaço é natural quando a análise mostra-se iceberg, correndo um sério risco da cegueira nunca chegar e a nossa música nunca mais tocar. Não, não distinguimos por critérios de objetividade, pois ela, só, é burra; não faz em nenhum momento, só se deixa fazer, unilateralmente. Ao lixo os critérios de objetividade, mas só depois de compreendidos e milimetricamente sorvidos. Assim, a intersubjetividade é explicitada na intertextualidade. O caminho de nós mesmos são os outros, devemos vê-los como cegos que cerceiam a facilidade da imagem, que jogam a palavra no abismo das possibilidades, transgridem o linear, buscam o caos...
Diálogo com o poeta Sandro Rebel no trajeto da Livraria Ideal até a Praia de Icaraí:
Rebel falava do desânimo que dá quando, por mais que criemos, escrevamos e façamos por onde estar motivados para produzir literatura de qualidade, constatamos que todo este esforço, cedo, é reconduzido a uma certa zona de indiferença.
Eu, por minha vez, dizia compartilhar dessa insatisfação reconhecendo que existe certo descaso por parte da mídia divulgadora e, mesmo, das livrarias e dos leitores. Estes últimos chegam a julgar que trabalhar um livro durante um ano seria demonstração de apego, supervalorização da obra e, até, falta de criatividade.
Sim! Há o limbo (insistia Rebel mais melancólico do que indignado), e este é responsável por um “esfriamento” precoce do trabalho. Com isso, sua acolhida ocorre junto a um pequeno grupo local que, invariavelmente, é formado por nossos pares. Raro ultrapassar esses limites...
Diante dessa lúcida evidenciação, comecei a elucubrar em que medida tal fenômeno não teria a ver com o Mundus vult decipi denunciado pela teoria crítica da Escola de Frankfurt, especialmente por Adorno, quando ali se diz que a Indústria cultural (nesse caso, a indústria editorial, que trata a peça mediana e a obra prima de igual maneira) trata a cultura (nesse caso, a literatura e os livros) como bem de consumo, reduzindo-a a um produto cujo valor é o de mercado (valor, este, que seria o único a garantir sua duração, promoção e visibilidade). Indo mais fundo, pensei que Heidegger está com toda razão ao diagnosticar o niilismo da técnica como valor promovedor de nossa época. Um tal niilismo, já tão autonomizado, faz com que qualquer motivação e atitude tenha seu sentido e valor humano esboroados... o resultado disso seria a vaga impressão de que o que quer que se faça dá em nada...
Rebel continuava a externar sua perplexidade dizendo não entender como literatos de gênio e carisma conseguem ficar à margem de tudo. Como excelentes trabalhos recebem menor reconhecimento que o devido... Falava do desejo, que um dia assola cada um de nós, de deixar de insistir na literatura e ir se dedicar a outra atividade (quem sabe criar ovelhas, como até o Aquiles da Ilíada se sentiu tentado a fazer...).
Sobressaltaram-me, neste momento, os versos de O artista inconfessável, de João Cabral de Melo Neto: “Fazer o que seja é inútil./Não fazer nada é inútil./Mas entre o fazer e não fazer/mais vale o inútil do fazer”. Quer dizer, não bastasse a punição da indiferença dos muitos, o literato, o artista, o homem de cultura ainda precisa manter-se vigilante contra o aquilo que Nietzsche chamou de “pathos do em vão”. Não dá para fazer nada, mesmo quando tudo parece redundar em nada...
Rebel desce na praia, em frente ao cinema Icaraí. O ônibus segue e eu, vendo os bancos da orla, me lembrei da eloquente solidão da estátua de Drummond num lugar parecido... Súbito, ao meu lado, uma jovem dispara em seu celular uma música “sertaneja universitária” (perdoem, mas a ironia saudável não pode faltar aqui: isso deve explicar porque o ensino universitário anda tão mal em nosso país) que trazia a seguinte letra:
O autor deste primor (fico imaginando o que um Agripino Grieco diria disto) já obteve reconhecimento nacional e tem suas letras cantadas por multidões...
Pensei na ansiedade de Rebel, na solidão de Drummond, no niilismo da era da técnica moderna (é verdade, pensei que nem Hölderlin seria capaz de formular algo como “meteoro da paixão”) e me perguntei se não deve haver canções melhores de se cantar... Algumas das canções que eu acredito ser redentoras deste quadro apocalíptico constituem a postagem de hoje:
Rosaly Fonseca
Palavras-vento
Se quiser palavras concretas, Claras, exatas, diretas, Peça às paredes, Não a mim.
Essas palavras-tijolo, De que se constroem Pensamentos, Não soltam riso nem choro, Não sentem gozo ou tormentos. Sinta as palavras-vento, Dentro do quarto e da alma, Contentes e quentes de sol!
À noite elas vêm, bem tarde, Frias de lua e saudade E se deitam em meu lençol.
Antônio Barcellos Sobral
Se fosse possível
Se fosse possível mataria a palavra rombuda.
A palavra sem coração – pássaro sem canto.
Gruta sem respiração. Deceparia
a palavra com que o homem arma
o canhão. Rasga a trincheira. Derruba o avião.
Canonizaria a palavra bate-estaca.
Que crava na pedra do ódio da má vontade
o alicerce da paz. Se fosse possível
domesticaria a palavra com que o bruto
abala e escandaliza a criança. E riscaria
a palavra com que se treme de medo.
Depois sopraria a brasa da palavra amorosa.
Que é onde estamos naturalmente.
Onde filósofos e santos desenham
o perfil da felicidade.
Palavras com hálito de anjo. Vamos dizê-las
entre os cumes da violência.
Maria Helena Latini
Disciplina
Disciplina,
fio de prumo: Duro percurso de repetir repetir na paciência de relojoeiro com ajustes suor rigor certeiro olhar alvo e dardo na busca constante da precisão, ponto exato.
Lena Jesus Ponte
Criação
Vai-se o primeiro pássaro migrando
– ponta de seta aponta o rumo certo.
Vai-se mais outro e mais... outros riscando
geometrias no céu antes deserto.
Que mistério os agrupa, os põe tão perto
da harmonia da Música? Só quando
um solfeja seu voo, o bando esperto
incorpora o deus Shiva e sai dançando.
Também aves-palavras, que se agitam, e logo outras, os ninhos para trás, se integram ao traçado que se cria
em pleno voo. Enfim, a obra se faz. Enquanto no papel elas levitam,
raia, sanguínea e fresca, a Poesia.
Jafran Bastos
Artesanato
O caminho da mão É que tece o poema O poema é que tece A coisa arquitetada Essa coisa tecida É a memória passada De um fio a outro fio De um tempo a outro tempo E o tempo – essa fração Da eternidade Leva A tecedura humana À elevação Por isso A poesia a mão tecida É o caminho que tece A direção da mão É a mão que tece a escala Do eterno O caminho.
Armando Freitas Filho
Um dia
impossível de lilases.
Uni dia
ou um dilema?
Qual a face da moeda
que resistirá mais tempo
fechada na palma
ao suor da corrosão, à ferrugem
emudecendo uma voz do dueto
para dourar a outra, rim solo
para durar ao sol de um dia inteiro
às voltas com sua própria sombra
num duelo único, unânime
no espelho, longe das luzes dos diademas?
Alexander de Carvalho
Desejo
Atrás daquela porta torta minha imaginação comporta o que calada minha boca declara ao salivar espasmos no encontro entre dentes e lábios
Belvedere Bruno
Portas Abertas
Portas abertas...
A bem da verdade,
nunca uso trancas.
Quantas vezes
me abaixo, catando
mil e tantos cacos.
Não me despedaço!
Apenas proíbo
que tons ocres
decorem meus dias.
Beatriz Chacon
Manhã Ladrilhada
Duas escovas se trocam dentes
bocejos
nos frios da mesma pia.
Chuveiro de uma só melodia
mistura mornos e pêlos
no sabonete.
Um monograma se borda no outro
cada qual enxugando
o próprio corpo.
Ele perfuma barba
ela inventa maquiagem
uma abelha cai morta no mármore.
Azulejo casando linhas
eu te olho tu me olhas
eu te amo tu me amas
o espelho descasa faces.
Até mais tarde mais ver
adeus
até mais logo
o azul se estilhaça lá fora.
André Luiz Pinto
Retinas cedo
à crontraluz,
o dia, indenso
negro em sol,
raia sem deitar
as lembranças
o luar crescendo nos
móveis, o lamaçal
da cama;
pontífice,
encerremos; ainda
doses de canalha,
silente a rigor,
às costas, outro
poderia ser teu:
a tentativa do azar,
que vence.
Marcia Barroca
Marionetes
Os caminhos, se apresentam cobertos de musgos e a energia resultante de tudo que o atravessa, é bastante envolvente. A alegria é torta. E o começo parece já o fim. Ecos sobressaem aos gritos parecendo uma constante guerra nuclear. As pessoas passam sem perceber que estão envolvidas em algo muito maior.
A manipulação encobre tudo e a todos. Somos todos marionetes, fantoches do destino escárnio dos deuses. Nada nem ninguém soma ou diminue algo. Foi tudo planejado metodicamente, como se a ordem pudesse ser controlada por computadores. Parece absurdo, mas não é. Neste caminho onde todos os humanos se encontram, a realidade é sórdida e somente aqueles que, se rebelarem conseguem enxergar as cordas que os prendem.
Tenório Telles
Salexistência
Salário
Sal
salga meus sonhos
meus olhos
Sal
que fere
minhas chagas
salmouradas
salgada existência
A vida por um salário
salexistência
O sal da terra
salga-nos os ossos.
Wanderlino Teixeira Leite Netto
Certos guardados
Numa prateleira, abrigo a compoteira que minha mãe ganhou em suas núpcias. Tem cores múltiplas e uns motivos chineses. Guardo nela um chumaço de saudade, cacos de vida, um certo abraço, uma foto esmaecida, guloseimas. Algumas vezes, pequenas teimas e uma pálida esperança que trago comigo da mais tenra idade. Também um sonho que persigo desde antigamente. Afora uma lembrança impertinente que não vai embora.
Sandro Rebel
O fardo maior
Dos escaninhos da alma a gente leva, para a luz ou para a treva, não se sabe, tudo quanto em nós se acabe com a hora derradeira desta vida passageira. Toda emoção que sentimos, toda dor que consumimos, o bem e o mal que fizemos, os erros que cometemos. Tudo, enfim, que nos afora tivemos e concebemos, tudo vai conosco embora, buscando a felicidade de uma doce eternidade. Mas, em toda essa bagagem essa última viagem nada pesa tanto quanto a saudade que levamos da vida que aqui deixamos.
Renato Augusto Farias de Carvalho
Fez frio essa noite
Porque um azul-marinho simulador Desenfeitou a espera De um fingidor antigo...
Fez frio. Esse de amortecer A mucosa, Cama velha sem respaldo, Madrugada anárquica, meio tísica, Sem o nosso regaço plural.
Frio de braço singular. Puro gelo de pranto remoto Ex-voto Paralisado inútil, Sem amor.
Na postagem de hoje, não saberei me delongar. Vera de Vives foi uma escritora que não precisou de mais do que duas obras para se fazer célebre: O homem fluminense e Descobertas e extravios. Convivemos pouco, mas recebi dela o apoio essencial em uma hora decisiva. A postagem de hoje é preito de reconhecimento e gratidão:
“QUE EU
SEJA na morte em repouso. E possam rosas vir de meus lábios e de meus olhos a
luz dos mortos, fosforescência.
PEÇO A
SOBREVIVÊNCIA de rebrotar do chão como uma planta. Que eu seja contigo na relva
que pisares, pois será meu corpo, decomposto e renascido.
PEÇO O
CONFORTO de pensar que te hei querido, muito e muito, muito e sempre, como às
coisas mais amadas e mais queridas. QUE DURMA
SOB minhas pálpebras descidas a saudade longa das paisagens conhecidas; e que o
amor de quantos hei amado durma comigo, como em um ninho, dentro de meu coração
parado.”
(VIVES, Vera de. Na morte. In: Niterói de Badezir. Niterói: s/ed., 2011. p.127)
Vera de Vives, perfil segundo Luís Antônio Pimentel
Vera de Vives
1925 - 2011
VERA DE VIVES, Bach. em Direito, prof., jornal., ensaísta, cronista, escritora, folclorista, filha da profa. Olga Bouchaud Lopes da Cruz, nasceu em Botafogo, no Rio de Janeiro, em jun. 1925. Fez os estudos prim. No Col. Santo Amaro, de irmãos beneditinos , e os secund. no Col. Sion, de freiras francesas. Aos 17 anos ingressou no c. de Letras Neolatinas da Fac. de Filosofia da PUC-RJ, e aos 21 na Fac. de Direito da mesma univ. No jornal O Mundo teve, aos 22 anos, sua primeira experiência no jornalismo assinando coluna sobre alunos jurídicos. Casada com Jorge Sinito de Vives, arquiteto, com ele viajou para a França, onde graças a uma bolsa de estudos, concedida pelo Governo francês como prêmio pelo primeiro lugar obtido em prova realizada pela embaixada daquele país, frequentou a Sorbonne, concluindo c. de língua e literatura francesas destinado a professores de francês no estrangeiro.
Nascidas suas filhas, a hoje médica Dra. Miriam Sinito de Vives, e Ana Elisa, hoje doutora em Física pela USP, dedicou-se a elas e ao lar por alguns anos. Nesse período prestou concurso para Assist. Jurídico do BNDES, tendo sido classificada em 14º lugar. Mas não assumiu o cargo por entender que as filhas, pequenas, precisavam dela. Durante esses anos escreveu para Rádio MEC histórias infantis, radiofonizadas em programas dirigidos por Geny Marcondes. Delas se originou o livro Histórias que o vento escreve publicado pela Edit. do Brasil (SP), em 1954. Em 1958, a Edit. Vozes escolheu, para a Coleção Feliz Idade, dois textos de sua autoria – A planta d’ Água e O dia do Arco-íris. Também em 1958 ingressou no magistério, regendo turmas de francês no Liceu Nilo Peçanha, em Niterói, até 1975. Entre 1961 e 1975, lecionou português e francês no Col. Pedro II e foi nomeada para o Cons. De Cultura do RJ. Para voltar ao jornalismo, publicou coluna semanal em O Itaboraiense (1961-62). Neste último ano iniciou colaboração em O Flum., a convite de Alberto Francisco Torres. Como cronista diária, criou o “Diário sem data”. Nos textos que essa coluna veiculava pôde expressar, com plena liberdade quanto aos temas escolhidos, sua ligação com o mundo e o cotidiano, prerrogativa que lhe foi assegurada até 1992 – em 30 anos de coluna assinada. Em 67 e 68 ocupou a Editora de Educação, também em O Flum. Entre 1973 e 1975 exerceu a assessoria de imprensa do Depart. Estadual de Ensino Médio da SEEC-RJ. Seleção de Crônicas do “Diário sem data” resultou no livro Niterói de Badezir, edição da autora, publicado em 1967. Com a fusão RJ/GB foi lotada no Dapart. Estadual de Cultura onde, sob direção de Paulo Afonso Grisoli, participou do programa de interiorização da cultura – os Pacotes Culturais – que percorriam os municípios levando música, dança e teatro eruditos, associados à apresentações de manifestações de cultura popular, sempre com participação de bandas civis locais. Dentro dessa programação organizou e apresentou o I Encontro de Bandas de Músicas Civis que reuniu 71 bandas. Os Encontros mantiveram-se vivos por anos, servindo eficazmente à revitalização das corporações musicais e encontrando êmulos em diversos Estados brasileiros. O Encontro de Folias de Reis que organizou e realizou pela primeira vez em 1975, no município de Duas Barras, perenizou-se igualmente, e se reúne todos os anos, em janeiro, algumas dezenas de folias, em presença de público cada vez mais numeroso. Para o Depart. Estadual de Cultura programou ainda, e realizou, em 1976 e 1977, pesquisa sobre o artesanato tradicional e o folclore flum., abrangendo 17 mun., representativos da realidade cultural e geográfica do Estado. Foram gravados depoimentos dos artesãos e praticantes dos folguedos, e fotografados, tanto os depoentes quanto as manifestações folclóricas. Nessa empreitada contou com a colaboração de Luís Antônio Pimentel, Jorge Sinito de Vives e Zalmir Gonçalves que, como fotógrafos, fixaram a memória de um Estado surpreendente para os próprios fluminenses e desconhecido para a maioria dos brasileiros. Os dados recolhidos em pesquisa resultaram no livro O Homem Fluminense, editado em 1978 pela fundação Estadual de Museus. Durante sua elaboração atuou como Diretora-Adjunta do Museu de Artes e Tradições Populares. Quanto aos objetos recolhidos durante a pesquisa, testemunhos concretos de artesanato tradicional fluminense, foram reunidos na exposição As Mãos do Povo apresentada em Niterói, no mesmo museu. A mostra circulou, depois, por vários municípios. Aposentando-se do serviço público manteve atividade jornalística e iniciou produção literária, com o romance Descobertas e extravios, 1997, história baseada na lenda fluminense do Mão de Luva. (...) a aposentadoria a afastou de seu convívio com Niterói: mas continua a sentir-se verdadeira niteroiense, membro das Acad. Flum. e Nit. de Letras, e cidadã nit. honorária, além de detentora da Comenda Arariboia.
(Verbete: Vera de Vives. In: PIMENTEL, Luís Antônio. Obras Reunidas – Enciclopédia de Niterói. Vol. 1. Niterói: Niterói Livros, 2004. pp. 255-256.)