sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Deve haver canções melhores de se cantar...





Diálogo com o poeta Sandro Rebel no trajeto da Livraria Ideal até a Praia de Icaraí:



Rebel falava do desânimo que dá quando, por mais que criemos, escrevamos e façamos por onde estar motivados para produzir literatura de qualidade, constatamos que todo este esforço, cedo, é reconduzido a uma certa zona de indiferença.


Eu, por minha vez, dizia compartilhar dessa insatisfação reconhecendo que existe certo descaso por parte da mídia divulgadora e, mesmo, das livrarias e dos leitores. Estes últimos chegam a julgar que trabalhar um livro durante um ano seria demonstração de apego, supervalorização da obra e, até, falta de criatividade.


Sim! Há o limbo (insistia Rebel mais melancólico do que indignado), e este é responsável por um “esfriamento” precoce do trabalho. Com isso, sua acolhida ocorre junto a um pequeno grupo local que, invariavelmente, é formado por nossos pares. Raro ultrapassar esses limites...


Diante dessa lúcida evidenciação, comecei a elucubrar em que medida tal fenômeno não teria a ver com o Mundus vult decipi denunciado pela teoria crítica da Escola de Frankfurt, especialmente por Adorno, quando ali se diz que a Indústria cultural (nesse caso, a indústria editorial, que trata a peça mediana e a obra prima de igual maneira) trata a cultura (nesse caso, a literatura e os livros) como bem de consumo, reduzindo-a a um produto cujo valor é o de mercado (valor, este, que seria o único a garantir sua duração, promoção e visibilidade). Indo mais fundo, pensei que Heidegger está com toda razão ao diagnosticar o niilismo da técnica como valor promovedor de nossa época. Um tal niilismo, já tão autonomizado, faz com que qualquer motivação e atitude tenha seu sentido e valor humano esboroados... o resultado disso seria a vaga impressão de que o que quer que se faça dá em nada...


Rebel continuava a externar sua perplexidade dizendo não entender como literatos de gênio e carisma conseguem ficar à margem de tudo. Como excelentes trabalhos recebem menor reconhecimento que o devido... Falava do desejo, que um dia assola cada um de nós, de deixar de insistir na literatura e ir se dedicar a outra atividade (quem sabe criar ovelhas, como até o Aquiles da Ilíada se sentiu tentado a fazer...).


Sobressaltaram-me, neste momento, os versos de O artista inconfessável, de João Cabral de Melo Neto: “Fazer o que seja é inútil./Não fazer nada é inútil./Mas entre o fazer e não fazer/mais vale o inútil do fazer”. Quer dizer, não bastasse a punição da indiferença dos muitos, o literato, o artista, o homem de cultura ainda precisa manter-se vigilante contra o aquilo que Nietzsche chamou de “pathos do em vão”. Não dá para fazer nada, mesmo quando tudo parece redundar em nada...


Rebel desce na praia, em frente ao cinema Icaraí. O ônibus segue e eu, vendo os bancos da orla, me lembrei da eloquente solidão da estátua de Drummond num lugar parecido... Súbito, ao meu lado, uma jovem dispara em seu celular uma música “sertaneja universitária” (perdoem, mas a ironia saudável não pode faltar aqui: isso deve explicar porque o ensino universitário anda tão mal em nosso país) que trazia a seguinte letra:

“Te dei o sol, te dei o mar
Pra ganhar seu coração
Você é raio de saudade
Explosão de sentimentos
Que eu não pude acreditar
Ah! Como é bom poder te amar”

O autor deste primor (fico imaginando o que um Agripino Grieco diria disto) já obteve reconhecimento nacional e tem suas letras cantadas por multidões...

Pensei na ansiedade de Rebel, na solidão de Drummond, no niilismo da era da técnica moderna (é verdade, pensei que nem Hölderlin seria capaz de formular algo como “meteoro da paixão”) e me perguntei se não deve haver canções melhores de se cantar... Algumas das canções que eu acredito ser redentoras deste quadro apocalíptico constituem a postagem de hoje:



Rosaly Fonseca



Palavras-vento


Se quiser palavras concretas,
Claras, exatas, diretas,
Peça às paredes,
Não a mim.

Essas palavras-tijolo,
De que se constroem
Pensamentos,
Não soltam riso nem choro,
Não sentem gozo ou tormentos.
Sinta as palavras-vento,
Dentro do quarto e da alma,
Contentes e quentes de sol!


À noite elas vêm, bem tarde,
Frias de lua e saudade
E se deitam em meu lençol.



Antônio Barcellos Sobral


Se fosse possível

Se fosse possível mataria a palavra rombuda.
A palavra sem coração – pássaro sem canto.
Gruta sem respiração. Deceparia
a palavra com que o homem arma
o canhão. Rasga a trincheira. Derruba o avião.

Canonizaria a palavra bate-estaca.
Que crava na pedra do ódio da má vontade
o alicerce da paz. Se fosse possível
domesticaria a palavra com que o bruto

abala e escandaliza a criança. E riscaria
a palavra com que se treme de medo.
Depois sopraria a brasa da palavra amorosa.
Que é onde estamos naturalmente.

Onde filósofos e santos desenham
o perfil da felicidade.
Palavras com hálito de anjo. Vamos dizê-las
entre os cumes da violência.

Maria Helena Latini


Disciplina

Disciplina,
fio de prumo:
Duro percurso
de repetir
repetir
na paciência
de relojoeiro
com ajustes
suor
rigor
certeiro olhar
alvo e dardo
na busca constante
da precisão,
ponto exato.
Lena Jesus Ponte


Criação

Vai-se o primeiro pássaro migrando
– ponta de seta aponta o rumo certo.
Vai-se mais outro e mais... outros riscando
geometrias no céu antes deserto.

Que mistério os agrupa, os põe tão perto
da harmonia da Música? Só quando
um solfeja seu voo, o bando esperto
incorpora o deus Shiva e sai dançando.

Também aves-palavras, que se agitam,
e logo outras, os ninhos para trás,
se integram ao traçado que se cria

em pleno voo. Enfim, a obra se faz.
Enquanto no papel elas levitam,
raia, sanguínea e fresca, a Poesia.

Jafran Bastos

 
Artesanato

O caminho da mão
            É que tece o poema
O poema é que tece
            A coisa arquitetada
Essa coisa tecida
            É a memória passada
De um fio a outro fio
            De um tempo a outro tempo
E o tempo – essa fração
            Da eternidade
                  Leva
A tecedura humana
             À elevação
               Por isso
A poesia a mão tecida
             É o caminho que tece
A direção da mão
             É a mão que tece a escala
Do eterno
             O caminho.

Armando Freitas Filho



Um dia
impossível de lilases.
Uni dia
ou um dilema?
Qual a face da moeda
que resistirá mais tempo
fechada na palma
ao suor da corrosão, à ferrugem
emudecendo uma voz do dueto
para dourar a outra, rim solo
para durar ao sol de um dia inteiro
às voltas com sua própria sombra
num duelo único, unânime
no espelho, longe das luzes dos diademas?

Alexander de Carvalho



Desejo

Atrás daquela porta
torta
minha imaginação
comporta
o que calada
minha boca declara
ao salivar espasmos
no encontro
entre dentes e lábios

Belvedere Bruno


Portas Abertas

Portas abertas...
A bem da verdade,
nunca uso trancas.
Quantas vezes
me abaixo, catando
mil e tantos cacos.

Não me despedaço!
Apenas proíbo
que tons ocres
decorem meus dias.

 
Beatriz Chacon


Manhã Ladrilhada

Duas escovas se trocam dentes
bocejos
nos frios da mesma pia.
Chuveiro de uma só melodia
mistura mornos e pêlos
no sabonete.
Um monograma se borda no outro
cada qual enxugando
o próprio corpo.
Ele perfuma barba
ela inventa maquiagem
uma abelha cai morta no mármore.
Azulejo casando linhas
eu te olho tu me olhas
eu te amo tu me amas
o espelho descasa faces.
Até mais tarde mais ver
adeus
até mais logo
o azul se estilhaça lá fora.

 
André Luiz Pinto


Retinas cedo
à crontraluz,
o dia, indenso
negro em sol,
raia sem deitar
as lembranças
o luar crescendo nos
móveis, o lamaçal
da cama;
pontífice,
encerremos; ainda
doses de canalha,
silente a rigor,
às costas, outro
poderia ser teu:
a tentativa do azar,
que vence.
Marcia Barroca
 

Marionetes

Os caminhos, se apresentam
cobertos de musgos
e a energia resultante de tudo
que o atravessa,
é bastante envolvente.
A alegria é torta.
E o começo parece já o fim.
Ecos sobressaem aos gritos
parecendo uma constante
guerra nuclear.
As pessoas passam
sem perceber que estão
envolvidas em algo
muito maior.
A manipulação encobre tudo e a todos.
Somos todos marionetes,
fantoches do destino
escárnio dos deuses.
Nada nem ninguém
soma ou diminue algo.
Foi tudo planejado
metodicamente,
como se a ordem pudesse
ser controlada
por computadores.
Parece absurdo, mas não é.
Neste caminho onde
todos os humanos se encontram,
a realidade é sórdida
e somente aqueles que,
se rebelarem
conseguem enxergar
as cordas que
os prendem.
Tenório Telles


Salexistência

Salário

Sal

salga meus sonhos
meus olhos

Sal

que fere
minhas chagas
salmouradas
salgada existência

A vida por um salário
salexistência

O sal da terra
salga-nos os ossos.

Wanderlino Teixeira Leite Netto


Certos guardados

Numa prateleira, abrigo a compoteira
que minha mãe ganhou em suas núpcias.
Tem cores múltiplas e uns motivos chineses.
Guardo nela um chumaço de saudade, cacos de vida,
um certo abraço, uma foto esmaecida, guloseimas.
Algumas vezes, pequenas teimas
e uma pálida esperança que trago comigo da mais tenra idade.
Também um sonho que persigo desde antigamente.
Afora uma lembrança impertinente que não vai embora.

Sandro Rebel

  
O fardo maior

Dos escaninhos da alma a gente leva,
para a luz ou para a treva, não se sabe,
tudo quanto em nós se acabe
com a hora derradeira
desta vida passageira.
Toda emoção que sentimos,
toda dor que consumimos,
o bem e o mal que fizemos,
os erros que cometemos.
Tudo, enfim, que nos afora
tivemos e concebemos,
tudo vai conosco embora,
buscando a felicidade
de uma doce eternidade.
Mas, em toda essa bagagem
essa última viagem
nada pesa tanto quanto
a saudade que levamos
da vida que aqui deixamos.

Renato Augusto Farias de Carvalho


Fez frio essa noite

Porque um azul-marinho simulador
Desenfeitou a espera
De um fingidor antigo...

Fez frio. Esse de amortecer
A mucosa,
Cama velha sem respaldo,
Madrugada anárquica, meio tísica,
Sem o nosso regaço plural.

Frio de braço singular.
Puro gelo de pranto remoto
Ex-voto
Paralisado inútil,
Sem amor.

Fez muito frio.


 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A crônica derradeira de Vera de Vives


Na postagem de hoje, não saberei me delongar. Vera de Vives foi uma escritora que não precisou de mais do que duas obras para se fazer célebre: O homem fluminense e Descobertas e extravios. Convivemos pouco, mas recebi dela o apoio essencial em uma hora decisiva. A postagem de hoje é preito de reconhecimento e gratidão:





“QUE EU SEJA na morte em repouso. E possam rosas vir de meus lábios e de meus olhos a luz dos mortos, fosforescência. 
PEÇO A SOBREVIVÊNCIA de rebrotar do chão como uma planta. Que eu seja contigo na relva que pisares, pois será meu corpo, decomposto e renascido.
PEÇO O CONFORTO de pensar que te hei querido, muito e muito, muito e sempre, como às coisas mais amadas e mais queridas.
QUE DURMA SOB minhas pálpebras descidas a saudade longa das paisagens conhecidas; e que o amor de quantos hei amado durma comigo, como em um ninho, dentro de meu coração parado.”

(VIVES, Vera de. Na morte. In: Niterói de Badezir. Niterói: s/ed., 2011. p.127)


Vera de Vives, perfil segundo Luís Antônio Pimentel


                                                                                                                                  Vera de Vives
                                                                                                                                    1925 - 2011

VERA DE VIVES, Bach. em Direito, prof., jornal., ensaísta, cronista, escritora, folclorista, filha da profa. Olga Bouchaud Lopes da Cruz, nasceu em Botafogo, no Rio de Janeiro, em jun. 1925. Fez os estudos prim. No Col. Santo Amaro, de irmãos beneditinos , e os secund. no Col. Sion, de freiras francesas. Aos 17 anos ingressou no c. de Letras Neolatinas da Fac. de Filosofia da PUC-RJ, e aos 21 na Fac. de Direito da mesma univ. No jornal O Mundo teve, aos 22 anos, sua primeira experiência no jornalismo assinando coluna sobre alunos jurídicos. Casada com Jorge Sinito de Vives, arquiteto, com ele viajou para a França, onde graças a uma bolsa de estudos, concedida pelo Governo francês como prêmio pelo primeiro lugar obtido em prova realizada pela embaixada daquele país, frequentou a Sorbonne, concluindo c. de língua e literatura francesas destinado a professores de francês no estrangeiro.
Nascidas suas filhas, a hoje médica Dra. Miriam Sinito de Vives, e Ana Elisa, hoje doutora em Física pela USP, dedicou-se a elas e ao lar por alguns anos. Nesse período prestou concurso para Assist. Jurídico do BNDES, tendo sido classificada em 14º lugar. Mas não assumiu o cargo por entender que as filhas, pequenas, precisavam dela. Durante esses anos escreveu para Rádio MEC histórias infantis, radiofonizadas em programas dirigidos por Geny Marcondes. Delas se originou o livro Histórias que o vento escreve publicado pela Edit. do Brasil (SP), em 1954. Em 1958, a Edit. Vozes escolheu, para a Coleção Feliz Idade, dois textos de sua autoria – A planta d’ Água e O dia do Arco-íris. Também em 1958 ingressou no magistério, regendo turmas de francês no Liceu Nilo Peçanha, em Niterói, até 1975. Entre 1961 e 1975, lecionou português e francês no Col. Pedro II e foi nomeada para o Cons. De Cultura do RJ. Para voltar ao jornalismo, publicou coluna semanal em O Itaboraiense (1961-62). Neste último ano iniciou colaboração em O Flum., a convite de Alberto Francisco Torres. Como cronista diária, criou o “Diário sem data”. Nos textos que essa coluna veiculava pôde expressar, com plena liberdade quanto aos temas escolhidos, sua ligação com o mundo e o cotidiano, prerrogativa que lhe foi assegurada até 1992 – em 30 anos de coluna assinada. Em 67 e 68 ocupou a Editora de Educação, também em O Flum. Entre 1973 e 1975 exerceu a assessoria de imprensa do Depart. Estadual de Ensino Médio da SEEC-RJ. Seleção de Crônicas do “Diário sem data” resultou no livro Niterói de Badezir, edição da autora, publicado em 1967. Com a fusão RJ/GB foi lotada no Dapart. Estadual de Cultura onde, sob direção de Paulo Afonso Grisoli, participou do programa de interiorização da cultura – os Pacotes Culturais – que percorriam os municípios levando música, dança e teatro eruditos, associados à apresentações de manifestações de cultura popular, sempre com participação de bandas civis locais. Dentro dessa programação organizou e apresentou o I Encontro de Bandas de Músicas Civis que reuniu 71 bandas. Os Encontros mantiveram-se vivos por anos, servindo eficazmente à revitalização das corporações musicais e encontrando êmulos em diversos Estados brasileiros. O Encontro de Folias de Reis que organizou e realizou pela primeira vez em 1975, no município de Duas Barras, perenizou-se igualmente, e se reúne todos os anos, em janeiro, algumas dezenas de folias, em presença de público cada vez mais numeroso. Para o Depart. Estadual de Cultura programou ainda, e realizou, em 1976 e 1977, pesquisa sobre o artesanato tradicional e o folclore flum., abrangendo 17 mun., representativos da realidade cultural e geográfica do Estado. Foram gravados depoimentos dos artesãos e praticantes dos folguedos, e fotografados, tanto os depoentes quanto as manifestações folclóricas. Nessa empreitada contou com a colaboração de Luís Antônio Pimentel, Jorge Sinito de Vives e Zalmir Gonçalves que, como fotógrafos, fixaram a memória de um Estado surpreendente para os próprios fluminenses e desconhecido para a maioria dos brasileiros. Os dados recolhidos em pesquisa resultaram no livro O Homem Fluminense, editado em 1978 pela fundação Estadual de Museus. Durante sua elaboração atuou como Diretora-Adjunta do Museu de Artes e Tradições Populares. Quanto aos objetos recolhidos durante a pesquisa, testemunhos concretos de artesanato tradicional fluminense, foram reunidos na exposição As Mãos do Povo apresentada em Niterói, no mesmo museu. A mostra circulou, depois, por vários municípios. Aposentando-se do serviço público manteve atividade jornalística e iniciou produção literária, com o romance Descobertas e extravios, 1997, história baseada na lenda fluminense do Mão de Luva. (...) a aposentadoria a afastou de seu convívio com Niterói: mas continua a sentir-se verdadeira niteroiense, membro das Acad. Flum. e Nit. de Letras, e cidadã nit. honorária, além de detentora da Comenda Arariboia.



(Verbete: Vera de Vives. In: PIMENTEL, Luís Antônio. Obras Reunidas – Enciclopédia de Niterói. Vol. 1. Niterói: Niterói Livros, 2004. pp. 255-256.)











sábado, 6 de agosto de 2011

Outorga da Medalha João Baptista Petersen a Ayrton Pinto Ribeiro (in memoriam)




Sendo um Blog literário, Literatura-Vivência pouco utiliza seu espaço com a divulgação ou cobertura de eventos. Quando o faz, entretanto, é porque considera o evento especial ou, ainda, extraordinário (no sentido literal da palavra, por favor).
Em 5 de agosto de 2011, tivemos uma noite extra-ordinária e, por isso mesmo, digna de documentário. Tratou-se da entrega da Medalha João Baptista Petersen, outorgada postumamente a Ayrton Pinto Ribeiro, pela Câmara Municipal de Niterói.
Intelectual de valor reconhecido nos círculos acadêmicos da cidade, Ayrton Pinto Ribeiro teve sua memória merecidamente lembrada na noite de hoje pelos seus pares e, principalmente, pelos representantes do Poder Legislativo de Niterói (representados na pessoa do vereador Vitor Júnior).

Pelos motivos apresentados acima, a presente postagem não apenas registra o extremo contentamento dos familiares e amigos do agraciado, quanto também a satisfação de toda a comunidade intelectual em saber que a Câmara Municipal de Niterói reconhece e incentiva os produtores de cultura em nossa cidade. Atitude que – além de muito agradar à sociedade niteroiense – torna claro os valores altivos cultivados naquela Casa.
Entre as muitas falas efetuadas durante a cerimônia, Literatura-Vivência publica – na íntegra – o emocionado discurso de saudação proferido por Wanderlino Teixeira Leite Netto, na solenidade de entrega da honraria, além de algumas fotos colhidas in loco.
***
 
Discurso de saudação a Ayrton Pinto Ribeiro, agraciado in memoriam com a Medalha João Baptista Petersen. (1)





Ilmo vereador Vitor Júnior,
prezados familiares de Ayrton Pinto Ribeiro,
senhoras Eliana Bueno Ribeiro Vianna Santos,
Lia Bueno Ribeiro de Carvalho Gama,
senhor Jarbas Pinto Ribeiro,
demais integrantes da mesa,
outros vereadores e parentes do homenageado porventura aqui presentes,
senhoras, senhores.

Parabenizo o vereador Vitor Júnior por haver removido o véu da deslembrança e nos reunido neste plenário Brígido Tinoco para esta homenagem à memória de Ayrton Pinto Ribeiro.
Agradeço à senhora Eliana Bueno Ribeiro Vianna Santos pelo honroso convite para que eu ocupasse esta tribuna. Espero corresponder à confiança em mim depositada.
Residindo no exterior faz algum tempo, é possível que Eliana se tenha espantado com o fato de que os contemporâneos de seu pai, dos quais se lembrou, só poderiam saudá-lo por meio de afagos com mãos de nuvem, exceto o queridíssimo e longevo Luís Antônio Pimentel, prestes a comemorar seu centenário de nascimento.
Devo confessar-lhes que nunca havia sequer falado com Eliana até uma semana atrás, mas já lhe reservo afeto de antiga amizade, semelhante àquela que seu pai e eu cultivávamos. Justifica-se assim o tratamento coloquial que passei a lhe dedicar neste pronunciamento já a partir do terceiro parágrafo.
Ayrton Pinto Ribeiro aceitou o grande desafio em 8 de dezembro de 1911. No dia 9 de fevereiro de 1995 dormiu o sono de não acordar. Eu poderia mencionar outros dados biográficos. Diria, por exemplo, que Ayrton Pinto Ribeiro foi um dos fundadores do Grupo Mônaco de Cultura. Também diria que ele integrou os quadros da Academia Fluminense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói. Segundo o historiador Salvador Mata e Silva, Ayrton foi o mais eficiente de todos os secretários que já passaram pelo Instituto. Poderia, ainda, destacar sua carreira profissional. Que se aposentou como escrivão de Polícia, eu poderia dizer. Poderia falar que Ayrton Pinto Ribeiro escreveu para jornais em Niterói, que deixou livros por publicar. Poderia referir-me ao excelente pesquisador da História de Niterói e do antigo Estado do Rio de Janeiro. Poderia, enfim, dissecar sua biografia.
Porém darei ênfase ao admirável ser humano que brindou a todos que com ele conviveram com sua amizade, que lhes transmitiu lições de compreensão e de tolerância, de valorização do simples, de desapego à vaidade. Ayrton Pinto Ribeiro foi um arauto da salutar convivência. Foi este Ayrton que me veio à mente tão logo recebi o convite de sua filha Eliana para saudá-lo in memoriam nesta oportunidade.
A medalha que hoje se confere a Ayrton Pinto Ribeiro, em homenagem póstuma, leva o nome de João Baptista Petersen, um dos mais atuantes vereadores entre todos os que já passaram por esta Câmara Municipal, tão prematuramente falecido.
A cerimônia desta noite vem envolta no papel celofane da saudade, sentimento dúbio: se por um lado fustiga, por outro afaga. Nesta solenidade, mais afaga do que fustiga. Afinal, realiza-se em louvor à memória de quem sempre fez da delicadeza sua marca registrada. Ayrton Pinto Ribeiro era um homem afável, bom ouvinte, conselheiro cuidadoso.
Por volta de 1966, temerosos do que lhes pudesse acontecer por conta da repressão aos opositores do regime que se instaurara no País pelo golpe militar de 31 de março de 1964, um grupo de amigos passou a se reunir, de segunda a sexta-feira, no Centro da cidade de Niterói, mais precisamente em frente à Galeria Gold Star, na Rua da Conceição. Assim se faziam visíveis. Qualquer sumiço tornar-se-ia evidente. Luís Antônio Pimentel, Hugo Tavares, Ney Costa, Ambrósio Godofredo de Campos Góes e Ayrton Pinto Ribeiro, entre outros, participavam desses encontros. Espirituosamente, declaravam haver fundado a “Universidade do Calçadão”. Em 1986, o grupo ainda se reunia, não mais para se proteger, mas para entabolar animadas conversas. A maioria delas, para justificar a denominação do ponto de encontro, versava sobre literatura. À medida que a redemocratização do País ganhava corpo, novos “universitários” iam surgindo na universidade sem paredes. Alguns se tornavam assíduos, outros por lá apareciam com menor frequência. Gradativamente, por conta da “Indesejada das gentes”, à qual aludiu Manuel Bandeira, as presenças dos precursores foram diminuindo até que aquela universidade ao ar livre cerrou as portas que não possuía.
Foi lá, em frente à Gold Star, que Angelo Longo, também saudoso e querido amigo, me apresentou a Ayrton Pinto Ribeiro. Envolvido com meu trabalho na PETROBRAS, ainda assim me esforçava para comparecer a esses encontros. À época já quarentão, porém quase um menino comparativamente à maioria dos “universitários”, absorvia avidamente as sábias palavras dos mestres, entre os quais o homenageado desta noite.
Minha relação de amizade com Ayrton extrapolou as fronteiras da “Universidade do Calçadão”. Quanto mais se estreitava, mais eu percebia a nobreza de seus sentimentos, de suas atitudes, mais ele se mostrava para mim um semeador de afetos.
Tenho até hoje recortes de O Fluminense, que me eram trazidos por Ayrton no ano de 1990, tempo em que o jornal publicava uma coluna intitulada “Recordando”, por meio da qual abordava partidas de futebol realizadas na década de 1960, quando em Niterói havia estádios e campeonatos do popular esporte. Sabedor de que eu integrara algumas das equipes daquele tempo, Ayrton selecionava os recortes que faziam referência a meu nome e os entregava para mim com o mais afável dos sorrisos.
Faz poucos dias, enquanto alinhavava este pronunciamento, fiz uma descoberta: o autor da coluna, que não vinha assinada, era o próprio Ayrton. Ele a publicara no jornal A Tribuna de 1964 a 1975; em 1990, aí então em O Fluminense, voltara a fazê-lo. Pelo fato de haver exercido o cargo de secretário da Federação Fluminense de Desportos, tinha acesso aos arquivos, nos quais garimpava matéria para a coluna. Entre os meses de maio e outubro de 1990, foram publicados cinco registros envolvendo partidas das quais participei, não apenas em clubes, também na seleção juvenil do antigo Estado do Rio de Janeiro. Sem dúvida, mais um afago do bom Ayrton. Discreto como sempre, lambuzou-me de mel o ego, mas não me revelou ser ele próprio o apicultor.
Pronto para o prelo, A história do futebol em Niterói, significativa contribuição para preservar a memória da cidade, foi um dos livros não publicados por Ayrton Pinto Ribeiro. Sugiro aos familiares que procurem a Niterói Livros, editora vinculada à Fundação de Arte de Niterói, órgão integrante da estrutura organizacional da Prefeitura, cuja finalidade vem a ser a de editar livros alusivos ao município.
Foi este Ayrton Pinto Ribeiro, sempre afetuoso, sempre cordial, sempre generoso, que eu quis relembrar neste meu pronunciamento.
Vou me valer dos últimos versos de “Todo sentimento”, composição de Chico Buarque de Holanda e Cristóvão Bastos para encerrar minha fala. Trata-se de uma canção de amor, mas creio que os versos se prestam também para celebrar a amizade. Dizem assim:

“Depois de te perder
te encontro, com certeza,
talvez num tempo da delicadeza,
onde não diremos nada.
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
como encantado ao lado teu”.

Muito obrigado!

NOTA:
1. Texto gentil e exclusivamente cedido por seu autor ao Blog Literatura-Vivência.







Cobertura fotográfica do evento de outorga da Medalha João Baptista Petersen

Ayrton Pinto Ribeiro (in memoriam)
1911-1995




Mesa diretora. Da esquerda para a direita para a esquerda: Eliana Bueno Ribeiro Vianna Santos,
Dalma Nascimento, o vereador Vitor Júnior, Godofredo Pinto e Eneida Fortuna.



Mesa diretora (visão ampla): Da esquerda para a direita para a esquerda:
Wanderlino Teixeira Leite Netto, Eliana Bueno Ribeiro Vianna Santos,
Dalma Nascimento, o vereador Vitor Júnior, Godofredo Pinto e Eneida Fortuna.


Novo ângulo da mesa diretora. Em primeiro plano, a acadêmica (AFL) Eneida Fortuna,
ao seu lado o professor e ex-prefeito de Niterói Godofredo Pinto e o vereador Vitor Júnior.



Ângulo oposto da mesa diretora. Wanderlino Teixaira Leite Netto
(levantando para pronunciar seu discurso na tribuna),
Eliana Bueno Ribeiro Vianna Santos (filha de Ayrton Pinto Ribeiro),
a professora Dalma Nascimento e o vereador Vitor Júnior.


O acadêmico Wanderlino Teixeira Leite Netto lendo seu discurso de saudação.


A jovem neta de Ayrton Pinto Ribeiro, representando os netos e bisnetos
do agraciado com a Medalha


 Eliana Bueno Ribeiro Vianna Santos (filha de Ayrton Pinto Ribeiro)
em sua alocução de agradecimento 


Membros integrantes da mesa ouvem emocionados o pronunciamento
de Eliana Bueno Ribeiro Vianna Santos


Vista geral da audiência no Plenário Brigido Tinoco


Netos e bisnetos de Ayrton Pinto Ribeiro recebem a Medalha das mãos da viúva do patrono João Baptista Petersen e o diploma do vereador Vitor Júnior


O congraçamento de Wanderlino, Eneida, Eliane e Dalma ao fim da cerimônia


Alguns dos ilustres convidados da família de Ayrton:


Os Professores Roberto Kahlmeyer-Mertens e Maximiano de Carvalho e Silva


Wanderlino Teixeira Leite Netto e sua companheira, a poetisa Lena Jesus Ponte





terça-feira, 2 de agosto de 2011

O espírito de Sherazade em Muna Omran.


Desde a década de 1980 o Oriente Médio parece se insinuar buscando impor-se política e culturalmente. É a partir dessa década que vemos intensificadas as notícias dos extremismos islâmicos e do acirramento dos conflitos ideológico-religiosos, mas, a bem da verdade, é preciso dizer que, foi a partir desse mesmo decênio, que o Ocidente tornou a voltar seus olhos para o Oriente. Após a provocação de Salman Rushdie (é preciso pensar, até que ponto, não teria sido uma saudável provocação) tivemos a redescoberta de autores como Omar Khayaām, Saadi e Rumi. O cinema islâmico – sobretudo o iraniano – passou a ser Cult e mesmo a literatura e as produções televisivas mais populares passaram a se ocupar das temáticas orientais. Parece que entre os 1990 e os 2000, passamos a ter mais atenção para o incontestavelmente rico legado do mundo árabe; passamos a recordar (o que fora esquecido já no final da Idade Média) que o homem civilizado não é exclusivamente ocidental ou, neste caso, unidimensional, como bem denunciava Marcuse.
Na atualidade, inspirado no Alcorão, o mundo islâmico, convulso, mobiliza-se para depor tiranias que, por décadas, só fizeram promover o ódio e a intolerância no seio daquele admirável povo e cultura. Uma época como essa depende de uma canção que, como diz Drummond: “Faça acordar os homens e adormecer as crianças”. Eis aqui a contribuição de Muna Omran, para tal:





A História que Sherazade não contou

Muna Omran

I

Nasci no ano da Renúncia
Minha primeira biblioteca vinha de dois mundos


Diferentes
E falava!

Uma era pernambucana
A outra do Oriente

Minha babá pernanbucana
Não era a Irene de outro pernanbucano
Mas era gorda
Boa
E sempre de bom humor...
Maria contava histórias:
Saci Pererê,
Bicho-Papão,
Mula-sem-cabeça


Minha mãe contava
as histórias de Sherazade e
de seu vizir,
Aladim,
Ali Babá...

De repente, Sherazade atirava o pau no gato com o Saci Pererê

Ouvindo minha biblioteca gorda e boa,
Levava-a participar da biblioteca de uma língua diferente.
Imaginava a bela Iara sair dos mares
Invadir o deserto do Saara
Montada sobre a corcova de um camelo
E entrar na biblioteca mágica


Encontrando-se com príncipes loiros,


Eu envolvida por tantas histórias
De repente fugia da Cuca;
Sultana do meu mundo,


corria pela Floresta da Tijuca,


brincava com Sherazade com uma cauda de peixe
Via Curupira passar enquanto conversava com os gênios de Aladim



II

Já maior,
Entrava na biblioteca de meu pai
Muitos livros
Muitas capas diferentes
Ele me mostrava a enciclopédia
Que trazia
Avicena,
Ibn Khaldun,
Averróis


depois... Cabral,
D.Pedro I,
Machado


As primeiras letras


foram da direita
para a esquerda,
envolvia-me por completo com Aladim
antes de ler Lobato
Fairuz
Lobato,
Omar Khayan,
Andersen e seus contos,
Gibran
Sherazade, novamente
Minha babá Maria, meiga, doce,
                                         geléia de goiaba,
                                                           pão com manteiga,
                                                                                      quindim,
                                                                                                  cajuzinho
Cuidado! O Curupira tudo levou.


III

Já leitora,
Tinha minha biblioteca
Menina-moça, leitora
Livros
quarto lilás,
noites do oriente,
livros escritos,
inscritos no mundo que começava entrar.
Hexágonos formavam-se em minha mente,
Inúmeros livros,
Inúmeras histórias,
Inúmeras as palavras.


Com meu príncipe, montada sobre um cavalo branco,
corríamos pelo deserto do Saara
Seu rosto coberto,
sua mão forte erguia uma espada matando todos os monstros encontrados


Biblioteca mais divina que a de Borges
Consigo decifrar todas as letras.
Frases paralisadas,
Frases dessacralizadas.

Lobato com Narizinho fugiram com todo o sítio.
                             Babá Maria fechou seu livro.


Cadê o Saci? O Bicho-Papão comeu?
O Negrinho do Pastoreiro sumiu,
O Caipora morreu.
Cadê Aladim?
Ali Babá roubou?
Andersen invade meu mundo

 
IV

Colégio, adolescência...
a diferente chega.
O mundo desaba.
Exótica,
            Esquisita,
                         maneiras diferentes.
                                                      Um Patinho Feio?
Mas...
conhece o Saci !?
Fala uma língua estranha,
mas já brincou com a Cuca,
- a Cuca não te pegou?
Olhares,
             risos nervosos,
debochados
A professora, a estranha, como é dura!
Mamãe fechou a história de Princesa e
a ervilha.
Cadê a candura da tia Nastácia?
Cadê o Rouxinol?
Para onde fugiu Pinóquio?
E a Carruagem de Cinderela?


O Coelho gargalha de sua toca.
Não há espelhos.
Há inquisidores.
Queimam-se livros.
Papai desaparece.
Ninguém soube, ninguém viu, ninguém ouviu.
Breu!

 
VII

“Liberdade ainda que tardia”
Ouço Gonzaga, Cláudio clamarem dos calabouços
“Criança não veras país nenhum como este”
Bilac grita de seu livro.
“Que país é esse?”
Affonso pergunta
Verdades ou Mentiras?
Finjo a dor dos poetas
Sempre?


Salvo um livro do fogo,
transfigurado,
sem beleza,
cansado,
saturado,
estirado,
silenciado.
Papai retornou?


VIII

Descubro Drummond,
tenho apenas duas mãos e todo o sentimento do mundo.
Mundo mundo vasto mundo, meu coração não consegue ser mais vasto
Meu mundo existe na margens das folhas




IX


Novos livros
Conheço
As métricas, as rimas, os ritmos
Descubro a biblioteca da poesia.
Silenciosa,
Avassaladora,
predadora,
pensadora,
libertadora
meu rosto se mistura às letras
meu verso expõe meu reverso
Fragmento?
Letras espalhadas
Pelo meu corpo
Palavras
Com
Significados
Significantes
Hipérboles e antíteses
Povoam minha biblioteca.



X


O livro sobre o sultão e seu cavalo branco.
Já li esta história?
Palavras poéticas, corpos escritos,
inscritos,
circunscritos.


XI


Novo livro,
Novo corpo,
Outro ritmo,
Hipérboles,
Metonímias.
Lord Byron,
Álvares de Azevedo,
William Blake,
Victor Hugo,
Emily Brontë…

Um livro sopra do canto da biblioteca.
Dele salta um
Sultão, vassalo e suserano
Dócil, indócil
Corpo definido
Rosto, cadê você?
Tato,
Olfato,
Paladar,
Invisível seu rosto...
Não o vejo
Só as letras o conhecem.


XII


Contemplo a biblioteca da juventude.
O corpo em forma poética
Em linguagem trocada
Palavras tocadas
Letras trocadas
Fonemas dobrados
Na formação do texto
Dos versos
Dos pensamentos
Trancados no diário.
Corpo : exposto no sonho.
Corpo :abrindo-se em desejo.
Um hexágono montado.
Não há peregrinos em minha biblioteca.
Só eu contemplo e a toco.




XIII

O livro do sultão me chama,
novamente.
Meu sultão toma forma,
matéria concreta,
signo perfeito,
rouba-me a vida
Não é sonho.
Viajo pelo seu corpo
E nele descubro o meu corpo
Entrego-me ao seu desejo
Toco seu rosto


Sou uma mulher abraçada ao seu livro-amante.


XIV

Tantos livros,
Tantos poemas,
Tantas histórias.
Sou poeta?
Não sei.
Pego o lápis,
Um poema nasce
Curiosa, olho o labirinto de palavras que se forma diante de mim
Um organismo gráfico se forma
Move-se
E finalmente (re)clama.
Aprendi a lição.
Posso contar histórias?
Posso entrar na Biblioteca?
Um poema não é impossível de não fazer.
Encho a página,
Esqueço a margem,
As palavras em forma e figura,
Nelas e em mim navego
Vejo-as nitidamente,
vejo-me através de um vidro embaçado.
Penso na vida e só vejo abismos.
Um livro vaga pela rua
E vê a condução dos loucos e poetas.
No centro o poeta-louco.
Circunscreve seu mundo
Olho.
Tremo.
Sou poeta?
Louca?
Papéis perdidos,
Recortados,
Papéis cotidianos
Poesia perdida nas gavetas
Reescrevo-me e (re)vejo o mundo mutilado
O texto perdido, tecido.
A palavra à espera de ser capturada
Para encher a página
Desenham-se as primeiras letras
Palavras perdidas

Detidas
Retidas
Afetivas

Enfrentam o branco do papel
Os loucos se afastam
Os poetas traçam os primeiros pontos
Intrínsecos
Cercados de sonho
A poesia aflora na pele como um fruto
Finca-se na memória,
Deflora o tempo
Tão doce, frui no corpo do poeta e na mente dos loucos.



XV

Sou mulher
Abro minha biblioteca
Contemplo-a como minha vida.
Vivo em sociedade, sempre.
Tenho bom senso, nem sempre
Converso amavelmente com as pessoas,
Incluindo as chatas
Rio da piada sem graça.
O Patinho Feio continua com bons modos, eu acho!
Os conflitos
Aladim ou Narizinho?
Este lado vive na sombra
Quer tudo
Conhece as coisas a fundo
Conhece-me de sobra
Eu o desconheço
Viro a página,
Não quero ler meu rosto triste
Fujo deste lado,
Desorganizo sua linguagem
Ele me persegue
Por que a biblioteca não me liberta?
Recolho-me em palavras,
sou texto
Encerro-me e tento vencer o inevitável
Busco a vida,
Triste, canina, felina, dura.
Afago as palavras
Tentando preencher o vazio inscrito.


Vencida ou vencedora?





Qasida selvagem (1)


Qasida Mutwahisha (1970) poema de Nizar Kabani (1923-1998)
em livre tradução de Muna Omran


Ama-me
com toda a fúria dos bárbaros
com todo o calor do deserto
com a fúria da tempestade
não pense como os demais seres civilizados
a civilização perdeu seus instintos
ama-me como um terremoto
como a surpresa da morte inesperada
deixa meus seios arderem em brasa
ataca-me como uma loba faminta e perigosa.


(...)


Não entre!
sua voz cerrou meu caminho
suas palavras trancaram meus passos
você estava sem seus amigos
sua mentira foi denunciada pela voz feminina que chamava a você
foi ela quem me substituiu?
‘Pare!’
esta ordem até agora envenena meu coração
enquanto isso, o vento soprava e trazia com ele a humilhação imposta pela sua voz
não se desculpe, mar em tormenta.


(1) As qasīdas são poemas com uma única rima até o final. Com uma “extensão variável de 20 a 80 versos e, quanto aos temas, priorizou o politematismo, entendido como a combinação de duas seções no poema: uma primeira voltada aos temas do amor, da sensualidade, do vinho e da viagem do poeta até os domínios do seu elogiado.”  (SLEIMAN, Michel. 2007, p. 15 . A arte do Zajal – Estudo da Poética árabe)




Muna Omran mora no Rio de Janeiro. Doutora em literatura comparada pela Univeridade Estadual de Campinas - UNICAMP, com a tese: Vozes Silenciadas – Uma leitura da obra de Salman Rushdie. A tese discute a construção narrativa dos romances Os filhos da meia noite, Os versos satânicos e O último suspiro do mouro, tomando por base as propostas teóricas da literatura contemporânea e sua articulação com os Estudos Culturais. Esses romances rejeitam a hegemonia das forças totalizadoras do pensamento institucionalizado que violam a individualidade humana e das minorias que seguem caminhos contra o conformismo.
Mestra pela Universidade Federal Fluminense em Literatura Brasileira com a dissertação Melancolia nas Letras-Utopia e Melancolia no Marco Zero de Oswald de Andrade. A dissertação tem como objetivo analisar possíveis interferências do discurso político de esquerda nos dois volumes que compõem a obra Marco Zero – A revolução melancólica e Chão –, de Oswald de Andrade, considerando que a construção dos dois volumes aconteceu nas décadas de 30/40, quando o autor ainda estava filiado no PCB. Destaca-se a presença dessas interferências ora na voz do narrador, ora na de alguns personagens que se comportam como porta-vozes das propostas políticas do momento. Assim, detectamos quais são estas vozes e como elas se manifestam na estrutura do romance.
Atualmente, integra o grupos de pesquisa leitura, fruição e ensino, na Universidade Federal Fluminense - UFF e temáticas narrativas e representações árabes, africanas, asiáticas e sul-americanas de comunidades diaspóricas, na Universidade de São Paulo – USP.