Na postagem de hoje, não saberei me delongar. Vera de Vives foi uma escritora que não precisou de mais do que duas obras para se fazer célebre: O homem fluminense e Descobertas e extravios. Convivemos pouco, mas recebi dela o apoio essencial em uma hora decisiva. A postagem de hoje é preito de reconhecimento e gratidão:
“QUE EU
SEJA na morte em repouso. E possam rosas vir de meus lábios e de meus olhos a
luz dos mortos, fosforescência.
PEÇO A
SOBREVIVÊNCIA de rebrotar do chão como uma planta. Que eu seja contigo na relva
que pisares, pois será meu corpo, decomposto e renascido.
PEÇO O
CONFORTO de pensar que te hei querido, muito e muito, muito e sempre, como às
coisas mais amadas e mais queridas.
QUE DURMA SOB minhas pálpebras descidas a saudade longa das paisagens conhecidas; e que o amor de quantos hei amado durma comigo, como em um ninho, dentro de meu coração parado.”
QUE DURMA SOB minhas pálpebras descidas a saudade longa das paisagens conhecidas; e que o amor de quantos hei amado durma comigo, como em um ninho, dentro de meu coração parado.”
(VIVES, Vera de. Na morte. In: Niterói de Badezir. Niterói: s/ed., 2011. p.127)
Vera de Vives, perfil segundo Luís Antônio Pimentel
Vera de Vives
1925 - 2011
VERA DE VIVES, Bach. em Direito, prof., jornal., ensaísta, cronista, escritora, folclorista, filha da profa. Olga Bouchaud Lopes da Cruz, nasceu em Botafogo, no Rio de Janeiro, em jun. 1925. Fez os estudos prim. No Col. Santo Amaro, de irmãos beneditinos , e os secund. no Col. Sion, de freiras francesas. Aos 17 anos ingressou no c. de Letras Neolatinas da Fac. de Filosofia da PUC-RJ, e aos 21 na Fac. de Direito da mesma univ. No jornal O Mundo teve, aos 22 anos, sua primeira experiência no jornalismo assinando coluna sobre alunos jurídicos. Casada com Jorge Sinito de Vives, arquiteto, com ele viajou para a França, onde graças a uma bolsa de estudos, concedida pelo Governo francês como prêmio pelo primeiro lugar obtido em prova realizada pela embaixada daquele país, frequentou a Sorbonne, concluindo c. de língua e literatura francesas destinado a professores de francês no estrangeiro.
Nascidas suas filhas, a hoje médica Dra. Miriam Sinito de Vives, e Ana Elisa, hoje doutora em Física pela USP, dedicou-se a elas e ao lar por alguns anos. Nesse período prestou concurso para Assist. Jurídico do BNDES, tendo sido classificada em 14º lugar. Mas não assumiu o cargo por entender que as filhas, pequenas, precisavam dela. Durante esses anos escreveu para Rádio MEC histórias infantis, radiofonizadas em programas dirigidos por Geny Marcondes. Delas se originou o livro Histórias que o vento escreve publicado pela Edit. do Brasil (SP), em 1954. Em 1958, a Edit. Vozes escolheu, para a Coleção Feliz Idade, dois textos de sua autoria – A planta d’ Água e O dia do Arco-íris. Também em 1958 ingressou no magistério, regendo turmas de francês no Liceu Nilo Peçanha, em Niterói, até 1975. Entre 1961 e 1975, lecionou português e francês no Col. Pedro II e foi nomeada para o Cons. De Cultura do RJ. Para voltar ao jornalismo, publicou coluna semanal em O Itaboraiense (1961-62). Neste último ano iniciou colaboração em O Flum., a convite de Alberto Francisco Torres. Como cronista diária, criou o “Diário sem data”. Nos textos que essa coluna veiculava pôde expressar, com plena liberdade quanto aos temas escolhidos, sua ligação com o mundo e o cotidiano, prerrogativa que lhe foi assegurada até 1992 – em 30 anos de coluna assinada. Em 67 e 68 ocupou a Editora de Educação, também em O Flum. Entre 1973 e 1975 exerceu a assessoria de imprensa do Depart. Estadual de Ensino Médio da SEEC-RJ. Seleção de Crônicas do “Diário sem data” resultou no livro Niterói de Badezir, edição da autora, publicado em 1967. Com a fusão RJ/GB foi lotada no Dapart. Estadual de Cultura onde, sob direção de Paulo Afonso Grisoli, participou do programa de interiorização da cultura – os Pacotes Culturais – que percorriam os municípios levando música, dança e teatro eruditos, associados à apresentações de manifestações de cultura popular, sempre com participação de bandas civis locais. Dentro dessa programação organizou e apresentou o I Encontro de Bandas de Músicas Civis que reuniu 71 bandas. Os Encontros mantiveram-se vivos por anos, servindo eficazmente à revitalização das corporações musicais e encontrando êmulos em diversos Estados brasileiros. O Encontro de Folias de Reis que organizou e realizou pela primeira vez em 1975, no município de Duas Barras, perenizou-se igualmente, e se reúne todos os anos, em janeiro, algumas dezenas de folias, em presença de público cada vez mais numeroso. Para o Depart. Estadual de Cultura programou ainda, e realizou, em 1976 e 1977, pesquisa sobre o artesanato tradicional e o folclore flum., abrangendo 17 mun., representativos da realidade cultural e geográfica do Estado. Foram gravados depoimentos dos artesãos e praticantes dos folguedos, e fotografados, tanto os depoentes quanto as manifestações folclóricas. Nessa empreitada contou com a colaboração de Luís Antônio Pimentel, Jorge Sinito de Vives e Zalmir Gonçalves que, como fotógrafos, fixaram a memória de um Estado surpreendente para os próprios fluminenses e desconhecido para a maioria dos brasileiros. Os dados recolhidos em pesquisa resultaram no livro O Homem Fluminense, editado em 1978 pela fundação Estadual de Museus. Durante sua elaboração atuou como Diretora-Adjunta do Museu de Artes e Tradições Populares. Quanto aos objetos recolhidos durante a pesquisa, testemunhos concretos de artesanato tradicional fluminense, foram reunidos na exposição As Mãos do Povo apresentada em Niterói, no mesmo museu. A mostra circulou, depois, por vários municípios. Aposentando-se do serviço público manteve atividade jornalística e iniciou produção literária, com o romance Descobertas e extravios, 1997, história baseada na lenda fluminense do Mão de Luva. (...) a aposentadoria a afastou de seu convívio com Niterói: mas continua a sentir-se verdadeira niteroiense, membro das Acad. Flum. e Nit. de Letras, e cidadã nit. honorária, além de detentora da Comenda Arariboia.
(Verbete: Vera de Vives. In: PIMENTEL, Luís Antônio. Obras Reunidas – Enciclopédia de Niterói. Vol. 1. Niterói: Niterói Livros, 2004. pp. 255-256.)















