quinta-feira, 28 de julho de 2011

Luís Antônio Pimentel: uma cara e muitas caricaturas


A cara

                                                 Pimentel em foto de Will Martins (2011)


As muitas caricaturas


Luís Antônio Pimentel na pena de Faustus, década de 1930



Pimentel exercendo sua segunda pele de fotógrafo em charge de Miguel Coelho (1979)



Caricatura de Pimentel assinada por Daní (1982?)



Pimentel retratado por Mendez (1982)



Luís Antônio Pimentel no traço de Carias (1991)



Pimentel em autoretrato (1992)


Retrato de Pimentel por Miguel Coelho (2000)



Caricatura de Pimentel de autoria de Ildo Nascimento




LAP na visão do cartunista Guidacci (2007)




segunda-feira, 25 de julho de 2011

Liane Arêas, o mundo e o universo poético de Bernardino da Costa Lopes



Até a presente data, talvez a última e mais substancial notícia que tínhamos sobre a vida e obra do poeta fluminense B. Lopes (1859-1916) teria sido dada por José Guilherme Merquior quando, em seu De Anchieta a Euclides (1979), o autor dedica quase sete páginas ao dito Poeta Fidalgo. No entanto, o B. Lopes ali apresentado está longe de retratar autor de Rio Bonito em seu espectro e magnitude. Para Merquior, como ele mesmo afirma em outro lugar (Formalismo e tradição moderna, 1974), B. Lopes ainda seria um autor pequeno burguês, “em contraste com muitos românticos egressos da nobreza ou da alta burguesia rural ou citadina” (p.44).
O leitor brasileiro ficaria, assim, obrigado a se contentar com essas migalhas informativas (quase um jejum) se desejasse conhecer a biobibliografia de B. Lopes em um estudo crítico. Apenas no ano passado, foi publicado, integrando a Coleção Introdução aos Clássicos Fluminenses, o título B. Lopes – O poeta fidalgo (Nitpress, 2010), saneando esta carência. A quem devemos cumprimentar por essa bela coisa? Seu nome é Liane Arêas, trata-se de uma orgulhosa integrante do Cenáculo Fluminense de História e Letras e que, com o referido trabalho, não só debuta com seu primeiro livro quanto se mostra – incontestavelmente – uma competente e hábil pesquisadora literária. Dizemos isso, pois, a obra, por sua amplitude e consistência, nos permite entrever quanta disciplina, empenho e critério foram a ela dispensados.
Trata-se de um trabalho que, transcendendo aos vagos padrões qualitativos do meio acadêmico-literário, satisfaz aos rigores exigidos nos meios universitários, o que faz de Liane Arêas um notório saber quando o assunto é a poesia “belopeana”.
Contando com um ensaio introdutório que situa B. Lopes em seu contexto de época e em seu métier literário, Liane Arêas permite que conheçamos traços da personalidade do autor, de seu estilo e motivações poéticas. O reencontro com B. Lopes fica garantido quando a autora fala da formação do poeta e de sua aderência à intelectualidade da época; das raízes e origens daquela obra poética; da trajetória e dos inúmeros êxitos que o poeta acumulou e, por fim, do declínio e morte do poeta. Neste trajeto, é preciso ressaltar a coerência, a coesão e a atenção com que poesias de diferentes fases são analisadas, interpretadas e decifradas com um método muito parecido com o da crítica literária Bella Josef.
Atenção especial merece a segunda parte do livro. Trata-se de uma seleção bastante completa dos poemas de B. Lopes. Na verdade, tal seleção é tão completa e tão fidedignamente estabelecida (atendendo, inclusive, à requisitos filológicos) que, diante da escassez de novas edições das obras do poeta rio-bonitense, o livro, aqui em apreço, bem constitui fonte de acesso às poesias do autor. Um pouco do poeta no livro? Registremos aqui a beleza constante à página 131, retirada da obra Helenos (1901):

 
PARAÍSO PERDIDO

Outro, não eu, que desespero, ao cabo
De, em pedrarias de arte e versos de ouro,
Ter dissipado todo o meu tesouro,
Como os florins e as jóias de um nababo;

Outro, não eu, que para o chão desabo
Esquecendo-te as culpas e o desdouro,
E a teus pés de marfim, como o rei mouro
Em torrentes de lágrimas acabo;

Outro conspurca-te a beleza augusta,
Cujo anseio de posse ainda me custa
Como um verme faminto andar de rastros.

E mais deploro este meu sonho falso
Ao recordar que andei no teu encalço
Pelo caminho rútilo dos astros!”

Fraseologista exímio (como foi seu amigo Cruz e Sousa), o parnasiano B. Lopes, a meio caminho do simbolismo, revela aqui um talento que não pode ficar nas brumas. Daí, após estas palavras, é preciso fazer coro com editor Luiz Augusto Erthal quando, no prefácio ao livro enfocado, assevera: “Tamanha riqueza literária, tal história de vida, a magia daquela boemia efervescente e produtiva, na companhia de figuras notáveis de literatos como Machado de Assis e outros, que gravitavam entre a Confeitaria Colombo, os jornais, as livrarias e os cafés no final do século XIX, não são para serem esquecidas” (p.6).
Sim! Se depender do livro Liane Arêas o mundo e o universo poético de B. Lopes não será esquecido.

 
                                                                                      Liane Arêas em foto de Will Martins

Liane de Souza Arêas, natural do Rio de Janeiro. Professora, alfabetizadora, pedagoga, poetisa, escritora e fotógrafa expositora da Sociedade Fluminense de Fotografia. Cursos de extensão curricular: Literatura, Língua e Cultura Espanhola na Universidade de Salamanca/Espanha, Orientação Educacional na Empresa-RH e Psico-pedagogia na Empresa pela UFRJ, Filosofia da Educação Infantil/Pedagogo Lauro de Oliveira Lima, dentre outros cursos de alfabetização infantil no Colégio Brasil e na UPE-União dos Professores Estaduais e, para adultos, no antigo Mobral.  Manteve durante quatro anos o Curso Pré-escolar e Alfabetização Nosso Cantinho, onde preparava os alunos para o ingresso no Instituto Abel, São Vicente de Paulo, Centrinho... lecionou aula particular de Espanhol.  Integra as Diretorias do Cenáculo Fluminense de História e Letras, da Associação Niteroiense de Escritores, do Elos Clube de Niterói e do Centro da Comunidade Luso-Brasileira do Estado do Rio de Janeiro. É do Grupo Mônaco de Cultura/Livraria Ideal, do Instituto Histórico e Geográfico de Niterói, da Associação dos Diplomados da Academia Brasileira de Letras, da Academia Guanabarina de Letras, do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro, da Sociedade de Cultura Latina do Rio de Janeiro e da Academia de Letras Rio Cidade-Maravilhosa...  Participa de antologias, revistas e periódicos em Niterói, no Rio de Janeiro e em outros estados. Possui vários Certificados: Jurada e Presidente de Júri em Concursos de Poesia, fotografia, e artes plásticas. Diplomas de Honra ao Mérito e Troféus, dentre estes:  Prêmio Niterói Cultura da ANE-Assoc. Niteroiense de Escritores; Troféu e Diploma 1º lugar Concurso Ensaio Literário/Aspectos Formadores da Cultura Brasileira/Academia Carioca de Letras/2001; Menção Honrosa XIX Salão de Arte Fotográfica AABB Niterói;  Ao Mérito Cultural Elos Clube e Comunidade Luso-Brasileira; UBT-Niterói/ XXXV Jogos Florais/ Escultura de Bronze;  X Prêmio de Poesia da ANE/Medalha de Bronze Florbela Espanca Edição Especial... Recebeu Moção Honrosa da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (Vereador José Carlos de Carvalho), da Câmara Municipal de Niterói (Vice-Presidente Dr. Fernando Nery de Sá) e da Câmara Municipal do Rio de Janeiro (Vereadora Teresa Bergher).


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Um pedaço de “Alexandria” em Niterói: registro fotográfico da reinauguração da Biblioteca Pública de Niterói.

A intervenção, a bem dizer, se confunde com a atividade intelectual. Assim, os posicionamentos crítico, esclarecedor e contestatório são, mesmo, atividades daqueles que se assumiram para si a tarefa de vigilantes permanentes da ação do Estado ou de outras instituições com papel regulador quando estas ferem direitos civis. Contudo, para mostrar que a atuação intelectual é isenta, e apenas interessada na defesa dos referidos direitos, é possível (e até necessário) que os intelectuais usem suas vozes para também reconhecer os acertos do governo no cumprimento diligente de seu papel. Longe de ser propaganda ideológico-partidária e, menos ainda, mera generosidade, este reconhecimento se caracteriza como justiça. Ressaltar os acertos de uma gestão política, ainda mais quando esta, democraticamente, promove a cultura fomentando a educação e democratizando o acesso a fontes de saber aos cidadãos é dever do intelectual e o propósito da presente postagem.
O que, aqui, se registra são momentos de uma bela festa de cultura que teve por mote a reinauguração da Biblioteca Pública de Niterói no último dia 05 de julho. Esperada por longos dois anos e quatro meses, a festa de entrega do prédio criteriosamente reformado (segundo os padrões arquitetônicos e estéticos de época) contou com a presença de autoridades políticas, representantes das instituições culturais do estado do Rio de Janeiro, membros da comunidade e escolares. A cobertura fotográfica do evento é o que veremos a seguir:(*)

Convite da cerimônia de reinauguração enviado para alguns dos principais representantes
da vida cultural de Niterói


Fachada da Biblioteca Pública de Niterói momentos antes da cerimônia de entrega do prédio reformado (reinauguração)


Segunda vista da fachada da Biblioteca antes da reinauguração


Chegada de autoridades e personalidades de destaque convidadas para a inauguração:
(ao centro) o jornalista Sérgio Cabral, ao seu lado Paulo Rattes (ainda ao centro, diante de Sérgio Cabral), o Secretário de Assistência Social do estado Rodrigo Neves, além da Secretária de Cultura Adriana Rattes e da Diretora da Biblioteca Glória Blauth (ambas de costas).
No canto esquerdo, o convidado Sérgio Chacon.


Novo ângulo da cena descrita acima

Placa em bronze que registra a cessão do espaço da Biblioteca para o funcionamento da

Mesa composta por autoridades por ocasião da reinauguração da Biblioteca Pública de Niterói. São identificados, entre outros, (da esquerda para a direita), o Presidente da Imprensa Oficial do Rio de Janeiro, Haroldo Zager; a Superintendente da Leitura e do Conhecimento da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Vera Saboya;  o Reitor da Universidade Federal Fluminense, Roberto Salles, o Secretário Rodrigo Neves; O Prefeito de Niterói Jorge Roberto Silveira; a Secretária de Cultura Adriana Rattes, representando o Governador do estado, Sérgio Cabral Filho, André Diniz; a Diretora da Biblioteca Glória Blauth. De pé, o Presidente da Academia Fluminense de Letras -AFL, Edmo Rodrigues Lutterbach.


Vista da audiência e do auditório recém reformado


Novo ângulo da mesa diretora, Edmo Lutterbach discursa como
Presidente da Academia Fluminense de Letras


A Secretária de Cultura Adriana Rattes em pronunciamento oficial, na ocasião representava o Governador do estado, Sérgio Cabral Filho.


Visão de mesa por outro ângulo do auditório


Após a solenidade, o Presidente da Academia Fluminense de Letras - AFL,
recebe os cumprimentos do Prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira.


Adriana Rattes e Edmo Rodrigues Lutterbach após a solenidade de entrega da Biblioteca reformada


Em primeiro plano: o Secretário Rodrigo Neves, a Diretora Glória Blauth, a Secretária de Cultura Adriana Rattes e o Presidente da AFL Edmo Lutterbach.
Ao fundo, o Presidente da Imprensa Oficial Haroldo Zager.


O Vereador Jorge Issa, o Presidente Lutterbach e
o Presidente do Clube dos Advogados Reinaldo de Almeida


O Presidente da AFL Edmo Rodrigues Lutterbach com Carlos Silvestre Monaco,
diretor do Grupo Monaco de Cultura


Tendo os principais movimentos literários de Niterói se originado no círculo lítero-boêmio do chamado Café Paris,  esforços de resgate dessa identidade literária vêm sendo empreendidos desde o ano de 2008 - data em que se publicou a edição crítica de Vida Apertada, obra referencial do dito movimento e que permanecera esgotada por quase nove décadas - .
Sob a aleluia do editor Luiz Augusto Erthal, do Professor Roberto Kahlmeyer-Mertens e com aquiescimento da Superintendente da Leitura e do Conhecimento da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Vera Saboya, a Biblioteca Pública de Niterói se reinaugura tendo o Café Paris como temática, como se pode ver:




Painel temático do Café Paris como decoração da Biblioteca Pública de Niterói.


Painel temático do Café Paris, parte da decoração da Biblioteca


Painel temático do Café Paris


O editor Luiz Augusto Erthal (Nitpress) dá início ao recital de poesias dos escritores do Café París (evento da programação da reinauguração) para o Prefeito Jorge Roberto Silveira


O Prefeito Jorge Roberto Silveira, os Secretários do Governo do Estado Adriana Rattes e Rodrigo Neves,
o Presidente da Academia Fluminense de Letras Edmo Lutterbach e a Diretora da Biblioteca Glória Blauth assistem ao recital com poesias do Café Paris, apresentado pelos poetas do grupo
Uma noite na taverna


Foi possível reviver as letras do Café Paris na interpretação
dos jovens expoentes do grupo Uma noite na taverna.
Na foto, da esquerda para a direita: Romulo Narducci, Janaína da Cunha (sentados), Pakkatto
e Rodrigo Santos (de pé, respectivamente)


Luiz Augusto Erthal, jornalista e editor da Nitpress, Roberto Kahlmeyer-Mertens, Rosemar Sônia Pereira, da ALRO e Reinaldo de Almeida do CAN-OAB


Vera Saboya conversa com Luiz Augusto Erthal.
De costas, Márcia Queiroz Erthal conversa com a poetisa Maria Helena Latini.


A Diretora da Biblioteca Pública Estadual de Niterói Glória Blauth (a quem, diga-se de passagem, devemos agredecer por toda dedicação e zelo despendidos no belo empreendimento que foi a restauração da Biblioteca) ao lado de um dos muitos terminais digitais de consulta disponíveis aos usuários (tradição e modernidade de mãos dadas). 


Os principais representante da cultura letrada de Niterói estiveram presentes no evento de reinauguração da Biblioteca Pública de Niterói, vejamos alguns deles.

Os acadêmicos Neide Barros Rêgo e Luís Antônio Pimentel
(Pimentel perto de completar 100 anos de idade)


A poetisa Maria Helena Latini, a psicóloga Gel Lima e a editora Márcia Queiroz Erthal 
 
Neide Barros Rêgo, Leda Mendes Jorge, Gracinha Rêgo

Carlos Monaco entre amigos

O ator Guti Fraga (mestre de cerimônias da festa) ao lado de Neide Barros Rego e Nicolau Costta


Adequada a diversos públicos e afim aos conceitos mais modernos de biblioteca (atendendo aos quesitos de informatização, acessibilidade e qualidade técnica de atendimento), a Biblioteca Pública de Niterói conta agora com um acervo renovado e com outros acervos antigos restaurados (ou em processo de restauro), espaços voltados à filosofia, à história fluminense, ao teatro e ao leitor infantojuvenil.


Check outs de consulta de acervo

Rampa de acesso para deficientes e elevador
 
 
 




A BPN e seu amplo espaço de estacionamento
 
Após este registro, que apresenta este pedaço de Alexandria entregue pelo Governo do Estado do Rio ao povo fluminense, aproveitamos para sugerir a Biblioteca (e a ampla área dela, que compreende a praça da República e os estacionamentos do entorno) como ponto catalizador de feiras e grandes eventos relativos à cultura letrada. Quem sabe a Prefeitura de Niterói não se anime a presentear também a comunidade da cidade com a terceira e tão ansiada edição do Salão de Leitura de Niterói?...
 



 
(*) Registra-se aqui um agradecimento cordial a Neide Barros Rêgo, Gracinha Rego e a Murilo Lima pelo gentil envio de fotografias para esta postagem.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

À procura do Lili Leitão teatrólogo.


Luiz Antônio Gondim Leitão (vulgo Lili Leitão) é integrante do movimento literário do Café Paris. Tal movimento, também conhecido como a Roda do Café Paris, é um tesouro cultural fluminense a ser redescoberto.

Num dos cafés da Cidade Sorriso (a, então capital do estado, Niterói), nas primeiras décadas do século XX, boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos e jornalistas escreviam, despretensiosamente, uma página importantíssima de nossa história com as letras. Última trincheira das poesias conservadoras (na época em que a vanguarda modernista já se infiltrava nos meios literários), a turma do Paris reunia, além de Lili Leitão, nomes como: Max Vasconcelos, Gomes Filho, Sylvio Figueiredo, Nestor Tangerini, Kleber de Sá Carvalho, Brasil dos Reis e Trina Fox (também os esporádicos e imiscíveis Alberto de Oliveira, Luiz Pistarini e Gutman Bicho).
Embora fosse catedral da poesia dita rigorosa, na qual românticos e parnasianos celebravam missa, foi justamente no Café Paris, com Lili Leitão, que brotou um estilo de poesia de intuição moderna: poesia satírica que bem poderia ser associada a que Juó Bananère (pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado) já produzia em São Paulo, e que Furnandes Albaralhão (Horácio Mendes Campos) faria do outro lado da Baia de Guanabara. Assim, Lili Leitão se tornaria, ao mesmo tempo, a ovelha negra e o gênio da raça “parisiense”.
São conhecidos dois livros de Lili Leitão. O primeiro, Sonetos, datado de 1913 (e com relançamento agendado para a próxima Bienal do Rio de Janeiro – 2011 – pelo selo da editora Nitpress); o segundo, Vida apertada: Sonetos humorísticos, de 1926 (publicado em uma segunda edição crítica pela mesma Nitpress, em 2009). Atribui-se ainda um terceiro título ao autor, trata-se do controverso Comidas bravas, obra com poesias fesceninas que, segundo o poeta Luís Antônio Pimentel, seria de data intermediária aos dois outros (estima-se 1923). Este livro constitui uma “lenda urbana”, estando extraviado desde aquela época.

Embora Lili tenha se destacado como poeta, sabe-se que o maior êxito de sua carreira foi o teatro de revista. O próprio autor reconheceria isso no poema “Eu”, quase uma epígrafe de seu Vida apertada, quando nele Lili declara: “Sou poeta, burocrata e revisteiro” (p. 57. Grifo do autor). É verdade, a maioria de sua obra está no teatro. Assim, entre 1913 e 1926 (quer dizer, entre Sonetos e Vida apertada) foram encenadas, com relativo sucesso de público, peças como: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá e O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçonne (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924) e O rendez-vous amarelo (1930).
O resgate da literatura de Lili Leitão (e de parte da Roda do Café Paris) carece de uma busca dos textos dessas peças de teatro apenas conhecidas por seus títulos e por anúncios em recortes de jornais de época (como O Fluminense). Fazer ressurgir esta memória é algo que depende de trabalhos como os que vêm sendo elaborados, pacientemente, pelo historiador Emmanuel Bragança de Macedo Soares.
Contudo, ante a absoluta carência de elementos para investigação da obra, solicitamos a todos aqueles que saibam de algum material inédito sobre o teatro de Lili Leitão, bem como da poesia do mesmo autor, que nos notifiquem urgentemente. Caberia, mesmo, uma campanha de busca aos originais das peças de Luiz Leitão. Pedimos, assim, que este apelo seja multiplicado em blogs e sites tornando visível o esforço, quase arqueológico, de retirar o Lili teatrólogo das brumas.

Uma prova do esforço de resgate do teatro de Lili Leitão é dado aqui, no texto inédito, gentil e exclusivamente cedido por Emmanuel Macedo Soares ao Literatura-Vivência:

“Deixando o Cine Teatro Eden, a companhia de Álvaro Diniz inicia a 24 de novembro de 1924 uma vitoriosa temporada no Cinema Coliseu, encerrada intempestivamente a 13 de janeiro do ano seguinte, quando a casa resolve desmanchar o palco para se dedicar apenas à exibição de filmes. A estréia foi fria, com a revista Paris no Rio, de Alfredo Breda, seguindo-se a burleta carnavalesca A flor do tinhorão, de Armando Braga, que também não empolgou, já que o carnaval ainda estava muito longe. Álvaro lembrou do sucesso da revista política O pé de Anjo, de Cardoso de Menezes e Carlos Bittencourt, mas também não deu certo: Pé de anjo era apelido do presidente da República, Artur Bernardes, que há dois anos governava o país sob o chicote do estado de sítio. Trouxe o menino prodígio Petit Encanto, e o público não deu sinais de vida. Todo mundo já vira o garoto, de 8 anos, cuja versatilidade no palco fez efêmera fama nas casas cariocas. O empresário apela para o bairrismo e encena a revista local Não tem importância, de João Carvalhais e Benedito Montes, minhocas da terra. Aí, sim, o teatro começa a lotar. E superlotou a 29 novembro, quando Álvaro descobriu seu veio de ouro, levando à cena a revista Prá cima de muá, de Lili Leitão. Entusiasmado, encomenda outra peça do gênero ao incomparável revisteiro niteroiense. E ele não se faz de rogado, entregando em poucos dias os originais de Niterói em cuecas, que ficou em cartaz desde 17 de dezembro até o melancólico encerramento da temporada. Os cenários de Amadeu Vieira reproduziam vários pontos da cidade, especialmente a Praia de Icaraí, cuja vista ocupava o palco de lado a lado. O grande número de quadros levou o empresário a contratar novos artistas, entre eles Rosália Pombo, Abel Dourado, Júlia Ribeiro, Clotilde Hor Dorgy e Célia Zenatti. Para interpretar os números musicais trouxe um jovem cantor que começava a se destacar nos palcos e paradas carnavalescas, chamado Francisco Alves. Era ainda o Chico Viola das rodas do Estácio e revistas da praça Tiradentes, muito longe de se tornar O Rei da Voz de 1952, quando tragicamente faleceu. Célia Zenatti, companheira no elenco, seria também sua companheira de vida, e por toda a vida.”

(SOARES, Emmanuel de Macedo.
Notas para uma história do teatro em Niterói. Niterói: No prelo)


Vídeo do relançamento de Vida apertada,
na Câmara Municipal de Niterói
(parte I)
 
 
Para saber mais, confira outras fontes de blogs e sites parceiros:












sábado, 2 de julho de 2011

“No dia em que chover cangalhas em Niterói, temo por muito dos intitulados ‘poetas’ desta cidade!”


Ouvi a frase acima, certa feita, de um amigo arguto, militante do movimento literário de Niterói (se ele desejar se apresentar, certamente se manifestará com um comentário a esta postagem). Tal provocação, entretanto, parece não pretender ser uma agressão aos das Letras. A frase só soa ofensa para aqueles que, vaidosamente, almejam a alcunha de poeta, sem merecê-la. Para os autênticos poetas (e para os apreciadores despretensiosos da boa poesia) a frase talvez soe até divertida e espirituosa. Penso que poderíamos tê-la ouvido da boca do genial Agripino Grieco ou de outros espíritos lúcidos como Afrânio Coutinho.
Ora, considerando que a poesia é uma das coisas mais difíceis que o homem poderia fazer (a ponto de Hegel, o filósofo alemão, em sua Estética, elegê-la como a arte mais excelente, justamente por não possuir materialidade, sendo, pois, ideia pura). Creio, mesmo, que poucos sejam merecedores da alcunha de poeta em nossa cidade... Pois, afinal, o que mais se vê são poetas ingênuos escrevendo pieguices; homenzinhos entediados fazendo versinhos pueris que falam de boninas e malmequeres e, o pior de tudo, oportunistas (candidatos a políticos) que publicam excrescências rimadas em brochuras feitas sob encomenda para ganhar popularidade em datas como o Dia Internacional das Mulheres, o Dia dos Namorados ou o Dia das Mães...
E o que diria, sobre isso, um John Keats (que passava seus dias, junto ao seu fiel escudeiro Charles A. Brown) debruçado nas obras de Homero, Virgílio e Milton tentando “aprender” poesia? Talvez não dissesse nada! Ou talvez dissesse, fazendo coro com mestre Paulo Rónai: “ − Não se atira em fantasmas com tão poderosos canhões”... Enfim...
Alguns poderiam me perguntar, provocadoramente: quem seriam, então, esses autênticos e poucos poetas de Niterói? Uma resposta a esta pergunta seria evasiva e, quiçá, abusada: − Alguns já apareceram neste Blog, outros ainda aparecerão... −. Ora, se a resposta é evasiva e abusada, não devemos dar margem a fazer com que a ambiguidade macule nomes respeitáveis de autores com poesias irretocáveis. Minha homenagem hoje, portanto, é para um desses impolutos nomes: Beatriz Chacon.




Beatriz Escorcio Chacon, carioca da Piedade, vive em Itaipu, Niterói, onde começou a mostrar poemas pra colocar na parede, com desenhos de Miguel Coelho, em 1987. Jornalista pela UFF, é autora dos livros de poemas "Mesa Posta" e "Veios do Corpo", e do infantil "Surpresa de Quintal". Aposentada, avó, aparentemente dona vadia de casa, faz performances poéticas, eventos de arte, prepara novo livro – uma novela de vozes femininas. Orienta a Oficina Literária da Universidade 3ª Idade e participa da Associação Niteroiense de Escritores. Entre as Coletâneas – Prêmios, Crítica, participação: "I Concurso Jornal Balcão de Poesias", Rio, 1988. "Saciedade dos Poetas Vivos", Ed. Blocos, Rio, 1991 e 1995. "Prêmio Stanislaw Ponte Preta", Crônica, RioArte, 1992 e 1994. "Além do Cânone - Vozes Femininas Cariocas Estreantes na Poesia dos Amos 90", org. Helena Parente Cunha, Ed. Tempo Brasileiro, 2004. "Contos do Rio", Prosa e Verso de O Globo, Ed. Bom Tempo, 2005; "Poesia Sempre", nº 24, cap. Poesia Inédita, Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 2006. Participa da Saciedade dos Poetas Vivos Digital - vol. 6.



D de dó

Beatriz Chacon

Ainda vivem
essas casas de varandinha
avencas e teias dependuradas
cadeira de balanço ainda
e vaso de florir a renda
ainda engomada
na mesinha de cedro
de sobreviver.
Essas casas de vestido franzido
de chita
suspiram de janela fechada
o tempo ido
a família do álbum
o Natal de dentro
o medo além-muro
de raízes e heras.
Só de fora
o amarelo de sorrir
da varandinha de viver
de teimosia.
Eu tenho dó
dessas casas de poesia acanhada
de só se abrir
porta da frente
em noite de Ano de novo
algum dia de aniversário
e despedidas de
moradores da casa


Plena nudez

Eu e meu útero
somente agora
maduro
pleno
um corpo só nosso.
Pêra madura sou eu
dentro dele
ele contorno fêmeo
de mim.
Depois que toda minha mãe
secou
e meu filho
criou mundo
desnudamos nossos floridos.
Em bolsas de mágoas vermelhas
se foram tabelas e partos
cordões agridoces
repartidos.
Enfim estação de sumos
orgia de polpas e bênçãos
intimidades.
Enfim sós,
eu e meu útero
um só corpo nu
pêra mordida no cio
desfrutando outros nus
indecência sagrada.

(CHACON, Beatriz Escórcio. Veios do Corpo.
Rio de Janeiro: Editoração, 2000)







Beatriz e antilira


Marco Lucchesi


Acabo de ler Veios do corpo. Tenho a impressão de uma coda de Mesa Posta. Mais denso e claro. Mais leve e afiado. Versos breves. Essenciais. O mais no menos. E, no entanto, o rumor fundo segue como antes: o quotidiano e seus rastros. A infância. A Terra-Mãe. Um repertório de imagens, algo dissonantes, como na lição de Bandeira.
Quotidiano e saudade. Coisas reais e ilusórias.E muito das serestas. Cartola e Noel. O Centro e o subúrbio. E Piratininga, majestosa, a compor sua paisagem lírica. Lembro-me de Homero homem e de Ângelo Longo, que admiravam a alma fluminense, a alma das ruas de Mesa Posta. Ruas de uma geografia toda sua. E essa busca de identidade, essa carta de achamento, essa biografia lírica, essa autobiologia, que demarcam tanta inquietação. Forma-corpo-desejo. Sem tais elementos, sua expressão deixava de existir. A vida e seus desafios. O mundo e sua afirmação. O feminino e sua promessa. Tudo isso, a emergir de seu quotidiano. Feridas abertas. Coração generoso. Agridoce Esperança. Beatriz sorri. E o melhor de Veios habita essa contradição. Uma trama que inesperadamente se destrama. Penso em Aos meus cuidados, Seio farto, Estragos, Mapa-mundi. Uma antiBeatriz que tudo subverte. Ou quase: Uma contramusa de letra e de carne, delicada e rude. E surpreendo na leveza de Veios uma lactência, um drama que sorri de si mesmo, nos textos mais fortes. Beatriz sorri do Paraíso. Olha para o Beco. Pasárgada. Ciméria.


 
 






domingo, 12 de junho de 2011

O canto indelével de Branca Eloysa

Assombração
Branca Eloysa


É o mesmo jardim – um tanto encolhido.
É o mesmo coreto – um tanto encardido.
Um ar de esclerose, esquecido
das marionetes, das retretas, de nós,
crianças de outrora.
Sob o luar, sinto medo.
Virou esqueleto, o velho coreto.


(ELOYSA, Branca. Assombração. In: Água escondida – poesia.
Org. Neide Barros Rego. Niterói: CBAG, 1994. p.54)



Biografia:
Branca Eloysa de Campos Góes Pedreira Ferreira nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ) em 8 de junho de 1935. Cursou o clássico e, ao longo do tempo, inúmeros cursos livres, particularmente os ligados à área dos direitos humanos, com destaque para Vazio dos Códigos, Vida dos Direitos – Interpretação Jurídica e Globalização, ministrado pelo Instituto dos Advogados do Brasil. Estudou na Aliança Francesa. Tem artigos publicados em jornais e revistas das cidades fluminenses de Niterói e Rio de Janeiro. A partir de depoimentos gravados em fitas cassete, redigiu o texto do livro resultante do 1º Seminário do Grupo Tortura Nunca Mais, publicado pela editora Vozes em 1987, que aborda a repressão a opositores do regime militar instaurado no Brasil em 1964. Publicou os livros Rua Ana Barbosa, 45 – Meyer (1990), Resgate (1999) e Sem máscara (2005). Tem textos publicados nas antologias Água escondida (1994) e Páginas da infância (2000). Autora de Viajando para o Ontem, texto de encerramento do álbum comemorativo do centenário do Clube de Regatas Icaraí. Em 1993, foi homenageada pela Ordem dos Advogados do Brasil por sua atuação como escritora e ativista de direitos humanos Por seu desempenho na luta pela emancipação da mulher, o Movimento de Mulheres outorgou-lhe o título de Conselheira de Honra. Em 1997, ano em que comemorou quarenta e cinco anos de sua fundação, o Colégio Nossa Senhora da Assunção a incluiu entre os “protagonistas da história e da vida da cidade de Niterói”. Pelos serviços prestados à pessoa idosa, a Universidade Aberta da Terceira Idade (UNIVERTI) concedeu-lhe, em 1999, diploma de honra ao mérito. É detentora das medalhas Jubileu de Ouro da Academia Niteroiense de Letras, Tiradentes (concedida pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) e José Cândido de Carvalho (concedida pela Câmara de Vereadores de Niterói). Também pela Câmara de Vereadores de Niterói, foi agraciada com o título de Cidadã Niteroiense. Seu resumo biográfico consta do livro Mulheres em Niterói, publicado por Graça Porte em 2007. Além de pertencer à ANL, integra os quadros do Elos Clube de Niterói.