segunda-feira, 11 de julho de 2011

Um pedaço de “Alexandria” em Niterói: registro fotográfico da reinauguração da Biblioteca Pública de Niterói.

A intervenção, a bem dizer, se confunde com a atividade intelectual. Assim, os posicionamentos crítico, esclarecedor e contestatório são, mesmo, atividades daqueles que se assumiram para si a tarefa de vigilantes permanentes da ação do Estado ou de outras instituições com papel regulador quando estas ferem direitos civis. Contudo, para mostrar que a atuação intelectual é isenta, e apenas interessada na defesa dos referidos direitos, é possível (e até necessário) que os intelectuais usem suas vozes para também reconhecer os acertos do governo no cumprimento diligente de seu papel. Longe de ser propaganda ideológico-partidária e, menos ainda, mera generosidade, este reconhecimento se caracteriza como justiça. Ressaltar os acertos de uma gestão política, ainda mais quando esta, democraticamente, promove a cultura fomentando a educação e democratizando o acesso a fontes de saber aos cidadãos é dever do intelectual e o propósito da presente postagem.
O que, aqui, se registra são momentos de uma bela festa de cultura que teve por mote a reinauguração da Biblioteca Pública de Niterói no último dia 05 de julho. Esperada por longos dois anos e quatro meses, a festa de entrega do prédio criteriosamente reformado (segundo os padrões arquitetônicos e estéticos de época) contou com a presença de autoridades políticas, representantes das instituições culturais do estado do Rio de Janeiro, membros da comunidade e escolares. A cobertura fotográfica do evento é o que veremos a seguir:(*)

Convite da cerimônia de reinauguração enviado para alguns dos principais representantes
da vida cultural de Niterói


Fachada da Biblioteca Pública de Niterói momentos antes da cerimônia de entrega do prédio reformado (reinauguração)


Segunda vista da fachada da Biblioteca antes da reinauguração


Chegada de autoridades e personalidades de destaque convidadas para a inauguração:
(ao centro) o jornalista Sérgio Cabral, ao seu lado Paulo Rattes (ainda ao centro, diante de Sérgio Cabral), o Secretário de Assistência Social do estado Rodrigo Neves, além da Secretária de Cultura Adriana Rattes e da Diretora da Biblioteca Glória Blauth (ambas de costas).
No canto esquerdo, o convidado Sérgio Chacon.


Novo ângulo da cena descrita acima

Placa em bronze que registra a cessão do espaço da Biblioteca para o funcionamento da

Mesa composta por autoridades por ocasião da reinauguração da Biblioteca Pública de Niterói. São identificados, entre outros, (da esquerda para a direita), o Presidente da Imprensa Oficial do Rio de Janeiro, Haroldo Zager; a Superintendente da Leitura e do Conhecimento da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Vera Saboya;  o Reitor da Universidade Federal Fluminense, Roberto Salles, o Secretário Rodrigo Neves; O Prefeito de Niterói Jorge Roberto Silveira; a Secretária de Cultura Adriana Rattes, representando o Governador do estado, Sérgio Cabral Filho, André Diniz; a Diretora da Biblioteca Glória Blauth. De pé, o Presidente da Academia Fluminense de Letras -AFL, Edmo Rodrigues Lutterbach.


Vista da audiência e do auditório recém reformado


Novo ângulo da mesa diretora, Edmo Lutterbach discursa como
Presidente da Academia Fluminense de Letras


A Secretária de Cultura Adriana Rattes em pronunciamento oficial, na ocasião representava o Governador do estado, Sérgio Cabral Filho.


Visão de mesa por outro ângulo do auditório


Após a solenidade, o Presidente da Academia Fluminense de Letras - AFL,
recebe os cumprimentos do Prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira.


Adriana Rattes e Edmo Rodrigues Lutterbach após a solenidade de entrega da Biblioteca reformada


Em primeiro plano: o Secretário Rodrigo Neves, a Diretora Glória Blauth, a Secretária de Cultura Adriana Rattes e o Presidente da AFL Edmo Lutterbach.
Ao fundo, o Presidente da Imprensa Oficial Haroldo Zager.


O Vereador Jorge Issa, o Presidente Lutterbach e
o Presidente do Clube dos Advogados Reinaldo de Almeida


O Presidente da AFL Edmo Rodrigues Lutterbach com Carlos Silvestre Monaco,
diretor do Grupo Monaco de Cultura


Tendo os principais movimentos literários de Niterói se originado no círculo lítero-boêmio do chamado Café Paris,  esforços de resgate dessa identidade literária vêm sendo empreendidos desde o ano de 2008 - data em que se publicou a edição crítica de Vida Apertada, obra referencial do dito movimento e que permanecera esgotada por quase nove décadas - .
Sob a aleluia do editor Luiz Augusto Erthal, do Professor Roberto Kahlmeyer-Mertens e com aquiescimento da Superintendente da Leitura e do Conhecimento da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, Vera Saboya, a Biblioteca Pública de Niterói se reinaugura tendo o Café Paris como temática, como se pode ver:




Painel temático do Café Paris como decoração da Biblioteca Pública de Niterói.


Painel temático do Café Paris, parte da decoração da Biblioteca


Painel temático do Café Paris


O editor Luiz Augusto Erthal (Nitpress) dá início ao recital de poesias dos escritores do Café París (evento da programação da reinauguração) para o Prefeito Jorge Roberto Silveira


O Prefeito Jorge Roberto Silveira, os Secretários do Governo do Estado Adriana Rattes e Rodrigo Neves,
o Presidente da Academia Fluminense de Letras Edmo Lutterbach e a Diretora da Biblioteca Glória Blauth assistem ao recital com poesias do Café Paris, apresentado pelos poetas do grupo
Uma noite na taverna


Foi possível reviver as letras do Café Paris na interpretação
dos jovens expoentes do grupo Uma noite na taverna.
Na foto, da esquerda para a direita: Romulo Narducci, Janaína da Cunha (sentados), Pakkatto
e Rodrigo Santos (de pé, respectivamente)


Luiz Augusto Erthal, jornalista e editor da Nitpress, Roberto Kahlmeyer-Mertens, Rosemar Sônia Pereira, da ALRO e Reinaldo de Almeida do CAN-OAB


Vera Saboya conversa com Luiz Augusto Erthal.
De costas, Márcia Queiroz Erthal conversa com a poetisa Maria Helena Latini.


A Diretora da Biblioteca Pública Estadual de Niterói Glória Blauth (a quem, diga-se de passagem, devemos agredecer por toda dedicação e zelo despendidos no belo empreendimento que foi a restauração da Biblioteca) ao lado de um dos muitos terminais digitais de consulta disponíveis aos usuários (tradição e modernidade de mãos dadas). 


Os principais representante da cultura letrada de Niterói estiveram presentes no evento de reinauguração da Biblioteca Pública de Niterói, vejamos alguns deles.

Os acadêmicos Neide Barros Rêgo e Luís Antônio Pimentel
(Pimentel perto de completar 100 anos de idade)


A poetisa Maria Helena Latini, a psicóloga Gel Lima e a editora Márcia Queiroz Erthal 
 
Neide Barros Rêgo, Leda Mendes Jorge, Gracinha Rêgo

Carlos Monaco entre amigos

O ator Guti Fraga (mestre de cerimônias da festa) ao lado de Neide Barros Rego e Nicolau Costta


Adequada a diversos públicos e afim aos conceitos mais modernos de biblioteca (atendendo aos quesitos de informatização, acessibilidade e qualidade técnica de atendimento), a Biblioteca Pública de Niterói conta agora com um acervo renovado e com outros acervos antigos restaurados (ou em processo de restauro), espaços voltados à filosofia, à história fluminense, ao teatro e ao leitor infantojuvenil.


Check outs de consulta de acervo

Rampa de acesso para deficientes e elevador
 
 
 




A BPN e seu amplo espaço de estacionamento
 
Após este registro, que apresenta este pedaço de Alexandria entregue pelo Governo do Estado do Rio ao povo fluminense, aproveitamos para sugerir a Biblioteca (e a ampla área dela, que compreende a praça da República e os estacionamentos do entorno) como ponto catalizador de feiras e grandes eventos relativos à cultura letrada. Quem sabe a Prefeitura de Niterói não se anime a presentear também a comunidade da cidade com a terceira e tão ansiada edição do Salão de Leitura de Niterói?...
 



 
(*) Registra-se aqui um agradecimento cordial a Neide Barros Rêgo, Gracinha Rego e a Murilo Lima pelo gentil envio de fotografias para esta postagem.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

À procura do Lili Leitão teatrólogo.


Luiz Antônio Gondim Leitão (vulgo Lili Leitão) é integrante do movimento literário do Café Paris. Tal movimento, também conhecido como a Roda do Café Paris, é um tesouro cultural fluminense a ser redescoberto.

Num dos cafés da Cidade Sorriso (a, então capital do estado, Niterói), nas primeiras décadas do século XX, boêmios, profissionais liberais, artistas plásticos e jornalistas escreviam, despretensiosamente, uma página importantíssima de nossa história com as letras. Última trincheira das poesias conservadoras (na época em que a vanguarda modernista já se infiltrava nos meios literários), a turma do Paris reunia, além de Lili Leitão, nomes como: Max Vasconcelos, Gomes Filho, Sylvio Figueiredo, Nestor Tangerini, Kleber de Sá Carvalho, Brasil dos Reis e Trina Fox (também os esporádicos e imiscíveis Alberto de Oliveira, Luiz Pistarini e Gutman Bicho).
Embora fosse catedral da poesia dita rigorosa, na qual românticos e parnasianos celebravam missa, foi justamente no Café Paris, com Lili Leitão, que brotou um estilo de poesia de intuição moderna: poesia satírica que bem poderia ser associada a que Juó Bananère (pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado) já produzia em São Paulo, e que Furnandes Albaralhão (Horácio Mendes Campos) faria do outro lado da Baia de Guanabara. Assim, Lili Leitão se tornaria, ao mesmo tempo, a ovelha negra e o gênio da raça “parisiense”.
São conhecidos dois livros de Lili Leitão. O primeiro, Sonetos, datado de 1913 (e com relançamento agendado para a próxima Bienal do Rio de Janeiro – 2011 – pelo selo da editora Nitpress); o segundo, Vida apertada: Sonetos humorísticos, de 1926 (publicado em uma segunda edição crítica pela mesma Nitpress, em 2009). Atribui-se ainda um terceiro título ao autor, trata-se do controverso Comidas bravas, obra com poesias fesceninas que, segundo o poeta Luís Antônio Pimentel, seria de data intermediária aos dois outros (estima-se 1923). Este livro constitui uma “lenda urbana”, estando extraviado desde aquela época.

Embora Lili tenha se destacado como poeta, sabe-se que o maior êxito de sua carreira foi o teatro de revista. O próprio autor reconheceria isso no poema “Eu”, quase uma epígrafe de seu Vida apertada, quando nele Lili declara: “Sou poeta, burocrata e revisteiro” (p. 57. Grifo do autor). É verdade, a maioria de sua obra está no teatro. Assim, entre 1913 e 1926 (quer dizer, entre Sonetos e Vida apertada) foram encenadas, com relativo sucesso de público, peças como: Tudo na rua (1914), Então não sei (1915), Pra cima de moi (1916), Logo cedo (1917), Das duas uma, Eu aqui e ela lá e O espora (todas de 1918), Bancando o trouxa, Demi-garçonne (ambas de 1921), A ceia dos presidentes (1924) e O rendez-vous amarelo (1930).
O resgate da literatura de Lili Leitão (e de parte da Roda do Café Paris) carece de uma busca dos textos dessas peças de teatro apenas conhecidas por seus títulos e por anúncios em recortes de jornais de época (como O Fluminense). Fazer ressurgir esta memória é algo que depende de trabalhos como os que vêm sendo elaborados, pacientemente, pelo historiador Emmanuel Bragança de Macedo Soares.
Contudo, ante a absoluta carência de elementos para investigação da obra, solicitamos a todos aqueles que saibam de algum material inédito sobre o teatro de Lili Leitão, bem como da poesia do mesmo autor, que nos notifiquem urgentemente. Caberia, mesmo, uma campanha de busca aos originais das peças de Luiz Leitão. Pedimos, assim, que este apelo seja multiplicado em blogs e sites tornando visível o esforço, quase arqueológico, de retirar o Lili teatrólogo das brumas.

Uma prova do esforço de resgate do teatro de Lili Leitão é dado aqui, no texto inédito, gentil e exclusivamente cedido por Emmanuel Macedo Soares ao Literatura-Vivência:

“Deixando o Cine Teatro Eden, a companhia de Álvaro Diniz inicia a 24 de novembro de 1924 uma vitoriosa temporada no Cinema Coliseu, encerrada intempestivamente a 13 de janeiro do ano seguinte, quando a casa resolve desmanchar o palco para se dedicar apenas à exibição de filmes. A estréia foi fria, com a revista Paris no Rio, de Alfredo Breda, seguindo-se a burleta carnavalesca A flor do tinhorão, de Armando Braga, que também não empolgou, já que o carnaval ainda estava muito longe. Álvaro lembrou do sucesso da revista política O pé de Anjo, de Cardoso de Menezes e Carlos Bittencourt, mas também não deu certo: Pé de anjo era apelido do presidente da República, Artur Bernardes, que há dois anos governava o país sob o chicote do estado de sítio. Trouxe o menino prodígio Petit Encanto, e o público não deu sinais de vida. Todo mundo já vira o garoto, de 8 anos, cuja versatilidade no palco fez efêmera fama nas casas cariocas. O empresário apela para o bairrismo e encena a revista local Não tem importância, de João Carvalhais e Benedito Montes, minhocas da terra. Aí, sim, o teatro começa a lotar. E superlotou a 29 novembro, quando Álvaro descobriu seu veio de ouro, levando à cena a revista Prá cima de muá, de Lili Leitão. Entusiasmado, encomenda outra peça do gênero ao incomparável revisteiro niteroiense. E ele não se faz de rogado, entregando em poucos dias os originais de Niterói em cuecas, que ficou em cartaz desde 17 de dezembro até o melancólico encerramento da temporada. Os cenários de Amadeu Vieira reproduziam vários pontos da cidade, especialmente a Praia de Icaraí, cuja vista ocupava o palco de lado a lado. O grande número de quadros levou o empresário a contratar novos artistas, entre eles Rosália Pombo, Abel Dourado, Júlia Ribeiro, Clotilde Hor Dorgy e Célia Zenatti. Para interpretar os números musicais trouxe um jovem cantor que começava a se destacar nos palcos e paradas carnavalescas, chamado Francisco Alves. Era ainda o Chico Viola das rodas do Estácio e revistas da praça Tiradentes, muito longe de se tornar O Rei da Voz de 1952, quando tragicamente faleceu. Célia Zenatti, companheira no elenco, seria também sua companheira de vida, e por toda a vida.”

(SOARES, Emmanuel de Macedo.
Notas para uma história do teatro em Niterói. Niterói: No prelo)


Vídeo do relançamento de Vida apertada,
na Câmara Municipal de Niterói
(parte I)
 
 
Para saber mais, confira outras fontes de blogs e sites parceiros:












sábado, 2 de julho de 2011

“No dia em que chover cangalhas em Niterói, temo por muito dos intitulados ‘poetas’ desta cidade!”


Ouvi a frase acima, certa feita, de um amigo arguto, militante do movimento literário de Niterói (se ele desejar se apresentar, certamente se manifestará com um comentário a esta postagem). Tal provocação, entretanto, parece não pretender ser uma agressão aos das Letras. A frase só soa ofensa para aqueles que, vaidosamente, almejam a alcunha de poeta, sem merecê-la. Para os autênticos poetas (e para os apreciadores despretensiosos da boa poesia) a frase talvez soe até divertida e espirituosa. Penso que poderíamos tê-la ouvido da boca do genial Agripino Grieco ou de outros espíritos lúcidos como Afrânio Coutinho.
Ora, considerando que a poesia é uma das coisas mais difíceis que o homem poderia fazer (a ponto de Hegel, o filósofo alemão, em sua Estética, elegê-la como a arte mais excelente, justamente por não possuir materialidade, sendo, pois, ideia pura). Creio, mesmo, que poucos sejam merecedores da alcunha de poeta em nossa cidade... Pois, afinal, o que mais se vê são poetas ingênuos escrevendo pieguices; homenzinhos entediados fazendo versinhos pueris que falam de boninas e malmequeres e, o pior de tudo, oportunistas (candidatos a políticos) que publicam excrescências rimadas em brochuras feitas sob encomenda para ganhar popularidade em datas como o Dia Internacional das Mulheres, o Dia dos Namorados ou o Dia das Mães...
E o que diria, sobre isso, um John Keats (que passava seus dias, junto ao seu fiel escudeiro Charles A. Brown) debruçado nas obras de Homero, Virgílio e Milton tentando “aprender” poesia? Talvez não dissesse nada! Ou talvez dissesse, fazendo coro com mestre Paulo Rónai: “ − Não se atira em fantasmas com tão poderosos canhões”... Enfim...
Alguns poderiam me perguntar, provocadoramente: quem seriam, então, esses autênticos e poucos poetas de Niterói? Uma resposta a esta pergunta seria evasiva e, quiçá, abusada: − Alguns já apareceram neste Blog, outros ainda aparecerão... −. Ora, se a resposta é evasiva e abusada, não devemos dar margem a fazer com que a ambiguidade macule nomes respeitáveis de autores com poesias irretocáveis. Minha homenagem hoje, portanto, é para um desses impolutos nomes: Beatriz Chacon.




Beatriz Escorcio Chacon, carioca da Piedade, vive em Itaipu, Niterói, onde começou a mostrar poemas pra colocar na parede, com desenhos de Miguel Coelho, em 1987. Jornalista pela UFF, é autora dos livros de poemas "Mesa Posta" e "Veios do Corpo", e do infantil "Surpresa de Quintal". Aposentada, avó, aparentemente dona vadia de casa, faz performances poéticas, eventos de arte, prepara novo livro – uma novela de vozes femininas. Orienta a Oficina Literária da Universidade 3ª Idade e participa da Associação Niteroiense de Escritores. Entre as Coletâneas – Prêmios, Crítica, participação: "I Concurso Jornal Balcão de Poesias", Rio, 1988. "Saciedade dos Poetas Vivos", Ed. Blocos, Rio, 1991 e 1995. "Prêmio Stanislaw Ponte Preta", Crônica, RioArte, 1992 e 1994. "Além do Cânone - Vozes Femininas Cariocas Estreantes na Poesia dos Amos 90", org. Helena Parente Cunha, Ed. Tempo Brasileiro, 2004. "Contos do Rio", Prosa e Verso de O Globo, Ed. Bom Tempo, 2005; "Poesia Sempre", nº 24, cap. Poesia Inédita, Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 2006. Participa da Saciedade dos Poetas Vivos Digital - vol. 6.



D de dó

Beatriz Chacon

Ainda vivem
essas casas de varandinha
avencas e teias dependuradas
cadeira de balanço ainda
e vaso de florir a renda
ainda engomada
na mesinha de cedro
de sobreviver.
Essas casas de vestido franzido
de chita
suspiram de janela fechada
o tempo ido
a família do álbum
o Natal de dentro
o medo além-muro
de raízes e heras.
Só de fora
o amarelo de sorrir
da varandinha de viver
de teimosia.
Eu tenho dó
dessas casas de poesia acanhada
de só se abrir
porta da frente
em noite de Ano de novo
algum dia de aniversário
e despedidas de
moradores da casa


Plena nudez

Eu e meu útero
somente agora
maduro
pleno
um corpo só nosso.
Pêra madura sou eu
dentro dele
ele contorno fêmeo
de mim.
Depois que toda minha mãe
secou
e meu filho
criou mundo
desnudamos nossos floridos.
Em bolsas de mágoas vermelhas
se foram tabelas e partos
cordões agridoces
repartidos.
Enfim estação de sumos
orgia de polpas e bênçãos
intimidades.
Enfim sós,
eu e meu útero
um só corpo nu
pêra mordida no cio
desfrutando outros nus
indecência sagrada.

(CHACON, Beatriz Escórcio. Veios do Corpo.
Rio de Janeiro: Editoração, 2000)







Beatriz e antilira


Marco Lucchesi


Acabo de ler Veios do corpo. Tenho a impressão de uma coda de Mesa Posta. Mais denso e claro. Mais leve e afiado. Versos breves. Essenciais. O mais no menos. E, no entanto, o rumor fundo segue como antes: o quotidiano e seus rastros. A infância. A Terra-Mãe. Um repertório de imagens, algo dissonantes, como na lição de Bandeira.
Quotidiano e saudade. Coisas reais e ilusórias.E muito das serestas. Cartola e Noel. O Centro e o subúrbio. E Piratininga, majestosa, a compor sua paisagem lírica. Lembro-me de Homero homem e de Ângelo Longo, que admiravam a alma fluminense, a alma das ruas de Mesa Posta. Ruas de uma geografia toda sua. E essa busca de identidade, essa carta de achamento, essa biografia lírica, essa autobiologia, que demarcam tanta inquietação. Forma-corpo-desejo. Sem tais elementos, sua expressão deixava de existir. A vida e seus desafios. O mundo e sua afirmação. O feminino e sua promessa. Tudo isso, a emergir de seu quotidiano. Feridas abertas. Coração generoso. Agridoce Esperança. Beatriz sorri. E o melhor de Veios habita essa contradição. Uma trama que inesperadamente se destrama. Penso em Aos meus cuidados, Seio farto, Estragos, Mapa-mundi. Uma antiBeatriz que tudo subverte. Ou quase: Uma contramusa de letra e de carne, delicada e rude. E surpreendo na leveza de Veios uma lactência, um drama que sorri de si mesmo, nos textos mais fortes. Beatriz sorri do Paraíso. Olha para o Beco. Pasárgada. Ciméria.


 
 






domingo, 12 de junho de 2011

O canto indelével de Branca Eloysa

Assombração
Branca Eloysa


É o mesmo jardim – um tanto encolhido.
É o mesmo coreto – um tanto encardido.
Um ar de esclerose, esquecido
das marionetes, das retretas, de nós,
crianças de outrora.
Sob o luar, sinto medo.
Virou esqueleto, o velho coreto.


(ELOYSA, Branca. Assombração. In: Água escondida – poesia.
Org. Neide Barros Rego. Niterói: CBAG, 1994. p.54)



Biografia:
Branca Eloysa de Campos Góes Pedreira Ferreira nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ) em 8 de junho de 1935. Cursou o clássico e, ao longo do tempo, inúmeros cursos livres, particularmente os ligados à área dos direitos humanos, com destaque para Vazio dos Códigos, Vida dos Direitos – Interpretação Jurídica e Globalização, ministrado pelo Instituto dos Advogados do Brasil. Estudou na Aliança Francesa. Tem artigos publicados em jornais e revistas das cidades fluminenses de Niterói e Rio de Janeiro. A partir de depoimentos gravados em fitas cassete, redigiu o texto do livro resultante do 1º Seminário do Grupo Tortura Nunca Mais, publicado pela editora Vozes em 1987, que aborda a repressão a opositores do regime militar instaurado no Brasil em 1964. Publicou os livros Rua Ana Barbosa, 45 – Meyer (1990), Resgate (1999) e Sem máscara (2005). Tem textos publicados nas antologias Água escondida (1994) e Páginas da infância (2000). Autora de Viajando para o Ontem, texto de encerramento do álbum comemorativo do centenário do Clube de Regatas Icaraí. Em 1993, foi homenageada pela Ordem dos Advogados do Brasil por sua atuação como escritora e ativista de direitos humanos Por seu desempenho na luta pela emancipação da mulher, o Movimento de Mulheres outorgou-lhe o título de Conselheira de Honra. Em 1997, ano em que comemorou quarenta e cinco anos de sua fundação, o Colégio Nossa Senhora da Assunção a incluiu entre os “protagonistas da história e da vida da cidade de Niterói”. Pelos serviços prestados à pessoa idosa, a Universidade Aberta da Terceira Idade (UNIVERTI) concedeu-lhe, em 1999, diploma de honra ao mérito. É detentora das medalhas Jubileu de Ouro da Academia Niteroiense de Letras, Tiradentes (concedida pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) e José Cândido de Carvalho (concedida pela Câmara de Vereadores de Niterói). Também pela Câmara de Vereadores de Niterói, foi agraciada com o título de Cidadã Niteroiense. Seu resumo biográfico consta do livro Mulheres em Niterói, publicado por Graça Porte em 2007. Além de pertencer à ANL, integra os quadros do Elos Clube de Niterói.








terça-feira, 7 de junho de 2011

O encontro de Euclydes com a “Taverna”



Imaginem o literato Euclydes da Cunha, sentado a uma mesa de bar com uma caneca diante de si... Imaginem mais: o mesmo Euclydes brindando – efusivo – em uma festa de poesia preparada por jovens que vêm se destacando por seu talento, criatividade, bom gosto e despojamento. Para alguns cultores da obra euclidiana, a cogitação desta imagem seria uma heresia. Aos poetas marginais, entretanto, é este Euclides (com ‘i’ fica mais simpático) que interessa.

Antes, contudo, de alguém se indignar com a aplicação do termo “marginal” (usado acima para designar o grupo de poesia Noite na taverna), faz-se necessário dizer que ser “marginal”, aqui, é uma dádiva! É estar à margem da poesia empedernida e de certos grêmios que só a burocratizam ainda mais; é estar no centro da palavra vivida e das experiências estéticas “quentes”; é possuir a liberdade e ousadia necessárias para corroer conformidades e operar as transformações que a arte da palavra precisa para voltara a ser boa e bela. Ser marginal, então, é rezar pela cartilha de goliardos como: Leminski, Cacaso, Chacal, Glauco Matoso... (Amém, para todos!).
No dia 10 de junho próximo, o grupo Noite na taverna homenageará a poesia de Euclides da Cunha. Nesta ocasião, os Tavernistas Rodrigo Santos, Romulo Narducci e Pakkatto, explorarão a face menos conhecida do autor de Os Sertões, a saber: sua obra poética! (sic). Imortalizado por sua prosa, o grande público ignora que o escritor era também um exímio sonetista!
Na festa que a “turma da taverna” prepara para Euclides, ainda haverá a participação dos poetas Eduardo H. Martins, Rod Britto e Alessandra Moraes dos Santos. A música ficará a cargo de Tuca Marques, compositor e cantor. O evento ainda terá no local a exposição de artes plásticas de Luiz Hazediaz.


Coroando a festa, teremos, ainda, o lançamento do livro Entrega – A essência de uma mulher (Nitpress), de Janaína da Cunha, bisneta de Euclides (mas não se impressionem com esse epíteto, seu parentesco com gênio fluminense é apenas a menor parcela de brilho que esta jovem poetisa possui).

Um abraço aos Tavernistas, sucesso ao livro de Janaína e um trago ao Euclides da Cunha revisitado!

Data: 10 de junho, 19h.
Local: SESC São Gonçalo, Av. Presidente Kennedy, nº 755, Estrela do Norte, São Gonçalo, RJ.
Tel: (21) 2712-2623.
Entrada franca



sábado, 4 de junho de 2011

Belvedere Bruno, escritora revelação nas letras de Niterói

Desta vez, sem palavras introdutórias. Passemos rápido à prosa de Belvedere Bruno. Ela fala por si só:



A medida dos dias,

Belvedere Bruno

Eram dias pesados aqueles. Rabiscar palavras, cortar frases, substituir adjetivos. Fechasse eu os olhos subitamente, para sempre, algo mudaria? Para onde fui, onde escondi meu eu, em que abismos mergulhei , para cair nesse ostracismo?
O telefone toca. Há uma espécie de mimetismo rondando os meus dias - telemarketing, sirenes, buzinas, tragédias anunciadas. Nada de novo. Sequer um cântico que me desperte. É como se, aos poucos, sem querer, me enquadrasse nesse mundinho abjeto, cujo roteiro não permite mudança, mínima que seja. Adapto-me de forma que já não tenho personalidade. Faço parte de cada objeto, situação, e sigo as regras.
Há, aqui, um espelho lateral que me permite observar as inúmeras mudanças ocorridas em meu corpo, à medida que, inconscientemente, fui me desvencilhando de meu eu. Vampirismo ou coisa similar? Sinto vontade de reagir, quebrando-o, mas dizem que quebrar espelho é igual a sete anos de azar. Além disso, ele não mente. Paciência, porém me intriga pensar que esse ser amorfo seja eu.
Bebo um gole de água. Minha boca está seca, tal qual a minha alma. Entrego-me passivamente, quem sabe, por medida de segurança? Levanto-me e, através da janela, vejo o corre-corre das crianças no parquinho, a movimentação do dia a dia, mas tudo isso faz parte do mais antigo dos cenários.
Nada tenho a anunciar. Desconecto-me. Fecho as cortinas e, imersa na escuridão de meu quarto, penso em como essa vida é sem sentido
 
 
Belvedere Bruno nasceu em Niterói/RJ, onde reside. Cedo despertou para as letras, graças ao incentivo do pai, que sempre presenteou os filhos com livros. Atualmente, dedica-se às prosas, gênero onde mais se identifica. Tem várias antologias publicadas, como diVersos - Scortecci, @teneu.poesi@ - Scortecci, Com licença da palavra - Scortecci, O Conto Brasileiro hoje - Volumes VIII, Volume X e Volume XII - RG Editores. Tem publicações em diversos jornais da cidade, assim como em outros estados, e mesmo no exterior. Vinho Branco, safra especial de contos e crônicas, seu voo solo, será lançado em maiode 2010.



Belvedere Bruno: Um debut literário regado a Vinho branco


Roberto S. Kahlmeyer-Mertens

A mesa foi posta com ansiosa antecedência, a luz baixa das velas e as rosas vermelhas dão um toque de classe ao ambiente e favorecem a proximidade. A garrafa escolhida a dedo já foi para o balde com gelo, mas a atmosfera só se instaurará depois de um brinde. Quem levanta a taça desta vez é Belvedere Bruno, escritora que com Vinho branco, safra especial de contos e crônicas (Livro pronto, 2010) estreia em nossa cena literária.
A obra – cuja principal virtude é a heterogeneidade – traz contos e crônicas em uma disposição artesanal de temas que compõe um cenário repleto de graça (de modo a lembrar copos de cristal com decoração variada numa mesma bandeja). A simplicidade, que faz do livro um trabalho muito verdadeiro e sincero, não prescindiu ali da ousadia. Nossa novel-escritora abre o livro de uma maneira inusitada, causando um impacto estético que precisa ser conferido, mas, sobre isso, a única pista que daremos é a indicação de que a autora sabe que certa dose de suspense (à Poe) bem pode amplificar o deleite da leitura por vir.
Um alerta: não se deixem seduzir pelos títulos, muitos deles são pistas falsas, e onde se espera “Uma mulher, infinitas escolhas”, será possível encontrar a crueza do confronto entre a fealdade humana e a esperança que a vida teima em cultivar; quem vai à procura da prosa intimista e sensualista prometida em “Beleza e sedução” e “Vinho branco” (que nomeia e justifica o título do livro) talvez se depare com uma reflexão existencial, mais sentida do que teorizada; por outro lado, quem julga dever evitar uma crônica com o título embaraçante de “A bengala”, pode estar perdendo a singela ficção que retrata o cotidiano de mãe e filha. No mais, afetos tempestuosos se ocultam por trás de títulos como “O homem e as flores” e “Metamorfose”. Deste último, registremos aqui uma pequena prévia (uma isca, se assim quiserem): “Aquele silêncio, só quebrado em situações especiais, trazia, enfim, a convicção de que se relacionava com um monólogo. Sabia sobre a existência de silêncios enriquecedores, com mais significados que palavras, porém não era o caso. Procurara avidamente motivações que a convencessem a continuar protagonista naquele enredo”. Apesar das indiscrições feitas aqui, por mim, as 119 páginas de prosa que integram o livro ainda constituem inesgotável reserva de surpresas ao leitor.
É uma festa o livro que a autora nos preparou. Nele há o espaço para o flerte sutil com a linguagem, e experiências estéticas que espocam de cada página como fogos de artifício em um parque!
Influências?! Só de longe... em traços não muito nítidos: Artur da Távola ou seria Fernando Sabino? Dalton Trevisan?... Difícil precisar. Há ali um estilo próprio em formação que deverá se consolidar nas próximas obras que certamente virão.
Belles Lettres, Belvedere! – No sorriso franco de seu livro, mais que um convite, uma promessa literária.



sábado, 28 de maio de 2011

“Exploremos o petróleo, já basta de exploração" : a literatura engajada de Luís Antônio Pimentel

Com a recente descoberta das reservas petrolíferas do pré-sal em nossa costa, os olhos de todas as empresas multinacionais exploradoras de petróleo estão voltados para o Brasil. Tal fato faz com que nos preocupemos com a boa utilização desta fonte de energia responsável, em muito, pelo crescimento econômico de nosso país.
A preocupação com esta fonte de riqueza – entretanto – não é recente. Muito pelo contrário, data da década de 1940 quando uma série de conferências sobre que destinação dar ao petróleo brasileiro deflagrou um movimento contrário a abertura do mercado petrolífero ao capital estrangeiro e em favor do monopólio estatal. “O Petróleo é nosso” surgiu, assim, como um dos movimentos de opinião pública mais vigorosos da história política brasileira, tornando-se conhecido de todos os brasileiros. O movimento que envolvia algumas das melhores cabeças pensantes do país (Monteiro Lobato, Apparício Torelli, Juarez Távora, Fernando Lobo Carneiro...) também contou com o apoio do poeta e jornalista fluminense Luís Antônio Pimentel.
O que vemos nesta postagem é o texto que Pimentel escreveu unindo forças ao projeto do Estatuto do Petróleo, cuja ideia fora lançada em 21 de abril de 1948. Nesta balada, escrita em 1948, Pimentel defende que, se for para entregar as reservas petrolíferas ao capital estrangeiro, é melhor que se o mantenha no chão. Tese que não é de todo improcedente mesmo nos dias atuais.

Temos aqui o texto integral de Balada do Petróleo, estabelecido com notas dos nomes e fatos datados (explicações estas fornecidas sob consulta ao próprio Luís Antônio Pimentel e a Manoel Casimiro Lopes - Manekolopp,  outro veterano na luta em defesa do petróleo brasileiro). Além do texto anotado, há também o vídeo no qual Pimentel recita a Balada do petróleo (gravação feita por iniciativa de Paulo Roberto Cecchetti).

(Luís Antônio Pimentel na caricatura de Ildo Nascimento)
                                                                                                                                   http://www.ildonascimento.com/



Balada do Petróleo

Luís Antônio Pimentel

Consumam nossas divisas,
comprem passas sem caroço
pentes-finos de ariano
pra cabelo de mulatos,
laranjas da Califórnia,
sal fino bretão, em vidro,
palitos de Portugal,
comprem figos, “petit-pois”,
comprem feijoada em lata,
cabides de massa plástica,
pra pendurar nossa tanga;
gastem ouro em profusão.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Acelerem Areal, (1)
marquem passo em Macabu,(2)
para que ter luz elétrica
onde existe lampião?
Entreguem de uma só vez
a nossa indústria de vidro
e a de motor de avião.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Generais Horta Barbosa,
José Pessoa e Estillac,(3)
generais Pedro de Pinho
e Cordeiro de Farias
militares patriotas,
mostrem às Forças Armadas
que defendem a nação
que o nosso fim será triste
caso haja indecisão.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Meus companheiros do povo,
soldados e marinheiros,
senhores de anel no dedo
e homens de pé no chão,
vão ouvir Mattos Pimenta,
Rafael, Osório Borba,(4)
Fernando Lobo Carneiro (5)
ou o Carnaúba e o Barão.(6)
Vão ouvir os jornalistas
que não traem a profissão,
e escrevam pelas paredes
a piche, tinta ou carvão:
“exploremos o petróleo,
já basta de exploração!”.
Não entreguem o petróleo
deixem-no ficar no chão!
Emprestem dinheiro à Light
pra desservir a nação,
façam senador Filinto (7)
da Rua da Relação,(8)
e convidem o Plinoca (9)
pra deitar falação,
peçam logo ao Chico Campos (10)
nova constituição,
entreguem rotas aéreas,
bases e navegação.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Companheiro revoltado,
em sinal de desacato,
reze uma prece a Lobato,(11)
passe a mão no violão
e faça um samba sentido;
como o laurindo da FEB (12)
cante cheio de emoção:
“façam guerra se quiserem,
que eu seguirei no escalão”.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Mandem cunhar moedas de ouro,
liquidem nosso alumínio
quando ainda em embrião,
rompam com os Soviets
e, aproveitem, chamem Pina (13)
para tomar um pifão;
contestem que Salazar
é Franco em segunda mão.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Paguem aos moços da SAB,(14)
com o dinheiro do povo,
pra fomentar confusão,
fechem sedes de partidos,
cassem todos os mandatos
(de Barreto Pinto, não!).(15)
Cometam desatinos,
a hora é a da reação,
torpedeiem Ademar, (16)
façam mesmo intervenção.
Não entreguem o petróleo,
deixem-no ficar no chão!


Façamos com o petróleo
o que foi feito com o carvão.
Cerremos todos fileira
pra que não o entreguem, não,
pois a Pátria Brasileira,
ante a atitude estrangeira,
quer seu petróleo em seu chão!

(PIMENTEL, Luís Antônio. Balada do Petróleo.
In: Jornal de Debates. Dir. Mattos Pimenta. 20/11/1948. p.5)


Notas:


1. Usina hidrelétrica do rio Piabinha, no Município de Areal – RJ
2. Usina hidrelétrica do rio Macabu, no Município de Macaé – RJ, Pimentel critica, em 1948, a morosidade das obras iniciadas em 1931.
3. Pimentel convoca militares nacionalistas ligados ao Clube Militar de onde nasceu o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo, entidade civil que defendia o monopólio estatal do petróleo. A saber: General Júlio Caetano Horta Barbosa, Marechal José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, General Estilac Leal e Osvaldo Cordeiro de Farias.
4. O poeta nomeia jornalista da época engajados com a campanha do petróleo, entre eles Mattos Pimenta, editor do Jornal de Debates e Osório Borba (cujo epíteto era “o homem que cuspia marimbondos” dado a sua virulência contra o governo Dutra, que pretendia abrir a exploração do petróleo ao capital estrangeiro).
5. Fernando Lobo Carneiro era engenheiro de cálculo da Escola de Engenharia e um dos defensores do petróleo brasileiro.
6. Deputados que defendiam a campanha “O petróleo é nosso” (um dos movimentos de opinião pública mais vigorosos da história política brasileira). O segundo é Apparício Torelli, mais conhecido como “Barão” de Itararé.
7. Filinto Müller, chefe da polícia política de Getúlio Vargas. Por sua truculência, Filinto Müller ostenta o título de “Patrono dos torturadores brasileiros”.
8. Rua na qual ficava situada o presídio destinado aos presos políticos no período do Estado Novo.
9. Apelido irônico dado a Plínio Salgado, líder do Movimento Integralista Brasileiro. Conta-se que este político, embora não possuísse dotes de oratória (como voz e presença física), era afeito a fazer falas públicas longas e geralmente enfadonhas.
10. Francisco Luís da Silva Campos redator da Constituição Federal de 1937 (Conhecida como “Polaca”) que em muito serviu aos interesses do governo de Getúlio Vargas.
11. O pedido de prece se justifica pois, após sua morte em 4 de julho de 1948 (meses antes da publicação desta balada), Lobato se torna uma espécie de “santo padroeiro” do movimento em defesa do petróleo).
12. Em depoimento oral, o próprio poeta Luís Antônio Pimentel noticia que a referência a “Laurindo da FEB” tanto se refere ao personagem fictício da música “Cabo Laurindo”, quanto da música “Laurindo” ambas de sucesso entre os anos de 1946-48 (leia as letras e ouça os dois sambas nos respectivos links desta nota).
13. Pina (cujo nome completo não conseguimos averiguar) foi um político brasileiro alcoólatra que, sob efeito do álcool, fez uma série de considerações depreciativas ao modelo soviético, episódio que teve repercussão internacional.
14. Deputado Federal Eduardo Barreto Pinto, cassado 1946 por ter se deixado fotografar pela revista O Cruzeiro trajando a parte de cima do fraque e cuecas (confira a referida foto no link).
15. SAB – Sociedade de Amigos do Brasil. Na época instituição ligada ao movimento integralista.
16. Ademar Pereira de Barros, político paulista de grande influência entre as décadas de 1930-1960. Ex-governador de São Paulo.



Balada do Petróleo
na voz de Luís Antônio Pimentel
(março de 2011)